Este livro foi scaneado por Airton Simille Marques e corrigido por Mrian Tavares para uso exclusivo de deficientes visuais.
Este trabalho  oferecido gratuitamente e se for encontrado em pginas abertas de internet ser por mim denunciado a editora que tomar todas as providncias judiciais
de acordo com a lei brasileira dos direitos autorais.

  O arquiplago Volume (II)

  rico Verssimo

  O tempo e o vento 3
 O arquiplago (II)


  BIBLIOTECA PBLICA DO PARAN
 NO DANIFIQUE ESTA ETIQUETA
  30 254 799

  CRCULO DO LIVRO
  CIRCULO DO LIVRO LTDA.
  Caixa postal 7413
  01065-970 So Paulo, Brasil

  Edio integral

  Copyright (c) 1961 Mafalda Volpe Verssimo, Clarissa
  Verssimo Jaffe e Luis Fernando Verssimo

  Capa: Ana Suely Dobon

  Licena editorial para o Crculo do Livro por cortesia da Editora Globo
S.A. mediante acordo com os herdeiros
  Venda permitida apenas aos scios do Crculo
  Composio: Crculo do Livro Impresso e acabamento: Grfica Crculo
  ISBN 85-332-0790-5

  Sumrio
    Reunio de famlia - IV 7
    Caderno de pauta simples 75
     O cavalo e o obelisco 85
    Reunio de famlia - V 195
    Caderno de pauta simples 255
    Noite de Ano-Bom 267
    Reunio de famlia - VI 373
     Caderno de pauta simples 405
     Do dirio de Slvia 421
    Encruzilhada 487
    O autor e sua obra 591

  Reunio de famlia - IV
  1 de dezembro de 1945
  Sete e meia da manh. Floriano barbeia-se diante do espelho do quarto de
banho, pensando em que dentro de alguns minutos ter de enfrentar a
famlia  mesa do caf.  medida que passam os dias, mais
constrangedores se vo tornando para ele esses encontros. A presena
fsica de Slvia causa-lhe uma perturbao cada vez mais difcil de
dissimular.
  Que fazer? - pergunta mentalmente  imagem que do espelho tambm o
contempla com ar indagador. - Que fazer?
  Os olhos ainda um tanto enevoados de sono, dois ou trs fios prateados
apontando entre os cabelos negros das tmporas, o tom de marfim dos
dentes, acentuado pelo contraste com a espuma branca que lhe cobre as
faces - Floriano sorri para a prpria imagem, tendo ao mesmo tempo
conscincia dum narcisismo que o desagrada, pois ele (ou o Outro?)
deseja mesmo acreditar que no , nunca foi vaidoso.
  Ali est um sujeito que o conhece melhor que ningum: o olho implacvel
que lhe vigia e critica pensamentos, gestos, palavras e at sentimentos.
Como seria bom poder livrar-se desse incmodo anjo da guarda, desse
capanga metafsico!
  A "ceremnia" matinal de fazer a barba foi sempre para Floriano a hora
de dialogar com seus fantasmas, fazer planos para a vida e para os
livros, ruminar emoes passadas, corrigindo s vezes o que aconteceu,
imaginando o que poderia ter feito e dito em determinadas ocasies, em
suma, passando a vida a limpo. Esta  tambm a hora em que costuma
projetar suas fantasias no futuro,
  dando s coisas que esto para vir o desenho mais conveniente a seus
desejos.
  Apanha o aparelho Gillette e comea a escanhoar uma das faces. Curioso:
no consegue dissociar este devaneio meio sonolento e voluptuoso das
suas masturbaes da  infncia, aqui neste mesmo quarto. No haver
acaso entre esses dois exerccios solitrios um certo parentesco, pelo
lado do "faz de conta"? E no sero ambos em  ltima anlise um
melanclico pecado contra a existncia autntica?
  Passa agora a lmina pelo pescoo. (No ptio da Intendncia degolavam-se
maragatos.) Degolar o Outro, liquidar o Anjo... No. O melhor ser
descobrir uma frmula  mgica para promover a fuso das duas partes de
seu Eu. Deixar de ser ao mesmo tempo sujeito e objeto: eis a questo.
Unificar-se... Avante, Garibaldi!
   sempre assim. Todas as suas auto-anlises acabam em farsa. Tempo houve
em que achava isso uma atitude estica diante da vida. Seria pelo menos
uma pardia de estoicismo...  Agora, porm, sabe que suas fugas pela
porta do humor nada mais so que a tentativa de pregar um rabo de papel
colorido nos seus problemas, pintar um bigode caricatural  na face
dramtica da vida, em suma, eliminar ou atenuar o carter ameaador de
tudo quanto - por misterioso, estranho, hostil ou insupervel - lhe
possa aumentar  a angstia de existir. Sim, no se levando a srio e no
levando a srio suas situaes, ele se exime da responsabilidade de
viver a srio. Mas, por outro lado,  o levar-se demasiadamente a srio
no oferecer riscos maiores? A incapacidade de duvidar, de rir dos
outros e de si mesmo no poder levar um homem  intolerncia  e ao
fanatismo?
  Por um instante Floriano fica atento aos rudos da casa e da manh.
Depois aproxima mais o rosto do espelho, para escanhoar o queixo. Se ele
se livrasse do Outro,  que vantagens teria na vida? Para principiar,
quando se deitasse com uma mulher (fosse ela quem fosse) iria inteiro
para a cama - carne, ossos, nervos, vsceras,  sangue - e no teria
aquele Fiscal absurdo e frio a seu lado, a observ-lo e a insinuar
coisas que lhe aguavam o sentimento de culpa e ridculo. Sim, e quando
escrevesse,  escreveria com o corpo
  todo, sem ter o Outro - no fundo um representante dos Outros, da
Famlia, da Crtica, da Sociedade, da Ordem Estabelecida -, sem ter
aquele Censor a ler por cima  de seu ombro... Merda ento para o Outro!
Merda para a Famlia! Merda para a Sociedade! Merda para a Crtica!
Merda para a Ordem Estabelecida! E por fim merda para  a Merda! E assim,
senhoras e senhores, fechamos o crculo, voltando ao ponto de partida,
isto ,  Merda inicial.
  Floriano grita de repente o palavro, fazendo estremecer o chuveiro de
lata pintada de verde que pende do teto. (Adolescente, ele cantava aqui
rias de pera, orgulhando-se  de fazer vibrar o chuveiro: pois Caruso
no tinha quebrado um copo com um d de peito?)
  O homem do espelho parece apreensivo. A escatologia no  soluo.
Floriano quer pronunciar a Palavra com absoluta convico, com um certo
fervor cvico e at religioso.  Talvez nisso esteja a sua salvao. Mas
qual! Sente que no fundo  ainda o menino bem-comportado, de boa
famlia, que no escreve nem diz nomes feios, porque Papai  e Mame no
querem, a Dinda no quer, a Professora no quer...
  Dum pequeno talho no queixo lhe escorre uma gota de sangue, que tinge a
espuma de carmesim. Morango com nata batida: a sobremesa predileta de
Mandy. O homem estendido  na calada em Chicago, seu sangue avermelhando
a neve... Sangue nos algodes e gazes nos baldes da sala de operaes do
dr. Carbone. Do you like strawberries and  cream, dear? O apartamento de
Mandy, a janela aberta sobre a baa de San Francisco... No, dear, I
don't.
  Mas em que ficamos? Qual a soluo? Antes de mais nada, qual o problema?
Mesmo em pensamento lhe  difcil, constrangedor, verbalizar sua
situao. Ests apaixonado  pela mulher do teu irmo. Quem constri a
frase  o Outro. Nessa formulao est encerrado um julgamento moral,
uma censura. No ser mais verdadeiro dizer simplesmente:  Estou
apaixonado por Slvia? Mas apaixonado ser a palavra exata? A palavra
nunca  a coisa que pretende exprimir. A realidade no  verbal. Merda
para a semntica!
  Floriano pe a gua da torneira a correr e nela lava o aparelho de
barbear. Depois torna a ensaboar as faces.
  S h duas solues possveis. Ou tomo Slvia nos braos e a levo para
longe daqui e vamos viver ns dois a nossa vida, mandando o resto para o
diabo... ou ento  me conveno duma vez por todas de que no h
soluo... e me vou embora amanh. No h meio-termo. Mas no terei sido
sempre o homem dos meios-termos, das meias  solues? E... e ser que
ela ainda me ama?
  E por um momento lhe vem, agudo, urgente, o desejo de fugir. Fugir de
Santa F, do Sobrado, sim, da morte do Pai e do amor de Slvia.
  No! Desta vez  preciso ficar. Vim para enfrentar a situao. Esse
problema e os outros. Se  para o bem de todos e felicidade geral da
nao, diga ao povo que  fico. (Dona Revocata em cima do estrado, peitos
murchos, bigodes de granadeiro.)
  Passa agora a lmina pelo espao entre o nariz e o lbio superior. Mas
distrai-se, vendo refletida no espelho a bandeirola tricolor da janela.
Nos banhos da meninice  muitas vezes o sol projetava-lhe no peito
manchas vermelhas, verdes e amarelas. Isso lhe inspirara aos doze anos
um poema.
  O sol me pinta no peito a Bandeira do Rio Grande.
  Vm-lhe  mente agora imagens do sonho que teve h duas ou trs noites.
Andava atrs de Slvia dentro dum imenso casaro cheio de portas
fechadas e proibidas, ao  longo de imensos corredores; o casaro era ora
o Sobrado ora o internato do Albion College ora um quartel... e ele
perseguia o vulto branco (seria mesmo Slvia?)  mas no conseguia
alcan-lo... E de repente se viu deitado em sua cama e Slvia entrou no
quarto na ponta dos ps (ou era Mandy?) e meteu-se nua debaixo das
cobertas...  Ele quis toc-la mas no conseguiu mexer-se, estava
paralisado, incapaz dum gesto... e a mulher imvel a seu lado,
esperando. E quando finalmente conseguiu mexer-se  e ia abraar Slvia -
pois agora tinha a certeza de que era ela - despertou...
  Fica a imaginar a sensao de ter Slvia desnuda nos braos, mas s de
pensar nisso lhe vem um sentimento de culpa mesclado
  10
  de uma fria vergonha, como se por desej-la fisicamente ele estivesse
cometendo uma espcie de "incesto branco". No se trata da mulher de seu
irmo? E no foi ela  criada no Sobrado quase como sua irm? (Ah! mas a
diferena de idade nos separava na infncia... e as minhas prolongadas
ausncias... Seja como for, merda para o  incesto!)
  Por muito tempo ele se defendeu da idia de que desejava Slvia como
mulher. Preferia acreditar que sua afeio por ela pouco ou nada tivesse
de carnal. Leituras  e supersties da adolescncia. La chair est
triste, hlas!, et j'ai lu tom ls livres.
  Havia de me acontecer essa... a mim, que sou o capito. (Trs a mexer,
quatro a comer... quem falar primeiro come, menos eu que sou capito.)
Mas preciso me analisar  mais a srio. E me barbear melhor...
  O sangue continua a escorrer-lhe do corte.
  Sejamos realistas. O que se passa comigo  que h mais de um ms no
tenho mulher: a castidade forada aumenta meu desejo por Slvia. Logo, o
remdio  procurar  uma mulher... Mas quem? Onde? Como? A idia de
recorrer a uma prostituta lhe  constrangedoramente repugnante. Outro
preconceito, meu amigo! (A voz de tio Bicho.)  A pessoa no  a sua
profisso, ou a sua funo!
  Snia no Hotel da Serra. Floriano repele imediatamente a sugesto,
procura, quase em pnico, esquec-la. A idia lhe veio porque ele a
temia ou ele a temia por ter  a intuio de que ela se aproximava,
inapelavelmente? Est claro que a coisa toda  absurda, indecente,
indigna, impossvel. (Tio Bicho: "Palavras, palavras, palavras!  E tu
no sentes nada do que ests dizendo".) Dormir com a amante do pai? A
possibilidade deixa-o estranhamente excitado. Como e por que negar que
se sente fisicamente  atrado pela rapariga? Mas como negar tambm que a
idia o envergonha? E por que imaginar que Snia queira dormir com ele?
S por ter pensado nessa possibilidade  Floriano se despreza, e por
desprezar-se fica irritado, sentindo-se ridiculamente como um cachorro
que tenta morder o prprio rabo.
  Gosto de sangue na boca. Floriano parte um pedao de papel higinico e
cola-o sobre o minsculo manancial.
  11
  Existir no ser, entre outras coisas, estar condenado a, mais tarde ou
mais cedo, comer as porcarias da Vaca Amarela? Ningum  Capito. Talvez
s Deus. Ou talvez no exista nenhum Capito. O que no exclui a
existncia da Vaca Amarela. Bandeira diria que o Capito  uma verdade
abstrata, ao passo que a Vaca Amarela  uma realidade existencial.
  Larga o aparelho Gillette. Afinal de contas preciso acabar com essa
idia pueril de que  possvel atravessar a vida sem ferir ningum nem
sujar as mos. Escrever mil vezes como castigo a frase: No devo
iludir-me: no sou um sujeito decente. Por que no me aceitar a mini
mesmo como sou e arcar com todas as conseqncias? Sim, as ms e as
boas. O Outro, o do espelho, replica: "Bela desculpa para fazeres tudo
quanto desejas sem olhar o interesse dos outros". Besteira! Vocs (mas
vocs quem?) inventaram e nos impingiram a vergonha do corpo, a vergonha
dos desejos do corpo e como resultado disso nos transformaram em
eunucos.
  Enquanto enxuga o aparelho de barbear, sempre a assobiar um trecho do
adgio do quinteto para clarineta e cordas, de Brahms. A melodia lhe
desenha na mente a figura de Slvia. De certo modo essa msica  Slvia.
Ao banho!
  Despe-se, coloca-se debaixo do chuveiro e puxa no barbante - a mesma
engenhoca da infncia - pensando no banheiro coletivo do Albion College.
Nas manhs de inverno os rapazes tiritavam e gritavam sob o chuveiro
gelado, seus corpos despedindo "fumaa". Floriano sorri, lembrando-se de
Mr. Campbell que invariavelmente entrava no quarto de banho a essa hora,
a pretexto de aptessar os rapazes, e ali se deixava ficar, lanando
olhares vidos para a nudez dos meninos. Come on, boys! Hurry up! Hurry
up! E cantava canes inglesas, batendo palmas para marcar o compasso;
uma lubricidade meio fria e senil lhe vidrava os olhos injetados de
bebedor de usque.
  Floriano torna a pensar em Snia, e contra sua vontade compara-a com
Slvia, como fmea, e se odeia por fazer isso, mas nem assim consegue
afastar esses pensamentos. Esfrega com fora o sabonete na cabea, no
pescoo, no torso com frentica energia, como
  12
  na esperana de poder tirar do corpo todos estes desejos, e limpar o
pensamento destas sujeiras. Merda para a limpeza!
  Deixa o quarto de dormir pouco antes das oito. Acaba de enfiar umas
calas de alpaca cor de chumbo e uma camisa de linho branco. Agora aqui
vai ao longo do corredor a pensar, contrariado, em que ter de pr
gravata e casaco s dez da manh para assistir  inaugurao do busto do
cabo Lauro Car e agentar a oratria e as patriotadas sob o olho do
sol. Sim, e ter tambm de apertar a mo do prefeito municipal e do
comandante da guarnio federal, e comunicar-lhes que ali est como
representante do dr. Rodrigo Cambar, etc... etc... etc... Como est
passando o senhor seu pai? Melhor, muito obrigado. E a senhora sua me?
Mas que  que a senhora minha me tem a ver com isto? Vamos, senhores!
Depressa com os discursos e os hinos!  msero aptrida! o homem sem
passaporte! Sers acaso incapaz de vibrao cvica? Que sentes ao ouvir
o nosso Hino? N suno? Cacfaton! Serei um cacfaton vicioso nesse
concerto patritico. Desculpem o mau par.
  Floriano pra junto da janela que d para o patamar da escada interna e
olha para fora. Que sol! Que cu! Que verdes! No fim de contas quem tem
razo mesmo  o Hino Nacional. "Nossos bosques tm mais vida e nossa
vida em teu seio mais amores."
  Passa a mo pelas faces, arrependido j de as ter friccionado com loo
de alfazema. A Dinda detesta qualquer gua-de-cheiro, Jango tem em
pssima conta homem que se perfuma. Mas quando  que vou aprender a
fazer o que me agrada sem me preocupar com os outros?
  Quando entra na sala de jantar, que recende a caf recm-passado, o
relgio de pndulo comea a bater as oito. Alm de Maria Valria, s
Slvia se encontra  mesa. Ao ouvir os passos de Floriano, ergue a
cabea e sorri. A velha nem d tempo ao recm-chegado para lhes dizer
bom-dia.
  - Estava com bicho-carpinteiro no corpo? - pergunta. - Passou a noite
caminhando.
  Floriano depe um beijo na testa da Dinda, depois senta-se, apanha um
guardanapo, desdobra-o e estende-o sobre o regao.
  13
  - Quem foi que lhe contou?
  - Ouvi seus passos.
  - Como  que sabe que eram meus e no do Jango ou do Eduardo?
  - Conheo muito bem o tranco do meu gado. Jacira! Traga esse caf duma
vez.
  O relgio bate a ltima badalada, que soa longa, com uma gravidade meio
fanhosa e desafinada como a fermata dum velho cantor de pera que est
perdendo a voz mas  que ainda no perdeu a dignidade.  um som antigo,
familiar mas nem por isso totalmente amigo. O menino Floriano sempre
sentiu nele algo de autoritrio e quase fatal.  Era o "relgio grande"
quem lhe dizia que era hora de levantar da cama, de ir para a escola e
voltar para a cama  noite. Havia em suas ordens um tom definitivo  e
irrevogvel.
  E agora, como  preciso dizer alguma coisa, Floriano conta que quando
criana sempre teve uma vontade danada de saber que era que a mquina do
tempo tinha "na barriga".
  - Um dia teu pai te pegou mexendo na caixa do relgio - diz Maria
Valria - e te deu umas palmadas.
  - Teria sido papai ou a senhora?
  - Foi seu pai. Ainda no estou caduca.
  Slvia sorri, e seus dentes alvos e regulares aparecem.
  - Pra mim - diz ela - esse relgio sempre foi uma pessoa, um membro da
famlia. Mas confesso que tinha um certo medo dele. Um dia eu estava
sozinha aqui e de repente  ele bateu... Levei um susto e desatei o
choro. Foi quando dona Maria Valria apareceu e eu me agarrei nas saias
dela. Lembra-se, Dinda?
  A velha encolhe os ombros.
  - Se eu fosse contar todas as vezes que vocs se agarraram nas minhas
saias...
  Jacira entra trazendo uma bandeja com um bule de caf, outro de leite e
um prato de torradas. Coloca todas essas coisas fumegantes em cima da
mesa.
  14
  Floriano olha em torno. A luz da manh, entrando pelas janelas, parece
esforar-se por dar um pouco de alegria e brilho  baa severidade desta
sala.
  Desde que veio morar no Sobrado, Slvia se tem empenhado numa campanha
lenta mas pertinaz para vestir a nudez do casaro e dar-lhe alguma
graa. Tudo lhe ficou um  pouco mais fcil depois que Maria Valria
perdeu a viso. A velha, por exemplo, no sabe que uma toalha de linho
amarelo cobre agora a mesa, nem que o servio de  caf  de cermica cor
de terra de Siena, em desenho no-convencional. Se soubesse, protestaria
contra todo "este desfrute". Faz relativamente pouco que se vem
tapetes nos soalhos das salas principais do Sobrado, cortinas nas
janelas e uns quadros nas paredes: reprodues de Degas, Czanne,
Utrillo e Renoir. Antes, alm  do retrato de Rodrigo, dumas fotografias
ampliadas e pintadas a leo de pessoas falecidas, enquadradas em
funreas molduras cor de ouro velho, o mais que Maria Valria  se
permitia ter em casa em matria de "arte" eram os cromos das folhinhas
que a Casa Sol distribua como brinde entre seus fregueses. Quanto a
mveis e utenslios,  ela e Jango se contentavam com o mnimo. Esta
moblia de jacarand lavrado, pesada e triste, sempre causou um certo
mal-estar a Floriano, que, quando menino, descobriu  entre ela e os
atades do Pitombo um certo ar de famlia. Dentro da grande cristaleira,
que lembra uma vitrina de museu - juntamente com bibels, xcaras de
porcelana  e clices de cristal que jamais se usam - v-se a famosa
coberta de mesa de loua holandesa, herana de sua bisav Luzia e que,
segundo a tradio oral da famlia,  pertenceu originalmente ao prncipe
Maurcio de Nassau.
  Slvia acaba de encher de leite com algumas gotas de caf a xcara de
estimao de Maria Valria, presente que o dr. Carl Winter lhe deu no
Natal de 1905 - um xicaro  que ostenta um ramo de flores amarelas e
azuis pintado a mo, circundando um corao branco em relevo, sobre o
qual se l em letras douradas: Zum An-
  O maior aliado que o sol encontra aqui na sua tentativa de animar o
ambiente  a reproduo em tamanho natural dum quadro
  15
  de Van Gogh, de cores vivas e quentes, e que parece ser tambm um foco
de luz.
  Maria Valria segura a xcara com ambas as mos e leva-a aos lbios. A
fumaa lhe sobe para o rosto dum moreno terroso de cigana, onde rugas
fundas se cruzam e entrecruzam  como gretas no leito adusto dum rio que
secou. Por um instante Floriano fica a comparar a face da velha com a da
figura do quadro.
  - No achas que a Dinda e aquele campons podiam ser parentes chegados?
- pergunta.
  Slvia, que tem o bule de caf na mo, lana rpido olhar para trs e
depois, tornando a encarar o cunhado, diz:
  - Primos irmos. - E, mudando de tom: - Preto ou com leite?
  - Preto, por favor.
  Floriano empurra para o centro da mesa a xcara, que a cunhada, de brao
estendido, enche de caf. A cor de sua tez, dum moreno parelho enxuto e
cetinoso, parece  continuar fragmentada nos pratos, xcaras e pires.
Floriano lembra-se de que viu essas mesmas qualidades na pele duma
danarina chinesa no Chinatown de San Francisco  da Califrnia. A
criatura, que danava completamente desnuda na atmosfera crepuscular do
cabar, lhe trouxera  mente, de maneira perturbadora, a imagem de
Slvia.
  - Mais alguma coisa?
  - No. Obrigado.
  Floriano puxa a xcara, serve-se de acar e comea a passar manteiga
numa torrada, com um cuidado lento e exagerado, como se quisesse
esconder-se atrs deste gesto  para melhor ruminar suas lembranas
proibidas. Maria Valria d ordens em voz alta a Jacira. Da cozinha vm
os resmungos de Laurinda. Rudo de passos no andar superior.
  Foi talvez naquela noite californiana, em plena guerra, que pela
primeira vez ele teve conscincia da natureza carnal de seu amor por
Slvia. A chinesinha movia-se  na pista perseguida pela lua do holofote.
Em torno dela marinheiros e soldados embriagados diziam-lhe gracejos ou
simplesmente urravam. Segurando um balo amarelo  de borracha, com o
qual escudava o sexo, ela rodopiava
  16
  leve como uma figurinha de papel. Seus seios midos, firmes como as
ndegas, tinham algo de pattico. E ele seguia a danarina com os olhos,
perturbado pela descoberta...
  Toma um gole de caf e olha para a cunhada, irresistivelmente. Sim, ela
tem algo de oriental. (Algum antepassado bugre?) No rosto alongado, de
pmulos salientes,  os olhos de castanha e mel so levemente oblquos.
Quando ela sorri o nariz se franze, os zigomas se acentuam, apertando os
olhos, que ganham uma expresso entre  lnguida e menineira. Aos vinte e
sete anos, Slvia tem algo que a Floriano parece uma espcie de precoce
aura outonal:  como se a criatura andasse permanentemente  tocada pela
luz de maio. Sua voz fosca, surpreendentemente grave num corpo to
frgil, sugere a cor e a esquisita fragrncia da folha seca. De novo uma
clarineta  toca na mente de Floriano uma frase do adgio do quinteto de
Brahms. Mas  preciso dizer alguma coisa.
  - Acho que j te contei, Slvia, por que comprei essa reproduo de Van
Gogh. Encontrei-a numa livraria de Nova York. Gostei das cores, desse
fundo de laranja queimado  contrastando com o bluso azul e o chapu cor
de sol. Mas o que mais me tocou foi a cara desse campons mediterrneo.
Achei nele uma parecena extraordinria com  vov Babalo...
  Slvia torna a voltar a cabea.
  - Tens razo...
  - ... a cara angulosa, a tez tostada, a barbicha branca, os olhos ao
mesmo tempo bondosos e lustrosos de malcia. E repara nas mos... que
integridade! So mos  de gente acostumada a mexer
  na terra.
  - Eu me lembro que, ao ver este quadro pela primeira vez, o velho Liroca
notou logo essa espcie de leno vermelho que o homem tem no pescoo e
perguntou: "Quem   o maragato?"
  De novo Slvia est voltada para Floriano, e desta vez os olhos de ambos
se encontram. Ela baixa a cabea em seguida. Ele faz o mesmo, mordisca
uma torrada, toma  um gole de caf - amargo, pois no o mexeu - e depois
olha para Maria Valria, que passa mel numa fatia de po.
  17
   admirvel - reflete - como apesar de ter os olhos velados pela
catarata a velha caminha por toda a casa, sobe e desce escadas, sem
jamais dar um passo em falso  ou colidir com pessoas, mveis ou paredes.
 como se tivesse a gui-la uma espcie de radar. Um dia, como algum a
elogiasse por isso, resmungou: "Depois de velha  virei morcego".
  Rudos de passos na escada.
  -  o Jango - murmura a Dinda.
  Poucos segundos depois Jango entra na sala. Est sem casaco, veste uma
camisa branca de mangas arregaadas acima dos cotovelos, bombachas de
brim xadrez e botas.  Resmunga um bom-dia geral, senta-se ao lado da
mulher e, sem olhar para ningum, comea a servir-se.
  - Esse amanheceu com o Bento Manoel atravessado - resmunga Maria
Valria.
  - No achei a minha faca de prata - diz Jango.
  - J est na tua mala - informa Slvia.
  - Mandaste lavar o meu leno branco de seda?
  - Mandei. Est tambm na mala.
  O sol bate em cheio no rosto de Joo Antnio Cambar. Em suas faces, dum
moreno iodado, azuleja sempre a sombra duma barba cerrada, por mais que
ele as escanhoe.  Tem uma vigorosa cabea de campeiro a que as
costeletas do um ar um pouco espanholado e anacrnico. Nos olhos
escuros e apertados do irmo, Floriano descobre algo  que em seu jargo
particular poderia ser definido como "uma expresso babalesca". No
fsico Jango se parece principalmente com o av paterno.  o mais alto
dos Cambars,  o que levou Maria Valria a dizer um dia que "esse menino
mais parece filho do Srgio Lobisomem que do Rodrigo". Quanto ao
temperamento, Jango herdou de ambos os  avs o amor pela vida do campo e
uma certa impacincia com relao ao que ele costuma chamar de "bobagens
de cidade".
  Floriano observa o irmo furtivamente. A presena de Jango  dessas que
logo se impem ao olfato e  vista. Recende a suor, de mistura com sarro
de crioulo e com  o cheiro de couro curtido das botas e da guaiaca. H
certas pessoas vagas, meio apagadas,
  18
  como um pastor metodista que Floriano conheceu quando menino: parecem
desenhadas a lpis e depois pintadas com aquarela diluda. Mas Jango, de
cabelos negros e sobrancelhas  bastas, braos peludos e traos
fisionmicos ntidos -  positivamente um desenho feito a nanquim e
colorido com tmpera.
  Enquanto Maria Valria e Slvia confabulam em voz baixa, decidindo o que
vo mandar preparar para o almoo, Floriano fica olhando para dentro da
sua xcara e analisando  o Jango que ele "v" na galeria fotogrfica de
sua memria, em meio de incontveis retratos, uns mais apagados que
outros.
  Que ser que ele pensa de mim? E que ser que eu penso mesmo dele? Se
no nos entendemos melhor, a culpa por acaso no ser mais minha que
dele? Acho que Jango sente  por mim uma afeio morna misturada com
certa perplexidade diante do bicho raro que sou: o homem que viaja,
escreve e l livros, que detesta a vida de estncia e  que - pecado dos
pecados! - gosta de msica... Minha afeio por ele talvez seja o
resultado dum hbito combinado com a conscincia dum dever. (Nunca
tentei esconder  nem de mim mesmo que sempre tive mais afeio pelo
Eduardo.) Sim, s vezes Jango me irrita pelas suas qualidades positivas
que tanto pem em relevo as minhas negativas.  (Positivo e negativo,
entenda-se, de acordo com a tbua de valores do Rio Grande.)
  Talvez o que me separa dele seja o meu esprito crtico... Mas desde
quando tenho esprito crtico? No vivo a dizer a mim mesmo que sou mais
um mgico que um lgico?  Que sei eu! Temos vivido muito separados um do
outro geograficamente, mas a verdade  que nossa maior separao deve
ser na dimenso dos temperamentos. Acho Jango  superior a mim. Ah! Como
busco soluo fcil para os problemas! Rebaixo-me, sou um rprobo,
pequei contra os deuses guascas, bato no peito, fao ato de contrio  e
liquido o assunto. No senhor! Nada  to simples assim. Sou diferente
de Jango, nem melhor nem pior. Jango, que em matria de leitura no vai
alm do Correio  do Povo, deve ter lido pouqussimos livros em toda a
sua vida, ao passo que eu j perdi a conta dos que li e reli. Mas como 
grande o nmero das coisas que ele  sabe e eu no sei - coisas prticas,
coisas essenciais! Essenciais? Opa! Uma
  19
  palavra perigosa. Grande demais. Mas Jango goza de intimidade com a
terra, conhece as manhas do cu e do tempo, tem os ps bem plantados no
cho. No  um estrangeiro  no territrio que habita. Seu conhecimento
das pessoas e dos bichos  instintivo, deixa longe o falso psicologismo
de meus romances. ("A modstia - dizia dona Revocata  -  uma das mais
belas virtudes que ornamentam o carter humano." Mas merda para a
modstia! "Menino, no diga nome na mesa!") H nele muita coisa que me
desagrada:  essa melena, essas costeletas platinas, a voz um pouco
pastosa, como se tivesse sempre na boca um naco de churrasco gordo. E
esse tom afirmativo e autoritrio de  quem est habituado a lidar com a
peonada. Sim, e seu apego muar a um punhado de ideias feitas, de
prejuzos... Essa tendncia de considerar "coisa louca" tudo quanto
esteja fora de seu cdigo tico, de seus hbitos e de seu gosto.  o
homem da tbua rasa. Fantico do trabalho, nada existe que despreze mais
que o vadio. Fantico  da propriedade, poder ser tolerante para com um
assassino, porm jamais perdoar a um ladro de gado. Senhor de um
arraigado senso de hierarquia, parece achar que  se h ricos e pobres no
mundo  apenas em virtude dum decreto divino inapelvel. Mas poder
algum honestamente negar que ele seja um homem bom, decente, e um amigo
fiel?
  Maria Valria grita uma ordem para a cozinha. Floriano ergue os olhos.
Slvia, visivelmente perturbada, mantm os olhos baixos e mexe o caf
com a colher, dando  a esse gesto uma importncia exagerada. Jango
continua a mastigar po vigorosamente e a tomar largos sorvos de caf,
sempre com o cenho franzido. Por alguns segundos  Floriano fica a olhar
fascinado para o irmo.
  Ali est um homem que tem objetivos claros. Viver a sua vida, ter filhos
e cri-los  sombra de sua autoridade e dentro de seus princpios...
conduzir bem seus negcios,  manter a propriedade que possui,
aumentando-a sempre que possvel... Nas horas vagas, divertir-se... Mas
qual  seu conceito de diverso? Detesta cinema: coisa pra  crianas ou
para vadios. No tem - parece - nenhuma necessidade de msica. Como o
velho Licurgo, no consegue assobiar nada, alm da melodia bvia do Boi
Barroso.  Quais ento os seus prazeres? O chimarro, um assado de
costela, um crioulo, me-
  20
  lancia fresca, banho na sanga, bons cavalos, corridas em cancha reta,
rinhas de galo... Sim, e mais esse gosto, que lhe deve encher o peito de
saber-se co-proprietrio  de vastos campos povoados, essa volpia de dar
ordens, de entregar-se  atividade campeira como ao mais excitante e
viril dos esportes. De vez em quando uma "espiada"  na cidade e - quem
sabe? - uma escapadinha sexual, mas muito discreta, pois um homem deve
antes de mais nada manter sua fachada de respeitabilidade... A voz de
Jacira:
  - Dona Maria Valria, o enfermeiro disse que o doutor j acordou.
  - Est bem. Aquente a gua pr chimarro.
  Floriano censura-se a si mesmo. No devia estar analisando meu irmo
dessa maneira, mas sim procurando aceit-lo tal como ele . Sim, e
am-lo. Principalmente am-lo.  A ele e a todos os outros. Talvez seja
esse o caminho da minha... (at em pensamentos lhe soa falsa a palavra
salvao.) Construir pontes e outros meios de comunicaes  entre as
ilhas do arquiplago - no ser mesmo o supremo objetivo da vida?
  Volta a cabea e olha para a velha ilha que  Maria Valria - ilha de
clima spero (na aparncia apenas), roda pela eroso, batida pela
intemprie e pela idade.  A velha est agora de cabea alada, narinas
palpitantes, farejando o ar, como um co de caa:
  - Quem  que est me cheirando a barbearia?
  - Sou eu, Dinda - confessa Floriano. Jango levanta a cabea e diz srio:
  - Logo que cheguei tambm senti... Floriano no consegue conter-se:
  - Desculpa. Eu sei que teu perfume predileto  o de creolina.
Arrepende-se imediatamente de ter pronunciado estas palavras. Jango
lana-lhe um olhar hostil e diz:
  - Creolina  cheiro de quem trabalha.
  Pronto. Recebeste o que mereces. E l se vai guas abaixo a pinguela que
existia entre a ilha-Jango e a ilha-Floriano...
  O marido de Slvia parte um po sovado quase com raiva. Floriano fica a
olhar disfaradamente para os dedos do irmo, 
  21
  longos, fortes e nodosos como razes. Essas mos maltratadas, mas cheias
duma grande integridade, o fascinam e ao mesmo tempo lhe causam uma vaga
inveja. So mos que  sabem fazer coisas - tranar lombilhos, curar
bicheiras, plantar, colher, usar a plaina, o formo, o serrote, a
tesoura de tosquiar - mos hbeis e teis. Sim, mos  que tambm sabem
castrar. Floriano ouve mentalmente as palavras que o velho Liroca um dia
lhe disse: "Quando Jango capa um animal, o talho nunca infecciona. Flor
de mo!" Mas, lanando um rpido olhar para Slvia, ele sente de maneira
aguda o contraste entre a fragilidade da moa e a rudeza do marido.
Quer-se mal, despreza-se  ao pensar em que naquele inesquecvel ano de
1937 tudo dependera duma palavra sua, dum gesto seu. E ele no fizera
esse gesto, no pronunciara essa palavra. Idiota!  Idiota! Mas no se
insulta com muita convico. Talvez as coisas estejam certas da maneira
como esto. Qual! Est clarssimo que Slvia e Jango no se entendem,
no so felizes um com o outro. Quem a merece sou eu. Merece? Fugi dela
como um covarde. Encontrei admirveis desculpas para no fazer o gesto
decisivo. E depois  fiquei ressentido, quase irritado porque ela casou
com o Jango. Querias - ridculo romantico! incurvel egosta! -,
querias que ela te permanecesse fiel e ficasse  aqui como uma Penlope
guasca a tricotear eternamente um suter para este Ulisses sempre
ausente e indeciso.
  Neste momento Flora entra, bate de leve no ombro de Jango:
  - "Como vai, meu filho?" - passa a mo na cabea de Slvia, toca no
brao de Maria Valria - "Bom dia!" - beija o rosto de Floriano e depois
vai sentar-se  outra  cabeceira da mesa.
  Por que beijo s para mim? - pergunta Floriano a si mesmo. Esta
preferncia no s o constrange como tambm lhe pesa como uma ameaa
potencial  sua liberdade.
  - Jacira! - exclama a velha. - Traga mais caf e mais leite quente. -
Seus olhos de esttua esto voltados na direo de Flora.
  - Onde esto os lordes?
  Refere-se a Bibi e Sandoval. Jacira, que entra neste momento, informa:
  - Dona Bibi deixou um bilhete, pra eu acordar eles s nove e levar caf
na cama.
  22
  - No leve coisa nenhuma! - exclama a velha. - Se quiserem, que venham
tomar caf na mesa com os outros. Isto no  hotel.
  - A Bibi e o Marcos voltaram da rua muito tarde ontem - diz Flora.
  - Eu ouvi.
  - Estiveram jogando bridge na casa do dr. Prates.
  - Jogando o qu?
  - Bridge, um jogo de cartas.
  A velha franze o nariz, com nojo. Flora pega o bule para servir-se de
caf. Suas mos tremem. Embacia-lhe os olhos machucados uma expresso
que  ao mesmo tempo  de abandonada tristeza e quase de susto - a gazela
indefesa que no meio do mato comea a pressentir a aproximao dum
grande perigo. Seu rosto, sem um pingo de pintura,  parece esculpido em
cera. (O menino Floriano detestava os anjos de cera do Pitombo, smbolos
de morte que lhe davam um medo mesclado de nusea.) Flora envelheceu
alguns anos nestas ltimas semanas... Os cabelos embranqueceram de
repente. Ou deixou de tingi-los? (Odeia-se por causa deste pensamento,
no qual descobre um gro  de sarcasmo.) Mas no pode deixar de
reconhecer que sente muito mais ternura por esta me envelhecida e
apagada do que pela outra que via no Rio, perturbadoramente  jovem, bem
cuidada, bem vestida e sempre maquilada.
  Floriano no se sente feliz por verificar que suas reaes de homem
adulto no diferem muito das do menino que no queria aceitar, por
indecente, a idia de que  os pais ainda pudessem ter hbitos e apetites
de gente moa - do menino para quem s as prostitutas  que andavam
enfeitadas, perfumadas e de cara pintada.
  Sempre as contradies! Apesar de partidrio do divrcio e de seu horror
cerebral s atitudes convencionais, reagiu como um moralista ao
casamento por contrato de  Bibi. Ele, o puritano impuro!
  Agora aqui est, perturbado como um colegial, por ter Slvia ali do
outro lado da mesa, lutando entre o desejo de olhar para ela e o temor
de revelar seu segredo.  E como pode sequer pensar em lev-la daqui, se
a simples idia de que os outros possam desconfiar de seu amor deixa-o
aterrorizado?
  23
  Faz-se na sala um silncio que Floriano sente prenhe das coisas que no
se dizem sobre a situao: a presena de Snia em Santa F, a visita que
Rodrigo lhe fez,  o perigo de que ele repita a faanha e morra na cama
da rapariga, naquele srdido quarto de hotel... (Srdido? Outra vez o
puritano. Nem sequer conheo o hotel.)  A amante do dr. Rodrigo  o
grande assunto do momento, mais sensacional talvez que o da eleio
presidencial. A cidade inteira comenta a histria, enriquecendo-a  com
fantasias maldosas. H dois dias Esmeralda Pinto no se conteve e veio
ao Sobrado visitar Flora, que a recebeu fria na sala de visitas, sentada
na ponta da cadeira.  Depois do intrito costumeiro - "Como vais, Flora?
Muita saudade do Rio? E o dr. Rodrigo, est melhor?" - a maldizente
municipal entrou de chofre no assunto, que  era evidentemente o objetivo
principal da visita. "Por falar no dr. Rodrigo, eu invejo a coragem
dele. Trazer essa moa para um lugar pequeno como Santa F, e ainda  por
cima ir visitar ela no hotel... Te digo, Flora,  preciso ter muito
caracu." Flora no disse palavra, limitou-se a olhar impassvel para a
mexeriqueira. "No  vais me dizer que no sabes... Todo mundo sabe, at
as pedras da rua... Todo mundo comenta o acinte. Pobre da Flora, dizem,
to distinta, to boazinha, no merecia..."  Flora mantinha os lbios
apertados. "Queres saber de uma coisa? - continuou a outra. - Se fosse
comigo, eu entrava naquele hotel e tirava a china de l a bofetadas."
Nesse momento Dona Maria Valria surgiu  porta e gritou: "Fora daqui,
sua cadela!"
  Quem quebra agora o prolongado silncio  a velha:
  - Ontem os compinches do Rodrigo ficaram at tarde conversando l em
cima. O Dante devia proibir esses ajuntamentos.
  - Proibir? - repete Floriano. - A senhora no conhece o papai.
  - Conheo como se Io hubiera parido, como dizia o Fandango. Floriano
sorri ao ouvir tais palavras da boca duma virgem.
  - Mas quem insiste nessas reunies  ele. Manda chamar os amigos,
reclama quando eles no vm...
  - O pior - insiste a velha - so esses tais de "queremistas" que
aparecem aos magotes. Ficam horas e horas l em cima, pitando
  24
  e bebendo, e o sem-vergonha do Rodrigo aproveita o entrevero e pita e
bebe tambm com os outros...
  Jango ergue a cabea e, com a boca cheia de po, diz:
  - O papai est praticamente dirigindo o movimento "queremista" no
municpio. Eu at me admiro de ele no ter insistido em ir falar em
praa pblica.
  A velha ala a cabea e fica  escuta. Soam passos na escada.
  -  o touro xucro - murmura ela.
  Eduardo entra, resmunga um mal-audvel "Bom dia para todos" e senta-se
ao lado de Floriano.
  - Bom dia, mal-educado! - exclama a velha. - No dormimos juntos.
  - Eu disse bom-dia - replica Eduardo, sorrindo.
  - S se foi pra ouvido de cachorro. No ouvi nada. Flora serve caf para
o recm-chegado.
  - Deves ter dormido muito pouco, meu filho. Voltaste tarde ontem.
  - s trs - apressa-se a informar a velha.
  - Como  que a senhora sabe a hora? - indaga Floriano. Maria Valria
leva o indicador  testa:
  - Tenho um relgio aqui dentro.
  Floriano lana um olhar furtivo para Slvia. As mos de Jango amarfanham
o guardanapo amarelo que ele leva aos lbios. Eduardo assobia baixinho
uma melodia que Floriano  no consegue identificar. Positivamente, esta
 a famlia mais ameldica do mundo! Tem vontade de estender o brao,
abraar o irmo, fazer-lhe perguntas cordiais.  Mas contm-se, inibido
pela lembrana das recentes agresses do outro. Claro que ele no pode
levar Eduardo rigorosamente a srio. No que ele no seja sincero ou
inteligente no que diz... O que lhe parece um pouco juvenil e risvel 
o seu fervor frentico de templrio.
  Jango olha para Eduardo e diz:
  - Ento amanh temos finalmente essas famosas eleies...
  - A primeira em quinze anos - diz o irmo mais moo. - Parece mentira.
  25
  Esfregou a palma da mo na coroa da cabea, num gesto que se lhe torna
compulsivo sempre que tem de falar na presena de mais de uma pessoa. 
curioso - reflete  Floriano - como por trs de toda essa agressividade
se possa esconder uma to grande timidez.
  - E os comunistas esperam eleger esse candidato mixe de ltima hora? -
pergunta Jango, num tom provocador.
  Eduardo d de ombros.
  - Est claro que no. Se apresentamos um candidato nosso  porque no
podemos votar num nazista nem num reacionrio. E, depois, queremos dar
um balano nas nossas  foras eleitorais.
  Toma um gole de caf, e pouco depois pergunta:
  - E vocs esperam eleger o brigadeiro?
  - E por que no?
  - No sejas bobo. O Getlio recomendou aos seus apaniguados que votem no
Dutra. O general est eleito.
  - Queres apostar?
  - No.
  - Ir haver barulho? - pergunta Maria Valria, que no concebe carreira,
rinha de galo e eleies sem briga.
  - Vai tudo correr bem, Dinda - assegura-lhe Floriano.
  - No sei... - murmura a velha. - Mas eu preferia os tempos do dr.
Getlio. No tinha eleio pra incomodar a gente.
  - Nem diga isso! - protesta Jango.
  Floriano pousa a mo no pulso da tia-av e diz, sorrindo:
  - Mas algum tem alguma dvida? A Dinda  totalitria. Esse foi sempre o
regime poltico e econmico do Sobrado.
  - No sei o que voc est dizendo. Mas eu preferia que no houvesse
eleio.
  Jango faz um gesto que lembra a Floriano o velho Aderbal: afasta de si a
xcara vazia. (Faz sempre isso com o prato, ao terminar cada refeio.)
Tira do bolso da  camisa um cigarro de palha feito e acende-o.
  - Voltas hoje para o Angico? - indaga Eduardo.
  26
   uma pergunta inocente, mas Floriano sente de imediato suas
possibilidades de perigo. E no se engana, porque Jango responde com voz
sombria:
  - Vou, e sozinho como sempre. - Faz um sinal com a cabea na direo de
Slvia. - Esta moa aqui no gosta l de fora...
  - Por favor, Jango - murmura ela -, no vamos recomear...
  - Ora, Slvia, todo o mundo sabe que tu tens raiva do Angico.
  Slvia lana um olhar de splica para a sogra, como a pedir-lhe auxlio.
Mas o socorro vem de outro quadrante.
  - A Slvia precisa ficar, Jango - intervm Maria Valria. - Se ela for
pr Angico, quem  que vai me ajudar a cuidar do Rodrigo?
  Floriano olha instintivamente para a me, que baixa os olhos. Desta vez
a frechada foi dirigida contra ela. Maria Valria no se conforma com a
atitude de retraimento  de Flora para com o marido. Ela se limita a
aparecer periodicamente  porta do quarto e a perguntar: "Precisa de
alguma coisa?" - feito o que se retira para continuar  no seu silncio
arredio. Floriano, porm, compreende o drama da me, que deve debater-se
continuamente entre o dever de esposa e o orgulho de mulher. (E a
formulao  do problema nestes termos lhe soa desagradvel e
ridiculamente como uma situao de novela de rdio.)
  - Vocs se lembram do Manequinha Teixeira? - pergunta Jango, soltando
uma baforada. - Casou-se com uma moa que no gostava da campanha.
Quando ele ia pra estncia,  ela ficava na cidade. Pois tanto o rapaz
ficou sozinho, que acabou se amasiando com uma china.
  Floriano sente o sangue subir-lhe  cabea. No se contm:
  - A moral da tua histria  muito simples, Jango. No fundo o que o
Manequinha Teixeira merecia mesmo era a china.
  - Meninos - grita Maria Valria. - Vamos parar com isso! Jango ergue-se
intempestivamente, atirando o guardanapo em
  cima da mesa.
  27
  - Est pronta a minha mala? - pergunta.
  Slvia limita-se a fazer um sinal afirmativo com a cabea.
  - Pois ento, at outro dia!
  Sai da sala pisando duro. Faz-se um silncio, quebrado poucos segundos
depois por Maria Valria:
  - Jacira, v levar a gua pr chimarro do doutor. Floriano serve-se de
mais caf, sem vontade, apenas para fazer
  alguma coisa, j que no sabe o que dizer. Pensa em erguer-se da mesa
mas no atina como fazer isso de maneira natural, sem dar a esse
movimento um carter dramtico.
  Quando, alguns minutos depois, Sandoval e Bibi entram na sala - ele
muito expansivo, de calas e sapatos brancos, camisa esportiva italiana
cor de jade, um leno  dum verde-musgo amarrado ao pescoo, o cabelo
muito lambido e reluzente; ela vestida de vermelho com ar azedo mas j
completamente maquilada, com uma pesada mscara  de panqueque no rosto
-, Floriano se faz a si mesmo estas perguntas: Por que estamos todos
aqui reunidos? Que grande acontecimento esperamos? E a primeira resposta
que lhe ocorre, deixa-o gelado. Estamos todos, duma maneira ou de outra,
esperando a morte do dono da casa.
  Tomado de uma sbita pena do pai, sente um enternecido desejo de v-lo.
  O relgio l embaixo est ainda a bater nove horas quando Floriano entra
no quarto do doente. Ao passar pelo enfermeiro, que monta guarda  porta
como um co de  fila, contm a respirao, pois Erotildes como de
costume est envolto na sua aura ftida.
  - Que milagre! - exclama Rodrigo.
  Mais sentado que deitado na cama, entre travesseiros, tem na mo a cuia
de mate e ao seu lado, em cima da mesinha, a chaleira com gua quente.
  - Senta, meu filho. Que  que h de novo?
  Floriano senta-se na ponta da cadeira, o busto ereto, como numa visita
de cerimnia, mas percebendo imediatamente o absurdo de sua postura,
corrige-a, procurando  ficar mais  vontade.
  28
  - De novo? A inaugurao da herma do heri, daqui a pouco... E as
eleies amanh.
  - No. Quero saber que  que h de novo contigo.
  - Comigo? Nada.
  - Deves estar morrendo de tdio neste cafund-do-judas.
  - Nem tanto.
  - Ests, eu sei. - Rodrigo toma um longo sorvo de mate. - Me arrependo
de ter te trazido. No tens nada que fazer aqui.
  Bela deixa para entrarmos no nosso "ajuste de contas" - reflete
Floriano. Posso dizer: "O senhor est enganado. Tenho uma coisa muito
importante a fazer em Santa  F: acabar de nascer. Esta  a grande
oportunidade. Talvez a ltima". Mas continua calado. Por qu? Sente que
a hora no  propcia ao tipo de conversao que precisa  ter com o
Velho. Jamais conseguiu escrever ou ler com proveito o que quer que
fosse de srio nas primeiras cinco ou seis horas aps o nascer do sol.
Tem a impresso  de que at a msica de Bach quando ouvida pela manh
perde parte de seu sabor, como a fruta gelada.  como se a leveza fresca
da atmosfera matinal se comunicasse  s idias e aos problemas,
diminuindo-lhes o peso especfico. Sim, esta luz de ouro novo que agora
entra alegre pelas janelas, parece ter a capacidade de atravessar  as
pessoas e as coisas, deixando-as transparentes e vazias de contedo
dramtico.
  - Mas no estou arrependido de ter vindo - diz em voz alta. - Afinal de
contas um congresso de famlia  sempre interessante...
  Ia quase dizendo edificante, o que tornaria o sarcasmo (involuntrio?)
ainda maior.
  - Fresco congresso - murmura Rodrigo, apanhando a chaleira para tornar a
encher a cuia.
  Vozes humanas vm da praa, em frases ou gritos. So como dardos soltos
na grande manh luminosa. Rodrigo faz meno de entregar a cuia ao
filho, mas no completa  o gesto.
  - Ia esquecendo que no tomas mate.
  - Pecado mortal segundo a teologia gacha, no?
  - Pecado venial. Os mortais so outros.
  29
  Contemplando o filho com uma mistura de afeto e impacincia, Rodrigo
pensa: "Pecado mortal  ter um corpo como o teu e no us-lo inteiro.
Pecado mortal  viver  a vida que levas. Qualquer dia ainda vou te dizer
estas coisas na cara. Agora no. Estou cansado. Mas quem me dera os teus
trinta e quatro anos!"
  Floriano contempla o pai, esforando-se para no deixar transparecer na
fisionomia a pena que sente dele.
  Este rapaz ter alguma coisa a me dizer? - pergunta-se Rodrigo a si
mesmo. Decerto quer me falar sobre a Snia, me pedir que mande embora a
rapariga. Sempre foi  do lado da me. No o censuro,  natural. Mas por
que no desembucha logo?
  Pigarreia, mete a mo por dentro da camisa, apalpa o trax  altura do
corao. Floriano percebe por entre a cabelama do peito do Velho o
lampejo de alumnio duma  medalhinha oval com a imagem duma santa.
  - Como est se sentindo?
  - Pior que rato em guampa. O Dante quer me empulhar com suas falsas
esperanas. Pensa que esqueci toda a medicina que
  me ensnaram.
  - Mas a crise aguda no passou? Agora no  apenas...? Rodrigo
interrompe-o com um gesto de impacincia.
  - Qual nada!  o que vocs literatos chamam de "mentira piedosa". Eu sei
que pode sobrevir uma recidiva repentina e violenta... e adeus, tia
Chica! No me iludo,  meu filho, os meus infartos foram relativamente
benignos, com repouso e dieta sria eu podia ir longe. Mas depois deste
edema pulmonar agudo, estou condenado.   questo de tempo.
   noite me seria fcil acreditar que ele vai morrer mesmo - reflete
Floriano. - Agora no. H muita esperana na manh. Muita beleza nessa
cabea tocada de sol.  Muito apetite de vida nesses olhos.
  - E sabes como  que vou acabar? Pois eu te digo. Tenho  uma
insuficincia ventricular esquerda. Vou morrer de assistolia.  Para
falar ainda mais claro: vou morrer  asfixiado. Quando eu era  menino, a
histria que mais me apavorava era a do homem que 
  tinha sido enterrado vivo. Tu vs, essa morte foi escolhida a dedo pra mim...
  Agora devo me levantar - pensa Floriano -, pousar a mo no ombro dele e
dizer, jovial: "Acabar coisa nenhuma. No se entregue. O senhor vai aos
oitenta". E por que  continuo aqui sentado e silencioso? Porque estou
mesmo convencido de que ele vai morrer? Porque sei que ele no
acreditar nas minhas palavras? Ou porque tudo pareceria  teatral,
convencional ou piegas? Ou ser porque j descrevi uma situao como
esta num de meus romances? Por qu? Por qu? Vamos, ainda  tempo!
Amanh, depois que  ele se for, sentirei remorso por no ter feito o
gesto.
  - s vezes - continua Rodrigo -, quando estou aqui sozinho, pensando na
morte, pergunto a mim mesmo se no seria melhor meter uma bala nos
miolos e acabar logo esta  agonia.
  Floriano olha instintivamente para a mesinha-de-cabeceira em cuja gaveta
Rodrigo guarda o revlver. Imagina-se entrando no quarto na calada da
noite, na ponta dos  ps, para roubar a arma. E s de pensar no que essa
cena tem de melodramtico ele sente nas faces e nas orelhas um caloro
formigante de vergonha.
  Rodrigo espera e deseja do filho um gesto de amor. Por que est ele ali
de olhos baixos, calado, com as mos segurando os joelhos, como um
ru?... Sim,  curioso,  Floriano tem um permanente ar de ru. 
incrvel que meu filho no tenha nenhuma intimidade comigo. Talvez o
culpado disso seja eu. Mas no, deve ser o sangue dos  Terras. Para ser
justo no devo esquecer que s vezes eu tambm tinha ar de ru na frente
do velho Licurgo. Agora aqui estou como pai. No tenho nenhuma vocao
para o papel.
  Torna a encher a cuia, que aperta com uma das mos, sentindo-a quente,
com algo de humano - seio ou ndega de mulher.
  - Ah! - exclama. - Tive um sonho engraado a noite passada. Vou ver se
me lembro direito...
  Feliz por ver a conversao tomar outro rumo, Floriano anima-se:
  - Somos uma famlia de sonhadores. Eu sonho tanto, que s vezes desperto
cansado com a impresso de haver passado a noite em claro.
  30
  31
  Rodrigo fica por um instante a pescar imagens nas guas turvas do sonho,
tal como este lhe ficou na memria.
  - Bom... Eu estava sentado, no sei bem onde, se aqui ou no Rio... S
sei que era uma roda de chimarro. Enchi a cuia e passei-a  pessoa que
estava mais perto de  mim, dizendo: "Muito cuidado, que ela est
rachada..." Mas senti que essa pessoa no estava acreditando muito no
que eu dizia. Fiquei preocupado, respirando com  dificuldade, porque
sabia que se algum apertasse a cuia com mais fora ou a deixasse cair
eu ia sentir todas essas coisas no corpo... No me lembro do que
aconteceu  depois... Ah! Eu estava encalistrado porque a cuia no tinha
bomba... Os outros percebiam isso mas no diziam nada, para no me
ferir, e eu passei agoniado todo  o tempo que a cuia corria a roda... e
j estava at meio brabo, querendo brigar. No  engraado?
  - A cuia  evidentemente a imagem de seu corao... veja a semelhana na
forma. E no preciso dizer-lhe o que a bomba simbolizava...
  - No me venhas com as tuas interpretaes.
  - O senhor se lembra de quem estava nessa roda de chimarro?
  - No - mente Rodrigo, negando ao filho elementos para prolongar o
assunto. Lembra-se bem de que eram mulheres... mulheres cujas feies
ele no podia distinguir  direito, mas cuja identidade misteriosamente
adivinhava...
  No posso continuar nesta posio - reflete Floriano. - Preciso fazer
alguma coisa.
  Ergue-se, aproxima-se da janela e fica a olhar para a fachada da velha
matriz, lembrando-se das muitas vezes em que essa imagem, fundida ou
alternada com a do Sobrado  e a do mausolu dos Cambars, lhe assombrou
a memria, durante o tempo em que viveu no estrangeiro: a casa onde
nascera, a casa onde fora batizado e onde seu cadver  possivelmente
seria encomendado, e a "ltima morada".
  H entre esses "abrigos" uma certa identidade - reflete. - Os trs esto
de certo modo ligados  idia de nascer e morrer: smbolos maternos,
portanto. Zeca poderia  dizer que entre o bero
  32
  e a vida terrena representados pelo Sobrado e a morte do corpo
simbolizada pelo jazigo perptuo da famlia, a igreja ali estava como
uma promessa de vida eterna...  Ah! Se eu pudesse acreditar nisso - mas
acreditar intensamente, no s com o crebro mas com todo o corpo - tudo
estaria resolvido...
  No coreto da praa um homem experimenta o microfone dizendo num tom
monocrdio: um... dois. .. trs.. . quatro.. . cinco... seis...
  - Daqui a pouco - queixa-se Rodrigo - vou ter que ouvir o bestialgico
do comandante da Guarnio Federal e o do representante do prefeito... A
pstula do Amimas  vai tambm deitar falao. Se eu no estivesse to
esculhambado era capaz de sair daqui e ir dizer a esses calhordas uma
meia dzia de verdades.
  - Por exemplo...
  - Ora, diria a esse povo o que representou a participao da Fora
Expedicionria Brasileira na guerra, do ponto de vista moral. E
aproveitaria a ocasio para mostrar  o que o Brasil deve ao governo do
Getlio. Isso como preldio... Depois entrava na histria dos Cars,
comeando na Guerra do Paraguai, em que um antepassado do  Laurito
salvou meu tio Florncio, que estava ferido, carregando-o nas costas...
Passaria pelas revolues de 93, 23 e 30, para finalmente chegar a 1945.
  Torna a encher a cuia, d um chupo na bomba, faz uma careta e grita:
  - Enfermeiro!
  Recusa-se a pronunciar o nome "Erotildes" que lhe parece indigno de
homem. O ex-sargento surge  porta, perfilado.
  - Me traga mais gua quente.
  O homenzarro apanha a chaleira e retira-se. Rodrigo prossegue:
  - Li a ordem do dia em que o Laurito foi citado. Foi numa das tentativas
de nossa gente para tomar Monte Castello. O rapaz saiu com uma patrulha
de reconhecimento,  a patrulha caiu numa emboscada, o tenente que a
comandava ordenou a seus homens que se retirassem, pois eram em nmero
menor que o do inimigo, e estavam numa posio  desvantajosa. O cabo
Car recusou 
  33
  obedecer  ordem, ficou para trs, sentou joelho em terra, abriu fogo
contra os nazistas e ali se plantou, protegendo a retirada dos
companheiros, que conseguiram salvar-se.   Encontraram o cadver do
rapaz duas semanas mais tarde, coberto de neve e abraado ao seu
fuzil-metralhadora. Tinha sete balaos no corpo.
  - As sete dores de Nossa Senhora. Os sete pecados mortais. O senhor sabe
duma coisa? Temos a elementos para uma canonizao ou pelo menos para
uma beatificao.
  - No seja cnico, Floriano. Sei que esse no  o teu feitio. Por que 
que vocs intelectuais vivem posando de cpticos, fingindo que no so
sentimentais, que  no acreditam em patriotismo nem em civismo? 
impossvel que a faanha do Laurito no te entusiasme. Se o velho
Licurgo fosse vivo, aposto como estaria rebentando  de orgulho do neto,
embora sua cara de pedra no revelasse nada. Era fechado como um Terra.
Tu, alm de Terra, s Quadros. Tens vergonha de teus prprios
sentimentos.
  - Est claro que a proeza do Lauro Car me comove, me entusiasma. No
sou diferente dos outros. Ainda hoje, quando ouo um dobrado marcial,
sinto arrepios cvicos.  Quando tocam o Hino Nacional tenho mpetos de
invadir o Paraguai ou a Argentina e de matar castelhanos ( isso que o
senhor quer?) e de morrer abraado ao auri verde  pendo. Est
satisfeito?
  Rodrigo solta uma risada. Sua mo treme, a erva mida lhe cai da cuia
sobre o peito da camisa, manchando-o de verde.
  - s um caso perdido! - exclama, sacudindo a cabea.
  - Mas acontece - prossegue Floriano - que tudo isso  irracional, uma
deformao, um reflexo condicionado, um resultado da educao defeituosa
que tivemos e que  nos prepara para a aceitao passiva da guerra como
uma fatalidade. H duas idias muito convenientes s classes dominantes:
uma  a de que pobres sempre os haver  (e nisto elas contam com o
testemunho das Escrituras)
  e a outra  a de que as guerras so inevitveis. Vocs todos esto 
encantados com a idia do Laurito heri. Pois eu penso no Laurito 
agonizando, esvaindo-se  em sangue, com sete balas no corpo, morrendo
sozinho, numa montanha da Itlia... No seria prefervel que
  34
  ele estivesse vivo, em Santa F, a manejar o seu torno, a exercer o seu
artesanato?
  Rodrigo ergue o brao e aponta para o filho um dedo acusador.
  - Se esse menino e centenas de milhares de outros no tivessem
sacrificado suas vidas na luta contra a tirania nazista, hoje os
beleguins do Hitler nos estavam dando  ordens e pontaps no traseiro.
Gostaria disso?
  - Est claro que no.
  - Ento? Continuas achando que o Laurito morreu em vo?
  - Precisamos aprender a analisar a guerra sem iluses romnticas, sem o
tamborzinho ingls ou o estudante alsaciano. Temos de ver todo o
problema e no apenas parte  dele. Essas centenas de milhares de
soldados morreram convencidos de que estavam defendendo suas ptrias e
salvando o mundo da tirania. A curto prazo estavam mesmo.  Mas no
devemos esquecer certas contradies monstruosas. As armas e as balas
que mataram os soldados aliados foram em parte financiadas por capitais
ingleses e  americanos, pelos grupos que ajudaram a Alemanha nazista a
armar-se, com a esperana de que ela se lanasse sobre a Rssia. Muitos
desses nobres motivos que levam  os homens  guerra no passam s vezes
de srdidas intrigas mercantis. O resto  neurose coletiva estimulada
pela propaganda.
  - Parece at que ests te convertendo s idias do teu irmo
comunista... Mas esqueces que as causas das guerras no so apenas
econmicas.  preciso levar em conta  tambm o instinto agressivo do
homem...
  - De acordo, mas esse instinto agressivo pode ser dirigido num bom
sentido construtivo, tanto no plano individual como no social. Pelo
menos devemos tentar isso.
  Por alguns instantes ficam ambos em silncio. Depois, mexendo a bomba de
prata com ar distrado, Rodrigo diz:
  - Queres ento dizer que os atos de bravura de homens como o cabo Lauro
Car e tantos outros para ti no tm valor nenhum...
  - Claro que tm! Um imenso valor, mesmo na gratuidade e no absurdo.
Valem em si mesmos numa afirmao do homem
  35
  como homem, na sua capacidade de enfrentar o perigo, de dominar o medo,
de lutar e arriscar-se pelo que lhe parece justo e bom. Eu no perco a
esperana de que um  dia esses heris possam atingir um bom senso to
grande quanto a sua -coragem fsica.
  Rodrigo olha para o filho fixamente, por alguns segundos, silencioso e
srio, e depois explode:
  - Queres saber duma coisa? Vai-te  merda! E me d um cigarro.
  Floriano sorri.
  - O senhor sabe que no fumo.
  - No fumas, no bebes, no jogas... Que  que fazes?
  - Fao o resto, que no  pouco.
  Quando esse filho da me cair em si - reflete Rodrigo - vai ser tarde.
Estar velho, feio e impotente.
  - Senta - diz em voz alta. - Quero te contar umas cenas que estive
recordando hoje.
  Floriano torna a sentar-se. Rodrigo aponta para a janela que emoldura um
quadro: o cu lmpido, as copas das rvores da praa, as torres da
matriz, a cpula do edifcio  da prefeitura...
  - Hoje quando acordei fiquei pensando nas voltas que a vida d... Parece
mentira que eu, Rodrigo Cambar, j fui intendente municipal deste burgo
podre. Te lembras?  O culpado foi o Getlio. Insistiu para que eu
aceitasse a minha candidatura. Tinha sido eleito presidente do Estado,
disse que precisava de mim. No tive outro remdio.
  - Sempre quis saber que foi que o senhor sentiu ao ver-se dentro do
gabinete que o coronel Madruga ocupou por tanto tempo.
  - Nojo. Mandei imediatamente fazer uma limpeza geral no edifcio,
desinfetar as salas com formol, pintar de novo as paredes, tirar enfim
aquele cheiro de sangue,  suor e mijo, aquele bodum de vrias geraes
sacripantas e bandidos.
  Erotildes entra com a chaleira, que repe sobre a mesinha.
  - Mais alguma coisa, doutor?
  - No. Pode ir embora. E feche a porta.
  36
  Rodrigo segue com o olhar o enfermeiro que se retira. Depois de ver a
porta fechar-se, diz:
  - E tu ainda me vens com teus sonhos de igualdade... Mas, como eu ia
dizendo... Vinte dias depois da minha posse, quase duzentos e cinqenta
operrios estavam abrindo  valas nas ruas de Santa F...
  Enche a cuia, toma um gole prolongado, sorri e prossegue:
  - ...e um trem com dez vages cheios de tubos e outros materiais chegava
 estao. O dr. Rodrigo Cambar cumpria a promessa que tinha feito ao
eleitorado e a si  mesmo: dar um servio de gua e esgotos a Santa F
antes de terminar seu primeiro ano de governo! Que me dizes?
  - Eu me lembro da reao popular.
  - Engraado! Te lembras apenas do aspecto negativo do problema. Natural!
No princpio quase todos ficaram contra mim. Desandaram num falatrio
desenfreado, porque  eu estava demolindo as finanas do municpio...
porque aquilo era uma loucura... porque eu ia sacrificar vrias geraes
de santa-fezenses... porque a cidade no  agentava despesas daquele
porte... e porque isto e porque aquilo. Chegaram at a insinuar que eu
estava metendo a mo nos cofres municipais, quando na realidade  eu
tirava dinheiro de meu prprio bolso, me arruinava quase, para ajudar as
obras. Te lembras daquele drama, O inimigo do povo? Claro que te
lembras, pois eu te  via sempre s voltas com o Ibsen. Pois . Olha o
que aconteceu ao dr. Stressmann ou Stockmann... ou coisa que o valha. O
povo  inconseqente e ingrato.
  Estende o indicador na direo de Floriano.
  - E tu tens a o resultado. Agora todo o mundo me aplaude, me d razo.
Fiz naquele tempo por um preo irrisrio o que hoje custaria uma
fortuna. O emprstimo que  o municpio contraiu est pago e a vida da
cidade melhorou. Mas... ah! Antes de reconhecer isso a canalha tinha de
me difamar, de pedir a minha cabea, de me crucificar...
  Faz uma curta pausa em que fica pensativo, acariciando a cuia. Depois
pergunta:
  37
  - Te lembras do meu plano para acabar com a pobreza de Santa F? 
  Floriano sacode afirmativamente a cabea. Mal tomou posse do cargo,
Rodrigo saiu a visitar comerciantes, fazendeiros e capitalistas do
municpio para pedir-lhes  o auxlio financeiro de que necessitava a fim
de levar a cabo o seu grandioso projeto de liquidar os ranchos
miserveis e nauseabundos do Purgatrio, do Barro Preto  e da Sibria,
substituindo-os por casas de madeira, modestas mas limpas e
razoavelmente confortveis, que seriam entregues gratuitamente aos
"desprotegidos da sorte".  No fazia propriamente pedidos: dava ordens,
impunha quantias, no aceitava negativas. Quase bateu na cara dum
Spielvogel que recusou contribuir para o fundo, alegando  que j pagava
impostos altos ao municpio. Por fim, de posse duma importncia
considervel em dinheiro, mandou comear a construo das casas, mas da
maneira como  fazia todas as coisas: depressa, com paixo e sem plano.
Quando viu terminado o primeiro grupo de moradas, erguidas em terras
pertencentes  municipalidade, deu-lhe  o nome de Vila Esperana e
inaugurou-o festivamente com discursos, foguetrio e banda de msica. A
mudana dos primeiros habitantes do Barro Preto convocados para  povoar
a vila processou-se sem maiores dificuldades. As famlias vinham de bom
grado, trazendo a prole e os tarecos. Houve, porm, um caboclo que
recusou mudar-se:  Juc Cristo, assim chamado por causa da barba, da
cabeleira longa, dos olhos doces e duma certa reputao de milagreiro.
Morava com a mulher e cinco filhos num pardieiro  construdo em cima dum
pntano e feito de taquaras, esterco e latas de querosene. As crianas,
magras, macilentas, seminuas e cobertas de muquiranas, viviam em
promiscuidade  com cachorros e porcos. Daquele cho, daquele rancho e
daquela gente despedia-se uma fedentina medonha. Mas por uma razo
qualquer, sentimental ou supersticiosa,  Juc Cristo negava-se a
abandonar sua moradia. Rodrigo decidiu tratar do assunto pessoalmente.
Numa fria manh de agosto, encaminhou-se para o Barro Preto, parou  a
cinco metros da morada do caboclo e gritou por ele. Juc Cristo apareceu
com toda a famlia. "Quero que se mudem hoje mesmo" - disse o senhor do
Sobrado. O caboclo,  molambento, encardido,
  38
  descalo, pregou o olhar no cho e balbuciou: "No carece, doutor. A
gente est bem aqui". Rodrigo tentou todos os meios persuasrios, e quando
viu que no conseguia  nada, tornou-se ameaador, falou em autoridade e
em polcia. Mas Juc Cristo manteve-se irredutvel. Sua arma agora era o
silncio. E o intendente de Santa F ali  estava, furioso e ao mesmo
tempo embaraado, recendente a Chantecler, metido no seu sobretudo com
gola de astrac - parado e impotente diante daquele pobre-diabo
esqueltico e esqulido, atrs do qual se enfileiravam a mulher de cor
terrosa, com horrveis varizes nas pernas, e aquelas crianas opiladas e
subnutridas, cujos  molambos esfiapados se agitavam ao vento glido da
manh.
  - Estou pensando no caso do Juc Cristo... - diz agora Floriano.
  - Tens uma memria infernal para as coisas negativas!
  - O senhor no vai me dizer que no  uma grande histria...
  - L isso ! Te confesso que passei os piores momentos da minha vida no
dia em que enfrentei o Juc Cristo e a famlia. Palavra, eu preferia
estar diante dum peloto  de fuzilamento... Mas no podia ficar
desmoralizado. Quando vi que no havia outro remdio, mandei um
funcionrio da Intendncia atirar querosene no rancho e tocar  fogo
nele...
  - Temos a o eterno problema dos fins e dos meios.
  - Minha conscincia me dizia que eu estava procedendo bem. Mas assim
mesmo a coisa foi dura. Ao ver o rancho em chamas, a famlia rompeu a
gemer e a chorar, o Juc  Cristo caiu de joelhos, ergueu os braos como
um profeta e comeou a gritar coisas para o cu. Me amaldioou, me rogou
pragas, disse horrores... Eu j no sabia  se lhe pedia desculpas ou se
lhe dava um pontap na cara. A mulher, essa parecia uma possessa,
atirada no cho, rolava no barro, soltando guinchos. E os olhos daquelas
crianas... Santo Deus! Estavam fitos em mim com uma expresso de pavor
como se eu fosse um monstro, um incendirio! A tens outra prova de que
o povo no sabe bem  o que lhe convm. Ah! Meus inimigos naturalmente
aproveitaram a oportunidade para me atacar. Imagina, s porque eu quis
melhorar a vida duma famlia. No vs me  dizer que tambm achas que
procedi mal.
  39
  - Est claro que no. Mas me parece que no se cura cncer com
pomadinhas caseiras. 
  - Bolas! Nem com literatura.
  - No pense que no compreendo o seu gesto...
  - No se trata de compreender gestos. Olha a realidade, os fatos.
Contribu ou no contribu para melhorar a vida da gente da minha terra?
  - Contribuiu, no nego. O Bandeira vive a citar um filsofo segundo o
qual a verdade s se revela na ao.
  - Pois estou inteiramente de acordo com esse filsofo, seja ele quem
for.
  Faz-se um silncio. Rodrigo tem um curto acesso de tosse e Floriano
julga perceber em seus olhos uma sombra de susto. Mas acalma-se,
pigarreia, passa os dedos pela  garganta, respira fundo e depois, mais
calmo, torna a despejar gua quente na cuia e a chupar a bomba.
  - A Intendncia me deu muitos cabelos brancos - diz ele, sorrindo -, mas
houve momentos cmicos. Ainda hoje de manh estive me lembrando de um
episdio, dos melhores...  Tu sabes como a nossa gente  sem cerimnia,
alivia a bexiga em qualquer parte. Se cachorro procura rvore ou poste,
para nossos caboclos qualquer parede serve...  Pois bem. Um ms depois
que mandei pintar e desinfetar a Intendncia j no se podia mais
agentar o cheiro de urina que vinha do ptio. E que todo o mundo,
funcionrios  e pessoas de fora, usava a parte traseira do edifcio como
mictrio. Mandei pregar boletins e cartazes em toda a parte, proibindo
terminantemente o abuso e ameaando  os infratores com multas. Pois bem.
Um belo dia eu entrava na Intendncia pela porta dos fundos quando vi um
gacho todo paramentado, botas, esporas, sombreiro e  pala, encostado a
uma parede, vertendo gua. No me contive. Avancei na direo dele e
apliquei-lhe um bom pontap no rabo. O homem deu um pulo, virou-se,
assustado,  j com a mo no revlver, mas quando me reconheceu ergueu os
braos, comeou a gaguejar "Me desculpe, doutor, me desculpe...", e a
todas essas a esguichar urina  como um chafariz, e eu recuando para no
ser atingido pelos esguichos do homem, e j sem saber se
  40
  i
  me ria ou se ficava brabo... Foi uma cena grotesca. Nunca vi maior
cabula numa cara. Era um subdelegado do interior do municpio e tinha
vindo para me pedir uma  audincia. No teve coragem. Estava encafifado
e ao mesmo tempo ofendido. Montou a cavalo e voltou para seu distrito no
mesmo dia. Ests a ver que a histria se  espalhou (houve duas ou trs
testemunhas) e na Intendncia no se falou noutra coisa durante dias.
  Rodrigo inclina-se e pe a cuia do lado da chaleira.
  - A tens uma cena para o teu prximo romance. Floriano limita-se a
sorrir. E o pai acrescenta:
  - Est claro que no podes us-la. Eu sei. No  de bom gosto. Vocs
romancistas costumam passar a realidade por um filtro purificador e o
resultado  uma vida pasteurizada,  expurgada, capada... E eu te
pergunto se a vida real tem alguma considerao para com nossa
sensibilidade e o nosso bom gosto. O velho Teixeira est no fundo duma
cama comido pelo cncer, sabias? Eu estou aqui com o corao e o pulmo
bichados. Compara aquele retrato l embaixo com este original...
  - Qual nada! O senhor est muito bem para um homem de
  sessenta anos.
  - Cinqenta e nove.
  - Pois parece cinqenta.
  - Tenho espelho no quarto. Sei como me sinto. Mas grita ao enfermeiro
que me traga o caf. Estou com fome.
  Floriano obedece.
  - No fim do meu sexto ms de Intendncia - diz-lhe o pai, quando ele
retorna ao quarto - j andava enojado daquilo, louco para largar o
cargo. Estava cansado da  papelama, da rotina, da burocracia, dos
pedintes, da adulao, da pequenez das pessoas e dos seus problemas... E
tambm farto de Santa F, com uma vontade danada  de fazer uma viagem a
Paris.
  - A campanha da Aliana Liberal foi ento providencial.
  - Chegou na hora exata. Eu me sentia neste fim de mundo como um
parelheiro que precisa de cancha maior.
  Floriano ouve mentalmente a voz de Eduardo: "O que o Velho no conta 
que em 1929 os negcios do Angico iam mal e ele
  41
  encontrou na campanha poltica e mais tarde na revoluo uma sada para
as suas dificuldades financeiras. Esse foi o caso no apenas dele como
tambm o de centenas  de outros estancieiros e homens de negcios. O que
prova que o marxismo est rigorosamente certo". E em pensamento Floriano
responde: "Tens apenas uma parte da verdade.  O econmico no explica
tudo. Houve tambm um poderoso fator psicolgico. Esquece que nosso pai
em 29 tinha j entrado na casa dos quarenta, a idade em que o homem
comea a fazer-se perguntas sobre si mesmo e sua vida, e a pensar no
pouco tempo de mocidade que lhe resta. No  natural que um homem da
vitalidade do Velho se  estivesse sentindo sufocado, maneado, dentro das
limitaes de Santa F?"
  - Foi uma grande campanha - diz Rodrigo, olhando para a janela. - Me
atirei nela de corpo e alma, tu te lembras... Os rodeios estavam
misturados, maragatos e republicanos  faziam as pazes, velhos inimigos
se reconciliavam  sombra da bandeira da Frente nica. O Liroca, esse
andava transfigurado, como se estivesse presenciando um milagre.  A mim
me coube dirigir o movimento na serra. O prprio Getlio me escreveu
pedindo isso. Ah! Mas no foi fcil, tive de engolir uns caroos duros.
Logo que se anunciou  a nova frente poltica no Estado, o Amintas me
mandou um emissrio: queria fazer as pazes comigo a todo o transe.
Relutei, desconversei o quanto pude, mas tu sabes,  no guardo rancor a
ningum, o homem insistiu e eu acabei dizendo que viesse. O filho da me
se vestiu de preto, se perfumou de Jicky e veio me ver na Intendncia,
se desfez em elogios  minha pessoa. Se desculpou das infmias que tinha
dito e escrito a meu respeito, s faltou me beijar os ps. Me trouxe uma
faca de prata de  presente. Tive vontade de dizer: "Meta no rabo". Mas
aceitei, para no discutir. Dias depois apresentou-se o Madruga. Esse,
mais discreto, se limitou a me apertar  a mo, sem me olhar de frente.
Puxou um pigarro, resmungou duas palavras e se foi. E agora me diz uma
coisa, Floriano. Nesta hora em que eu podia estar na rua fazendo  essa
campanha e ajudando o Getlio, no  uma injustia eu estar fechado aqui
neste quarto, como um mutilado, um invlido?
  Floriano sacode afirmativamente a cabea.
  42
  - Mas tu no podes compreender isso direito - continua Rodrigo - porque
no tens como eu a poltica no sangue. Puxaste pelo velho Babalo.
  Erotildes entra com uma bandeja, que pe na mesinha ao lado da cama:
caf com leite e torradas secas.
  - Querem me matar de fome? - E como Erotildes esteja  sua frente, com o
dente de platina a brilhar, Rodrigo grita: - Est bem, pode ir embora! -
Volta-se para Floriano:  - Tu vs, nem comer direito me deixam. Isto 
vida?
  - Tenha pacincia.
  - A pacincia no  das minhas virtudes, tu sabes. Rodrigo pe acar na
xcara, mexe o caf, mergulha nele uma
  torrada e pe-se a com-la com uma voracidade sem gosto.
  - Seu apetite  um bom sinal.
  O pai encolhe os ombros, toma um gole de caf.
  - Eu me lembro muito bem das eleies de 30 - diz Floriano, passeando  atoa pelo quarto.
  - Uma farsa! - exclama Rodrigo, de boca cheia. - A situao recorreu 
fraude. A mquina poltica do governo federal entrou em atividade. A
revoluo se impunha  como um corretivo s urnas.
  - Ns tambm fizemos a nossa fraudezinha...
  - Como? - protesta Rodrigo, e uma partcula mida de po lhe salta dos
lbios como um projtil.
  - Ento o senhor no se lembra?
  - No me lembro de coisa nenhuma.
  - Pois a histria est fresca na minha memria por ter representado o
meu primeiro contato direto com o "processo democrtico". Eram cinco da
tarde, no dia das eleies,  e eu estava na praa lendo L jardin
d'picure (por sinal era um livro com notas suas  margem), quando o
Chiru se aproximou e disse - "Teu pai est te chamando".  Acompanhei-o
at a Intendncia, onde estavam instaladas vrias das mesas eleitorais.
O senhor me segurou o brao e murmurou (vou lhe repetir suas palavras
textuais):  "Meu filho, a esta hora os lacaios do Washington Lus em
dezoito Estados da Unio esto falsificando as atas e esbulhando a
eleio. Se no
  43
  fizermos o mesmo, estamos perdidos. A nossa causa  boa e o fim
justifica os meios". Foram estas exatamente as suas palavras. Lembra-se?
  Os olhos postos no soalho, mastigando lentamente, Rodrigo parece
consultar a memria.
  - O senhor ento me mostrou seus companheiros que estavam todos
empenhados em assinar nas atas nomes de eleitores imaginrios, para
aumentar os votos para Getlio  Vargas e Joo Pessoa. Em suma, queriam
que eu tambm colaborasse... Minha relutncia caiu diante da sua
veemncia. Ainda me segurando o brao com fora, o senhor  me puxou para
uma mesa, fez-me sentar, me meteu uma caneta entre os dedos e me
apresentou o livro de atas. E, com as orelhas ardendo, ali fiquei a
assinar nele os  nomes que me vinham  cabea, em letra ora redonda ora
angulosa ora cada para a direita ora para a esquerda...
  - Repito que s tens memria para as coisas negativas.
  - E sabe qual foi a maneira que encontrei de varrer a testada? Foi
inventando e escrevendo nomes como Jrme Coignard da Silva, Joo
Gabriel Borkmann da Cunha, Dorian  Gray de Almeida, Hendrik Ibsen de
Oliveira. Era como se eu estivesse mandando uma mensagem cifrada 
Posteridade nestes termos: "Forado a me acumpliciar nesta fraude,
submeto-me  comdia cum grano salis". E enquanto eu escrevia, uma voz
dentro de mim repetia um estribilho: "Isto ento  democracia? Isto
ento  democracia?"
  Rodrigo olha para o filho e diz:
  - Exatamente. Aquilo era democracia. Foi por essa e por outras que o
Getlio compreendeu que nosso povo no estava e no est amadurecido
para o regime democrtico.  Naturalmente no concordas.
  - No. Na minha opinio, que vai contra a sua e contra a do Eduardo, s
h um caminho para uma boa democracia:  ainda uma democracia defeituosa
como as que temos  tido.
  Faz-se um novo silncio. Por alguns segundos o enfermo toma o seu caf e
come as suas torradas. Por fim, diz:
  - Na tua opinio, a Revoluo de 30 foi desnecessria...
  Floriano encolhe os ombros. E no silncio que de novo se faz, pai e
filho pensam ao mesmo tempo naquela noite de 3 de outubro de 1930. E
ambos tm na mente o mesmo  fantasma: a imagem do tenente Bernardo
Quaresma.
  s dez menos quinze, quando Neco Rosa entra no quarto de Rodrigo,
encontra-o sozinho.
  - Tratante! Ests atrasado. Fecha essa porta.
  Neco obedece. Depois coloca o chapu e a bolsa em cima duma cadeira.
  - E que tal,  como vamos? - pergunta o barbeiro.
  - Mal. Viste a Snia?
  - Vi.
  - Como vai?
  - Meio chateada. Contou que passa o dia fechada no quarto do hotel,
lendo. Pediu que te agradecesse os livros que mandaste.
  - Algum recado?
  - Nada especial. S diz que est com muita saudade.
  - Neco, fala com toda a sinceridade. Algum andou dando em cima da
menina?
  - Ningum.
  - Palavra de honra?
  - Palavra de honra.
  - Vamos duma vez com essa barba!
  Neco Rosa tira os petrechos da maleta, despeja um pouco da gua da
chaleira na tigela de metal, onde deitou um pouco de sabo em p, e
mexe-a com o pincel, para  fazer espuma. Amarra uma toalha ao redor do
pescoo de Rodrigo e pe-se a ensaboar-lhe
  o rosto.
  - As eleies amanh... - comea. Mas o outro interrompe-o:
  - Neco, vou te pedir um grande favor.
  - Diga.
  - Preciso ver essa menina hoje, custe o que custar.
  Neco pra, com o pincel no ar, lanando para o amigo um olhar enviesado.
  - Que  que ests arquitetando?
  44
  45
  - Muito simples. Quando sares daqui, vai ao hotel e diz  Snia que
hoje, ests ouvindo? hoje, ali por volta das seis da tarde, ela passe
devagar pela calada da  praa, na frente do Sobrado...
  Neco continua a mirar o amigo com o rabo dos olhos.
  - No estou te entendendo direito...
  - Eu estarei com a cama perto da janela, para v-la passar.
  - Mas isso no  arriscado?
  - Deixa o risco por minha conta.
  - s seis o dia ainda est claro!
  - Se no estivesse eu no podia ver a cara dela, animal! O movimento do
pincel recomea. Neco d de ombros.
  - Est bem. Sua alma, sua palma.
  - Diz pra ela que tambm estou louco de saudade. Que faa mais esse
sacrifcio. Talvez seja o ltimo...
  Segura de repente com ambas as mos as lapelas do casaco do barbeiro e
exclama:
  - Neco, eu vou morrer! Tu no compreendes? Eu vou 
  morrer!
  Seus olhos enevoam-se. Suas mos caem. Neco abre a navalha e comea a
pass-la freneticamente no assentador, como a preparar-se para degolar o
amigo.
  Agora os sons duma banda de msica atroam os ares.  um dobrado: El
capitn. Lgrimas brotam nos olhos do senhor do Sobrado.
  Desconcertado, Neco aproxima-se da janela, olha a praa e, para fazer
alguma coisa, comea a contar o que v:
  - Vai comear a festa... Quem diria, hein? O Laurito Car feito heri
nacional... Xi... O coreto est cheio de oficiais com crachs no peito.
A praa toda embandeirada  como clube de negro. Vem chegando uma
companhia do Regimento de Infantaria... O busto est coberto com a
bandeira brasileira.
  - Me fazes ou no me fazes esta barba? - vocifera Rodrigo.
  Floriano marcou um encontro com Roque Bandeira no Caf Poncho Verde,
onde est agora sentado a uma mesa junto da janela, a olhar para fora.
  46
  Se eu tivesse de descrever num romance esta praa neste exato momento...
que faria? O problema mais srio no seria de espao, mas de tempo. Como
dar em palavras  o quadro inteiro com a rapidez e a luminosa nitidez com
que a retina o apanha? Impossvel! O remdio  reproduzir um por um os
elementos do quadro. Mas por onde  comear? Do particular para o geral?
Tomar, por exemplo, aquela menininha de vestido azul-turquesa que ali
passa na calada, lambendo um picol to rosado quanto  sua prpria
lngua? Ou partir do geral e descer ao particular? Nesse caso eu
comearia pela abbada celeste e me veria logo em dificuldades para
definir a qualidade  desse azul sem mancha - sem jaca, como se dizia no
tempo do Bilac, quando os escritores tinham uma paixo carnal pelas
palavras. Depois qualificaria a luz do sol  - ouro? mbar? mel? topzio?
ch? Podia escrever simplesmente "a luz do sol das cinco horas duma
tarde de dezembro"... e o leitor que se danasse! Est claro que  viriam
a seguir as rvores: cedros, pltanos, jacarands, paineiras,
cinamomos... O pintor frustrado que mora dentro de mim no poderia
deixar de anotar o contraste  entre o vermelho queimado dos passeios
interiores da praa e o verde e lustroso da relva dos canteiros. Mas que
importncia pode ter esse pormenor pictrico depois  da destruio de
Hiroxima? E por falar em Hiroxima, l vai o Takeo Kamuro, o primeiro e o
nico residente japons de Santa F, puxando por cordis os bales que,
como um enorme cacho de uvas amarelas, azuis, vermelhas e verdes,
esvoaam sobre sua cabea. Leva tambm um cesto cheio de ventoinhas
tricolores de papel de seda.  No centro do redondel, cercado de crianas
que erguem as mos para os bales, o japons parece um hai-kaivivo...
Mas escrevendo tudo isso eu no ajudaria muito o  leitor a visualizar o
quadro. A cena toda tem um ar alegre e meio rstico de feira: homens,
mulheres e crianas a passearem pelas caladas ou sentados nos bancos:
senhoras e senhores idosos debruados s janelas de suas casas que do
para a praa. O vento faz esvoaar (terei eu um dia a coragem de usar o
verbo flabelar?) as  bandeirinhas de papel - do Brasil e do Rio Grande -
que os funcionrios da prefeitura laboriosamente colaram em extensos
barbantes que, presos nos galhos das rvores,  atravessam a praa em
duas longas diagonais. E
  47
  os cheiros? Grama, poeira ensolarada, pipoca, fumaa de cigarro,
perfumes de todos os preos. E os sons? As vozes humanas... os
alto-falantes da Rdio Anunciadora,  um em cada esquina da praa,
despejando no ar implacavelmente uma valsa vienense. A cometa fanhosa do
srio que vende picols. Que mais? (L se vai o mtodo!) Cachorros,
passarinhos, uma pandorga rabuda no ar, longe... Uma criana correndo
atrs duma bola em cima dum canteiro... Um gacho pobre passando na rua
montado num bragado  de olhos tristes... Os automveis cruzando pela
frente do caf... O busto de Lauro Car no centro da praa, frente a
frente com o de dona Revocata Assuno, tendo  a separ-los o redondel
de cimento, onde moas e rapazes deslizam, sozinhos ou aos pares, nos
seus patins de rodas...
  Terminado o inventrio, teria eu dado ao leitor uma idia do quadro?
Duvido. Neste particular a pintura, arte espacial,  mais feliz que a
literatura. De resto,  que importncia real poder ter a descrio duma
paisagem numa histria de seres e conflitos humanos? Talvez o melhor
seja resumir tudo assim: Eram cinco da tarde,  na praa da Matriz, a
essa hora cheia de gente que vinha ver a esttua do cabo Lauro Car,
heri da FEB, inaugurada pela manh.
  - Falando sozinho?
  Floriano volta a cabea e v tio Bicho a seu lado.
  - Ah! Estava pintando a praa.
  Soltando um suspiro de alvio, o outro se acomoda na cadeira ao lado do
amigo, tira o palheta da cabea e coloca-o em cima da mesa. Passa o
leno pela carantonha  reluzente de suor, chama o garom, pede uma
cerveja gelada, descala os sapatos e fica a acariciar os joanetes.
  - Como te foste de inaugurao? - indaga.
  - Ora... agentei como pude.
  - E os discursos... muito infectos?
  - Um dos oradores me deu a impresso de que sem o auxlio do Brasil os
aliados jamais teriam derrotado a Alemanha. E o nosso inefvel Amintas
Camacho, que por sinal  esteve sublime, afirmou que o Laurito Car,
ajudando a Itlia a livrar-se do jugo nazista,
  48
  tinha pago a dvida de honra e de gratido que o Rio Grande contraiu com
Giuseppe Garibaldi em 1835...
  - Muita gente?
  - Uma pequena multido.
  - A av do busto compareceu?
  - Sim, toda de preto, muito digna, como uma verdadeira dama.
  - Dona Ismlia  uma dama.
  - Os pais do Laurito choraram durante todo o tempo da cerimnia, mas a
av ficou impassvel, de cabea erguida, os olhos
  secos e serenos.
  - Deve ter sido uma cabocla bonita, porque o velho Licurgo teve um
rabicho danado por ela.
  - Sabes duma coisa? s vezes sinto uma certa vontade de conversar com a
velhinha, perguntar-lhe coisas sobre o meu av. Acho que ela o conheceu
melhor que ningum.
  -  possvel que o coronel Licurgo fosse menos fechado e enigmtico
deitado do que de p. E por falar em av... aquele que l vem no  o
velho Aderbal?
  Aponta na direo do Sobrado. Floriano olha, sorri e diz:
  - Em carne e osso... E tio Bicho completa:
  - ... com seus oitenta e pico na cacunda.
  No seu tranco de petio maceta, to conhecido em Santa F e arredores,
Aderbal Quadros atravessa a rua palmeando fumo picado, com uma palha de
cigarro especada atrs  da orelha. As largas abas do chapu campeiro
sombreiam-lhe a cara emagrecida, onde as falripas brancas da barba e do
bigode esvoaam. Veste um casaco de riscado,  bombachas da mesma
fazenda, cala botas de fole e traz um leno branco amarrado ao pescoo.
Chegou h pouco do Sutil, deixou o cavalo no quintal do Sobrado e agora
vem "dar uma olhada" no busto do cabo Car.
  Um grupo de curiosos cerca a herma, discutindo a parecena fisionmica.
O trabalho foi feito meio s pressas pelo escultor duma casa de
monumentos fnebres de Porto  Alegre, que teve como nico modelo uma
fotografia. Laurito Car aqui est com um capacete
  49
  de guerra na cabea, o torso apertado no dlm militar, uma medalha no
peito.
  Chico Pais, que hoje abandonou sua padaria muitas vezes, para vir 
espiar a esttua", proclama que a esta s falta falar. E acrescenta: "O
Laurito, quando era pequeno,  foi meu empregado, me ajudava a tirar po
do forno".
  Cuca Lopes, que em movimentos de piorra tem andado ao redor do
monumento, examinando-o dos mais variados ngulos, profere agora sua
sentena: "No est parecido.  O Laurito era mais magro e no tinha
nariz to grande".
  Quica Ventura olha obliquamente para a esttua, de longe, resmungando
para o Calgembrino do cinema, que est a seu lado: "Muito corrido dei
nesse moleque quando  ele pulava a cerca l de casa pra me roubar
laranja. Agora est a feito heri. X mico!" Solta uma cusparada no
cho.
  Aderbal Quadros aperta os olhos, foca-os na figura de bronze e pensa: "A
testa e a boca so do finado Licurgo". Mas nada diz. Algum lhe bate no
ombro. Babalo volta-se.
  - Olha quem est aqui! - exclama. - Como vai essa bizarria, Liroca?
  Abraam-se. Jos Lrio, enfarpelado na roupa domingueira de casimira
preta, com a qual compareceu esta manh  inaugurao do busto, brinca
com a libra esterlina  que lhe pende da corrente do relgio. As pontas
dum leno maragato aparecem acima das bordas do bolso superior do
casaco. Liroca acerca-se do monumento, tira respeitosamente  o chapu, e
l pela quinta vez a inscrio da placa:
  AO CABO LAURO CAR, SOLDADO DA FORA EXPEDICIONRIA BRASILEIRA, E QUE
MORREU COMO UM BRAVO NA ITLIA, NA DEFESA DA PTRIA E DA DEMOCRACIA - A
SUA CIDADE NATAL ORGULHOSA  E GRATA.
  - Quem diria! - murmura ele para Babalo. - Um pio que muita vez eu vi na
rua de p no cho, fazendo mandaletes. - Seu peito arfa ao ritmo duma
respirao spera  e cansada. - Os Cars
  50
  sempre pelearam em campo aberto, mas esse menino teve de brigar em
montanha, como cabrito. Mas brigou lindo, como homem. Sangue no nega.
Cambar misturado com Car  s podia dar isso...
  Aderbal Quadros pita agora em calmo silncio, a fumaa de seu cigarro
sobe no ar. Com passos incertos de bbedo, don Pepe Garcia aproxima-se
do busto, mira-o com  seus olhos injetados, murmura: "Ptrida!" e
continua seu caminho, vociferando contra a arte comercial e contra o
capitalismo engendrador de guerras que matam a flor  da mocidade. E,
pisando nas flores dos canteiros, grita para o cu: "Me cago en Ia leche
de Ia madre de todos Los hroes!"
  O dr. Cario Carbone, todo vestido de linho branco, sai da sua Casa de
Sade de brao dado com a segunda esposa, e encaminha-se para o centro
da praa, a cabea descoberta,  as barbas e os cabelos completamente
brancos. O ex-coronel dos benaglieri - conserva, apesar da idade, uma
postura rgida. Seus passos e gestos so vivos, e todos  afirmam que
suas mos de cirurgio no perderam nada da antiga firmeza e habilidade.
  - Olha s aquele velho desfrutvel - ronrona Liroca ao ouvido de Babalo,
tocando-o com o cotovelo. - Quando dona Santuzza bateu com a cola na
cerca, ele ficou desesperado,  inconsolvel... Falou at em suicdio. No
entanto um ano depois casou com essa gringa de Garibaldina, quase
quarenta anos mais moa que ele.  ter muita vocao  pra corno!
  Babalo abstm-se de qualquer comentrio.
  O dr. Carbone mostra a herma  esposa e conta-lhe que um dia operou
Laurito Car dum quisto sebceo. Desprende-se dela, d dois passos e
toca com o indicador o centro  da testa da escultura: "Bem aqui". Ela
sorri. E alta, duma boniteza agreste de colona: seios abundantes, duas
rosas naturais nas faces. O mdico torna a agarrar-lhe  o brao. Sua
cabea mal chega aos ombros da mocetona, que ele proclama "bella comme
una pittura di Caravaggio".
  Ouve-se um grito lancinante. Liroca e Babalo voltam a cabea. Uma
criana chora aos berros no redondel, os braos erguidos para o balo
amarelo que acaba de escapar-lhe  das mos e sobe, impelido pela brisa,
quase toca no galo do cata-vento da matriz e depois se vai, rumo do
poente.
  51
  Sentado ainda  sua mesa de caf, Floriano acompanha com o olhar o balo
amarelo, pensando em Slvia, desejando sair de mos dadas com ela por
esses campos ao sol  (a idia pode ser piegas mas a coisa em si seria
boa) e caminhar, caminhar, rumo de horizontes impossveis, procurando no
espao uma soluo que o tempo lhes nega.  E ao pensar estas coisas,
beberica o horrendo caf que acabam de servir-lhe. Tio Bicho toma um
largo sorvo de cerveja, ficando com bigodes de espuma, que lambe
voluptuosamente  com a lngua pontiaguda, dum rseo pardacento. O balo
desaparece do campo de viso de Floriano, mas a imagem de Slvia ainda
continua em sua memria... Slvia danando  nua na noite californiana, o
balo amarelo sobre o sexo. E ele chaga a ressentir na memria os odores
daquele cabar de Chinatown: comida chinesa, usque e ch de  jasmim.
  Tio Bicho toca-lhe o brao.
  - Olha quem vem l...
  Floriano avista irmo Zeca e Eduardo, um vestido de preto e o outro de
branco. Caminham lado a lado ao longo de um dos passeios da praa. Agora
param, ficam frente  a frente, parecem discutir, o marista sacode
negativamente a cabea. Edu ergue o jornal que tem na mo, bate nele
como para mostrar alguma coisa. O outro encolhe  os ombros. Retomam a
marcha, atravessam a rua, entram no caf e sentam-se  mesa de Floriano
e Bandeira. Este toma o jornal das mos de Eduardo.  o Correio
do Povo de hoje, chegado pelo avio da manh.
  - Ouam esta... - diz o tio Bicho, com o jornal aberto diante  dos
olhos. - A Liga Eleitoral Catlica recomenda a seu eleitorado os nomes
do general Dutra e do  brigadeiro Eduardo Gomes para presidente da
Repblica, e declara que nenhum catlico deve votar no candidato dos
comunistas. Que  que vocs romam? Um guaran, Zeca?
  O marista apalpa distrado o crucifixo que lhe pende do pescoo.
  - Guaran coisa nenhuma! - diz. - Uma cerveja gelada.
  - Esse  dos meus! - exclama tio Bicho, dando uma palmada nas costas do
rapaz e fazendo desprender-se da batina uma tnue nuvem de poeira.
Volta-se para Eduardo:  - E tu, camarada?
  52
  - O mesmo.
  Floriano chama o garom e pede as bebidas. Tio Bicho continua a folhear
o jornal.
  - Esta  boa. Escutem. O Comit Pr-Fiuza analisa os candidatos 
presidncia da Repblica. Dutra: candidato dos integralistas, espies e
criminosos que avisaram  os submarinos do Eixo da sada de nossos
pacficos navios mercantes, mandando  morte milhares de patrcios.
Agora o Eduardo Gomes.
  Candidato dos velhos politiqueiros, da alta aristocracia e dos agentes
do capitalismo estrangeiro colonizador.
  Sempre de olhos baixos, a manipular seu crucifixo, irmo Zeca sacode a
cabea murmurando:
  - Nada disso tem sentido.
  O garom pe sobre a mesa duas garrafas de cerveja e dois copos. Os
recm-chegados servem-se e comeam a beber com o entusiasmo da sede. Tio
Bicho continua a ler:
  - Disse em discurso no precisar do voto dos marmiteiros. (Marmiteiros
so os trabalhadores pobres que conduzem suas marmitas para fazer suas
refeies nos locais  de trabalho.)
  O marista ala vivamente a cabea:
  - Vocs acreditam que o brigadeiro tenha mesmo dito isso? Que achas,
Bandeira?
  - Pode ser uma intriga, como a das famosas cartas do Bernardes em 1922.
E o fato da intriga ser agora contra o Z Povinho e no contra o
Exrcito  um sinal dos  tempos... E um bom sinal.
  - Se o brigadeiro no disse isso - opina Eduardo -, pelo menos pensou,
porque essa  a atitude mental de sua classe. Seja como for, ele  o
candidato dos americanos.  Ningum ignora que o golpe de 45 foi
encorajado por um discurso do embaixador dos Estados Unidos.
  A voz descomunal do locutor da Rdio Anunciadora engolfa o largo,
anunciando o filme que o cinema do Calgembrino vai exibir esta noite.
Depois a msica repenicada  dum choro comea a jorrar dos alto-falantes,
metlica e distorcida. O caf se vai enchendo aos poucos de gente. Na
maioria das mesas discute-se poltica. Fazem-se  apostas em torno das
eleies de amanh, dizem-se
  53
  bravatas. Floriano avista o coronel Lao Madruga, que passa na calada,
encurvado, envelhecido e murcho, arrastando os ps e o inseparvel
bengalo. E dizer-se que  a figura desse bandido assombrou tantas horas
da minha meninice!
  Um automvel estaca  frente da prefeitura e de dentro dele salta,
lpido e atltico, Jos Kern, o rosto e o cachao luzidio dum vermelho
de lagosta, os cabelos  louros j desbotados pela idade.  candidato a
deputado pelo Partido de Representao Popular. Floriano lembra-se de
que viu e ouviu um dia Kern num comcio integralista,  aqui nesta mesma
praa, erguendo no ar o dedo proftico e ameaando todos aqueles que se
recusavam a colaborar com os camisas-verdes. Agora proclama-se democrata
nos milhares de cartazes em tricromia espalhados por todo o municpio,
pedindo o voto de todos os cristos "que queiram livrar a nossa ptria
da influncia de nefastas  doutrinas exticas".
  Roque Bandeira solta uma gargalhada. E como os outros querem saber onde
est a graa, tio Bicho lhes mostra numa das pginas do jornal um clich
no qual o general  Eurico Gaspar Dutra aparece em uniforme de gala a
receber algo das mos dum cavalheiro solenemente vestido de fraque e
calas listadas. Ao lado da fotografia, a  seguinte legenda, que
Bandeira l com gosto: Esta condecorao no foi recebida do papa. Dutra
recebeu-a de Hitler, por intermdio do embaixador Kurt Prueffer "por
servios de excepcional relevncia ", a 25 de abril de 1940, j em plena
guerra.  a Cruz de Ferro, de  Hitler! E ainda no foi devolvida...
Quem votar neste democrata?
  - No deviam usar esses mtodos... - diz o marista. - Eu vinha dizendo
ao Edu, sou contra o "vale-tudo".
  Eduardo volta-se para o amigo:
  - Mas vocs aceitam o vale-tudo quando se trata de combater o comunismo.
Valeu tudo para destruir o Harry Berger, para manter o Prestes nove anos
na cadeia, para  perseguir, torturar e assassinar membros do Partido
Comunista. Que diabo de tica  essa?
  Mais uma vez Floriano alarma-se ante a seriedade do irmo. No tem um
pingo de senso de humor - reflete. - Palavra, esse menino me assusta.
  54
  O marista, com ar pensativo, comea a raspar com a unha o rtulo duma
das garrafas.
  - Tu sabes, Edu, que nunca aprovei esses mtodos. So contra a minha
maneira de sentir, de pensar, de viver...
  - Est bem. No vou cometer a injustia de te julgar capaz de recomendar
a tortura e a crueldade. Mas essa tua deformao profissional, vamos
dizer assim, te faz  torcer todos os argumentos para enquadr-los na
filosofia escolstica. Metes Santo Toms de Aquino onde ele no cabe,
no pode caber. Nenhuma filosofia funciona  quando se trata de problemas
reais, sentidos e sofridos por pessoas que esto vivas aqui e agora.
  Tio Bicho dobra o jornal, pe-no sobre a mesa, toma um gole de cerveja,
que lhe desce pela garganta
 com um gluglu alegre:
  - H um territrio vago de valores transcendentes cuja entrada est
completamente vedada  maioria das criaturas humanas. Sempre digo que
precisamos duma filosofia  do homem total, de algo prtico, militante,
existencial, que funcione no plano da realidade cotidiana.
  Floriano sorri, pensando: L vem o tio Bicho com seus filsofos de colis
postaux... Os dedos de Zeca tamborilam no mrmore da mesa ao compasso do
choro.
  - O homem total? - reflete Eduardo, encarando Bandeira. - Est claro que
essa noo existe, e  de Karl Marx. No se trata duma definio
filosfica e abstrata do  homem, dessa safada escamoteao teolgica que
transfere as dificuldades humanas do plano do tempo histrico para o da
eternidade, fugindo  soluo dos problemas  que todos os dias nos
esbofeteiam a cara.
  Tio Bicho e irmo Torbio entreolham-se. O primeiro pisca um olho. Mas
Eduardo continua:
  -  muito fcil mandar o padre Josu apascentar suas ovelhinhas da
Sibria, do Barro Preto e do Purgatrio, dizer a esses miserveis que
agentem com pacincia e  em silncio a sua desgraa, porque a
verdadeira felicidade est no cu e no aqui, neste "vale de lgrimas",
e que os que sofrem nesta vida sero automaticamente  recompensados na
outra.  uma operao puramente retrica, que tem a vantagem de ser
conveniente  Igreja e ao mesmo
  55
  tempo de no custar nada  burguesia apatacada, que o clero prestigia e
defende...
  Enquanto Eduardo fala, Floriano observa Zeca, procurando descobrir nele
algo de Cambar. Troncudo como o pai, tem no entanto este marista de
menos de trinta anos  uma expresso de cordura que Floriano no se
lembra de jamais ter visto no rosto de Torbio Cambar, cujas proezas
caudilhescas e erticas so talvez o elemento  mais rico e colorido do
folclore do Sobrado e do Angico. Nem sempre, porm, consegue o irmo
reprimir certos impulsos e paixes, que tio Bicho classifica como o
"potro interior". H momentos em que o animal se liberta, empina-se,
nitre, solta um par de coices e foge a todo o galope... Entretanto essas
exploses - na maioria  das vezes puramente verbais - so de curta
durao. O marista consegue de novo laar o potro, prend-lo na soga, e
tudo nele volta  habitual aparncia de calma.  O animal da por diante
se limita a espiar para fora, de quando em quando, pela janela desses
olhos escuros e intensos.
  Tio Bicho pousa a mo gorda e pequena, sarapintada de manchas pardas, no
ombro de Eduardo:
  - At certo ponto estou contigo - diz. - Essa histria de quererem pr
dum lado a natureza com todas as suas leis e do outro o homem com sua
liberdade me parece  um truque besta, um dualismo falso. Acho que a
liberdade humana  uma coisa que se conquista, e que se afirma na nossa
capacidade de domnio sobre a natureza. -  Volta-se para Floriano. - Que
tal, romancista? Ests comigo?
  Floriano encolhe os ombros, vago. Sabe que agora vo resvalar para uma
discusso interminvel, como tem acontecido tantas vezes nestes ltimos
dias. Eduardo no  perde oportunidade para doutrin-lo, e o curioso 
que faz isso com uma seriedade to sem malcia e s vezes to agressiva,
que d a impresso de que na verdade  ele se est doutrinando a si
mesmo, mais que aos outros. E como  difcil discutir idias num caf
barulhento, numa tarde barulhenta, numa poca barulhenta! E esta  bebida
requentada, negrssima e meio azeda, no melhora em nada a situao.
  56
  - No foi Marx o primeiro nem o nico a tentar essa teoria do homem
total - diz Zeca. E Edu replica:
  - No estou me referindo  totalidade csmica, metafsica e abstrata,
mas sim  totalidade humana. O homem  um produto da prpria atividade.
Ele conquistou a sua  liberdade no plano social e no plano da histria.
Estudando o desenvolvimento social do ser humano, Marx descobriu um
conjunto de fatos em que a histria natural  do homem coincidia com a
sua histria social.
  Tio Bicho interrompe-o para dizer com fingida solenidade:
  - Neste ponto nos despedimos. Passe bem e faa boa viagem!
  - Tu falas em conquista da liberdade - intervm Floriano, dirigindo-se
ao irmo. - Achas que na Rssia Sovitica o homem  livre?
  - O homem novo da nova Rssia est em formao. No representa ainda o
homem total, mas sim uma etapa rumo desse objetivo. A tcnica moderna
vai acabar desenvolvendo  todas as possibilidades do homem sovitico
para que ento seja possvel a sociedade comunista.
  - A tcnica! - exclama o irmo Zeca. - Os comunistas enchem a boca com
essa palavra. Censuram os catlicos por acreditarem em absolutos e num
Deus nico e no entanto  adoram centenas de deuses e de absolutos.
  - Na minha opinio - diz Floriano - o grande perigo que estamos correndo
hoje  o da desumanizao do homem, que se perde cada vez mais numa
floresta de mquinas.  Estamos correndo o risco de acabar sendo uma
coletividade de robots. Est claro que no me refiro ao nosso mundo
latino-americano nem aos pases subdesenvolvidos  em geral, mas sim
queles em que existe ou comea a existir uma superindstria e uma
supertcnica.
  Eduardo sorri um sorriso superior.
  - Esse perigo - diz - s pode existir nos pases capitalistas de
produo desordenada, onde imperam os trustes, cujo objetivo primordial
 o lucro, e onde a economia  anda s cegas, sem plano, dominada por
grupos que se entredevoram e periodicamente provocam as guerras. Mas nos
pases socialistas as mquinas no escravizam os  seres humanos porque
esto nas mos do Estado. Na
  57
  Rssia a tcnica  usada a favor do homem e no contra ele. Mas me
deixem continuar a exposio...
  Atravs da janela Floriano v na praa o mudo e rpido desenrolar-se
duma cena que o diverte. Um velhote aproxima-se do japons, compra-lhe
um balo vermelho e encosta  nele a ponta do cigarro aceso, fazendo-o
estourar. Depois atira fora o pedao de borracha que lhe ficou na mo e
continua, muito srio, seu caminho.
  - Segundo a noo do homem total - est dizendo Eduardo -, seus rgos,
suas funes naturais se transformam no decurso de seu desenvolvimento
social e histrico.  Tu negas isto, Zeca?
  O marista hesita: o potro dentro dele parece escarvar-lhe o peito.
  - A vida social do homem - continua o mais jovem dos Cambars - e sua
histria na face da terra tm a fora de transformar suas funes
naturais, seus sentidos,  o tato, o gosto, o olfato, a viso, o ato de
comer, de beber, de procriar. A essa transformao Marx chama
"apropriao" pelo homem da Natureza e de sua prpria  natureza.
  "O Baixinho vai ganhar de rebenque erguido!" - grita algum com voz
estrdula na mesa prxima, soltando em seguida uma risadinha. Os quatro
amigos voltam instintivamente  a cabea. Um garom passa com uma bandeja
cheia de caneces de chope. A msica dum paso-doble enche agora o largo,
dando-lhe um vago ar entre festivo e dramtico  de praa de touros.
  - E aqui chegamos ao ponto nevrlgico da questo - prossegue Eduardo,
depois de tomar um gole de cerveja. - Existem milhes de criaturas
humanas no mundo inteiro  que esto excludas desta ou daquela atividade
social, deste ou daquele privilgio ou poder. As massas no vivem:
vegetam.
  - E o que o teu chefe chama de "alienao do homem" - acrescenta tio
Bicho. Eduardo olha para Floriano:
  - Tu mesmo falavas outro dia l em casa nessa alienao, s que
raciocinavas dentro dum psicologismo estreito, sem te preocupares com os
aspectos concretos e imediatos  dessa alienao. Tu s desses que em
face duma lmpada acesa querem estudar o fenmeno
  58
  da luz em si mesmo, sem jamais procurar saber nada da lmpada que produz
a luz, dos fios a ela ligados, da corrente eltrica que passa por esses
fios e do dnamo  que produz essa corrente.
  - E assim por diante at Karl Marx - sorri Bandeira.
  - At Deus - corrige-o Zeca.
  Eduardo est ainda a olhar intensamente para o irmo:
  - Tu te refugias num vago humanismo esttico ou potico, feito, eu no
duvido, de boas intenes... vagamente religioso (apesar de teu
agnosticismo) mas absolutamente  inoperante, contemplativo e cretino.
  Floriano sorri e pergunta a si mesmo: por que os silncios e os olhares
crticos de Jango sempre me irritam mais que a agressividade verbal do
Eduardo?
  Este se recosta no respaldo da cadeira, passa a mo pela cabea, lana
para a praa um olhar vazio, e continua:
  - O sistema capitalista reduziu todas as necessidades humanas a uma
necessidade nica: a do dinheiro, seu valor mximo. Tu mesmo, Floriano,
vives a proclamar isso...  E qual  a tcnica do homem de negcios
capitalista seno a de criar necessidades nas outras pessoas a fim de
for-las a uma nova dependncia? Como resultado disso,  todo o mundo
vive de crdito, no regime inflacionrio da prestao, hipoteca o seu
futuro, perde a identidade e a liberdade... Quanto maior for o nmero de
artigos  produzidos pela indstria no sistema capitalista, maior ser o
reino das coisas alheias que escravizam o homem...
  Floriano pensa agora numa noite de tempestade da sua infncia. Os
relmpagos, visveis atravs das bandeirolas do quarto, de quando em
quando clareavam a treva interior.  As trovoadas faziam estremecer as
vidraas do casaro. Sem poder dormir, ele esperava que o temporal se
desfizesse em chuva, pois sabia que s assim ele se aliviaria  daquele
peso opressivo no peito, daquela sensao de fim de mundo. Foi ento que
viu um vulto  luz dum relmpago. Reconheceu Eduardo, que entrava no
quarto, corria  para sua cama, metia-se debaixo das cobertas,
achegava-se a ele e lhe murmurava junto da orelha: "Tou com medo".
Abraou o irmo mais moo, cochichando: "No  nada.  Dorme, isso logo
passa". E seu medo
  59
  desapareceu dissolvido no medo maior do outro, cujo corao batia
acelerado de encontro ao seu. Dentro de alguns minutos cessaram os
troves e os relmpagos, a chuva  comeou a cair. Eduardo dormia sereno
em seus braos.
  - A tcnica - prossegue este ltimo, e Floriano de novo sorri da
seriedade didtica do irmo - dando ao homem o domnio sobre a Natureza
tornou possvel a felicidade  social. No nosso mundo ocidental essa
felicidade  privilgio duns poucos. O comunismo despertou as massas,
deu-lhes a conscincia de seus direitos, para que elas  reclamem a sua
parte nesse progresso e nesse bem-estar.
  Inclina-se, apoiando ambos os braos sobre a mesa, e prossegue,
incisivo:
  - O Roque se engana quando afirma que no existe uma idia militante
adequada  nossa poca e  nossa realidade cotidiana. Ela existe, e  a
que acabo de expor:  a noo marxista do homem total. Em vez de usar o
falso trampolim duma definio abstrata, acadmica, partimos do exame
concreto dos acontecimentos histricos e  procuramos fazer que o homem
supere, ultrapasse por atos e no por pensamentos todos os seus
conflitos, oposies, separaes, desencontros e contradies... Vocs
vivem a perguntar: "Que  o homem? De onde vem?" Ora, ns os marxistas
preferimos pensar no que o homem pode vir a ser, e em at que ponto ele
pode ser o arquiteto  de si mesmo.
  Inclina-se ainda mais, fica quase a tocar com a boca o gargalo de uma
garrafa. Floriano lembra-se do tempo em que o Edu de seis anos lhe vinha
dar "concertos", soprando  muito compenetrado num garrafo de vinho
vazio, procurando tocar uma msica que mentalmente ele devia estar
ouvindo em toda a sua riqueza meldica, mas que na sua  reproduo se
reduzia a duas notas.
  Tio Bicho fita em Eduardo seus olhos claros e diz:
  - At certo ponto somos correligionrios, menino. O que me impede de ir
mais longe contigo  que, assim como no acredito na capacidade do homem
de fazer-se santo,  como proclama a f religiosa, no confio na sua
habilidade para conseguir a felicidade terrena ou social como a tua f,
Edu, apregoa.
  60
  - Tu sabes que no tenho nenhuma f.
  - Como no? Vocs comunistas se sacrificam a ponto de estarem dispostos
a morrer pela causa do proletariado, da fraternidade universal e
que tantas besteiras. Por  outro lado no acreditam em recompensas numa
outra vida, e, se morrem, nada ganharo tambm nesta... Assim sendo, o
que leva vocs a esses sacrifcios  inescapavelmente  uma f que
transcende a dialtica marxista. Logo, comunismo  religio.
  Por um instante o que Floriano l no rosto do irmo  uma expresso de
indignada perplexidade. E, antes que ele reaja, Bandeira torna a falar.
  - Tanto para o comunista como para o cristo (talvez eu devesse dizer
especificamente "o catlico") o fim justifica os meios...
  - No me venhas outra vez com essa cantiga... - replica Eduardo.- Olhem,
o que posso dizer  que se os meios da Rssia marxista so s vezes
violentos,  preciso  no esquecer que eles so apenas meios, isto ,
processos transitrios, ao passo que os fins do capitalismo so
permanentes: a injustia social, a busca do lucro  por uma minoria com o
sacrifcio da maioria. A decantada "civilizao ocidental e crista" tem
estado sempre a servio de grupos financeiros e econmicos como a
Dupont,  a Standard Oil, a Krupp... E agora, com a bomba atmica, os
Estados Unidos podero defender com mais eficincia a dignidade e a
integridade da pessoa humana, como  ficou provado com a destruio de
Hiroxima e Nagasqui. Claro,  preciso esclarecer que japons no  bem
"gente". Nem negro. Nem mexicano. E (no nos iludamos)  nem ns
sul-americanos...
  - No  bem assim, Edu! - protesta o marista. - Os fins que os
comunistas visam so imanentes e histricos, e portanto os meios de que
eles se servem tero de ser  fatalmente humanos e materiais. Explica-se
desse modo o fato de terem seus lderes de recorrer freqentemente 
violncia. Agora, ns os catlicos vivemos em relaes  ntimas com o
sobrenatural, de sorte que nossos meios sero sempre sobrenaturais e
espirituais. Jamais exercemos a violncia, quer fsica quer espiritual,
sobre  o homem. A Igreja o deseja livre, com a liberdade de escolher
entre o bem e o mal.
  61
  - Mas no  isso que o nosso vigrio prega em seus sermes - intervm
tio Bicho. - Segundo ele, a propriedade  um direito divino.
  - O vigrio  uma besta! - relincha o potro. Mas em seguida, percebendo
que se excedeu, o marista procura corrigir-se. - O padre Josu,
coitadinho,  um santo homem,  mas um tanto ingnuo. Em matria de
literatura, alm do Livro de Horas, acho que s l as Vozes de
Petrpolis.
  Agora quem ri  Eduardo. Mas nem por isso deixa de voltar ao ataque:
  - S um inocente pode acreditar na santidade duma Igreja como a
catlica, cujo passado no est absolutamente isento de atos de
violncia, crueldade e injustia.
  - A Igreja - explica Zeca, escandindo bem as slabas -  santa na sua
estrutura divina, mas  tambm humana porque seus sacerdotes so homens
que todos os dias precisam  pedir perdo a Deus pelos seus erros e
pecados. A Igreja  transcendente no tempo pela sua mensagem de
ressurreio, mas no pode ficar indiferente s formas que  assumem as
sociedades humanas. No vou negar que temos tido bispos e arcebispos e
cardeais demasiadamente polticos e at politiqueiros, que se portaram
como se  a misso da Igreja fosse apenas a de sobreviver no tempo e na
terra. E outra coisa!  um engano tambm pensar que o catlico despreza
o corpo. No senhor. O corpo  para ns tambm  importante. E o
admirvel  que a Graa pode salvar no somente a alma como tambm a
carne.
  - No acredito na alma - diz Roque - e no tenho o menor interesse em
salvar este corpo.
  - Um dia destes - continua o marista - o Floriano me dizia que na sua
opinio a Igreja se fortaleceria espiritualmente se voltasse s
catacumbas. Eu respondi que  essa era uma idia romntica e
ultrapassada. E, seja como for, em certos pases hoje em dia a Igreja
foi obrigada a voltar mesmo s catacumbas. Vocs precisam compreender
que a f crist no  uma ideologia ou um mito social, poltico ou
econmico. E uma transcendncia. Mas nem por isso ns os catlicos
deixamos de nos interessar  pelos problemas e pelas dores do homem na
terra, no famoso plano histrico a que o 
  64
  eduardo d tanta importncia. Estamos sempre do lado das foras da justia e
do amor, pois s h uma maneira de o cristo provar que ama a Deus: 
amando seus semelhantes.
  Eduardo faz uma careta de cepticismo. Floriano olha na direo do
Sobrado e pensa simultaneamente em Slvia e no pai. O marista continua
com a palavra:
  - E depois, sejamos sinceros, no sou daqueles que acreditam na
possibilidade de qualquer pessoa, nem mesmo num sacerdote, passar pela
vida com as mos imaculadas...
  - Diz isso ao Floriano - atalha-o Eduardo, olhando provocadoramente para
o irmo. - Ele  o grande discpulo de Pncio Pilatos.
  - H pouco - diz o marista - li uma frase que muito me agradou.  mais
ou menos assim: "Devemos lutar como se tudo dependesse de ns e
pormo-nos de joelhos como  se tudo dependesse de Deus". Repito que no 
possvel deixar de sujar as mos em assuntos terrenos. S um neutralismo
absoluto nos poderia manter de mos limpas.  E, nesta hora, na minha
opinio a neutralidade  uma covardia. Quando nos negamos  luta,
estamos condenando milhares de seres humanos  desgraa. Estamos pecando
por omisso.
  - Entendo - interrompe-o Eduardo - que com toda essa conversa ests
procurando justificar tambm a Inquisio...
  - No  precisamente isso. Mas ouve o que vou te dizer. A Inquisio
cometeu crimes injustificveis e horrendos pelos quais ns nos
penitenciamos e oramos. Mas,  seja como for, as suas vtimas eram
postas, em ltima instncia, nas mos de Deus, o Supremo Juiz. Por isso
afirmamos que mesmo quando a autoridade (que segundo  Santo Toms de
Aquino  um mal necessrio e uma conseqncia do pecado, bem como a
propriedade), mesmo quando a autoridade comete erros, tais erros no so
irremediveis,  porque Deus ter a ltima palavra, e os inocentes sero
redimidos.
  -  monstruoso! - exclama Eduardo. - Como pode uma pessoa que pensa
dizer uma coisa dessas?
  Tio Bicho ergue-se lentamente, depois de calar os sapatos, e pe o
chapu na cabeorra.
  65
  - O Zeca acaba de falar no apenas em nome da Igreja como tambm do
Partido Comunista. Substitua-se a expresso "Deus, Supremo Juiz" por
"Presidium do Soviete Supremo",  e teremos tambm justificados os
expurgos e todos os outros crimes do comunismo. Vamos sair e tomar um
pouco de ar!
  Floriano chama o garom e pede a nota.
  - No! - exclama tio Bicho. - O nosso proletrio que pague a despesa. No
fim de contas o show foi dele...
  Acham-se os quatro amigos h j algum tempo a andar  toa na praa agora
quase deserta. Os alto-falantes da Anunciadora esto mudos. O sol
escondeu-se por trs da  matriz, cuja sombra se projeta sobre a rua,
atingindo os primeiros canteiros. Vem de algum quintal prximo a fumaa
aromtica e evocativa de ramos de jacarand queimados.
  Olhando para o busto de Lauro Car, Bandeira pensa em voz alta:
  - No  mesmo estranho que esse pio, que pouco ou nada sabia de
geografia e histria, acabasse morrendo na Itlia, numa guerra que
decerto nunca chegou a compreender  direito?
  - O destino dos Cars - glosa Eduardo - foi sempre lutar na "guerra dos
outros", sem nenhum proveito para o seu cl. Esse bem podia ser tambm
um monumento ao Alienado  Social.
  Num cartaz colado  base do coreto, v-se o retrato dum homem jovem de
cara larga, expresso simptica mas um tanto palerma, acima deste
letreiro: "Vote em LINO  LUNARDI, candidato de GETLIO".
  - O filho do Marco, candidato  deputao pelo Partido Trabalhista... -
murmura o tio Bicho. - Positivamente, este mundo velho est de patas
para o ar. - Acende  outro cigarro. - Tomem nota: vai ser eleito. Tem
todas as qualidades para vencer.  analfabeto e filho de pai rico. O
Marco est gastando uma fortuna com a propaganda  desse bambino.
  Sentam-se os quatro num banco e ficam longo tempo em silncio a olhar
para o busto. Eu gostaria - pensa Floriano - de fazer uma experincia:
chamar a ateno do  Eduardo para esta doce
  66
  hora do entardecer em que as. sombras vo ficando cor de violeta, a luz
se faz mais branda e dourada, dando  paisagem no s mais dignidade
como tambm uma espcie  de quarta dimenso, impossvel quando o sol
est alto. Qual seria a reao dele? Claro, acharia que apreciar a tarde
pela tarde  algo assim como fazer arte pela  arte - um ftil e intil
passatempo pequeno-burgus... No, mas talvez eu me engane. E se ele
estiver agora pensando romanticamente na companheira que deixou no  Rio,
na sua "Passionria do Leblon" com quem parece estar mantendo uma
correspondncia to ativa? E por onde andar o pensamento do filho de
Torbio Cambar? Desta  vez quem vai quebrar o silncio sou eu.
  - Estive h pouco imaginando uma fbula moderna - diz. - Prestem
ateno. Mr. Smith, cidado americano, luta na Primeira Guerra Mundial
para "to make the world safe  for Democracy". E ferido em ao e, quando
a guerra termina, volta para suas atividades comerciais, esfora-se 
melhor maneira ianque para obter seu lugar ao sol  e acaba ficando rico.
Vem a Segunda Guerra Mundial e o filho de Mr. Smith alista-se na fora
area de seu pas,  mandado em vrias misses de bombardeio sobre a
Alemanha e as bombas de seu avio, financiadas com o dinheiro dos
impostos de homens como seu pai, destroem algumas fbricas, pontes,
represas e ramais ferrovirios...  Na volta de uma dessas tarefas, seu
aparelho  abatido pela artilharia alem e o jovem Smith perde a vida.
Pois bem. Terminou a guerra, firmou-se a paz e agora tudo  indica que os
Estados Unidos vo dar ajuda financeira  Alemanha para que ela se
reerga. Teremos ento o nosso Mr. Smith a contribuir com altos impostos
para reconstruir  as fbricas, pontes, represas e ramais ferrovirios
destrudos pelo filho que ele perdeu e que ningum jamais lhe poder
restituir. No  uma farsa insensata e cruel?
  Num pulo Eduardo ergue-se e posta-se na frente do irmo, batendo forte
com o jornal contra a prpria coxa:
  - E esse Mr. Smith continua achando que a free enterprhe, o sistema
capitalista competitivo em que vive,  o regime ideal! Palavra,
Floriano, eu no te compreendo.  Vs claro o problema e no entanto te
recusas a erguer um dedo para melhorar a situao.
  67
  S posso atribuir isso a um comodismo no apenas vergonhoso como tambm
criminoso.
  -  Edu, no me venhas outra vez com essa besteira. Qualquer psiclogo
te dir que o comodista  o homem normal. O outro, o que quer morrer,
matar ou sacrificar-se  por uma causa, esse  um masoquista ou um
sadomasoquista.
  Eduardo quase encosta o jornal no nariz do irmo quando lhe diz:
  - Vocs intelectuais indecisos se refugiam na psicanlise e na semntica
para escapar  responsabilidade de tomar uma posio poltica definida.
  Floriano rebate:
  - Essa necessidade de extremismo, meu filho, no passa duma doena
romntica e juvenil. Vocs parecem achar que s por ser extremista a
posio poltica do comunista  ter de ser necessariamente a melhor ou a
nica. Tenho verdadeiro horror a certos sujeitos que se levam
demasiadamente a srio, fica tu sabendo. Essas idias dogmticas  que
andam por a so camisas-de-fora que eu me recuso a vestir. Vocs
marxistas se colocam no ponto de vista da histria para poderem
apossar-se do futuro e em  nome dele se avocarem o direito de sacrificar
as geraes de hoje, em benefcio das de amanh. Ora, Humanidade j 
uma abstrao. Humanidade do Futuro  uma dupla  abstrao. Recuso dar
aos comunistas ou a quem quer que seja essa carta branca. Vocs pedem ao
mundo um perigoso crdito em tempo e em vidas humanas.  uma operao
que o povo tem toda a razo de temer e  qual positivamente eu me nego.
  - Se me provares - replica Eduardo - que o regime capitalista no mata
gente aos milhes por omisso ou comisso, em guerras, revolues ou
ento por absoluta falta  de justia social, se me provares isso eu me
comprometo a tomar a primeira comunho domingo que vem.
  - E eu pago o vu! - diz tio Bicho.
  - Outra coisa - acrescenta Floriano. - Quando um homem, seja ele quem
for, est disposto a tolher a liberdade de seus semelhantes, a
tortur-los ou assassin-los  em nome duma idia
  68
  poltica ou de qualquer outra "verdade"; quando est compenetrado demais
de seu papel de Regenerador, de Profeta ou de Vingador, enfim, quando
sua paixo poltica  ou religiosa se faz fanatismo, esse homem na minha
opinio passa a ser um perigo social, est precisando urgentemente dum
tratamento psiquitrico.
  - J que te impressionam tanto os casos de psicopatologia - diz Eduardo
- o teu quietismo, a tua indiferena, a tua abulia no sero tambm uma
neurose?
  Floriano encolhe os ombros.
  - Pois se forem... sero neuroses das quais no poder vir nenhum mal
social, me parece.
  - E nenhum bem! At o Zeca reconhece que nesta hora em que os bandidos
so militantes, a neutralidade ou a indiferena dos homens de bem ,
alm duma covardia, um  crime.
  Tio Bicho, que se abana com o chapu, enquanto passa o leno pela testa,
murmura:
  - Acho que vamos acabar chegando  cmica concluso de que de ns quatro
o nico cristo puro  ainda aqui o nosso romancista...
  Floriano avista de seu banco o velho Aderbal, que neste momento sai a
cavalo pelo porto do Sobrado - teso em cima da sela, a cabea erguida,
a imagem viva do "monarca  das coxilhas", figura de retrica que o
Amintas tantas vezes usou no seu discurso da manh.
  Eduardo caminha impaciente dum lado para outro, na frente do banco,
passando as mos perdidamente pelos cabelos.
  - Houve um tempo - diz Floriano, sentindo uma preguia boa que lhe vem
da tarde - em que quase me deixei levar pelo canto de sereia do
comunismo. Para ser mais exato,  o que me empurrava para a extrema
esquerda era menos a seduo do marxismo do que as contradies e
injustias do capitalismo. Este absurdo sentimento de culpa que  ns os
intelectuais (com o perdo da m palavra) carregamos me levava a
perguntar a mim mesmo se eu no estaria cometendo um erro, permanecendo
 margem da luta  social, e se no me devia atirar de olhos fechados nos
braos de Papai Stlin, nem que fosse apenas como um protesto contra o
  69
  regime em que vivemos. Ora, essa dvida no durou muito, porque logo
comecei a tomar conscincia tambm das contradies e injustias do
regime comunista. Cheguei   concluso de que o remdio marxista estava
matando o paciente com a cura. Em outras palavras, vocs, Eduardo,
estavam jogando fora o beb com a gua do banho!
  Sem sequer voltar a cabea para o lado do irmo, e sempre a andar dum
lado para outro, Eduardo murmura:
  - Com esse tipo de humor e de raciocnio, darias um excelente redator
para a Time e para a Life.
  O outro prossegue:
  - Reconheo a grandes dvida que a humanidade tem para com Karl Marx.
Mas no devemos esquecer que os acontecimentos deste sculo no
confirmaram em absoluto a convico  do Velho de haver descoberto as
leis que governam a histria. Acho a crtica marxista  sociedade
capitalista do sculo XIX perfeita: no h nada a tirar ou a
acrescentar.  Mas acontece que o capitalismo se tem modificado. E a
idia de que a luta proletria seria definitiva, capaz de abolir o
Estado e criar uma sociedade sem classes  me parece baseada num
desconhecimento quase completo da psicologia humana. A socializao dos
meios de produo no suprimiu automaticamente a luta pela existncia
individual. Longe de conseguir a abolio das classes, o Estado
sovitico se transformou num instrumento de opresso sem precedentes, e
acabou criando no s uma  tremenda burocracia como tambm uma classe
privilegiada.
  Eduardo estaca na frente do irmo e pergunta:
  - Quem te contou isso! Foste  Rssia? Leste a. respeito da Unio
Sovitica outra literatura que no essa encomendada e divulgada pela
Wall Street?
  - O marxismo - continua Floriano, sem tomar conhecimento da interrupo
- comeou sendo um mtodo cientfico, uma idia dialtica e acabou por
transformar-se numa  ideologia, numa mstica, num dogma e finalmente
numa religio secular, numa igreja militante, j com seu calendrio de
santos e mrtires...
  - Protesto contra a comparao - acode Zeca, entre srio e brincalho.
  70
  - Eu te confesso - diz ainda Floriano - que a minha f ou, se no
gostares da palavra, o meu desejo de justia social no vai to longe a
ponto de me fazer entregar  voluntariamente ao comissrio a minha
liberdade pessoal...
  - Essa famosa liberdade - completa Eduardo - que diariamente entregas a
todos os tipos de presso externa e interna, inclusive a que vem das
notcias mundiais deformadas  por agncias como a Associated Press e a
United Press, que fazem o jogo dos trustes, dos monoplios e dos
cartis.
  - Mantendo a falcia da ditadura do proletariado - prossegue Floriano -,
a Rssia Sovitica instituiu uma tirania estatal, um sistema
supercapitalista, supernacionalista  e militarista em que o homem deixa
de ser um fim em si mesmo para se transformar num instrumento dos
interesses desse gigante impessoal, dessa mquina econmica  em que os
meios de produo permanecem ainda nas mos dum pequeno grupo.
  Com o jornal debaixo do brao, Eduardo est agora parado de costas para
o interlocutor, assobiando como para no ouvir o que ele diz.
  - No estou interessado em salvar o mundo capitalista nem em esconder
suas tremendas deficincias e contradies - continua Floriano -, mas
no vejo por que aceitar  a soluo sovitica como a nica alternativa.
Na Rssia tudo  planificado implacavelmente, desde a economia at a
literatura e a arte. Os kulaks que se negaram  a aceitar a coletivizao
de suas terras foram deportados, presos ou executados. Trtski foi
declarado fascista e Ivan o Terrvel, proclamado heri sovitico. Ora,
deves reconhecer que para engolir tudo isso  preciso ter muita f ou
ento ser muito ingnuo...
  - Negas tambm - pergunta Eduardo - que tenha havido progresso social e
econmico na Rssia depois da Revoluo de Outubro? E que a URSS seja
hoje uma potncia mundial  to importante quanto os Estados Unidos?
  - No nego. E vou mais longe. Reconheo tambm que devemos  presena
ativa da Rssia no mundo, e ao trabalho dos comunistas atravs de todos
os outros pases, essas  mudanas que
  71
  esto por assim dizer esquerdizando o capitalismo, obrigando-o a revisar
sua poltica.
  - No me venhas com essa... - comea Eduardo, mas Floriano fala mais
alto:
  - Digo-te mais, rapaz: sem essa ao catalisadora da Rssia estaramos
marcando passo em matria de poltica social... Mas por outro lado se o
comunismo sovitico  vier a dominar o mundo, estaremos perdidos.
  - Que propes ento? A Repblica de Plato?
  - Confesso que me sinto um tanto ridculo expondo um programa poltico,
social, econmico - olha o relgio - s seis da tarde, em plena praa de
Santa F. Mas posso  te adiantar que o regime ideal seria um socialismo
humanista: o mximo de socializao com o mximo de liberdade
individual. Nesse regime a terra e o capital seriam  comuns, mas o
governo, democrtico. Numa palavra: esse sistema deveria no s
conseguir uma democracia social como tambm preservar a democracia
poltica, sem o  que ter destrudo exatamente aquilo que todos queremos
salvar: a liberdade, a identidade e a dignidade do homem.
  Tio Bicho, que parece despertar de sua modorra, diz:
  - Bravo, muito bem, o orador foi vivamente cumprimentado. Mas nem s de
idias e sonhos vive o homem. Minha barriga j est roncando. Acho que
podamos comear a  pensar em comer. Vocs jantam comigo?
  Floriano aceita o convite. O marista diz que no pode. Eduardo no toma
conhecimento dele, e torna a falar:
  - Suponhamos que esse teu regime ideal seja possvel (o que no creio),
que ests tu fazendo para que esse mundo se torne real? Escrevendo
poemas? Rezando? Vives  acomodado, encaramujado, em permanente estado de
contemplao. Teu socialismo  o do "bom moo" que quer apaziguar sua
conscincia de liberal e ao mesmo tempo no  ficar de todo malvisto pela
burguesia.
  Floriano ergue-se, espreguiando-se, e responde sem rancor:
  - Queres saber o que estou fazendo? Estou resistindo a vocs como
resisti e resisto aos fascistas, recusando-me a aceitar a escra-
  72
  vido do homem, a anulao da personalidade como o nico caminho da
salvao social. E olha que j no  pouco.
  Comeam os quatro a caminhar devagarinho na direo do Sobrado. Tio
Bicho coloca-se entre os dois irmos, tomando o brao de um e de outro.
  - Vocs querem saber - pergunta - por que no levo a srio essas
panaceias sociais?  porque no creio, repito, na bondade inata do
homem, nessa coisa que o Zeca  vive a proclamar. O homem est mais perto
do animal do que ele prprio imagina. Tem ainda a marca da jungle. Essa
histria de amor cristo, altrusmo, etc., no  passa de conversa fiada.
O homem hipocritamente se atribui sentimentos e qualidades que na
realidade no possui. Em matria de esprito, vive muito alm de suas
posses reais. , vamos dizer, um carreirista safado no plano moral. Saca
contra o Banco da Decncia e dos Sentimentos Nobres S.A., onde
absolutamente no tem fundos,  mesmo porque esse banco no final de
contas  tambm uma fraude. Mas a verdade  que os cheques se descontam,
tm valor, andam de mo em mo... e vocs sabem por  qu? Porque todos
somos falsrios, estamos desonestamente no jogo. E assim a comdia
continua.
  O marista, que vem logo atrs do trio, sacode a cabea e diz:
  - Tu no acreditas nisso, Bandeira, sei que no acreditas. No nego que
a natureza animal do homem o empurre muitas vezes para o mal. Mas a
noo da existncia de  Deus nos distingue dos irracionais. Essa idia 
a porta de nossa salvao no s espiritual como at mesmo corporal.
  - Se fssemos mais modestos - conclui Bandeira -, se tivssemos uma
opinio menos alta de ns mesmos e nos mantivssemos no limite de nossas
"contas bancrias espirituais",  talvez vivssemos num mundo melhor, de
menos enganos e erros.
  Uma mulher caminha lentamente por uma das caladas da praa.
Reconhecendo-a, Floriano estaca instintivamente. Os outros tambm fazem
alto, percebendo de imediato  de quem se trata. Snia Fraga, a amante de
Rodrigo Cambar, est neste momento passando pela frente do Sobrado!
  Vestida de branco, traz ainda na pele muito do sol de Copacabana. culos
escuros escondem-lhe os olhos. Os cabelos, dum castanho profundo,
caem-lhe lustrosos sobre  os ombros. Tem pernas longas, seios e ndegas
empinados, e seu andar, a um tempo leve, ondulante e firme, sugere algo
de gara e de gata.
  O marista baixa os olhos, pigarreia, manipula o crucifixo. Eduardo
pe-se a assobiar sua musiquinha sem melodia. Para disfarar, tio Bicho
busca no bolso um cigarro,  prende-o entre os dentes, risca um fsforo,
que falha trs vezes - e a todas essas continua de olhos postos na
"viso". Floriano segue a rapariga, fascinado, notando  que ela mantm a
cabea todo o tempo voltada para o casaro. Na janela do quarto de
Rodrigo divisam-se os contornos duma pessoa.
  Sentado no leito, junto da janela, Rodrigo Cambar v Snia passar. Tem
na mo o frasco de Fleurs de Rocaille, que mantm junto das narinas,
aspirando-lhe o perfume  para ter a iluso de que est mais perto
daquele corpo querido. O corao bate-lhe descompassado, uma ardncia
quase sufocante sobe-lhe pela garganta, lgrimas escorrem-lhe  pelas
faces.
  Caderno de pauta simples
  74
  Ao anoitecer tivemos de chamar o mdico s pressas; o Velho se
encontrava em estado de angstia, respirando com dificuldade e temendo
uma recidiva do edema.
  Nosso Camerino medicou seu impossvel paciente e proibiu-o de receber
visitas esta noite, fosse de quem fosse.
  Est claro que a passagem de Snia pela frente do Sobrado deixou-o
perturbado. Estou certo tambm de que foi ele quem pediu  rapariga que
fizesse aquele passeio.
  O curioso  que ns quatro ficamos desconcertados ante a cena, cada qual
 sua maneira e por suas razes. Para disfarar meu embarao, procurei
comentar o fato objetivamente,  mas esbarrei no silncio encabulado do
Z,eca e no silncio indignado do Edu. Mas Bandeira, refeito do choque
(no fundo esse filsofo que quer parecer cnico no  passa dum
moralista), tratou de encarar a situao racionalmente. Examinamos seus
muitos aspectos e naturalmente no chegamos a nenhuma soluo.
  Irmo Zeca escapuliu-se ao primeiro pretexto. Eduardo resmungou
marxices. Achar ele que num Estado comunista coisas como essa no podem
acontecer? Esperar que  um soviete brasileiro possa regular o desejo
carnal, controlar os pruridos sexuais, burocratizar o amor?
  Curiosa a inibio que todos sentem (inclusive eu mesmo) de atacar de
frente, como coisa natural, os assuntos de sexo...
  Estou pensando agora numa coisa. Como poderei escrever o meu
"pretensioso" romance sobre os gachos, esses saudveis carnvoros
sensuais, sem falar (e muito)  em sexo? Ou sem deixar que eles usem
livremente sua prpria linguagem, com todos os palavres que com tanta
freqncia e espontaneidade lhes saem das bocas?
  75
  Priv-los desse vocabulrio escatolgico seria quase o mesmo que
cap-los. Sim, uma castrao psicolgica. E um atentado  autenticidade
da histria.
  As pessoas em geral tm mais medo das palavras do que das coisas que
elas significam. Para muita gente  mais fcil cometer um desses atos
que se convencionou chamar  de imorais do que dar-lhe expresso verbal.
  Por outro lado, conheo velhas damas gachas completamente desbocadas e
verbalmente pornogrficas mas que, no obstante, na vida privada so
esteios da virtude e  da moralidade, impecveis matronas romanas.
  Snia me pareceu um misto de ave pernilonga e felino. Agora, revendo-a
com a memria, sinto nela algo de reptil.  a teiniagu da lenda da
Salamanca do Jarau. A  lagartixa encantada que desgraou o sacristo.
Uma teiniagu que no carrega seu carbnculo ardente na cabea, mas
noutro lugar.
  H poucos dias reli essa lenda na verso de Simes Lopes Neto. Estou
pensando agora que minha iniciao sexual aos quinze anos tem uma certa
analogia com a aventura  do gacho Blau Nunes.
 
  Alma forte e corao sereno! A furna escura est l: entra! Entra! -
disse o fantasma do sacristo. - E se entrares assim, se te portares l
dentro assim, podes  ento querer e sers ouvido.
  Mas havia sete provas a vencer.
  Blau Nunes foi andando. Entrou na boca da toca, meteu-se por um corredor
de onde outros sete corredores nasciam.
  Foi numa noite de dezembro, nas frias depois do meu primeiro ano no
Albion College. Por ordem de meu pai, tio Torbio apadrinhava minha
iniciao, levando-me   casa duma mulher. Pelo caminho dava-me
conselhos, como a alma do sacristo dera a Blau. Entramos no Purgatrio,
metemo-nos em becos e labirintos como os com que  se defrontou o heri
da lenda.
  76
  Mos de gente invisvel batiam no ombro de Blau Nunes.
  Eu sentia no ombro a mo de minha me... e parecia-me ouvir sua voz: No
vs! Volta, meu filho! No vs!
  Blau meteu o peito por entre um espinheiro de espadas.
  Na escurido duma ruela esbarrancada, atravessamos uma cerca de
unhas-de-gato, cujos espinhos me arranharam as mos.
  Blau Nunes foi andando. Eu tambm.
  Num cruzamento de carreiros ouviu-se um rudo de ferros que se chocavam.
  Na frente dum boliche homens brigavam num corpo-a-corpo. Adagas e
espadas tiniam. Tio Torbio sussurrou: No  nada.  uma patrulha do
exrcito contra uma patrulha  da polcia. Puxou-me pelo brao e entramos
noutro beco, que desembocava noutro beco, de onde saa ainda um outro
beco. Um suor frio me escorria pelo corpo.
  Vai ento jaguares e pumas saltaram aos quatro lados de Blau Nunes.
  No lusco-fusco cachorros nos atacaram, latindo, os dentes arreganhados.
Tio Torbio espantou-os com pedradas.
  Blau Nunes meteu o peito e continuou a andar. Agora era um lanante e ao
fim dele o gacho parou num redondel tapetado de ossamentas humanas.
  Passamos por um pequeno cemitrio, e minha imaginao viu no escuro
esqueletos brancos danando uns com os outros.
  77
  Por fim chegamos  casa da mulher.
  Escolhi esta rapariga - disse tio Torbio - porque  limpa e de
confiana. No  china de porta aberta. Por sinal, mora com a famlia.
  Blau Nunes foi rodeado por uma tropa de anes, cambaios e galhofeiros,
fandangueiros e volantins, que pulavam como aranhes e faziam caretas
impossveis para rostos  de gente.
  Quando entramos na mei 'gua as crianas da casa (uns sete, contei,
mesmo no meu espanto) nos cercaram pulando e gritando, feios, seminus e
barrigudos.
  Por trs dum cortinado havia um socavo reluzente. E Blau Nunes viu
sentada numa banqueta, fogueando cores como as do arco-ris, uma velha
encurvada e toda trmula.
  Sentada a um canto, pitando um cigarro de palha cuja brasa
  lucilava na penumbra, vi uma velha encarquilhada. Tio
  Torbio murmurou:
   a av da menina.
  E, dirigindo-se  velha: Boa noite, dona Pulca, onde est a
  Carmelinda?
  No quarto. T esperando. Pode entrar.
  Meu tio me deixou sozinho com a teiniagu, que se enroscou
  em mim
  e me puxou para a cama.
  E ento procurei sfrego a cova escura e mida
  varei o cerro coberto de matagal
  Meu corao batia
  meu corpo inteiro latejava
  eu tinha vencido as sete provas
  e dentro da salamanca estava o tesouro
  e os prazeres cobiados
  e o meu documento de homem.
  78
  Basta. Levei longe demais a fantasia. Decerto forcei a memria a me
fornecer elementos para a analogia.
  Blau Nunes, alma forte e corao sereno, venceu os sete obstculos.
Ofereceram-lhe como prmio todos os dons que um mortal pode desejar. Mas
ele disse que cobiava  a teiniagu.
  Eu queria a ti, porque tu s tudo!
  s tudo o que eu no sei o que ,
  porm que atino que existe fora de mim,
  em volta de mim
  superior a mim...
  Eu queria a ti, teiniagu encantada!
  Estar nessa lenda a chave da alma e do destino do gacho? Enigma a
decifrar.
  Avisto ali na estante de livros a lombada do Pygmalion de Bernard Shaw.
Uma brochura da Coleo Tauchnitz. Apanho-a e leio a dedicatria na
terceira pgina.
  For my dear, dear Floriano, with best wishes from his devoted
  Marjorie W. Campbell Porto Alegre, December 5, 1928
  O Albion College... Importante captulo da minha adolescncia.
  ramos acordados s seis e meia da manh. Ginstica s sete. Banho frio
s sete e meia. Caf s oito.
  Antes de cada refeio Mr. Campbell lia pequenos trechos da Bblia com
sua voz de mordomo ingls.
  79
  Nas manhs de sbado, numa pardia de alpinismo, saamos a escalar o
morro da Polcia.
  O diretor abria a marcha, com seu verde chapu bvaro, sua camisa
escocesa, seus knickerbockers, suas botinas com agarradeiras nas solas,
e sua bengala com ponteira  de metal.
  Os alunos o seguiam em fila indiana.
  Sem tirar o cachimbo da boca, Mr. C. costumava cantar pelo caminho uma
cano que os "Tommies" cantavam durante a guerra.
  It's long way to Tipperary It's a long way to go...
  A mulher do diretor em geral caminhava a meu lado, e achava sempre um
pretexto para me pegar a mo.
  Help me, dear boyl
  Os meninos caminhavam com o olhar no cho. Dizia-se que o morro estava
infestado de aranhas venenosas.
  Quando chegvamos ao cume, Mr. C. respirava a plenos pulmes, movendo
ritmicamente os braos, e exigia que fizssemos o mesmo.
  Nesses momentos assumia ares de triunfador, como se tivesse acabado de
atingir as culminncias do Himalaia. S lhe faltava plantar no topo do
morro a bandeira da  Inglaterra.
  Voltvamos para o colgio, cansados. E com um apetite de lobos.
  
  Foi no meu derradeiro ano no Albion, na poca em que sofri de insnias.
  Mrs. Campbell compadeceu-se de mim - pity! pity! poor boy! - e me fazia
tomar todas as noites, antes de ir para cama, um copo de leite morno.
  Uma ocasio, depois que as luzes do dormitrio se apagaram, ela entrou
furtivamente no meu quarto, perguntou como eu me sentia,
  80
  ajeitou-me as cobertas, acariciou-me rapidamente os cabelos, sussurrou:
Sleep tight, dear boy, and have sweet dreams - e se foi.
  Outra noite, j tarde, sua presena no quarto se denunciou primeiro por
uma fragrncia, de lavanda. Ouvi quando a mulher do diretor fechou a
porta, vi seu vulto  acercar-se de mim.
  Pobrezinho! Insnia  uma coisa to, to horrvel!
  Sentou-se na cama e disse que ia cantar em surdina uma velha balada da
Esccia, para me ninar. Sua voz, trmulo falsete, era uma caricatura de
soprano.
  A coisa toda me divertia, e ao mesmo tempo me fazia sentir pena da
criatura, e tambm me constrangia e alarmava, pois eu sabia o que estava
para vir.
  No princpio da balada, Mrs. C. me afagava os cabelos.
  No meio da balada era meu ombro que seus dedos friccionavam.
  Quando a cantiga terminou, a mo da inglesa insinuou-se por baixo das
cobertas e, como uma aranha caranguejeira, me subiu coxa acima, 
procura de algo que no lhe  foi difcil encontrar.
  Senti a respirao arquejante da mulher bafejar-me a face.
  Soltando um gemido dbil, Mrs. C. meteu-se inteira debaixo das cobertas.
  Don't be afraid, dear one!
  Decerto julgava que me ia desvirginar. Tive mpetos de dizer-lhe que era
homem, que j conhecera muitas mulheres.
  Continuei, porm, calado e imvel, deixando que ela tomasse todas as
iniciativas.
  Seus beijos, quentes na inteno mas frios no contato, sabiam a odol e a
usque.
  Nessa primeira noite Mrs. C. manteve um relativo decoro. Mas nas
seguintes seus ardores foram ganhando aos poucos uma intensidade
frentica. Por fim ela j me murmurava  ao ouvido, com seu sotaque
britnico, obscenidades brasileiras. (Onde, quando e com quem as teria
aprendido?)
  Havia momentos em que eu me assustava, com a impresso de que ia ser
devorado ou privado de alguma parte essencial da minha anatomia.
  81
  Havia momentos em que o Cambar que dormia dentro de mim despertava e
vinha  tona. E eu tinha ento a orgulhosa iluso de que estava
cavalgando o Imprio Britnico!
  Mrs. C. devia andar pelos seus trinta e cinco anos, mas para o
adolescente era uma senhora idosa.
  Isso no s me impedia de ter por ela um desejo autntico, integral,
como tambm me deixava perturbado, com a desagradvel sensao de estar
cometendo incesto.
  A esse constrangimento se mesclava o puro temor de sermos descobertos.
  E Mr. Campbell - perguntei uma noite. - E se ele entra de repente e
descobre tudo?
  A mulher, que me apertava contra seu corpo, soltou uma risadinha seca.
  No se preocupe. Mr. Campbell a esta hora anda atrs de seus meninos.
Tem um fraco pelos louros de pele branca. Eu prefiro os morenos.
  Depois de nosso primeiro contato carnal, pensei que a inglesa no me
desse mais uma noite de folga.
  Enganava-me. Mrs. C. era metdica. Vinha a meu quarto apenas nas noites
de quarta-feira.
  Fiquei sabendo depois que tinha outros amantes. No internato havia mais
rapazes morenos que louros...
  Essa situao durou quase todo um ano letivo.
  Quando os colegas descobriram a minha histria, no me deixaram mais
sossegar com seus trotes e dichotes, suas aluses veladas ou claras ao
caso.
  Mas neguei tudo. Continuei a negar at o fim.
  Depois daquele ano no tornei a rever o Albion College.
  jamais contei essa aventura a quem quer que fosse.
  Por que a relembro agora?
  Talvez para contar ao homem adulto o segredo do adolescente.
  Aconteceu tambm que naquele ltimo ano de internato meu amor platnico
por Mary Lee havia chegado a seu znite. A menina teria seus treze ou
catorze anos.
  82
  Loura e espigada, parecia uma guardadora de gansos sada dum conto de
fadas.
  Era, para o adolescente, uma espcie de anti-Marjone Campbell.
  Uma personificao das coisas belas, puras e inatingveis.
  Filha dum missionrio episcopal, americano de Alabama, morava na casa
vizinha ao colgio. Frequentava os Campbells, a cuja mesa muitas vezes
se sentava, no refeitrio  geral, para meu encanto e espanto.
  Eu a adorava de longe.
  Muitas vezes, escondido atrs do tronco de um dos cedros do jardim,
ficava contemplando a menina dos cabelos de ouro, que, sentada na beira
da fonte do fauno, traava  com o dedo desenhos n'gua.
  Cena manha (findava o ano, e ns j fazamos as despedidas) reuni todas
as foras de que era capaz, furtei uma rosa vermelha do jardim e dei-a a
Mary Lee.
  Ela. se negou a aceitar a flor. Encolheu os ombros. Virou-me as costas.
E com sua clara e fina voz de cristal, disse:
  I don 't like you, negro boy. Go back to where you belong.
  No me lembro de nada que me tenha dodo tanto como esse gesto e essas
palavras.
  83
  O cavalo e o obelisco
  Naquele sbado de fins de julho de 1930, Rodrigo reuniu alguns amigos no
Sobrado para comemorar o aniversrio de Flora. Chegaram primeiro os
Macedos: dona Veridiana,  gorducha e matronal, o rosto redondo, a pele
de requeijo, anis faiscantes nos dedos, toda metida no seu rico
casaco de peles, e envolta numa atmosfera de L'Origan  de Coty e
naftalina; Juquinha, sempre jovial, com sua invejvel cabeleira negra e
espessa, enfarpelado numa roupa escura feita antes da Revoluo de 23, e
que j  agora comeava a ficar-lhe apertada nos lugares mais
inconvenientes. O dr. Dante Camerino veio com a mulher na esteira dos
sogros: ele j com sua barriguinha prspera,  pois tinha boa clnica,
fazia dinheiro, comeava a ensaiar-se em aventuras pecurias; ela cada
vez mais parecida com a me, de quem ganhara no ltimo Natal o casaco
de peles que ostentava agora. (Desse casal dissera Rodrigo com terna
ironia: "Entendem-se bem: engordam de comum acordo".)
  Contra a expectativa do dono da casa, que convidara os vizinhos
americanos por pura cortesia, compareceram tambm  festa o reverendo
Dobson e a senhora. Dona Dorothy  alvoroada, soltando suas risadinhas
nervosas, procurando ser amvel com todos: o pastor sem saber onde
colocar as manoplas incendiadas de plos ruivos ou acomodar  as pernas
de joo-grande: ambos com um ar vago, transparente e indeciso, como
fantasmas sem experincia que estivessem assombrando uma casa pela
primeira vez.
  Pouco depois entraram os Prates. O dr. Terncio, que agora, morto o pai,
era o chefe de seu cl. Entregou  criada no vestbulo
  85
  o sobretudo preto trespassado, feito por um dos melhores alfaiates de
Paris, tirou as luvas de pele de co e jogou-as dentro do seu chapu
Gelot que a rapariga segurava;  e, depois de ajustar o n da gravata num
gesto automtico, tomou o brao da mulher e dirigiu-a para a sala de
visitas, com a gravidade de quem carrega um andor.  Marlia Prates tinha
mesmo algo de madona, uma beleza meio seca e morta de imagem de pau
pintado. Trazia um vestido de seda negro, simplicssimo, recendia a Nuit
de Nel e como nica jia estadeava no peito,  maneira de broche, uma
comenda da Ordem da Rosa que o imperador conferira a seu bisav, general
das tropas legalistas  que em 35 combateram os Farrapos. Raramente
sorria, tinha orgulho de sua rvore genealgica, gostava de livros,
sabia o seu francs, passara com o marido alguns  anos em Paris e -
afirmavam as comadres maliciosas - no dava duas palavras sem dizer:
"Uma vez nos Champs-Elyses..."
  Os Prates entraram na sala e foram cumprimentando as pessoas que ali j
se encontravam: Laurentina Quadros, inditica e sria, com aspecto de
mulher de cacique,  as mos pousadas no regao, sentada numa postura de
retrato antigo; Santuzza Carbone, de peitos monumentais, corada e
exuberante, numa sutil redolncia a manjerona  e alho, j a mastigar
docinhos e pasteizinhos roubados na cozinha graas a seus privilgios de
ntima da casa; Mariquinhas Matos, entronizada numa poltrona sob o
espelho grande, sorrindo como a Mona Lisa, esforando-se por parecer o
prprio quadro de Da Vinci.
  Dona Marlia e o dr. Terncio deram parabns a Flora. Rodrigo beijou a
mo da recm-chegada, apertou a do marido, disse-lhes de sua alegria de
t-los no Sobrado e  foi logo perguntando ao homem: "Que bebes? Um
porto? Um conhaquezinho?" O dr. Prates aceitou o porto e depois,  sua
maneira reservada, saiu a cumprimentar os outros  convivas: Chiru (que
como de costume no trouxera a mulher, coitada da No rata, sempre s
voltas com os bacuris), a juba reluzente de brilhantina, uma chamativa
gravata de seda azul-ferrete com uma rosa amarela pintada a leo, e que
em geral ele s usava em duas ou trs ocasies solenes durante o ano. O
Neco, constrangido  numa velha fatiota preta, que raramente tirava
  86
  da mala, e que lhe havia sido feita pelo Salomo em priscas eras, e o
velho Aderbal, tambm infeliz dentro da sua roupa de enterro, batizado e
casamento, a meter  de quando em quando o indicador entre o pescoo e o
colarinho duro...
  Rodrigo entregou ao dr. Terncio o clice de porto, e conduziu-o ao
escritrio, onde Aro Stein e Roque Bandeira estavam sentados no sof -
o tio Bicho j com um  copo de cerveja ao lado, o judeu entusiasmado a
enumerar as conseqncias do crash da Bolsa de Nova York. Jos Lrio
escutava-o sem interesse, sentado a um canto,  quieto e sonolento como
gato velho em borralho.
  Seriam quase nove horas quando Roberta Ladrio entrou no Sobrado
acompanhada pelo tenente Bernardo Quaresma. Estavam ambos ainda no
vestbulo a se desfazerem dos  abrigos e j quase todas as mulheres na
sala manifestavam na expresso fisionmica, em diferentes graus de
intensidade, a sua estranheza ou desaprovao ante o fato  escandaloso
de uma moa solteira andar na rua quelas horas da noite na companhia
dum homem jovem que no era seu parente chegado. Mariquinhas deu voz 
sua crtica,  segredando-a ao ouvido de Flora, que sacudiu de leve a
cabea e transmitiu a observao da Gioconda a Santuzza, a qual encolheu
os ombros e fez "Eh!" Laurentina,  porm, absteve-se de qualquer
comentrio, mesmo monossilbico, e Marlia Prates procedeu como se
estivesse ausente.
  Rodrigo veio radiante beijar a mo da professora e abraar o tenente de
artilharia, que estava vestido  paisana e entanguido de frio.
  - Naturalmente vocs todos conhecem a Roberta... - disse o dono da casa,
olhando em torno. - E o nosso Bernardo... nem se fala!
  Claro, todos conheciam! Muito desembaraada, com sua graa carioca e
balzaquiana, Roberta Ladrio ps-se a distribuir beijinhos, comeando
com Flora, a quem entregou  um presente. As mulheres em geral achavam a
forasteira "dada e simptica", mas encaravam essas suas virtudes com uma
certa reserva serrana. No se sentiam muito   vontade ante seus esses
chiados e sua desenvoltura teatral. Reprovavam a maneira exagerada com
que ela pintava o rosto, 
  87
  principalmente as plpebras, quase sempre tocadas duma sombra azulada, que
lhe dava um jeito de atriz... "A senhora v, uma professora!" E como se
tudo isso no bastasse,  Roberta fumava em pblico, cruzava as pernas
como homem, escrevia e at publicava versos!
  Dona Laurentina recebeu impassvel o beijo da professora. Marlia
manteve-a  distncia com um olhar glacial. Santuzza pegou com ambas as
mos a cabea da moa e  beijou-lhe sonoramente as faces, numa espcie
de solidariedade de mulherona para mulherona. A Gioconda esquivou-se ao
beijo, graas a um estratagema: levantou-se,  segurou a outra pelos
braos, conservando-a afastada de si, e disse duma maneira em que se
sentia a hipocrisia de suas palavras: "Ests maravilhosa hoje, Roberta!"
E a professora, risonha: "Achas? Muito obrigada, meu bem".
  Desde que chegara a Santa F, havia menos de cinco meses, Roberta
Ladrio, professora da Escola Elementar, era um dos assuntos mais
discutidos na cidade. Os homens  estavam fascinados por aquela morenaa
vistosa, bonita de cara, bem-feita de corpo e um tanto livre de hbitos.
Poucas semanas depois de sua chegada, publicara no  jornaleco local um
poema seu que causara escndalo no plano literrio por causa da ausncia
de rima e metro, e no plano moral pela sua natureza ardentemente
ertica.  Os versos eram em ltima anlise uma descrio do corpo e dos
desejos da autora. "Isso no  um poema - dissera algum. -  um
anncio!"
  A madre superiora do Colgio do Sagrado Corao de Jesus, onde Roberta
Ladrio se hospedava, recebeu uma carta annima em que um Amigo da
Moral, enviando-lhe um  recorte do jornal com o poema, perguntava-lhe se
depois daquele "acinte" a boa freira permitiria ainda que a devassa
continuasse a viver debaixo do mesmo teto que  cobria as cabecinhas
inocentes das alunas do internato. Ora, a madre superiora, natural da
Alemanha, era uma mulher "evoluda", leitora de Goethe, e no reprovava
bailes nem cinemas. Leu a carta, mostrou-a a Roberta e depois rasgou-a,
dizendo: "Faz de conta que ningum escreveu, ha?"
  O tenente Bernardo Quaresma seguia Roberta na sala como um cachorrinho
fiel. Era retaco, de pernas arqueadas, nariz adunco,
  caminhar gingante - traos esses que lhe davam um ar de papagaio. "Mas
papagaio muito simptico! " - explicava Rodrigo, que tinha j uma
afeio quase paternal por  aquele alagoano de cara rosada (agora um
tanto arroxeada de frio) que servia no Regimento de Artilharia local
havia quase um ano, sendo tambm um dos freqentadores  mais assduos do
Sobrado. De resto o tenente Bernardo conquistara praticamente toda Santa
F. Loquaz, brincalho, fazia amigos com facilidade, gostava de dar
presentes  e prestar servios. Tinha um co pastor alemo, o Retirante,
seu companheiro quase inseparvel, animal to gregrio e popular quanto
o dono.  tardinha o tenente  de artilharia costumava deixar o hotel
onde se hospedava (diziam que dormia com o cachorro na mesma cama) e
subia a rua do Comrcio na direo da praa da Matriz.  As mulheres que
ao entardecer costumavam vir debruar-se nas suas janelas, e os homens
que estavam s portas das lojas ou  frente do Clube Comercial, sabiam
que  podiam contar quela hora do dia com um espetculo divertido.
Enfarpelado no seu uniforme caqui (o quepe alto, as perneiras e o
talabarte negros contribuam para  aumentar-lhe o porte), l vinha
Bernardo Quaresma no seu tranco de marinheiro, batendo nos lados do
culote com seu inseparvel pinguelim, a conversar com o cachorro.
"Retirante velho, bichinho bom. Quem  que vai ganhar hoje um churrasco?
Eta cabra-dapeste! Dana!" O cachorro comeava a girar sobre si mesmo.
"Rola!" E o animal  rolava na calada. "Olha o inimigo!" E o Retirante
estacava, encostava o ventre nas pedras, estendia as patas traseiras,
cobria o focinho com as dianteiras. E as  pessoas que viam a cena
punham-se a rir, e o tenente de artilharia, feliz, continuava seu
caminho, conversando com um e com outro - "Cuca velho, meu bem, como vo
as coisas?" - parando  janela de Esmeralda Pinto para ouvir seus
mexericos, ou  de Mariquinhas Matos, para lhe dizer um galanteio. E se,
ao passar pela frente  da Barbearia Elite, o Neco estivesse parado 
porta, era certo que o tenente empunhava o pinguelim  guisa de
metralhadora, entrincheirava-se atrs dum poste telefnico  e abria o
fogo contra o barbeiro: - t-t-t-t-t. O outro, arreganhando a
dentua eqina, recuava para trs da porta, e improvisando um revlver
com a mo direita,  disparava tambm.
  89
  "Avanar!", gritava o tenente. Retirante precipitava-se na direo do
barbeiro, e empinando-se, sentava as patas nos ombros de Neco e quase o
derrubava. "Tira esse  cachorro daqui!" E Bernardo, rindo, vinha em
socorro do amigo. "Quieto, cabra-da-peste!" E o cachorro se aquietava,
ficava de lngua de fora, resfolgante, a olhar  para o dono com olhos
ternos, enquanto Neco limpava o casaco, e o tenente o abraava, dizendo
quase sempre coisas assim: "No fao a barba em barbeiro aqui no Rio
Grande por causa da fama de degolador que vocs gachos tm".
  Quando Roberta passou por Chiru aquela noite, na sala do Sobrado, depois
de cumpriment-lo, este murmurou para o amigo:
  - Essa morena  um balao. Olha s que cadeiras, que peitos, que rabo.
Deve ser de estouro na cama. E tu sabes duma coisa? O nosso Rodrigo j
est fazendo o cerco...  Ele pensa que sou cego, mas a mim ele no
engana...
  Neco Rosa lanou para a professora um olhar avaliador de perito e disse:
  -  um balao mesmo. E de bala dundum!
  O tenente Quaresma plantou-se diante dos dois amigos, as pernas abertas,
as mos na cintura, o olhar provocador:
  - Onde est a revoluo que vocs iam fazer? O Rio Grande cantou de
galinha.
  Chiru Mena baixou para o tenente um olhar desdenhoso:
  - Sai, nanico! Eu tomo aquele quartel de vocs a grito e a pelego!
  - Qual nada! Gacho  s prosa, s farofa.
  Chiru avanou sobre o tenente e envolveu-o com um abrao de urso, como
se quisesse esmagar-lhe o trax.
  - Se eu no gostasse tanto de ti, milico safado, eu te reduzia a p de
traque, ests ouvindo?
  E ficaram a trocar palmadas nas costas, muito amigos, enquanto o Neco
cocava as pernas da professora.
  90
  - Por que no se senta, reverendo? - perguntou Flora ao pastor
metodista, mostrando-lhe uma cadeira.
  - Oh! Muito obrigado - murmurou ele, sentando-se e pousando as mos
sobre os joelhos, enquanto a mulher distribua olhares e risinhos em
derredor, como se procurasse  compensar com aquela alegria estereotipada
seu pouco conhecimento da lngua dos nativos.
  - Ponha alguma coisa na vitrola - pediu a dona da casa dirigindo-se ao
Chiru. O homenzarro obedeceu e dentro de poucos segundos, do ventre da
Credenza saltavam  os sons duma marcha, Stars and strpes for ever. A
mulher do pastor soltou um ah!, juntou as mos, num encantado espanto,
como se tivesse visto entrar inesperadamente  um primo irmo
recm-chegado dos Estados Unidos. A face do reverendo Dobson permaneceu
impassvel, mas seu p direito, marcando o compasso da marcha,
denunciava-lhe  o contentamento.
  Junto da porta do escritrio, na frente de Terncio, mas sem prestar
muita ateno ao que este lhe dizia, Rodrigo observava disfaradamente
Roberta Ladrio. Aquela  mulher excitava-o de tal maneira, que ele no
podia v-la sem desejar agarr-la ou pelo menos toc-la. Fora a
conquista mais rpida que fizera em toda a sua vida.  Mal chegara a
Santa F, a professora pedira que a levassem ao Sobrado. "Todos me
diziam que vir a Santa F e no conhecer o dr. Rodrigo Cambar seria o
mesmo que  ir a Roma e no ver o papa." Rodrigo achara a imagem vulgar
mas nem por isso se sentira menos lisonjeado. Vislumbrava nos olhos dela
- oh, intuio! oh, sexto sentido!  - um mundo de possibilidades e mesmo
de facilidades. Aquela fmea lhe surgira num momento crtico de sua
vida. A derrota eleitoral de Getlio Vargas e Joo Pessoa,  o malogro da
conspirao revolucionria, o Rio Grande desmoralizado aos olhos do
Brasil por no ter levado a cabo suas ameaas revolucionrias... enfim,
aquele marasmo,  aquela mediocridade de Santa F - tudo concorria para
que ele se sentisse frustrado, deprimido, amargurado, necessitando novos
interesses e estmulos. Sim, Roberta  Ladrio chegara na hora certa.
Contara-lhe que fazia poemas. "Gostaria muito que o senhor os lesse, me
desse conselhos, dissesse se prestam,
  91
  se devo continuar..." Voltara dias depois ao Sobrado com um caderno
cheio de versos, e Flora fora suficientemente compreensiva para permitir
que ele e Roberta ficassem  a ss no escritrio, de portas fechadas.
Sentaram-se no sof. Que perfume era aquele que a envolvia? No
conseguiu identific-lo... mas que importava? Roberta ali  estava a seu
lado, quase a toc-lo com os braos, as ancas, as coxas, as pernas...
Seu corpo despedia uma quentura perturbadora. Ela abriu o caderno:
escrevia com  tinta roxa, tinha uma letra grada, de ntido e ousado
desenho. "Este  um poeminha antigo. Veja se gosta." Comeou a ler com
uma voz que tinha a temperatura do  corpo, e de quando em quando voltava
a cabea e envolvia-o com um olhar tambm clido, que era evidentemente
uma provocao. Ele no conseguia prestar ateno no  que a criatura
dizia. Apanhava apenas palavras, frases soltas... corpo sedento. . .
cntaro de barro... pssaro... prata. O decote da blusa de Roberta era
to profundo  que ele podia ver-lhe o rego dos seios. No conseguia
desviar o olhar daquela misteriosa e sombria canhada entre dois montes
de desejo,  Rei Salomo! "Que tal?"  Ele levou algum tempo para
responder. "Maravilhoso. Leia outro." Os dedos de unhas longas e
esmaltadas de vermelho folhearam o caderno. "Ah! Este  um dos meus
favoritos.  Oua." Rodrigo esforou-se por prestar ateno.
  A Lua no cu toda nua. Toda nua eu, na Terra. A Lua espera o Sol. Mas eu
quem espero?
  Os versos no prestavam mas a professora estava "no ponto". O brao de
Rodrigo estendia-se sobre o respaldo do sof, por trs da cabea dela.
Um movimento simples  bastaria para precipitar tudo: deixar cair a mo
esquerda sobre aquelas espduas, depois levar a direita na direo
daqueles seios. To simples... Ou seria cedo  demais? A mulher
continuava a ler, e suas palavras lhe batiam nas tmporas como pedradas,
no mesmo compasso do sangue. Suas palavras feriam, doam. Ele sentia o
corpo inteiro trgido e 
  92
  latejante. Era insuportvel! Uma provocao acintosa! Na sua prpria casa! E
se entrasse algum? Jamais em toda a sua vida... O caderno tombou.
Rodrigo tomou Roberta  nos braos, mordeu-lhe a boca, e ela
desfaleceu... E nas folgas que ele lhe dava, entre um longo beijo e
outro longo beijo, ela balbuciava de olhos cerrados: "Eu  te adoro, eu
te adoro, eu te adoro". E ento ouviram-se passos na sala. E ambos se
puseram de p. Ele passou rpido o leno nos lbios. Uma batida na
porta. Entre!  Floriano entrou. E a oportunidade se foi... Roberta saiu
do Sobrado inclume. E ele ficou excitado e impaciente, a pensar num
lugar seguro onde pudesse ficar com  ela algumas horas sem ser
molestado, sim, e sem que ela corresse o perigo de perder a reputao.
Chegara at a pensar num pretexto para lev-la ao Angico... ("E  essa? A
Roberta nunca viu uma estncia em toda a sua vida! Ah! Precisa conhecer
o Angico urgentemente.") Imaginou-se a conduzi-la ao capo onde tivera a
Carezinha  e tantas outras chinocas. Roberta ia gostar de ver os bugios
assanhados nas rvores. Podia at fazer um poema...
  O dr. Terncio continuava a falar com sua voz pausada, ntida e
autoritria:
  - ...de sorte que estamos nessa situao ridcula. Perdemos a eleio,
ameaamos cus e terras... acabamos acovardados. O dr. Borges de
Medeiros acha que a questo  ficou encerrada com a deciso das urnas e
deu um novo "Pela Ordem" que eu no aprovo mas acato, como soldado
disciplinado do partido. Se havia alguma articulao  revolucionria,
essa se foi guas abaixo depois do pronunciamento do Chefe. Tu vs,
Rodrigo, os jornais do Rio e de So Paulo no nos poupam, nos atacam,
nos ridicularizam...  E o mais triste, meu amigo,  que quem est
pagando a mula roubada  o dr. Joo Pessoa. O dr. Washington Lus
protege os cangaceiros de Princesa para vingar-se do  presidente da
Paraba, cujo gesto de independncia ele no perdoa nem esquece.
  Levar Roberta para um hotel? - pensou Rodrigo. Impossvel. E se fssemos
os dois em trens diferentes a Santa Maria? Daria muito na vista... Se ao
menos ela morasse  numa casa... ou mesmo numa penso. Mas havia de estar
hospedada logo num colgio de freiras!
  93
  Seu olhar encontrou o de Roberta e por um instante ficaram presos um no
outro. Rodrigo sentiu uma onda quente subir-lhe das entranhas  cabea,
estonteando-o. E  de sbito percebeu que Mariquinhas Matos e Marlia
Macedo o observavam. Desviou o olhar mas ficou vendo mentalmente a
rapariga. Os lbios dela o deixavam meio louco,  com vontade de
mord-los: o inferior mais carnudo que o superior. Aquelas narinas
abertas e palpitantes eram outro elemento afrodisaco... E sua voz
cariciosa e  meio rouca, voz de alcova, parecia estar sempre sugerindo
coisas libidinosas.
  Chiru aproximou-se da Credenza e mudou o disco. Uma valsa de Strauss
precipitou as guas do Danbio para dentro da sala. Roberta bateu a
ponta dum cigarro contra  a cigarreira de ouro. Bernardo avanou de
isqueiro aceso em punho, e a professora "serviu-se do fogo do tenente"
(segundo Maria Valria, que observava a cena com  o rabo dos olhos),
soltou uma baforada, sorriu e agradeceu. Neco cutucou Chiru com o
cotovelo, fez com o olhar um sinal na direo da dupla e murmurou:
  - O tenente no  rabo pr'aquela pandorga.
  - Que esperana!
  Terncio teve de altear a voz para fazer-se ouvido em meio das golfadas
danubianas:
  - Outra coisa que me preocupa  a situao do Banco Pelotense. Tenho
medo duma corrida. Andam boatos por a... Pensei at em retirar o
depsito que mantenho l,  mas o gerente me suplicou que no o fizesse.
Est apavorado com a possibilidade de criar-se o pnico entre os
depositantes. - Soltou um suspiro. - O preo do charque  est baixando
assustadoramente. Ningum tem dinheiro. Meu amigo, h muito que o nosso
Rio Grande no atravessa uma hora to negra.
  Rodrigo sacudiu lentamente a cabea, olhando de soslaio para as pernas
de Roberta, metidas em meias cor de carne. Flora naquele momento
convidou as senhoras a irem  para a mesa. "Fizemos s uns frios..." -
desculpou-se. "Ah! - fez Marlia Prates. - No h nada como um buffet
froid..." E acompanhou a dona da casa, entrando com  ela na sala de
jantar. Santuzza seguiu-as ao mesmo tempo que respondia a uma pergunta
de dona Laurentina. "O 
  94
  Cario? Pobrezinho, foi ver um doente em Garibaldina. Vida de co!" Mona
Lisa deixou passar um intervalo elegante, para no parecer esfaimada, e
depois encaminhou-se  para a mesa de frios, ao lado de Dante Camerino e
da senhora. Esta ia dizendo: "Bom, eu j resolvi... Hoje quero comer de
tudo, porque segunda-feira vou comear  uma dieta rigorosa".
  Camerino sorriu, piscando um olho cptico para Mariquinhas. O velho
Aderbal veio sentar-se ao lado da esposa, e Rodrigo teve a impresso - e
como isso o irritou!  - de que ambos ali ficavam para vigi-lo.
  Eram quase dez horas, e alguns dos homens estavam agora a conversar no
escritrio, de porta fechada. A julgar pela expresso fisionmica de
alguns deles, o assunto  de que tratavam no era dos mais alegres.
  Liroca dormitava a um canto. Stein achava-se junto da janela, tendo nas
mos um pratinho com croquetes. Roque Bandeira, sempre sentado no sof,
enxugava a sua quarta  garrafa de cerveja preta. A seu lado Chiru comia
diligentemente o seu peru com farofa e sarrabulho, tomando de instante a
instante largos sorvos de clarete. Meio  escarrapachado numa poltrona,
Juquinha Macedo brincava com a corrente do relgio, olhando para o
tapete, enquanto o dr. Terncio, sentado com mais aprumo na poltrona
fronteira, olhava fixamente para o retrato de Jlio de Castilhos. De p,
na frente do sof, Rodrigo estava com a palavra:
  - Em mais de quarenta anos de repblica nunca tivemos um presidente
gacho. Os paulistas sempre nos boicotaram. Em 1910 impugnaram o nome do
senador Pinheiro Machado.  O governo federal nada mais tem feito at
agora seno fomentar as lutas partidrias do Rio Grande.
  - Por qu? - perguntou o tio Bicho, incrdulo.
  - Ora, porque querem nos dividir, nos enfraquecer! Em 35 a corte
considerava os farrapos bandoleiros, bandidos que estavam
  95
  pondo em perigo o resto do pas, gente xucra de p no cho, faca e
pistola na cintura, speras verdades na ponta da lngua. E que sempre
fomos homens do frente-a-frente  e no das conspiraes e intriguinhas de
bastidores. A nossa franqueza rude assusta os nossos compatriotas l de
cima. O que o governo federal quer  que o Rio Grande  continue sendo o
que foi no princpio da sua histria: um acampamento militar. Acham que
para guardar a fronteira e conter os castelhanos somos bons. Para
governar  o pas, no!
  Aproximou-se de Bandeira, segurou-lhe a lapela do casaco e disse:
  - Eles nos temem, Roque, essa  a verdade, eles nos temem!
  - Temiam... - corrige o gordo com pachorra.
  A princpio pareceu que Rodrigo ia contradizer o amigo violentamente.
Mas soltou um suspiro, enfiou as mos nos bolsos das calas e murmurou:
  - Infelizmente tens razo. Temiam. Estamos desmoralizados. Juquinha
Macedo lembrou que, noticiando recentemente a
  inaugurao dum cinema em Porto Alegre, um jornal do Rio escrevera que
nele haveria "duas mil poltronas para dois mil poltres". Rodrigo
voltou-se para Terncio:
  - Tu vais me desculpar, mas o principal responsvel por esta situao de
acovardamento  o chefe do teu partido, que era tambm o partido do meu
pai e j foi o meu.  O dr. Borges  o campeo do p-frio, o profissional
da gua fria. O Joo Neves faz o que pode na Cmara para salvar a honra
do Rio Grande. Mas a hora no  mais  de oratria e sim de ao.
  O dr. Terncio Prates fitou no dono da casa os olhos mosqueados.
  - Pensa bem, Rodrigo, pensa sem paixo. Os mineiros tambm esto
encolhidos. O dr. Antnio Carlos chegou  concluso que o movimento
revolucionrio est desarticulado.  As guarnies federais do norte e
at as de Minas parecem estar todas do lado do governo. Seria criminoso
lanar o pas numa guerra civil que poder custar milhares  de vidas.
No deves ser to severo para com o dr. Borges de Medeiros. Hs de
concordar comigo em que no
  96
   muito fcil para um castilhista transformar-se duma hora para outra em
revolucionrio...
  - Qual! - replicou Rodrigo. - No se trata agora de idias, mas de ter
caracu. O Oswaldo Aranha tem. O Flores da Cunha tambm.
  - Tu sabes que o dr. Getlio no  nenhum covarde...
  - Pois olha que comeo a ter as minhas dvidas. O homenzinho no arrisca
nada, s quer jogar na certa. Entrou na corrida presidencial meio
empurrado. At a ltima  hora negociou com o Washington Lus por baixo
do poncho,  revelia dos companheiros, na esperana de vir a ser o
candidato oficial. Eu estava em Porto Alegre quando  o Aranha abandonou
a Secretaria do Interior. Sabes o que foi que ele me disse? "Olha,
Rodrigo, estou farto desta comdia, desta mistificao. Com um chefe
fraco  como o Getlio, a revoluo est liquidada..."
  Houve um silncio prolongado. Vinha da outra sala a voz da Credenza: La
violetera. Com a boca cheia, soltando borrifos de farofa, Chiru Mena
repetiu a velha frmula:
  - Eu j disse... O remdio  separar o Rio Grande do resto do pas,
mandar estender uma cerca de arame farpado na fronteira com Santa
Catarina.
  - Deixa de besteira! - exclamou Rodrigo. - A soluo  marchar contra o
Rio, tomar aquela joa a grito e amarrar nossos cavalos no obelisco da
Avenida.
  Juquinha Macedo pareceu ganhar vida nova:
  - Isso! Isso! - gritou, soltando em seguida uma risada de galpo.
  O dr. Terncio sacudiu a cabea negativamente.
  - Seria uma gauchada bonita, reconheo, mas sem nenhum contedo
ideolgico. Um ato puramente irracional.
  - Sejamos prticos - interveio Rodrigo. - O programa vir depois de
vitoriosa a revoluo. E quem vence, vocs sabem, quem vence sempre tem
razo.
  Erguendo de novo o olhar para o retrato do Patriarca, o dr. Terncio
tornou a falar:
  97
  - E tu esperas que o dr. Borges de Medeiros participe duma insurreio
vazia de idias?
  - Que queres ento? - perguntou Rodrigo, j meio espinhado. - Estender o
positivismo borgista ao resto do pas? Fazer de cada brasileiro um
castilhista, do Amazonas  ao Rio Grande? Levar a famigerada "ditadura
cientfica" do Chimango ao governo central? Eu vejo o problema de
maneira mais singela. H quarenta anos que nosso Estado   a Gata
Borralheira da Repblica. Chegou a nossa hora de ir ao baile do
prncipe! Apresentamos legalmente um candidato  presidncia e fomos
esbulhados nas urnas.  Agora s nos resta o recurso das armas!
  - Seja como for - murmurou o outro -, a conspirao se desarticulou. O
Siqueira Campos morreu. O Joo Alberto voltou desiludido para Buenos
Aires. Lus Carlos Prestes  virou a casaca do lado moscovita.
  Rodrigo sacudiu a cabea vigorosamente.
  - No me conformo. No me conformo. No me conformo. Por baixo da cinza
fria que o dr. Borges e essa Esfinge de So Borja atiraram sobre o fogo
revolucionrio, ainda  ardem brasas sopradas por homens como o Aranha.
Te garanto que ardem.
  Rodrigo inclinou-se sobre o amigo e, baixando a voz, acrescentou:
  - Aqui que ningum mais nos oua... O Aranha encomendou dezesseis mil
contos de armas da Tchecoslovquia. Vocs podem me chamar de otimista,
se quiserem, mas aposto  como o Jlio Prestes no assume o governo.
Mando me capar se ele assumir!
  - Mas se o maior interessado no assunto est aptico! - exclamou o
Bandeira.
  Rodrigo apontou para tio Bicho com um dedo proftico:
  - Pois empurraremos o Getlho para a revoluo a trancos e bofetes!
  Stein deu alguns passos e sentou-se ao lado de Bandeira. Chiru ergueu-se
e saiu do escritrio com o prato vazio na mo. Quando ele abriu a porta,
Rodrigo viu que  danavam na sala. Roberta passou nos braos do tenente
Quaresma. Juquinha Macedo precipitou-se para a outra pea e foi convidar
a mulher para "arrastar os ps".
  98
  Chiru largou o prato nas mos de Maria Valria e, enlaando a cintura da
Mona Lisa, ps-se a rodopiar com ela. A Credenza tocava o Ca c'est
Paris. Dante Camerino  e a mulher danavam com muito esforo e pouco
ritmo, dando a impresso de que cumpriam uma tarefa difcil e
compulsria, que nada tinha de divertida. Imvel, a uma  das portas,
toda vestida de negro, Maria Valria dominava a sala com seu olhar de
pederneira.
  Rodrigo fechou a porta do escritrio, no sem antes lanar um olhar
faminto para as ancas da carioca. Sentiu sede, pegou a taa de champanha
que esquecera, quase  cheia, em cima da escrivaninha e bebeu um gole.
Que fazer? J que no posso derrubar o governo, que ao menos me seja
permitido dormir com a professora! Gostou da  frase e mentalmente se deu
uma palmadinha admirativa no ombro. Concentrou depois a ateno no que
se dizia no escritrio e verificou que, como de costume, o dr.  Terncio
e o tio Bicho estavam atracados numa discusso. Sabia que o chefe do cl
dos Prates detestava tanto Bandeira como Stein. Chamava-lhes "a dupla do
inferno".  Achava o judeu petulante e agressivo no seu comunismo, e j
havia declarado que no estava disposto a trat-lo esportiva e
levianamente, como fazia Rodrigo. Quanto  a Bandeira, sentia repulsa
pelo seu fsico de batrquio, pelo seu desleixo nas roupas e na higiene
pessoal, e principalmente pela insolncia de suas idias, amparada  numa
erudio feita de leituras desordenadas e mal digeridas.
  - Devemos ter a humildade suficiente para reconhecer - dizia tio Bicho -
que na federao brasileira So Paulo  mesmo uma locomotiva a puxar
vinte vages vazios.
  Terncio Prates ergueu-se, os msculos faciais retesados, e por um
momento pareceu que ia esbofetear o interlocutor. Depois, com uma voz
que a emoo tornava gutural  e baa, mas sem perder o ar didtico e
autoritrio, disse:
  - Sabe por que So Paulo  hoje o Estado mais rico da Federao? 
porque sempre foi a menina dos olhos do governo central, que sacrifica o
resto do pas para proteger  a lavoura cafeeira paulista e seu arremedo
da indstria. Os fazendeiros de caf recebem dinheiro adiantado do Banco
do Estado, tm sua safra garantida a
  99
  preos artificialmente elevados. Por isso sempre nadaram em dinheiro,
viveram  tripa-forra, com automveis de luxo, grandes casas, viagens
freqentes  Europa,  ao passo que ns aqui no Rio Grande levamos uma
vida espartana, esquecidos do Centro, envolvidos em crises financeiras e
econmicas crnicas... Stein sorriu:
  - E o regime latifundirio, doutor. Essa situao vem do Imprio. Vem do
perodo colonial, quando comearam os privilgios da aristocracia rural,
que governava o  pas e fazia as leis de acordo com suas convenincias.
No princpio eram os senhores de canaviais e engenhos. Hoje so os
fazendeiros de caf. Mas esto todos enganados  se pensam que essa
prosperidade inflacionria  a soluo para a economia nacional. O
Brasil nunca teve lastro para garantir essas operaes de crdito feitas
no  estrangeiro. E o resultado a est. O crash da Bolsa de Nova York
precipitou a degringolada. Os preos do caf caram. O pnico comeou.
  Stein levantou-se, aproximou-se de Rodrigo e prosseguiu:
  - Os senhores no deviam preocupar-se. O tempo e as contradies do
sistema capitalista esto trabalhando para a revoluo. A curto prazo
para a vossa revoluo  nacional burguesa. A longo prazo para a nossa
revoluo internacional socialista. O edifcio do capitalismo  como um
castelo de cartas: basta soprar uma delas para  que as outras comecem a
cair. No se admirem se os Estados Unidos se virem s voltas com
agitaes comunistas. O desemprego l cresce dia a dia. Quanto a ns, na
Amrica do Sul, nem se fala. Governos j esto caindo... A baixa dos
preos do caf vai deitar por terra o Washington Lus. Os senhores no
precisam dar um tiro.
  Tio Bicho ergueu no ar contra a luz a garrafa vazia, murmurando:
  - Adoro os tericos. Resolvem tudo no papel.
  - No dou trs meses de vida para esse governo que a est...
  - Cala essa boca, Aro! - exclamou Rodrigo com uma agressividade
paternal. - Tua panaceia bolchevista no vai resolver nossos problemas.
E uma coisa te digo: se  te prenderem de novo, no
  contes mais comigo pra te tirar da cadeia. Tens a lngua solta de-
  mais.
  - No se pode falar nem academicamente? - perguntou o judeu, com um
sorriso contrafeito.
  - Academicamente ou no - replicou o dono da casa - levaste vrias
sumantas de borracha na polcia, no foi? Uma vez te quebraram trs
costelas, te deixaram sem  sentidos, quase te liquidaram. Se eu no
interviesse terias morrido e ningum ficava sabendo... J vs que nossa
polcia no compreende a "linguagem acadmica",  e nisso ela se parece
muito com essa GPU que vocs tm na Unio Sovitica.
  Stein passou a mo perdidamente pelos cabelos.
  - Eu sei... - murmurou, como a recordar-se das torturas sofridas e
passadas. - Acontece que as costelas so minhas, doutor, e minha vida 
minha.
  Terncio fez um gesto de impacincia. Tio Bicho reprimiu um arroto, mas
no com absoluto sucesso. Rodrigo ficou por alguns segundos tentando
identificar a melodia  que vinha da sala, mas s conseguia ouvir com
nitidez as notas graves e cadenciadas do contrabaixo.
  Naquele exato instante Floriano estava na gua-furtada, estendido no
div, com um livro aberto sobre o peito, as mos tranadas contra a
nuca, escutando... Tinha  a impresso de que os sons cavos do
contrabaixo eram a voz mesma do casaro. Ele os sentia dentro do trax,
como numa caixa de ressonncia.
  Estava inquieto. No saberia dizer bem por qu. Seu mal-estar se
exprimia fisicamente por uma sensao de aperto no peito e
psicologicamente por uma indefinvel  premonio de desgraa iminente.
  Passou a mo pela capa do livro que estivera a ler com ateno vaga, at
havia pouco. Era o Stray birds, de Rabindranath Tagore. Um poema lhe
ressoava na mente:
  100
  101
  O silncio carregar tua voz como um ninho que abriga pssaros
adormecidos. Pegou o volume, fechou-o, colocou-o em cima duma cadeira,
sentou-se no div e ficou pensando  em Roberta Ladrio. A professora
estava l embaixo, na sala. Vira-a entrar no Sobrado em companhia do
tenente Quaresma. Que estaria ela fazendo agora? Lembrou-se  da tarde em
que a surpreendera fechada no escritrio com seu pai, ambos com ar de
criminosos, ele com os lbios manchados de vermelho, ela com o vestido
amassado.  "Que  que queres?" - "Nada, papai, vim buscar um livro..." -
"J conhecias a professora Roberta Ladrio? Roberta, este  o meu filho,
Floriano. Teu colega, sabes?   Floriano, Roberta faz poemas
maravilhosos." - Aquele cheiro quente e perturbador de mulher, o ar de
culpa dos dois, o caderno cado - tudo isso dava ao escritrio  uma
atmosfera excitante de alcova. "Muito prazer..." A professora tinha mos
mornas e macias. Seus seios redondos arfavam. Que livro ele ia buscar?
No se lembrava  direito... Mas no importava. Pegou um ao acaso e
retirou-se, embaraado, as orelhas em fogo. Tinha a certeza de que
interrompera uma cena de amor, e isso o deixava  excitado. De certo modo
participava no s do desejo do pai pela professora como tambm de seu
sentimento de frustrao por ter sido interrompido. Teve mpetos (tudo
terico, claro, porque jamais teria coragem para tanto) de
sussurrar-lhes que voltassem para o sof e se amassem despreocupados com
o resto do mundo, porque ele,  Floriano, ficaria de guarda  porta, como
um co. E por pensar essas coisas sentia que estava atraioando a me.
  A msica parou. Vozes, risos e palmas vieram l de baixo. Floriano
sentiu um passageiro desejo de descer e olhar a festa, mas uma timidez
mesclada de preguia o  tolheu. No lhe era fcil conviver com as outras
pessoas. Preocupava-se demasiadamente com o que os outros pudessem estar
pensando dele. Suspeitava de que em geral  as pessoas no o estimavam,
no simpatizavam com ele, achavam-no aborrecido. Recusava-se, porm, a
dizer as frases e a assumir as atitudes que conquistam amizades,
simpatias e admiraes, no s por achar o estratagema hipcrita e
primrio, como tambm por uma espcie de preguia tingida de
no-vale-a-penismo. Quando se via  em grupos, tinha a impresso de estar
sempre sobrando. Isso
  102
  lhe dava uma sensao de solitude que era triste e ao mesmo tempo
esquisitamente voluptuosa. O desejo de ser aceito e querido alternava-se
nele com o temor de que,  no dia em que isso acontecesse, ele viesse a
perder no s sua intimidade consigo mesmo como tambm sua identidade.
  Decidiu ouvir msica. Ergueu-se, aproximou-se da mesinha sobre a qual
estava a sua porttil Victor, colocou-lhe no prato u primeiro disco da
Sinfonia pastoral e  ps o aparelho a funcionar. Tornou a deitar-se.
Cerrou os olhos, e as vozes dos violinos, violoncelos e altos,
desenvolvendo o tema inicial, pintaram-lhe na mente  uma cena: rapazes e
raparigas a danarem numa verde paisagem campestre. Mas l no meio da
alegre ronda surgiu de repente, como a encarnao mesma de Baco, a
imagem  de tio Bicho, com um copo de cerveja na mo... E o Floriano de
dezenove anos sorriu com indulgncia para o de dezesseis, que passava
horas junto da Credenza, a ouvir  trechos de pera, com srio fervor,
comovendo-se com as rias e duetos de Rodolfo e Mimi, vibrando com a
cena final de Andra Chnier... Roque Bandeira lhe dissera  um dia:
"Ests agora na fase opertica. Ningum se livra desse sarampo musical.
Mas isso passa e um dia morrers de amor por Tchaikvski, Berlioz, Lizt,
Schubert  e Chopin, desprezando a pera. Mas tempo vir em que,
compreendendo a verdadeira msica, descobrirs Ludwig van Beethoven,
como se ningum tivesse feito o mesmo  antes de ti. Comears
naturalmente pelas sinfonias, ali por volta dos vinte anos. Mas s na
casa dos trinta  que poders apreciar as sonatas para piano e os
quartetos,  principalmente os ltimos, que a meu ver so a essncia mais
pura do gnio do Velho. Quando te aproximares dos quarenta te voltars
inteiro para Bach, e ento, s  ento, eu te darei um certificado de
maturidade".
  A profecia do tio Bicho se estava cumprindo. Tendo j passado pelas duas
primeiras fases, ele gozava agora as delcias da terceira, sem poder nem
querer admitir  a possibilidade de vir um din a super-la. Tentara
vrias vezes, mas em vo, gostar das sonatas para piano. Quanto aos
quartetos, nem sequer sabia onde e como adquirir  suas reprodues
fonogrficas.
  103
  Distrado a pensar essas coisas, Floriano s percebeu que a msica havia
desaparecido quando teve conscincia do rascar da agulha sobre o rtulo
do disco. Ergueu-se  brusco e desligou o aparelho. At Beethoven tinha
um sabor diferente aquela noite!
  Ficou por alguns segundos a andar ao redor do quarto, sem saber bem o
que queria. Fazia muito frio ali dentro e um ventinho gelado entrava
pelas frinchas da janela.  Enrolou-se num cobertor de l, voltou a
deitar-se e ficou a olhar fixamente, como que hipnotizado, para a
lmpada eltrica que pendia do teto, da ponta dum fio.  Lembrou-se em
seguida duma noite em que, num quarto de penso em Porto Alegre, passara
um tempo a olhar para um bico de luz, como a pedir-lhe soluo para os
problemas  que o atormentavam no momento, e que ainda agora continuavam
sem soluo.
  Encolheu-se debaixo do cobertor, apertando ambas as mos entre os
joelhos. Que diabo! Afinal de contas a culpa do que acontecera no era
inteiramente sua.
  O pai nem sequer se dera o trabalho de consult-lo antes. Impusera-lhe
uma carreira: "Quero que te formes em direito". No era uma sugesto,
mas uma ordem. Ele tentara  um fraco protesto, mas no achava fcil
contrariar o Velho. Como era de esperar, este no lhe dera a menor
ateno. "Vais amanh para Porto Alegre. Tens trs semanas  para te
preparares para os exames vestibulares. Contrata os professores que
achares necessrio." O remdio era obedecer.
  Embarcou para a capital. Hospedou-se numa penso, contratou um professor
de francs e outro de latim, e aguardou angustiado o dia dos exames. A
idia de entrar para  a faculdade de direito deixava-o completamente
frio. Achava o direito rido, o latinrio insuportavelmente cacete. No
havia profisso que estivesse mais longe de  sua simpatia e de suas
tendncias espirituais que a de advogado.
  Aquelas semanas que haviam precedido os exames foram de incertezas,
aborrecimentos e apreenses. Que fazer? O certo seria falar franco com o
Velho, escrever-lhe  uma carta, contar-lhe tudo, j que pessoalmente no
conseguira fazer-se ouvido... Os dias, 
  104
  porm, passavam e ele no escrevia. Para matar as horas, metia-se  tarde
em sesses de cinema, das quais no tirava nenhum prazer, pois ficava l
dentro com uma sensao  quase insuportvel de culpa,  idia de estar
perdendo tempo, gastando dinheiro inutilmente, enganando aos outros e a
si prprio. Diante dos livros sentia uma sonolncia  invencvel,
bocejava, tinha tonturas, impacincias, irritaes.
  No dia do exame amanheceu com a impresso de que levava uma pedra de
gelo contra a boca do estmago. No conseguiu comer nada. Encaminhou-se
perturbado para a faculdade  de direito, os passos incertos, as mos
trmulas. Chegado  frente do edifcio, no teve coragem de entrar.
Ficou a andar dum lado para outro na calada oposta,  com a sensao de
haver cometido um crime, perseguido pelas vozes e pelos olhares de
inmeros Terras, Quadros e Cambars vivos e mortos. Por fim olhou o
relgio.  Os exames tinham comeado. No havia mais nada a fazer. Os
dados estavam lanados. Agora o problema era contar tudo ao pai. Passou
ainda dois dias sem nimo para  escrever-lhe. Finalmente fez a carta.
Foi seco, direto e quase agressivo. Era a coragem do desespero. Ps a
carta no correio antes que pudesse arrepender-se, e esperou  o pior.
Passaram-se quatro dias e nenhuma resposta lhe veio. Finalmente
encontrou um dia um telegrama debaixo da porta do quarto. Abriuo. Era do
pai, e dizia, lacnico:  "Volte imediatamente". Voltou no dia seguinte.
  Apenas seu tio Torbio o esperava na estao de Santa F. Abraou-o
sorrindo, com a cordialidade brincalhona de sempre.
  - O papai est muito brabo comigo? Torbio acendeu um cigarro antes de
responder.
  - Teu pai brabo contigo? Acho que nem pensou direito no assunto. Anda
muito preocupado com as eleies.
  O Bento apareceu, abraou o "guri", tirou-lhe a mala das mos e levou-a
para o automvel. J a caminho do Sobrado, Torbio olhou para o
sobrinho:
  - Fizeste muito bem em no entrar pra faculdade de direito. O Brasil tem
bacharis demais.
  Depois duma pausa curta, perguntou:
  105
  - Afinal de contas, que carreira vais seguir?
  - No escolhi ainda...
  -  impossvel que no tenhas uma profisso em vista. J que no gostas
da estncia...
  Floriano ia dizer "Quero ser escritor", mas temeu que o tio risse dele.
Para principiar, era uma profisso que nem sequer parecia existir no
Brasil.
  Chegaram ao Sobrado. Depois dos beijos e abraos das mulheres e dos
tmidos apertos de mo dos irmos, Floriano enfrentou o pai no
escritrio. A cena foi menos difcil  do que ele esperava. Rodrigo
abraou-o, srio mas sem rancor.
  - Ento, meu filho, que foi que houve?
  Floriano contou-lhe tudo. O pai escutou-o sem dizer palavra. Por fim
perguntou:
  - Por que no me falaste com franqueza antes de embarcar? Mas se ele
tinha dito claro que no queria ser advogado!
  Achando que era intil explicar, Floriano permaneceu calado, como um ru
que aceita a acusao.
  - Pois  uma pena - continuou Rodrigo. - Neste pas o diploma de
bacharel  chave para todas as portas. Mas se no gostas do direito...
pacincia, no se fala mais  nisso.
  Deu alguns passos no escritrio, as mos tranadas s costas, como
esquecido da presena do filho. Depois fez alto na frente deste:
  - Est bem. Descobriremos depois alguma coisa para fazeres. Seja como
for, este ano j est perdido. Agora podes ir.
  Floriano continuava a olhar para a lmpada. Pensou em Mary Lee, a de
olhos azuis e tranas douradas, como as guardadoras de gansos dos contos
dos Grimm. Tornara  a v-la em Porto Alegre no dia seguinte ao de uma
aventura ertica num beco de prostitutas, do qual sara envergonhado de
si mesmo e da francesa que lhe sugara a  vida com a boca eficiente e
mercenria, deixando-o trmulo, enfraquecido e triste. Sentia uma
necessidade urgente de purificao. Por isso pensara em Mary Lee. Sabia
onde encontr-la: no culto divino da Igreja Episcopal, em Terespolis.
Foi... L estava ela cantando hinos com sua boca pura. J no usava mais
tranas e seus cabelos  eram agora dum ouro mais velho. Sim, tinha
ficado
  106
  mulher. O sol entrava no templo atravs do vitral da roscea acima do
altar. Floriano sentou-se a pequena distncia atrs da sua Guardadora de
Gansos, desejando  e ao mesmo tempo temendo ser visto e reconhecido.
Durante todo o sermo, no tirou os olhos da nuca branca da rapariga, e
de novo se sentiu tomado pela impresso  que o dominava quando estava ao
lado dela: a de que era inferior, grosseiro, sujo, indigno de sua
companhia. De sbito, porm, lhe veio uma grande esperana, uma  grande
alegria. Envolvia-o uma luz que parecia irradiar-se tambm da cabea de
Mary Lee e no apenas da roscea. Havia beleza no mundo! Havia esperana
no mundo!  Havia amor no mundo!
  E agora Floriano se perguntava a si mesmo se aquilo podia ser mesmo
amor. Sabia que nunca mais tornaria a ver a americana. Pior que isso:
tinha a certeza de que  ela jamais viria a tomar conhecimento de sua
existncia. Mary Lee devia ser- concluiu - mais uma idia potica do que
uma pessoa.
  Estava tudo bem. E estava tudo mal. Sua inquietude e a impresso de
desastre iminente perduravam. Seria tudo por causa dos boatos de
revoluo que andavam no ar?  No era apenas isso. Atormentava-o a idia
de no ser ningum, de no fazer nada. As histrias que escrevia no o
satisfaziam. Achava-as falsas, sem base na realidade...  e ao mesmo
tempo no gostava da realidade que o cercava. Sentia-se um estrangeiro
em sua prpria cidade natal, em sua prpria casa. Dava-lhe uma fria
vergonha andar  pelas ruas de Santa F, ser visto pelos conhecidos,
imaginar-se alvo de comentrios. "Ali vai o filho mais velho do dr.
Rodrigo. Que  que faz? Nada. Um vadio. Fugiu  do exame vestibular por
medo. Um parasita. E ainda por cima  metido a literato."
  Como para esconder-se desses pensamentos desagradveis, Floriano cobriu
a cabea com o cobertor.
  O relgio grande do Sobrado havia terminado de bater a badalada das dez
e meia quando os Dobson se retiraram e um conviva retardatrio entrou.
Era Ladislau Zapolska,  professor de piano e
  107
  pianista que j tivera certo renome como concertista. Era um cinqento
alto, meio desengonado e, no dizer de Maria Valria, "magro como cusco
de pobre". Seus braos  longos davam a impresso de nunca se moverem em
harmonia com o resto do corpo: sua nica utilidade parecia ser a de
carregar aquelas duas mos longas, magras mas  fortes, com algo de
garras. Coroava-lhe o crnio mido um tufo de cabelos ralos e cor de
palha. Nas faces rosadas e j marcadas de rugas, os olhos claros eram
animados  de quando em quando por uma luz estranha, e tinham qualquer
coisa de permanentemente lesmticos. Caminhava com longas passadas
indecisas, como em cmara lenta ou  num vcuo. Famoso por suas
distraes e excentricidades, ganhara na cidade a alcunha de Sombra.
Rodrigo amparara-o desde o primeiro dia, comprando todas as entradas
para seu concerto e abrindo as portas do teatro gratuitamente ao
pblico. E depois, quando o professor manifestara o desejo de radicar-se
em Santa F, arranjara-lhe  vrios alunos de piano. Acolhera-o
carinhosamente no Sobrado, mas em menos de duas semanas estava
arrependido de tudo isso, porque o diabo do homem era aborrecidssimo,
pegajoso, e se tomara de tamanha afeio por ele que vivia a namor-lo e
a cerc-lo de atenes exageradas. Seus apertos de mo eram prolongados
e midos como seus  olhares.
  Ladislau Zapolska entrou com passos indecisos, como quem experimenta o
terreno. Ficou depois parado no meio da sala, sem saber que fazer ou
dizer. Flora veio em  seu socorro, tomou-lhe do brao e entregou-o aos
cuidados de Chiru e de Neco. Mas quando o maestro avistou Rodrigo, seu
rosto se iluminou, ele estendeu os braos  e precipitou-se na direo do
dono da casa, envolvendo-o num abrao muito terno: "O meu querido
doutor!"
  Com o nariz encostado no peito do outro, Rodrigo achou de bom aviso
conter a respirao.
  - O maestro quer comer alguma coisa? Temos uma bela mesa de frios...
  E Rodrigo foi empurrando o homem para a sala de jantar, onde o deixou
sob a proteo de Laurinda.
  Chiru mudou o disco e a Credenza gemeu a msica dum chorinho. O tenente
Bernardo, que contra os seus hbitos de 
  108
  bebedor de guaran e limonada, havia tomado vrias taas de champanha,
andava estonteado dum lado para outro, num extravasamento geral de
cordialidade. Abraando Chiru,  procurou algo de carinhoso para
dizer-lhe. Por fim, no encontrando palavras, limitou-se a murmurar com
voz arrastada: "Cabra-da-peste!" Passou por Neco Rosa e declarou-se  seu
irmo. Mas sua mais veemente declarao de amor foi para Rodrigo.
Estreitou-o contra o peito, exclamando: "Grande carter, grande cultura,
grande corao!" Rodrigo  sorria para Roberta, por cima do ombro do
tenente, procurando dar a entender que no acreditava naquelas coisas, e
que se Quaresma as dizia era porque estava alegrete.  Maria Valria
passou com um prato de pastis quentes na mo.
  -  titia, com quem a senhora acha o Bernardo parecido?
  - No sei - murmurou a velha sem deter-se. E apresentou o prato para
Marlia Prates, que pegou um pastelzinho com seus dedos finos e brancos,
que tantas vezes haviam  partido os croissants de Paris.
  -  Chiru - insistiu Rodrigo -, o Bernardo no te lembra o tenente
Lucas? - Voltando-se para Roberta, explicou: - Era um oficial de
obuseiros, muito nosso amigo,  que serviu aqui por volta de 1910. Grande
pndego, grande sujeito!
  Maria Valria, que tornava a passar pelo sobrinho, murmurou:
  - O Lucas era ainda mais louco que este. Neco contribuiu com um detalhe
tcnico:
  - E tinha mais resistncia pra bebida...
  Rodrigo tentava desembaraar-se de Bernardo Quaresma, mas este o
retinha, segurando-lhe com fora o brao.
  - Oua, dr. Rodrigo, eu no sou s seu amigo, sou seu filho, est
compreendendo? Seu filho!
  - Est bem, Bernardo, est bem. Vamos sentar um pouco. Flora estava
agora ao lado do alagoano, a oferecer-lhe uma
  xcara de caf preto.
  - Tome este cafezinho, tenente.
  Bernardo segurou o pires, sobre o qual a xcara danou perigosamente:
  109
  - E a senhora, dona Flora, a senhora  a minha segunda me!
  - Fica a com o nosso filho - disse Rodrigo  mulher, aproveitando a
oportunidade para escapar. Acercou-se de Roberta e convidou-a para
danar. A professora ergueu-se,  ele lhe tomou com fora a mo direita,
enlaou-lhe a cintura e, como observou Chiru ao ouvido de Neco,
"chamou-a aos peitos". O barbeiro sentenciou:
  - Essa est no papo.
  Os Macedos e os Camerinos tambm danavam. Dona Santuzza fez um sinal
para Chiru, chamando-o para "bailar", e quando o marido da eterna
ausente Norata se aproximou,  a italiana comeou a cantarolar o choro,
com trmulos operticos na voz rica de bemis.
  A Gioconda ouvia Marlia Prates contar as maravilhas do Louvre e do
palcio de Versalhes. Com a xcara de caf na mo, o tenente de
artilharia andava por entre os  pares, dum lado para outro, como uma
mosca tonta. Junto da porta da sala de jantar, Flora observava
disfaradamente o marido, que estava praticamente grudado  professora,
enquanto Maria Valria na cozinha mandava fritar croquetes para o
Sombra.
  Um cigarro de palha entre os dentes, o velho Aderbal atravessou a sala
rengueando, na direo do vestbulo. Vendo-o atravs da porta, Liroca,
que continuava no seu  borralho, inclinou-se para Terncio e disse:
  - Hai um rifo que diz que todo o gago  brabo, todo o torto  peleador
e todo o rengo  velhaco. Ora, tenho visto nesta minha vida muito gago
manso, muito torto  covarde, e ali vai o velho Babalo, que rengueia mas
 flor de pessoa.
  Terncio limitou-se a sacudir afirmativamente a cabea, desinteressado.
Se lhe perguntassem por que continuava ali na frente de Stein e
Bandeira, pessoas pelas quais  no tinha a menor estima, no saberia
dizer. Contara as garrafas de cerveja que tio Bicho esvaziara: seis. O
monstro s se erguia de seu lugar para ir de quando  em quando ao quarto
de banho, para esvaziar a bexiga. Falava agora em peixes para o judeu,
que no parecia muito atento.
  110
  - Estive lendo hoje sobre um peixe venenoso, o peixe-leo. Se um dos
espinhos do bichinho te entra, por exemplo, na perna, tu sentes uma dor
fortssima, a perna  incha, ficando duas vezes o tamanho normal. H
casos em que a picada do peixe  fatal. No entanto, olhas pr bandido e
ficas encantado:  escarlate, com raias brancas,  tem o aspecto mais
inocente deste mundo. Sabes como se alimenta? Ingere gua pelos poros e
depois a expele por uns orifcios redondos que tem no corpo. O processo
 muito curioso. Nesse percurso a gua sai filtrada do corpo do peixe,
deixando nele microrganismos comestveis que alimentam o nosso heri.
  Bandeira voltou-se para Terncio e perguntou-lhe, srio:
  - O doutor no se interessa por peixes?
  - No. Prefiro seres humanos.
  - Questo de gosto.
  Stein estava ansioso por voltar ao assunto que discutiam, havia poucos
minutos: a defeco de Prestes da famlia revolucionria. Mas Liroca
tomou a palavra:
  - Cada qual com a sua mania. O velho Aderbal gosta de bichos. Aqui o
nosso dr. Terncio prefere gente. Pois eu gosto  de flor. Tenho l em
casa o meu jardinzito,  com rosas de todo o ano. - Olhou para Bandeira.
- O senhor gosta de rosas?
  Tio Bicho bebeu o resto de cerveja que havia no copo, e respondeu:
  - Rosa?  uma flor bvia demais...
  Terncio lanou-lhe um olhar rancoroso. Liroca no compreendeu a
resposta, mas no pediu esclarecimento.
  A msica cessou. Da sala vieram risadas e vozes animadas. Rodrigo voltou
para o escritrio, alvorotado e feliz. Tinha conseguido ciciar uma
pergunta ao ouvido da  professora: "Ento, quando vai me ler mais uns
poemas?" E ela, a bafejar-lhe a face com seu hlito, respondera:
"Qualquer dia. Tenha pacincia". Isso significava  que Roberta tambm
estava pensando numa maneira de se encontrarem a ss.
  - Por que  que vocs esto assim to macambzios? - perguntou Rodrigo
aos amigos. - Quem foi que morreu?
  111
  Aludindo ao assunto da discusso de havia poucos minutos, Liroca
murmurou, trgico:
  - Lus Carlos Prestes.
  Aro Stein ergueu-se e exclamou, iluminado:
  - Pois para mim agora  que Prestes nasceu!
  Instado por Oswaldo Aranha a entrar na conspirao revolucionria, o
Cavaleiro da Esperana, que ainda se encontrava exilado em Buenos Aires,
recusara-se, tendo  lanado, havia quase dois meses, um manifesto que
tivera repercusso nacional.
  - A carta de Prestes - disse Stein -  o mais importante documento
poltico publicado no Brasil desde o advento da Repblica. O homem que
foi para a coxilha em 1924  com um programa vago de regenerao dos
costumes polticos, voto secreto e outras bobagens, agora comea a ver
claro os nossos problemas, a tocar as razes de nossos  males. Principia
por dirigir o manifesto aos trabalhadores oprimidos das fazendas e das
estncias, s massas miserveis de nossos sertes. Compreendeu que o
governo  que surgir duma revoluo verdadeira, isto , legitimamente
popular, deve ter como base as massas trabalhadoras das cidades e dos
campos. Em suma: ele quer a revoluo  agrria, antiimperialista, e a
libertao dos trabalhadores de todas as formas de explorao.
  Terncio revelava sua impacincia por um movimento nervoso de dedos,
como se estivesse escrevendo uma mensagem colrica numa mquina
invisvel. No se conteve:
  - Mas esse sr. Prestes est usando uma linguagem ostensivamente
marxista! Fala em governo baseado em conselhos de operrios, soldados,
marinheiros e camponeses.   um manifesto com acentuado sotaque russo!
  Stein olhou para o estancieiro e disse:
  - Claro que , e isso me alegra. Mas veja como so as coisas... O senhor
acha esse manifesto extremista, no entanto para mim o defeito que ele
tem  o de ser ainda  um pouco personalista. H nele muito de
"prestismo". Para que o documento fosse perfeito, seria necessrio que
Prestes dissesse claramente que esse governo com que  sonha s 
possvel se ele entregar a revoluo aos lderes
  112
  comunistas. Seja como for, acho que o homem deu um grande passo na
direo da extrema esquerda.
  Terncio ergueu-se, como para agredir fisicamente o judeu.
  - Lus Carlos Prestes est doido! - exclamou. - Chega a falar na
confiscao, nacionalizao e diviso das terras, para que elas sejam
entregues gratuitamente aos  trabalhadores. Tudo isso  utpico, produto
dum crebro confuso, elucubraes de quem nada sabe de nossos problemas
agrrios. Esse alucinado quer confiscar e nacionalizar  at os servios
pblicos, os bancos e as vias de comunicao. Vai ao ponto de recomendar
a anulao da dvida externa.  um paranico!
  Rodrigo lembrou que para entender todas aquelas coisas era necessrio
primeiro aprender a raciocinar como um comunista. Porque a Revoluo
Russa no havia subvertido  apenas a economia capitalista mas tambm a
moral vigente.
  Tio Bicho remexeu-se no sof, cruzou as pernas e disse:
  - Acho que fiz uma descoberta curiosa: a analogia entre as razes que os
comunistas do para justificar seu desejo de destruir sem remorso a
ordem capitalista, e  os argumentos que aquele estudante de Crime e
castigo invocou na taverna para coonestar o assassnio da velha dona da
casa de penhores. Os senhores devem estar lembrados...  Enquanto o
estudante falava, Rasklnikov, sentado a outra mesa, o escutava. Dizia o
rapaz: "De um lado temos uma velha estpida, insensata, srdida,
mesquinha, doente,  horrvel, que no s  intil como tambm
prejudicial, que no sabe por que vive, e que, seja como for, qualquer
dia vai morrer mesmo. De outro lado temos milhares  de vidas frescas e
jovens atiradas ao lu, por falta de auxlio... Centenas de milhares de
boas coisas se poderiam fazer com o dinheiro dessa velha que vai acabar
sendo enterrada com sua fortuna num mosteiro. Centenas, talvez milhares
de pessoas poderiam tomar o bom caminho, e inmeras famlias seriam
salvas da misria, da  runa, do vcio... tudo isso com o dinheiro dela.
Matemos, pois, a velha, tiremos-lhe o dinheiro...", etc., etc.
  Rodrigo achou o paralelo interessante. Terncio escutou-o num silncio
soturno. Roque prosseguiu:
  113
  - Ah! Agora me lembro do resto. "Matemos a velha e com o auxlio de seu
dinheiro dediquemo-nos ao servio da humanidade e  felicidade geral.
Que achas? Milhares  de boas aes no conseguiriam apagar um crime
minsculo? Ao preo de uma vida, milhares seriam salvas da corrupo e
do apodrecimento. Em troca duma morte, cem  vidas.  simples
aritmtica."
  - Esse  o esprito do bolchevismo - disse Terncio Prates. - Sua moral
no passa duma reles operao aritmtica.
  Roque Bandeira encolheu os ombros.
  - No me culpe. No fui eu quem inventou o marxismo. Houve um silncio,
que Liroca quebrou com voz sentida:
  - Pra mim o pior  que o Lus Carlos Prestes recebeu cinco mil contos do
dr. Oswaldo Aranha pra comprar armas pra Revoluo, e agora no quer
devolver o dinheiro.
  Stein deu dois passos na direo de Jos Lrio e bateu-lhe amistosamente
no ombro:
  - Pois isso  bom leninismo, meu amigo. Prestes depositou essa quantia
num banco argentino para us-la quando chegar a hora da verdadeira
Revoluo. E, de mais a  mais,  preciso no esquecer que ele sabe de
onde veio esse dinheiro.
  Passeou o olhar em torno, como a perguntar se os outros tambm sabiam.
Como todos permanecessem calados, revelou:
  - Uma poderosa companhia ianque, por intermdio de sua subsidiria em
Porto Alegre, entregou essa contribuio aos lderes da revoluo, a
troco de favores futuros,  no caso do movimento sair vitorioso.
  - J vens com tuas fantasias... - murmurou Rodrigo.
  Terncio fechou a cara e retirou-se do escritrio. Chiru apareceu 
porta e anunciou que, por sugesto de dona Marlia Prates, o Sombra ia
tocar piano. Rodrigo e  tio Bicho trocaram um olhar significativo, o
dono da casa soltou um suspiro de mal contida impacincia e
encaminhou-se para a outra pea.
  Ladislau Zapolska estava j sentado ao piano, tirando dele acordes
profundos. A Gioconda pediu um noturno, ao mesmo tempo que Mine Prates
sugeria um preldio e Rodrigo  uma polonaise. O maestro atirou-se numa
polonaise que fez o piano vibrar. Tocava
  114
  com uma bravura digna de melhor tcnica - conforme observou tio Bicho,
que continuava sentado ao lado de sua garrafa de cerveja, prestando
pouca ou nenhuma ateno   polonaise, pois no gostava de Chopin, e
muito menos do pianista. Recostado  ombreira da porta, Rodrigo
procurava o olhar de Roberta. O tenente Bernardo comeou  a dizer algo
em voz alta, mas o Neco Rosa fez cht, obrigando-o a calar-se. Dona
Laurentina continuava a presidir de sua cadeira aquela reunio tribal. E
Babalo,  que no tinha muita pacincia com msica, resolveu ir at o
andar superior dar uma olhada
  nos netos.
  Quando o maestro bateu os acordes finais da polonaise, romperam os
aplausos. "Agora um noturno" - suplicou a Mona Lisa. Ladislau Zapolska
tocou as primeiras notas  do n 2 exatamente no momento em que o relgio
da sala de jantar comeava a bater as onze horas. O maestro
interrompeu-se, deixando cair os braos ao longo do corpo,  cerrou os
olhos e esperou que o relgio se calasse. Chiru mal podia conter o riso
ante a cena grotesca: o Sombra sentado ao piano, as manoplas no ar, as
pessoas  em torno caladas, e o relgio a bater as horas lentamente, sem
a menor pressa, como quem tem diante de si a Eternidade.
  Trs... - contou Rodrigo - quatro... - dona Veridiana tossiu seco -
cinco... - "Eta cabra-da-peste!" - resmungou o tenente - seis... -
Roberta descruzou e tornou  a cruzar as pernas: os olhos de Rodrigo
entravam-lhe, vidos e rpidos, por entre as coxas - sete... - Maria
Valria surgiu  porta para ver o que tinha acontecido  - oito... - o
dr. Terncio tirou o leno do bolso, assoou o nariz, produzindo uma nota
de trombone - nove... - Flora olhou para o marido e sorriu - dez... - um
rangido  na escada fez muitos voltarem a cabea na direo do vestbulo
- onze... - ai que alvio! O maestro permaneceu ainda alguns instantes
de olhos cerrados. Depois ergueu  as mos, pousou-as sobre o teclado e
comeou a tocar o noturno, com grande sentimento, movendo a cabea
lnguida dum lado para outro, e lanando de quando em quando  olhares
visguentos na direo de Rodrigo.
  Quando as ltimas notas do noturno se dissolveram no ar e se fez esse
breve hiato que precede os aplausos, ouviu-se como que
  115
  o sbito e spero rechinar de cigarra. Era a campainha da porta. Flora
olhou para o marido. Quem poderia estar chegando quela hora? Rodrigo
caminhou para o vestbulo.  Ouviram-se seus passos na escada. Houve um
momento de expectativa geral. Um minuto depois ele tornou a aparecer 
porta da sala, com um papel na mo. Estava plido  e srio. Olhou em
torno e murmurou:
  - Um telegrama...
  Flora correu aflita para, junto dele, com um pressentimento de morte na
famlia. Juquinha Macedo e Terncio Prates levantaram-se. Houve um
alvoroo entre as mulheres.  S dona Laurentina nada revelou no rosto de
arenito.
  Rodrigo baixou os olhos para o papel e, com voz velada, resumiu os
dizeres do telegrama:
  - O dr. Joo Pessoa foi assassinado esta tarde com trs tiros num caf
do Recife.
  Fez-se um silncio lgido. E s Maria Valria pareceu ouvir o vento que
batia na janela, como se quisesse entrar.
  O pas inteiro foi sacudido pela brutalidade do crime. Na capital da
Paraba a massa popular revoltada atacou e depredou as casas dos
inimigos polticos de Joo  Pessoa. Nas ruas de centenas de vilas e
cidades, atravs de todo o territrio nacional, o povo chorava a morte
do presidente nordestino e ao mesmo tempo clamava  por vingana,
exigindo a revoluo. Na Cmara dos Deputados, em certo trecho dum
discurso vibrante de indignao, Lindolfo Collor bradou: "Caim, que
fizeste de teu  irmo? Presidente da Repblica, que fizeste do
presidente da Paraba?"
  - Os olhos do Brasil esto voltados para o Rio Grande, esperando a
revoluo! - exclamou Rodrigo Cambar num daqueles primeiros dias de
agosto, depois de ler os  jornais que Bento lhe fora buscar  estao. -
E ns continuamos de braos cruzados. Nada fazemos a no ser discursos.
  116
  Acompanhou comovido, pelo noticirio da imprensa, a transladao dos
restos mortais de Joo Pessoa do Recife para a capital de seu Estado, e
dessa cidade para o  Rio de Janeiro, onde deviam ser sepultados. O povo,
que atulhava as ruas da Paraba por onde passou o cortejo fnebre,
agitava lenos brancos e chorava, despedindo-se  de seu presidente. O
esquife foi posto a bordo do Rodrigues Alves, que fez escalas em Recife
e Macei, onde verdadeiras multides desfilaram respeitosas pela frente
do cadver exposto numa das salas de bordo.
  Num entardecer da segunda semana de agosto, Rodrigo reuniu no seu
gabinete da Intendncia os chefes republicanos e libertadores de Santa
F, a portas fechadas. Contou-lhes  confidencialmente que havia recebido
uma carta de Oswaldo Aranha em que este o autorizava a comear a srio
no municpio de Santa F os preparativos para um movimento  armado.
  - O assassinato de Joo Pessoa acendeu de novo a fogueira da revoluo -
disse Rodrigo. - Acho que devemos comear a reunir gente, organizar
corpos e ao mesmo tempo  retomar as sondagens da guarnio federal, para
ver com quem podemos contar. C entre ns, no confio muito na
oficialidade. Pelo que pude concluir de conversas  ligeiras que tive com
um capito de infantaria e com um major de artilharia, eles no esto
dispostos a arriscar um fio de cabelo. Um deles me confessou que s
entraria  no movimento se tivesse a certeza de que o exrcito em peso
aderiria  revoluo. O outro me declarou peremptoriamente que no se
meteria na coisa de maneira alguma.  Por isso acho que nossa esperana
est na sargentada, que goza de grande prestgio na tropa. Tenho no
Regimento de Infantaria um bom amigo, o sargento Aurlio Taborda,
sujeito muito decente e muito querido dos companheiros. O Bio conhece no
Regimento de Artilharia um tal sargento Atlio Bocanegra... acho at que
j fizeram umas  farras juntos. Dizem que  um rapaz de valor... no
sei.
  Rodrigo fez uma pausa curta e depois continuou:
  - Se desta vez no tiramos o Cavanhaque do poder, estamos desmoralizados
e o melhor que temos a fazer  entregar o Rio Grande aos castelhanos!
  117
  Deu um pontap no cesto de papis usados, que tombou, espalhando seu
contedo pelo cho.
  Silencioso a um canto daquele gabinete, de onde durante vrios anos
governara o municpio com punho de ferro, Lao Madruga torcia os
bigodes grisalhos. Sentado  a seu lado, Amintas Camacho tinha o
cotovelo do brao direito apoiado na palma da mo esquerda, o rosto
metido na forquilha formada pelo polegar e o indicador, numa  pose muito
intelectual que j estava comeando a irritar Rodrigo.
  Juquinha Macedo, de mos nos bolsos, escutava o amigo com afetuoso
interesse, recostado  janela, enquanto Terncio Prates, de cabea
baixa, olhava para a capa do  livro que tinha nas mos: La rebelin de
Ias masas, de Ortega y Gassei. A todas essas Alvarino Amaral, que
envelhecera muito naqueles ltimos anos, picava fumo para  um crioulo,
no fundo duma poltrona de couro, os olhos lacrimejantes, os dedos
trmulos.
  Depois que Rodrigo terminou de falar, houve um curto silncio em que
Lao Madruga com a ponteira da bengala comeou a empurrar para dentro do
cesto cado as bolotas  de papel que juncavam o soalho. Os outros
ficaram a vigiar a operao, como se se tratasse dum jogo fascinante.
  - Ento? - perguntou Rodrigo. - No me dizem nada? Juquinha Macedo
prometeu que comearia a formar o seu
  corpo de voluntrios imediatamente. Madruga assegurou que teria um
batalho organizado dentro de um ms. O velho Amaral confessou que, para
ser bem franco, at j  tinha uns "bombachudos" reunidos na sua
estncia: o que lhes faltava agora era s o armamento...
  - O Oswaldo Aranha me prometeu mandar armas e munies ainda este ms -
esclareceu o intendente.
  Amintas Camacho mencionou nomes de correligionrios seus que tambm
podiam recrutar gente dos distritos.
  - E tu, Terncio, que me dizes?
  O estancieiro pigarreou, descruzou e tornou a cruzar as pernas e por um
instante pareceu procurar a resposta numa das pginas do livro que agora
tinha aberto sobre  os joelhos.
  118
  - Ora - disse ele por fim -, vocs sabem que podem contar comigo, haja o
que houver. Mas devem reconhecer que minha posio  um tanto difcil...
Falo por mim, pois  o coronel Madruga, pelo que ouvi, j se decidiu... O
meu partido ainda no se pronunciou oficialmente a favor da revoluo.
  Rodrigo fez um gesto de impacincia.
  - Se vamos esperar um pronunciamento claro do dr. Borges, estamos
fritos.
  -  uma questo de disciplina partidria... No viste os jornais? O
senador Paim acaba de declarar num discurso no Senado que a revoluo
no se far com o Rio Grande  do Sul. "No a querem o sr. Borges de
Medeiros nem o sr. Getlio Vargas nem o Partido Republicano
Rio-Grandense." So suas palavras textuais.
  - Mas o povo a quer! - vociferou Rodrigo. - E a revoluo vai para a
rua, com o Chimango ou sem o Chimango, com o Partido Republicano ou sem
ele.
  Ao som da palavra Chimango o coronel Madruga pigarreou e cerrou o cenho,
Amintas remexeu-se inquieto na cadeira, como se estivesse sentado sobre
brasas.
  - O dr. Getlio tambm continua calado... - arriscou Juquinha Macedo.
  -  um zorro - sorriu Alvarino Amaral, batendo a pedra do isqueiro para
acender o cigarro. - Um zorro mui ladino.
  - Que grande "chefe" fomos arranjar! - ironizou Rodrigo. - Deu um novo
pontap no cesto, desmanchando o servio que Madruga havia pouco
terminara.
  - Em que ficamos? - perguntou Juquinha.
  - Eu vou trabalhar como se a revoluo fosse estourar amanh - declarou
Rodrigo. - Continue a reunir gente, coronel Alvarino. E o senhor tambm,
coronel Madruga.  E tu, Juquinha, vou te pedir um favor especial. Mas
precisas usar muito tato. Sei que o comandante da guarnio federal
freqenta tua casa,  teu amigo. Sonda o  homem, v se podemos esperar
alguma coisa dele. Se encontrares resistncia, bico calado,  melhor no
insistir. Repito que minha esperana est nos sargentos.
  119
  Quando os amigos se retiraram, Rodrigo ficou olhando fixamente para o
lugar em que naquele inesquecvel dia de maio de 1923, o corpo do
tenente Aristides cara varado por um balao de Torbio. Pensou tambm
no negro Cantdio, de peito esmagado sob o peso de seu cavalo morto. E
em  Miguel Ruas, a dessangrar-se aos poucos no saguo l embaixo... Hoje
os inimigos de ontem estavam de braos dados, lenos brancos, verdes e
vermelhos amarrados num  n de amizade. Havia pouco apertara a mo do
Madruga e a do Amintas. Agora, para comear a nova revoluo, todos
esperavam o beneplcito do dr. Borges de Medeiros,  o homem que em 1923
os maragatos tanto odiavam e combatiam.
  De sbito a mente de Rodrigo foi tomada por completo pela figura de seu
pai. Viu-o tal como no dia em que ele lhe morrera nos braos.
Pareceu-lhe que o velho queria  fazer-lhe uma pergunta, mas de sua boca
saa apenas o estertor da morte, de mistura com golfadas de sangue.
Rodrigo teve a impresso de que podia ler uma interrogao  naqueles
olhos embaciados: "Por qu? Por qu?"
  Ficou a ouvir a prpria voz a repetir a pergunta, enquanto punha o
chapu, saa do gabinete e descia as escadarias da Intendncia.
Atravessou o saguo perturbado.  No respondeu aos cumprimentos dos
funcionrios que estavam por ali, porque no os viu nem ouviu. Na sua
cabea soava agora uma musiquinha remota, saltitante e ftil:  Loin du
bal.
  Ganhou a calada. O cu estava nublado e um vento frio agitava as
rvores. Rodrigo ergueu a gola do sobretudo e atravessou a rua. Uma voz:
  - No conhece mais os pobres? Parou e voltou-se.
  - Roque Bandeira! Onde andas metido que no apareces
  mais 
  Tomou-lhe do brao e arrastou-o consigo.
  - Vamos at o Sobrado beber alguma coisa quente. Tenho um conhaque
portugus de primeira. Mas tu preferes cerveja preta, eu sei. s um
brbaro. Como vai essa vida,  homem?
  Encolhido dentro do sobretudo ruo, tio Bicho recusava-se a apressar o
passo.
  120
  - Vamos indo. Recebi ontem um peixinho do Japo. Parece uma jia.
  - Como podes pensar em peixes numa hora destas? Passavam pela frente da
matriz. Rodrigo tirou o chapu, respeitosamente.
  - E que me dizes desse belo movimento que agita o pas? s um cptico,
no acreditas em nada e em ningum. Pois eu te repito que ainda tenho f
no Brasil. O gigante  adormecido finalmente acordou. O assassinato de
Joo Pessoa galvanizou-o. O sacrifcio do grande presidente no foi em
vo. Mas qual! Tu no ls jornais.
  Lembrou ao amigo a chegada do cadver de Joo Pessoa ao Rio de Janeiro.
Maurcio de Lacerda, num discurso comovente feito no cais do porto, onde
a multido se comprimia  aguardando o fretro que era desembarcado do
Rodrigues Alves, pedira ao povo que se ajoelhasse, pois o corpo do
grande morto ia entrar os muros da cidade.
  - Foi a cena mais grandiosa, mais tocante da nossa histria, Roque. No
rias. Nem tudo  farsa, h coisas srias na vida. Imagina tu o povo
quebrando o cordo de  isolamento da polcia e precipitando-se para o
fretro com lgrimas nos olhos, para carreg-lo nos ombros at o
cemitrio! Pisando as flores com que senhoras e senhoritas  haviam
atapetado o cho, o cortejo passou por entre alas de estudantes
ajoelhados a cantarem em surdina o Hino Nacional. Que me dizes, cptico
duma figa!
  Tio Bicho encolheu os ombros e, mal movendo os lbios pardacentos,
gretados pelo frio, balbuciou:
  - Digo que tudo acaba virando religio.
  - Mas isso  civismo, animal, puro civismo!
  - Confirma-se mais uma vez a minha teoria de que o povo precisa duma
mstica, de mitos, mrtires e santos... As massas amam os profetas
barbudos como Antnio Conselheiro  e Lus Carlos Prestes. Isso que
fizeram com o cadver de Joo Pessoa foi um ato de religio e de
superstio. Um simulacro de Procisso do Senhor Morto. No me admirarei
se aparecer por a a histria da Vida, Paixo e Morte de Joo Pessoa, o
Cristo do Nordeste. Washington
  121
  Lus ser comparado com Pilatos, mas um Pilatos teimoso que reluta at
em lavar as mos...
  Rodrigo parou e segurou o gordo amigo pelas lapelas do sobretudo, como
se quisesse ergu-lo do solo.
  - No sei onde estou que no te quebro a cara! Imperturbvel, o outro
respondeu:
  - Me mate. A ento serei eu o novo mrtir. So Roque. Vai haver uma
confuso danada no futuro com o outro santo do mesmo nome. Mas isso no
me preocupa. O problema  no ser meu e sim do mundo cristo.
  - Sai! - exclamou Rodrigo, largando o outro. - Perdi a esperana
contigo. s um literato irremedivel. No tens sangue nas veias, mas
tinta de impresso. Te alimentas  de livros, devoras alfarrbios, por
isso arrotas essas asneiras pseudofilosicas. Mas vamos depressa, que o
frio est brabo.
  Entraram no Sobrado. Havia uma estufa acesa no escritrio, mas assim
mesmo Roque Bandeira achou de bom aviso no despir o sobretudo.
  Rodrigo gritou para a cozinha que lhe trouxessem uma cerveja preta. Ele
prprio tirou duma gaveta da escrivaninha a garrafa de conhaque e um
copo. Nesse momento  soou uma voz inesperada:
  - Mais um clice, que eu tambm bebo!
  Rodrigo olhou para a porta e seu rosto resplandeceu. L estava Torbio,
metido num poncho de campanha, chapelo na cabea, bota e esporas,
rebenque a pender-lhe  de um dos pulsos.
  Bio! Os irmos abraaram-se e ficaram a mover-se numa espcie de valsa
lenta e a darem-se palmadas nas costas.
  - Quando chegaste?
  - Agorinha mesmo. 
  - Tira esse poncho, vamos "bebemorar".
  Torbio desvencilhou-se do irmo e repetiu a valsa com o tio Bicho,
dizendo:
  - Este safado cada vez mais gordo... E como vai aquele judeu filho duma
me?
  - Feliz. Acha que a crise econmica mundial vai bolchevizar o mundo.
  122
  - Por falar em bolchevizar... - disse Rodrigo, que despejava conhaque
nos copos - estou decepcionado com teu amigo Prestes. Leste o manifesto
dele que te mandei?
  - Li - respondeu Torbio, tirando o poncho e escarrapachando-se numa
poltrona, sempre de chapu na cabea.
  - No achas que o homem est de miolo mole?
  - No.
  - Mas  um manifesto comunista!
  Bio encolheu os ombros, bateu com a ponta do rebenque nos costados da
poltrona, apanhou depois o copo que o irmo lhe entregava, bebeu um
gole, fez uma careta e  perguntou:
  - No tens a uma caninha boa?
  - Bebe esse conhaque, homem!  do melhor. Mas que achaste do manifesto
do teu chefe?
  - Ora, pode ser besteira, mas  uma opinio. No modifica o conceito que
fao do homem.  um cara decente e de coragem. Pode dizer e escrever o
que quiser... pra  mim ele ainda  o companheiro da Marcha.
  Tio Bicho, que bebia com gosto a cerveja trazida por uma das crias da
casa, disse:
  - No meu entender, o Prestes cometeu um erro. Se fosse mesmo um bom
leninista, ele esconderia o jogo, entraria na revoluo sem tornar
pblico o seu manifesto. Uma  vez vitorioso o movimento, ele trataria de
empolgar o poder e levar o pas para a esquerda...
  - E tu pensas que os Estados Unidos iam ficar de braos cruzados? -
perguntou Rodrigo, depois de tomar um largo gole.
  - J se foi o tempo em que os americanos resolviam suas dificuldades com
os pases sul-americanos mandando um couraado
  visitar" os vizinhos turbulentos...
  - No sei... no sei... Mas uma coisa eu digo a vocs. O Prestes me
decepcionou. E sua defeco nesta hora crtica fez um grande mal  causa
da revoluo. - Olhou  para o irmo. - Ah! Teu amigo Joo Alberto est
em Porto Alegre conspirando. Veio a chamado do Aranha.
  Torfbio sorriu:
  123
  - Ando com saudade daquele pernambucano.
  - Pois se andas, vamos juntos  capital. Preciso me avistar com o
Aranha, estabelecer certos contatos, saber com que armamento podemos
contar. E, acima de tudo,  descobrir para quando est marcada essa
encantada revoluo.
  - No me fales em revoluo que eu fico com gua na boca... - disse
Torbio.
  - Ento a coisa sai mesmo? - indagou tio Bicho com tpido interesse.
  Os irmos entreolharam-se, sorrindo.
  - Conta pra ele, Bio, quantos homens j tens no Angico.
  - Cinqenta caboclos de plo duro, entre eles vinte e dois dos meus
trinta lanceiros de 23.
  Tio Bicho sacudiu a cabea lentamente
  - Alea jacta est - murmurou com fingida solenidade.
  - Se tens alguma dvida - disse Torbio -, vou te provar que j ando no
meu "uniforme" de campanha.
  Tirou o chapu e mostrou a cabea completamente raspada.
  Na segunda quinzena de agosto Rodrigo foi a Porto Alegre, de onde voltou uma  semana depois. No dia de sua chegada reuniu em casa alguns amigos e
contou-lhes as  novidades. A revoluo era uma realidade, mas a data da
sua ecloso no estava ainda marcada: seria entre fins de setembro e
princpios de outubro. Oswaldo Aranha  era o centro da conspirao, a
alma do movimento. Borges de Medeiros? Continuava fechado em copas. Os
senadores Paim Filho e Vespcio de Abreu lhe haviam escrito  uma carta
em que lhe pediam declarasse publicamente que o Partido Republicano
RioGrandense desautorizava a conspirao. O Solitrio do Irapu no lhes
respondera,  e isso era um indcio de que se no estava a favor, pelo
menos no estava contra a revoluo.
  - E o Getlio? - indagou Juquinha Macedo.
  Rodrigo olhou em torno. Achavam-se no escritrio, sentados e atentos s
suas palavras - alm do homem que fizera a pergunta - Torbio, Terncio
Prates, Alvarino  Amaral e Jos Lrio.
  - A atitude do Getlio, ao que parece,  a mesma que ele patenteou na
noite em que mataram o Joo Pessoa. Gelada  o adjetivo que encontro
para ela. E isso me d  arrepios...
  E como Liroca lhe lanasse um olhar cheio de interrogaes, explicou:
  - Os jornais noticiaram o fato e ns j o comentamos aqui mesmo neste
escritrio. Mas agora o Oswaldo me contou a histria com detalhes.
Prestem ateno, que vale  a pena.
  Sentou-se, acendeu um charuto, e contou:
  - Na noite de 26 de julho, quando estvamos nesta casa festejando o
aniversrio da Flora, as classes conservadoras ofereciam em Porto Alegre
um banquete ao Oswaldo  Aranha, no Clube do Comrcio. Ao sentar-se 
mesa o homenageado viu na sua frente um vaso com violetas... Como bom
gacho da fronteira, no gostou daquilo, pois  dizem que violeta  flor
de mau agouro. Bueno, o banquete transcorreu em ordem, com muito
entusiasmo, e l pelas tantas algum veio trazer um bilhete ao Oswaldo,
que o leu e ficou plido. Era a notcia do assassinato de Joo Pessoa.
  Liroca escutava o amigo, de boca entreaberta. Terncio apertava a haste
de seu clice. O velho Amaral, meio surdo, punha a mo em concha junto
da orelha direita.
  - Terminado o banquete - prosseguiu Rodrigo -, os convivas saram e
encontraram na frente do clube uma verdadeira multido. A notcia do
crime se espalhara e o povo  estava indignado, comovido e agitado. Havia
gente com lgrimas nos olhos. Ao avistarem o Oswaldo e os outros
polticos, comearam a gritar: "Fala Oswaldo Aranha!  Fala Oswaldo
Aranha!" Eu sei dizer que se improvisou um comcio. Discursou primeiro o
homenageado da noite. Depois falou o Joo Neves e por fim Flores da
Cunha.  Todos foram aplaudidos com delrio. Comearam ento os gritos:
"Para o palcio! Para o palcio!" Queriam ouvir o presidente do Estado.
E a massa humana comeou a  movimentar-se, rua da Ladeira acima... Agora
vem um desses detalhes que os historiadores esquecem
  124
  125
  ou ignoram, mas que para mim tm uma significao humana extraordinria.
O Aranha chamou seu irmo mais novo, o Z Antnio, um rapaz de seus
dezessete anos, e mandou-o  ir correndo avisar o Getlio de que o povo
estava a caminho do palcio e que esperava dele um pronunciamento... O
jovem Aranha chegou esbaforido aos aposentos do  presidente, e
encontrou-o sentado a afagar a cabea do angor que tinha no colo.
Despejou-lhe a notcia, que Getlio escutou sorridente e sereno. J a
essa hora  o povo estava na frente do palcio e gritava: "Getlio!
Getlio!" Vocs pensam que o homenzinho se afobou? Qual! Ps o gato em
cima da escrivaninha, encaminhou-se  para a janela, abriu-a e ficou
olhando para a multido, que prorrompeu numa ovao enorme, talvez a
mais vibrante que ele tenha recebido em toda a sua vida. E quando  a
massa silenciou e todos ficaram esperando um discurso, um pronunciamento
definitivo, um incitamento  revoluo, a Esfinge de So Borja
limitou-se a sorrir e no  disse patavina!
  Rodrigo ergueu-se, bateu a cinza do charuto em cima dum cinzeiro, e
rematou:
  - Esse  o chefe da nossa revoluo. Ah! Mas no vamos gastar cera com
to ruim defunto. Temos de tocar pra diante. Como est a situao por
aqui?
  Juquinha Macedo contou que havia sondado o comandante da guarnio
federal.
  - O homem no quer nem ouvir falar em revoluo. Alvarino Amaral
informou que j tinha mais de duzentos caboclos reunidos,  espera de
armas e munio.
  - E os teus sargentos, Bio?
  - Esto dispostos a vir aqui conversar conosco.  s marcar o dia e a
hora.
  - Est bem. Mas devem vir de noite, entrar pelos fundos do quintal,
escondidos, para no despertar suspeitas. A esta hora devemos estar
sendo vigiados...
  Torbio ia continuar a falar mas calou-se, pois  porta do escritrio
surgiu a figura do tenente Bernardo Quaresma.
  - Com licena! - Entrou e comeou a apertar mos. - Interrompo alguma
conversa particular?
  126
  - Ora! - fez Rodrigo. - No temos segredos para ti. Quando o tenente
voltou-lhe as costas, piscou um olho para
  Torbio, e disse:
  -  Juquinha... fecha a porta.
  O amigo obedeceu. Rodrigo pousou cordialmente a mo no ombro do
alagoano:
  - Por falar em segredo, chegaste bem na hora. Temos um assunto muito
importante a tratar contigo... Que  que vais beber?
  Havia espanto no rosto do oficial.
  - Que  isso comigo, doutor?
  Uma vermelhido lhe foi cobrindo as faces, o pescoo e as orelhas,
enquanto ele repetia: "Que  isso comigo, doutor?"
  - Senta-te, Bernardo. Vou te dar um clice de vinho do Porto. Ou queres
alguma coisa mais forte?
  Agora sentado, Bernardo Quaresma olhava dum lado para outro, como que
compreendendo aos poucos do que se tratava.
  - Se vo me falar em...
  - Espera! - interrompeu-o o dono da casa, segurando-o pelo talabarte. -
No digas nada ainda. Me deixa falar primeiro. Depois respondes. Mas
quero a tua palavra  de honra, palavra de homem, palavra de soldado...
seja qual for a tua resposta, vais prometer que no dirs a ningum o
que se conversou aqui nesta sala. A ningum.  Juras?
  - Que  isso comigo, doutor?
  - Juras?
  Liroca ergueu-se, alvoroado, esfregando as mos como um colegial.
Alvarino tratava de ajustar a sua improvisada concha acstica, para no
perder palavra do dilogo.
  - Juro - disse por fim o tenente. - Mas isso no quer dizer...
  - Eu sei, eu sei... - atalhou Rodrigo. - Torbio, traz uma cachacinha
aqui pr nosso amigo.
  Enquanto o irmo fazia isso, Rodrigo reacendeu o charuto, tirou uma
baforada, olhou furtivamente para a porta e, baixando a voz, disse:
  127
  - No ignoras, a esta altura dos acontecimentos, que o Rio Grande e o
resto do Brasil esto de corpo e alma com a revoluo.
  Bernardo Quaresma bebericou a cachaa e fez uma careta de repugnncia.
  - Conspira-se em todo o territrio nacional - prosseguiu Rodrigo. - A
revoluo  uma fatalidade, ests compreendendo? Uma fa-ta-li-da-de! 
questo de tempo.
  O tenente olhava silencioso para os reflexos violceos da bebida.
  - Sabes que sou teu amigo, Bernardo. Todos somos.  como se fosses meu
parente, pessoa da casa. Seria um absurdo se eu no fosse franco
contigo. Seria um insulto   tua pessoa se eu no tivesse confiana em
ti.
  - Mas doutor...
  - Espera. Escuta. No queremos\derramar o sangue de nossos irmos. Mais
tarde ou mais cedo as tropas federais aquarteladas no Estado vo aderir
ao movimento. Fui  informado, com toda a segurana, de que a guarnio
de Porto Alegre est toda conosco.
  Rodrigo fez uma pausa. Depois, tornando a pr a mo no ombro do oficial,
disse vagarosamente:
  - Agora me escuta. Ns contamos contigo.
  O outro ps-se de p num pulo, como se tivesse levado um choque
eltrico.
  - Comigo no!
  - Senta. Tem calma, olha aqui... J pensaste na legitimidade da nossa
causa? O governo federal fraudou as eleies, mandou assassinar Joo
Pessoa, e agora, como  supremo insulto, tropas federais ocuparam
Princesa, sob o pretexto de restabelecer a ordem.  a interveno
mascarada! A revoluo portanto  um imperativo no s  poltico como
tambm moral. E um ato de justia. Pensa bem, Bernardo. Podemos contar
contigo? No queremos muita coisa de ti... Se no ests disposto a nos
ajudar  na catequese de teus companheiros de farda, se no queres tomar
parte ativa no movimento, ns nos contentamos com a tua promessa de no
fazer nada contra ele...  Mas sei que ests conosco!
  Bernardo sacudiu a cabea negativamente.
  128
  - No, doutor. No. Sou seu amigo. Seria capaz de dar a minha vida pelo
senhor. Mas o que me pede est acima das minhas foras. Sou um soldado,
e soldado no faz  revoluo contra governo legalmente constitudo. Meu
falecido pai, que era tambm militar, me ensinou isso. No contem
comigo...
  Ergueu-se, como que estonteado, e por alguns instantes ficou perdido
entre aquelas pessoas, mesas e poltronas. Aproximou-se da janela,
encostou a testa na vidraa,  puxou o dlm, passou as mos pelos
cabelos. Todos os olhares estavam postos nele. E agora, encostado na
parede, como para melhor defender-se do inimigo, o tenente  de
artilharia tornou a falar.
  - Vou pedir minha remoo de Santa F imediatamente. No quero ser
levado a uma situao em que tenha de lutar contra os meus amigos.
  Rodrigo sorriu amarelo. Aproximou-se do alagoano, tomoulhe do brao e
puxou-o para a roda.
  - Ora, Bernardo, no vamos fazer drama. - Obrigou-o a sentar-se de novo.
- Isto no  sangria desatada. Ns te damos tempo para pensar.
  - No preciso de tempo. J decidi. Sou soldado. Defendo a legalidade.
  As narinas de Rodrigo palpitaram e ele quase soltou as palavras que se
lhe amontoavam no pensamento: "Mete essa tua legalidade no rabo, menino!
Pensas que precisamos  de ti para fazer a revoluo?" Mas conteve-se.
Pegou o copo que deixara esquecido em cima da mesinha, na frente do
sof, tomou um gole de conhaque.
  - Essa  a tua ltima palavra? - perguntou. O oficial sacudiu
afirmativamente a cabea.
  -  sim senhor.
  Rodrigo olhou em torno, com um ar um pouco teatral, e disse:
  - Todos vocs so testemunhas de que fiz o possvel... Agora quero que o
nosso tenente responda a uma pergunta. Se os soldados de teu regimento
se revoltarem e tentarem  prender-te... que fars?
  - Reajo a bala.
  - A, Floriano Peixoto! - exclamou o Liroca.
  129
  - Est bem - disse Rodrigo. - No temos mais nada a dizer.
  - Mas no se esquea, tenente - interveio Juquinha Macedo -, que o
senhor prometeu no contar a ningum o que se conversou aqui esta noite.
  - J dei a minha palavra.
  Fez-se um silncio de constrangimento. Torbio, porm, salvou a
situao. Ergueu-se da poltrona, onde estivera sentado, com as mos
tranadas sobre o ventre, numa  atitude modorrenta, avanou para o
tenente e segurou-o pelos ombros:
  - Reages coisa nenhuma, porcaria! Na hora da ona beber gua eu te pego,
te prendo e liquido o assunto. E queres saber duma coisa? Deixa estes
conspiradores de meia-tigela  e vamos ver se encontramos alguma mulher.
  Bernardo Quaresma pareceu ganhar vida nova. Ergueu-se, sorrindo, e,
ainda meio contrafeito, distribuiu apertos de mo. Quando chegou a vez
de despedir-se de Rodrigo,  murmurou:
  - Est zangado comigo, doutor?
  - Zangado eu? Claro que no, homem. Admiro a tua franqueza como admiro a
tua lealdade. Mas deixa de bobagem, no peas a tua transferncia...
  - Sinto muito, mas acho melhor pedir....
  Saiu em companhia de Torbio. Pouco depois Rodrigo aproximou-se da
janela, olhou para fora e viu o irmo e o tenente de artilharia
atravessarem a rua, seguidos pelo  Retirante, que ficara todo aquele
tempo inquieto, esperando o amo,  porta do Sobrado.
  A festa de inaugurao da caixa-d'gua de Santa F, em princpios de
setembro - e para a qual Rodrigo convidara a populao da cidade e as
autoridades militares  -, acabou por transformar-se num comcio
poltico. O coronel Borralho, veterano do Paraguai, estava no palanque,
ao lado dos convidados de honra.  medida que os  oradores se exaltavam,
excedendo-se nos ataques ao 
  130
  presidente da Repblica, o comandante da guarnio federal dava mostras de
seu mal-estar. Por fim, quando Rodrigo, no seu discurso oficial, saltou
do assunto "saneamento  material de Santa F" para "saneamento moral do
Brasil", falando nos "srdidos esgotos da poltica autoritria do
Catete" e fazendo aluses clarssimas  revoluo  - o comandante da
praa e os outros oficiais retiraram-se do palanque ostensivamente, mas
no sem antes ordenarem  banda de msica do Regimento de Infantaria que
se recolhesse imediatamente ao quartel.
  - Que siga o baile sem msica mesmo! - gritou um gacho que assistia 
solenidade de cima do seu bragado.
  Terminados os discursos, improvisou-se uma passeata cvica. Cantando
hinos e gritando vivas, tendo  frente uma das filhas de Terncio
Prates, que levava ao ombro  uma bandeira do Brasil, e Roberta Ladrio,
toda vestida de vermelho, com uma bandeira do Rio Grande nas mos, o
cortejo, numa mistura de lenos vermelhos, brancos  e verdes, desceu a
colina da Sibria na direo do centro da cidade. Cuca Lopes ia  frente
rodopiando e soltando foguetes. E  medida que avanava, a procisso  ia
engrossando e o entusiasmo crescendo. Homens e mulheres apareciam s
janelas das casas e acenavam com bandeirinhas ou lenos. Atrs das
porta-estandartes, ladeado  por chefes polticos locais, Rodrigo Cambar
caminhava, glorioso, dividindo seu entusiasmo e sua ateno entre as
pessoas que lhe acenavam das janelas ou caladas,  e as ndegas da
professora. E tudo - sentia ele - tudo cabia dentro do mesmo entusiasmo
cvico e da mesma alegria de estar vivo.
  Na praa da Matriz, antes de dispersar-se o cortejo, Rodrigo tornou a
falar. E quando, perorando, declarou que os descendentes de Bento
Gonalves muito breve haveriam  de amarrar seus pingos no obelisco da
avenida, na capital federal - um urro de entusiasmo guerreiro se elevou
da multido e foi repetido pelo eco atrs da matriz.
  Naquele mesmo dia chegou a Santa F a notcia de que o presidente
Irigoyen da Argentina havia sido deposto pelo Exrcito.
  - Eu no disse? - exaltou Aro Stein. - Os castelos de cartas continuam
a cair. O prximo a rolar ser o de Washington Lus. No ser necessrio
disparar um tiro.
  131
  Rodrigo quis saber de pormenores da revoluo argentina. O judeu
mostrou-lhe os jornais. Uma junta presidida pelo general Uriburu tinha
assumido o governo do pas  vizinho. No manifesto que os militares
haviam lanado  nao, Rodrigo descobriu um trecho que se poderia
aplicar, sem mudar sequer uma vrgula,  situao brasileira.
Declaravam os militares que se haviam rebelado para "intimar os homens
que atraioaram no governo a confiana do povo e da Repblica, ao
abandono imediato dos cargos  que no exerceram para o bem comum, mas em
exclusivo proveito de seus apetites pessoais".
  Rodrigo, porm, no se mostrou entusiasmado com a queda de Irigoyen.
Quando Juquinha Macedo lhe perguntou por qu, explicou:
  - Seria um desastre se nosso exrcito, seguindo o exemplo do argentino,
depusesse Washington Lus. Teramos ento uma ditadura militar e a
situao ficaria ainda  pior. Nossa revoluo tem de ser feita por ns
com a participao do exrcito. Tem de ser uma revoluo civil e
popular.
  Em muitas daquelas noites de setembro vieram ao Sobrado dois sargentos,
um de artilharia e outro de infantaria, e ficaram a conspirar no
escritrio com Rodrigo e  os outros chefes revolucionrios locais. Chiru
e Neco montavam guarda  casa, para dar o sinal de alarma, caso o
tenente Quaresma se aproximasse.
  O sargento Aurlio Taborda era um quarento retaco e cambota, de ar
descansado, com algo de oriental na larga cara amarela. Lembrava a
Rodrigo a figura dum general  nipnico que ele vira nos nmeros de
Illustration dedicados  guerra russo-japonesa. Entrava em geral pelo
porto dos fundos, embuado numa capa preta, e batia  na porta da
cozinha. Laurinda fazia-o entrar. Rodrigo em geral o recebia com estas
palavras:
  - Ah! O nosso general Ofama!
  Taborda gostava da brincadeira. Era literato, ledor de Prez Escrich,
Alexandre Dumas e mile Richebourg. Escrevia peas de teatro, uma das
quais j fizera Rodrigo  ler. Tratava-se dum melodrama histrico, cuja
personagem principal era um capito 
  132
  brasileiro, heri da Guerra do Paraguai. A dificuldade para encenar o drama -
dizia o autor - era o seu alto custo. Havia uma batalha campal em cena
aberta, com canhes,  uma carga de baioneta etctera e tal...
Precisariam de, pelo menos, quinhentos atores. "O senhor v, doutor, no
temos palco nem gente que chegue." Rodrigo concordava,  srio, para
agradar o dramaturgo.
  O outro sargento, Atlio Bocanegra, era, no dizer de Taborda, "dos
modernos". Muito mais moo que ele - pois no teria mais de vinte e sete
anos - era claro, esbelto,  de olhos cinzentos e metlicos. Segundo
Torbio, dava-se ares de gal.
  - Por que me trazes ento esse pelintra? - perguntara Rodrigo chamando o
irmo  parte.
  - Porque o diabo do rapaz tem um prestgio danado entre a soldadesca. E
 macho.
  Ali no escritrio os dois sargentos, cada qual  sua maneira, contavam o
progresso de seu trabalho de catequese entre os companheiros. Bocanegra
era conciso e direto.  Taborda prolixo e amigo de imagens literrias. De
toda a conversa Rodrigo deduzia que alguns dos sargentos do Regimento de
Infantaria achavam-se ainda indecisos,  mas os de Artilharia estavam
todos decididos a, na hora oportuna, revoltar a soldadesca e prender os
oficiais.
  - E que me diz do tenente Bernardo? - perguntou Rodrigo. Bocanegra no
hesitou:
  -  um garganta. Proseia mas no sustenta. No se preocupe com ele.
  Em muitas daquelas noites ventosas e ainda frias, ficavam ali no Sobrado
a discutir os pormenores do "golpe", e a beber caf ou cachaa com mel e
limo. Muita vez  Rodrigo surpreendia-se a olhar fixamente para o
sargento Bocanegra, procurando descobrir que trao, que expresso
daquela face era responsvel pela antipatia, pelo  mal-estar que o rapaz
lhe causava. No que fosse feio; pelo contrrio: era um belo tipo. Tinha
feies regulares, boca bem desenhada, testa alta, queixo voluntarioso.
Talvez a "antipatia" estivesse nos olhos frios de reptil. Claro! Eram
olhos de cobra - decidiu uma noite Rodrigo consigo mesmo. Para agravar a
situao o jovem
  133
  sargento tinha o cacoete de, a intervalos, lamber os lbios com a lngua
pontuda e longa.
  -  justo e natural - disse Bocanegra uma noite - que depois de dominada
a situao todos os sargentos sejam automaticamente comissionados em
tenentes. Foi uma promessa  que tive de fazer aos colegas.
  - E que ns manteremos - apressou-se Torbio a dizer. Esse bichinho 
ambicioso - pensou Rodrigo. - Ambicioso
  e vingativo. Por tudo quanto ouvi at agora, tem pela oficialidade uma
m vontade que quase chega s fronteiras do dio. Agora, o outro, esse
caboclo literato e  pachorrento,  uma boa alma. Pai da vida. Trabalha
devagar e com excessiva cautela. O que ele quer mesmo  fazer frases.
  - Quando  o grande dia? - perguntou Taborda certa vez. Rodrigo deu de
ombros.
  - Aguardamos ordens de Porto Alegre. Pode ser este ms. Pode ser no
outro.
  - Pois nesse dia, doutor - disse o dramaturgo, erguendo o copinho de
cachaa -, estaremos todos no palco, ao subir o pano para o drama da
regenerao nacional.
  Bocanegra soltou uma risada desagradvel. Rodrigo teve mpetos de
esbofete-lo.
  Os problemas de Floriano agravaram-se quando chegou do Angico para
trabalhar no Sobrado a Olmira, cabocla de dezesseis anos. Tinha nas
feies e na cor da pele algo  de malaia. Seus olhos de obsidiana,
enviesados e ariscos, luziam, como alis o resto da cara, com um lustro
de pintura envernizada. Ao v-la pela primeira vez, Floriano  teve
inesperados mpetos antropofgicos. Desejou morder e comer aqueles
lbios polpudos como pssegos, e aqueles seios que mal apontavam.
Surpreendeu-se e envergonhou-se  um pouco desse apetite. Estava
resignado  castidade, por mais que isso lhe custasse. Era-lhe agradvel
a idia de permanecer limpo de corpo
  134
  - j que de esprito tal coisa no lhe era possvel - e continuar
merecendo a confiana da me e da Dinda.
  Quase sempre descala, Olmira movia-se com uma graa gil e mortfera de
felino. O namoro comeou desde o primeiro dia, e a iniciativa partiu da
caboclinha, que,   sua maneira dissimulada, olhava com insistncia para
Floriano, mas quando este a. encarava, desviava o olhar. Falava pouco,
quase nada. No fim da primeira semana,  ele ainda no lhe tinha ouvido a
voz. Quando Olmira servia a mesa, Floriano interceptava os olhares
cpidos que seu pai dirigia para a rapariga, e isso o perturbava  no s
pelo temor que ele tinha de que sua me os notasse, como tambm porque
dum modo obscuro ele comeava a aceitar a idia de que Olmira lhe
pertencia, e afinal  de contas o dr. Rodrigo Cambar no podia ser dono
de todas as mulheres do mundo. Observava tambm que Jango, com seus
catorze anos e seu desenvolvimento precoce,  o buo forte, os olhos
sombreados de olheiras arroxeadas, uma voz grotesca, ora grossa ora fina
- Jango parecia tambm fascinado por Olmira. E o prprio Eduardo,  que
tinha apenas doze anos, no perdia a oportunidade de tocar na chinoca
sob qualquer pretexto. Onde quer que a encontrasse - uma vez que no
houvesse nenhum dos  "grandes"  vista - dava-lhe uma palmada nas
ndegas, soltava uma risada safada e saa a correr... De um modo geral
todos os machos do Sobrado pareciam enfeitiados  pela cabocla.
  Agora as noites de Floriano comeavam a ser mais difceis,
principalmente quando ele despertava de madrugada, o corpo latejando do
desejo despertado por algum sonho  ertico e pensava em que Olmira
dormia sozinha num quarto do poro. Ficava a fantasiar excurses
secretas, imaginava-se a descer as escadas na ponta dos ps, sair  para
a rua e finalmente bater na porta do quarto da rapariga. S de pensar
nisso ficava com a respirao alterada, o corao a pulsar aflito.
Muitas vezes essas  aventuras se prolongavam sonho adentro.
  No raro revoltava-se. "Tambm no sou de ferro. Trazer uma guria dessas
para o Sobrado, nas minhas ventas, chega a ser uma provocao. No me
culpem se eu..." Mas  sorria, vendo tambm o lado humorstico da
situao.
  135
  Estava uma tarde sentado no banco do quintal, debaixo do
marmeleiro-da-ndia, quando de repente teve a intuio duma presena
invisvel, a estranha sensao de que  estava sendo observado. Olhou em
torno: o ptio deserto. Ningum nas janelas do casaro. Ia baixar de
novo o olhar para o livro que tinha nas mos, quando vislumbrou  uma
mancha vermelha entre os ramos, folhas e flores dum cinamomo. Olmira
estava trepada na rvore e de l o espreitava... Ele sorriu. Ela tambm.
Foi nesse exato  instante que Maria Valria apareceu a uma das janelas
do casaro e gritou:
  - Desatrepa da, menina!
  Quando Olmira descia, abraada ao tronco do cinamomo, a ponta de sua
saia se prendeu num galho, deixando-lhe completamente  mostra as coxas
rolias e cor de cobre.  Por um segundo Floriano ficou siderado. A
chin,oca sentou os ps no cho, baixou o vestido e esgueirou-se na
direo da porta da cozinha.
  Depois desse dia o jogo a que ambos se empenharam num acordo tcito - o
caador e a caa - tomou os aspectos mais variados. Havia momentos em
que a rapariga parecia  querer entregar-se; noutros, dava a impresso de
fugir em pnico. Passava um dia ou dois arredia para, de sbito, sem
razo aparente, provoc-lo com um olhar mais  demorado, um sorriso, uma
rabanada faceira, ou um pretexto qualquer para ficar numa posio em que
ele lhe pudesse ver as coxas. E o caador, demasiado tmido para  o
ataque frontal, arquitetava vagas armadilhas, mas dum jeito que, em caso
de perigo para sua reputao de bom filho, elas pudessem ser debitadas 
conta do acaso,  livrando-o da responsabilidade moral de t-las
preparado deliberadamente. Horas havia em que ele se recriminava por
entregar-se a to arriscada aventura dentro da  prpria casa. Temia ser
descoberto. Era-lhe insuportvel a idia de fazer a me sofrer, de
decepcion-la, de dar-lhe motivo para concluir que, no fim de contas,
ele e o pai eram feitos do mesmo estofo. De resto, Olmira devia ser
ainda virgem. Se dormisse com ela, poderiam surgir complicaes srias.
Pensando nessas coisas,  Floriano tinha quase sempre em mente a imagem
do tio Bicho, que costumava dizer-lhe que a nossa moralidade  quase
toda feita de medo.
  136
  Fechado na gua-furtada, o rapaz entregava-se s suas aventuras
intelectuais. Descobrira Bernard Shaw, que conseguia ler no original com
relativa facilidade. Relia  o seu Ibsen e andava rabiscando tradues de
Tagore.
  Para cmulo de males agora a primavera se acumpliciava com seus desejos.
Havia na atmosfera algo de excitante e embriagador. A natureza parecia
em cio. s vezes  Floriano tinha a impresso de que respirava plen e
ficava grvido de coisas verdes. Os cinamomos da praa e do quintal do
Sobrado rebentavam em flores lilases,  que enchiam o ar com o mel de sua
fragrncia adocicada. O vento arrepiava a paisagem e as epidermes,
tumultuava o cu com nuvens inesperadas, levantava na rua o  vestido das
mulheres, despenteava as pessoas e as rvores.
  Naquela quarta-feira - o primeiro dia de ar sereno e morno que setembro
lhes dava - Rodrigo parecia especialmente preocupado. Durante o almoo
queixou-se do silncio  em que se mantinham os chefes da revoluo em
Porto Alegre, e declarou que estava decidido a partir para l no dia
seguinte, para averiguar o que se passava.
  - Ou atam ou desatam. Esta situao de dvida no pode continuar. O
velho Borges finalmente j declarou aos correligionrios que aceita a
revoluo. No entanto o  marasmo continua.
  Tirou o jornal que tinha no bolso, abriu-o e leu em voz alta um trecho
do manifesto recentemente divulgado pelos estudantes da Faculdade de
Direito do Recife:
  E a vs, gachos e mineiros que comeais a desertar da trincheira em
fogo para a qual nos convidastes pela clarinada de vossos tribunos e
pelo incitamento de vossos  generais;  a vs, brasileiros de todos os
quadrantes, que a mocidade acadmica de Pernambuco dirige este apelo em
nome do martrio de Joo Pessoa.
  Atirou o jornal em cima duma cadeira.
  - L no norte j esto pensando que desertamos.  preciso precipitar o
quanto antes a revoluo. A fruta est caindo de madura. Se esperarmos
mais um ms, ela apodrece.  E ns apodreceremos com ela,
irremediavelmente!
  137
  Flora comia a sobremesa em silncio, e nos seus olhos j se via o medo
antigo da guerra. Maria Valria deu uma ordem em voz alta para Olmira.
Bibi, Jango e Eduardo  olhavam para o pai, srios. Floriano procurou
alguma coisa para dizer, mas no encontrou nada. Rodrigo encarou-o:
  - E tu, meu filho, j ests na idade de tomar algum interesse pela
poltica. Vives num mundo excessivamente livresco. Precisas plantar os
teus ps no nosso cho,  no cho do Rio Grande. Esta  uma hora em que
ningum pode ficar indiferente. Tragam esse caf duma vez!
  Alm da vergonha de ter falhado nos exames vestibulares - refletiu
Floriano -, alm da vergonha de viver como um parasita, de no ter ainda
escolhido uma carreira,  o pai acabava de criar para ele uma nova
vergonha: a de estar alheio ao movimento revolucionrio. No seria a
vida mais'que um rosrio de vergonhas e sentimentos  de culpa? Teria o
homem de passar seus dias a bater no peito e a murmurar mea culpa?
  Olmira estava particularmente atraente aquele dia, no seu vestido
amarelo-claro, que lhe ia to bem com o tom acobreado da pele e com o
negror lustroso dos cabelos.  Uma franja tarjava-lhe a testa redonda.
Seus seios pareciam ter crescido naquelas ltimas semanas, talvez por
artes da primavera. Aquela manh, ao ver a cabocla  deixar cair um copo
que se partira em cacos nos mosaicos da cozinha, a Dinda gritara: "Essa
menina no est com o sentido no que faz. Anda com fogo no rabo". Mesmo
ditas pela voz seca e fria da velha, essas palavras incendiaram a
imaginao de Floriano.
  Subiu s primeiras horas da tarderpara a "mansarda", pensando nelas. Por
volta das trs e meia, quando Olmira lhe foi levar a bandeja com uma
xcara de caf e umas  fatias de bolo de milho, sentiu desejos de
agarr-la, mas no teve coragem para tanto. Mas quando ela voltou meia
hora mais tarde, dizendo que tinha ido buscar a  bandeja, Floriano
fechou a porta, com o corao a bater acelerado, e aproximou-se da
chinoca. Olmira encolheu-se, como quem espera uma bofetada, mas no se
moveu.  Floriano abraou-a com trmula fria e, sem dizer palavra,
deitou-a no div.
  138
  10
  Naquela mesma tarde, por volta das cinco, estava sentado no peitoril da
janela da gua-furtada, a olhar a praa. Sentia-se aliviado,
estranhamente sem remorso. Pensava  apenas de maneira vaga no que
poderia acontecer. Como se portaria Olmira dali por diante? Contaria
tudo  patroa? Claro que no, pois se entregara sem resistncia.
Passaria a fugir dele por ter achado a experincia desagradvel? (Seu
rosto enigmtico no trara nenhuma emoo.) Era possvel mas no
provvel. Voltaria outros  dias  mesma hora? Pouco lhe importava agora.
Naquele momento Floriano sentia-se estranhamente tranqilo e seguro de
si mesmo: um homem sem passado nem futuro.
  As copas das rvores da praa estavam imveis. Subia at a "mansarda" o
perfume das flores de cinamomo. Pela primeira vez em muitos dias o cu
estava completamente  limpo.
  Uma mulher vestida de branco sentou-se no banco que ficava junto da
calada fronteira  igreja. Floriano reconheceu-a: Roberta Ladrio.
Abriu o livro que trazia,  e por alguns instantes pareceu entretida a
ler. Poucos segundos depois fechou o volume e olhou na direo da
Intendncia. Floriano compreendeu tudo. Roberta sabia  que seu pai
costumava passar por ali mais ou menos quela hora. Preparava com toda a
certeza um "encontro casual". Tinha muito topete, a professora!
  Ao cabo de alguns minutos, apareceu o dr. Rodrigo Cambar a caminhar
pela calada, j de chapu na mo. Parou junto do banco, inclinou-se,
beijou a mo que Roberta  lhe estendeu, olhou para os lados e por fim
sentou-se ao lado dela. Ficaram numa conversa animada, durante alguns
minutos. Ela sacudia a cabea negativamente, ele  gesticulava, como que
tratando de convenc-la de alguma coisa... Quando algum passava pela
frente do banco, ambos pareciam calar-se, cumprimentavam o passante e  a
seguir retomavam a conversa. Floriano estava achando a cena divertida.
  Minutos mais tarde, o tenente Bernardo Quaresma atravessou a praa
seguido pelo Retirante, e aproximou-se do banco. Devia ter dito alguma
coisa, pois Roberta e Rodrigo  voltaram a cabea para trs ao mesmo
tempo. Rodrigo levantou-se, apertou a mo do tenente, que contornou o
banco, inclinou-se na frente da professora,
  139
  unindo os calcanhares, e fazendo uma breve continncia. Ficou a bater
com o pinguelim na perneira. (Aposto como papai est furioso com a
interrupo.) A seu redor  o Retirante dava pulos, brincalho. Num dado
momento ergueu as patas e sentou-as nos ombros de Rodrigo, tentando
lamber-lhe a cara. O tenente interveio para livrar  o amigo das carcias
do animal. Roberta atirou a cabea para trs, numa risada. Rodrigo
limpava as ombreiras do casaco. Naquele instante surgiu nova personagem
em  cena. O professor Zapolska, que saa da igreja, atravessou a rua,
encaminhando-se para o grupo. Estreitou Rodrigo contra o peito, deu a
ponta dos dedos ao tenente  e, olhando para Roberta, tocou com o
indicador na aba do chapu. Havia muito que Floriano observava a paixo
que o velho pederasta tinha por seu pai. Visitava com  freqncia o
Sobrado, ficava-se pelos cantos a olhar para o dono da casa, soltando
suspiros sentidos, e sempre que tocava Chopin revirava os olhos na
direo do  seu "querido doutor", como para lhe dar a entender que
estava tocando apenas para ele e mais ningum. Uma noite achava-se
Floriano na gua-furtada a ler, quando  ouviu, vindo da calada
fronteira, um rudo de passos. Foi espiar  janela e avistou o vulto do
professor, que andava dum lado para outro, a olhar para as janelas  do
casaro, como um namorado romntico.
  Floriano agora sorria olhando a cena l embaixo. O que no princpio
havia sido o clssico tringulo, com a chegada de Zapolska se
transformara num quadrado. Mas  no! Era preciso tambm contar o
cachorro. Era um polgono! E a histria se poderia resumir assim: o
Retirante amava Bernardo, que amava Roberta, que amava Rodrigo,  que por
sua vez era amado por Zapolska. Que pantomima!
  Rodrigo fazia agora as suas despedidas, e no minuto seguinte retomava
sua marcha na direo de casa. Floriano recuou para dentro da
gua-furtada e ps-se a remexer  numa pilha de discos, pois sentia uma
sbita, urgente necessidade de ouvir msica.
  11
  Rodrigo voltava para o Sobrado com um sentimento exasperante de
frustrao. Tentara convencer Roberta de que o nico
  140
  lugar em que poderiam encontrar-se a ss era no prprio quarto dela.
"Uma madrugada destas tu deixas a janela aberta, a rua estar deserta,
eu salto para dentro...  que dizes, meu amor?" A princpio ela parecera
horrorizada  idia. "No colgio? Santo Deus!" Pronunciando Deuchs, com
o esse chiado, ela tirara de certo modo ao  nome do Senhor grande parte
de sua grandeza e de seu grave mistrio. Ele, ento, lhe provara que
aquela era a nica soluo. Invocara at um argumento dramtico:  "No
ignoras que a revoluo vai ser deflagrada dentro de pouqussimos
dias... Sabes que no sou homem de ficar em casa na hora da luta. Tudo
pode acontecer... No  temos muito tempo". E a professora parecera
sensibilizada ante esse argumento. Estava quase a dar seu consentimento
quando surgira o diabo do alagoano com aquele  insuportvel co
policial, to expansivo quanto o dono, a fazer-lhe festas, a sujar-lhe o
casaco com as patas, e a querer lamber-lhe a cara. E como se tudo isso
no bastasse, aparecera tambm o Sombra. O professor de piano se estava
transformando num caso muito srio!
  Entrou em casa com um humor cido. Meteu-se num banho morno, onde se
entregou aos devaneios habituais. Tinha agora dois objetivos capitais:
um, a prazo curto, era  o de dormir com a professora; outro, a prazo
mais longo (mas no muito) era o de fazer a revoluo. Estava decidido a
embarcar para Porto Alegre no dia seguinte.  Procuraria Oswaldo Aranha e
no voltaria sem que o chefe da conspirao lhe dissesse claramente que
data estava marcada para a exploso do movimento. Aquela espera  lhe
estava atacando os nervos. Mas se ia embarcar no dia seguinte, tinha de
pular para dentro do quarto de Roberta aquela noite! Pensou em Toni
Weber, muma espcie  de desfalecimento agravado pela tepidez da gua.
Era incrvel - e ao mesmo tempo excitante - que aos quarenta e quatro
anos estivesse pensando em repetir a faanha  dom-juanesca dos vinte e
quatro. A figura de Toni estendida no cho, lvida, com os lbios
queimados de cido, por alguns instantes lhe ocupou a memria. Mas era
uma imagem de apagado terror, como a ilustrao dum conto de Edgar Pe
que nos assustou a meninice.
  A vida  curta - refletiu - e a minha talvez no dure mais de vinte
dias. No estava realmente convencido disso, mas naquele
  141
  instante o argumento lhe servia. Depois, Roberta Ladrio no era Toni
Weber. Estava claro que a professora j tivera antes aventuras sexuais.
"E seja como for -  Augusto Comte que me desculpe - o homem se agita e o
sexo o conduz."
  Pensando nessas coisas ensaboava vigorosamente o peito, as axilas, o
pescoo, as orelhas. Tem de ser hoje de noite ou nunca. Aquela rua em
geral est deserta...  A janela fica a uns dois metros do nvel da
calada... Um salto fcil. Seria grotesco se algum me surpreendesse
entrando pela janela do Colgio do Sagrado Corao  de Jesus, como um
ladro vulgar. Ora, no fim de contas - como diz tio Bicho - todos ns
somos no fundo vulgares ladres. O freio que nos contm  o medo da
polcia  (o gordo cnico!), das sanes tribais, e o nosso desejo de
parecer virtuosos, porque afinal de contas a virtude  uma moeda que
ainda circula...
  Saiu do banho com o corpo amolentado. Estava diante do espelho a dar o
n na gravata, quando Flora apareceu  porta:
  - O professor Zapolska est a. Tem um assunto muito srio a tratar
contigo.
  - Que estopada! Diz a esse cacete que no estou em casa.
  - No posso. Ele sabe que ests. Faz um sacrifcio, acho que o coitado
est doente.
  Com um suspiro de contrariedade, Rodrigo murmurou:
  - Est bem. Que me espere no escritrio.
  Alguns minutos depois, armando-se de pacincia e esprito cristo, foi
ao encontro do maestro, que ao v-lo entrar precipitouse para ele,
pegou-lhe de ambas as mos  e ps-se a beij-las com a avidez duma
criana que come  bombons. Surpreendido e ao mesmo tempo nauseado, Rodrigo
desvencilhou-se do Sombra, murmurando:
  - Que  isso, professor? Contenha-se.
  - Me perdoe, meu querido doutor, me perdoe. Mas  um assunto urgente e
muito pessoal...
  Disse estas palavras e encaminhou-se para a porta, fechando-a. Rodrigo
franziu o cenho e preparou-se para a comdia. Acendeu um cigarro, soltou
uma baforada e ficou  a olhar para o outro.
  - Que  que h?
  142
  - Preciso consultar com o senhor. Ando muito doente.
  - Faz sculos que abandonei a clnica. Por que no procura o dr.
Camerino?
  Zapolska sacudiu a cabea numa negativa vigorosa.
  - Tem de ser o senhor e mais ningum.
  - Est bem. Sente-se.
  O professor obedeceu e ficou a mirar o dono da casa com seu olhar de
molusco.
  - De que se trata?
  - Estou muito enfermo. No durmo. No como. No sei o que  que tenho.
No posso parar quieto num lugar. Sinto uma coisa aqui - mostrou o
peito. - No  dor.  uma  coisa... o senhor compreende? Uma apertura...
uma... uma coisa. Ando distrado, esqueo o nome das pessoas, os
compromissos, estou perdendo alunos, tenho medo de  enlouquecer...
  Houve um silncio durante o qual Rodrigo no pde suportar o olhar
mrbido de Zapolska e voltou a cabea para outro lado, a pretexto de
esmagar a ponta do cigarro  contra o fundo do cinzeiro. Nesse momento o
professor caiu de joelhos a seu lado, num baque surdo, e procurou
envolv-lo com seus longos braos. Rodrigo psse bruscamente  de p. O
outro ergueu-se tambm e de novo tentou abra-lo. Tomado dum sbito
dio, que era ao mesmo tempo medo pnico, Rodrigo arremessou, com uma
fora feroz,  o punho fechado contra a queixo do professor, que tombou
de costas, de todo o comprimento, e ficou estendido sobre o tapete por
alguns segundos, o rosto contrado  de dor, os olhos arregalados, num
estupor... Depois rolou o corpo, ficou deitado de bruos, as mos
segurando a cabea, um filete de sangue a escorrer-lhe da comissura  dos
lbios. E desatou num choro sentido, em soluos profundos que lhe
sacudiam o corpo. Rodrigo mirava-o sem saber que fazer nem dizer, j
arrependido e envergonhado  da violncia de seu gesto. Tinha a impresso
de que acabara de bater numa mulher ou numa criana.
  Ajoelhou-se ao p de Zapolska e tocou-lhe de leve o ombro.
  - Vamos, levante-se. O outro balbuciou:
  143
  - O senhor no devia ter feito isso. No era necessrio. Sou um
desgraado.
  - Est bem. Mas levante-se.
  Rodrigo sentia a mo dolorida. Conclua agora que agira num impulso de
legtima defesa. Surpreendia-se, porm, da intensidade de sua reao. E
a idia de que seu  gesto fora desmedidamente violento, deixava-o
perturbado e confuso.
  De repente o choro cessou. Lentamente o Sombra comeou a erguer-se. A
princpio Rodrigo teve a impresso de que o pobre homem tentava uma
tarefa impossvel, pois  lhe dava a impresso dum corpo sem esqueleto,
um longo e flcido boneco de trapos.
  E, momentos depois, quando o maestro estava de novo sentado na poltrona,
a olhar fixamente para o tapete, dessa vez encurvado, as faces cobertas
pelas mos, Rodrigo  encheu um clice de conhaque e, oferecendo-o ao
outro, disse:
  - Tome isto, que vai lhe fazer bem. Tome e vamos os dois esquecer o que
aconteceu.
  Obediente, Ladislau Zapolska pegou o clice e bebeu um gole. Gotas de
conhaque escorreram-lhe pelo queixo, misturadas com sangue. Passou pelos
lbios os dedos trmulos.  Depois, sem olhar para Rodrigo, ergueu-se,
ps o copo sobre a mesinha e, sem apanhar o chapu, que deixara em cima
do sof, encaminhou-se para a porta, abriu-a e  saiu sem dizer palavra.
  Rodrigo deixou-se ficar onde estava, a cabea baixa, a respirao ainda
irregular. Ouviu os passos do outro no vestbulo e depois na escada. Que
estupidez! Que cena  grotesca! E era sempre a ele que aconteciam aquelas
coisas...
  Dirigiu-se para a sala de visitas, onde se defrontou com o Retrato.
Sentiu-se quase na obrigao de dar explicaes ao Outro. Mas limitou-se
a murmurar para si  mesmo um palavro.
  Flora apareceu  porta do vestbulo, apreensiva.
  - Vi o professor sair sem chapu. Que foi que aconteceu?
  - Nada, minha filha, nada.
  - A boca dele estava sangrando...
  - O coitado est doente. Muito doente.
  - Tsico?
  144
  - No. Tu no compreendes essas coisas. No vamos falar mais nisso.
  - E tu... ests bem?
  - Estou. Mas preciso ficar um pouco sozinho.
  Voltou para o escritrio. Chegavam agora at ele, vindos da
gua-furtada, acordes abafados da Stima sinfonia de Beethoven.
  12
   hora do jantar Flora sugeriu ao marido que fossem ao cinema. Seria bom
para espairecer...
  - Que dizes?
  - Vamos - respondeu ele, sem grande entusiasmo. E continuou a comer,
taciturno.
  Jango, Eduardo e Bibi puseram-se ento a discutir a nova maravilha que
conheciam apenas atravs de jornais e revistas: o cinema sonoro.
  - Em Porto Alegre - disse o primeiro - tem uma fita do Gordo e do Magro,
falada em espanhol. O Floriano viu.
  E os trs olharam para o irmo mais velho com invejosa admirao.
  Uma hora depois, quando o Calgembrino viu Rodrigo aproximar-se da
bilheteria do Ideal, tomou-lhe do brao, dizendo:
  - Era s o que faltava o dr. Rodrigo pagar entrada no meu cinema!
  No permitiu que o casal sentasse na platia. Levou-o para o camarote
reservado s autoridades. E como faltassem alguns minutos para comear a
funo, Rodrigo, contrafeito,  teve de ficar ali exposto", a acenar para
amigos e conhecidos, com a impresso perfeita de que todos j sabiam do
que se havia passado entre ele e o professor de  piano.
  Os Macedos encontravam-se na platia, ocupando quase uma fila inteira.
Os Teixeiras enchiam o camarote do qual tinham uma espcie de
assinatura. O Cuca Lopes, cinemeiro  inveterado, possua
  145
  uma espcie de cadeira cativa na terceira fila, e l estava, serelepe, a
voltar a cabea dum lado para outro e a chupar balas.
  Rodrigo procurava Roberta com o olhar. Localizou-a finalmente na platia
ao lado do tenente Bernardo, o que no deixou de irrit-lo um pouco. Era
voz geral que ali  "havia namoro". Rodrigo certa vez chegara a simular
cimes, para forar a professora  explicao que ele esperava e
desejava ouvir. "Mas no compreendes que eu  encorajo esse pobre rapaz
apenas para que os outros pensem que existe alguma coisa entre ns, e
assim ningum possa desconfiar de que  a ti, s a ti que eu amo?"  Mas
quando a luz se apagasse, o tenente no procuraria tomar liberdades com
ela, pegando-lhe a mo... ou outras partes do corpo? Besteira!
  Quando a funo terminou, Rodrigo esteve a pique de sugerir a Flora que
esperassem Roberta  porta para lev-la at o colgio no Ford, mas
achando que a mulher podia  desconfiar daquela solicitude, desistiu da
idia.
  Em casa ficou algum tempo no escritrio a beber, a fumar e a caminhar
dum lado para outro, olhando de quando em quando para o relgio. As onze
horas Flora lhe perguntou:
  - No vais dormir?
  - No, minha flor, acho que vou sair, dar uma volta por a. Estou sem
sono. Ah! Me arruma a mala. Sigo amanh para Porto Alegre.
  Flora lanou-lhe o olhar que Rodrigo j conhecia de outras situaes
semelhantes: principiava com uma expresso de surpresa que se
transformava, numa frao de segundo,  em resignao e por fim chegava a
ter um toque de malcia, como se ela quisesse dizer: "Essas tuas famosas
viagens..."
  Flora subiu. Rodrigo ficou a dizer-se a si mesmo: "Hoje ou nunca. Hoje
ou nunca". E bebeu outro clice de parati. Acendeu um novo cigarro. A
mo, de juntas esfoladas,  lhe doa. Tornou a pensar no professor de
piano,  com uma piedade mesclada de vergonha e irritao. Imaginou-se
num dilogo com Oswaldo Aranha. "Se essa revoluo  no sai logo, meu
caro, estamos todos avacalhados aos olhos do Brasil." Fantasiou uma
cena: ele procura saltar para dentro do quarto de Roberta, quando surge
uma  patrulha da
  146
  polcia. Um dos soldados faz fogo e, com o corpo varado por uma bala,
ele tomba sangrando sobre a calada e ali morre ingloriamente como um
reles ladro de galinha.  Ele, o Chantecler! Velho galo ridculo!
  Acercou-se da janela e olhou para fora atravs das vidraas. A culpa era
da primavera. E da expectativa enervante em que vivia naqueles ltimos
meses. E da crise  econmica que se agravava. E daquela srdida rotina
na Intendncia, dos cheiros daquelas salas, das caras repetidas e
prosaicas, dos pedintes, dos bajuladores...  Sim, e havia ainda seus
quarenta e quatro anos. E a monotonia de Santa F. Hoje ou nunca. Hoje
ou nunca.
  O relgio grande bateu doze badaladas. No podia esperar mais tempo,
pois Roberta poderia cair no sono. Mas... no seria cedo demais? No. A
rua para onde dava a  janela do quarto da professora quela hora estaria
completamente deserta.
  Enfiou o sobretudo, ps o chapu na cabea e saiu. Soprava um ventinho
spero e frio. Vinha da padaria do Chico Pais um cheiro evocativo de po
recm-sado do forno.  Ah! se ele pudesse contentar-se com as coisas
simples da vida, com uma existncia serena, boa como po quente, limpa
como po quente. Mas para isso seria preciso  que seu corpo permanecesse
permanentemente anestesiado. Ou que ele estivesse irremediavelmente
velho. Agora tinha a impresso de que no pensava com a cabea, mas  com
o sexo. Seu corpo era um barco cuja bssola era o sexo. Um barco... O
sexo o capito. O sexo o mastro. Um mastro incandescente.
  Entrou na rua Voluntrios da Ptria com a impresso de que aquilo j
havia acontecido antes. Claro que havia. S que agora no se dirigia
para a meia-gua dos Weber,  mas para o Colgio do Sagrado Corao de
Jesus. Lembrou-se do discurso que pronunciara o ano passado, na
qualidade de paraninfo das meninas que terminavam o curso.  Fizera o
elogio da virtude, da religio, da pureza. Nas vossas mos, meninas de
hoje e mes de amanh, est o destino do Brasil. Os homens que dareis ao
mundo, os  homens cujo carter haveis de moldar (como era horrenda a
segunda pessoa do plural!), governaro este pas, sero os construtores
de nosso futuro. Sede, pois, castas.  Sede, pois, virtuosas. Sede, pois,
puras! Hipocrisia? Talvez. Mas
  147
  era sempre necessrio danar de acordo com o par e com a msica. E nada
do que estava acontecendo era realmente grave ou irremedivel. No se
devia confundir honra  ou decncia com sexo. A morte, essa sim, era
irreversvel.
  Avistou o edifcio do colgio, dum cinzento frio na rua maliluminada.
Aproximou-se da janela de Roberta, pisando de leve. No se via viva alma
nas vizinhanas. Parou   esquina. Um trem apitou longe. Aquilo tambm
j tinha acontecido. O vulto de Roberta se recortou contra a penumbra
por trs das vidraas. Menina inteligente! Adivinhou  que eu vinha. Fez
um sinal... A professora pareceu hesitar. Por fim ergueu a janela de
guilhotina e recuou para dentro do quarto. Rodrigo no perdeu um
segundo.  Lanou um rpido olhar para a esquerda e outro para a direita,
ps-se na ponta dos ps, segurou as bordas da janela, iou o corpo,
apoiou um p mim rebordo da parede,  e, fazendo um novo esforo, saltou
para dentro do quarto.
  13
  Na manh seguinte embarcou para Porto Alegre. Voltou trs dias depois,
alvorotado. Torbio quis saber das novidades. Estava tudo pronto -
informou-lhe o irmo -  e a "coisa" estouraria nos primeiros dias de
outubro. Oswaldo Aranha prometera mandar-lhe oportunamente um telegrama
cifrado, informando-o do dia e da hora exata  em que a revoluo seria
deflagrada.
  - Parece mentira - disse Rodrigo, puxando o irmo pelo brao e levando-o
para o fundo do quintal. - Tu sabes que o Getlio at ainda h poucos
dias estava indeciso?
  - No  possvel!
  - Sim senhor. Aqui que ningum nos oua... Para convencer o presidente
do Estado a aceitar a revoluo, o Oswaldo Aranha e o Flores da Cunha
tiveram que assumir  toda, mas toda a responsabilidade do movimento. Se
a coisa fracassar, o Getlio ficar isento de qualquer conivncia. E
sabes o que me contaram mais? O homenzinho  teria dito: "Olha, Oswaldo,
se essa tua revoluo for
  148
  malsucedida, mando a brigada militar atirar em vocs, porque governo no
faz revoluo".
  Torbio olhava incrdulo para o irmo. Arrancou uma folha de pessegueiro
e mordeu-a.
  - E esse vai ser o nosso chefe!
  - E o nosso presidente, se a revoluo triunfar.
  - X gua!
  Havia algumas semanas Terncio perguntara a Rodrigo a quem caberia o
comando da praa no caso de os revolucionrios ficarem senhores da
cidade. Rodrigo respondeu  automaticamente: "A mim, est claro". O outro
ficara silencioso, com ar de quem no estava de acordo. "Mas no achas
que os sargentos e os soldados prefeririam ter  como comandante um
militar profissional?" - "Acho, mas quem vai ser, se os oficiais no
aderirem na primeira hora?"
  Foi ento que Terncio sugeriu convidassem Alcides Barradas, um coronel
reformado que vivia em Santa F, e era casado com uma contraparente dos
Prates.
  - E ele est de acordo? - perguntou Rodrigo.
  - O Barradas est com a revoluo em toda a linha.  um oficial ilustre,
heri do Contestado.
  Rodrigo no pareceu muito entusiasmado com o ttulo "heri do
Contestado", mas acabou aceitando a sugesto.
  Por isso naquela noite de fins de setembro havia mais dois conspiradores
no escritrio do Sobrado. Um era o coronel Barradas, homem franzino, de
sessenta e cinco  anos, olhos mansos e cabelos dum negror suspeito.
  - Pois, coronel - disse-lhe Taborda com ar respeitoso -, conto com dois
teros da sargentada. Ouro e fio. O resto est meio duro. A
oficialidade, essa no quer saber  de revoluo. A comear de amanh, as
foras federais vo ficar de rigorosa prontido, e ningum poder sair
do quartel. O melhor  a gente deixar tudo combinado  hoje.
  O outro novo conspirador viera em companhia de Bocanegra: era o sargento
de artilharia Paulo Sertrio, rapaz de ar tmido, que
  149
  pouco falou durante toda a reunio. Rodrigo simpatizou logo com ele. Era
a anttese do "olho de cobra". Parecia, porm, completamente dominado
pelo colega. Concordava  com tudo quanto este dizia.
  - Ouam o meu plano - comeou Rodrigo, sem esperar que o coronel
Barradas se manifestasse. - Depois me digam se  bom ou no. A mim me
parece que o Regimento de  Artilharia  o piv da questo: tem canhes,
est no alto duma coxilha, dominando a cidade... Se no o tivermos de
nosso lado desde o primeiro momento, estamos perdidos.  Agora, se
revoltarmos a "poderosa", poderemos exigir a rendio do quartel do
Regimento de Infantaria sob a ameaa de bombardeio.
  - E quem se encarrega de tomar o quartel-general? - perguntou o coronel
Barradas.
  - No se impressione, chefe - disse Taborda. - O comandante da guarnio
j se instalou com armas e bagagens no quartel da infantaria. O
quartel-general est fechado  e desguarnecido.
  - Isso simplifica o nosso problema - disse Rodrigo. - O sargento
Bocanegra e seus colegas sublevam o regimento, prendem a oficialidade e
depois abrem as portas do  quartel para ns entrarmos. Estarei com
quinhentos homens nos arredores...
  Olhou para o irmo:
  - Aqui o major Torbio vai trazer suas tropas do Angico para se reunir
s do coronel Alvarino e juntas cercarem o quartel do Regimento de
Infantaria.
  - E quem vai nos avisar do dia e da hora certa da revoluo? - quis
saber Taborda. - De amanh em diante estaremos fechados no quartel...
  - No h problema - replicou Bocanegra. - A soldadesca est toda
conosco. No dia em que o senhor receber o tal telegrama, dr. Rodrigo, me
escreva um bilhete e mande  algum entreg-lo ao cabo da guarda. No
haver o menor perigo.
  Rodrigo olhou para o coronel Barradas:
  - Pois tire o seu uniforme da mala, coronel, e mande azeitar a sua
pistola. Porque a grande hora chegou.
  Terncio Prates, estranhamente silencioso, olhava para o retrato do
Patriarca, e no parecia muito feliz.
  14
  Na manh do ltimo dia de setembro, Rodrigo encontrou o tenente Bernardo
na praa a brincar com o Retirante. Pareciam duas crianas. Ou dois
cachorros. Rodrigo sorriu,  enternecido.
  - Bernardo, ainda  tempo. Fique conosco. A causa  boa. - E, num
transporte de cordialidade, quase cometeu uma indiscrio. - A coisa
est por estourar.
  - No me diga nada, doutor, seno o senhor me coloca numa posio muito
difcil.
  -  que ainda conto contigo, Bernardo.
  - No conte. Sou soldado. Soldado no faz revoluo.
  - Deixa de bobagem. A maioria est do nosso lado.
  - Fico com a minoria e com a minha conscincia.
  - Pois ento te prepara, que sers preso.
  - J lhe disse que a mim ningum prende. S com ordem de meus
superiores. Sargento no me prende. E muito menos civil.
  - Deixa de besteira.
  - Estou lhe dizendo, doutor, eu reajo.
  - Reages coisa nenhuma! Vamos at o Poncho Verde tomar um aperitivo.
  Segurou o brao do tenente e conduziu-o na direo do caf. O Retirante
seguiu-os.
  Naquela mesma manh chegou o esperado telegrama. Estava codificado.
Rodrigo fechou-se com Torbio no escritrio e decifrou-o:
  Absolutamente secreto. Movimento Estado e resto pas ser
irrevogavelmente no dia 3 ao cair da noite. Porto Alegre a essa hora
estar em nosso poder. Avise unicamente  amigos indispensveis. Oswaldo
Aranha.
  150
  151
  Os irmos entreolharam-se. Torbio meteu a mo por dentro da camisa e
comeou a coar o peito. Era a sua famosa comicho guerreira.
  - Tens de seguir imediatamente para o Angico - disse Rodrigo. - Procura
o coronel Alvarino e combina com ele a hora e o ponto da reunio. Vou
marcar as nove da noite  para comear o baile aqui. A essa hora j
teremos notcias de como correu a coisa em Porto Alegre.
  Aquela tarde todos os chefes revolucionrios de Santa F foram
notificados dos dizeres do despacho secreto de Oswaldo Aranha. E 
noitinha Rodrigo mandou Neco Rosa  entregar ao cabo da guarda do
Regimento de Artilharia um bilhete endereado ao sargento Bocanegra,
nestes termos: Trs de outubro. Nove da noite. R. O Bento conduziu  o
Neco no Ford at certo ponto nas proximidades do quartel, e dali o
barbeiro fez o resto do percurso a p. Quinze minutos depois estava de
volta ao Sobrado e dizia  a Rodrigo, no sen" certa solenidade:
  - Misso cumprida. O amigo sorriu:
  - Pssimo barbeiro mas timo mensageiro. Ests promovido a major.
  Riram-se.
  Pouco depois da meia-noite, naquele mesmo dia, Rodrigo tornou a saltar
para dentro do quarto de Roberta Ladrio, apesar de haver tentado antes
- pelo menos teoricamente  - convencer-se a si mesmo de que repetir a
arriscada aventura nas vsperas do movimento era uma perigosa
leviandade. A professora mostrou-se mais ardente ainda do  que na
primeira noite e por longo tempo ficaram ambos enlaados na estreita
cama, na penumbra daquele quarto que recendia ao perfume de Roberta, de
mistura com o  cheiro do leo de linhaa do verniz dos mveis. Acima da
cabeceira do leito negrejava um crucifixo com um Cristo de prata. Que
profanao! - pensava vagamente Rodrigo.  E encostando os lbios na
orelha da amante murmurou-lhe que dentro de dois dias a revoluo
"estaria na rua". Contou tambm que comandaria pessoalmente o ataque  ao
Regimento de Artilharia. E depois? - quis ela saber.
  152
  Ora - respondeu ele -, depois de dominada a situao em Santa F
marchariam para o norte, contra o Rio de Janeiro...
  - Voc me leva, meu bem? - brincou ela.
  - Levo. Sers a minha vivandeira.
  Era bom - achava ele - muito bom passar as mos por aquelas carnes
quentes, rijas e elsticas, ter acesso a todas as intimidades daquele
corpo... E que beijos! Era  como se a professora quisesse chupar-lhe
pela boca no s a alma mas tambm as vsceras at esvazi-lo por
completo.
  s vezes ouviam passos no corredor pavimentado de mosaicos, e ficavam
ambos com a respirao suspensa, imveis,  escuta. Mas as passadas
afastavam-se, sumiam-se,  e voltava o silncio em que Rodrigo ouvia o
surdo pulsar do corao da rapariga. s vezes era um cachorro que latia
em alguma rua longnqua. Ou o relgio do refeitrio  do colgio que
batia os quartos de hora, numa pardia do Big Ben.
  - E o tenente Bernardo? perguntou Roberta, depois dum
  silncio em que ficaram de corpos e bocas colados.
  - Est contra ns e diz que vai reagir.
  - E voc acha que ele est falando srio?
  - Acho que o tenente  um fanfarro. Mas ests preocupada com ele ou
comigo?
  Fez-se uma pausa em que ela ficou a acariciar os cabelos de Rodrigo.
  - Sabes que o Bernardo veio se despedir de mim ontem?
  - Despedir-se? Por qu?
  - Disse que tinha o pressentimento de que ia morrer.
  - Que grande fiteiro! Mas... e tu, que disseste?
  - Ora... disse que deixasse de tolice, que tudo ia acabar bem. Mas qual!
O rapaz estava fnebre. No quero mentir... mas parece que tinha
lgrimas nos olhos quando  me disse adeus.
  Rodrigo estava quase irritado. O patife do tenente fazia o seu
melodramazinho para impressionar a professora. Enfim... fosse como
fosse, quem a tinha na cama e nos  braos era ele. "Toca a aproveitar,
que a vida  curta!'! Estreitou Roberta contra o peito, e ela lhe deu um
beijo misturado com um gemido, um beijo 
  153
  profundo em que sua lngua lhe entrou pela boca como um reptil. Rodrigo
esqueceu o resto do mundo. Por alguns instantes ficou como que fora do
tempo e do espao numa  convulsiva dimenso de nsia e gozo.
  Eram duas da manh quando tornou a saltar para a calada. Caa um
chuvisqueiro frio que parecia penetrar at os ossos. Ergueu a gola do
sobretudo de gabardina, puxou  a aba do chapu sobre os olhos, enfiou as
mos nos bolsos e, encolhido, voltou para casa.
  Quando entrou no quarto de dormir, encontrou a luz acesa e Flora ainda
acordada.
  - Onde estiveste? - perguntou ela, que no o via desde o princpio da
tarde.
  - Em Flexilha, passando as tropas em revista. Soerguida na cama, ela o
mirou longamente com olhos tristes,
  sem dizer palavra.
  - Por que no dormes, minha flor?
  - Perdi o sono. Estou nervosa.
  - J te disse que no tens razo, filha. Isso no vai ser uma revoluo,
mas um passeio. O pas inteiro est conosco.
  Flora tornou a estender-se na cama, de costas, e ficou a olhar o teto,
os olhos muito abertos e parados.
  - E se o movimento fracassar? - perguntou.
  Rodrigo despia-se devagarinho, cheirando furtivo as mos e as roupas,
para verificar se ainda trazia consigo o cheiro de Roberta.
  - No fracassa. Fica descansada.
  - E se vencer?
  - Marcharemos sobre o Rio. As tropas do Juarez Tvora descero do norte.
Os dias do Washington Lus esto contados.
  - Sim, mas que  que vai nos acontecer se a revoluo triunfar?
  Ele acabou de vestir o pijama, sentou-se na cama, tomou carinhosamente
da mo da mulher e perguntou-lhe:
  - Que tal se fssemos morar no Rio?
  - Deus nos livre!
  - Por que, meu bem?
  - Tenho horror de cidade grande.
  154
  - Mas Santa F  o fim do mundo. No podemos passar aqui o resto de
nossa vida.
  Como nica resposta ela cerrou os olhos. Rodrigo deitou-se a seu lado,
sem soltar-lhe a mo.
  - As crianas tero mais oportunidade para se educarem - disse, com voz
suave e persuasiva. - Eu terei horizontes mais largos. E tu levars uma
vida mais fcil e  mais divertida. Para principiar, no iremos morar num
casaro deste tamanho, com esse batalho de criadas...
  Flora continuava calada e imvel. Agora Rodrigo ouvia em surdina uma
msica que vinha da gua-furtada. Olhou para o relgio e disse, numa
sbita irritao:
  - Quase duas e meia e o Floriano ainda no foi dormir.
  - Deixa o menino em paz. Ele tambm tem os seus problemas.
  Por que teria Flora usado a palavra tambm?
  - Mas no so horas de tocar msica. Pode acordar os outros...
  - Isso  o que menos me preocupa - murmurou ela, os olhos sempre
cerrados. - H coisas muito mais srias.
  Rodrigo temeu perguntar a que coisas se referia ela. Largou-lhe a mo e
cruzou os braos sobre o peito.
  Trs de outubro - pensou. - Nove da noite. Que msica seria aquela? A
Herica? Ou a Quinta? Por que o rapaz no ia para a cama? Padeceria de
insnias? Por que vivia  sempre fechado naquela gua-furtada?
  Veio-lhe ento a idia de levar Floriano consigo no ataque ao quartel.
Claro! Tinha dezenove anos, era j tempo de pr  prova sua hombridade.
Estava resolvido.  Levaria o filho. Como seu ajudante-de-ordens. Sorriu.
Aquilo ia erguer-lhe o moral...
  Decidiu, porm, no contar nada a Flora, pois estava certo de que ela se
oporia histericamente  idia.
  Rebolcou-se, procurando uma posio mais cmoda. Cerrou os olhos e
sentiu que no lhe ia ser fcil dormir aquela noite. Ficou escutando a
msica. Agora tinha a certeza:  era a Herica. Ou seria a Quinta?
  155
  15
  O dia 3 de outubro amanheceu nublado e frio. Floriano, que passara uma
noite maldormida, com sonhos aflitivos, subiu para a gua-furtada s dez
horas, encolhido  dentro do sobretudo. Pegou um livro, tentou ler mas
no conseguiu. Tinha a ateno vaga, a cabea como que oca, a viso
perturbada. Olhou para a vitrola e sentiu  imediatamente que num dia
como aquele nem a msica lhe saberia bem. Estendeu-se no div e ficou a
olhar para as tbuas do teto. L estavam as manchas familiares  na
madeira: o pagode chins... o rio com sua ilha alongada... a cabea do
beduno... o morcego de asas abertas.
  A luz que entrava pelas vidraas - lembrou-se ele - era gris e fria como
a que alumiava o mausolu dos Cambars no dia em que Alicinha fora
sepultada.
  Silncio no casaro. Silncio na cidade. Floriano encolheu-se, ficando
na posio fetal, e o frio que sentia estava mais nos ossos que na
epiderme. Era como se ele  fosse uma casa cheia de frinchas nas paredes
por onde a umidade e a tristeza do dia se infiltrassem. Oprimia-o uma
premonio de desgraa prxima. Sabia que a revoluo  ia rebentar
aquela noite, e que o pai comandaria o ataque ao quartel de Artilharia.
Ouvira o Velho tranqilizar as mulheres da casa: "No se impressionem,
eu j  disse. Os sargentos e a tropa esto todos conosco. Podemos tomar
o quartel sem disparar um tiro".
  Mas quem podia ter a certeza absoluta daquilo?
  Ouviu passos na escada. Olmira? No. As pisadas da caboclinha eram leves
como as duma gata. A porta abriu-se. O pai! Floriano distendeu
bruscamente as pernas, como  que sob a ao dum choque eltrico. Fez
meno de erguer-se, mas Rodrigo deteve-o com um gesto.
  - Fica deitado. Preciso conversar contigo...
  Sentou-se na cadeira de vime, ao lado da mesinha sobre a qual estava o
fongrafo.
  156
  - Hoje ao entardecer o movimento revolucionrio vai ser iniciado em
Porto Alegre, inapelavelmente, e esta noite s nove revoltaremos a
guarnio federal de Santa  F.
  O rapaz continuou calado. O pai perguntou:
  - Com quantos anos ests?
  Se ele sabe - pensou Floriano - por que pergunta? Teve a sbita intuio
do que ia acontecer, e seu corao disparou.
  - Dezenove...
  - Bom, quase vinte. Escuta. No ignoras que no Rio Grande nenhum homem
digno desse nome pode passar a vida em branca nuvem. Mais tarde ou mais
cedo tem de se submeter  ao batismo de fogo... Acho que tua hora chegou.
  Fez uma pausa durante a qual procurou ler no rosto do interlocutor o
efeito de suas palavras. O filho estava plido. Seria possvel que Deus
lhe tivesse dado o desgosto  de ser pai dum covarde?
  Floriano esforava-se por no deixar transparecer na cara o que estava
sentindo, mas temia que as batidas desordenadas de seu corao o
trassem.
  Com voz clara e escandindo bem as slabas, Rodrigo prosseguiu:
  - Quero que estejas a meu lado quando atacarmos esta noite o Regimento
de Artilharia.
  Floriano soergueu-se, atirou as pernas para fora do div. Teve mpetos
de gritar: "No! No! No!" No tinha nada com aquela revoluo. No
tinha nada com o pai.  No tinha nada com ningum. Por que no o
deixavam em paz? Detestava a violncia. No pertencia quele mundo de
brbaros.
  Rodrigo tirou do bolso um revlver.
  - J atiraste alguma vez?
  Floriano fez com a cabea um sinal afirmativo. Lembrou-se de que duma
feita no Angico dera tiros ao alvo com seu tio Torbio. Surpreendera-se
da preciso da prpria  pontaria e horrorizara-se ao pensar em que um
dia, em vez de estar furando a tiros latas de querosene vazias, pudesse
alvejar seres humanos.
  157
  Rodrigo colocou a arma em cima da mesinha, junto com uma caixa de balas.
Ergueu-se e acendeu um cigarro.
  - Te agrada a idia? - perguntou, soltando com as palavras a primeira
baforada de fumaa.
  - No...
  O pai mirou-o um instante num silncio irritado. No lhe bastava amar o
filho: precisava de motivos para orgulhar-se dele. Agradava-lhe a idia
de que o rapaz se  parecesse com ele fisicamente, mas exasperava-se por
v-lo to diferente em matria de temperamento.
  - O filho mais moo do Juquinha Macedo pediu, ests ouvindo? pediu ao
pai para ir com ele no ataque desta noite. E sabes quantos anos tem?
Dezessete.
  Floriano olhava perdidamente para as botinas do pai. Uma espcie de
nusea comeava a contrair-lhe o estmago. Como a sensao de medo se
parecia com a de fome!
  Rodrigo caminhou at a janela, lanou um olhar distrado para fora e
depois tornou a aproximar-se do filho.
  - Afinal de contas, que  que queres?
  Floriano estava a ponto de chorar, mas a idia de dar essa demonstrao
de fraqueza lhe era to desagradvel e deprimente que, num esforo
supremo, ergueu-se de  olhos secos e encarou o pai:
  - Quero viver a minha vida.
  - Mas pensas que podes passar todo o tempo trancafiado neste cubculo?
  Segurou o rapaz pelos ombros e sacudiu-o:
  - Reage, Floriano, reage antes que seja tarde demais! No me ds motivos
para pensar que meu filho  um poltro. E eu sei que no s!
  Vendo aquela cara lvida e contrada (que de certo modo era a sua
prpria), ele se descobria a sentir pelo filho um misto de compaixo,
amor e dio. Sim, era possvel  haver dentro do amor um ncleo duro de
dio, como o caroo no mago dum fruto.
  - Vais ou no vais comigo?
  158
  - Vou! - exclamou Floriano, como se cuspisse a palavra. E de sbito se
surpreendeu a odiar o pai, a desejar morrer no ataque para que ele
viesse a ter remorsos de  sua morte.
  - Est bem. Agora presta ateno. Tua me no deve saber nada, at o
ltimo momento. No contes a ela nem  Dinda nem a ningum o que
acabamos de conversar. Quando  chegar a hora, agasalha-te bem, pe no
bolso do sobretudo o revlver e a caixa de balas. Sairemos de casa s
oito e meia em ponto.
  16
  s primeiras horas da tarde chegou um prprio a Santa F trazendo um
bilhete de Torbio. Estava tudo em ordem: comeariam o cerco do quartel
do Regimento de Infantaria  s oito da noite. Tinham oitocentos e poucos
homens bem armados. O bilhete terminava com uma fanfarronada. Queira
Deus que haja resistncia. Tomar o quartel sem  dar um tiro no tem
graa.
  Chiru Mena apareceu no Sobrado de culotes de brim caqui, botas de cano
alto, leno vermelho no pescoo, todo envolto num poncho por baixo do
qual escondia a pistola  Nagant e um faco. Jos Lrio veio tambm
"paramentado" receber ordens.
  - Liroca velho de guerra! - exclamou Rodrigo. - Tu vais comigo.
Revoluo sem a tua presena no  bem revoluo.
  O veterano estava triste. Acabara de saber da morte recentssima de
Honrio Lemes.
  - Logo nesta hora! - lamentou ele. - O Leo do Caver podia estar com a
gente nesta campanha. - Soltou um suspiro. - Vou dedicar  memria dele
o primeiro tirinho  que der.
  Ficaram os amigos a beber e a conversar no escritrio por algum tempo.
Por volta das quatro horas, Terncio Prates chegou ao Sobrado com o
coronel Barradas, que  estava j metido no seu fardamento. Ficou
decidido que s nove da noite Terncio e seus homens ocupariam
militarmente a agncia dos Correios e Telgrafos, a usina  eltrica, a
companhia telefnica e a estao da estrada
  159
  de ferro. Neco Rosa ficaria encarregado do servio de ligao entre os
diversos corpos revolucionrios.
  Rodrigo no pde evitar um sentimento de indignao ao ver entrar-lhe
casa adentro, sem ser convidado, o Amintas Camacho, todo uniformizado,
de talabarte e botas  reluzentes, espada  cinta, gales de major nas
ombreiras. No se conteve e gritou:
  - Quem foi que lhe deu esse posto? O outro pareceu espantado.
  - Ora, doutor! - defendeu-se. - Era o que eu tinha na revoluo passada.
  O coronel Barradas interveio para evitar que a discusso se azedasse.
  - Depois resolveremos esses pormenores. O que importa agora  tomar
conta da praa.
  E aquele homem de ar tmido, aquele coronel reformado, agora de novo
dentro duma farda, como que readquiria sua postura militar, renascia,
sua voz ganhava um metal  autoritrio, o busto se empertigava.
  Fora caa um chuvisqueiro frio.
  De olhos avermelhados, Flora andava pela casa como uma alma penada, e de
quando em quando ia ajoelhar-se ao p do oratrio, onde desde a manh
havia velas acesas.  As crianas, que aquele dia no tinham ido ao
colgio, andavam tambm meio perdidas pela casa. Rodrigo notou que Jango
o rondava com um ar de guaipeca em busca dum  dono.
  - Que  que queres? - perguntou.
  - Posso ir tambm?
  - Ir aonde?
  - Na revoluo.
  Rodrigo mordeu o cigarro, sorriu, passou a mo pela cabea do rapaz,
pensando: "Ao menos este..."
  - No, meu filho.  muito cedo. Espera, que teu dia h de chegar.
  Naquele momento, Rodrigo deu com outra figura ali na sala, a mir-lo com
olhos amorosos e tristonhos.
  - Slvia, minha querida, que  que tens?
  160
  - Nada - murmurou a menina. E aproximando-se do padrinho, tomou-lhe da
mo e beijou-a. Rodrigo sentiu um aperto na garganta, acariciou a cabea
da menina, depois  ergueu-a nos braos e beijou-lhe as faces,
lembrando-se da filha morta.
  Bibi e Eduardo tambm o observavam de longe, ariscos, como se ele fosse
um estranho. Todos sabiam que aquela noite papai ia para a guerra.
  Maria Valria, entretanto, durante todo o dia abstivera-se de fazer
qualquer referncia, direta ou indireta, ao "assunto". Continuava a dar
ordens s chinas da cozinha,  a cuja porta de quando em quando assomava
Laurinda que, com os seus olhos sujos de peixe morto, ficava a olhar
para o patro com uma dolorosa expresso de pena,  como se j estivesse
vendo seu cadver.
  A Dinda l estava agora ao p do fogo, mexendo com uma colher de pau
num tacho de doce de abbora. Era a sua maneira de reagir a mais uma
revoluo.
  Cerca das cinco da tarde, quando os companheiros tinham todos partido
para seus postos, Rodrigo deixou-se ficar no escritrio, inquieto, a
desejar que o tempo passasse  depressa. Depois comeou a andar pela
casa, evitando olhar de frente para a mulher. Ia do escritrio para a
sala de visitas, mirava o prprio retrato, entrava na  sala de jantar,
postava-se na frente do relgio grande, seguia com os olhos por alguns
instantes o movimento do pndulo, lembrando-se de outras esperas
angustiosas  do passado.
  E se o movimento fracassar? E se o assalto ao quartel militar da regio
de Porto Alegre for repelido? Sim, e se os sargentos dos regimentos de
Santa F no conseguissem  revoltar a tropa? Claro, nesse caso os civis
teriam de lutar, mas com uma tremenda inferioridade numrica e de
armamento. O remdio seria sarem para a coxilha,  para livrar a cidade
do perigo do bombardeio. Mas no! O movimento estava bem articulado, no
podia falhar... Era preciso ser otimista.
  Naquelas duas ltimas horas fumava um cigarro em cima do outro.
Aproximou-se da janela, encostou a testa na vidraa, e olhou para fora.
Continuava a chuva, agora  mais forte. O cho da praa estava juncado de
flores de cinamomo. Pensou em Torbio que
  161
  naquele instante devia estar marchando sobre a cidade, na intemprie...
De sbito a imagem de Roberta Ladrio ocupou-lhe a mente. Se pudesse
passar o resto da tarde  com ela... Agora lhe ocorria que poderia
lev-la para a casa do Bandeira. Naturalmente! Como era que a idia no
lhe havia ocorrido antes? O covil do tio Bicho era  o lugar indicado.
Mas qual!... Tarde demais!
  Olhou para a cpula da Intendncia. Que estava fazendo ele ali no
escritrio sozinho? Vestiu a capa, botou o chapu e saiu. A Intendncia
estava em p de guerra,  com o saguo cheio de soldados, numa mistura de
lenos vermelhos, brancos e verdes. Com seus ponchos molhados, suas
botas embarradas, os legionrios conversavam,  fumavam e mateavam.
Rodrigo subiu as escadas, respondendo vagamente a cumprimentos e
continncias. No primeiro patamar o busto do dr. Borges de Medeiros
mirou-o  com seus olhos vazios de bronze. Rodrigo lembrou-se daquele dia
de maio de 1923 quando ele e seus homens haviam atacado Santa F e
tomado a cidadela do Madruga.  Fale-se no mau e apronte-se o pau.
Encontrou o ex-intendente no segundo patamar. Rosnaram cumprimentos sem
se olharem. Rodrigo entrou no seu gabinete de trabalho,  pegou o
telefone e pediu uma ligao para o telgrafo federal.
  - Alo? Fala aqui o dr. Rodrigo. Faa o favor de chamar o Chiru Mena. -
Uma pausa. - Al! Chiru? Nada de novo ainda?
  - Ainda  cedo - respondeu o amigo. - Faltam vinte e cinco minutos pra
festa comear.
  - No arredes p da. Logo que vier a notcia, telefona pra
  ca.
  Reps o fone no gancho, e ficou sentado a olhar para o retrato do
Patriarca, e a tamborilar com os dedos sobre a mesa, acompanhando a
remota orquestra que dentro  de seu crnio tocava o Lom du bal.
  17
  Havia anoitecido, e Floriano continuava na gua-furtada estendido no
div. Estava gelado, com a impresso de que a garganta
  162
  se lhe havia fechado e uma garra lhe apertava o diafragma. No tinha a
menor dvida. Era um medo subterrneo que lhe convulsionava as tripas,
lhe amolecia os membros  e a vontade. Passara toda a tarde numa agonia,
a ouvir o relgio bater as horas. Pela sua cabea conturbada haviam
cruzado milhares de pensamentos, planos, estratagemas,  resolues...
Fugir... Suicidar-se... Contar tudo  me e suplicar-lhe que no
deixasse o pai lev-lo... Enfrentar o pai, negar-se... Resignar-se,
marchar com os  outros, dominar os nervos, lutar, mostrar que tambm era
homem... Tudo isso, porm, era vago, inconsistente, efmero. S havia
uma realidade implacvel: o seu medo.  Envergonhava-se dele, e achava-se
mais covarde ainda por no ter coragem de aceitar o prprio medo e
proclam-lo ao mundo inteiro, us-lo como uma espcie de smbolo  - por
mais grotesca, triste e desprezvel que pudesse parecer - da sua maneira
de sentir, de viver, de ser...
  Sempre se considerara uma pea solta na engrenagem do Sobrado, de Santa
F, do Rio Grande. Era o habitante solitrio dum mundo criado pela sua
prpria imaginao  e no qual se asilava para fugir a tudo quanto no
outro, no real, lhe era desagradvel, difcil, desinteressante ou
ameaador. Mas agora via como era frgil o seu  universo de
faz-de-conta: apenas uma irisada bolha de sabo...
  Remexeu-se, ficou deitado de bruos, como para apertar o medo contra o
div. Ficou ouvindo o pulsar do prprio sangue, os olhos semicerrados
mas no tanto que no  pudesse entrever o brilho mortio do revlver em
cima da mesinha...
  s seis e meia Olmira esgueirou-se para dentro da gua-furtada
  e disse:
  - Est na mesa. Dona Flora mandou chamar...
  - Estou sem fome.
  A chinoca saiu mas voltou pouco depois.
  - O doutor disse pr senhor descer duma vez!
  Floriano no teve outro remdio seno obedecer. Decidiu salvar as
aparncias. O menos que podia fazer era no deixar que os outros
percebessem que ele estava apavorado.
  163
  Quando entrou na sala de jantar a famlia j se achava  mesa. Sentou-se
no seu lugar, sem olhar para ningum, e desdobrou o guardanapo,
esforando-se por dominar  o tremor das mos.
  A uma das cabeceiras, o pai comia com uma pressa e uma voracidade
nervosas. Na outra, a Dinda tinha diante de si a terrina fumegante.
  - Passe o prato, Floriano - pediu ela.
  Poucos segundos depois o rapaz remexia a sopa com a colher, distrado.
  - No comes, Flora? - perguntou Rodrigo estendendo o brao e pousando
sua mo sobre a da mulher.
  - No estou com fome.
  - Minha flor? eu j te disse que tudo vai acabar bem. Uma passeata.
Aposto como no vamos disparar um tiro...
  Voltou-se para o filho e contou:
  - Chegou h pouco um telegrama de Porto Alegre. O quartel-general
encontra-se em poder dos revolucionrios e o comandante da regio est
preso. O arsenal de guerra  caiu quase sem resistncia. Nossos
companheiros esto agora atacando o 7 B. C. onde a revolta interna
fracassou. Mas a rendio do quartel  questo de horas. A  capital est
em poder dos revolucionrios e o entusiasmo popular  indescritvel!
  Floriano levou uma colherada de sopa  boca e teve a impresso de que
no a poderia engolir.
  - So coisas como essa - disse Rodrigo, sorrindo - que me fazem ter
entusiasmo pelo Rio Grande. Os chefes da revoluo no ficaram em casa
dirigindo o movimento  pelo telefone. O ataque ao quartel-general foi
conduzido pelo Oswaldo Aranha e pelo Flores da Cunha. Caminharam sob a
metralha de peito descoberto  frente dos soldados  da Guarda Civil
comandados pelo coronel Barcellos Feio. O Flores estava fardado de
general, tinha na mo apenas um pinguelim. O Oswaldo Aranha nem sequer
tirou o  revlver que levava na cintura. Trs de seus irmos estavam a
seu lado.
  Rodrigo fez uma pausa e olhou significativamente para Floriano:
  - Trs filhos do Flores da Cunha seguiram o pai. O mais moo deles tem
apenas vinte anos!
  Olmira entrou trazendo travessas fumegantes Maria Valria comeou a
servir o sobrinho.
  - Quer de tudo?
  - Quero.
  Rodrigo ps-se a comer com um apetite de que ele prprio se surpreendia.
Floriano observava-o com uma inveja irritada.
  - Floriano! - exclamou a velha. - Est surdo? Quer de tudo?
  - No quero mais nada.
  Rodrigo achou que chegara a oportunidade de fazer a revelao. Mas era
preciso no atribuir nenhuma importncia excepcional ao fato: devia dar
 coisa um tom de  brincadeira esportiva, para que as mulheres no se
alarmassem.
  - Coma, meu filho - disse. - Um guerreiro precisa alimentar-se antes de
entrar em ao.
  Nesse momento os olhares de Flora e os do filho se encontraram. Floriano
leu pnico nos olhos da me, que voltou a cabea vivamente para o
marido, a boca entreaberta,  a testa franzida, os lbios trmulos, como
a perguntar-lhe se a coisa horrenda de que suspeitava era mesmo verdade.
  - O Floriano vai tambm tomar parte no assalto ao Regimento de
Artilharia. No h razo para alvoroo. Chegou a hora de ele provar que
 homem.
  - Rodrigo! - gritou Flora. - Que tu te metas nessa... nessa loucura eu
compreendo. No  a primeira vez. Mas que queiras tambm arriscar a vida
do teu filho... eu...  eu...
  No pde terminar a frase. Havia agora em seu rosto uma tamanha
expresso de revolta que Floriano pensou que ela fosse agredir
fisicamente o marido.
  - Calma, Flora - disse esse ltimo, tambm surpreendido.
  - Como  que vou ter calma se queres matar o meu filho? As narinas de
Rodrigo palpitaram, um brilho duro lhe veio
  aos olhos.
  164
  165
  - Eu no quero matar o teu filho, mulher! Quero fazer dele um homem,
ests ouvindo? Um homem!
  Flora voltou a cabea para Maria Valria:
  - Dinda, diga alguma coisa!
  A velha, imperturbvel, continuou a servir as crianas, que estavam
todas caladas e atentas  conversa. Depois dum curto silncio, disse:
  - Quem tem de resolver essa questo no sou eu, nem vac, nem mesmo o
Rodrigo. Quem resolve se vai ou no,  o Floriano. Se o pai acha que o
rapaz est em idade  de brigar  porque acha tambm que ele est em
idade de se governar.
  Flora olhou para o filho. Rodrigo fez o mesmo. Todos os olhares
concentraram-se em Floriano, que cortava o seu bife, a cabea baixa.
Como ele nada dissesse, o pai  perguntou:
  - Queres ou no queres ir?
  Sem erguer os olhos ele respondeu:
  - Quero.
  Era estranho, mas a fria com que a me o defendera lhe dera a
constrangedora sensao de ser ainda um pobre menino fraco e
desamparado, e isso era deprimente. Depois,  no queria passar por
covarde aos olhos dos irmos, cuja admirao ele tanto buscava e
prezava.
  Flora ergueu-se bruscamente, levou ambas as mos ao rosto e, rompendo a
chorar, saiu precipitadamente da sala.
  - Passe o prato, Jango - disse Maria Valria.
  Floriano olhou para o relgio, que comeara a bater a hora. Levou um
naco de bife  boca e teve a impresso de que ia mastigar a prpria
carne.
  18
  Rodrigo acendeu sua lanterna eltrica, fazendo incidir o feixe luminoso
sobre o mostrador de seu relgio de pulso. Oito e cinqenta. Estava de
p atrs dum barranco,  junto da linha frrea, a uns duzentos metros da
fachada do quartel do Regimento de 
  166
  artilharia. Apenas duas das vinte e quatro janelas do casaro acachapado e
sombrio estavam iluminadas. Rodrigo avistava nitidamente a guarita da
sentinela, mas no  via sinal de vida nela ou ao seu redor.
  Do cu baixo e pesado de nuvens escuras continuava a cair uma garoa fina
e fria. O ar estava parado, e um silncio mido e emoliente envolvia
todas as coisas.
  Um vulto aproximou-se. Rodrigo reconheceu Chiru Mena, que lhe vinha
dizer que acabava de fazer a p toda a volta do quartel. As tropas
revolucionrias haviam tomado  posio, de acordo com o plano
preestabelecido.
  - Um traguinho?
  Tirando de baixo do poncho uma garrafa, Chiru desarrolhou-a e entregou-a
ao amigo.
  - Que  isto?
  - Cachaa com mel.
  - Vem do cu. Estou gelado.
  Levou o gargalo  boca, empinou a garrafa, bebeu um gole largo.
  - Isto  to importante como munio - murmurou Chiru, tornando a
arrolhar a garrafa que o outro lhe devolvera.
  - Onde est o Floriano?
  - Perto do automvel.
  Rodrigo voltou a cabea e avistou ao p da caixa-d'gua o Ford que os
havia trazido da Intendncia at ali. Longe, l embaixo, piscavam em
meio da garoa as luzes  amortecidas da cidade.
  Recostado contra o pra-lama do carro, as mos nos bolsos, encolhido
dentro da capa de chuva, Floriano olhava fixamente para a fachada do
quartel. Sentado atrs  do guidom, Bento picava fumo para um crioulo.
  - Por que no vem pra dentro do auto? - perguntou o caboclo. - Est
tomando chuva  toa.
  Floriano fez que no com um movimento de cabea. J que o haviam metido
contra sua vontade naquela aventura estpida, recusava confortos e
privilgios. Sentia-se  tomado dum esquisito, absurdo desejo de
martirizar-se, transformar-se numa vtima. A 
  167
  garoa borrifava-lhe a cara, deixando-a como que eterizada. Entrava-lhe
pelas narinas num cheiro de terra e grama molhadas. Sob a sola dos
sapatos sentia o barro viscoso  e pegajoso como goma-arbica. Tinha a
desconbrtante impresso de que a umidade lhe subia pelas pernas,
anestesiava-lhe o sexo, entrava-lhe pelo nus, gelando-lhe  as tripas.
  Liroca aproximou-se dele sem dizer palavra. Limitou-se a pousar-lhe a
mo no ombro e ficou nessa posio durante alguns segundos, como para
confort-lo, numa solidariedade  de poltro para poltro. Depois
murmurou: "No h de ser nada" e foi pedir fogo ao Bento, que nesse
instante acendia o seu cigarro. Ficaram ambos a pitar e a conversar  em
voz baixa.
  Vultos moviam-se nas sombras. Num deles Floriano reconheceu o pai, que
se acercava, dizendo:
  - Vamos esperar dentro do automvel. Venha, Liroca, essa umidade vai lhe
fazer mal ao peito. - Rodrigo entrou no carro. E como Floriano
permanecesse imvel, ordenou:  - Entra, rapaz.
  - Estou bem aqui - respondeu o filho. Queria apanhar uma pneumonia,
arder em febre, morrer. E por antecipao atirava o prprio cadver nos
braos do pai, para que  ele sentisse o remorso de hav-lo assassinado.
  Sem dizer mais palavra, Rodrigo sentou-se no banco traseiro e acendeu
tambm um cigarro. Minutos depois tornou a olhar o relgio  luz da
lanterna.
  - Quase nove horas e no vejo nenhum sinal de vida l dentro...
  - No  nada - disse Chiru que, do lado de fora, acabava de debruar-se
numa das janelas do carro. - s vezes acontece um imprevisto.
  - Mundo velho sem porteira! - suspirou o Liroca. E bateu o isqueiro para
reacender o cigarro.
  Ouviram-se naquele momento, vindas do quartel, trs detonaes
sucessivas, seguidas dum silncio. Rodrigo saltou do automvel de
revlver em punho. Chiru seguiu-o,  exclamando: "Comeou a bacanal!" A
tremedeira tomou conta do corpo de Jos Lrio.
  168
  Os dois amigos aproximaram-se do barranco e olharam para o quartel.
  - Acho que vamos ter de entrar em ao, Chiru.
  - Pois estimo!
  O silncio continuou por alguns minutos. Rodrigo sem sentir tinha
encostado a boca no barranco e agora mordia a terra.
  - Vou atacar imediatamente - disse, cuspindo barro. Mas naquele exato
momento abriu-se o porto do quartel e
  apareceram as luzes do ptio interno, de onde emergiu um vulto que se
precipitou em marcha acelerada declive abaixo. A meio caminho, estacou,
voltou a cabea dum  lado para outro, como a procurar alguma coisa.
  Rodrigo escalou o barranco e deu alguns passos  frente, gritando:
  - Sargento Bocanegra!
  - D r. Rodrigo!
  Aproximaram-se um do outro. O sargento estava encapotado mas de cabea
descoberta, e trazia uma Parabellum na mo.
  - A tropa est revoltada - disse ele, arquejante. - A oficialidade presa
na sala do comando. Mas aconteceu uma desgraa.
  - Que foi?
  - O sargento Sertrio est gravemente ferido. Balao no ventre.
  - Quem foi?
  - O canalha do Quaresma.
  - Mas como? Como?
  - Ao receber ordem de priso, fez fogo, fugiu para a sala da guarda e
fechou-se l dentro. Eu quis liquidar o assunto atirando pela janela uma
granada de mo, mas  os colegas no concordaram. No por causa do porco
do Quaresma, mas por causa do cachorro dele, que tambm est l dentro.
  - Eu resolvo isso em dois tempos - garantiu Rodrigo. - Deixem o alagoano
por minha conta. Chiru, volta e d a notcia  nossa gente. Diga que
fiquem onde esto,  aguardando ordens.
  Voltou a cabea e gritou:
  - Floriano!
  Surpreendeu-se de ver o filho apenas a dois metros de onde ele estava. O
rapaz havia-o seguido espontaneamente. Isso o alegrou.
  - Vem!
  Encaminharam-se os trs a passo acelerado na direo do porto central
do quartel.
  - O tenente se entrega - disse Rodrigo. -  questo de tempo. E de
habilidade. Temos de pegar o homem vivo.
  - O senhor no me compreendeu, doutor - replicou Bocanegra. - No
estamos interessados em poupar o tenente, mas o cachorro. Quando o
Quaresma sair l de dentro acabamos  com a vida dele.
  Rodrigo estacou, brusco, segurou o brao do outro e disse:
  - Se ele se entregar e sair desarmado da sala vocs no tm o direito de
mat-lo.
  - O crpula atirou num companheiro nosso. O Sertrio no se salva...
  -  a guerra.
  - Mas ele atirou de mau. Sabia que estava perdido. Por que no se
entregou, como os outros oficiais?
  - Seja como for, uma coisa quero deixar bem clara. No me meti nesta
revoluo pelo prazer de matar ou levar a cabo vingancinhas.
Comprometo-me a tirar o Bernardo  l de dentro sem dar um tiro. Mas
preciso que voc e todos os seus colegas me garantam, sob palavra de
honra, que respeitaro a vida do tenente e que ele ser tratado  como um
prisioneiro de guerra.
  Mesmo na penumbra Rodrigo podia sentir a dureza metlica do olhar do
outro. Fez-se um silncio difcil. Por fim o sargento falou:
  - Est bem. Mas o senhor vai perder o seu tempo. Retomaram a marcha.
Floriano seguia-os a pequena distncia.
  O corao batia-lhe descompassado, ardia-lhe a garganta a ponto de
sufoc-lo. No - conclua ele - no podia ter mais medo. O quartel
estava em poder dos revolucionrios.  No haveria tiroteio. Estava certo
de que seu pai conseguiria persuadir o tenente a render-se. Mas
perturbava-o agora a idia de que aquele alagoano cordial e brincalho
tivesse sido forado a alvejar um companheiro de
  170
  armas. Isso o enchia duma tristeza que era ao mesmo tempo um vago horror
 espcie humana.
  Entraram no quartel. O ptio era um amplo quadrngulo calado de pedras,
flanqueado por arcadas,  feio de claustro. Do teto dessas arcadas
pendiam, a intervalos  regulares, lmpadas eltricas que despediam uma
luz amarelenta e lbrega, que se refletia no pavimento molhado.
  Rodrigo e Floriano apertaram a mo dos quatro sargentos que ali os
aguardavam. Bocanegra apontou na direo duma janela.
  -  a sala da guarda. O bandido est l dentro. Para azar nosso estava
de ronda na hora do levante.
  Rodrigo acendeu um cigarro, sem ter conscincia muito ntida do gesto.
  - Vamos fazer uma coisa... - sugeriu. - Vocs me do dez minutos. Vou
usar da persuaso para tirar aquele cabeudo l de dentro. Se eu
fracassar, lavo as mos e  entrego o caso a vocs. Faam o que
entenderem. Mas se ele vier s boas, notem bem, se vier s boas serei eu
o seu fiador e exijo que o tratem com dignidade.
  Bocanegra consultou os colegas. Todos concordaram com a proposta.
  - Onde esto os soldados? - indagou Rodrigo estranhando a solido e o
silncio.
  - Tiveram ordem nossa de permanecer nos seus alojamentos.
  - Outra coisa: afastem-se daqui. Quero assumir a responsabilidade desta
operao. - Voltou-se para Floriano: - Vamos, meu filho. Vais me ajudar
a convencer aquele  idiota.
  Bocanegra e seus quatro companheiros esconderam-se atrs dos pilares das
arcadas, no lado oposto do ptio. Pai e filho aproximaram-se at uns dez
metros da janela  da sala da guarda. Rodrigo gritou:
  - Tenente Bernardo!
  Nenhuma resposta. S se ouvia, vindo l de dentro, o rudo dos passos
inquietos do Retirante e o seu resfolgar aflito.
  - Tenente Bernardo Quaresma!
  Ouviu-se ento a voz do alagoano, desfigurada pela clera.
  - Quem ?
  - Sou eu, o teu amigo Rodrigo Cambar.
  - No tenho amigos - voltou a voz dura. - S minha pistola.
  - No sejas teimoso, Bernardo! O regimento aderiu  revoluo. A
oficialidade est toda presa. Entrega-te. Tua vida ser respeitada,
dou-te minha palavra de honra.
  - J disse que sargento no me prende. Nem civil.
  - No queremos derramar mais sangue.
  - Sou dono do meu sangue.
  - Mas no do sangue dos outros - replicou Rodrigo, j comeando a
agastar-se. E, mudando de tom, ordenou: - Saia pra fora desarmado, com
os braos erguidos!
  Floriano escutava, a poucos metros do pai, com a mo direita metida no
bolso da capa e crispada sobre o cabo do revlver. Aquele dilogo ali no
ptio sob a chuva  fria tinha algo de irreal.
  - Quem tem vergonha na cara no faz revoluo! - gritou o tenente.
  Rodrigo sentiu o sangue subir-lhe  cabea. Seu cigarro se havia apagado
mas ele o mantinha colado no lbio inferior.
  - Ento sai para fora, nanico, que eu quero te quebrar essa cara!
  - No me provoque, doutor, no me provoque!
  - Te dou trs minutos. Se no sares, entrego o caso aos sargentos e
eles te arrebentam a dentro com granadas de mo.
  Rodrigo cuspiu fora o cigarro.
  Fez-Se um silncio. Floriano tinha o olhar fito na porta... Na porta que
se abriu de repente, enquadrando a figura de Bernardo Quaresma. A luz
duma lmpada caiu-lhe  em cheio sobre a cabea descoberta. O tenente
tinha na mo uma Parabellum. Por trs dele negrejou o vulto do
Retirante, que saltava e gania, esforando-se por sair.  Quaresma,
porm, obrigou-o a recuar para dentro da sala, fechou a porta e
exclamou:
  Adeus, amigo velho! Esta briga  minha!
  - Larga a arma! - gritou Rodrigo.
  Como nica resposta Bernardo Quaresma fez fogo. Rodrigo sentiu como que
um coice no ombro esquerdo, perdeu 
  172
  momentaneamente o equilbrio e deixou cair o revlver. Pelo espao de alguns
segundos a surpresa e o choque o estontearam e imobilizaram. Encostado
na parede, a arma sempre  erguida, o tenente bradou:
  - Venham, gachos de merda!
  - Atira, meu filho! - berrou Rodrigo.
  Floriano tirou o revlver do bolso, mas no conseguiu erguer a mo.
Estava paralisado, como num pesadelo.
  - V embora, menino! - gritou-lhe Bernardo. - V embora! No quero te
matar.
  Os cinco sargentos, que ao primeiro tiro haviam deixado os esconderijos,
agora atravessavam o ptio a correr, de pistolas em punho. Rodrigo, que
conseguira agarrar  de novo o revlver, ergueuo, apontou-o para o
oficial e fez fogo. Largando a Parabellum, Bernardo levou ambas as mos
ao peito, no lugar onde a fazenda do dlm  comeou a tingir-se de
escuro. Seus joelhos se vergaram, mas ele no caiu de imediato, porque
os sargentos tinham rompido numa fuzilaria cerrada, e alguns de seus
balaos acertaram em cheio no corpo do tenente, que por alguns segundos
ficou como que pregado  parede pela violncia dos impactos - duas balas
vararam-lhe o peito,  duas entraram-lhe no baixo-ventre, uma quinta no
estmago - e foi lentamente escorregando e vertendo sangue, at ficar
estendido nas lajes, a estrebuchar. Bocanegra  aproximou-se dele e,
murmurando com voz apertada "Filho duma puta!", encostou-lhe o cano da
Parabellum na cabea e puxou o gatilho. Ouviu-se sob a arcada uma
detonao  que para Rodrigo foi a mais forte e terrvel de todas. Do
crnio que se partiu, saltaram pedaos de miolos, respingando as botas
do sargento. Dentro da sala o Retirante  soltava uivos desesperados.
  Floriano assistiu  cena atordoado, sem poder desviar os olhos da figura
de Quaresma. Deixou cair o revlver e, numa sbita nusea, apertou com
ambos os braos o  estmago, que se lhe contraa em espasmos to
violentos, que ele teve a agoniada sensao de que as vsceras iam
sair-lhe pela boca. Deu alguns passos, encostou  a cabea num dos
pilares da arcada e ali ficou encurvado sobre si mesmo, a vomitar um
lquido viscoso e amargo.
  173
  Os sargentos agora cercavam o morto, conversando em voz baixa. Rodrigo
ergueu-se. O brao lhe ardia como se algum lhe tivesse encostado na
carne um ferro em brasa.  O sangue continuava a escorrer-lhe ao longo do
brao imobilizado e por entre os dedos, pingando no cho. Exaltado, com
um confuso desejo de continuar o tiroteio,  aproximou-se do filho e
exclamou:
  - Por que no atiraste, covarde?
  Desferiu-lhe um pontap no traseiro, fazendo-o inteiriar o corpo:
  - Vai-te embora! - gritou. - Vai pra baixo das saias da tua me,
maricas! Vai, covarde! Vai, galinha! No s meu filho!
  Lvido, mal podendo arrastar as pernas, e sempre a babujar blis,
Floriano encaminhou-se para o porto central do quartel e precipitou-se
colina abaixo, na direo  da cidade...
  Rodrigo tinha ainda na mo o revlver. E quando viu Bocanegra
aproximar-se teve mpetos de meter-lhe uma bala entre aqueles olhos de
cobra. Quando o sargento lhe  segurou o brao, ele estremeceu, numa
sensao de repulsa.
  - O senhor est ferido, doutor!
  - No  nada.
  - Precisamos ver um mdico imediatamente.
  - J disse que no  nada.
  Mas Bocanegra arrastou-o consigo na direo da enfermaria. A garoa
continuava a cair.
  Quinze minutos depois Rodrigo tornou a encontrar-se com os sargentos
numa das salas do Cassino dos Oficiais. Trazia o brao em tipia, estava
plido e de olhos brilhantes.
  Quando Bocanegra lhe perguntou pelo ferimento, respondeu mal-humorado:
  - No tem nenhuma gravidade. No atingiu o osso. Tirou apenas um naco de
carne. - Com a mo que tinha livre apontou para o telefone. - Vamos
chamar o Regimento de  Infantaria...
  - No  necessrio - respondeu Bocanegra. - J chamei. O Taborda e os
companheiros dominaram facilmente a situao. O comandante da praa e os
oficiais esto todos  presos. O quartel se encontra em nosso poder.
  174
  
  Rodrigo leu uma alegria satnica no rosto do sargento.
  - Como vai o Sertrio? - perguntou, dirigindo-se aos outros
  Foi Bocanegra quem respondeu:
  - Morreu h cinco minutos.
  Tirou do bolso um leno e comeou a limpar as botas.
  19
  Rodrigo passou o resto daquela noite na agncia do telgrafo, em
conferncia com os chefes da revoluo em Porto Alegre, a beber caf
preto e a fumar incessantemente.  E enquanto o telegrafista, com os
olhos pesados de sono, recebia ou transmitia mensagens, ele se
comunicava pelo telefone com os dois regimentos locais e com o coronel
Barradas, que havia instalado seu quartel-general no edifcio da
Intendncia. Foi informado de que cerca de dois teros da oficialidade,
tanto de Infantaria como  de Artilharia, tinham resolvido aderir ao
movimento, e que os sargentos haviam sido promovidos a tenentes.
  Estava o dr. Rodrigo de acordo - perguntou-lhe o coronel Barradas - em
que se encarregasse o Juquinha Macedo do abastecimento das tropas? Claro
- respondeu ele.  - Qualquer um, menos o Madruga e o Amintas. E no
achava que o dr. Terncio Prates era o homem indicado para tomar conta
da agncia dos Correios e Telgrafos e da  companhia telefnica, ficando
inteiramente responsvel pelo setor das comunicaes? Ningum melhor que
ele! E a quem na sua opinio se devia entregar o policiamento  da
cidade?
  - Ao Neco Rosa - respondeu Rodrigo sem hesitar.
  S deixou a agncia do Telgrafo alta madrugada, depois que recebeu a
notcia da rendio do 7 Batalho de Caadores e que Oswaldo Aranha,
num telegrama dirigido  a ele, Rodrigo, pessoalmente, lhe comunicou que
a revoluo estava vitoriosa no somente em Porto Alegre como tambm no
resto do Estado.
  175
  Ao clarear do dia saiu da Intendncia, rumo do Sobrado. Estava j na
calada da praa quando Torbio veio ao seu encontro. Abraaram-se. O
guerrilheiro recendia  a cachaa. Tinha o poncho ensopado e as botas
embarradas.
  Apontou para o brao do irmo:
  - Ento o tenentinho te marcou na paleta, hein?
  - Uma porcaria de nada. Em trs dias estou bom.
  - Eu no te dizia que o Bernardo era macho? Conheo covarde pelo cheiro.
  Saram a caminhar lado a lado. O ar mido recendia liricamente a flor de
cinamomo. O cu comeava a clarear e, por entre as nuvens cor de chumbo
que o noroeste movia  no cu, apareciam nesgas dum lmpido azul de
turquesa.
  - Que misria! - exclamou Torbio. - Se todo o mundo continuar aderindo,
eu me passo pr lado do governo. Tomamos o quartel sem dar um tirinho!
  Rodrigo caminhava olhando para o cho, taciturno.
  - Pois eu preferia no ter dado o tiro que dei...
  - Se no atirasses, o Bernardo te matava.
  - Mas teria sido melhor se aquele cabeudo no tivesse resistido. Agora
vou ficar com esse remorso pelo resto da vida...
  - Remorso? Deixa de besteira. O homem foi fuzilado. Cinco pessoas, seis
contigo, atiraram nele. Quando muito sers scio nessa "empresa"... e
scio com uma quota  muito pequena: um miservel tiro. Os sargentos
descarregaram as pistolas em cima do alagoano.
  - Mas quem acertou nele primeiro fui eu. No peito... Acho que meu tiro
foi mortal.
  - Quem  que pode ter a certeza agora? Acho que no vais mandar
autopsiar o cadver...
  Entraram no Sobrado. Flora e Maria Valria os esperavam na sala.
  Estavam ambas de p junto da porta que dava para a sala de jantar, e ali
continuaram imveis e caladas, enquanto os homens se desembaraavam de
seus ponchos e armas.
  Rodrigo exibia o brao em tipia como uma condecorao. Esperava que as
mulheres fizessem algum gesto ou dissessem alguma
  palavra que traduzisse seu espanto ou sua pena. Nada disso, porm,
aconteceu. Ambas continuaram imperturbveis. E o senhor do Sobrado, que
contava com uma bela cena  - o guerreiro ferido volta ao lar, a mulher
encosta a cabea no seu peito para chorar -, ficou primeiro perplexo,
depois decepcionado e por fim irritado ante aquela  indiferena. E no
percebeu que de certo modo tirava a sua desforra quando disse:
  - Acho que j sabes do comportamento herico do teu filho... Portou-se
como um verdadeiro covarde. Se a coisa tivesse dependido s dele, a esta
hora eu estaria morto.   o que vocs ganham com esses mimos que do ao
Floriano. Toda a cidade decerto j sabe que o filho do dr. Rodrigo
Cambar  um poltro.
  As mulheres, porm, nada disseram nem fizeram. Derrotavamno aos poucos
com o seu silncio.
  Minutos depois Laurinda veio perguntar se os "meninos" queriam comer
alguma coisa.
  - Eu quero - respondeu Torbio. - Me faa um bife com ovos. Quatro ovos
fritos na banha. E um caf bem quente. O Chico j trouxe o po?
  Chico Pais apareceu pouco depois com um cesto cheio de pes frescos, um
susto nos olhos. Ficou impressionadssimo por ver Rodrigo com o brao em
tipia e a camisa  manchada de sangue. Quis saber detalhes da "batalha",
mas Rodrigo fez um gesto irritado e exclamou: "Ora no me amole!" e
meteu-se no escritrio, fechando a porta.  Estendeu-se no sof e cerrou
os olhos.
  Mataste o Bernardo. Mataste o Bernardo. Mataste o Bernardo. A cena
reproduziu-se contra o fundo de suas plpebras: o tenente com ambas as
mos no peito, o sangue  manando da ferida, manchando o dlm... Mas
quem atirou primeiro foi ele. Se o tiro me tivesse pegado no peito um
palmo  esquerda, me varava o corao... Legtima  defesa caracterizada.
Nenhum jri me poderia condenar em s justia. Mas isso no me
tranqiliza. Vou ficar com essa morte na conscincia. Conscincia? -
perguntou  tio Bicho, soltando uma risada. E l estava o gordo Bandeira
- fantasiou Rodrigo - sob as arcadas, olhando o tenente que estrebuchava
sobre as lajes, numa poa de  sangue. E o bandido do Bocanegra
  176
  177
  partira o crnio do pobre rapaz com uma bala. Por qu? Pura crueldade.
Estava claro, clarssimo que ele odiava o tenente. Queriam estraalhar o
alagoano com granadas  de mo. Bernardo estava condenado. Mas preferiu
ter morte de homem... E quase me mata, o patife. E quem vai provar que
meu tiro foi mortal? O Torbio tem razo:  Bernardo Quaresma foi
fuzilado por cinco sargentos. A noite passada morreram uns dez homens em
Porto Alegre no assalto ao quartel-general. Algum vai procurar
descobrir  quem os matou? As balas no trazem os nomes dos donos. Mas se
ao menos eu pudesse dormir, dormir, dormir... Seis, oito, dez, doze
horas. Depois... acordar e descobrir  que tudo foi um pesadelo. Mas no.
Aquilo tinha de acontecer. Estava escrito. Ningum faz revoluo com
balas de chocolate. Fiz o possvel para salvar a vida do  Bernardo.
Tenho a conscincia tranqila...
  Mas l estava a figura grotesca do tio Bicho, sob as arcadas, a olhar
para o cadver e a perguntar: "Afinal de contas, em nome de que ou de
quem morreu este moo?  E em nome de que ou de quem vocs o
assassinaram?" Mas no! Seria horrvel, monstruoso se tudo aquilo fosse
gratuito....
  Rodrigo sentia o pulsar do sangue nas fontes, a cabea lhe doa
surdamente, e uma espcie de... de qu? Dor no era... mas um certo
mal-estar localizado no crnio  acima dos olhos impedia-o de raciocinar
com clareza, de examinar a situao com pacincia e lucidez.
  Mataste o Bernardo. Mas ele atirou primeiro no sargento Sertrio.
Mataste o Bernardo. No, ele se suicidou. Est tudo bem. O melhor que
tenho a fazer  esquecer.   a guerra.
  Abriu os olhos. O sol da manh entrava pelas vidraas, dourando o teto
do escritrio. Rodrigo sentiu roncar-lhe o estmago vazio. Era estranho.
Precisava comer,  mas a simples idia de levar  boca qualquer alimento
lhe era repugnante. Sabia que no poderia esquecer os pedacinhos de
matria cinzenta que haviam esguichado  do crnio de Bernardo
Quaresma... Como tudo aquilo era estpido e gratuito! Sim, gratuito,
gratuito, gratuito! Ontem eram amigos, estavam de abraos e brinquedos
ali nas salas do Sobrado. Hoje...
  178
  Pensou em Roberta. quela hora ela j devia saber de tudo. Como reagiria
ao fato de ele, Rodrigo, ter participado do "fuzilamento" de Bernardo
Quaresma? Decidiu  no ver mais a professora. Nunca mais. Estava tudo
acabado. Mas o melhor mesmo seria dormir, fazer o pensamento parar.
Tornou a cerrar os olhos.
  A campainha do telefone tilintou. Rodrigo ps-se de p num salto.
Aproximou-se da escrivaninha, ergueu o fone do aparelho e encostou-o na
orelha:
  - Ol! Hein? Sim...  ele mesmo. - Alterou a voz, j irritado. -  o dr.
Rodrigo quem fala!... Quem? Ah! Que  que h, Chiru?
  A voz do amigo lhe chegava um pouco sumida:
  - Estou ainda no quartel de artilharia. Vo enterrar o tenente Bernardo
como um cachorro pesteado. Enrolaram o corpo num pano velho, atiraram
num caminho e vo  levar o coitado pr cemitrio sem encomendao nem
nada.
  - J saram?
  - Esto saindo agora.
  Rodrigo reps o fone no lugar e correu para a sala de jantar.
  Sentado  mesa, Torbio comia o po que o Chico trouxera, enquanto
esperava o bife com ovos. Rodrigo repetiu-lhe o que Chiru lhe contara e
acrescentou:
  - Temos de dar um enterro de cristo ao Bernardo, com os sargentos, sem
os sargentos ou contra os sargentos.
  - Mas ainda no comi!
  - Comes depois. Manda o Bento tirar o Ford enquanto eu vou buscar o
padre.
  Botou o chapu na cabea e o revlver na cintura, ganhou a rua e
dirigiu-se para a casa paroquial, que ficava ao lado da igreja. Entrou
sem bater, encontrou o vigrio   mesa do caf e contou-lhe a histria
em poucas palavras.
  - Vamos, padre! No temos tempo a perder. Pegue as suas coisas.
  O sacerdote obedeceu. Em menos de cinco minutos estavam os dois na
calada, junto da qual Bento fazia parar o carro. Torbio, sentado ao
lado do chofer, perguntou:
  179
  - E o caixo?
  -  mesmo! - exclamou o irmo. - Bento, me espera na frente da casa
armadora.
  Rodrigo correu para l, bateu na porta com impacincia e, quando o
Pitombo veio abri-la, no se deu o trabalho de explicarlhe do que se
tratava. Empurrou-o e foi  entrando na loja sombria. Olhou em torno e
finalmente apontou para um esquife da melhor qualidade.
  - Qual  a medida daquele ali?
  - Quem foi que morreu?
  - O bispo. Anda, Pitombo, no tenho tempo a perder. O defunteiro avaliou
o caixo com os olhos e murmurou:
  - Um metro e sessenta e cinco... um metro e setenta...
  - Serve. Me ajuda a levar essa coisa para o automvel.
  Dentro de pouco Rodrigo e o vigrio estavam no banco traseiro do Ford,
tendo o esquife atravessado  frente de ambos, com a extremidade mais
estreita para fora do  carro.
  - Me mande a conta! - gritou Rodrigo para o armador, quando o veculo
arrancou.
  Dentro de dez minutos paravam junto do porto do cemitrio. Pouco depois
chegava um caminho do Regimento de Artilharia. Torbio, Rodrigo e Bento
aproximaram-se  dele, ao passo que o vigrio continuou sentado dentro do
Ford.
  Um soldado dirigia o veculo cor de oliva. A seu lado estava sentado um
cabo, um mulato espadado e mal-encarado.
  - Vocs trazem a o corpo do tenente Quaresma? - indagou Rodrigo,
dirigindo-se ao cabo.
  - Trazemos. Por qu?
  - Queremos dar um enterro digno ao tenente.
  O mulato lanou para Rodrigo um olhar enviesado.
  - Tenho ordens pra enterrar o defunto assim como est.
  - Ordens de quem?
  - Do sar... do tenente Bocanegra.
  - Pois ns temos ordens do coronel Barradas, comandante da praa.
  - Onde est?
  180
  Torbio fez uma figa e ergueu-a quase  altura do nariz do mulato.
  - Est aqui.
  Nesse instante exato, Bento levou a mo ao revlver. Rodrigo fez o
mesmo. O mulato fechou a carranca. Mas o soldado sorriu:
  - Eu conheo esse moo.  o dr. Rodrigo Cambar. Gente nossa. Gente boa.
  - Mas eu tive ordens... - resmungou ainda o cabo, j com menos empfia.
- Que  que eu vou dizer depois pr tenente Bocanegra?
  - Diga que se entenda comigo.
  O mulato encolheu os ombros e saltou para fora do caminho. O soldado
fez o mesmo e ambos foram abrir a parte traseira do veculo.
  S agora Rodrigo via como o alagoano era pequeno. Ali estava enrolado
naquela lona suja, recendente a gasolina, com negras manchas de graxa,
amarrado com cordas   altura do pescoo, da cintura e dos tornozelos.
  O cabo puxou o fardo com um gesto brusco que revelava toda a sua m
vontade.
  - Devagar! - gritou-lhe Rodrigo. - Mais respeito. Voc no est lidando
com um cachorro sem dono, mas com o corpo dum homem. E dum homem digno!
  O mulato mordeu os beios mas nada disse. O soldado ajudou-o a colocar o
cadver dentro do esquife, que Bento e Torbio haviam agora aproximado
da traseira do caminho.
  Enquanto fechavam o caixo, Rodrigo ouviu uma voz que lhe dizia: "O
senhor  mais que meu amigo. O senhor  meu pai". Fez um esforo
desesperado para no rebentar  em soluos. Mas lgrimas vieram-lhe aos
olhos, ele fungou, disfarou, procurando evitar que os outros lhe vissem
a cara. Depois de atarraxar a tampa, disse:
  - Vamos.
  Pegou numa das alas. Torbio, Bento e o soldado agarraram as outras.
Ergueram o atade e encaminharam-se lentamente para o cemitrio, cujo
zelador - que assistira  a toda a cena cautelosa-
  181
  mente do lado de dentro dos muros - veio ao encontro do pequeno cortejo,
e, aproximando-se de Rodrigo, disse-lhe ao ouvido:
  - A cova j est aberta, doutor. Vou na frente para mostrar o caminho.
  Rodrigo fez com a cabea um sinal de assentimento.
  Para alm dos muros do cemitrio as coxilhas de Santa F se estendiam
verdes e livres sob um cu agora completamente azul.
  Um quero-quero gritou longe e Rodrigo sentiu uma sbita e lancinante
saudade do Angico e da infncia.
  A cerimnia foi breve. Enquanto o padre resmungava o seu latim e
aspergia o esquife com gua benta, Rodrigo pensava na me de Bernardo
Quaresma. Ia descobrir o endereo  da velhinha, e enviar-lhe todos os
meses uma penso, anonimamente. Sim, e dentro de alguns anos mandaria
remover os restos do tenente para o cemitrio de sua terra  natal....
Assumia aquele compromisso sagrado perante Deus e sua conscincia.
  Terminada a encomendao, o caixo foi descido ao fundo da cova. Bento
atirou-lhe em cima um punhado de terra. Torbio e o soldado o imitaram.
Em seguida os coveiros  comearam a entulhar o buraco.
  O padre e o soldado foram os primeiros a se retirar. Rodrigo, Torbio e
Bento ficaram ainda por alguns minutos diante da sepultura e depois,
sempre em silncio,  voltaram para o automvel.
  20
  Naquela manh de segunda-feira os jornais trouxeram o manifesto de
Getlio Vargas  nao. Terminava assim: Rio Grande, de p pelo Brasil.
No poders faltar ao  teu destino glorioso!
  Tio Bicho leu o documento, sorriu e ia fazer uma de suas observaes
mordazes quando Rodrigo o reduziu ao silncio com um olhar duro e estas
palavras:
  - Cala a boca! Nesta hora no h lugar para cpticos nem para
maldizentes profissionais. Maragatos e pica-paus enterraram suas
diferenas para o bem do Brasil. Eu  j esqueci as indecises e
  182
  fraquezas do Getlio: ele  agora o chefe de todos ns. Quem no est
com a revoluo est contra ela. Toma cuidado. Tu e o Aro. Quem avisa
amigo .
  Roque Bandeira encolheu os ombros e no tocou mais no assunto. E tanto
ele como Stein se mantiveram afastados do Sobrado durante aquela
primeira e agitada semana  de outubro.
  J ento ningum mais podia duvidar da extenso e da fora do movimento
revolucionrio em todo o pas. Juarez Tvora,  frente de oitocentos
homens, depusera o presidente  da Paraba, entrara em Pernambuco,
ocupando Recife e, depois de conquistar Alagoas, marchava sobre a Bahia.
  - Os governos caem de podres! - exclamou Rodrigo ao ler essas notcias.
  Liroca andava entusiasmado pelo fato de o tenente-coronel Gois Monteiro
haver sido escolhido por Getlio Vargas para chefe do estado-maior das
foras revolucionrias.
  - Dizem que  um grande estrategista - comentou ele um dia no Sobrado. -
E tem tambm uma admirao brbara por Napoleo Bonaparte.
  Os dois regimentos de Santa F tiveram ordem de seguir imediatamente
para a frente de batalha.  hora da partida, Rodrigo Cambar fez um
discurso na plataforma da  estao. Enquanto falava, dificilmente
conseguia afastar o olhar da cara do tenente Atlio Bocanegra, que l
estava recostado a um vago, no seu uniforme de campanha,  orgulhoso de
suas lustrosas botas de cano alto, de seu talabarte novo em folha, e
principalmente das divisas de tenente. Era como se Rodrigo estivesse
falando apenas  para aquele homem de olhos frios e maus.
  Quando a banda de msica do Regimento de Infantaria rompeu num dobrado
cuja melodia evocava a tristeza duma despedida, muitos olhos ali na
plataforma encheram-se  de lgrimas.
  Os jornais chegavam trazendo notcias animadoras. Em todo o Estado
voluntrios apresentavam-se aos milhares para formar as legies
libertadoras.
  183
  - Um rapaz de treze anos apareceu ontem na Intendncia - contou Rodrigo
 mulher,  hora do almoo. - Queria por fora alistar-se. Era to
franzino que tu no lhe  darias mais de dez
  anos...
  Ao dizer isto, lanou um olhar enviesado para o lugar vazio de Floriano
 mesa. No perguntou pelo filho. No o via desde a noite de 3 de
outubro e no queria v-lo.  O rapaz fazia suas refeies na
gua-furtada, onde se mantinha isolado.
  Pouco depois da uma hora, Bento voltou da estao com os jornais do dia
anterior. Rodrigo leu em voz alta o texto do telegrama que Getlio
Vargas enviara aos revolucionrios  de Curitiba: Breve marcho com o Rio
Grande. Vamos todos: exrcito e povo. Joo Neves declarava  imprensa:
Este movimento marca o fim da poltica personalista que  tantos
desmandos tem praticado. Flores da Cunha esclarecia a reprteres que lhe
haviam pedido um pronunciamento. Que ningum se iludisse: o grande
arquiteto da revoluo  tinha sido Oswaldo Aranha. Ns no fizemos outra
coisa seno segui-lo.
  - E o mais belo movimento da histria do Brasil! - exclamou Rodrigo.
Torbio, porm, no parecia muito interessado nos aspectos histricos da
revoluo. O que ele  queria mesmo era entrar em ao o quanto antes. A
organizao da Legio de Santa F se processava com excessiva lentido,
e Bio tivera j vrios atritos com Lao  Madruga e com Amintas Camacho.
Impacientava-se tambm ante o formalismo pedante de Terncio Prates, que
parecia querer resolver os problemas da revoluo com frmulas
abstratas aprendidas na Sorbonne.
  Como os legionrios do Rio Grande em sua maioria tivessem escolhido
espontaneamente o leno vermelho como smbolo da rebelio, Liroca andava
exaltado e feliz, como  se aquilo significasse a maragatizao do pas
inteiro. Um dia entrou no Sobrado e, com voz trmula, contou:
  - O nosso Assis Brasil chegou ontem a Porto Alegre e teve uma recepo
consagradora. Foi saudado como o Apstolo da Democracia Brasileira. E
com justia, com muita  justia!
  184
  Citou uma frase do senhor de Pedras Altas: Agora  preciso marchar para
a realizao de uma nova Repblica e sob a inspirao de uma s idia.
  Torbio, trocista, perguntou que idia era essa. Liroca engasgou-se com
a resposta, limitando-se a resmungar "Ora... ora..." Rodrigo socorreu-o:
  - No ds confiana a esse primrio. O Bio  um homem sem idias nem
ideais. Gosta da guerra pela guerra.  um brbaro.
  Agora um dos divertimentos, ou melhor, uma das devoes mais queridas
dos santa-fezenses era ir  estao ver as tropas que passavam para a
zona de operaes. Faziam  isso com grande entusiasmo. Senhoras e
senhoritas levavam aos guerreiros flores, cigarros, doces, bandeiras e
medalhinhas com a efgie de santos... Improvisavam-se  discursos e o
povo cantava na plataforma o Hino Nacional, enquanto o trem se afastava,
e das janelas dos carros os soldados acenavam adeuses...
  Corria por todo o Estado a histria dum jovem legionrio que, ao partir
para a linha de fogo, gritara: "Tenho pena dos que ficam!" Mas Oswaldo
Aranha, a quem Getlio  Vargas, no momento de seguir para a frente,
confiava o governo do Rio Grande, disse que tambm era preciso ter "a
coragem de ficar".
  Quica Ventura, entretanto, achava que aquela no era ainda a revoluo
de seus sonhos. Continuava de leno encarnado no pescoo mas falava mal
dos revolucionrios,  no acreditava na vitria do movimento, e agora
andava pelas esquinas a criticar Rodrigo Cambar, dizendo que a
administrao do municpio estava entregue s moscas.
  Rodrigo na realidade pouca ou nenhuma ateno dava aos seus deveres de
intendente. Achava-se inteiramente absorvido pela revoluo, e j agora,
como Torbio, ansiava  por marchar para a linha de fogo.
  Quando recebia telegramas anunciando vitrias das foras
revolucionrias, mandava soltar foguetes e pregar um boletim informativo
num quadro-negro,  frente do edifcio  da Intendncia. E cada nova
notcia lhe parecia melhor que a precedente.
  185
  Juarez Tvora continuava no norte a sua marcha gloriosa, derrubando
governos, conquistando Estados inteiros e engrossando suas tropas.
  A vanguarda do general Miguel Costa j se encontrava nas imediaes de
Itarar. Foras mineiras haviam invadido o Esprito Santo e So Paulo. O
Par, o Maranho,  o Piau, o Cear e o Rio Grande do Norte estavam
praticamente nas mos dos revolucionrios.
  -  uma avalanche - disse Terncio Prates um dia -, uma avalanche que
nenhuma fora humana poder conter.
  Dona Revocata, que estava presente, observou que avalanche era um
galicismo desnecessrio, uma vez que em portugus existia a palavra
alude. Mas, gramtica  parte,  achava tambm que a vitria da causa
revolucionria era uma fatalidade.
  Dona Vanja andava entusiasmada com "a rica arrancada cvica" e queria a
todo o transe criar um corpo de vivandeiras na cidade. Olhando um dia
para Santuzza Carbone,  Torbio sorriu e disse baixinho para o irmo:
  - Que grande cavalariana dava essa gringa!
  Dante Camerino e Cario Carbone faziam parte do corpo mdico da Legio de
Santa F. O primeiro andava todo apertado num uniforme caqui de capito,
com uma tnica  que lhe ia quase at os joelhos, e uns culotes muito mal
cortados. O italiano tirara da mala, de seu sono de cnfora, o
fardamento cor de oliva dos bersaglieri,  que envergava agora com
orgulho; e como um toque de cor local, trazia ao pescoo um leno
vermelho.
  Rodrigo comeava a inquietar-se  idia de que as tropas de Juarez
Tvora pudessem chegar ao Rio de Janeiro antes das legies do Rio
Grande. Que fazia Getlio Vargas  que no marchava duma vez para a zona
de operaes?
  Um dia recebeu um telegrama que o deixou exaltado. Dizia assim:
Presidente Getlio Vargas te convida meu intermdio a seguires com ele e
seu estado-maior rumo da  frente de batalha no trem que passar por
Santa F dentro de dois ou trs dias. Abraos cordiais. Joo Neves da
Fontoura.
  186
  Saiu a mostrar o despacho  gente da casa e aos amigos. Flora e Maria
Valria abstiveram-se de qualquer comentrio. Chiru fanfarroneou:
  - No te invejo. Vou chegar ao Rio primeiro que tu. Encontrars o meu
cavalo j amarrado no obelisco da avenida.
  - Vais aceitar? - indagou Torbio.
  - Claro, homem! - respondeu Rodrigo. - No compreendes o alcance deste
convite? Significa que vou entrar na capital federal ao lado do chefe da
revoluo vitoriosa!
  - Mas sem dar um tiro - replicou Bio. - E de brao dado com a beleza do
Gis Monteiro...
  Naquele mesmo dia o velho Aderbal Quadros foi chamado ao Sobrado e
levado solenemente para o escritrio, onde Rodrigo e Torbio tiveram com
ele uma conferncia a  portas fechadas.
  - Vamos lhe pedir mais um sacrifcio, seu Aderbal... - comeou Rodrigo.
  O sogro soltou uma baforada de fumaa e disse:
  - J sei. Querem que eu tome conta do Angico.
  - Exatamente. Mas temos de lhe falar com toda a franqueza. Nossa
situao  negra...
  Babalo escutava, sacudindo a cabea lentamente. Os Cambars estavam em
dificuldades financeiras, tinham dvidas, a estncia se achava
hipotecada e o prazo da hipoteca  prestes a vencer-se.
  O ar do escritrio enchia-se aos poucos da fumaa azulada do crioulo do
velho.
  - Mas a vitria da revoluo  certa - acrescentou Rodrigo com animao.
- E o senhor no pode imaginar que o dr. Getlio Vargas, uma vez na
presidncia da Repblica,  v deixar seu Estado ir  bancarrota. O
Brasil precisa dum Rio Grande economicamente sadio. Havemos de sair
desta situao difcil.  questo de pacincia e de coragem.
  Depois dum curto silncio o ex-tropeiro soltou um leve suspiro e disse:
  - Ps vou pedir ao negro Calixto que fique me olhando pelo Sutil. E vou
dizer  Laurentina que prepare os seus tarecos. Nos mudamos pr Angico
amanh ou depois...
  187
  21
  Silenciosa e de olhos secos, Flora naquela tardinha comeou a fazer a
mala do marido. O trem que levaria Getlio Vargas e seu estado-maior
para a frente de batalha  passaria pela estao de Santa F na manh do
dia seguinte.
  Maria Valria estava na cozinha a fazer um tacho de doce de coco. Da
gua-furtada vinham os acordes abafados da Herica. De vez em quando
Flora erguia os olhos e  via pela janela um pedao do cu esbraseado do
anoitecer. Sentia uma tristeza resignada e lnguida. No. Aquela
revoluo no lhe dava muito medo... Sabia que Rodrigo  estaria seguro
dentro do trem do presidente. A tristeza lhe vinha da compreenso a que
chegara, da inutilidade de todos os gestos, da monotonia com que os
fatos  se repetiam. Os homens insistiam nos mesmos erros. Pronunciavam
frases antigas com um entusiasmo novo. Encontravam justificativas para
matar e para morrer, e estavam  sempre dispostos a acreditar que "desta
vez a coisa vai ser diferente". Crescera ouvindo histrias de violncias
e crueldade praticadas durante a Revoluo de 1893.  Sofrera na carne a
de 1923. Agora Rodrigo estava metido num movimento que poderia mudar por
completo sua vida e a de toda a famlia.
  Flora alisava num gesto distrado o peito duma camisa de seda. Tinha na
memria a imagem do tenente Bernardo Quaresma. "E a senhora, dona Flora,
a senhora  a minha  segunda me." Mordeu o lbio, lgrimas brotaram-lhe
dos olhos. Tudo aquilo era ao mesmo tempo triste e estpido. No podia
conformar-se com a idia de que Rodrigo  havia participado do assassnio
do tenente. Ouviu mentalmente a voz do marido. "Ele atirou primeiro, meu
bem. E atirou para matar, do lado do corao."
  Sim, havia tambm o problema do Floriano. O rapaz passava os dias
fechado na gua-furtada, recusando-se a ver quem quer que fosse. Rodrigo
no queria fazer as pazes  com o filho e tudo indicava que ia partir sem
se despedir dele.
  Flora foi despertada de seu amargo devaneio por um rudo de passos no
quarto contguo.
  -  tu, Rodrigo?
  188
  - Sim, minha flor. Que  que h?
  Entrou na sala, aproximou-se da mulher, pousou-lhe no ombro a mo que
tinha livre. Ela permaneceu imvel, de costas para ele.
  - Queres que eu ponha na mala a tua fatiota de tusso  de seda? Deve
estar fazendo calor no Rio.
  - No, querida. Comprarei l o que necessitar. Quero levar apenas a
indispensvel roupa-branca. No ficaria bem eu me apresentar ao dr.
Getlio cheio de malas, como  quem vai fazer uma viagem de recreio.
  Cedendo a um impulso, beijou longamente a nuca da mulher, que se
encolheu num movimento que a ele pareceu de repulsa. Diabo... que  que
h?
  - Como vai o ferimento? - perguntou ela.
  Ele achou a pergunta fora de lugar, mas respondeu:
  - Bem. O Carbone me fez h pouco um curativo.
  Obrigou a mulher a voltar-se, estreitou-a contra o peito, procurou a
boca esquiva e beijou-a. Os lbios dela permaneceram imveis.
  - Que  que tens, menina?
  - Nada - respondeu ela, evitando encar-lo.
  Rodrigo largou-a, num gesto irritado, e saiu do quarto
intempestivamente.
  No dia seguinte saltou da cama muito cedo, tomou um rpido banho de
chuveiro e depois comeou a barbear-se diante do espelho. Por que estava
com aquela cara de ressaca?  - perguntou-se a. si mesmo, examinando a
imagem que o vidro refletia. Devia estar alegre, a cantar. Era um grande
dia: ia entrar aquela manh no trem presidencial,  embarcando na mais
nobre aventura de toda a sua vida. No entanto ali estava com uma
sensao de derrota, de frustrao... Tudo por causa de Flora! Estaria
ele perdendo  o seu encanto, a sua lbia, os seus poderes de seduo?
Procurara fazer daquela noite de despedida a grande noite de sua
reconciliao definitiva com a esposa, o  princpio duma nova vida para
ambos. Dissera-lhe coisas ternas ao ouvido, fizera-lhe grandes promessas
de
  189
  regenerao, pedira-lhe perdo por todas as decepes que lhe causara.
Sim, e deixara que sua mo tambm falasse. Mas qual! Flora permanecera
muda, imvel, insensvel,  tanto s suas palavras como s suas carcias.
Por fim, j de madrugada, entregara-se, mas com tanta relutncia que ele
ficara com a impresso de haver estuprado  uma donzela. Pior que isso.
Como Flora tivesse permanecido imvel e fria como um cadver, ele se
sentira quase como um necrfilo.
  Diabo! Rodrigo fez um movimento brusco com o pincel, borrifando espuma
no espelho. Tornou a ensaboar as faces e de novo passou nelas o aparelho
de barbear. Tirou  o brao esquerdo da tipia e verificou que podia
mov-lo sem dor. Veio-lhe ento uma idia. Estava claro que teria de
fazer um discurso ao presidente... Iria para  a estao com o brao em
tipia e l, a certa altura do discurso, jogaria o leno fora e passaria
a gesticular com ambos os braos. Seria um gesto de grande efeito
teatral...
  Sorriu. Mas tornou a ficar srio em seguida, pensando em Flora. Se ela
soubesse do golpe demaggico que ele estava planejando havia de
desprez-lo ainda mais. Diacho!  Era preciso reagir. Ultimamente Flora,
como Maria Valria, se estava transformando para ele numa espcie de
conscincia viva. Ambas conheciam-no demais... Sim, aquela  revoluo
tinha sido providencial. Tirariam o Washington Lus do poder, Getlio
Vargas assumiria o governo, ele, Rodrigo, se estabeleceria no Rio e
depois mandaria  buscar a famlia... At l o tempo e a ausncia
trabalhariam a seu favor. E uma vez na capital federal, comeariam uma
vida nova. Vida nova! Vita nuova! Novssima!  Fortunatissima! Rompeu a
cantar um trecho do Barbeiro de Sevilha. Fortunatissima, per carita, per
carita... Per ca-ri-t... Sua voz encheu o quarto de banho.
  Ps-se a lavar o rosto, com muito espalhafato e rudo. Depois
enxugou-se, arrancou com uma pina alguns cabelos brancos, penteou-se e
por fim comeou a vestir-se.  No envergaria fardamento militar nem se
atribuiria nenhum posto. Enfiou uns culotes de gabardina cor de oliva e
umas botas novas de cano alto. Vestiu uma camisa  branca de seda, com
uma gravata de jrsei preta. Envergaria um casaco azul-marinho de
meia-estao. E o leno? 
  190
  Sentia-se atrado pelo vermelho, mas estava decidido a usar o branco, como
uma homenagem  memria do pai.
  Postado diante do espelho, melhorava o n da gravata, assobiando
distrado o Loin du bal, e imaginando a chegada triunfal ao Rio de
Janeiro... Foi ento que uma  nuvem lhe toldou de repente o cu
interior. Lembrou-se de Bernardo Quaresma crucificado a balaos contra a
parede do quartel toda respingada de sangue...
  Precipitou-se quase a correr do quarto de banho, como para livrar-se do
fantasma.
  22
  Cerca das dez horas da manh o trem presidencial chegou sob aclamaes 
estao de Santa F. A plataforma estava atestada de povo e o entusiasmo
atingia as raias  do delrio. Empurrado pela multido que queria ver o
presidente de perto, um velho caiu entre as rodas do trem, que
felizmente estava parado, e em poucos segundos  foi iado para a
plataforma, plido, escoriado e trmulo, mas j dando vivas  revoluo.
  Getlio Vargas apareceu na parte traseira do ltimo carro, sorriu,
acenou para a multido, que prorrompeu em vivas, aplausos e gritos.
Estava metido num uniforme  militar caqui e tinha ao pescoo uma manta
com as cores da bandeira do Rio Grande que uma dama lhe dera o dia
anterior no Rio Pardo.
  O primeiro membro da comitiva presidencial que Rodrigo abraou foi Joo
Neves da Fontoura. Caiu depois nos braos de Flores da Cunha. Por fim
conseguiu subir para  o carro e foi abraado pelo presidente, que lhe
perguntou: "Que  isso no brao?"
  Um recuerdo da noite de 3 de outubro" - murmurou Rodrigo. E ante o
sorriso aberto, de bons dentes, de Getlio Vargas, pensou:
  Eu no me lembrava como este patife  simptico!" Apertou outras mos -
ah! dr. Maurcio Cardoso! - e viu caras vagamente conhecidas dentro do
vago. Foi o prprio  Getlio Vargas quem o apresentou ao
tenente-coronel Gois Monteiro, que ofereceu uma flcida mo gorda, que o
senhor do Sobrado apertou efusivamente.
  191
  O chefe do estado-maior das foras revolucionrias pareceu-lhe a negao
mesma da postura militar. Vestia um uniforme mal cortado e j amassado e
trazia na cabea  um chapu de pano de dois bicos; pendia-lhe do pescoo
uma manta longussima que nada tinha a ver com o uniforme. Era duma
feira caricatural mas nem por isso destituda  de simpatia.
  Na plataforma da estao a gritaria e o tumulto continuavam. De repente
uma voz se fez ouvida acima das outras: "Que fale o dr. Rodrigo
Cambar!"
  Outras vozes ecoaram o pedido. Estrugiram palmas. Algum sugeriu que
Rodrigo falasse de cima dos fardos de alfafa que estavam empilhados na
plataforma, a uns cinco  metros do trem. Rodrigo subiu para a
improvisada tribuna e dali fez um discurso, saudando em nome do povo de
Santa F "O presidente eleito da Repblica dos Estados  Unidos do
Brasil!" Ao perorar libertou o brao do leno que o sustentava e comeou
a gesticular com ambas as mos. Como esperava, o gesto causou um grande
efeito,  e ele teve de esperar uns bons trinta segundos para que os
bravos e aplausos cessassem. Foi ento que pronunciou a frase que mais
tarde amigos e inimigos haveriam  de explorar das maneiras mais diversas
e contraditrias: Se eu cumprir minhas promessas, povo de Santa F, no
vos pedirei nenhuma recompensa. Mas se eu vos atraioar,  matai-me!
  O trem apitou, 'dando o sinal de partida. A confuso nesse momento foi
geral. Rodrigo sentiu-se erguido de cima dos fardos e posto no cho. Da
por diante comearam  os abraos de despedida. Por entre aquelas
centenas de caras, em sua maioria de homens mal barbeados e de ar
faanhudo, Rodrigo vislumbrou a face de Roberta Ladrio  (coitadinha,
m'esqueci dela!) e a de Ladislau Zapolska, que no tornara a ver desde o
dia em que lhe quebrara os dentes. Teve mpetos de abraar ambos. Mas
qual!  Perdeu-os de vista. A multido levava-o dum lado para outro e ele
tentava, mas em vo, abrir caminho rumo do trem. Todos queriam
estreit-lo contra o peito. "At  a volta, bicho!" - "Amarre por mim o
cavalo no obelisco." - "V com Deus!" - "Me mande um fio do cavanhaque
do Washington!" - E Rodrigo, o suor a escorrer-lhe pelo  rosto e pelo
torso, sentia nas costas as palmadas ferozmente cordiais
  192
  dos amigos e conhecidos. E durante minutos teve diante dos olhos e das
narinas, num desfile estonteador, caras, bigodes, barbas, olhos,
hlitos, dentes, suores,  lenos... E assim empurrado, erguido no ar,
conseguiu aproximar-se do comboio - que j comeava a mover-se - e
saltar para a plataforma do ltimo carro. Algum lhe  havia dado um soco
bem em cima da ferida, que agora lhe doa intensamente. Bento, que
corria entre os trilhos atrs do trem, gritando esbaforido: "Doutor!
Doutor!",  conseguiu aproximar-se da plataforma e entregar a Rodrigo a
mala que ele esquecera. Getlio Vargas assistiu  cena sorrindo,
divertido, ao mesmo tempo que continuava  a acenar para o povo, que
agora desbordava da plataforma da estao. Alguns seguiram o comboio em
marcha acelerada. Bento velho de guerra! - murmurou Rodrigo. L  estava
o caboclo, perfilado entre os trilhos, a mo no chapu, numa
continncia...
  Rodrigo ficou na plataforma do vago, ao lado de Joo Neves e de Getlio
Vargas, at ver desaparecer a estao  primeira curva que o trem fez. E
quando os outros  voltaram para dentro do carro, ele permaneceu no mesmo
lugar. Tinha a impresso de que a ferida sangrava e de que ele estava um
pouco febril... Ttano?
  Dentro em pouco a composio atravessava a Sibria. Rodrigo avistou o
quartel do Regimento de Artilharia e de sbito todo o horror da morte de
Bernardo lhe veio   mente. Voltou a cabea para o lado oposto e avistou
l embaixo o casario do centro da cidade, as copas das rvores da praa,
as torres da matriz, o telhado do  Sobrado...
  Fez um esforo para conter as lgrimas. No se despedira de Floriano. As
mulheres da casa at a ltima hora haviam continuado na sua greve de
silncio. Perdera Torbio  de vista no entrevero da estao... nem
sequer lhe pudera dizer um adeus de longe. Como tudo de repente se havia
precipitado!
  O trem entrou no campo: sol e vento sobre as coxilhas. Rodrigo foi
transportado em pensamentos para uma remota tarde de dezembro de 1909 em
que, com vinte e quatro  anos de idade, um diploma de mdico na mala,
ele voltava para casa cheio de belos projetos e esperanas...
  193
  No pude salvar a vida da minha filha - refletiu ele com amargura.
Queimei o meu diploma, abandonei minha profisso. Levei meu pai  morte.
Perdi o afeto da minha  mulher e do meu filho mais velho. Matei um
amigo... Santo Deus, que tremendo fracasso!
  As lgrimas agora escorriam-lhe livremente pelas faces. Joo Neves da
Fontoura apareceu rapidamente  porta, e disse:
  - O presidente manda te convidar para um usque...
  Enxugando os olhos com as pontas do leno, Rodrigo entrou
  no carro.
  194
  Reunio de famlia - V
  14 de dezembro de 1945
  Floriano acaba de jantar em companhia de Roque Bandeira num restaurante
italiano da rua do Faxinai, e agora aqui vo, lado a lado, a caminhar
lentamente por uma  das caladas da praa Ipiranga. So quase sete e
meia da noite, as luzes da cidade j esto acesas, mas vem-se ainda no
firmamento vestgios do lento e rico crepsculo  que os dois amigos
apreciaram atravs das janelas do Recreio Florentino, e que levou tio
Bicho a observar: " uma sorte o pr-do-sol no depender do governo e de
nenhuma autarquia, porque, se dependesse, o trabalho cairia nas garras
de funcionrios incompetentes e desonestos, haveria negociata na compra
do material, acabariam  usando tintas ordinrias... e ns no teramos
espetculos como este".
  O ar da noitinha, que uma brisa morna e dbil de vez em quando encrespa,
est temperado de fragrncias estivais: um cheiro longnquo de macegas
queimadas, o bafo  que sobe duma terra e de pedras que tomaram sol o dia
inteiro, o aroma das madressilvas e dos jasmineiros que pendem das
prgolas desta praa, a preferida dos namorados  e a menina dos olhos do
prefeito. Suas caladas foram recentemente cobertas de mosaicos
bicolores. Seus canteiros esto forrados de viosas hortnsias, que, em
matria  de cor, parecem nunca decidir-se entre o rosa, o roxo desmaiado
e um vago azul. No centro do redondel, orlado de hibiscos carregados de
flores escarlates, uma fonte  de azulejos contribui com sua musiquinha
aqutica para dar um ar de frescura buclica ao logradouro.
  195
  Tio Bicho, empanturrado de macarro e Chianti, sente mais que nunca o
peso do corpo, caminha e respira com dificuldade, passa repetidamente o
leno pela cara rorejada  de suor, gemendo baixinho: "Vou estourar...
vou estourar..." Floriano, porm, sente-se leve de corpo e esprito:
comeu meio frango assado com salada verde, bebeu  uma mineral e fez o
que havia muito andava querendo fazer: desabafou, falou franca e
demoradamente sobre os acontecimentos da noite de 3 de outubro de 1930,
coisa  que jamais fizera em presena de outra pessoa. Bandeira escutou-o
em silncio, os olhos quase sempre no prato, interrompendo o amigo de
raro em raro, apenas com  monosslabos, para dar-lhe a entender que
seguia a narrativa com ateno e interesse.
  - Tu podes imaginar - diz agora Floriano, voltando ao assunto - o meu
estado de esprito quando sa correndo do ptio do quartel e me
precipitei para a cidade. Algum  me gritou alguma coisa, procurou me
deter... acho que foi o Chiru, no tenho certeza... Mas no parei,
continuei a correr, entrei meio s cegas por umas bibocas...  umas ruas
embarradas e escuras, uns becos de pesadelo... Me lembro vagamente duns
cachorros que latiam, me perseguiam... de luzes em janelas. .. vozes
humanas. .  . O espasmo de estmago continuava, era como se minhas
vsceras estivessem todas amarradas num n... E sempre o gosto de fel...
e a garganta ardida, porque eu respirava-de  boca aberta... O barro
acumulava-se na sola dos sapatos e meus passos iam ficando cada vez mais
pesados. A todas essas a voz de meu pai me perseguia: "Vai, covarde!
Vai pra baixo da saia da tua me! Vai, galinha! No s meu filho!"
  Floriano segura o brao de tio Bicho, que sopra forte como um touro, e
fala-lhe junto da orelha, em voz baixa, para no ser ouvido pelas
pessoas que passam.
  - Tu vs... Eu era um "galinha" e no deves esquecer o duplo sentido
que essa palavra tinha para ns meninos, na escola. O pontap do velho
me ardia no s no traseiro,  como tambm na cara, no corpo inteiro. Eu
era um poltro numa terra cujo valor supremo  a coragem, a hombridade,
a machido. O que me acontecera correspondia a  uma castrao, mas uma
vergonhosa castrao em pblico. Pensa bem, Bandeira... Em breve a
cidade inteira ia saber
  196
  de tudo. Os sargentos se encarregariam de espalhar a histria. Com que
cara ia eu enfrentar o mundo?
  Tio Bicho sacode a cabea e resmunga:
  - Compreendo, compreendo perfeitamente. Continuam a fazer a volta da
praa. Namorados passam pela
  calada ou esto muito juntos nos bancos. Automveis cruzam-se na rua em
marcha lenta.  frente do Hotel da Serra (e Floriano fica subitamente
tomado dum desejo-ccega-temor-curiosidade de avistar Snia), sentados em cadeiras postas na calada,
caixeiros-viajantes conversam alegremente em voz alta.
  - Houve um momento em que tive de parar para no cair de cansao... -
prossegue Floriano. - Sentei-me no meio-fio da calada e ali fiquei
ofegante, ouvindo um coaxar  de sapos e a gua correr na sarjeta entre
meus ps. No sei quanto tempo fiquei naquela posio, com os gritos do
Velho no crnio. "No s meu filho." Eu estava  rfo de pai. Fui
atacado dum acesso to forte de piedade por mim mesmo, que quase rompi a
chorar. Me ocorreu ento que para mim s existia uma soluo: morrer.  E
s de pensar que morrendo podia melhorar minha situao diante de meu
pai, provocar-lhe lgrimas de saudade e de remorso... s de pensar isso
eu sentia uma certa  doura na idia da morte. Se me perguntares se o
suicdio me passou pela cabea, te responderei que no. Tornei a me
levantar, procurei me orientar para a praa  da Matriz, pois o que ento
eu queria era o aconchego, a solido e a paz do meu quarto. Sa a
caminhar, mas dessa vez em marcha lenta. Alguns minutos depois avistei
as torres da matriz. Parei numa das esquinas da praa. (At hoje sempre
que sinto cheiro de flor de cinamomo, todas as imagens e sensaes
daquela noite voltam,  e eu devo te dizer que essas lembranas - 
curioso - no me so de todo desagradveis.) A garoa continuava a cair,
eu olhava firme para a fachada da igreja, e nesse  momento me aconteceu
uma coisa to estranha que nem sei se poderia te dar uma idia...
  - Eu imagino o que foi...
  - Entrei numa espcie de transe mstico, pela primeira e nica vez em
toda a minha vida. Fiquei assim meio no ar, sem sentir mais o corpo,
consciente duma vaga luminosidade  em torno
  197
  das torres da igreja... De repente nada do que acontecera parecia ter
importncia. As minhas dores e aflies eram coisas do tempo e eu estava
fora do tempo. Senti  que a soluo para todos os meus males estava na
igreja. E me veio um desejo areo, molenga e trmulo, de me atirar nos
braos de Cristo, o meu verdadeiro Pai. O  sobrenatural me bafejou a
alma naquele instante. Podes rir, Bandeira, o fato assim contado com
palavras, quinze anos depois, perde a fora, perde o sentido, a
autenticidade.
  Tio Bicho solta uma risadinha de garganta.
  - Me desculpa, mas empachado como estou, no posso compreender os
transes msticos. Mas continua.
  - Bom. A coisa toda deve ter durado apenas alguns segundos. De repente
senti de novo o corpo, ferroadas na nuca, dores nos msculos das pernas
e dos braos, a nusea,  o frio, o desconforto. Nesse momento a imagem
que cresceu mesmo diante de meus olhos foi a do Sobrado. Comecei ento a
caminhar apressado na direo de casa.
  - E em vez de cair nos braos de Cristo caste nos da Virgem Maria.
  - Exatamente. Contei a minha me tudo quanto havia acontecido no
quartel. No procurei melhorar minha situao. Pelo contrrio, exagerei
at minha culpa e minha  vergonha. Ela me abraou, me beijou, tentou
justificar minha atitude, me consolar, me compreender, responsabilizando
papai por tudo quanto havia acontecido. E sabes  qual foi minha reao?
Fiquei irritado, revoltado at... Eu no queria que ela me dissesse,
como me disse, que a coragem fsica no  uma virtude capital, e que
no havia por que esperar que todos os homens fossem valentes. Tu
compreendes, Bandeira, se eu aceitasse essa espcie de consolo, se eu me
abandonasse nos braos  dela, estaria dando razo ao Velho, que me tinha
mandado para baixo das saias maternas. Bom, para te resumir a histria:
subi para a "mansarda", fechei a porta,  me atirei no div e desatei o
choro.
  Tio Bicho limita-se a sacudir a cabea. O outro prossegue:
  - Agora eu compreendia que meu mundo tinha vindo abaixo... Eu detestava
a violncia e a brutalidade, mas no era insensvel,
  198
  como imaginava, s sedues do herosmo. Orgulhava-me da minha condio
de homem civilizado, incapaz de exercer violncia contra meus
semelhantes. Gostava de me  imaginar dotado desse tipo de fibra do
cristo das catacumbas, tu sabes, a coragem de resistir  agresso sem
agredir, em suma, a capacidade de colocar os valores  espirituais acima
de todos os impulsos animais agressivos e egostas. No entanto, na hora
de dar provas concretas da legitimidade desses sentimentos e princpios,
eu descobrira que no podia agentar a pecha de covarde.
  - Teu pai, teu tio, o cdigo de honra do Rio Grande, e as prelees
cvicas de dona Revocata, devem ser os principais responsveis por essa
supervalorizao do ato  herico.
  - Mas l pelas tantas um novo tipo de preocupao comeou a me
inquietar. A vida do Velho havia dependido dum gesto que eu no tivera a
coragem de fazer...
  - Talvez no estivesses interessado em salvar a vida de teu pai.
  Floriano estaca:
  - Roque!
  O outro faz alto tambm, volta-se para o amigo.
  - Que ? Te escandalizo?
  - No, mas isso  levar muito longe a...
  No termina a frase, j convencido de que tio Bicho acaba de abrir-lhe
uma nova e terrvel porta.
  - Bom... - murmura Bandeira. - No te preocupes, encara o que eu te
disse como uma mera "hiptese de trabalho".
  - s um monstro.
  - Mas no um atleta. Vamos parar esta maratona. Estou exausto. E se
sentssemos num banco l perto da fonte?
  -  uma idia.
  Encaminham-se para o centro da praa. Antes de sentar-se, tio Bicho
molha o leno na gua da fonte e passa-o pela testa, pelas faces e pelo
pescoo. Depois, com  um suspiro de alvio, larga todo o peso do
corpanzil sobre o banco, descala os sapatos e pe-se a friccionar os
joanetes.
  199
  Floriano despe e dobra o casaco, colocando-o a seu lado no banco. A
frase do amigo continua a ocupar-lhe a mente. Talvez no estivesses
interessado em salvar a vida  de teu pai. Se esta hiptese for vlida (e
quem pode ter a certeza?) a paralisao de seu brao no dever ento
ser atribuda simplesmente ao medo... Mas em que  poder essa descoberta
melhorar a situao?
  Roque Bandeira comea a abanar-se com o palheta.
  - Seja como for - diz Floriano - essa coisa toda me traumatizou. Passei
boa parte da vida tentando me convencer de que no havia razo para me
envergonhar de no  ser valente, e de que devia ter a coragem moral de
admitir que no tinha coragem fsica. Continuei cultivando o pacifismo,
a no-violncia, andei lendo coisas sobre  o budismo, mas a todas essas
devo confessar que continuava a sentir uma certa nostalgia do herosmo,
e a necessidade de provar que no fim de contas eu no era um  covarde. O
que eu queria mesmo era recuperar a auto-estima, isso para no falar na
estima do meu pai.
  - Mas o que te aconteceu naquela noite de Ano-Bom - pergunta tio Bicho -
no te devolveu o respeito por ti mesmo? No resolveu a dvida sobre a
tua hombridade?
  - At certo ponto... Mas uma coisa ficou clara: a minha irremedivel
alergia pela violncia.
  Faz uma pausa, passa a mo pelos cabelos, sorrindo, e continua:
  - Vou te contar uma histria... um caso grotesco que ainda no contei a
ningum. Talvez um dia utilize a cena num conto...
  - Vocs escritores de fico contam com um admirvel sistema excretrio.
O romancista mais cedo ou mais tarde acaba defecando os seus problemas e
angstias...
  - Foi em 1943, na Califrnia. Eu tinha ido passar um fim de semana no
Lal Tahoe, um lago vulcnico duma beleza indescritvel. Estava uma
tarde sentado na praia  lendo ou, melhor, tentando decifrar uns versos
de Ezra Pound, quando ouvi um grito. Help!Ergui os olhos e avistei um
menino que estava se afogando... No tive dvida:  me atirei no lago,
sem sequer tirar o casaco, e tratei de me aproximar do rapaz. Logo que
senti a gua pelo peito,
  200
  fiquei em pnico. No sei se sabes que nunca aprendi a nadar... e que
sempre tive verdadeiro pavor de morrer afogado. E no momento exato em
que consegui segurar  a criana, numa de suas voltas  superfcie, perdi
o p. A criaturinha se agarrou em mim como um polvo e os dois fomos ao
fundo. Quando voltamos  tona gritei por  socorro e j ento o que eu
queria a todo o transe era me desvencilhar do menino e salvar a pele.
Feio, no? Para encurtar a histria, se no fosse um americano
grandalho e ruivo, que surgiu no sei de onde e nos puxou para a praia,
teramos os dois morrido afogados... O que eu tinha querido que fosse
uma cena sublime se  transformou apenas numa comdia grotesca. Que me
dizes?
  - Lhe digo que quando ouviste o grito do menino, sentiste de novo no rabo o
pontap de teu pai, que gritava: "Vai, covarde!"
  Floriano sacode negativamente a cabea.
  - No. Agora quem est simplificando s tu. Caro que sinto at hoje no
traseiro e no amor-prprio a marca daquele pontap. Mas o que me levou a
salvar o menino,  alm dum gesto natural de solidariedade humana, esse
impulso que nos faz s vezes acreditar na nobreza do bicho-homem, foi o
chamado, o apelo de todos os heris  da minha mitologia particular, que
nasceram no menino e continuaram, em menor ou maior grau, no homem
adulto. A voz que ouvi naquele instante, a voz que me incitou  foi
talvez a de Tom Mix... a de Eddie Polo... a do Heri de Quinze Anos... a
de Miguel Strogoff... e quem sabe? do general Osrio, de Andr Vidal de
Negreiros...
  Por alguns instantes ficam ambos em silncio, observando uma criana de
seus trs anos que se aproxima da fonte, pe-se na ponta dos ps e
procura mergulhar os dedinhos  n'gua. "Sai da, porqueira!" grita-lhe a
mulata gorda que a segue, evidentemente a sua bab. A criana deita a
correr, tropea, cai e abre o berreiro. A criada  ergue-a nos braos e
se vai com ela ao longo de um dos passeios.
  - No dia em que tiveres com o Velho "a grande conversa' no poders
esquecer essa luz nova que o tio Bicho lanou cinicamente sobre o drama
do quartel. No atiraste  no Quaresma porque naquele momento desejaste
inconscientemente a morte de teu pai.
  201
  Bandeira volta a cabea para o amigo. - Ters caracu para dizer isso ao
teu Velho?
  Floriano encolhe os ombros.
  - E se disser, que  que se ganha com isso?
  - Pois, meu caro, se queres mesmo acabar de nascer tens de encarar com
coragem todos os dados de teu problema com o marido da tua me. Ser
interessante observar  as reaes dele. No negars que o dr. Rodrigo 
um homem inteligente e de coragem. E depois, se ele se sentiu com o
direito de te insultar e agredir fisicamente  naquela noite, por que no
hs de ter agora o direito de dizer-lhe tudo quanto pensas sobre o
assunto?
  Ficam ambos em silncio por alguns instantes. Um cachorro de plo negro
e lustroso passa pela frente do banco e em seguida se atufa nas
hortnsias dum canteiro.
  - Ah! - faz Floriano, como quem se lembra de repente de alguma coisa. -
Nenhum dos cronistas que escreveram sobre a Revoluo de 30 em Santa F
mencionou, que eu  saiba, uma personagem cuja presena dramtica
perturbou os dias de exaltao patrioteira e preparativos blicos que
vieram depois da noite de 3 de outubro..
  - A quem te referes?
  - Ao Retirante, o pastor alemo do tenente Quaresma.
  - Sim, me lembro.
  - No momento em que os sargentos estavam liquidando o seu amo a balaos,
o animal encontrava-se fechado na sala da guarda, ganindo, batendo
freneticamente com as  patas na porta, como se soubesse do que estava
acontecendo. S o soltaram horas depois, quando j tinham sepultado o
tenente. O cachorro saltou para fora, farejou  o cho bem no lugar em
que o Bernardo cara e depois saiu a uivar e a procurar o dono por todas
as dependncias do quartel...
  - Francamente, no fiquei sabendo de nada disso, pois durante aqueles
dias "hericos" permaneci fechado em casa, neutro, com meus peixes e
meus livros.
  - Pois bem. Depois de varejar todo o quartel sem encontrar o que
procurava, o Retirante desceu para a cidade, entrou na penso
  202
  onde Quaresma se hospedava, foi direito ao quarto dele, depois saiu pela
casa a choramingar, a olhar para as criadas e para os hspedes, com
olhos tristonhos, como  a pedir-lhes notcias do amo. Floriano ergue-se
e planta-se na frente de Bandeira.
  - As duas da tarde irrompeu no Clube Comercial, entrou na sala de bilhar
onde quela hora o tenente Bernardo costumava jogar, e ali ficou
rondando as mesas, farejando  o ar, esfregando-se nos jogadores,
ganindo... E sabes aonde foi depois? Ao Sobrado. Encontrou a porta
aberta, entrou e enveredou para o escritrio, onde papai estava  mexendo
nuns papis. Ao ver o animal, o Velho empalideceu, como se tivesse visto
fantasma. O Retirante aproximou-se dele, lambeu-lhe as mos. Papai
recuou. "Tirem  este animal daqui!" Ergueu-se, saiu perturbado da sala e
foi fechar-se no quarto. O cachorro andou pela casa toda, com os olhos
embaciados de tristeza, e finalmente  tornou a sair...  muito difcil
separar a verdade da fantasia em tudo quanto se contou a respeito do
Retirante nos trs dias seguintes...
  - Como?
  - A cidade inteira comeou a sentir a presena incmoda do animal, como
a duma espcie de conscincia viva. O Retirante parecia estar pedindo
contas  populao  pelo assassnio de seu amo. Recusava o alimento que
lhe davam, esquivava-se a todas as carcias.  noite era visto vagueando
nas ruas. E comearam ento os boatos.  Dizia-se que passava horas no
cemitrio, deitado em cima da sepultura do tenente Quaresma; e que um
dia se ps a cavar a terra como se quisesse desenterrar o amo...
Contava-se tambm que o lobo que morava dentro dele tinha vindo  tona.
Mordeu a mo dum soldado que tentou alisar-lhe o plo. As crianas
fugiam dele apavoradas.  Quando o encontravam na rua, os homens levavam
a mo ao revlver... Uma manh correu pela cidade a notcia de que o
Retirante havia sido morto a tiros durante a  noite por guardas da
polcia municipal. Pura inveno.  tarde o cachorro tornou a aparecer,
entrou de novo no clube, rondou a sala de bilhar. Um dos jogadores,
assustado, bateu nele com um taco... Uma noite, muito tarde, estava eu
lendo na "mansarda" quando ouvi uns ganidos que pareciam vir de muito
perto. Fui at a janela  e avistei o
  203
  Retirante caminhando dum lado para outro, na frente do Sobrado, o
focinho erguido, soltando uns uivos to tristes, que chegavam a me dar
calafrios. Sabes de quem  me lembrei? Do mastim dos Baskervilles. L em
casa, na cozinha j se murmurava que o Retirante tinha virado lobisomem.
Um dia a Laurinda ameaou a Bibi: "Se tu no  come direito, eu chamo o
Retirante". Ouvi dizer que houve uma reunio especial na Intendncia
(imagina!) para decidirem que fazer com o animal. Porque o Retirante  se
havia transformado num problema municipal, numa ameaa pblica. Meu pai
absteve-se de dar qualquer opinio. Mas os outros prceres (acho que
esta  a palavra  que a Voz da Serra costuma usar para esses "pilares da
sociedade"), os outros prceres chegaram  concluso de que a soluo
mais prtica e ao mesmo tempo mais "humana"  era dar ao cachorro um
pedao de carne envenenada. Por que no um tiro na cabea? - props
algum. O dr. Terncio Prates, homem civilizado, achou que o melhor
seria  prender o "co fantasma", lev-lo para muito longe e abandon-lo
em pleno campo. Foi ento que o velho Babalo, que havia comparecido 
reunio sem ter sido convidado,  pediu a palavra e disse simplesmente:
"Deixem que eu resolvo a questo"". E resolveu mesmo.
  - De que maneira?
  - Tive a sorte de ver a grande cena.
  - Sempre da janela da "mansarda"?
  - Era exatamente onde eu estava. Tu te ris porque dou a impresso de que
sempre via o mundo do alto da minha janela de solitrio. Corri mesmo o
risco de passar o  resto da vida como um observador remoto e desligado,
que olha a Terra dum outro planeta. Pois bem. Eu estava uma tarde
sentado no peitoril da janela da "mansarda",  quando vi empregados da
limpeza pblica tentando cercar o Retirante no redondel da praa. De
repente surgiu em cena o velho Aderbal, "que disse alguma coisa aos
mata-cachorros e depois se aproximou do animal lentamente, com seu
eterno crioulo entre os dentes. O Retirante primeiro fez meno de
fugir. Tinha o corpo retesado,  uma das patas dianteiras meio
erguida... O velho se acercava cada vez mais dele. Por fim acocorou-se
a seu lado, afagou-lhe a cabea e pareceu segredar-lhe qualquer  coisa
ao ouvido. De onde
  204
  estava pude ver ou sentir que os msculos do Retirante se relaxavam. Um
minuto mais tarde o animal comeou a sacudir o rabo alegremente. O velho
Babalo fez um sinal  para os empregados da Intendncia: que fossem
embora, pois o problema estava resolvido. Os homens obedeceram. Vov
ergueu-se, bateu a pedra do isqueiro para reacender  o cigarro, tudo
isso com uma grande calma, e a seguir, sem olhar para trs, ps-se a
caminhar... O cachorro por alguns segundos ficou onde estava, mas depois
saiu  atrs do velho. No dia seguinte ficamos todos sabendo que o
Retirante estava j integrado na vida do Sutil. Tio Bicho sorri.
  -  curioso - diz. - Acho que teu esprito sempre viveu e ainda vive a
oscilar entre dois plos opostos, fascinado igualmente por ambos: teu
av Aderbal, cruza de  Mahatma Gandhi e So Francisco de Assis, e teu
tio Torbio, aventureiro e espadachim. - Mudando de tom, acrescenta: -
Olha s quem l vai...
  Floriano segue a direo do olhar do amigo e avista Aro Stein, que
atravessa o redondel, por trs da fonte. Sai a caminhar acelerado na
direo do judeu, gritando:
  - Stein! Stein!
  O outro volta a cabea mas no pra; pelo contrrio: estuga o passo,
como a fugir. Floriano, porm, alcana-o e toma-lhe afetuosamente do
brao:
  - Homem! Parece mentira. Faz mais de um ms que cheguei a Santa F e
ainda no tinha te visto. Onde andas metido?
  - Ah! - Stein entrega-lhe uma mo mole, suada e fria. - Como vais?
  A luz duma lmpada cai em cheio sobre ele. Floriano pode agora ver-lhe
claramente as feies. Acha-o extremamente envelhecido. Nas faces
lvidas cresce uma barba  de trs dias, em que plos brancos e ruivos se
misturam. O chapu de feltro negro, muito enterrado na cabea, a
cabeleira crescida a cobrir-lhe as orelhas e a cair  sobre a gola do
casaco, e mais esta roupa negra e sebosa - tudo contribui para dar-lhe o
aspecto furtivo de um judeu ortodoxo, desses que nas ruas de Jerusalm
fogem  dos turistas no santo horror de serem fotografados. E o que mais
impressiona Floriano  a 
  205
  expresso dos olhos do amigo: metidos no fundo de rbitas profundas e
ossudas, tm um brilho de insnia, mexem-se assustados dum lado para
outro.
  - Quando vais aparecer no Sobrado? Papai tem perguntado por ti.
  - Qualquer dia... qualquer dia - responde o outro, evasivo. Fala baixo,
sempre a olhar inquieto dum lado para outro.
  - Mas que  que h contigo?
  - Eles no me deixam em paz. Vivem me seguindo.
  - Eles quem, criatura?
  - Querem destruir minha folha de servios, querem me desmoralizar
perante os outros camaradas. Recorrem a todas as infmias. Tu sabes que
fiz sacrifcios pelo Partido.  Mas eles exigem a minha cabea. No
descansaro enquanto no me liquidarem.
  Vem de Stein um cheiro de suor ranoso - juros de suores antigos que
acabaram capitalizados.
  Floriano faz um sinal na direo do banco.
  - No vais falar com o teu velho amigo Bandeira?
  - O Bandeira no  mais meu amigo. Est envenenado contra mim. No fundo
tambm acha que estou vendido aos americanos. Mas tu me conheces,
Floriano, sabes da minha  f de ofcio. Dei meu sangue pelo Partido. Fui
ferido na Guerra Civil Espanhola. - Abre a camisa, obriga Floriano a
apalpar com o dedo a cicatriz que tem no peito.  - Ests vendo?
Estilhao de granada. Estive  morte. Tudo isso eles querem destruir.
  Stein aproxima-se mais do amigo e murmura:
  - Se o Eduardo te contar alguma coisa a meu respeito, no acredites. 
mentira. Ele tambm est envenenado. Tudo que dizem so infmias.
  - Claro, homem, claro.
  - Bom, tenho que ir... Qualquer dia nos vemos. Mas precisamos descobrir
um lugar escondido pra conversar. A cidade est minada de espies.
Querem a minha cabea.
  Stein ergue a gola do casaco e acrescenta:
  - Estou entre muitos fogos. Os capitalistas me odeiam porque sou
marxista. Os da minha raa me desprezam porque sou um
  206
  renegado. Os comunistas me perseguem porque inventaram que atraioei o
Partido. Me chamam de Judas Iscariotes. Dizem que vendi minha
conscincia por trinta moedas  de prata aos banqueiros da Wall Street.
Tu sabes que no sou Judas. Ento passe bem! No sou Judas, fica tu
sabendo. No sou.
  Outra vez a mo viscosa. Stein faz meia-volta e se vai. Floriano torna
ao banco.
  - Compreendeste agora? - pergunta Tio Bicho. - O outro dia te expliquei
a situao do Stein e achaste que eu estava exagerando. No se trata
duma simples neurose,  mas j duma psicose. O Stein j morou na minha
casa, comeu na minha mesa e agora no me olha nem fala comigo...
  -  incrvel como esse homem mudou. Est uma runa.
  - Eu vivo dizendo... Comunismo  religio. J trataste com padre que
abandonou o sacerdcio? Fica com a marca da batina para o resto da vida,
jamais encontra completa  paz de esprito. Assim  o comunista. Uma vez
fora do Partido, porque perdeu a f ou porque foi expulso, porta-se
exatamente como um dfroqu.
  - Mas que foi que aconteceu com o Stein? Parecia um comunista exemplar.
  - E era. L por volta de 43 discordou do Comit Central e parece que
manifestou publicamente sua discordncia. Exigiram dele uma autocrtica
mas o nosso amigo se  recusou, pois acha que nunca se desviou da mais
pura linha marxista-leninista. Foi tachado de trotskista e expulso do
Partido. A princpio recebeu o golpe de cabea  erguida, mas aos poucos
foi se entregando ao desespero... at ficar reduzido ao que acabas de
ver.
  - E que  que a gente pode fazer por ele?
  - J fiz a mim mesmo essa pergunta, muitas vezes. Mas no encontrei
resposta. Talvez tu consigas descobrir uma...
  Quando Floriano e Bandeira entram no Sobrado, o relgio de pndulo est
terminando de bater as nove horas. Encontram no vestbulo o dr. Dante
Camerino, que acaba  de descer do quarto de Rodrigo.
  207
  - Hoje o nosso doente est bem disposto... - diz ele, apanhando o chapu
e preparando-se para sair. - O dr. Terncio est l em cima, e quando
sa tinham comeado  a discutir poltica. Vou pedir uma coisa a vocs.
No deixem o dr. Rodrigo falar demais nem se excitar. E por amor de Deus
no lhe dem cigarros, nem que ele ameace  vocs com uma pistola. E
faam o possvel para o dr. Terncio ir embora antes das onze. Teu pai
anda dormindo pouco, Floriano.
  Rodrigo recebe-os com alegria:
  - Puxa! At que enfim vocs me aparecem. Pensei que no viessem mais. -
Segura o nmero do Correio do Povo que est sobre um dos braos da
poltrona. - Eu no disse?  De acordo com os ltimos resultados, j se
pode afirmar que o general Dutra est eleito, e por uma margem larga. E
o Getlio tambm, por mais de um Estado!
  Depois de roncar um cumprimento na direo do dr. Terncio Prates, que
lhe responde com um vago aceno de cabea, tio Bicho vai sentar-se no
lugar de costume, ao  passo que Floriano fica a andar lentamente ao
redor do quarto.
  - E essa vitria - acrescenta o dono da casa - deve-se exclusivamente ao
apoio que o Getlio deu ao general.
  Repoltreado na cadeira, as mos tranadas sobre o ventre, Roque Bandeira
cantarola: "Parabns,  brasileiros, j com garbo varonil". Floriano
olha de soslaio para  Terncio, e mais uma vez compreende o quanto deve
ser difcil para este estancieiro letrado e com pretenses de
aristocracia suportar as gaiatices e irreverncias  do tio Bicho.
Trigueiro, as tmporas grisalhas, bem vestido e bem sentado, o chefe do
cl dos Prates de Santa F evita olhar de frente para o gordo filsofo.
  - Quero mostrar a vocs um documento histrico precioso que encontrei
hoje numa gaveta - diz Rodrigo, tirando do bolso da camisa um pequeno
instantneo fotogrfico  e entregando-o ao filho.
  Floriano sofri, vendo na foto trs gachos - chapeles de abas largas
com barbicacho, lenos vermelhos, bombachas, botas e
  208
  esporas - postados  frente do obelisco da avenida Rio Branco e cercados
de curiosos.
  - Reconheces os heris?
  - Claro. O Neco, o Chiru e o Liroca.
  - Queriam por fora amarrar os cavalos no obelisco - sorri Rodrigo. -
Diziam que era um compromisso sagrado. No foi fcil tirar a idia da
cabea deles... Me deram  um trabalho danado.
  - Mas afinal de contas - pergunta Bandeira - amarrar nossos cavalos no
obelisco no foi o objetivo principal da Revoluo de 30?
  - No me venhas com as tuas ironias - repreende-o Rodrigo.
  - Quer dizer ento que o movimento tinha mesmo um contedo ideolgico?
  - Tu sabes que tinha, no te faas de tolo. Terncio olha para Rodrigo:
  - Confesso que por algum tempo andei iludido, mas ao cabo do primeiro
ano de governo provisrio compreendi que a revoluo tinha sido trada e
que todo o sacrifcio  havia sido intil. O que se viu foi apenas uma
mudana de homens... e para pior.
  - Vocs esto todos errados! - exclama Rodrigo. Terncio descruza e
torna a cruzar as pernas, com um grande
  cuidado para no desmanchar o friso das calas. A um movimento de seus
braos, os midos rubis de suas abotoaduras de punho fascam. E ele
sorri um meio sorriso  que lhe pe  mostra um canino cor de marfim
velho.
  - O Rodrigo naturalmente vai defender o amigo...
  - O Getlio no precisa de defensores - replica o senhor do Sobrado -
mesmo porque no me consta que ele esteja no banco dos rus...
  Floriano sabe que agora vai seguir-se, como de costume, uma longa e
franca discusso em torno da personalidade do ex-ditador. Terncio, hoje
um dos mais assduos  freqentadores dos seres do Sobrado, parece ter
um prazer todo particular em atacar Getlio Vargas, para provocar e
irritar Rodrigo. E Floriano sente fortalecer-se  cada vez mais a sua
desconfiana de que o estancieiro 
  209
  socilogo alimenta uma secreta malquerena com relao a Rodrigo Cambar, uma
birra antiga que este lhe retribui com a mesma intensidade.
   curioso - reflete - como um certo tipo de desamor pode manter duas
pessoas unidas com uma fora quase to grande quanto a do amor.
  - No compreendo como possas inocentar o teu amigo - diz Terncio. -
Afinal de contas, ele teve nas mos o poder discricionrio pelo menos
durante dez anos. Se no   responsvel pela situao em que o pas se
encontra, ento no sei quem ser...
  Junto a uma das janelas, Floriano fica a examinar disfaradamente o
rosto do pai, em cujos olhos descobre esta noite um brilho quase
juvenil. Possivelmente Snia  Fraga tornou a passar  tardinha pela
frente do Sobrado...
  - Vocs querem transformar o meu amigo em bode expiatrio...
  - A verdade - insiste Terncio -  que fizemos a revoluo para apear do
poder um presidente autoritrio que queria influir na escolha de seu
sucessor. Levamos para  o governo um homem que se transformou num
ditador e que nem sequer admitiu a possibilidade de ter sucessores.  ou
no  um contra-senso?
  Tio Bicho chama o enfermeiro, pede-lhe uma dose de sal de frutas em meio
copo d'gua e, depois de beber o remdio, de soltar um arroto e de pedir
desculpas aos presentes,  diz:
  - A personalidade do dr. Getlio me fascina. O homenzinho est longe de
ser simples. Tem vrios Getulinhos por dentro.  como essas caixas que
encerram outra caixa  menor, que por sua vez contm outra e assim por
diante at a ltima...
  - Que est vazia... completa Terncio. - Como o Dom Quixote, o dr.
Getlio beneficia-se das interpretaes da crtica. Mas, ao contrrio da
grande obra de Cervantes,  ele no passa dum vcuo sorridente, que seus
intrpretes enchem dos atributos mais variados e contraditrios, ao
sabor de sua fantasia. No foi o Getlio que disse:  "Prefiro que me
interpretem a explicar-me"?
  - Sei de mil frases atribudas ao meu querido amigo, mas que na
realidade ele nunca pronunciou - replica Rodrigo.
  210
  Mas quando eram frases de esprito ou de alguma sabedoria intervm tio
Bicho - ele as adotava como suas.
  Por um instante Rodrigo esquece a discusso para concentrarse na imagem
de Snia, que agora lhe ocupa a mente. Recorda com esquisito prazer
mesclado de tristeza  as palavras do bilhete que Neco lhe entregou esta
manh.
  Meu amor. Estou morrendo de saudade. Quando  que esta tortura vai
acabar? Sonho todas as noites que estou nos teus braos. Ser que tua
sade no te permite voltares  para o Rio, onde temos o nosso ninho?
no suporto mais a separao. Beijos, beijos, beijos da sempre tua S.
  Terncio Prates est com a palavra:
  - Tudo nele  mediano, medocre. Jamais teve o pitoresco dum Flores da
Cunha, o brilho dum Oswaldo Aranha, a eloqncia dum Joo Neves. No se
lhe conhece nenhum  gesto desprendido, nenhum impulso apaixonado.  um
homem frio, reservado, cauteloso, impessoal. Seu estilo literrio  vago
e incaracterstico Seu fsico no impressiona.
  Rodrigo limita-se a sorrir e a sacudir a cabea, como quem diz: Este
Terncio no tem jeito..."
  - Examinemos a carreira desse favorito dos deuses - prossegue o
estancieiro. - Foi escolhido para sucessor do dr. Borges de Medeiros
entre trs candidatos papveis,  no porque fosse o melhor dos trs, mas
sim porque entre eles era o nico que no freqentava o Clube dos
Caadores, centro de jogatina e prostituio elegante,  que o dr.
Medeiros, homem austero, naturalmente no via com bons olhos...
  - Isso tudo  lenda! - exclama Rodrigo.
  - Washington Lus, que queria comprar a simpatia e o apoio do Rio
Grande, convidou o nosso Getlio para a pasta da Fazenda, apesar de
saber que o homenzinho de So  Borja no entendia nada de economia ou de
finanas. E durante o tempo em que foi ministro, Qetlio teve a
oportunidade de manifestar-se publicamente
  211
  contra a anistia o o voto secreto, pontos que viria a incluir mais tarde
na sua plataforma de candidato da Aliana Liberal.
  - No entanto - interrompe-o Rodrigo - depois de eleito presidente do Rio
Grande, quando o dr. Borges de Medeiros lhe apresentou uma lista de
sugestes para a formao  de seu secretariado, o Getlio teve um belo
gesto de independncia, dizendo: "J convidei meus secretrios. E todos
aceitaram".
  Terncio quer retomar o discurso, mas Rodrigo fala mais alto:
  - Depois de assumir o poder, transforma por completo a vida poltica e
social do Rio Grande.  preciso que vocs no esqueam isso. Pela
primeira vez na histria  de nosso Estado, as vitrias eleitorais da
oposio eram reconhecidas. Getlio governou com imparcialidade, 
revelia de seu partido. Chegou ao extremo de nomear  para postos
importantes adversrios polticos, libertadores e gasparistas. Era um
vento novo e sadjo a soprar sobre as " coxilhas. A coisa era to
"subversiva" e  inesperada, que chegou a causar uma espcie de pnico
entre a velha guarda republicana. Se isso no  ter personalidade, ento
no sei mais nada...
  - Ora - replica Terncio -, Getlio fez todas essas coisas com um olho
frio e calculista na presidncia da Repblica, esperando congregar
republicanos e maragatos  num bloco unido que amparasse sua candidatura.
  - E quem o pode censurar por isso? -~_ pergunta Rodrigo, inclinando o
busto para a frente. - J viste algum ganhar eleio sem votos? E o que
importa, Terncio,   que a situao do Rio Grande melhorou. Todos
aqueles intendentes e delegados de polcia faanhudos e bandidotes que,
 sombra da indiferena ou da cegueira do  borgismo, viviam fraudando
eleies, espaldeirando e assassinando membros da oposio, todos esses
cafajestes se aplacaram... ou foram destitudos de seus postos.  Com o
governo de Vargas comeou o declnio do caudilhismo e do banditismo
oficial no nosso Estado.
  - Mas no se esquea - intervm Floriano - que nada disso teria sido
possvel sem a Revoluo de 23.
  - Como  que vou esquecer essa revoluo, menino, se andei metido nela?
  Terncio olha para Floriano e diz:
  - Em maio de 1929, quando o Joo Neves j havia iniciado na Cmara
Federal um movimento em favor dum candidato gacho (que seria
naturalmente o Getlio, pois era  sabido que o velho Borges no aceitava
a prpria candidatura), o amigo do Rodrigo escreveu secretamente a
Washington Lus uma carta que  um primor de insdia e  duplicidade.
Dizia que estava fechado a qualquer manifestao sobre a sucesso
presidencial, para que o senhor presidente da Repblica ficasse com a
livre iniciativa  quanto ao assunto, quando achasse oportuno. H um
trecho dessa carta que vale como uma frecha envenenada dirigida contra o
Joo Neves, seu amigo, seu colega, lder  da bancada de seu partido na
Cmara.  o em que Getlio se refere s intromisses dos mestres de
obras feitas, farejadores de candidatos ou pretendidos precursores  que
queiram jogar com o nome e o prestgio do Rio Grande, inculcando-se mais
tarde ao prmio das recompensas pessoais.
  Rodrigo sorri, abre os braos e exclama:
  - Que queres? O Getlio no tinha autorizado ningum a propor
candidaturas em seu nome ou em nome do Rio Grande.
  - A carta getuliana - continua Terncio - dizia tambm claramente que o
presidente da Repblica podia ficar certo de que o Partido Republicano
Rio-Grandense no  lhe faltaria com o apoio no momento preciso. E a
coisa no ficou apenas nisso. Getlio encarregou o dr. Paim Filho a
tomar na Cmara Federal uma posio de combate  a Joo Neves.
  - Vocs falam do Getlio como se ele fosse o nico poltico do mundo a
usar de artimanhas. Quantas cartas piores que essas que mencionaste
existem na nossa vida  poltica mas nunca foram divulgadas? O Washington
Lus, despeitado ao saber mais tarde que o Getlio havia aceito a
indicao de seu nome para a sucesso presidencial,  mandou publicar a
famosa carta de maio de 1929, por um mesquinho esprito de vingana,
para indispor seu signatrio com amigos e aliados.
  Tio Bicho, as mos sempre tranadas sobre o ventre que repetidos
borborigmos agitam, lana um olhar oblquo na direo de Terncio.
Floriano sabe que Roque sente  prazer em contrariar o
  212
  213
  estancieiro. Esta trgua agora se deve ao fato de que, com relao 
personalidade que se discute, as idias de ambos coincidem em muitos
pontos.
  Os olhos de Terncio brilham duma estranha luz - um "rancor esverdeado",
pensa Floriano - quando ele retoma a palavra:
  - O Washington Lus queria transferir para setembro de 1929 a discusso
do problema da sucesso, mas todo o mundo sabia que ele j escolhera
como seu sucessor o Jlio Prestes, quebrando a velha norma de fazer que
um  paulista fosse sucedido na presidncia por um mineiro. Ficou tambm
claro desde o princpio do ano que o Estado de Minas Gerais estava
decidido a opor-se  candidatura  oficial. Assim os mineiros fizeram uma
consulta ao nosso Maquiavel guasca, que lhes respondeu contando das boas
relaes que o Rio Grande mantinha com o presidente  da Repblica... Em
suma, foi uma resposta sutil em que no se comprometia com a gente da
montanha mas tambm no a desencorajava.
  - Vocs tm uma memria safadamente parcial - atalha-o Rodrigo. - S se
lembram do que lhes convm. Esquecem, por exemplo, que o dr. Borges, o
Flores e o Aranha  (estes dois ltimos chegadssimos ao situacionismo
paulista) buscaram at a ltima hora um acordo com o governo federal. E
que o Getlio em certa altura da campanha  declarou claramente que a
Aliana Liberal no estava subordinada a homens, mas a idias. E que se
Jlio Prestes aceitasse o programa da Aliana no todo ou em parte,  ele,
Getlio Vargas, estaria disposto a abrir mo de sua candidatura.
  Sem tomar conhecimento da interrupo, Terncio prossegue:
  - Em junho de 29, Joo Neves encontra-se no Rio a portas fechadas com
emissrios de Minas, que lhe declaram estarem dispostos a aceitar um
candidato gacho, caso  o Rio Grande decidisse entrar na luta eleitoral.
Foi o prprio Joo Neves quem me contou a histria desse "salto no
escuro". Quando os mineiros lhe perguntaram se  ele estava autorizado a
firmar naquele momento um pacto de aliana entre seu Estado e o de Minas
Gerais, respondeu que sim, sem hesitar. Seu raciocnio foi este:  no
havia tempo de consultar o chefe de seu partido. Se no assinasse o
documento imediatamente, deitaria a perder a grande oportunidade de
levar um
  214
  gacho  presidncia, pois os mineiros ficariam desconfiados ante
qualquer indeciso... Se assinasse o pacto e depois o dr. Borges de
Medeiros no o aprovasse, ele,  Joo Neves, seria o nico sacrificado.
  - No lugar dele eu teria feito o mesmo - diz Rodrigo. - Mas tudo isso 
histria antiga e sabida.
  - E qual foi a atitude do Getlio ao ter conhecimento do compromisso?
Ficou irritado, pois o pacto o obrigava a abandonar a sua trincheira de
silncio. Mesmo assim  se conservou mudo por algum tempo, sempre na
esperana de que Papai Washington acabasse escolhendo o filhinho
obediente para seu sucessor. E como resultado dessa  indeciso
getuliana, Joo Neves por algum tempo teve de suportar os olhares
desconfiados dos mineiros.
  - No te impressiones - sorri Rodrigo. - O nosso tribuno vingou-se mais
tarde de tudo isso escrevendo o "Acuso".
  - Ante a presso dos acontecimentos e do silncio de Washington Lus
quanto  sucesso, o dr. Getlio Vargas no teve outro remdio seno
aceitar a sua candidatura  oposicionista. E aqui  onde quero chegar.
Foi empurrado pelo Joo Neves para a Aliana Liberal assim como mais
tarde seria empurrado pelo Oswaldo Aranha para a  revoluo.
  - Afinal de contas - pergunta Rodrigo - de que pecado acusas o Getlio?
De no ter a simpatia de bom moo, a palavra brilhante, a rica fantasia
do Oswaldo Aranha?  Ou as atitudes de espadachim e. os impulsos
epileptiformes do Flores da Cunha? Discpulo de Castilhos, Getlio foi
sempre o homem da ordem. No queria lanar o Rio  Grande numa luta
perigosa. E depois, falemos com toda a franqueza, no conheo ningum
dotado dum amorprprio mais acentuado que o dele.  natural que tenha
sempre  procurado evitar situaes constrangedoras ou desmoralizadoras
para seus brios de homem. Pode algum censur-lo por isso?
  - O que ele queria com suas negociaes por baixo do poncho - insiste
Terncio, inflexvel - era, repito, inculcar-se como candidato oficial.
Lutou por isso at  a ltima hora,  revelia de amigos
e-correligionrios. Em 1930, j havia comeado o tiroteio da revoluo e
ele se encontrava no palcio, seguindo em calma a sua  rotina, como se
nada de anormal estivesse acontecendo...
  215
  Com os olhos enevoados de sono, a voz pastosa, tio Bicho
  conta:
  - Sei duma historiazinha pouco divulgada que ilustra muito bem o carter
do amigo do dr. Rodrigo. Na tarde de 3 de outubro de 1930, no momento
exato em que Flores  da Cunha, Oswaldo Aranha e um punhado de paisanos e
elementos da Guarda Civil atacavam de peito descoberto o quartel-general
da regio, uma dama, esposa de um dos  lderes que naquela hora
arriscavam a vida no assalto, entrou no gabinete de Getlio Vargas, no
palcio do governo, e encontrou o nosso homem fumando serenamente  um
charuto e brincando com o seu angor branco. Indignada diante daquela
atitude de indiferena, explodiu: "O senhor j pensou, dr. Getlio, que
se essa revoluo  fracassar estamos todos perdidos?" Ele ergueu os
olhos plcidos para a dama e respondeu sem altear a voz: "J. Tanto
pensei, que trago aqui no bolso um revlver.  Vivo, eles no me pegam".
  - O Getlio no  homem de suicidar-se! - exclama Terncio. - Barganhar
com a morte at o fim, como tem barganhado com os homens e com a vida.
  Rodrigo franze o cenho. Nunca ouviu a histria que Bandeira acaba de
contar, mas ela lhe evoca um fato que muito o impressionou, ocorrido em
1932, quando parecia  que a revoluo paulista ia alastrar-se vitoriosa
por todo o pas. Nos corredores do Catete correu um dia o boato de que,
para evitar a continuao da luta fratricida,  os generais iam intimar
Getlio Vargas a abandonar o governo. Estava ele, Rodrigo, com Getlio
no seu gabinete, quando Gis Monteiro entrou para explicar ao presidente
que o movimento de tropas da guarnio do Rio, que motivara o boato,
fora autorizado por ele prprio, e que a histria do ultimato dos
generais no tinha o menor  fundamento. Depois que o general se retirou,
Getlio voltou-se para o amigo e disse: "Se eles viessem, s
encontrariam o meu cadver. Trago sempre no bolso um revlver  e uma
carta dirigida  nao". Sorriu e acrescentou: "O cardeal no me leva
daqui como levou o Washington Lus".
  - Tudo isso prova - continua Terncio - que o Getlio detesta, sempre
detestou a idia de estar na oposio, sem o bafejo
  216
  oficial, no por falta de coragem pessoal, que covarde ele no , mas
por uma certa preguia mental, e pelo horror de ficar do lado que perde.
Toda a sua vida revelou  certa ojeriza pelos compromissos irrevogveis,
pelos gestos frontais. O homenzinho cultiva as atitudes oblquas,
influncia decerto dos ndios missioneiros da regio  onde nasceu e se
criou...
  Que pretenso! - pensa o dono da casa. - Que suficincia! No sei por
que estou aqui a escutar esse esnobe e no o mando quele lugar...
  Rodrigo j descobriu que sente uma certa volpia em procurar argumentos
para rebater os ataques que em sua presena se fazem ao homem de quem se
considera amigo  e que a despeito dum convvio de quinze anos (convvio
sem intimidade, pois quem neste mundo ou no outro  ntimo de Getlio
Vargas?), ele ainda no conhece direito.   a volpia do bom jogador de
xadrez diante dum lance complicado, a do verdadeiro alpinista ante uma
montanha difcil de escalar ou, melhor ainda, a do advogado  que entra
num jri para defender um ru a quem ama mas que no s se recusa a lhe
fornecer elementos para sua defesa como tambm parece comprazer-se em
irritar e  provocar o juiz e os jurados com seu silncio, seu sorriso e
sua indiferena.
  Neste mesmo momento Floriano, que continua seu lento passeio pelo
quarto, pensa: "Algum poder algum dia dizer a ltima palavra sobre
Getlio Vargas? Ou sobre quem  quer que seja? Pode uma personalidade ser
descrita em termos verbais? Impossvel. E toda a confuso vem disso.
Julgado atravs de seus atos e ditos, no mundo bidimensional  e preto e
branco das notcias de jornal, o homem pode parecer alternadamente um
santo e um demnio, um heri e um bandido, um estadista srio e um
pndego. O antigetulismo,  como o getulismo, converteu-se hoje numa
espcie de neurose coletiva. Mas at que ponto meu pai .estar
convencido da verdade das coisas que diz em defesa de Getlio?  Mas que
 a verdade? Talvez o Velho tenha assumido a posio incondicional de
amigo e mandado a verdade s favas. O que no deixa de ser uma atitude
simptica. E  um jeito de defender-se a si mesmo.
  217
  -  Terncio - pergunta Rodrigo -, que foi que o Getlio te fez? Que
reivindicao ou pedido teu ele deixou de atender? Sim, porque essa tua
m vontade para com  ele no pode ser gratuita ou puramente acadmica.
  A tez do rosto de Terncio se faz duma cor de tijolo, os msculos de sua
face se retesam, os olhos se apertam e  com voz engasgada que ele
responde:
  - Nunca pedi favores ao ditador, tu sabes muito bem. Mas vou te dizer
qual  a queixa que no s eu mas milhes de brasileiros tm do Getlio:
ele traiu a revoluo.
  Rodrigo solta uma risada e ao mesmo tempo d uma palmada no brao da
poltrona.
  - Que estranho tipo de sociologia - indaga ele com uma ponta de ironia
na voz - me andaste aprendendo l pela Sorbonne? Ser que teus mestres
te ensinaram que um  nico homem tem o poder de mudar o curso da
histria dum povo? Ou que um presidente ou mesmo um ditador pode ser
responsvel por tudo, mas tudo quanto acontece em  todo o territrio que
governa? Pelas secas, pelas chuvas, pelas safras, pelos terremotos,
pelos humores e maquinaes da oposio, pelas oscilaes do cambio? E
que me dizes de seus ministros? E dos seus secretrios? E dos amigos e
parentes - que usam seu nome em vo ou, pior ainda, com propsitos
interesseiros?
  Tio Bicho solta a sua risadinha de batrquio.
  - O engraado - diz ele -  que, quando se trata de enumerar os aspectos
positivos da era getuliana, o nosso caro anfitrio d todo o crdito ao
dr. Getlio...
  Rodrigo olha fixamente para Bandeira, muito srio.
  - Queres saber duma coisa? Vai-te  merda!
  O palavro tem a virtude de aliviar a tenso do ambiente. Tio Bicho e
Floriano desatam a rir. Terncio, apesar de seu horror aos "nomes feios"
e s atitudes deselegantes,  no consegue reprimir um sorriso. Rodrigo
aproveita a trgua para mandar vir bebidas.
  Erotildes entra, trazendo numa das mos uma bandeja cheia de garrafas e
copos, e na outra um balde com gelo.
  218
  - Para que tanto gelo? - pergunta o patro. - A cerveja no est gelada?
  - A Frigidaire anda meio encrencada - explica o enfermeiro. Tio Bicho,
que  vista das bebidas despertou por completo,
  apossa-se duma garrafa de cerveja e dum copo. Terncio e Floriano
servem-se de gua mineral.
  Erotildes vai passar de largo pelo amo, quando este o interpela:
  - Epa! E eu?
  O enfermeiro lana um olhar para Floriano, como a pedir-lhe socorro.
Rodrigo, porm, puxa-o pela aba da bata e obriga-o a dar-lhe um copo de
cerveja, com muito gelo.
  - O senhor no devia... - comea o filho.
  - No me amoles! A um moribundo no se nega nada. Algum de vocs ainda
tem dvida? Estou condenado.  questo de tempo. A troco de que vou me
privar das coisas que  gosto?
  -  que...
  - Me d um cigarro, Roque.
  Tio Bicho hesita mas, a um olhar do senhor do Sobrado, encolhe os
ombros, mete a mo no bolso, tira dele uma carteira de cigarros e
apresenta-a ao amigo:
  - Dum condenado pra outro...
  - Tu, condenado? Tens uma sade de touro. Me d o fogo. Bandeira risca
um fsforo e aproxima a chama do cigarro de
  Rodrigo, que fica por uns instantes a inalar fumaa e a expeli-la pelo
nariz, olhando para o filho com um ar de desafio e alternando as
tragadas com largos goles  de cerveja. Os cubos de gelo produzem ao
bater nas bordas do copo um rudo agradvel e evocativo a seus ouvidos.
(Usque e soda, Cassino da Urca, terceira dzia,  coristas americanas de
belas pernas, orgias na madrugada... Aquilo era vida!) Podemos agora
entrar noutros assuntos que irritem menos o Velho - pensa Floriano. E
prepara-se para perguntar a Terncio se tem recebido novos livros de
Paris. Mas o pai se antecipa:
  - Espero que vocs no presumam conhecer o Getlio melhor que eu, que
vivi perto dele durante quinze anos...
  Bandeira faz uma careta:
  - Olhe, s vezes a gente enxerga melhor de longe.
  219
  Faz-se um silncio ao cabo do qual, voltando-se para o filho, Rodrigo
diz:
  - Naturalmente ests de acordo com o Roque...
  - Por que naturalmente? Acho seu amigo Getlio uma personalidade
fascinante. Mas confesso que ainda no o decifrei direito.
  - No h nada a decifrar - resmunga Roque, cuja voz a cerveja avivou. -
Getlio  uma esfinge sem segredo.
  - Muitas vezes a sua fora vinha da fraqueza moral dos que o cercavam...
- opina Terncio.
  - Obrigado pela parte que me toca - murmura Rodrigo.
  - Se vais tomar tudo que estamos dizendo pelo lado pessoal, no podemos
conversar...
  - Podemos. Tenho o couro grosso. Mas por que no te sentas, meu filho?
Ests hoje com bicho-carpinteiro no corpo?
  Floriano senta-se.
  - Eu s vezes penso - diz ele - nos condutores de homens que o Rio
Grande tem produzido, e em como eles se parecem em matria de
temperamento. Jlio de Castilhos  gerou Borges de Medeiros, que por sua
vez gerou Getlio Vargas. O que essas trs figuras tm em comum, como um
trao de famlia,  o carter autoritrio, a par duma  certa frieza nas
relaes humanas.
  - Aonde queres chegar com o paralelo? - pergunta Rodrigo.
  - H necessidade de chegar a alguma parte?
  - Uma atitude tipicamente literria! Vocs caminham, falam, escrevem,
tecem fantasias, fices e hipteses... para chegarem a parte nenhuma.
Que autoridade tens  para falar dum homem do qual jamais te aproximaste?
Uma vez eu quis te levar ao Guanabara para jantarmos com o Getlio, tu
deste uma desculpa e no foste. Era uma  oportunidade para veres o homem
de perto. Se tivesses chegado a conhec-lo pessoalmente terias sentido
seu magnetismo.
  - Eu acho - diz Floriano - que no podemos estudar o carter do dr.
Getlio Vargas no vcuo.  preciso colocar o homem dentro das
coordenadas de tempo e espao,  numa palavra, dentro da histria. E se
quisermos ser mais exigentes, teremos de situ-lo no s no tempo
cronolgico como tambm no psicolgico.
  220
  - J me vens com os teus bizantinismos... - resmunga Rodrigo. - Mas
continua.
  Vendo trs pares de olhos postos nele, Floriano sente-se tomado da
inibio que sempre o assalta toda a vez que se v como alvo nico de
muitas atenes.
  - No quero ser solene nem pedante - prossegue. - E devo dizer que no
sou especialista no assunto. Mas acho que nosso problema ficaria mais
claro se tratssemos,  antes de mais nada, de estabelecer que tipo de
sociedade tnhamos no Brasil por volta de 1930...
  Lana para Terncio o olhar de quem pede um aliado: "O senhor, que 
doutor em sociologia, deve me ajudar". Mas l est o estancieiro,
silencioso com o ar de quem  no se quer ainda comprometer. Tio Bicho
parece dormitar, com o copo de cerveja apertado entre as coxas.
  - Bom... - prossegue Floriano. - No Brasil as fronteiras entre as
classes sociais so elsticas e imprecisas, sem a nitidez que
encontramos nas velhas sociedades  europias...
  Cala-se, embaraado, com a impresso de que o trusmo que acaba de
pronunciar paira por um instante no ar e depois lhe cai sobre a cabea
como cinza fria e v. Mas   preciso ir adiante...
  - Grosso modo havia no Brasil, dentro dos quadros dum capitalismo
comercial, industrial e financeiro, uma burguesia que se misturava com
uma alta burguesia menos  numerosa porm mais poderosa. Ambas dependiam
em maior ou menor grau de comrcio exterior, e estavam perfeitamente
acomodadas  situao semicolonial do pas, da  qual tiravam o maior
proveito possvel. No sei se estou sendo claro...
  - Claro, sim - opina Terncio. - Exato... no sei.
  - Bom. Essas duas classes tinham um aliado natural: a aristocracia
rural, que nos tempos do Imprio fazia e desfazia gabinetes e que na
Repblica, atravs principalmente  dos fazendeiros de caf, continuaram
a exercer grande influncia poltica e econmica. Foi com o dinheiro
produzido pelo caf nos seus tempos ureos que o Brasil  comeou a
industrializar-se. E o fato de muitas vezes os capites de indstria
atriburem nosso emperramento industrial  
  221
  proteo sistemtica que os governos sempre deram ao caf em detrimento da
indstria, no significa que tenha havido ou haja hostilidade entre
fazendeiros e industriais,  pois no fim de contas so todos lobos da
mesma alcateia.
  - Ests falando como o teu irmo comunista - observa Rodrigo.
  - Tenha pacincia e escute. Do outro lado tnhamos uma pequena burguesia
que cresceu depois da Primeira Guerra Mundial e que, sentindo na pele e
no bolso os efeitos  nefastos dos maus governos, estava ansiosa por
influir na poltica mas que, dentro de nossa democracia defeituosa,
pouco ou nada podia fazer com a nica arma de  que dispunha: o voto. 
natural que essa pequena burguesia se sentisse mais identificada com o
proletariado do que com as camadas mais altas. E esse proletariado,
depois de 1930, no s aumentou como tambm comeou a ter conscincia de
classe e a politizar-se, graas principalmente  ao do Partido
Comunista. H at quem  afirme que, nas revolues de 22, 24 e 26, os
tenentes se fizeram, consciente ou inconscientemente, os paladinos da
causa dessa pequena burguesia, na sua luta contra  as oligarquias, a
plutocracia e os corrilhos polticos.
  Floriano olha para Terncio, cuja expresso fisionmica agora lhe parece
de ressentimento. J observou que o estancieiro se sente lesado e at
insultado toda vez  que na sua presena algum se aventura em divagaes
sociolgicas, por mais modestas que sejam. De certo modo ele se
considera uma espcie de dono da sociologia  em Santa F e arredores.
  Floriano, um tanto perplexo ante o fato de ainda no haver sido
interrompido, continua:
  - Para melhor julgarmos o dr. Getlio,  necessrio situ-lo dentro
desse quadro que o movimento de 30 sacudiu, tumultuou, "chacoalhou",
como diz o velho Liroca.  Estou convencido de que no poderemos
compreender os primeiros anos da era getuliana se no levarmos em conta
duas poderosas correntes antagnicas, no meio das quais  o destino
colocou Getlio Vargas como uma espcie de quebra-mar de algodo...
  222
  - Isso! - exclama o tio Bicho, abrindo os olhos. - E nessa qualidade
absorvente de algodo residia grande parte da fora e da durabilidade do
homem de So Borja.
  Rodrigo sacode a cabea num acordo. Terncio, porm, permanece numa
atitude neutra.
  - Dum lado - prossegue Floriano - tnhamos os lderes dos partidos que
haviam formado a Aliana Liberal. Essa gente estava interessada apenas
numa mudana de superfcie,  de natureza poltica, numa troca de homens,
e no queria por nada deste mundo que se tocasse na estrutura econmica
e social do pas nem na Constituio de 91, coisas  to convenientes aos
interesses das classes dominantes. O dr. Washington Lus estava deposto?
Pois bem, o pas devia voltar o quanto antes  normalidade. Do outro
lado agitavam-se os tenentes, jovens veteranos de trs revolues. Esses
queriam, antes que se convocasse uma nova Constituinte, reformas de
natureza social e econmica,  reformas profundas...
  - Profundas demais para meu gosto... - interrompe-o Terncio. - Vocs se
lembram do programa tenentista? Falava em unificar o pas e para tanto
preconizava medidas  que reduziam os presidentes dos Estados a tristes
zeros  esquerda. Queria organizar sindicatos e cooperativas de
produo, promulgar leis de salrio mnimo, regulamentar  o trabalho das
mulheres e das crianas, nacionalizar as minas, as quedas-d'gua e at o
comrcio varejista. Eram reivindicaes visivelmente inspiradas na
famosa  carta de Prestes, de maio de 1930. Em suma, um programa
comunista.
  - Os tenentes - sorri Floriano - ouviam cantar o galo mas no sabiam
onde. Olhavam meio confusos ora para a direita ora para a esquerda. Num
momento pareciam comunistas  e noutro, fascistas. Miguel Costa fundou em
So Paulo a Legio de Outubro, com tinturas vermelhas, ao mesmo tempo
que Francisco Campos criava em Minas Gerais uma  outra legio com igual
nome mas com camisas caquis, nitidamente fascista...
  - Legio essa - intervm Bandeira - que o ridculo feliz-
  mente matou.
  - Tudo isso - continua Floriano - revelava o confusionismo dos tenentes.
No tinham madureza poltica mas pareciam
  223
  bem-intencionados. Pelo menos procuravam sintonizar com a hora e o mundo
em que viviam.
  - Claro - apia-o Rodrigo. - Tambm preconizavam a federalizao das
polcias estaduais para cortar a asa aos caudilhos regionais, e a
unificao da justia sob  a gide do Supremo Tribunal Federal, o que
seria um golpe de morte no coronelismo. Vocs se lembram como o corno do
Madruga costumava amedrontar e at espancar juizes  de comarca e
promotores pblicos, para conseguir deles o que queria...
  - A luta entre essas duas correntes comeou j no primeiro ano do
Governo Provisrio - prossegue Floriano. - E a maioria dos jornais,
controlada pelo grupo reacionrio  e conservador, atacava com violncia
o dr. Getlio e os tenentes. .
  - Como era possvel - pergunta Rodrigo - governar direito no meio desse
caos?
  Terncio faz um gesto brusco:
  - Mas se o prprio Getlio era o mais desconcertante dos fabricadores de
caos! Querem loucura maior que a de nomear o capito Joo Alberto
interventor dum Estado  da importncia econmica e cultural de So
Paulo? E entregar os Estados do norte a uns tenentinhos que ainda
cheiravam a cueiros?
  Rodrigo chupa o cigarro, atira a cabea para trs e sopra a fumaa para
o ar.
  - Tu te esqueces - sorri ele, com uma cordura que surpreende Floriano -
que o Clube 3 de Outubro tinha uma influncia extraordinria. A presso
dos tenentes era  muito forte. E, o que  mais importante, Getlio
simpatizava com muitas das idias "tenenustas"...
  - Eu c tenho a minha explicao para a situao de So Paulo - diz
Terncio. - Getlio, que nunca morreu de amores pelos paulistas, tudo
fez para quebrar-lhes a  castanha. A nomeao de Joo Alberto foi uma
bofetada que o ditador deu na cara do "quatrocentismo". O homenzinho no
tem paixes violentas, mas costuma alimentar  raivas fininhas e
duradouras, o que  pior. Prefiro mil vezes os repentes do Flores da
Cunha. Com ele pelo menos
  224
  a gente sabe a quantas anda. O homem pode ser impulsivo e violento, mas
depois de seus desabafos no guarda rancores. Rodrigo sacode a cabea:
  - Perdeste teu tempo na Sorbonne, meu caro Terncio, permite que te
diga. Para usar uma frase do velho Fandango, os livros passaram por ti
mas tu no passaste pelos  livros.
  Floriano nota que Terncio no gostou da brincadeira. Est srio, a pele
do rosto esticada sobre os malares, a boca apertada. Ergue-se, d alguns
passos na direo  da porta, como se fosse retirar-se, mas a meio
caminho estaca e, sem olhar para o dono da casa, murmura:
  - Eu preferia que no insistisses tanto no fato de eu ter feito um curso
na Sorbonne. Nunca me gabei disso.
  Rodrigo faz um gesto de paz.
  - Homem de Deus! Ficaste zangado? Senta. s uma sensitiva e no entanto
achas que os outros devem ter pele de jacar. No te esqueas de que o
Getlio  meu amigo  particular. Quando o insultas ests insultando
tambm a mim.
  - Ora, o Getlio  j uma figura histrica - replica Terncio -
queiramos ou no.  possvel falar dele com franqueza e mesmo rudeza,
dum modo... digamos impessoal,  como se discutssemos uma personagem de
romance.
  - Est bem - sorri Rodrigo. - Sejamos impessoais e continuemos os
insultos. Senta, por favor. E no esqueas que ests diante dum homem em
artigo de morte. Isso  no me d certos privilgios e imunidades?
  O relgio l embaixo anuncia com um gemido metlico que so nove e meia.
Tio Bicho acende um novo cigarro. Rodrigo imita-o. Floriano esboa um
protesto, mas o pai  imobiliza-o com um olhar. Faz-se um curto silncio
em que se ouve o latido longnquo dum cachorro. Surge a figura de
Erotildes emoldurada pela porta.
  - Precisa dalguma coisa, doutor?
  - Preciso de mais vinte anos de vida - grita Rodrigo. - Podes me
conseguir isso?
  225
  A cara do enfermeiro est vazia de qualquer expresso, e nesse vcuo
sardento e oleoso os olhos claros piscam de imbecilidade.
  - Traga mais cerveja - ordena o dono da casa. - Ponha mais gelo no
balde. E pea a dona Slvia que nos faa um cafezinho bem bom.
  Ao ouvir o nome da cunhada, Floriano sente um rpido e clido
formigamento percorrer-lhe o lombo.
  - Sabem vocs o que me disse uma vez o Getlio naqueles dias brabos da
crise paulista? - torna a falar Rodrigo - quando os "carcomidos" o
pressionavam dum lado e  os tenentes do outro? "Eu devia andar com um
uniforme zebrado." Perguntei: Por que, presidente? E ele: "Porque o que
sou mesmo  um prisioneiro".
  - O Getlio foi sempre um humorista... - murmura Terncio.
  - Ah! Isso ele . - Rodrigo fica um instante pensativo, a sorrir para
uma recordao. - H uma histria muito boa...  verdica porque eu me
achava presente quando  a coisa aconteceu. A crise paulista estava no
auge. O Estado de S. Paulo, o general Isidoro e o Partido Democrtico
atacavam violentamente Joo Alberto e incitavam  contra ele o dio
popular. Um dia um grupo de prceres paulistas procurou o Getlio e
pediu-lhe que desse uma soluo urgente ao problema, pois a coisa no
podia  continuar como estava. O homenzinho escutava-os em silncio,
caminhando dum lado para outro, rumando sereno o seu charuto, a cara
impassvel. Os paulistas continuaram  a pintar o quadro com as cores
mais negras. Num dado momento, julgando que Getlio no compreendia a
gravidade da situao, um deles exclamou num arroubo de tragdia:  "Se o
capito Joo Alberto no deixar a interventoria, presidente, ele ser
fatalmente assassinado". O Getlio parou, soprou uma baforada de fumaa
e, sem altear  a voz, disse: "Olhem, a est uma soluo".
  Tio Bicho desata a rir. Mas Terncio observa, srio:
  - Humeur noire. No  o meu gnero.
  - Qual! - exclama Rodrigo, bonacho. - No fundo tu gostas do homem.
Ests na situao daquele Judeu Errante, do
  226
  Machado de Assis, que julgava odiar a vida. "Ele no a odiava tanto
seno porque a amava muito."
  Tio Bicho levanta-se com um gemido e encaminha-se para o quarto de
banho.
  - Uma vez o general Gis Monteiro me disse... - principia Terncio.
  Rodrigo, porm, interrompe-o, impetuoso:
  - Ora, o Gis! Que foi que esse confusionista de m morte j no disse?
Vivia alarmando a nao com suas entrevistas asnticas. Enquanto estava
ao lado do Getlio,  s criou dificuldades para seu governo. E no fim
fez o papel de Judas, atraioando o homem que o havia tirado do
anonimato duma guarnio federal em Santo ngelo  para projet-lo numa
grande posio na vida pblica nacional. Ora, o Gis!
  Terncio no termina a frase. Fecha-se num silncio ressentido.
  - Vira bem esse ventilador pr meu lado, meu filho.
  Floriano obedece. Rodrigo desabotoa a camisa, expondo o peito  corrente
fresca que vem do aparelho. Erotildes entra com mais garrafas de cerveja
e o balde de gelo.
  - O calor est aumentando... - murmura Floriano, passando o leno pelo
rosto mido de suor..
  - Enfim - diz Rodrigo, tornando a encher seu copo - os tenentes deitaram
tudo a perder quando empastelaram o Dirio Carioca, sob a alegao de
que o jornal tinha  publicado um editorial insultuoso aos brios da
"classe"...
  Tio Bicho, que neste momento volta para seu lugar, diz:
  - A sorte deste pas  que os militares mais tarde ou mais cedo cometem
uma burrada, metem os ps pelas mos, no se entendem entre si e assim
ns nos livramos da  calamidade que seria uma ditadura militar.
  - Foi por essa poca - lembra Terncio - que Getlio comeou o seu
perigoso namoro com o exrcito que acabou na boda sinistra de 10 de
novembro de 1937.
  -  engraado - diz tio Bicho. - O Gis agora acusa o Getlio de ter
tido sempre uma certa m vontade para com as foras armadas...
  227
  - No entanto, o Getlio - conta Rodrigo - me confessou um dia que quando
moo teve uma grande fascinao pela farda e pelas glrias militares...
  - Confessou? - repete Terncio, incrdulo. - Esse verbo jamais poder
ter como sujeito Getlio Vargas. Esse homem fechado e reticente nunca
confessou nada a ningum.  Quando fala  s para fazer perguntas.
  Rodrigo bebe com gosto um gole de cerveja, solta um ah! de puro prazer,
lambe a espuma que lhe ficou nos lbios e depois, como se no tivesse
ouvido as palavras  de Terncio, comenta:
  - O empastelamento do Dirio Carioca, essa demonstrao de fora bruta e
todo esse acintoso aparato de metralhadoras e caminhes militares
assustaram e alienaram  a parte do povo que porventura simpatizasse com
a causa dos tenentes. Vocs sabem... o brasileiro detesta a violncia, 
visceralmente andmilitarista.
  - Mas teu amigo nada fez para punir os culpados.
  - No  verdade! Mandou instaurar um inqurito para apurar
responsabilidades e ver at que ponto havia oficiais do exrcito
envolvidos no assalto.
  - Pura cortina de fumaa! - replica Terncio. - O ministro da Guerra se
ops a que os oficiais responsveis pelo empastelamento fossem punidos.
O Getlio no teve  coragem de contrarilo... Foi ento que o ministro
da Justia e o chefe de polcia se demitiram, desencadeando uma crise
ministerial.
  - Ora! O Lindolfo Collor, o Maurcio Cardoso, o Joo Neves e o Batista
Luzardo andavam mais era ansiosos por descobrir um pretexto para criar
uma crise. Estavam  atacados do vrus da conspirao. Se eles quisessem
mesmo "salvar" a Revoluo de 30, teriam ficado no Rio ao lado do
Getlio. No entanto optaram pela soluo mais  dramtica. Voltaram para
o Rio Grande com ares de vtimas e foram conspirar debaixo das asas
agitadas do general Flores da Cunha, sob o olhar benevolente do dr.
Borges de Medeiros.
  - E assim - resmunga tio Bicho, abrindo os olhos que o sono comea a
empanar - se completou a ruptura da famlia republicana gacha, to
unida desde os tempos do  Patriarca. E o
  228
  Getlio, que se havia rebelado contra Papai Borges, era agora abandonado
pelos irmos...
  - Pois a est - diz Rodrigo. - Como queriam vocs que o Getlio
administrasse o pas em meio desses entrechoques de paixes partidrias
e interesses pessoais? So  Paulo clamava por um interventor civil e
paulista. O presidente fez-lhe a vontade. Isso resolveu o impasse?
Nncaras! A agitao continuou. Populares atacaram e  incendiaram a sede
da Legio de Outubro; no assalto morreram quatro estudantes que foram
imediatamente transformados em mrtires, em estandartes da rebelio.
Finalmente  veio a revoluo armada... que So Paulo prefere se chame
guerra civil... est bem, v l! Ao saber da notcia, Getlio filosofou:
"Dizem os paulistas que esto  lutando pela volta do pas ao regime
constitucional. Mas eu acho que a razo  outra. Eles devem saber que j
nomeei uma comisso para elaborar o anteprojeto da  nova Constituio.
No podem dizer que ignoram isso, pois o decreto foi publicado em todos
os jornais. Dei tambm soluo ao problema do caf... logo no devem ter
queixas de meu governo nesse setor. O que eles querem mesmo  me
expulsar do Catete".
  - Segundo os correligionrios de seu filho Eduardo - diz Bandeira -,
essa revoluo paulista foi apenas uma luta entre dois grupos burgueses
de fazendeiros e banqueiros  que serviam, um, os interesses do
imperialismo americano, e outro, os do imperialismo ingls. Ningum
ignora as ligaes de Armando Salles com a alta finana britnica.
Afirmam os "comunas" que a Inglaterra no se conformou com a guinada que
o Brasil deu para o lado dos Estados Unidos depois de 1930, e procurou,
atravs duma vitria  de So Paulo, reaver a colnia perdida.
  - Conversas! - exclama Rodrigo. - Fantasias! A coisa  mais simples. O
que So Paulo queria era recuperar a hegemonia poltica nacional que lhe
escapou das mos  em 30. E vocs j pensaram que, se essa revoluo
tivesse sido vitoriosa, o pas seria obrigado a adotar a famigerada
ortografia do general Bertoldo Klinger?
  - Seja como for - diz Terncio -, foi um belo movimento em que os
paulistas deram provas admirveis de coragem fsica e moral.
  229
  - De acordo - replica Rodrigo -, mas foi uma revoluo de gr-finos. A
massa operria permaneceu indiferente.
  - Houve um momento - intervm Floriano - em que a vitria de So Paulo
dependeu do Rio Grande. At hoje no compreendo como e por que o general
Flores da Cunha faltou  com seu apoio aos paulistas...
  - Muito simples - tenta explicar Terncio. - O Flores e o Aranha sempre
viveram fascinados, hipnotizados pelo Getlio. Na hora da deciso, nosso
general ficou com  o Bruxo. E com o correr do tempo o Getlio os
triturou e devorou a ambos. Tirou o Flores da interventoria e forou-o a
exilar-se. E quando parecia que o Aranha comeava  a impor-se como um
candidato natural  presidncia da Repblica, Getlio mandou-o para
Washington como embaixador.
  Tio Bicho faz uma careta de incredulidade e disse:
  - Essa  a explicao mgica para o gesto de fidelidade do Flores da
Cunha em 32. Eu c me inclino para uma explicao lgica. Getlio usou
contra o general Flores  da Cunha a sua arma secreta: o Banco do Brasil.
O Rio Grande precisava de dinheiro...
  -  irritante a maneira parcial e injuriosa como vocs interpretam as
pessoas e os acontecimentos! - exclama Rodrigo.
   entrada de Slvia, que traz uma bandeja com um bule de caf, um
aucareiro e vrias xcaras, faz-se no quarto um silncio repentino em
que os homens se remexem  nas suas cadeiras, procurando uma postura mais
condizente com a presena duma mulher. Rodrigo abotoa a camisa. Tio
Bicho fecha as pernas. Terncio ergue-se respeitosamente.  Mau grado
seu, Floriano sente alterar-se-lhe o ritmo do corao. Absurdo! Uma
reao de colegial enamorado... Procura uma frase para dizer - algo de
casual que mostre  aos outros e tambm a Slvia que a presena dela no
o perturba. Mas continua mudo, os olhos irresistivelmente postos na
cunhada. Ela serve primeiro o dr. Terncio,  que recusa acar, e depois
tio Bicho, que pe na sua xcara trs colheradas.
  - Caf, Floriano? - pergunta ela.
  230
  Ele faz com a cabea um sinal afirmativo. Slvia aproxima-se de olhos
baixos, e, ao segurar o bule para servir o cunhado, sua mo treme. O
perfume e o calor dela  envolvem Floriano. E h um momento em que ele
tem mpetos de estreit-la contra o peito. (Rodrigo observa-os
disfaradamente.)
  - Acar?
  Agora  a mo dele que treme ao tomar a colher do aucareiro. E por um
rpido instante os olhares de ambos se encontram, ela sorri dum jeito
entre triste e resignado,  e ele julga ler nessa expresso uma mensagem:
Eu sei que tu me queres. Tu sabes que eu te quero. Mas ns dois sabemos
que no h soluo.
  Slvia faz meia-volta e encaminha-se para a porta.
  - E eu, minha flor? - pergunta Rodrigo.
  Ela pra, lana um sorridente olhar de dvida para o sogro.
  - E o sono?
  - No te preocupes, meu bem. Estou mais perto do que imaginas do Grande
Sono.
  O chantagista sentimental! - pensa Floriano.  verdade que ele vai
morrer, mas por que ser que suas palavras soam falso como mau teatro? A
verdade  que l est  o Velho, a cara subitamente triste, o olhar
brilhante e Slvia parada na frente dele, com a bandeja na mo, tambm
de olhos piscos.
  Rodrigo toma o seu caf em trs rpidos sorvos e depois rapa com a
colher o acar que ficou no fundo da xcara e come-o com um prazer
infantil. Os outros repem  na bandeja suas xcaras vazias, com os
costumeiros elogios e agradecimentos. Slvia prepara-se para sair quando
o sogro lhe pede:
  - Um beijo para o padrinho...
  Ela lhe oferece o rosto, que ele segura com ambas as mos, beijando-lhe
as faces. Floriano volta as costas  cena. No aceita a inocncia
daqueles beijos. Conhece  demais a sensualidade do pai para se iludir. E
na sua cabea agora vrias imagens se misturam - Bibi, Slvia, Snia -
num amlgama incestuoso. E ele se irrita consigo  mesmo por pensar e
sentir estas coisas.
  No v, apenas ouve Slvia sair do quarto.
  231
   bom aproveitar a pausa - reflete ele - para mudar o rumo da conversa.
Vou perguntar ao dr. Terncio como vai o livro que est escrevendo...
Intil! O estancieiro  e o dono da casa esto de novo a discutir a
Revoluo de 32. E quando, minutos mais tarde, fazem uma pausa, Floriano
diz:
  - Tenho uma confisso a fazer...
  - Que ? - pergunta o pai.
  - Durante a revoluo de So Paulo, a polcia do Rio proibia  populao
escutar as notcias irradiadas pelos revolucionrios. L em casa o
senhor reforou essa  proibio, dizendo (eu me lembro claramente de
suas palavras) que no queria que nos envenenssemos com as mentiras dos
rebeldes. Pois bem. Aqui vai a confisso:  este seu filho renegado
fechava-se todas as noites no quarto para ouvir em surdina no seu rdio
o boletim de notcias das estaes paulistas.
  Espanto na cara de Rodrigo.
  - Mas por qu? Desejavas a vitria dos revolucionrios? Floriano tem um
momento de hesitao.
  - Tinha as minhas simpatias pela causa...
  - Mas por qu? Por qu? Que podias ganhar com a vitria da plutocracia
quatrocentista? No sabias que era uma revoluo contra o Getlio, que 
meu amigo, e portanto  uma revoluo contra mim, que sou teu pai?
  - No se esquea - murmura tio Bicho - que seu mano Torbio tambm lutou
do lado de So Paulo.
  Rodrigo fecha a cara, e Floriano compreende que Bandeira machucou uma
ferida cicatrizada. Lembra-se da reao do pai quando em fins de julho
de 1932 recebeu a notcia  de que Torbio estava comandando um batalho
de revolucionrios paulistas. "Idiota! Fazer uma coisa dessas sem me
consultar! Parece um guerreiro profissional, um  mercenrio, um homem
sem ideais! O que importa pra ele  brigar, dar tiros." Depois, passado
o primeiro acesso, tomou ares de vtima. "Parece mentira. O meu irmo,
o meu nico irmo, de armas na mo contra mim."
  232
  Rodrigo continua em silncio. Um tanto desconcertado, tio Bicho, para
fazer alguma coisa, amassa a ponta do cigarro no cinzeiro, tira outro do
bolso, prende-o entre  os dentes e acende-o.
  Floriano levanta-se e vai debruar-se  janela. O ar quente e perfumado
da noite bafeja-lhe o rosto. Fica a pensar nas noites que tem passado
ultimamente, depois  que Jango voltou para o Angico, e em que a simples
idia de ter a cunhada sozinha a pequena distncia de seu quarto o enche
dum alvoroo que  a um tempo intenso  desejo carnal, apreenso, temor,
sentimento de culpa e outra vez desejo ainda mais intenso... Sim, e
tambm expectativa - uma expectativa exasperante que o deixa  num estado
quase febril, mantendo-o alerta, atento aos menores rudos - e assim se
passam os segundos, os minutos, as horas, e ele escuta, angustiado, as
batidas  do relgio grande, e o silncio volta, e nada acontece e ele
fica a revolver-se na cama, sentindo o desejo doer-lhe no corpo,
esperando que o sono venha, mas sabendo  que no vir ou que, se vier,
ser uma modorra que no lhe dar repouso, um crepsculo povoado de
sonhos equvocos em que todo o seu sentimento de culpa por desejar  a
cunhada e toda a sua frustrao por no satisfazer esse desejo lhe
aparecem disfarados nas imagens mais estranhas e inquietadoras. O
remdio ser tomar um comprimido  de Seconal ao deitar-se.  preciso
dormir, pois suas noites de insnia ou de sono perturbado j se lhe
esto fazendo visveis na cara, j comeam a afetar-lhe a  memria.
  Chega-lhe aos ouvidos a voz sonolenta de tio Bicho:
  - Um dos fatos mais portentosos da nossa histria foi o dr. Borges de
Medeiros ter em 1932 despido a sua sobrecasaca, tirado o seu colarinho
duro, envergado seus  trajes campeiros e sado para a coxilha de arma na
mo, a fim de cumprir o compromisso de honra assumido com os
revolucionrios de So Paulo e trado pelo Flores  da Cunha.
  - Um gesto puramente romntico... - diz Rodrigo.
  - Mas duma grandeza moral extraordinria! - exclama Terncio.
  - E ao lado do Chimango - continua tio Bicho -, de leno vermelho no
pescoo, marchavam Batista Luzardo e outros
  233
libertadores que em 1923 haviam feito uma revoluo para derrub-lo do
poder... revoluo essa que permitiu ao Getlio ser eleito governador do
Estado e mais tarde presidente da Repblica. No  mesmo uma poltica
surrealista, a nossa?
  - S no posso compreender - fala agora Terncio - como  que Getlio,
depois de derrotar So Paulo, consentiu na convocao duma Constituinte
que nunca desejou.
  - Ora... - diz Rodrigo - quem explicou o fenmeno com uma clareza
cristalina foi o Aranha. Quando um tenente o interpelou a respeito do
assunto, respondeu que o pas estava diante dum dilema: ditadura ou
Constituio. A ditadura administrativa sem a revoluo poltica  a
antecmara da Constituio. Toda a ditadura que no  revoluo ser
caminho do regime legal. Os "carcomidos", que tinham ainda uma grande
fora, no deixavam Getlio fazer a revoluo. Logo...
  Floriano torna a sentar-se.
  - A Constituio de 1934 - diz Rodrigo -, a carta pela qual vocs
democratas tanto suspiravam, no passou dum aborto, um monstrengo
hbrido. Aqui esquerdizante, mais adiante fascistizante (para acompanhar
a moda), e ainda mais alm reacionria, recebeu no fim uma leve e
vistosa camada do acar cristalizado do liberalismo. No tinha unidade
doutrinria nem tcnica. Ora parecia uma Constituio feita para povos
verdadeiramente civilizados, como os escandinavos, ora dava a impresso
dum estatuto destinado a reger uma comunidade colonial de botocudos. Uma
verdadeira salada mista... e com azeite ranoso! Como muito bem disse o
Getlio, a nova carta deixava o presidente da Repblica sem recursos
para defender-se diante da desenfreada disputa dos Estados.
  Terncio ergue a mo em cujo anular brilha tambm um rubi:
  - A coisa  mais simples. O Getlio no sabia mais administrar dentro
dum regime legal. Estava viciado em governar por decretos.
  Rodrigo sorri. Depois, mexendo com o indicador nos cubos de gelo que
biam na cerveja de seu copo, diz:
  234
  - Eu me lembro muito bem do dia em que foram contar ao presidente que a
nova carta tinha sido promulgada. Ele  ficou impassvel e depois me
olhou, sorriu, e disse: "Tenho o palpite de que eu vou ser o primeiro
revisionista  dessa Constituio".
  - Revisionista? - repete tio Bicho. - Que colossal eufemismo!
  - E vocs vo concordar comigo - prossegue Rodrigo -, aqueles trs anos
em que Getlio governou o pas  como presidente eleito pela Constituinte
foram dos mais agitados. Um minuano trgico varria o mundo: golpes de
Estado, sabotagens, assassinatos polticos, fermentaes sociais de toda
a ordem... A chamada democracia liberal  perdia terreno
assustadoramente. Os regimes totalitrios se fortaleciam. Os campos
estavam divididos nitidamente  em esquerda e direita. E vocs sabem que
o Brasil no vivia dentro de nenhuma redoma invulnervel... Fundou-se  a
Ao Integralista Brasileira, que fez a sua primeira parada com camisas
verdes em 1933, e comeou logo a ganhar adeptos... Por sua vez os
comunistas se articulavam  sombra da Aliana Nacional  Libertadora. E
no preciso lembrar-lhes o que foi a brutalidade daqueles levantes
vermelhos de 1935...
  - Por falar em 1935 - interrompe-o tio Bicho. - A visita que o
presidente fez ao Rio Grande nesse ano, para  assistir s festas do
Centenrio da Revoluo dos Farrapos, parece que deixou bem acentuada a
deteriorao de  suas relaes com seu velho companheiro Flores da
Cunha.
  - Exatamente - diz Rodrigo. - O Flores fez ao presidente toda a sorte de
desfeitas imaginveis. Hospedou-o no  palcio do governo mas tratou-o
como a um desafeto. Segundo me contou o prprio Getlio, o general
chegou a  violar sua correspondncia cifrada para divulg-la na
imprensa.
  - Nessa no acredito! - exclama Terncio. - O Flores tinha muitos
defeitos, mas no era homem capaz duma  coisa dessas.
  - Quem me contou a histria foi o prprio Getlio, cuja palavra me
merece todo o crdito. E me disse mais: "Tu  sabes, o Flores anda
obcecado pela idia da sucesso presidencial. Acha que eu quero me
perpetuar no poder.  Intromete-se na poltica dos 
  235
  outros Estados. Estou seguramente informado de que anda comprando armas".
  - H um episdio - lembra tio Bicho - que seu amigo talvez no lhe tenha
contado, mas que eu presenciei. Na  noite em que essas duas primas-donas
polticas visitaram o Cassino Farroupilha, o dr. Getlio entrou primeiro
com a  sua comitiva e provocou aplausos discretos. Minutos depois entrou
o general Flores da Cunha e foi recebido com  vivas e palmas, numa
verdadeira consagrao.
  Rodrigo encolhe os ombros.
  - Achas que isso magoou o Getlio? Ento no o conheces. Ele tem horror
s cenas teatrais. Ter as suas  vaidades, como todo o mundo, mas elas
no so epidrmicas como as do Flores, nem se alimentam de aplausos,
vivas e bajulaes. E tu sabes muito bem, Bandeira, que essa recepo
que o general teve no cassino foi preparada  pelos cafajestes que sempre
o cercaram, alguns dos quais exerciam as funes acumuladas de capangas
e cftens.
  H um silncio, que Rodrigo quebra com uma risada.
  - O Getlio merece um livro! - exclama.
  - Acho que sou eu quem vai escrev-lo - ameaa Terncio.
  - E por que no? S te peo uma coisa. Trata primeiro de conhecer bem o
homem.
  - Tu o conheces bem?
  - Bem, bem mesmo no posso dizer que o conhea. Ningum conhece... S
Deus. Mas melhor que tu, ah!, disso  tenho a mais absoluta certeza. E se
queres, posso desde j te dar umas notas psicolgicas sobre o nosso
heri...
  - Considero-te suspeitssimo no assunto.
  - Mas escuta. Escutem todos vocs. Antes de mais nada o bigrafo de
Getlio Vargas ter de levar em conta  certos traos de seu carter que
o tornam uma figura singular neste pas, dando-lhe vantagens muito
grandes sobre  os outros polticos.  um homem calmo numa terra de
esquentados. Um disciplinado numa terra de indisciplinados.  Um prudente
numa terra de imprudentes. Um sbrio numa terra de esbanjadores. Um
silencioso numa terra de  papagaios. Domina seus impulsos, o que no
acontece com o Flores
  236
  da Cunha. Controla sua fantasia, coisa que o Oswaldo Aranha no sabe
fazer. Se o Joo Neves usa da sua palavra  privilegiada para dizer
coisas (e coisas que s vezes o comprometem), Getlio  o mestre da arte
de escrever e  falar sem dizer nada.
  - E tu consideras isso uma virtude? - pergunta Terncio.
  - Num pas imaturo como o nosso, considero. Muitas vezes no dizer nada
para um poltico  um gesto de defesa  comparvel ao de certos animais
que por mimetismo conseguem tornar-se da cor do terreno, para ficarem
invisveis  e para salvarem a pele.
  - No esqueas que o Getlio se tem revelado o maior corruptor da nossa
histria... - interrompe-o Terncio.
  - S se corrompe aquilo e aqueles que so corruptveis. Como dizia
Machado de Assis, a ocasio faz o furto e no  o ladro, porque este j
estava feito. No queiras culpar o meu amigo da vulnerabilidade dos
outros polticos  brasileiros. Vtimas de suas paixes: mulheres, jogo,
cavalos de corrida, luxo e outras fraquezas e vaidades, ficam  s vezes
 merc de quem tem a chave do Banco do Brasil e dos grandes empregos.
  - Mas o que ests dizendo  algo de monstruosamente cnico!
  - Perdo. Eu no inventei este mundinho em que vivemos. Ele existiria
mesmo que eu no existisse.
  Faz-se um silncio, ao cabo do qual Floriano se dirige ao pai:
  - O senhor afirma ento que Getlio  um homem absolutamente sem
paixes?
  Rodrigo hesita um instante. Depois:
  - No - diz. - Acho que sua grande, talvez a sua nica paixo  a do
poder.
  - Poder para qu? - pergunta Terncio. - Para nada?
  - Talvez poder pelo poder - intervm o tio Bicho: - Ars gratia anis.
  - Mas cinqenta milhes de brasileiros no podem ficar na dependncia
desse capricho pessoal! - exclama  Terncio.
  Rodrigo encolhe os ombros.
  Novo silncio. Ouve-se um toque de cometa que parece vir dos confins da
noite, e que tem o poder de provocar  simultaneamente a mesma imagem,
tanto na cabea do pai como na do filho:
  237
  o tenente Bernardo Quaresma pregado a balaos contra uma parede branca
respingada de sangue...
  O ventilador zumbe. Tio Bicho boceja. Terncio olha para o relgio,
descruza as pernas, mas Rodrigo o detm com  um gesto que quer dizer:
"Fica mais um pouco".
  Por qu? - pergunta-se a si mesmo num sbito acesso de mau humor. No
simpatizo com ele. Um esnobe. Um  pedante. Um vaidoso. Por que razo
desejo que ele venha todas as noites e, quando vem, lhe peo que fique?
Tio  Bicho... esse  uma espcie de mau hbito antigo. Mas por onde
andar o outro, o Stein? Que fim levou o  Eduardo? E o Zeca? Uns
ingratos. O Liroca no me aparece h sculos! Todos uns mal-agradecidos.
Flora bem  podia abafar o orgulho cinco minutos por dia e vir conversar
comigo. No sou nenhum criminoso. E Bibi... por que  no vem me ver? O
Sandoval... j compreendi o que est se passando na cabea desse
canalha. Sabe que estou no  fim, quer ficar com o meu cartrio. Deve
estar rezando para que eu morra. Sacripanta! Talvez todos desejem a
minha morte. Ser um alvio geral. Uma soluo. Cada qual poder seguir
o seu caminho. Cada qual ficar com a  sua parte no meu esplio. Mas 
desumano.  injusto.  monstruoso! E a Snia? A poucas quadras daqui, e
eu sem  poder estar com ela... Talvez tambm receba a minha morte com
uma sensao de alvio. Um amante invlido de  nada lhe serve. Como pude
acreditar no seu amor? Decerto a esta hora est com um homem na cama. O
bilhete  que me mandou nada significa,  pura hipocrisia. Sozinho. Estou
sozinho. No conto com ningum. Nem mesmo  com Slvia. No duvido da
afeio dela, mas j notei que anda cansada. Para essa menina minha
morte tambm vai  ser um alvio. Abandonado. Sem ningum. Floriano, meu
filho, tu tambm no compreendes? Mas no vou dar a  vocs o gosto de me
verem chorar.
  O suor escorre-lhe pelo rosto e pelo torso. Rodrigo pega uma pedra de
gelo e comea a pass-la na testa e nas  faces. Sabe que quando todos
forem embora ele vai ficar sozinho aqui neste quarto. Tem medo da noite.
Do  silncio da noite. Da solido da noite. Da implacvel memria da
noite. Que fiquem todos comigo at a madrugada.  E no apaguem as luzes.
No apaguem as luzes!
  238
  Floriano franze o sobrolho:
  - Ningum vai apagar as luzes, papai.
  - Hein?
  Rodrigo percebe que pensou em voz alta. Sorri e diz:
  - Arteriosclerose cerebral, meu filho. No te espantes, o teu dia tambm
chegar.
  Floriano quer desviar a conversa para outro assunto, mas Terncio inicia
nova catilinria contra o golpe de 10 de  novembro de 1937. Rodrigo
escuta-o agora com uma pacincia meio aborrecida e, aproveitando uma
pausa do outro, diz:
  - Eu explico esse golpe de Estado de outro modo. Escutem. Quando se
aproximava o fim do perodo presidencial  iniciado em 34, o Brasil,
vocs se lembram, apresentava um quadro alarmante. O Armando S alies era
o candidato da  plutocracia paulista saudosa do poder. Plnio Salgado
candidatava-se em nome dos integralistas, com um programa  totalitrio.
O dr. Goebbels lanava suas redes de espionagem e intriga sobre o
Brasil, articulando camisas-verdes  com camisas-pardas. Escolhido como
candidato oficial  sucesso, Jos Amrico procurava atrair as esquerdas
com  frases e promessas avermelhadas, e os comunistas j se aninhavam 
sua sombra. O Flores da Cunha, que apoiava  o Armando Salles, tinha no
Rio Grande uns vinte mil homens em armas. Havia at quem pressionasse o
Getlio  para que ele entregasse o governo aos integralistas, ficando
com relao ao Plnio Salgado assim como o general  Hindenburg estava
com relao a Hitler. De Washington, preso aos encantos desse outro
bruxo que era o  presidente Roosevelt, Oswaldo Aranha puxava a sardinha
brasileira para a brasa americana... A confuso era geral.
  - E nesse mar revolto e incerto - diz tio Bicho - seu amigo Getlio
navegava no seu barquinho de papel, ao  sabor do vento e das
correntes...
  - E como soluo para a grande crise - ironiza Terncio - inventou-se o
Plano Cohen.
  - Hoje se sabe - diz Rodrigo - que esse documento foi forjado pelos
integralistas. O Gis fingiu que acreditava  nele...
  239
  - O Gis e o Getlio - completa tio Bicho. Rodrigo sorri.
  - No. O Getlio deixou que o Gis fingisse por ele. E lavou as mos.
  - No fez outra coisa durante todo o seu governo seno parodiar Pilatos
- diz o estancieiro. - E esse plano  fantstico, essa conspirao
inexistente foi o pretexto para o golpe de 1937 e para o famigerado
Estado Novo!
  - O curioso - intervm Floriano -  que j por essa poca a atitude e a
filosofia getulianas, essa sua  neutralidade, essa capacidade de
omitir-se diante dos acontecimentos, essa espcie de fatalismo
cnico-gaiato do  "vamos deixar como est para ver como fica" tinham de
tal maneira contaminado o pas, que o prprio presidente  quase acabou
vtima dela. Eu me refiro ao assalto ao Palcio Guanabara em maio de 38.
Ningum pareceu muito  interessado em salvar a vida do ditador e de sua
famlia...
  Rodrigo varre logo a testada:
  - Por desgraa eu estava em Petrpolis nessa noite e s fiquei sabendo
da coisa no dia seguinte. Desci  imediatamente.
  - Os socorros levaram quase cinco horas para chegar - prossegue Floriano
-, isto , o tempo suficiente para  que os assaltantes liquidassem
Getlio Vargas e boa parte de seu cl. Todos pareciam dispostos a
aceitar o fato  consumado, com a vantagem de ficarem com as mos limpas
de sangue...
  - Por falar em sangue - diz Terncio - h um episdio desse golpe que a
imprensa no divulgou. Depois que  os socorros chegaram e os assaltantes
foram dominados, algumas dezenas de prisioneiros foram fuzilados ali
mesmo, sumariamente, nos jardins do palcio.
  - Que calor brbaro! - exclama Rodrigo. E num gesto brusco despe a
camisa e atira-a em cima da guarda da  cama. Fica a apalpar o ventre e a
olhar fixamente para o estancieiro. Depois diz: - Vocs s enxergam o
lado  negativo do Estado Novo. Dizem que ele suprimiu as liberdades
civis, fechou a Cmara e o Senado, instituiu a  censura, deu fora ao
DIP, e mais isto e mais aquilo... Floriano, vai me buscar uma toalha l
no quarto de banho...
  240
  Quando o filho lhe traz a toalha, Rodrigo pe-se a enxugar as costas e o
peito por onde o suor escorre em grossas  bagas.
  - Vocs intelectuais vivem enchendo a boca com a palavra liberdade.
Agora eu pergunto: para que as massas ho  de querer liberdade? Para que
querem imprensa livre os favelados? O que essa pobre gente deseja mesmo
 ter o  que comer, o que vestir e onde morar.
  - Lus Carlos Prestes falou pela sua boca... - diz Bandeira.
  - Espera, Roque. Me deixa continuar. Este pais precisava e ainda precisa
dum homem como o Getlio, dum  governante paternal capaz de descer ao
nvel do povo e dar-lhe exatamente o que ele necessita. Reconheo que ao
assumir o governo provisrio em fins de 30 o Getlio no tinha programa
definido, no sabia que fazer, mas depois  encontrou duas grandes metas,
dois grandes objetivos: melhorar as condies de vida do povo e
proclamar a  independncia econmica do Brasil. Olhem para trs e vejam
quanta coisa esse homem extraordinrio realizou...
  Terncio mira fixamente a ponta dos prprios sapatos, os lbios
encrespados numa expresso de cepticismo.
  - Manteve a unidade nacional - continua Rodrigo. - Evitou o caos e a
runa. Se no fosse a coragem e a  habilidade do Getlio, o Brasil hoje
estaria nas mos dos comunas do Prestes ou dos galinhas-verdes do
Plnio.
  - Diz o Eduardo - interrompe-o tio Bicho - que est nas mos dos
americanos.
  - No sejam bobos. Virem esse disco batido. O pas seria vendido aos
americanos se o candidato da UDN fosse  eleito, o que felizmente no
aconteceu. Mas no me interrompam. O Getlio dotou o pas duma indstria
siderrgica que faz inveja ao resto da Amrica Latina. Deu aos
trabalhadores leis sociais mais avanadas que as da  prpria Unio
Sovitica! Mas de que  que ests rindo, Roque?
  - Estou rindo das leis sociais.
  - Tu sempre com teu esprito de contradio. Negars acaso que devemos
nossa legislao trabalhista ao Getlio?
  Bandeira depe o copo no cho ao lado da garrafa.
  241
  - Devagar com o andor - diz ele. - Quem inventou essas leis sociais foi
o Lindolfo Collor, e por sinal custou- lhe muito impingi-las ao Getlio.
  - Quem te contou essa mentira?
  - Espere e escute. Vou mais longe. O seu presidente relutou muito em
criar o Ministrio do Trabalho. Foi o  Oswaldo Aranha quem a duras penas
o convenceu disso. E sabem que foi que o dr. Getlio disse, depois de
assinar o decreto? "Queira Deus que esse
  .ilemo' (referia-se ao Collor) no v nos incomodar."
  - Mais uma fantasia das muitas que se inventaram em torno do presidente!
  - Foi o Marcondes Filho - refora Terncio - quem mais tarde abriu os
olhos do Getlio para o valor  demaggico, a fora poltica desse
ministrio e das leis do Collor. E assim o seu amigo foi empurrado para
o  trabalhismo...
  Quando minutos depois Terncio pe-se de p, murmurando "Bom, so
horas...", Rodrigo segura-lhe a aba do  casaco e diz:
  - Senta, homem. Agora  que a conversa est ficando boa. Senta ou ento
tomo a tua retirada como uma confisso  de derrota. Como Napoleo
Bonaparte, Getlio Vargas  um assunto inesgotvel.
  Terncio volta ao seu lugar. E Floriano, que sente a camisa ensopada de
suor - pois o calor aumentou  sensivelmente nesta ltima meia hora -,
olha para o estancieiro e pensa: Esse homem no sua. Jamais se
despenteia. Suas calas nunca perdem o friso. O colarinho nunca se
enruga. A gravata no sai do lugar. Seu hlito  recende a Odol. Seu
leno, a lavanda. Aposto como tem em casa a Enciclopdia de Larousse. E
um binculo  francs. E uma pe de combat. Seus livros, bem
encadernados, cheiram a naftalina. Coitos conjugais semanais,  com a luz
apagada.
  Rodrigo faz um gesto teatral quando diz:
  - Vocs no devem tirar a este moribundo o nico consolo que lhe resta:
prosear. A poltica  um dos meus  vcios. J que agora no posso fazer
poltica, que me seja ao menos permitido ruminar a que fiz ou a de que
fui  testemunha. No bebes mesmo uma cerveja, Terncio? O Roque no
precisa que ningum o 
  242
  convide... E ali o meu filho  abstmio, sargento do Exrcito da Salvao,
hein, Floriano?
  Ergue mais o busto, ajeita os travesseiros, e depois continua:
  - Essa histria de 29 de outubro no est bem contada. O Getlio aparece
nela como o vilo, o ditador que queria  a todo custo perpetuar-se no
poder. O Gois, o Dutra e os outros generais que o depuseram querem
inculcar-se  como heris que libertaram o pas da tirania.
  Tio Bicho sorri e murmura:
  - Escutemos ento o Evangelho segundo So Rodrigo.
  -  Floriano, d manivela nesta cama. Quero ficar mais sentado.
  O filho faz o que o pai lhe pede.
  - Nem o pior inimigo do presidente poder acus-lo de falta de
sensibilidade poltica... - prossegue Rodrigo. -  Depois que a Fora
Expedicionria Brasileira embarcou para a Europa, o Getlio sentiu que
estava na hora de ir  trazendo o pas gradualmente, sem traumas, de
volta ao regime que se convencionou chamar de democrtico...
  Terncio esboa um sorriso incrdulo. Tio Bicho crocita a sua risadinha.
Sem dar-lhes a menor ateno, o dono da  casa continua a falar.
  - Pediu a seus ministros que redigissem uma emenda  Constituio de 37
que regulasse o alistamento eleitoral e  as eleies para presidente da
Repblica, governadores estaduais, Parlamento nacional e Assembleias
Legislativas.  Se a memria dos meus amigos no falhar mais uma vez, ho
de lembrar-se de que essa emenda foi publicada a 28  de fevereiro de
1945.
  - J ento o Jos Amrico - recorda tio Bicho - tinha dado seu famoso
"grito", a entrevista em que pedia  claramente eleies. As barreiras do
DIP estavam por terra, a imprensa mais sria fazia coro com os que
pediam o  pleito. Nasceram esses partidos polticos que hoje a esto em
atividade.
  - E ento? - exclama Rodrigo. - Era ou no era o regime de liberdade em
pleno vigor? As eleies estavam  marcadas para 2 de dezembro. No
entanto, em abril de 45, voltando de Montevidu,
  243
  aonde o levara uma comisso diplomtica, nosso inefvel Gois Monteiro
deu uma entrevista   imprensa durante a qual pronunciou uma frase que
imaginou fosse abalar urbi et orbi: "Vim para  acabar com o Estado
Novo".
  - No vais afirmar, - atalhou-o Terncio - que o Getlio estava feliz com
a idia da emenda...
  - Pelo contrrio, posso te assegurar que ele a achava absurda. Na sua
opinio, que  tambm a  minha, o que se devia fazer antes de mais nada
era convocar uma Constituinte, que declararia  caduca a carta de 37 e
elaboraria uma nova.
  - Mas por que, ento, o ditador aceitou a sugesto dos ministros?
  - Para que no dissessem que ele queria continuar no poder. Terncio
sacode vigorosamente a  cabea.
  - No! Ele cedeu ante a presso da opinio pblica.
  -  Terncio! Que  que chamas de opinio pblica? Meia dzia de
politicides? A embaixada  dos Estados Unidos? Um grupinho de generais?
Tu sabes que o povo estava com o Getlio.
  - Se estava, por que  que teu amigo no renunciou ao poder em tempo de
se apresentar  candidato  presidncia?
  - Ora, eu um dia lhe perguntei isso. Respondeu que se sentia cansado,
queria voltar para So  Borja, para a paz da sua estncia.
  - S por isso? Puxa pela memria, Rodrigo. No havia outra razo?
  Rodrigo sorri como um menino surpreendido numa mentira por omisso.
  - Bom... ele me disse (e no pediu segredo) que no saberia governar com
a Cmara e o Senado  abertos.
  - Ah! - faz Terncio. - E no ignorava tambm que o exrcito se oporia
terminantemente  sua  candidatura.
  - Tambm isso... Mas por outro lado no ignorava que o povo andava pela
rua gritando:  "Queremos Getlio!" E que o prprio Prestes tinha adotado
a frmula "Constituinte com Getlio".  Se o meu amigo fosse o ambicioso
inconsciente que vocs imaginam, teria lanado o pas numa  guerra
civil. E a todas essas a nossa burguesia estpida no compreendia como
no compreende  ainda
  244
  hoje o servio que Getlio Vargas prestou  nao, encaminhando para o
trabalhismo as massas  que fatalmente acabariam caindo nos braos do
comunismo.
  Tio Bicho cabeceia, em cochilos intermitentes. Um galo canta nas
lonjuras da noite. Terncio  olha instintivamente para o relgio.
  - Por falar em presso - continua Rodrigo -  bom no esquecer a
norte-americana. Vocs se  lembram do discurso que o embaixador Adolf
Berle fez em Petrpolis, no banquete que os lderes  da UDN lhe
ofereceram, e em que o americano encareceu a convenincia da volta do
Brasil ao  regime democrtico... Foi o cmulo! Durante toda a nossa
histria, presses desse tipo se  exerciam por via diplomtica, militar
ou econmica. Agora a coisa era clara.
  - Ouvi dizer que o dr. Getlio ficou furioso ao saber desse
pronunciamento - observa Floriano.
  - Mas sem razo - opina Terncio - porque estou informado de que o
embaixador americano  lhe mostrou o discurso antes de pronunci-lo. E o
Getlio o aprovou.
  Rodrigo coa a cabea.
  - A est um episdio que nunca cheguei a compreender direito. Me contou
o Getlio que no  entendeu claro o portugus do Berle, que parecia
falar com uma batata quente na boca. E, mesmo  na hora em que o
americano lhe mostrou o discurso, ele, Getlio, estava cansado,
desatento,  talvez ansioso por se livrar do homem... Aposto como nem leu
o catatau.
  Entreabrindo os olhos, Roque Bandeira exclama:
  - Qual nada! Foi uma atitude tipicamente getuliana. Aprovou o discurso
para se mostrar liberal  ou ento, o que  mais provvel, por preguia
mental de reagir, criticar ou tomar uma atitude  frontal contra o
embaixador. Mais tarde, observando a reao dos amigos, descobriu que o
discurso era uma excelente arma poltica, uma bandeira nacionalista que
ele podia agitar em  proveito prprio. "Vejam, uma potncia estrangeira
est se intrometendo na nossa poltica  interna!" etc... etc...
  - Acorda primeiro - diz Rodrigo -, depois raciocina e finalmente fala. O
sono te obscurece a  inteligncia,  tio Bicho.
  245
  - E o mais curioso - acrescenta Terncio -  que estou seguramente
informado de que Adolf Berle teria dito a  algum, confidencialmente,
que seu pas preferia Getlio Vargas, como candidato a presidente nestas
eleies, ao  brigadeiro, que sempre se mostrou to difcil e mesmo
hostil quando se tratou da concesso de bases areas no  Brasil aos
americanos, durante a guerra.
  Rodrigo empina o busto, infla as narinas, parece que vai saltar da cama:
  - Mas desde quando temos de consultar os Estados Unidos antes de
escolher um presidente? E j que estamos  neste assunto, quero contar a
vocs uma histria que ainda no foi revelada. Numa audincia que o
Getlio  concedeu ao Berle, o americano teve o topete de perguntar qual
era a poltica que nosso governo ia seguir com  relao ao petrleo
nacional. O Getlio fechou a cara e disse que no se sentia obrigado a
satisfazer a curiosidade  de potncias estrangeiras, e que o Brasil
resolveria o problema como e quando entendesse. O que sei dizer, em
resumo,  que a despedida do Berle nesse dia foi das menos cordiais... E
que uma semana depois ele era declarado  persona non grata.
  - Foste testemunha desse encontro?
  - No. No houve testemunhas. O fato me foi contado pelo prprio
Getlio.
  - Ah! - faz Terncio, com uma entonao maliciosa.
  - Vocs talvez no saibam que pela primeira vez na sua histria o Brasil
 credor... Quando Getlio deixou o  governo, sabem quanto tnhamos em
divisas ouro? Seiscentos milhes de dlares. Pasmem. Os americanos
andavam loucos, como corvos a voejar em torno dessas disponibilidades.
Queriam que o Brasil liberasse essas  divisas para eles nos impingirem
as sobras de seu material de guerra, para nos abarrotarem o mercado com
toda  sorte de artigos inteis, essas porcarias de matria plstica,
essas engenhocas inteis que sua indstria est  produzindo todo o dia.
E este governo provisrio que a est, e que num ms e pouco deu
empregos para mais de  mil parentes, amigos e afilhados, cedeu  presso
externa e j liberou as divisas. Escrevam o que vou dizer. Dentro  de
menos de um ano
  246
  estaremos de novo de volta  velha situao de devedores. E falem mal do
Getlio, falem!
  Terncio vai abrir a boca, mas Rodrigo o silencia com um gesto.
  - O Bernardes governou o pas dentro do estado de stio, com um chicote
na mo, mandando seus adversrios ora  para a geladeira do general
Fontoura ora para o inferno da Clevelndia. Washington Lus, o "Brao
Forte", jamais  desceu de seu olimpo, e achava que a questo social era
um caso de polcia. Comparem o Getlio com esses dois  presidentes e
vejam como o nosso homem cresce... Para principiar, foi um ditador
benvolo. No mandou matar  ningum...
  - Em ltima anlise - murmura tio Bicho -, devemos beijar a mo de
Getlio e de todos os membros da  dinastia Vargas por no nos terem
fuzilado, cuspido na cara ou tratado a pontaps no rabo.
  - Tu sabes que no  isso que eu quero dizer!
  - E no  verdade - intervm Terncio - que Getlio tenha sido um
ditador benvolo. Teve uma das polcias  mais cruis de que se tem
notcia, e que em matria de torturas e brutalidades nada ficava a dever
 Gestapo.
  - Acusam o ditador - diz Floriano - de muitos pecados que me parecem
apenas veniais. A meu ver o seu  pecado mortal, o maior de todos, foi o
de ter feito vista grossa aos banditismos de sua polcia.
  Rodrigo retesa o busto e exclama:
  - Te asseguro que ele no sabia de nada!
  - Como podia no saber? - replica Terncio. -  inadmissvel.
  - Uma vez - improvisa o dono da casa, absolvendo-se ao mesmo tempo da
mentira - cheguei a perguntar ao  Getlio se havia algum fundamento nas
negras histrias que corriam sobre a polcia, e ele me respondeu que
tinha  mandado fazer uma investigao, mas que nada fora apurado de
positivo. Disse mais: que tinha entregue  inteiramente o setor policial
aos tenentes...
  247
  - E depois disso naturalmente lavou as mos... - murmura tio Bicho.
  - No vais me dizer tambm - diz Terncio - que teu amigo no ficou
sabendo que seu governo entregou a  esposa de Prestes, grvida de muitos
meses,  Gestapo, que a mandou para a morte num campo de concentrao.
  Rodrigo pensa em replicar: "Tratava-se dum complicado caso de direito
internacional", mas cala-se, lembrando-se  do quanto ele prprio havia
ficado revoltado ante o fato.
  - A insensibilidade moral de Getlio Vargas - e ao dizer isto a voz de
Terncio est cheia dum surdo rancor -  s encontra par na de Lus
Carlos Prestes, que, ao sair da priso, no hesitou em estender a mo e
oferecer uma  aliana poltica ao homem que foi seu carcereiro durante
nove anos e, pior ainda, ao homem que havia entregue  sua esposa aos
carrascos nazistas, tornando-se assim seu co-assassino. Encontraram-se
os dois monstros num  palanque de comcio poltico. O chefe comunista
lvido e grave, o ditador rosado e sorridente. Prestes aceitava a
situao como um sacrifcio imposto pelo seu partido, em nome duma
ideologia, dum programa poltico definido. E  Getlio? Por que se
sujeitava  situao constrangedora? Por puro desejo de continuar no
poder? Ou apenas como  uma conseqncia da sua supina descrena dos
homens e dos valores morais?
  Filho duma puta! - pensa Rodrigo. - Cachorro despeitado, no sei onde
estou que no te mando a mo na cara.  Enfim o culpado sou eu, que
insisto em discutir o Getlio com quem no o conhece.
  E a indignao de Rodrigo vem um pouco do fato de saber que no fundo
Terncio tem a sua razo, pois ele prprio  no pde aceitar a unio
poltica de Prestes com Getlio. Nunca compreendeu como seu amigo se
sujeitou quele  encontro...
  - No digas asneiras, Terncio! - exclama. E torna a passar a toalha
pelo pescoo, pelo peito e ao longo dos  braos.
  Com o "rancor verde" nos olhos, o estancieiro continua:
  - Jamais se roubou tanto e to descaradamente nas esferas governamentais
do Brasil como na era getuliana, em  que imperou,
  248
  como nunca em toda a nossa histria, o empreguismo, o nepotismo, a
advocacia administrativa, o peculato, o  suborno, a malversao de
fundos pblicos... E a imoralidade dos homens de governo e de seus
scios nas  negociatas ao fim de algum tempo acabou por contaminar
irreparavelmente quase todas as classes sociais.
  Rodrigo olha para Terncio e sorri com indulgncia, como se estivesse
diante duma criana ou dum dbil mental.
  - A atitude do ditador, que permaneceu aptico, sorridente ou omisso
diante de todo esse descalabro moral -  continua o outro - conseguiu
anestesiar a opinio pblica, que passou a rir do que lhe devia provocar
choro e  ranger de dentes, aceitando o regime da safadeza e do golpe
como norma de tal modo que hoje em dia a palavra  honesto tem entre ns
um sentido pejorativo.
  Rodrigo faz um gesto de impacincia:
  - Que idia fazem vocs dum presidente da Repblica? A de que ele  um
guarda-noturno? Um ecnomo de  sociedade recreativa? Um fiscal? Um
mestre-escola de palmatria em punho a castigar os maus alunos? Ou um
feitor com um chicote na mo? Como pode um homem sozinho, fechado no
Catete, ser responsvel por tudo  quanto acontece num pas do tamanho do
nosso? Ora, vocs esto exigindo do Getlio qualidades de mago, de
demiurgo.
  - No, Rodrigo - replica Terncio -, eu me refiro tambm  patifaria,
aos desmandos e s negociatas que se  processaram debaixo do nariz do
ditador, e que foram praticadas por amigos, parentes e ulicos. Eu no
acuso, e  ningum at hoje acusou Getlio de desonestidade pessoal, no
que toca aos dinheiros pblicos. Mas eu o acuso,  isso sim, de ter sido
tolerante com os ladres, de se haver acumpliciado com eles pelo
silncio ou pela indiferena.
  Rodrigo d uma tapa no ar:
  - Oitenta por cento dessas histrias de negociatas e panams no passam
de invencionices. Este  o pas do diz- que-diz-que, uma terra de
comadres maldizentes. Se eu te pedisse para apresentares uma prova, uma
nica prova  do que acabas de afirmar, ficarias numa posio difcil,
porque no tens nenhuma.
  Com voz pesada de sono, tio Bicho intervm:
  249
  - E se o senhor me exigisse agora uma prova de existncia de Scrates ou
Pedro lvares Cabral, isto para no  falar na de Deus, eu ficaria numa
situao igualmente embaraosa.
  - Num gesto demaggico - prossegue Terncio - teu amigo criou os
institutos de aposentadoria, que se  transformaram num foco fabuloso de
ladroagem, corrupo e favoritismo. Se levarmos em conta o vulto da
arrecadao desses institutos, o benefcio que o operrio recebe, em
troca do sacrifcio de suas contribuies  mensais,  mnimo, quase
nulo. Os encaixes fantsticos desses institutos foram desviados para
emprstimos ilegais  concedidos a privilegiados do Estado Novo, que os
empregavam em aventuras imobilirias. Um crime inominvel!
  - Quem te ouve falar - exclama Rodrigo - imagina que o Rio antes do
governo do Getlio era uma cidade de  santos, puritanos e eremitas!
  Floriano ergue-se, vai de novo at a janela, a pensar numa maneira de
pr um ponto final nesta discusso.  Tranqiliza-se um pouco, porm,
vendo na fisionomia do pai que ele parece no estar levando muito a
srio as  palavras de Terncio.
  - Limpa o peito de todos os rancores - diz Rodrigo com um sorriso
generoso. - No h nada como a gente  desabafar.  Floriano, me serve
mais cerveja. Essa porcaria deve estar morna e choca. Tem ainda gelo no
balde?
  Tio Bicho agora dorme a sono solto e ronca, a cabea cada para trs, a
boca aberta. Rodrigo lana-lhe um olhar  cheio de tolerante simpatia.
Terncio continua tenso, olhando para o dono da casa:
  - H mais ainda. O Getlio usou o Banco do Brasil como meio para comprar
adversrios, apaziguar amigos  descontentes, ajudar amigos fiis, e
submeter  sua vontade os governadores dos Estados.
  - Acho - diz Floriano - que a histria deste pas poderia ser contada de
maneira fascinante atravs da histria  do Banco do Brasil.
  - No esqueam, rapazes - sorri Rodrigo - que o Banco do Brasil j
existia antes do Getlio assumir o  governo...
  250
  - Sim - retruca Terncio -, mas no com a fora, a importncia que o
ditador lhe deu. Foi uma maneira que ele  descobriu para burlar a
Constituio de 34 e cercear a autonomia dos Estados. A poltica
econmico-financeira foi  centralizada de tal modo que os Estados
passaram a depender do governo federal, perdendo praticamente sua
autonomia politica. Com o nosso absurdo sistema fiscal e mais as
arrecadaes dos Institutos de Previdncia, o  governo central engorda 
custa da sangria dos Estados. Todo o dinheiro da nao se concentra no
Rio. E os  negocistas corvejam em torno dos ministrios e das
autarquias.
  - O Banco do Brasil tem exercido o que se poderia chamar de
"imperialismo interno" - diz Floriano. -  um  Estado dentro do Estado.
  Rodrigo toma um gole de cerveja e, olhando para Terncio, sorri:
  - Vocs, estancieiros, so muito engraados. Tm um sagrado horror a
qualquer coisa que cheire a interveno  estatal na economia particular,
mas sempre que estavam em dificuldades financeiras iam de chapu na mo
bater   porta do governo, suplicando-lhe que interviesse nos negcios
de vocs com medidas providenciais, como  emprstimos, moratrias,
reajustamentos... Alm de incoerentes, so uns ingratos!
  - Seja como for - diz Terncio -, isso que a est, essa desmoralizao
dos costumes, essa indecncia  administrativa que se transformou em
norma, esse cinismo diante do erro e do crime que se comunicou  nossa
maneira de ver o mundo: tudo isso devemos a Getlio Vargas. Tudo isso
aconteceu, comeou ou se agravou  durante o seu governo...
  Floriano aproxima-se de Terncio, pe-lhe a mo no ombro mas retira-a
imediatamente, sentindo o movimento de  repulsa - quase imperceptvel --
que o estancieiro faz, como para evitar que a mo suada lhe macule a
fatiota de  tropical bege.
  - No estou de acordo com o senhor. A era getuliana coincidiu com um
perodo particularmente conturbado da  histria. A moral que imperou
entre os gangsters de Chicago na dcada dos 20 passou a ser adotada por
estadistas  europeus na dos 30. Ningum
  251
  mais acreditava na fora do direito, mas sim no direito da fora. Hitler
rasgou tratados. As tropas de Mussolini  invadiram a Abissnia. As do
Japo atacaram a China. Franco levou soldados argelinos para lan-los
no continente  contra a repblica popular espanhola...
  - Que era comunista - interrompe-o Terncio.
  - Que era um governo democraticamente eleito - replica Floriano,
prosseguindo: - Mais tarde El Caudillo  aceitou a colaborao de tropas
regulares alems e italianas para que elas, com suas armas modernas,
massacrassem  seus compatriotas. A tbua de valores morais que, bem ou
mal, prevaleceu durante o sculo XIX e que a Primeira  Grande Guerra
abalou, no fora ainda substituda por outra. Era a poca do vale-tudo,
do cinismo, da violncia, da  moral da guia e da matana dos
cordeiros... Por outro lado, a cincia e a tcnica aliadas  indstria
produziam  como nunca, contribuindo para que se formasse esta nossa
civilizao de coisas: mquinas, instrumentos, utenslios,  objetos que
facilitam a vida e nos proporcionam prazer. Coisas, enfim, cuja posse 
um smbolo de sucesso. Uma  publicidade cada vez mais inteligente,
intensa e insidiosamente penetrante tratava de criar nas populaes
necessidades artificiais. Era o resultado natural do esprito
competitivo, da free enterprise do sistema capitalista. A  fria de
ganhar gerou a fria de anunciar, que ajudou a fria de vender e
estimulou a fria de comprar. E  natural  que no tenhamos ficado
imunes a essas influncias que nos vinham no s da Europa como tambm e
principalmente dos Estados Unidos. Depois da Primeira Guerra Mundial o
Brasil comeava a despertar de seu  sono florestal, mais pelos seus
mritos naturais do que pelo esforo e sabedoria de seu povo. Comeava a
aparecer  aos olhos do mundo como o Pas do Futuro, uma espcie de Terra
da Cucanha. Atraa capitais estrangeiros, capites  de indstria,
aventureiros, escroques, etc... etc... Em 1930 o Rio foi varrido pela
enxurrada da revoluo vinda de  todos os quadrantes do pas. Quando as
guas voltaram a seu leito natural, ficaram algumas flores e pepitas de
ouro  s margens da Guanabara, mas o que se via mesmo a olho nu eram
detritos. Fazia-se portanto necessrio uma  operao de limpeza nada
fcil de levar a cabo. No podemos
  252
  em boa razo culpar um homem por todo esse estado de coisas e de
esprito.
  Tio Bicho continua a dormir. Rodrigo tem agora a toalha amarrada ao
redor do pescoo, os olhos amortecidos de  sono. Terncio olha para o
bico dos prprios sapatos, a fisionomia inescrutvel.
  Floriano prossegue:
  - Quanto a Getlio Vargas... acho que, vendo-se perdido numa floresta
amaznica, cheia de bichos ferozes ou  venenosos, de todos os tamanhos,
procedeu como o jabuti das nossas lendas indgenas. Descobriu que para
sobreviver em meio dos animais maiores que ameaavam devor-lo, tinha de
usar a astcia e a pacincia e jogar  com o fator tempo. Comeou a
lanar um bicho grande contra outro bicho grande, uma cobra venenosa
contra outra  cobra venenosa, raciocinando assim: "Enquanto eles se
entredevoram eu continuo vivo tocando a minha flauta".
  Terncio ergue vivamente a cabea:
  - Ningum estava interessado na sobrevivncia ou na flauta do Getlio. E
a funo dum chefe de governo no   essa. Repito que ele  responsvel
pelo clima de imoralidade que reinou no pas durante o tempo em que foi
ditador e presidente.
  Floriano passa a mo pelos cabelos, com o ar de quem est perdido.
  - Bom - replica -, se o senhor insiste nesse problema da culpa, acho que
todos somos culpados em menor ou  maior grau. Fomos cmplices do Estado
Novo por comisso ou omisso. Quando os carrascos da polcia  queimavam
com a brasa dum charuto os bicos dos seios da companheira de Harry
Berger, eu estava estendido na  areia de Copacabana, lendo Aldous
Huxley. E havia outros em situaes e posies ainda mais
comprometedoras.
  - Se te referes a mim - diz Rodrigo - perdes o teu tempo. Tenho a
conscincia tranqila. No perteno  scia  dos moralistas "ausentes"
como tu e outros intelectuais. Ningum faz omelete sem quebrar ovos. E
quem no quer  se molhar, que no saia pra chuva...
  Terncio levanta-se, abafando um bocejo.
  253
  - Seja como for - diz Rodrigo, erguendo os olhos para o estancieiro e
empunhando um exemplar do Correio do  Povo -, o eleitorado deu a ltima
palavra. O Getlio est eleito deputado e senador. No h remdio...
Vocs o  tero de volta  vida pblica, queiram ou no queiram.
  E, num gesto de terceiro ato, atira o jornal aos ps de Terncio Prates.
  254
  Caderno de pauta simples
  J vejo claro o que vai ser o novo romance. A saga duma famlia gacha e
de sua cidade atravs de muitos anos,  comeando o mais remotamente
possvel no tempo. Talvez no Presdio do Rio Grande, no ano de sua
fundao,  com um soldado ou um oficial do Regimento de Drages. No!
Tenho uma idia melhor. Vejo o quadro.
  1745. No topo duma coxilha, uma ndia grvida, perdida no imenso deserto
verde do Continente. O filho que traz  no ventre  dum aventureiro
paulista que a preou, emprenhou e abandonou.
  A criana nasce na reduo jesutica de So Miguel, onde a bugra busca
refgio. A me morre durante o parto,  esvada em sangue. A fonte...
Porque esse bastardo, um menino, vir a ser um dos troncos da famlia
que vai  ocupar o primeiro plano do romance, e que bem poder ser (ou
parecer-se com) o cl dos Terra-Cambar.
  Quero traar um ciclo que comece nesse mestio e venha a encerrar-se
duzentos anos mais tarde.
  Quando a velha Maria Valria anda pela casa nas suas rondas noturnas,
com uma vela acesa na mo, vejo nela um  farol. Estou certo de que a luz
dessa vela me poder alumiar alguns dos caminhos que ficaram para trs
no tempo.  Vaqueana dos campos e veredas do passado desta famlia, a
Dinda talvez seja a nica, pessoa capaz de me  fornecer o mapa dessa
terra para mim incgnita. Ela prpria  uma arca atulhada dum tesouro de
vivncias e  memrias. Mas arca fechada e enterrada. Resigno-me portanto
 idia de,  custa de estratagemas ver-
  255
  bais, ir arrancando suas moedas, uma por uma. Dona Maria Valria nunca
foi mulher de muitas palavras. Para ela o  passado  uma sepultura:
remexer nele seria sacrilgio. Devemos deixar os mortos em paz, para que
eles faam o  mesmo conosco.
  Nestes ltimos dias temos mantido alguns dilogos: ela balanando-se na
sua cadeira, os braos cruzados, os olhos  fitos nos seus misteriosos
horizontes de cega; eu sentado a seu lado, medindo as palavras com
cautela, para que a  velha no desconfie de minha curiosidade.
  Depois de muitas negaas e silncios, consigo tirar da arca uma que
outra ona de ouro, que fico a revirar entre os  dedos, fascinado,
pensando j no que posso fazer com ela, mas tratando de no deixar meu
alvoroo transparecer  na voz. As vezes o mais que consigo  uma moeda
de cobre azinhavrado. Mas isso tambm, me alegra, pois estou  convencido
de que, para o tipo de histria que. vou escrever, o cobre talvez seja
um metal mais nobre que o ouro.
  l
  Tenho tentado, com algum sucesso, que a Dinda me conte "causos" de sua
tia Bibiana, minha trisav, e de seu  marido, um certo capito Rodrigo,
aventureiro, espadachim, mulherengo, homem de coragem extraordinria e
apetites insaciveis, desses que bebem a vida no aos copos, mas aos
baldes. A Dinda no o conheceu  pessoalmente (o capito foi morto no
princpio da Guerra dos Farrapos) mas noto que esto ainda ntidos em
sua  memria os ditos e proezas do Falecido, que dona Bibiana costumava
contar  sobrinha nas noites de ventania.
  - Por que de ventania? - pergunto.
  - Porque tia Bibiana sempre dizia que era nas noites de vento que ela
mais pensava nos seus mortos.
  Procuro saber de outros antepassados mais longnquos, como essa quase
lendria Ana Terra, minha pentav, que a  tradio aponta como um dos
fundadores de Santa F. Desde menino ouo falar nessa brava pioneira que
"matou  um ndio com um tiro nos bofes".
  Depois de muitas hesitaes e resmungas, a Dinda me confia a chave do
ba de lata em que traz guardadas suas  lembranas e 
  256
  relquias. Encontro nele, de mistura com incontveis bugigangas (camafeus,
medalhes com mechas de cabelo, frascos  de perfume vazios, lencinhos de
renda, leques), importantes peas do museu da famlia, como o dlm
militar do  capito Rodrigo, um xale que pertenceu a dona. Bibiana, e
uma camisa de homem, de pano grosseiro e encardido.  ( a que meu bisav
Bolvar Cambar vestia no dia em que foi assassinado pelos capangas dos
Amarais, e que sua  me guardou, assim esburacada de balas e manchada de
sangue como estava.) Todas essas coisas naturalmente me  excitam a
fantasia pelas suas possibilidades novelescas, mas concentro a ateno
principalmente nas cartas, nos  recortes de jornais e nos daguerretipos
que descubro dentro duma caixa de sndalo, no fundo do ba. Dinda
permitiu, com certa relutncia, que eu trouxesse todas essas coisas para
a mansarda. Aqui estou a ler as cartas e as  notcias de jornal, e a
escrutar os retratos.
  Entro num nevoeiro em busca duma figura enigmtica de quem no encontro
nenhum retrato no Sobrado nem no  velho ba. Trata-se de minha bisav
Luzia, me do velho Licurgo. Sinto um silncio terrvel em torno de sua
pessoa. Digo terrvel porque tudo indica que  deliberado, produto duma
conspirao talvez tcita do resto da  famlia.
  Falo nela  Dinda, que se mantm num silncio de pedra, mas de pedra
antiga, o que torna o silncio ainda mais  sepulcral.
  Alguns recortes de jornais fazem referncia a essa estranha criatura,
que parece ter sido duma beleza invulgar.  Encontro nas pginas dum
almanaque local um poema assinado por Luzia Cambar, versos mrbidos de
quem  deve ter lido com paixo Noites na taverna. Mas a descoberta mais
importante que fiz nestes ltimos dias foi a das  cartas dum certo dr.
Carl Winter, natural da Alemanha, que veio para Santa F em meados do
sculo passado e  aqui se radicou, tornando-se freqentador do Sobrado e
mdico da famlia. Seu portugus, duma fluncia  admirvel, tem
acentuado sabor literrio. Nessas cartas, dirigidas a Luzia Cambar - a
quem ele se refere mais de  uma vez como a minha Musa da Tragdia " -,
encontro elementos que talvez me permitam reconstituir a  personalidade
dessa dama que cultivava a msica e a poesia e que, pelo que da 
entender o nosso doutor, foi  educada
  257
  na corte e vivia nestes cafunds do Rio Grande como um peixe fora
d'gua.
  Fico at tarde da noite a ler esses papis. Levo para a cama um cansao
cerebral que me tira o sono. Minha  imaginao comea a pintar os mais
variados retratos de Luzia Cambar. Coisa estranha, uma bisav de trinta
anos!
  17 de dezembro. Duas e vinte da madrugada.
  Esta noite Bandeira e eu mantivemos um dilogo para mim muito
interessante. Vou tentar reconstitu-lo agora to  fielmente quanto
possvel, antes que seus ecos se percam nos labirintos da memria.
  Como o Camerino tivesse proibido o Velho de receber visitas, obrigando-o
a dormir cedo, tio Bicho e eu deixamos  o quarto do doente pouco antes
das nove e samos a caminhar Rua do Comrcio em fora, no nosso passinho
de  procisso. Ficamos sentados durante uma boa meia hora num caf e
depois, tangidos por afetuoso hbito, viemos  para baixo da figueira
grande da praa e ali nos quedamos at as primeiras horas da madrugada.
  A noite estava terna e tpida como um po recm-sado do forno, e a lua
me evocava antigos dezembros.
  Falei ao Bandeira dos meus planos para o novo livro. Ele me escutou no
seu silncio ofegante e depois observou:
  - Acho que esse romance, apesar de todos os elementos de pura fico que
fatalmente ter, vai dar ao leitor a  impresso de ser apenas
  um lbum de famlia, uma transcrio literal da crnica dos Terras e dos
Cambars, caso em que por motivos bvios  no o poders publicar, mesmo
que mudes os nomes das personagens e dos lugares...
  - J pensei em tudo isso e estou resignado a deixar os originais do
livro indefinidamente no fundo duma gaveta.
  - J avaliaste os perigos que, do ponto de vista artstico e literrio,
uma histria dessa amplitude envolve? Pintar  um mural num paredo de
tempo assim to extenso, palavra, me parece uma tarefa no s difcil
como tambm  ingrata. Pensa na vasta comparsaria... Ters de usar ora a
pistola automtica ora o pincel do miniaturista. Duvido  que o efeito de
conjunto seja satisfatrio. Outra dificuldade danada vai ser a da
seleo das personagens e dos  episdios, principalmente
  258
   dos histricos. Enquanto se tratar do passado remoto, tanto do Rio
Grande como da tua famlia, tudo estar  bem. A bruma do tempo, a
escassez de informaes, a qualidade pica daquele perodo da nossa
histria... as  bandeiras, as arriadas, as guerras de fronteira, a vida
rude e simples... tudo isso te ajudar. Ao percorreres os  campos e
almas do Continente, sers guiado pelo radar da tua imaginao, da tua
intuio potica. Mas  medida  que te fores aproximando dos tempos
modernos, ficars confundido e desorientado pela abundncia de material,
pela riqueza de sugestes e informaes (livros, jornais, revistas,
depoimentos pessoais) e tambm pelo fato de  passares a ser, tu mesmo,
uma testemunha da histria.
  - J pensei em todas essas dificuldades... e em muitas outras.
  - Outra coisa. Ters de enfrentar um dilema dos diabos. Se omitires este
ou aquele fato histrico (principalmente  os que so objeto de
controvrsia) ou se fizeres vista grossa ao lado negativo de certos
figures da poltica  (especialmente os que esto ainda vivos e os que
morreram recentemente) diro que no tiveste nervos para  enfrentar a
situao, temendo possveis sanes de grupos partidrios ou familiares
ou mesmo da prpria "vtima".  Mas se, por outro lado, para provar que
s independente, decidires contar tudo ou quase tudo, acabars
produzindo  apenas uma arte menor, sem teres conseguido fazer histria
de verdade. J pensaste que, faas o que fizeres, teu  livro est
condenado?
  - J. Mas preciso escrev-lo.
  - Descobrirs depois que precisas tambm public-lo.  por isto que no
teu inconsciente decerto j se fazem  secretas negociaes em torno de
sutis compromissos e transigncias que te permitam escrever esse romance
de tal  forma que sua publicao no venha a arranhar as faces
respeitveis da tica e do Civismo.
  - Desde quando tens o poder de ver o que se passa no meu inconsciente,
homem?
  - Desde nunca. Mas... por falar nisso, de que ngulo pretendes contar a
histria?
  - A primeira pessoa me limitaria demais o campo de viso. Usarei a
terceira. Como narrador espero colocar-me  num ngulo impessoal e
imparcial.
  259
  - Impossvel! Tua parcialidade mais cedo ou mais tarde se revelar at
mesmo na maneira de apresentar uma  personagem ou um episdio. Tuas
idiossincrasias, gostos, birras, implicncias, simpatias e antipatias
acabaro por vir   tona, dum modo ou de outro. Vers que vais gostar
mais desta figura humana que daquela, e que ters mais  pacincia com A
do que com B. E que tua indiferena para com C e D far que estas duas
personagens no passem  de vagos vultos cinzentos. Outra coisa. Aposto
como seguirs nesse romance a tua velha linha...
  - Qual?
  - A parcialidade para com as mulheres. Tuas personagens do sexo feminino
(se no me falha o olho crtico nem a  memria) sempre tm melhor
carter que as do sexo masculino. Para resumir o assunto, teus romances
so escritos  (no te ofendas) dum ponto de vista quase feminino.
  - Obrigado pelo quase.
  -  por isso que duvido possas pr de p com vida e uma verdade...
digamos, hormonal, tipos to acentuadamente  machos como esse tal
capito Rodrigo e o teu tio Torbio.
  - Voltemos ao assunto "imparcialidade", que me interessa de maneira
especial...
  - Nem mesmo o Deus barbudo dos judeus e dos cristos  imparcial na
apreciao deste mundinho que Ele fez  (dizem) em seis dias. O Padre
Eterno julga os homens de acordo com Suas leis e mandamentos. Como  que
tu,  msero mortal, podes aspirar  imparcialidade? Acho que deves ser
apaixonadamente parcial. Ser melhor para o  romance. E para ti mesmo.
  - Ando s voltas tambm com um problema de tcnica. No sei se devo
comear a histria do princpio, isto , de  1745, e depois seguir
rigorosamente a ordem cronolgica...  curioso como esse mistrio do
tempo sempre me  visita quando estou por comear uma narrativa.
  - J pensaste que o Tempo pode bem ser um dos muitos disfarces de Deus?
Vou mais longe. Talvez o Tempo  seja Deus. Podes usar este pensamento
onde e quando quiseres.  um presente de Natal que o tio Bicho te
oferece... Mas, voltando  vaca fria, que no caso  o teu romance... j
comeaste mesmo a, escrev-lo?
  260
  - A vaca est mais quente do que imaginas. Ainda no comecei a botar o
preto no branco, mas sei que j adoeci  do romance. Conheo bem a
sndrome.  uma espcie de febre ondulante. Languidez de membros em
contraste  com uma crescente excitao cerebral. Sim, e uma esquisita
hipersensibilidade epidrmica. Durmo pouco. Sonho  muito... e que
sonhos! Como sem interesse. Presto uma ateno vaga ao que as outras
pessoas fazem e dizem a  meu redor. Em suma, ausento-me aos poucos do
mundo e passo a viver numa ilha mgica, completamente fora da  nossa
geografia cotidiana...
  - Num providencial desterro que te livra dos problemas e angstias do
mundo real, no?
  - No  bem isso. O que fao talvez seja transferir para esse feudo do
esprito segmentos do mundo chamado real  para projetar neles criaturas
da minha imaginao.
  - E nessa ilha em que s rei, como Sancho Pana na Barataria, te sentes
senhor absoluto de tuas personagens e de  seus destinos...
  - Puro engano. As vezes essas criaturas se rebelam contra o criador,
escapam das mos dele e passam a viver vida  prpria, completamente
independentes de seu arbtrio. Aprendi que esse  o melhor sinal de que
realmente esto  vivas.
  Tio Bicho me olhou de soslaio, sorriu com malcia e disse:
  E engraado, mas esse processo de gestao literria, no caso
  de vocs os ficcionistas, parece-se muito com o da gravidez... V bem. A
personagem (ou o livro) cresce na tua  mente como um feto no ventre
materno. Como uma gestante, ests sujeito a momentos de alegria,
esperana e  plenitude alternados com nuseas, apreenses e crises de
nervos. Um dia a criana nasce, depois cresce e j no te  pertence
mais: passa a ser um pouco dos outros e muito de si mesma. Agora eu s
queria saber como  que os  contadores de histrias ficam grvidos...
Alguns devem ser fecundados pelo plen de inspirao trazido pelo vento,
pelos insetos e pelos passarinhos...
  Ao dizer isto tio Bicho deu  voz um tom aflautado.
  - Essas eternas virgens de hmen complacente produzem livros delicados,
coloridos e perfumados como flores.  Mas os outros, os que ficaram
grvidos como resultado duma cpula completa, gostosa e sem inibies
com o  mundo, isto , dum verdadeiro ato de amor, esses
  261
   luz filhos sangneos, fortes e belos. No perguntei quem  o pai da
tua criana... Sou um homem discreto. Mas...  falando srio, ser que
depois desse parto, que imagino difcil e doloroso, vais te resignar a
esconder o beb no  fundo duma gaveta?
  Como nica resposta encolhi os ombros. E na pausa que se seguiu, fiquei
atento s vozes e evocaes da noite.  Um galo cantou longe num terreiro
que me pareceu mais do tempo que do espao. Os grilos continuavam seu
monocrdio concerto de vidro.
  O Sobrado estava de janelas apagadas. O luar parecia escorrer do
telhado, como mercrio.
  - Se meu pai ainda no dormiu - pensei em voz alta -  possvel que esta
noite morna e perfumada esteja  despertando nele uma certa saudadezinha
do Rio...
  Depois duma breve pausa tio Bicho falou:
  -  mais provvel que ele esteja pensando na amante. J imaginaste a
angstia do Velho? Preso naquele quarto,  sabendo que a rapariga est na
cidade, a poucas quadras de distncia, e ele sem poder agarrar e nem
mesmo ver a  bichinha...
  - Se imaginei? Mais que isso: senti. Sabes como me identifico com o meu
pai...
  - Te identificas tanto que s vezes te sentes culpado pelas coisas que
ele faz. E o culpas por muitas das que  fizeste ou deixaste de fazer.
No esqueo o que me disseste ontem, depois do sero, aqui debaixo desta
mesma  rvore. "O velho Rodrigo atravessou a Era Getuliana de sexo em
riste."
  - Ah! Mas foi uma frase caricatural, evidentemente uma brincadeira. ..
  - No creio. J notei que essa  a tua maneira de interpretar as
atividades de teu pai no Rio. No te lembras nunca  de creditar na conta
dele as boas e belas coisas que fez. E as outras que, se no foram belas
nem boas, nada tinham  de sexuais.
  - Exageras. No sou assim estpido como imaginas.
  - Na apreciao do carter e da vida do dr. Rodrigo Terra Cambar tu te
portas com a estupidez dos apaixonados.  Jamais poders compreender o
homem que ele  (digo o homem integral) se no te livrares desse
puritanismo,  herdado ou adquirido, que te leva a ver o
  ato sexual extraconjugal como algo de pecaminoso, reprovvel e
socialmente nocivo. E o que mais te perturba,  irrita e confunde  que,
sendo to sensual quanto o Velho, no tens a coragem de, como ele, dizer
sempre sim aos  teus desejos.
  Estive a ponto de gritar: "Pra com o sermo! J discutimos essas coisas
um milho de vezes". Mas no disse nada.  Limitei-me a apanhar um seixo
e a atir-lo contra um arbusto. Tio Bicho percebeu o que se passava
comigo e ps- se a rir baixinho.
  - Um homem  dono de seu sexo - disse - e tem o direito de us-lo a seu
bel-prazer. Ser lcito censurarmos  algum por usar o nariz para
respirar ou a boca para comer? J te passou pela cabea a idia de que a
atividade  sexual de teu pai bem pode ser algo mais que esse
brasileirssimo priapismo de mico, produto duma comicho  incoercvel?
s vezes chego a pensar que o dr. Rodrigo, como D. H. Lawrence, chegou
muito cedo na vida   percepo (consciente ou inconsciente, no sei) de
que o sexo  uma das mais profundas formas de  conhecimento...
  Dessa vez quem riu fui eu. Bandeira continuou:
  - Toma um homem como o nosso dr. Rodrigo, um gourmet e um gourmand da
vida, coloca-o com todos os seus  apetites e audcias dentro daquele
ambiente e daquela hora que o dr. Terncio costuma descrever com tanto
fervor  apocalptico, e verificars que ele no podia deixar de sentir o
que sentiu, dizer o que disse, e fazer o que fez.  Contenta-te com a
evidncia e no tentes explicar o que talvez seja inexplicvel.
Resigna-te s contradies e  imperfeies do bicho-homem, que so at
certo ponto o resultado da luta desigual entre sua poderosa natureza
animal e os preconceitos duma educao crist que nos quer impor uma
moral feita mais para anjos que para  homens. Vives a nessa lamria de
menino s porque teu papai no correspondeu  imagem ideal que tinhas
dele,  e pela qual ele no  responsvel...
  - Nesse ponto te enganas. O Velho tudo fez para encorajar nos outros
essa idealizao de sua pessoa. Nos outros  e possivelmente em si mesmo.
  - No o recrimines por isso. Todos ns, em maior ou menor grau, somos
uns farsantes, uns dissimuladores.  Procuramos mostrar ao mundo as
nossas mais belas mscaras, em vez da nossa face natural. s vezes
tentamos at  iludir a ns mesmos, em solilquios diante do
  262
  263
  espelho. Teu pai faz isso. Eu fao. Tu fazes. Todo o mundo faz. 
humano. E outra coisa! E bom no esqueceres  que o dr. Rodrigo Terra
Cambar, antes de ser uma personagem do romancista Floriano Cambar, 
uma pessoa  viva, um ser que existe independentemente da tua fantasia,
das tuas expectativas e das tuas necessidades.
  Bandeira ergueu-se, acendeu um cigarro, soltou uma baforada e depois me
convidou a acompanh-lo at sua casa.  Pusemo-nos a caminho pela
Voluntrios da Ptria.
  - E tu... -perguntou ele - como vais entrar no romance?
  - Serei uma personagem como as outras.
  - Achas que te podes ver a ti mesmo com objetividade?
  - Acho, e isso significa que terei de cortar na prpria carne.
  - Veremos ento um espetculo portentoso: o Floriano moralista
escrevendo sobre o Floriano imoral ou amoral.  Ou vice-versa... Vai ser
uma confuso dos demnios. Quero s ver.
  - No procurarei inocentar-me. Passei boa parte desses quase doze anos
de Rio de Janeiro estendido ociosamente  nas areias de Copacabana,
discutindo com outros "moos de futuro" como eu assuntos como a poesia
de Auden e a  msica de Hindemith.
  - No vejo nisso nada de mau ou de feio...
  - Para ns as favelas eram apenas cores na paisagem. Seu fedor no
chegava s nossas narinas to afeitas ao  perfume da rosa de Gertrude
Stein. Sua dor no conseguia sequer tocar nossos nervos to sensveis s
dores e  angstias das personagens da literatura universal. E eu tinha
sempre a meu Lido a conveniente bacia de Pilatos  para as minhas
ablues dirias...
  - Asseguro-te que Pilatos no fundo era um bom sujeito. E to cptico, o
coitado1.
  - Numa manh de novembro de 1937 eu estava deitado na areia do Posto 3
com a cabea pousada no ventre de  Miss Marian Patterson. O Estado Novo
tinha sido proclamado havia pouco, o pas mudara de regime da noite para
o dia, e tudo isso se processara sem derramamento de sangue. A americana
estava perplexa e queria que eu lhe  explicasse o fenmeno.
  Ento eu, de olhos semicerrados, acariciando os ombros da rapariga,
murmurei com um sorriso preguioso: "  muito simples, darling.
  264
  O brasileiro  avesso  violncia". E passamos a outros assuntos. No
entanto  bem possvel que naquela mesma  hora os "especialistas" da
polcia estivessem aplicando nas suas vtimas seus requintados mtodos
de tortura. Tu  ouviste falar neles... Arrancavam as unhas dos
prisioneiros com alicates... esmagavam-lhes os testculos com
martelos... aplicavam-lhes pontaps nos rins... Sim, e metiam buchas de
mostarda nas vaginas das mulheres dos  prisioneiros polticos, ou ento
as sodomizavam na frente dos maridos... Ns os moos da praia ouvamos
falar  nessas brutalidades da polcia, mas preferamos achar que tais
rumores no passavam duma mrbida fico,  produtos dum sinistro
folclore em processo de formao... Recusvamos aceitar essa realidade
no-potica.
  - Assim vais mal, meu filho - disse Bandeira. - Se comeas a te sentir
culpado por todos os desmandos,  arbitrariedades e injustias que se
cometem no mundo ou mesmo neste pas, ters um fim triste. J que no s
homem de barricada, acabars fechado num convento, rezando, batendo no
peito o mea culpa e fazendo  penitncia.  preciso encarar a vida com um
certo esprito filosfico, rapaz! Tua responsabilidade para com o
prximo  limitada, como no podia deixar de ser.
  - Mas tu mesmo vives proclamando a necessidade de nos tornarmos
responsveis por ns mesmos e por nosso  destino!
  - Ah, meu caro! A responsabilidade que preconizo no  dessas que acabam
criando em ns um sentimento de  culpa. Nada tem a ver com o Catecismo,
o Cdigo Civil ou o Exrcito da Salvao. No  uma responsabilidade de
menino que acaba de tomar a primeira comunho, mas de adulto que
enfrenta tanto a vida como a morte sem  iluses cor-de-rosa.
  - Precisarei te repetir que meu sentimento de responsabilidade para com
todas essas injustias e atrocidades  pouco ou nada tem a ver com a
moral teolgica mas muito com a moral social? Depois de bater com a
cabea em  incontveis paredes e muros, em busca duma sada para o tipo
de liberdade com que sonhava, cheguei  concluso  de que essa liberdade
 um mito, e de que o homem deve ser responsvel no s por si mesmo
como tambm at  certo ponto pelos outros. No existe o ato gratuito.
  -  bom que tenhas dito "at certo ponto". Porque um sentimento
exagerado de responsabilidade para com o  prximo bem pode
  265
  trazer no fundo um grozinho de messianismo e de parania. Cuidado, meu
velho. Adolf Hitler julgava-se  responsvel pela grandeza e pela
felicidade da raa germnica...
  Dei uma palmada nas costas de tio Bicho.
  - Ests infernal hoje, homem!
  Quando paramos  frente de sua casa, na calada deserta, meu amigo me
mirou longamente e depois, com voz  quase doce, perguntou:
  - Ser que algum de ns dois sabe mesmo o que est dizendo?
  - Sei l! Vivemos enredados em palavras. Roque Bandeira me olhou bem nos
olhos e disse:
  - Acho que hoje me compenetrei demais de meu papel de advogado do diabo
e no te ajudei nada nessa coisa do  romance. S espero que no tenha te
desencorajado muito. Acho sinceramente que precisas botar esse filho
para  fora o quanto antes.
  Ficamos alguns instantes em silncio.
  - Sabes duma coisa? - disse eu. - Descobri um titulo para ti.
  - Qual ?
  - Cnico municipal.
  - Pois eu tenho outro melhor para ti. Romancista penitente.
Despedimo-nos e eu voltei lentamente para o  Sobrado, ruminando
  a conversa da noite.
  266
  Noite de Ano-Bom
  Na manh do ltimo dia do ano de 1937, o corpo de Sara Stein foi
enterrado no cemitrio dos  judeus, que fica por trs do campo-santo de
Santa F. Umas escassas vinte pessoas, membros da  comunidade israelita
local, formavam o acompanhamento fnebre.
  Era pouco mais de dez horas, o sol brilhava num cu sem nuvens, o ar
estava seco e lmpido, e  uma brisa fresca trazia das coxilhas em
derredor um cheiro de grama e queimadas.
  A comitiva esperava em silncio, enquanto os coveiros desciam o rstico
esquife ao fundo da  sepultura. A quietude do cemitrio era quebrada
apenas pelo rechinar duma cigarra e pelas  lamentaes de trs senhoras
idosas, vizinhas e amigas da defunta, que soltavam exclamaes de  dor
em idiche, os corpos sacudidos de soluos, as lgrimas a escorrerem
pelas faces sofredoras.
  A orao fnebre ia ser pronunciada pelo velho franzino, encurvado e
macilento que estava   beira da cova. Tinha longas barbas grisalhas,
vestia surrada sobrecasaca negra, e trazia na coroa  da cabea um
barrete tambm preto. De braos cruzados sobre o peito, as plpebras
cerradas,  parecia imerso em profunda meditao. Houve um momento em que
um dos companheiros lhe  tocou o brao, chamando-lhe a ateno para
quatro homens, evidentemente cristos, que haviam  entrado no cemitrio
e agora, as cabeas descobertas, faziam alto a uns dez metros da cova,
como  se tivessem vindo especialmente para prestar uma homenagem 
morta. O patriarca abriu os olhos,  fitou-os nos recm-chegados, sorriu
com 
  267
  satisfao e explicou em hebraico de quem se tratava. O cavalheiro de
branco era o dr. Rodrigo Cambar, uma das  figuras mais importantes no
s de Santa F como tambm da Repblica. Os dois jovens que estavam a
seu lado,  deviam ser seus filhos. O homem de roupa cinzenta? Ah! esse
era o dr. Dante Camerino, o mdico que assistira  dona Sara com a maior
dedicao at a ltima hora. Todos amigos do Aro...
  Agora um novo som se juntava ao canto da cigarra e aos soluos das
velhas: os coveiros com suas ps atiravam terra  sobre o caixo, que
soava soturno como um atabaque.
  Rodrigo levou o charuto  boca e inalou a fumaa com um prazer um tanto
prejudicado pela idia de que fumar  num momento como aquele chegava a
ser quase um sacrilgio. Fosse como fosse, mamar um charuto caro diante
daquela comitiva de aparncia to pobre no deixava de ser um acinte...
Foi, pois, com uma certa discrio que  expeliu a fumaa. Pensou em
jogar fora o charuto, mas achou que era uma pena, pois o acendera havia
menos de  cinco minutos. Continuou a fumar.
  Ao chegar a Santa F no dia anterior ficara logo sabendo do falecimento
da me de Aro. No quisera, porm, ir   casa morturia no s porque
detestava velrios como tambm porque o espetculo da misria o deixava
deprimido.
  Recordava a criatura infeliz que fora dona Sara, sempre assombrada por
temores e preocupaes. Sua pele era  branca e oleosa, de largos poros,
como os queijos da Dinda. Caminhava com dificuldade, gemendo e
arrastando as  pernas deformadas pela elefantase. Trabalhava de sol a
sol no seu ferro-velho, e muita razo tinha tio Bicho  quando dizia que
a me do Aro parecia uma personagem de Dostoivski. Pobre mulher! Seus
olhos jamais haviam  perdido a expresso de terror que neles ficara dos
pogroms que presenciara, quando menina, na sua aldeia natal no  sul da
Rssia.
  A ateno de Rodrigo foi despertada pela conversa de dois jovens judeus
que se achavam a pequena distncia.  Aparentavam ter entre dezoito e
vinte anos. Um deles, rosado, anguloso, ruivo e sardento, lembrava um
pouco o  que Aro Stein fora quando rapaz. O outro, moreno e descarnado,
tinha algo de levantino na
  268
  cor azeitonada da pele e no aveludado dos olhos escuros. Falavam em voz
baixa mas perfeitamente audvel. Dizia  este ltimo:
  - No concordo. Ele tinha que ir. Era um dever.
  - O dever dele era cuidar da me.
  - No. Um homem no pertence apenas  sua famlia, mas a toda a
humanidade. Ou ento no  um homem  verdadeiro.
  - Quem  mau filho no pode ser bom cidado. O Stein deixou a me
sozinha, passando necessidades. A velha  morreu de desgosto.
  - Tu no compreendes mesmo ou no queres compreender? Neste ponto o
rapaz moreno percebeu que Rodrigo  os mirava
  de soslaio, aparentemente interessado no dilogo. Sua voz ento perdeu a
naturalidade, assumindo um tom quase  teatral:
  - A causa da Repblica espanhola - continuou -  a causa mesma da
liberdade e da dignidade humana.  a  nossa causa, Moiss. Quando avies
alemes bombardearam Guernica eu chorei. Chorei de pena das crianas,
das  mulheres e dos velhos indefesos que os bandidos nazistas
assassinaram. Mas chorei tambm de raiva desses  carniceiros, e de
vergonha por estar aqui de braos cruzados... Palavra de honra, se eu
tivesse dinheiro fazia o que  o Aro fez. Tomava o primeiro navio para a
Espanha e ia me alistar na Brigada Internacional.
  O outro olhava para a sepultura e sacudia a cabea fulva numa negao
obstinada. O jovem moreno prosseguiu:
  - No te iludas. Se o nazi-fascismo ganhar esta guerra, a nossa raa
estar condenada. A causa da Repblica  espanhola  a nossa causa, tu
no vs?
  - Pode ser, mas o Aro matou a velha.
  - Mesmo que isso fosse verdade (e no !) que importa a vida dum
indivduo quando se trata da salvao e do  bem-estar de milhes de
seres humanos atravs de todo o mundo?
  - O Aro matou a me,  s isso que eu sei.
  O rapaz moreno soltou um suspiro de impacincia e exclamou:
  - No passas dum pequeno burgus sentimental!
  Ao ouvir estas ltimas palavras, Eduardo Cambar, que tambm seguia o
dilogo, mas sem olhar para os  interlocutores, voltou
  269
  a cabea vivamente e seus olhos encontraram os do judeu moreno. Houve um
entendimento mtuo e instantneo:  estabeleceu-se entre ambos uma
corrente de solidariedade e simpatia. Sorriram um para
  o outro.
  O patriarca barbudo comeou a ler a orao. Tinha uma voz grave e
metlica, mas que no fim das sentenas perdia  o brilho e o
empostamento, esfarelando-se no ar.
  Eduardo ruminava as palavras do rapaz moreno. Ele tambm sofrera na
carne, nos nervos, o bombardeio de  Guernica. Aprovara com entusiasmo o
gesto de Aro Stein. Envergonhava-se de estar ali, intil, seguro, 
sombra  do pai, a cabea metida no solo, como uma avestruz estpida.
Depois que Stein partira para a Espanha, sentira  mpetos de segui-lo.
Mantivera um dilogo desagradvel com o Velho, havia menos de um ms.
  - Ests louco? No tens nada a ver com essa guerra. Vai cuidar da tua
vida.
  - O senhor ento no compreende que as tropas alems e as italianas
esto fazendo o povo espanhol de cobaia,  experimentando nele as armas e
os avies modernos com que mais cedo ou mais tarde vo agredir o resto
do  mundo livre? A Segunda Guerra Mundial j comeou!
  - Que se danem! No vais. Tira isso da cabea.
  - E se eu for?
  - Se insistires nessa besteira, mando te prender. Tu sabes que o chefe
de polcia  meu amigo.
  - Uma tcnica perfeitamente fascista.
  - Cala a boca! No vou permitir que arrisques tua vida por causa duma
fantasia insensata. Quando o Aro voltar,  vai ter de ajustar contas
comigo por te haver metido na cabea essas caraminholas socialistas.
  O fato era - refletia agora Eduardo, tendo como uma espcie de montona
msica de fundo a voz do patriarca -  que Aro
  270
  apenas lhe abrira os olhos para uma verdade que mais cedo ou mais tarde
ele acabaria descobrindo por si mesmo.  A Revelao lhe cara como um
raio sobre a cabea, deitando por terra o pomposo edifcio de mentiras e
iluses  que sua imaginao construra com o auxlio de toda uma
literatura burguesa artificiosa, sem razes na realidade  social. S
ento  que comeara a sentir o sabor de decadncia, o que havia de
faisand na obra de Mareei Proust,  que antes tanto admirava. O marxismo
lhe fornecera os instrumentos de que ele necessitava para escalpelar o
cadver moralmente putrefato da sociedade capitalista, dando-lhe ao
mesmo tempo o mapa do maravilhoso mundo  socialista do futuro, que tudo
indicava no estar muito longe no tempo. E aos poucos lhe viera uma
crescente  vergonha de sua situao familiar, principalmente de sua
condio de filho dum figuro da poltica situacionista,  cmplice (sim,
por que no dar nomes aos bois?), cmplice, pelo menos por omisso, dos
crimes da polcia  getuliana; cmplice tambm (nesse caso por
comisso... e gordas comisses!) de mil e uma negociatas - gozador,
vaidoso, autoritrio, no respeitando no seu priapismo nem as mulheres
dos amigos, isso para no falar em  secretrias e datilgrafas...
  Ao pensar estas coisas, Eduardo via com o rabo dos olhos a figura do
pai, todo vestido de Unho branco, tendo na  boca um charuto flico, dum
tipo fabricado especialmente para o ditador. O diabo era que apesar de
tudo ele ainda  tinha pelo Velho um certo respeito que s podia ser um
vestgio do temor que em menino tivera do homem que  exercia em casa uma
autoridade arbitrria e indiscutvel, e que de vez em quando lhe dava
palmadas nas ndegas  ou puxes de orelha. Se eu no gostasse dele -
refletiu - tudo ficaria mais fcil. Sairia de casa e ia viver a minha
vida.
  Sentia-se constrangido em receber uma mesada do pai para continuar seu
curso de direito, uma coisa puramente  formal, absolutamente intil para
quem como ele no acreditava mais na justia capitalista. Comeara a
sentir esses  escrpulos de menos de um ano para aquela data, depois da
Revelao. O que antes era uma situao que aceitava  com naturalidade,
se havia transformado num problema. Que fazer?
  271
  Tornou a olhar para o judeu moreno. Outra vez trocaram um sorriso.
Eduardo encaminhou-se ento para ele,  estendeu-lhe a mo, que o outro
apertou.
  - Meu nome  Eduardo Cambar.
  - O meu  Gildo Rosenfeld.
  - Ouvi o que voc disse ao seu amigo. Eu tambm aprovei e invejei o que
o Aro fez.
  Tomou do brao do novo camarada e conduziu-o para um dos ngulos do
cemitrio.
  Floriano Cambar seguiu-os com o olhar e compreendeu o que se havia
passado. Tinha ouvido tambm o dilogo  dos dois jovens. Sorriu para si
mesmo. Comeava a acreditar em que um comunista convicto e apaixonado
era  capaz de emitir fluidos, transmitir mensagens imperceptveis para o
comum dos mortais, e que s podiam ser  captadas e decifradas por outro
crente. Que maonaria!
  Olhando para o pequeno grupo que rodeava a sepultura recm-fechada,
comeava a ver a cena dum ngulo  plstico. Havia, porm, algo de errado
no quadro. Aquele enterro nada tinha a ver com a manh festiva: pedia,
isso  sim, um pressago cu de spia, como o de certas telas de El Greco.
As palavras do patriarca, bem como o choro das  velhas, perdiam-se na
amplido luminosa. Outro elemento sonoro estranho  cerimnia eram os
guinchos dos  quero-queros, que de quando em quando cortavam o ar,
vindos dos campos adjacentes. E estava perfeitamente  claro que a
cigarra no cantava para a defunta, mas para o sol. Em suma, o pequeno
cemitrio judaico - com seus  muros sem reboco, suas sepulturas pobres,
suas lpides em que se viam estrelas de David e inscries em idiche e
hebraico - parecia uma ilha anacrnica perdida num mar de luz e azul, um
azul vivssimo e improvvel de cartaz  de turismo, um azul pueril e sem
memria, que nada parecia saber de disporas, pogroms e guetos, nem da
dor, da  tristeza e da nostalgia
  272
  duma raa sem ptria no espao. Surgiu ento na mente de Floriano uma
imagem que ele estava habituado a  associar quele tipo de cu e de luz:
Marian Patterson saindo das guas do oceano, o corpo enfeitado de gotas
cintilantes de sol. Sim, Mandy ameaadoramente hgida e atraente. Que
estaria ela fazendo quela hora? Floriano  olhou para o relgio. Dez e
quarenta. Claro que estava estendida nas areias de Copacabana. Ser que
j me  enganou com algum? No creio ou, melhor, no quero crer. Nem
pensar no assunto. Que direito tenho de lhe  exigir fidelidade? Nunca me
pediu nem prometeu nada. E  isso que d  nossa ligao muito da sua
beleza... e  toda a sua convenincia. Pouco me importa o que Mandy possa
estar fazendo agora ou o que v fazer esta noite.  Mentes, velhaco! Bem
que a coisa me preocupa. Mas eu me sinto diminudo por me preocupar.
  Pensou ento na prova que o esperava aquele dia: seu primeiro encontro
com Slvia depois da interrupo da  correspondncia que haviam
mantido... e depois da notcia do noivado dela com Jango. Como trat-la?
Que dizer- lhe? A verdade era que desde que chegara a Santa F, havia
menos de vinte e quatro horas, sentia-se de novo  preso ao sortilgio da
amiga, mesmo antes de t-la visto ou ouvido.  que ela estava
inapagavelmente ligada s  imagens, aos odores, aos sons, em suma - ao
clima do Sobrado. Mais que isso: ela pertencia ao tempo do  Sobrado.
Pela mente de Floriano passaram, no espao de alguns segundos, as muitas
Slvias que ela fora ao longo  dos anos,  sombra do relgio grande de
pndulo e dos calendrios da Casa Sol, cujas folhinhas a Dinda arrancava
infalivelmente todas as manhs.
  Primeiro, uma criaturinha de pernas finas, que irritava um pouco o
menino Floriano, por causa de sua devoo por  Alicinha, a quem obedecia
e servia como uma escrava, e de sua adorao pelo padrinho Rodrigo, a
quem um dia se  oferecera como filha.
  Depois, a meninota de doze anos que se movia como uma sombra silenciosa
pelas salas do casaro, olhando para  tudo e todos com olhos cheios de
amor, como a suplicar que a aceitassem, e, se no fosse pedir muito, que
tambm  a amassem...
  273
  Dezembro de 1932. De uma das janelas dos fundos do Sobrado uma tarde
Floriano viu, sem ser  visto, a. Slvia de catorze anos. Estava no
quintal, vestida de branco, sentada debaixo dum  jasmineiro-manga, as
mos pousadas no regao, a cabea um pouco alada, a expresso sria,
como a posar para um pintor invisvel. Era a primeira vez que a via,
depois duma ausncia de dois  anos. E a graa da adolescente foi para
ele uma surpresa, uma sbita revelao. Ficou a  contempl-la encantado,
j pensando em se daquele momento em diante poderia continuar a
beij-la fraternalmente como antes... e ao mesmo tempo lutando consigo
mesmo, recusando-se a  aceitar a idia duma Slvia mulher... No entanto
l estava ela, com a sombra das folhas, ramos e  flores da rvore no
rosto e nos braos, menina e moa, mais moa que menina. E Floriano
fruiu  aquele instante como quem entreouve a mais bela frase duma
sonata, ao passar por uma janela  aberta: um momento inesperado e
gratuito... um minuto roubado que se pode deteriorar se o  passante
inadvertido se detiver para ouvir a sonata inteira.
  Outra foi a Slvia que ele encontrou no vestbulo do Sobrado ao chegar
do Rio, em setembro de  1935, para assistir s festas com que Santa F
comemorou o Centenrio da Revoluo dos  Farrapos. Teria Slvia ento
dezessete anos e era j uma mulher feita. Foi exatamente por isso que
ele a tomou nos braos com um ardor pouco fraternal e beijou-a na face,
mas to perto da boca,  que as comissuras dos lbios de ambos se tocaram
de leve. Uma vermelhido cobriu o rosto da  moa que, sem dizer palavra,
fugiu para o fundo da casa, enquanto ele, Floriano, tambm  perturbado,
abraava os outros. Ao estreitar contra o peito o corpo seco da Dinda,
esta lhe disse  significativamente: "No se esquea que voc no est no
Rio de Janeiro, mas em Santa F,  ouviu?" E nas duas semanas que
passara em sua cidade natal, naquele setembro ventoso, tivera
pouqussimas oportunidades de ficar a ss com Slvia, por duas razes
igualmente poderosas.  Primeiro porque Jango cercava a moa com suas
atenes de apaixonado, no lhe dando trgua.  E depois porque a Dinda
exercia uma fiscalizao de tal modo rigorosa nos assuntos sentimentais
do casaro, que toda a vez que o encontrava em companhia de Slvia,
descobria um pretexto para  separ-los.
  274
  No raro dizia simplesmente: "Slvia, o Jango anda te procurando". -
Gritava em seguida: "  Jango, a Slvia est aqui!" E Floriano sorria,
compreendendo que o irmo era o "candidato oficial"  do Sobrado  mo da
moa. Resignava-se, mesmo porque ele prprio no era candidato a coisa
nenhuma. (Ou era e no sabia?)
  Outono de 1936. Da janela do apartamento da famlia, em Copacabana, numa
manh de domingo  ele lia uma carta, fazendo de quando em quando pausas
na leitura para contemplar as ondas que  rebentavam em espuma. Era
estranho - refletiu - mas Slvia nunca tinha visto o mar... Entre
outras coisas, a carta dizia:
  Sabes por que te escrevo? Se sabes ento manda me dizer, porque eu no
sei. De repente me veio uma vontade  danada de conversar contigo, e aqui
estou, me sentindo um pouco sem graa, com a impresso de estar falando
sozinha. Porque nem sei se tens tempo ou interesse em manter
correspondncia com uma "amiga provinciana".  No te julgues obrigado a
me responder. Se h coisa que eu detesto  ser tratada com caridade.
Acho at que  suporto melhor os maus-tratos que a piedade, no te
esqueas nunca disto. Mas se escreveres, podes ficar certo de  que me
fars muito feliz. Sei o que ests pensando: "A Slvia est fazendo a
sua chantagem". E eu acho que estou  mesmo.
  Aquela carta fora o princpio duma correspondncia que durara mais de um
ano. E uma Slvia que  ele no conhecia e nem sequer suspeitava se foi
aos poucos revelando, rica de imaginao, de  humor e de substncia
humana, naquelas cartas escritas em papel de seda, com tinta
azul-turquesa,  numa caligrafia ntida, de corte to decidido que no
parecia ter sido traada pela frgil mo  daquela morena de olhos
amendoados.
  Terminada a cerimnia fnebre, Rodrigo foi cumprimentar o patriarca e
acabou apertando a mo  a todas as outras pessoas que se aproximaram
dele.
  275
  Eduardo, que ainda conversava a um canto do cemitrio com Gildo
Rosenfeld, murmurou, como que pensando em  voz alta: "L est o Velho
cortejando o eleitorado. Todos os polticos so iguais". O judeu sorriu,
sem ousar dizer o  que pensava do figuro. Mas Eduardo, para se mostrar
liberto de preconceitos, disse:
  - No pense que no sei o que se conta por a de meu pai. E o pior  que
tudo ou quase tudo  verdade. O  pretexto desta viagem foi celebrar esta
noite num rveillon o noivado de meu irmo. Vai haver festana l em
casa,  em grande estilo. Bom, mas o que trouxe mesmo o Velho at aqui
foi o propsito de convencer alguns amigos  relutantes, como o coronel
Macedo e o dr. Prates, de que o Estado Novo deve ser aceito e
prestigiado, porque  dele depende a salvao do Brasil.
  - Acha que seu pai acredita mesmo nisso? Eduardo fez uma careta Je
dvida.
  - Acho que ele quer acreditar, precisa acreditar. No fundo no deve
estar se sentindo muito bem. Passou a vida  fazendo demagogia,
dizendo-se democrata, civilista e no sei mais o que, e agora se
acumpliciou com os militares  para impor ao pas um regime fascistide.
  As mos metidas nos bolsos, Rosenfeld tentava arrancar com a ponteira do
sapato um seixo meio enterrado no solo.
  - E o Partido? - perguntou sem erguer os olhos. Eduardo compreendeu o
sentido da pergunta.
  - No sou ainda membro, mas simpatizante. Conheo pessoalmente vrios
camaradas. O Partido faz o que pode  na ilegalidade, est se
reorganizando, depois do fracasso do golpe de 35. O trabalho de sapa,
voc sabe, no cessa  nunca. E mesmo essa burguesia safada trabalha para
ns. Quando voltar ao Rio, quero ver se me inscrevo. Tenho  medo que no
me aceitem, por eu ser filho de quem sou. - E noutro tom: - H muitos
comunistas por aqui?
  Rosenfeld encolheu os ombros.
  - Alguns simpatizantes. Nenhum membro do PC, que eu saiba, alm do
Stein. - Fez com a cabea um sinal na  direo do cortejo fnebre que
comeava a dispersar-se. - Quem  o de roupa azul-marinho?
  276
  - Meu irmo mais velho.
  -  dos nossos?
  - No... Um intelectual indeciso.
  -  o que escreve livros?
  - . Vive dizendo que  socialista, mas fica tudo na boa inteno, no
faz nada. No tempo da Aliana Libertadora  chegou a assinar um manifesto
antifascista, mas acho que se arrependeu. O chefe de polcia telefonou
ao meu pai:  "Ento, no sabia que tinhas um filho comunista, hein?" O
Velho ficou furioso, chamou o Floriano, passou-lhe um  pito, gritou que
a Aliana Libertadora no passava de mais um disfarce dos comunistas...
  Eduardo viu o pai fazer-lhe de longe um sinal: uma ordem para que o
acompanhasse.
  - Bom, o chefe da tribo est me chamando. Afinal de contas  ele quem
financia este parasita social que voc est  vendo aqui. - Sorriu. -
Mais um exemplo da ditadura econmica. Mas no h de ser nada. As coisas
logo vo  mudar. Mesmo que eu no consiga embarcar para a Espanha,
pretendo me atirar na luta dum jeito ou de outro.
  Os olhos de Rosenfeld tinham uma doura quase infantil; suas mos eram
frgeis, seus ombros estreitos. Eduardo  ficou a perguntar a si mesmo se
seu novo amigo estaria fisicamente qualificado para lutar na Espanha...
  - Bom, havemos de nos encontrar outra vez - disse. - Podemos jantar
juntos um destes dias. Que tal sbado  que vem?
  - Est combinado. Onde nos encontramos?
  - No caf do Schnitzler, s sete em ponto. - Sorriu. - Se entramos no
Poncho Verde correremos o risco de ser  linchados...
  Apertaram-se as mos em silncio. Eduardo encaminhou-se para o porto do
cemitrio, e Rosenfeld ficou onde  estava, de olhos baixos, e ainda
tentando desenterrar o seixo.
  5
  Rodrigo Cambar ps o panam na cabea e, dirigindo-se ao Dante Camerino
e aos filhos, disse:
  277
  - Vamos agora dar uma olhada no nosso cemitrio.
  No era um convite, mas uma ordem. Floriano no gostou da idia, mas
seguiu o grupo. O vento trazia-lhe s  narinas a aura paterna: fumaa de
charuto misturada com eflvios de Tabac Blond, o perfume com o qual,
havia j  alguns anos, o Velho "trara" seu Chantecler. Segundo a
opinio de muita gente, no fora essa a sua nica traio.  Murmurava-se
que ele havia "apunhalado pelas costas" o prprio Rio Grande, apoiando o
golpe de 10 de  novembro, que fechara o Parlamento, rasgara a
Constituio de 1934, institura a "Polaca" do Chico Campos e
determinara a queima das bandeiras estaduais. Isso para no falar de
outras traies mais sutis, de natureza no- poltica.
  Eu s queria saber como  que ele se sente, bem no fundo - refletia
Floriano, olhando as verdes coxilhas que se  estendiam rumo de
horizontes largos e luminosos. - Esse ar de homem forte, seguro de si
mesmo e dos outros  bem pode ser apenas uma fachada para esconder o
tumulto que lhe vai no ntimo. Afinal de contas o povo tem  memria. E
ele tambm... Seus discursos liberais de certo modo ainda ecoam nos ares
de Santa F.
  Entraram no cemitrio. Rodrigo e Dante tornaram a descobrir as cabeas.
Eduardo e Floriano no usavam chapu,  hbito com que Rodrigo no
simpatizava. "Em certas coisas sou um homem antigo - dissera ele, no
fazia muito.  - H modernismos que no aceito. Essa histria de andar na
rua sem chapu, por exemplo... Em outros assuntos  considero-me
evoludo. Principalmente no terreno das ideias." Sim, a facilidade com
que aceitara a falcia do  Estado Novo - refletira Eduardo na ocasio -
provava bem isso...
  Floriano ficou angustiado ao dar os primeiros passos dentro do
cemitrio. Teve a impresso de que a mo da morte  lhe acariciava o
peito. E aqueles cheiros (cera e sebo derretido, flores murchas, terra
das covas recm-abertas) e  mais a idia de que debaixo daquele cho
jaziam ossadas humanas e apodreciam cadveres - produziam-lhe uma
sensao de nusea.
  O cemitrio de Santa F lembrava-lhe vagamente uma cidade rabe, com
cpulas e minaretes em branco, rosa e  azul, com suas casas caiadas e
seus becos estreitos e desconcertantes como os do
  278
  Casbah argelino. (Mais duma vez sonhara que andava perdido naqueles
labirintos.) S alguns dos mausolus das  grandes famlias destoavam do
conjunto. O dos Teixeiras, todo de mrmore branco, tinha a forma dum
templo  grego. O dos Prates, em mrmore gris, parodiava uma catedral
gtica. O dos Macedos era uma miniatura da  Baslica de So Pedro, em
granito rseo.
  O menino que havia ainda em Floriano olhava em torno com olhos
supersticiosos e apreensivos, mas o adulto  tratou de recorrer ao
sarcasmo para tranqilizar a criana.
  No achas absurda a pompa desses mausolus? E tome mrmore e tome
bronze, e tome granito! Prefiro mil vezes  um cemitrio protestante,
lpides simples dentro dum parque verde, sem nada de pretensioso ou
macabro... Repara  na cretinice de certos epitfios. Ali est o
infalvel soneto de Cames. Alma minha gentil que te partiste...
Maminha? Cacfaton! Te lembras de como ramos no ginsio toda a vez que
nos tocava analisar esse verso? Olha  s a cara daquele anjo
hermafrodita de ndegas carnudas... O que est ajoelhado sobre a lpide,
depondo sobre ela  uma coroa... Devia ter no rosto uma expresso de
melancolia, no entanto por inadvertncia ou molecagem do  escultor tem
apenas um sorriso safado. Saudades eternas do teu amantssimo marido.
Aposto como o amantssimo  tornou a casar-se. Tome muito cuidado com as
palavras, menino,  um conselho que te dou. Se algum dia vieres a  ser
escritor, como sonhas, pe sentido nas palavras. Eterno e infinito no
fim de contas no querem dizer tanto  quanto se pensa. Alto! Aqui
chegamos  ltima morada de dona Vanja. O retrato, como o epitfio, no
lhe fazem  justia. Branquinha e asseada, cercada de rosas frescas, esta
sepultura parece-se muito com a defunta. S lhe falta  recender a
patchuli. Adiante! Sossega esse peito. Os mortos so inofensivos. O que
eles querem  que os vivos os  deixem em paz. Ah! O jazigo da famlia
Fagundes... Imagina s o cadver do coronel Cacique tomando chimarro
todas as manhs  frente dessa abominvel imitao de palazzo
florentino...
  Floriano avistou o tmulo de Srgio, o Lobisomem, uma das personagens de
sua mitologia privada e de sbito a  espada do seu sarcasmo perdeu o
fio. O adulto, vencido, entregou-se ao menino,
  279
  que lhe tomou da mo e o levou a ver o "seu" cemitrio, onde Eternidade
e Infinito tinham ainda um prestgio e  um sentido que seria um
sacrilgio, alm de uma insensatez, discutir.
  Os passos de Floriano o levaram at uma das sepulturas mais famosas. Era
toda de tijolos, na forma dum ba antigo,  e continha os restos duma
mulher que fora assassinada com cinco tiros pelo marido, que a apanhara
nos braos de  outro homem. O esposo enganado mandara gravar por baixo
do nome da morta este epitfio terrvel: Aqui jaz uma  adltera.
  -  Floriano!
  Voltou a cabea. O pai chamava-o. Aproximou-se dele. Apontando para uma
pequena sepultura de arenito,  Rodrigo perguntou:
  - Te lembras do dr. Miguel Ruas?
  - Claro.
  L estava, num medalho oval incrustado na pedra, o retrato do promotor,
de meio corpo, a cara sorridente, os  braos cruzados, um palheta na
cabea, num jeito meio gaiato, o colarinho altssimo e uma gravata to
fina como  um cordo de sapatos. Como aquilo era comovedoramente 1920!
  - Morreu nos meus braos - recordou Rodrigo. - E como um homem. Sem
soltar um gemido.
  Pararam, poucos passos adiante,  frente dum tmulo em que um anjo de
asas fechadas tinha o rosto coberto pelas  mos e os cotovelos apoiados
numa coluna partida. Sobre a lpide horizontal de mrmore cinzento,
via-se um livro  aberto. De dentro de uma das folhas desse livro o
retrato de dona Revocata Assuno olhava agora para Floriano  com olhos
autoritrios, perguntando-lhe, de cima do estrado de sua Aula Mista
Particular: "Em quantas partes se  divide o corpo humano?" Floriano
ouviu com a memria a voz metlica da velha mestra, chegou a sentir os
cheiros  da escola. "Ora, professora, o corpo humano que no momento
conheo melhor, alm do meu,  o de Mandy  Patterson. Perdoe-me a
insolncia mas, como a senhora sempre dizia, quem fala a verdade no
merece castigo, e  mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo.
Os livros esto cheios de erros crassos. Uma das coisas  que a 
  280
  experincia me ensinou  que o corpo humano tem mais de trs partes,
principalmente o das mulheres."
  De novo o homem tentava proteger o menino. Mandy era o antdoto ideal
para os plidos pavores daquele  cemitrio.
  - Mulheres como esta no aparecem mais - murmurou Rodrigo, contemplando
com reverncia o retrato da  professora. - Esto se acabando.
  - J se acabaram - corrigiu Dante Camerino.
  - E o mais curioso - disse Floriano, fazendo com a cabea um sinal na
direo da escultura -  que a professora  no acreditava em anjos.
  - Nem em Deus - ajuntou o mdico. E contou que presenciara os ltimos
momentos de dona Revocata. Um  padre se acercara da cama e a exortara a
converter-se ao catolicismo. Ela respondera simplesmente: "Deus no
existe". Expirou poucos minutos depois. O sacerdote cerrou-lhe os olhos
e, voltando-se para as poucas pessoas  presentes, murmurou com um
sorriso triste: "A esta hora dona Revocata j descobriu o seu engano". E
ajoelhou-se  ao p do leito para rezar pela alma da defunta.
  Rodrigo continuou a andar, dessa vez com passo mais apressado, como se
tivesse destino certo. De sbito, porm,  estacou, como um homem
ameaado de morte que tem o pressentimento de que o sicrio pago para o
assassinar  est atocaiado na prxima esquina... E que perto da capela
grande, para onde seus passos o conduziam, ficava a  sepultura do
tenente Bernardo Quaresma...
  Vou ou no vou? - pensou, mordendo o charuto, quase a ponto de
trinc-lo. - O Dante j deve ter percebido a  causa da minha
hesitao...
  - Vamos ver o Bernardo - disse em voz alta, procurando dar  voz um tom
casual. Mas Floriano, que ouvira o  convite, fez meia-volta e afastou-se
rumo do porto do cemitrio, num ritmo de fuga que mal conseguia
disfarar.
  281
  O epitfio que o prprio Rodrigo redigira para a tumba do tenente de
artilharia, rezava: Morreu como um bravo na  defesa de suas convices.
A inscrio alinhava-se em letras de bronze sobre uma lpide lisa de
granito cor de  chumbo, em cujo centro se viam uma espada e um quepe
militar gravados em baixo-relevo. Rodrigo notou,  indignado, que algum
havia quebrado, possivelmente com um martelo, a palavra bravo.
Lembrou-se ento da  torva histria que ouvira, havia algum tempo. Todos
os anos, no Dia de Finados, o pai do sargento Sertrio vinha
infalivelmente cuspir sobre a sepultura do homem que lhe matara o filho.
No ltimo ano de sua vida, alquebrado e  hemiplgico, fora trazido at
ali nos braos de parentes e, j sem fora para escarrar, atirara-se de
bruos sobre a  lpide, onde a boca aberta e mole, ficara a babujar a
pedra. Dum modo geral, porm, aquele tmulo gozava da  estima popular, e
era at foco de supersties, pois gente havia que, acreditando nos
poderes taumatrgicos do  defunto, ia levar-lhe flores, acender-lhe
velas, fazer-lhe oraes e promessas.
  Rodrigo pensava em Bernardo Quaresma com um misto de terna saudade e
apagado horror. Porque a imagem do  tenente de artilharia era agora para
ele a personagem duma horrenda noite de pesadelo e ao mesmo tempo um
objeto de remota afeio. Lembrava-se da alegria com que nos bons tempos
Bernardo entrava no Sobrado,  orgulhoso de ser ntimo da casa: passava a
mo pela cabea de Slvia, chamando-lhe "minha namoradinha" e  tentava,
mas em vo, conquistar a Dinda com abraos que ela repelia e com
presentes que nem sequer a faziam  sorrir. Rodrigo pensou tambm em
Roberta Ladrio, a grande paixo de Bernardo. Avistara a professora
havia  pouco em Copacabana: gorda, grisalha, matronal. E o fato de ter
enganado o tenente, dormindo com sua bem- amada, era agora para ele mais
um motivo de remorso e mgoa.
  Lembrava-se tambm, sensibilizado, de como o achara pequeno quando vira
seu cadver enrolado naquela lona  srdida...
  E aqui estou eu vestido de linho, perfumado, prspero, vivo. Vivo! Se
Bernardo me aparecesse e perguntasse "De  que serviu minha morte?" - o
melhor que eu tinha a fazer era baixar a cabea e calar. Posso enganar
os outros,  mas no a mim mesmo. O que
  282
  a est no  positivamente o que ns queramos fazer quando marchamos
contra o Rio, em 30. De quem a culpa?  Minha no . Sou um homem
imperfeito, limitado. Tenho um corpo, nervos, apetites, paixes. No me
culpem  pelo rumo que os acontecimentos tomaram... Mas quem  que me
acusa? Eu mesmo. Qual! No ignoro o que se  murmura por a... Esses
maldizentes profissionais no sabem da missa a metade. A enxurrada de 30
levou para o  Rio o que este pobre pas tinha de mais corrupto... ou de
mais corruptvel. Todos ns fizemos o que foi  humanamente possvel
fazer. No entanto houve momentos em que tivemos de transigir para evitar
o pior. Engoli  esse Estado Novo, mas a verdade  que no o digeri
ainda. No me agrada a posio de comparsa do Gis  Monteiro e de seus
generais. O que temos agora  uma ditadura fascistide. (Por sorte o
Getlio  um homem  sereno.) Seja como for, o Rodrigo Cambar de 1930 a
esta hora j estaria na coxilha, de armas na mo, para  derrubar este
novo governo. Mas acontece que sou o Rodrigo Cambar de 1937. H coisas
irreversveis. O tempo,  por exemplo. A morte. O remdio agora  levar
adiante a comdia, representar a srio. O pano est erguido e os  olhos
do pblico em cima de ns. J decorei o meu papel - o mais difcil da
minha vida. Represent-lo direito   no momento a nica esperana de
salvao.
  Bernardo Quaresma estava morto. Aquilo ningum podia mudar. Mas... a
troco de que mexer em feridas  cicatrizadas? Que os mortos enterrem seus
mortos, como diz a Bblia. (Ou seria o Alcoro?) E um dia, houvesse o
que houvesse, ele, Rodrigo Cambar, tambm seria trazido para ali, no
enrolado numa lona, suja, mas dentro dum  caixo decente. E ento tudo
estaria bem. Bem uma ova!
  Jogou fora o charuto, passou o leno pela cara e pelo pescoo. O calor
aumentava, comeava a causar-lhe mal- estar. Uma voz vinda da infncia
gritou: "Vem pra dentro, menino, sai do sol!" (A Dinda achava que o sol
era capaz  de fritar os miolos dum vivente.)
  - No  mesmo uma coisa estpida? - disse, voltando-se para Dante
Camerino, que a seu lado suava e bufava.
  O outro sacudiu a cabea numa lenta afirmativa.
  283
  - Tu sabes... - continuou Rodrigo. - Ele atirou primeiro.
  - Ora, doutor. Todo o mundo sabe. Ningum discute.
  - Mesmo assim no  nada agradvel a gente saber que matou um homem...
  - O senhor no pode dizer isso. Eu me lembro que o tenente tinha cinco
ou seis balas no corpo...
  - Uma delas, a primeira, saiu do meu revlver. Camerino permaneceu
calado.
  - Dante, vou te fazer uma pergunta e quero que me respondas com toda a
franqueza... com a franqueza que  sempre usei contigo. Na tua opinio o
sacrifcio da vida do Quaresma foi intil? Achas que a Revoluo de 30
no  melhorou em nada este pas?
  Camerino arrancou a gravata num gesto brusco, desabotoou o colarinho,
passou o leno pelo pescoo, olhando a  todas essas para o tmulo.
  - O assunto  muito complicado... - comeou ele.
  - Podes dizer o que pensas. Tenho o couro grosso.
  - Ora, doutor. Acho que os revolucionrios de 30 pretenderam fazer uma
coisa e acabaram fazendo outra. Isso  acontece muitas vezes em medicina.
Mesmo quando cometemos erros ningum pode nos acusar de ter procurado
matar e no curar o doente...
  - Compreendo. A Revoluo de 30 provocou no organismo nacional uma
infeco mais sria do que a que ela  queria combater... e o nosso
doente pode morrer da cura.
  - No  bem isso. Rodrigo sorriu:
  - Seja como for, no devemos perder a esperana. Porque nosso paciente
tem uma resistncia de cavalo.  o que  nos vale!
  Tornou a olhar para o tmulo:
  - V s como so as coisas... Esse menino vem l das Alagoas, estuda no
Realengo, sai aspirante, vai servir numa  guarnio do norte, depois 
promovido a tenente e transferido para c. Pensa bem, Dante. Por que no
Santa  Maria? Ou Cruz Alta? Ou CaixaPrego? No, tinha de ser Santa F.
Chegou aqui, freqentou minha casa, tomou-se  de amores por mim,
sentou-se  minha mesa, ficou sendo quase uma pessoa da famlia. Quando
o sargento Sertrio  lhe deu voz de priso, ele reagiu... trocaram
tiros. O sargento errou
  284
  a pontaria e pagou o erro com a vida... mas se tivesse acertado, eu
teria encontrado o Bernardo morto ou ferido  quando cheguei ao quartel.
Suponhamos tambm que o policial do tenente no estivesse com ele na
sala da  guarda... Os sargentos teriam feito explodir uma granada l
dentro e liquidariam o Bernardo antes de irem me  chamar... Mas qual! O
destino arranjou as coisas de tal modo que eu, eu!, logo eu, o amigo do
Bernardo...
  Calou-se, meio engasgado e j prestes a chorar. Camerino desviou os
olhos do rosto do amigo. Naquele momento  o zelador do cemitrio saa da
capela. Rodrigo chamou-o.
  - Seu Amncio - disse - vamos fazer uma coisa que h muito j devia ter
sido feita. Quero mandar os restos do  tenente Quaresma para Macei,
onde ele nasceu. Vou escrever ao prefeito de l. O senhor tome todas as
providncias necessrias, se houver algum papel a assinar, eu assino. E
todas as despesas naturalmente correm por  minha conta. Mandaremos a
urna por via area.
  O zelador sacudiu a cabea afirmativamente, murmurando:
  - Est bem, seu doutor, est bem. Rodrigo olhou para Dante:
  - Vamos embora, est um sol filho da me!
  Viera-lhe de repente uma nsia de fugir, de meter-se em casa, tomar um
banho, perfumar-se, beber uma cerveja  gelada, ouvir msica, esquecer o
cemitrio, a morte, o passado...
  Dirigiu-se a passos largos para o porto. Avistou de relance,  sombra
dum cedro, o tmulo de Toni Weber, que  costumava visitar sempre que
vinha a Santa F. No! J tivera sua dose de tristeza e remorsos... Para
um dia s,  bastava! Passou de largo pelo prprio jazigo dos Cambars,
j se sentindo culpado com relao ao pai,  me,   filha e aos outros
parentes l sepultados. Outro dia! Outro dia! Outro dia!
  7
  Entrou no Chevrolet azul que o esperava  entrada do cemitrio.
Sentou-se ao lado do chofer. Dante, Floriano e  Eduardo acomodaram-se no
banco traseiro.
  285
  - Toca, Bento! - ordenou Rodrigo. Depois que o auto arrancou, voltou-se
para trs. - As minhas tmporas esto  latejando, Dante. Acho que vou
ter uma enxaqueca. - E, sem dar tempo para que o outro dissesse o que
quer que  fosse, perguntou: - Mas como foi essa histria da velha Stein?
  - Ora, depois que o filho embarcou para a Espanha, a coitada no teve um
minuto de sossego. Vivia desesperada,  com palpitaes e dores no peito,
a presso subindo... Fiz o que pude, mas ela no me ajudava. Parecia at
que  tinha prazer em ser infeliz, s enxergava o lado negativo das
coisas, imaginando sempre o pior. Passava as noites  em claro pensando
no Aro. S conseguia dormir  custa de muito Luminal. Um dia algum
teve a infeliz idia de  lhe contar que tinha lido no Correto do Povo a
notcia de que um moo do Rio Grande, soldado da Brigada  Internacional
na Espanha, tinha sido ferido gravemente. Tratava-se dum tal Vasco no
sei de qu, de Jacarecanga...  mas a velha gritou logo: "Esto me
enganando! Foi o Arozinho. Ele morreu! Eu sei. Ele morreu!" Nesse dia
teve  um derrame cerebral, dos brutos. Faleceu uma semana depois.
  - Eu me sinto um pouco responsvel por tudo isso - murmurou Rodrigo.
  - Ora, por qu?
  - Ento no sabes? Fui eu quem deu dinheiro para o Aro comprar a
passagem para a Espanha. Ele me procurou  no Rio e declarou que se no
fosse ajudar a defender a Repblica espanhola, morreria de vergonha. E
tantas fez e  disse, que acabei dando o dinheiro...
  - Se o senhor no desse, ele se arranjaria de outro jeito... O auto
descia a colina do cemitrio na direo da  cidade. Ao
  olhar para os casebres miserveis do Purgatrio, que se estendiam l
embaixo no canhado, Rodrigo pensou no seu  famoso plano para acabar com
a pobreza de Santa F. Teve saudade do ingnuo otimista que um dia fora.
  Olhou para Bento. Passava-se o tempo e no entanto o caboclo no
envelhecia. Ali estava ele, rijo nos seus sessenta  e trs anos, sem um
fio de cabelo branco na cabea, a pele curtida mas lisa, os olhos
  286
  limpos e vivos. Suas mos, que seguravam o guidom, pareciam razes,
  - Ento, Bento, que  que se conta de novo por a? Sem tirar os olhos da
estrada, o caboclo respondeu:
  - Nada, doutor. Tudo velho.
  - Como vai o Angico?
  - Regular pra campanha.
  Eta Bento velho! - pensou Rodrigo. Pau para toda obra, tanto em tempo de
paz como em tempo de guerra. Pedia  pouco, dava muito. Era parco de
palavras, sbrio no comer e no beber. Fazia mais de cinqenta anos que
estava a  servio dos Cambars. Orgulhava-se de ser "gente do coronel
Licurgo". Rodrigo contemplava-o com uma afeio  temperada por uma
absurda pitadinha de inveja. Qual seria o segredo daquele homem? Onde,
as fontes daquela  tremenda vitalidade, daquela incorruptvel capacidade
de ser amigo, de servir, de manter-se fiel?
  - Doutor - disse o caboclo -, ainda que mal pergunte... que negcio 
esse que ouvi falar... o tal de Estado  Novo?
  Rodrigo no gostou muito da pergunta mas respondeu como pde, em termos
que Bento pudesse entender. O  homem escutou-o com ateno e, quando o
patro terminou, fez nova pergunta:
  - Mas carecia mesmo queimar a bandeira do Rio Grande? Rodrigo ficou
desconcertado. E antes que ele achasse  uma
  resposta para a pergunta embaraosa, Eduardo interveio:
  - Isso no  nada, Bento. O dr. Getlio fez coisa pior. Mandou queimar
toneladas de caf num pas onde milhes  de pessoas nunca tomam caf por
falta de dinheiro. E sabes para qu? Para conseguir preos melhores para
o  produto; a fim de que uns grados muito ricos fiquem ainda mais
ricos.
  Floriano teve mpetos de acrescentar: "Mas esse caf na verdade no foi
queimado e sim desviado e vendido  criminosamente no mercado negro por
figures da Repblica". Mas calou-se, intimidado pela presena do pai.
  - J ests tu com teu marxismo de meia pataca! - exclamou Rodrigo,
voltando a cabea na direo de Eduardo.  - Conta o
  287
  que os teus camaradas fazem na Rssia aos que se desviam da linha
poltica do Partido...
  Eduardo ia replicar mas o pai fulminou-o com um olhar e trs palavras:
"Cala a boca!"
  O rapaz calou-se, fechou a cara, cruzou os braos, ficou olhando para
fora. Floriano sorriu amarelo, numa  desconfortvel neutralidade.
Camerino disfarou seu embarao num gesto automtico: tirou um cigarro
do bolso,  prendeu-o entre os lbios e acendeu-o.
  O auto agora entrava na primeira rua calada de Santa F. Sem voltar-se,
Rodrigo disse:
  - Vou tomar uma aspirina e me deitar um pouco.
  - timo - murmurou Camerino. - No esquea que tem convidados para o
almoo.
  Quando em 1933 Jos Kern comprou o Caf Poncho Verde ao seu fundador e
proprietrio, um ex-tropeiro de  Dom Pedrito, a opinio quase geral era
a de que a popular casa da praa da Matriz ia perder o seu aspecto
nacional  e germanizar-se, o que seria uma pena - comentava-se - pois o
caf tinha uma tradio que estava ligada ao seu  nome,  sua fachada
pintada de verde, aos seus mveis, que pouco ou nada haviam mudado
naqueles vinte e trs  ltimos anos, e principalmente  sua histria.
Contava-se que em 1910, numa de suas raras visitas a Santa F, o
senador Pinheiro Machado entrara no Poncho Verde para comprar um mao de
palha de cigarro e uma caixa de  fsforos, causando sensao entre os
que l se encontravam. Em 1913 (e quando agora se contava isto a gente
nova exclamava: "Essa eu no como!") Theodore Roosevelt, ex-presidente
dos Estados Unidos, entrara em carne e  osso no caf em Companhia do
intendente municipal e de autoridades militares - imaginem para qu? -
para  tomar um clice de cachaa, o que fizera com gosto, estralando a
lngua e lambendo os bigodes. Os antigos do  lugar explicavam o
fenmeno. O gringo andava viajando em trem especial pelo Brasil e ao
passar por Santa F  manifestara
  288
  s autoridades que tinham ido cumpriment-lo  estao o desejo de
conhecer de perto um gacho legtimo e  observar como ele usava o lao.
O trem interrompeu a viagem por quarenta minutos. Levaram o americano
para  um campinho, atrs da matriz, e mandaram buscar um tal de Armindo
Bocor, peo dos Amarais e famoso laador e  domador. Durante quase meia
hora o caboclo laou potrilhos, agarrou a unha e derrubou um novilho de
sobreano e,  em cima de seu cavalo, fez proezas de burlantim. Roosevelt
batia palmas, arreganhava a dentua e de vez em  quando dizia
Wonderfull! Quis saber o nome de cada pea dos aperos e da indumentria
do gacho. Por fim  perguntaram ao figuro se queria provar uma
cachacinha, a bebida nacional.... Oh si! - exclamou ele. Oh si! E
encaminharam-se todos para o Poncho Verde.
  Eram histrias como essa que valorizavam o estabelecimento.
  Havia no salo principal umas vinte e poucas mesinhas redondas de
mrmore branco, cercadas de cadeiras de  madeira vergada, e cada qual
com seu aucareiro geralmente de bocal esclerosado pelo acar que,
umedecido de  caf, se solidificava. Pendia do centro do teto um
ventilador antigo de longas hlices, como de aeroplano. A  intervalos,
ao longo das paredes, viam-se caixotes de madeira cheios de areia de
ordinrio pontilhada de baganas  ou ento de escarros que ali ficavam
com um trmulo e repulsivo ar de ostras. E os seis espelhos pequenos que
se  alinhavam em duas das paredes raramente preenchiam a sua funo de
espelhar, pois a maior parte do tempo  estavam cheios de letreiros
pintados com tinta branca, anunciando especialidades da casa ou do dia.
  Pervagava geralmente a atmosfera do salo uma mescla de odores: caf
recm-passado ou velho, sarro de cigarro  antigo ou novo, bafio de
lcool e um cheiro de suor humano de dois tipos: um j histrico,
entranhado nos mveis,  nas frestas, no soalho, nos panos, e o outro
vivo e atual, produzido pelos fregueses presentes.
  No inverno fechavam-se as portas e o ar ali dentro se ia adensando com o
bafo da respirao e a fumaa dos  cigarros daqueles homens metidos em
sobretudos, capas ou ponchos, e todos sempre com os chapus nas cabeas.
Quem chegava, vindo da rua, tinha
  289
  a impresso de que o caf fora invadido por um desses ruos que costumam
assombrar os lugares altos. E o vozerio  nessas noites de inverno era
arranhado de quando em quando por um pigarro, um expectorar ruidoso e
agressivo,  pois gente havia que procurava afirmar sua masculinidade em
escarros homricos que ou erravam o alvo - os  caixotes de areia - ou
eram lanados propositalmente no cho, coisa que muito poucas pessoas
estranhavam.  Havia bronquites crnicas famosas entre a freguesia da
casa. E l vinha o garom trazendo clices de caninha com  mel e limo
para confortar aquelas gargantas e aqueles peitos.
  No vero imperavam ali dentro as moscas, que rondavam os bocais dos
aucareiros e as cabeas dos fregueses,  enquanto o ventilador girava,
lerdo e quase incuo.
  Em torno daquelas mesas, vrias geraes de santa-fezenses e
forasteiros haviam, vezes sem conta, "matado o  bicho" e tomado os seus
cafs, trocando pedaos de fumo em rama ou cigarros feitos, contando
anedotas, falando  mal da vida alheia, discutindo seus problemas e os
dos outros. E os assuntos mais capazes de provocar dissenses e  paixes
eram, como sempre, dinheiro, mulheres, poltica e futebol. A rivalidade
entre os clubes esportivos Avante  e Charrua continuava encarniada,
separando famlias; e aos sbados, em vspera de partida, e aos
domingos,  depois desta, o caf se enchia de gente, e no se falava
noutra coisa. Discutiam-se os lances do jogo, insultava-se o  juiz,
armavam-se brigas. E o dono da casa andava bonacho por entre as mesas a
apaziguar os nimos.
  Sempre que alguma coisa importante acontecia na cidade ou no mundo, era
para o Poncho Verde que muitos dos  habitantes de Santa F corriam, para
"comentar o fato". Em 1910, na noite em que apareceu o cometa de Halley,
o  caf esteve quase deserto, pois pelas dvidas as pessoas ficaram em
casa, mesmo as que no acreditavam naquelas  histrias de fim de mundo.
Apenas dois ou trs paus-d'gua inveterados foram vistos no salo,
diante de seus  clices de caninha e de seus copos de cerveja. E quando,
anos mais tarde, chegou a Santa F a notcia do  assassinato de Pinheiro
Machado, o caf ficou atopetado de gente, as discusses em torno do
  290
  crime se acaloraram, dois sujeitos se atracaram a socos e em poucos
minutos a briga se generalizou, e foi um  entrevero dos demnios.
  Junto daquelas mesas, de 1914 a 1918 os estrategistas locais dirigiram
os exrcitos aliados em mortferas ofensivas  contra os boches. "Se eu
fosse o Joffre, mandava uma diviso atacar este flanco..." (Alguns
andavam munidos de  mapas da Europa.) "Eu acho que o Foch cometeu um
grande erro..." Uma noite um castelhano melenudo gritou:  "El Kaiser
est bodido!" Ouviram-se gargalhadas.
  As muitas revolues que entre 1922 e 1932 agitaram o pas encontraram
nos freqentadores do Poncho Verde  adeptos e inimigos, mas pode-se
afirmar que os adeptos eram sempre em maior nmero, pois aquela gente
parecia  ter um fraco por qualquer movimento de rebeldia contra o
governo. Entre 1924 e 1927 um amanuense com ar de  estudioso e olhos de
ictrico acompanhou a marcha da Coluna Prestes, riscando a lpis no
mrmore da mesa o  itinerrio dos revolucionrios atravs dos sertes do
Brasil, explicando sempre por que a seu ver Lus Carlos  Prestes era j
uma figura histrica maior que Napoleo, Alexandre e Anbal, e por que
considerava  matematicamente certo que o Cavaleiro da Esperana ia
acabar derrubando o governo. E quando um dia leu a  notcia de que a
Coluna se havia internado na Bolvia, dissolvendo-se, o amanuense tomou
o maior porre de sua  vida e acabou cado no cho, em coma.
  Como  natural, o Poncho Verde foi teatro de incontveis brigas, que na
maioria dos casos no passavam de duelos  verbais. Uma vez que outra,
porm, os contendores chegavam a "vias de fato", como dizia o
noticiarista de A Voz  da Serra. Mas mesmo esses pugilatos a socos e
garrafadas geralmente no tinham conseqncias srias, e alguns  eram
at grotescos, como fora o caso do Cuca Lopes, que um dia se pusera a
correr apavorado por entre as mesas,  perseguido por um "marido
ultrajado", o qual, de faco em punho, ameaava em altos brados de
castr-lo.
  A Crnica do Poncho Verde, entretanto, registrava histrias trgicas. Em
1920 um moo de Passo Fundo tomava  calmamente uma cerveja quando um
desconhecido entrou, apunhalou-o pelas costas e, ato contnuo, saiu do
caf  sem que ningum sequer 
  291
  tentasse det-lo. Quando os fregueses presentes se refizeram de seu
estarrecimento e correram para fora com a  inteno de prender o
assassino, este j tinha montado no seu cavalo e desaparecido...
  Outro caso muito falado foi o dum funcionrio da Intendncia que se
apaixonara - sem ser correspondido - por  uma das meninas da famlia
Macedo. Numa tarde de primavera, com os cinamomos da praa cheios de
flores, os  canteiros brancos de junquilhos, o muro da Padaria
Estrela-d'Alva roxo de glicnias, um ventinho brando a espalhar  por
toda a parte a fragrncia das flores - o pobre rapaz arrinconou-se num
canto do caf, escreveu um bilhete a  ningum num pedao de papel de
embrulho, tomou uma dose de cianureto e em menos de trs minutos estava
morto.
  Era tambm naquele caf que um dos filhos do coletor estadual costumava
ter ataques epilpticos: caa no cho e  ali ficava a estrebuchar e a
babujar durante um ou dois minutos. Os forasteiros que porventura se
encontrassem no  salo ficavam impressionados e at revoltados pela
indiferena dos outros ante a cena.  que os fregueses estavam
habituados quilo. Esperavam que o ataque passasse, erguiam o rapaz,
limpavam-lhe a roupa, davam-lhe a beber  um pouco d'gua, e nunca
faltava um cristo que lhe tomasse do brao e o conduzisse de volta 
casa.
  Uma das pginas mais violentas da histria do Poncho Verde foi escrita a
bala num agosto frio e mido, por volta  das dez da noite. Dois homens
que se odiavam e que se haviam ameaado mutuamente de morte
encontraram-se  diante do balco do caf, onde tinham ido beber uma
pinga para esquentar o corao. Olharam-se, putearam-se e  arrancaram os
revlveres. Foi um corre-corre tremendo, mesas e cadeiras tombaram, o
salo esvaziou-se em  poucos segundos. Ouviram-se oito tiros sucessivos
e depois se fez um silncio sepulcral. E quando um curioso  ousou meter
a cabea para dentro da porta, no primeiro momento s viu a sala
deserta...  que os duelistas estavam  estendidos no cho, mortos, em
meio duna sangueira medonha.
  E por coisas como essa, afirmava-se com razo que o Caf Poncho Verde
tinha a sua histria.
  292
  Jos Kern teve a habilidade de conservar o caf tal como sempre fora.
Alimentava secretamente a esperana -  que por fim se realizou - de que
o Poncho Verde acabasse sendo um ponto de encontro natural entre os
integralistas e os nazistas de Santa F, assim como ele prprio, membro
influente de ambos os grupos, era uma  espcie de ponte viva entre o
fascismo alemo e o indgena.
  Fundado em meados de 1933, o ncleo local da Ao Integralista
Brasileira ganhara logo muitos adeptos,  principalmente entre os
teuto-brasileiros e alguns dos descendentes de italianos que na poca
andavam fascinados  pelos discursos de Mussolini e os empreendimentos do
fascismo.
  As figuras mais importantes do novo movimento, entretanto, pertenciam a
famlias tradicionais do lugar. Todos os  Teixeiras machos se alistaram
na primeira hora. Um filho do dr. Terncio Prates, o Tarqunio,
desiludido com a  democracia liberal, atirou-se no integralismo com o
zelo e a paixo dum templrio. Ele e Jorge Teixeira,  engenheiro civil,
homem empanturrado de leituras de Alberto Torres e admirador pessoal de
Plnio Salgado, eram  considerados as melhores cabeas do movimento de
Santa F.
  Depois das revoltas comunistas de 1935 o nmero dos adeptos do
integralismo ali em Santa F, como no resto do  pas, aumentou
consideravelmente. As novas adeses locais foram anunciadas pelo Anau,
o semanrio do partido:  a do vigrio, a de trs oficiais do exrcito, a
do juiz de comarca, isso para no contar uns cinqenta jovens que
passaram a integrar briosamente a milcia dos camisasverdes.
  Tarqunio Prates fez o que pde para trazer o pai para a AIB.
  - Mas  um partido autoritrio! - criticou Terncio.
  - Que era o Castilhos, o seu dolo, seno um partidrio do
autoritarismo?
  - Mas vocs querem acabar com todos os partidos para ficarem sozinhos!
  - E quem lhe disse que a pluralidade de partidos  a soluo para os
nossos problemas? Pense bem, papai,  precisamos acompanhar
  293
   os tempos. No olhe para trs, olhe para a frente. O senhor tem
horror ao comunismo, no ? Agora me diga,  que outra fora organizada
existe no mundo capaz de erguer-se contra Moscou seno o fascismo?
  Terncio simpatizava com o carter nacionalista do partido do filho, e
com o lema "Deus, Ptria e Famlia"; mas  tinha srias reservas quanto
ao corporativismo e no tolerava que um grupo poltico brasileiro
tivesse qualquer  semelhana, por superficial que fosse, com o nazismo.
Francfilo desde a infncia (o Estudante alsaciano, tis ne  passeront
ps, etc.) no esquecia a humilhao de Sedan nem o bombardeio de Paris
durante a Guerra de 1914.
  Decidiu que ficaria onde estava, com o Partido Republicano e com o dr.
Borges de Medeiros. Sorrindo e batendo  no ombro do filho, disse: "Com
relao a vocs integralistas, prometo manter-me numa neutralidade
benevolente..."
  Pouco depois que Hitler tomou o poder na Alemanha, fundou-se no Rio
Grande do Sul o Kreis, o crculo nazista, e  tanto na sede do municpio
de Santa F como no distrito de Nova Pomernia foram criados ncleos do
Partido  Nacional Socialista. Todo esse movimento se processou a
princpio com uma certa discrio, quase em segredo,  mas  medida em
que se iam anunciando as vitrias de Hitler e o fortalecimento de seu
partido, os nazistas do Rio  Grande alavam a cabea, faziam as coisas
mais s claras e at com uma certa arrogncia. Seu plano de expanso
estava baseado num trabalho de proselitismo feito nas escolas, nas
sociedades recreativas e nas congregaes da  Igreja Evanglica
Luterana, com o auxlio de seus pastores. Por volta de 1935 um dos
objetivos mais importantes  dos nazistas de Santa F foi o de tomar
conta da sociedade ginstica, o Turaverein. Para isso, membros dos
grupos  hitleristas se foram infiltrando em sua diretoria e, quando a
ocasio lhes pareceu oportuna, convocaram uma sesso  de
assemblia-geral e, por meio da intimidao, da cabala e da fraude
conseguiram que se aprovasse uma moo  segundo a qual daquele momento
em diante a sociedade passava a ser propriedade do partido. Os poucos
que se  opuseram a isso - o confeiteiro Schnitzler, dois ou trs dos
  294
  Spielvogel e dos Kunz -- foram expulsos do recinto da assemblia, sob
vaias. No fim da sesso foi inaugurado um  grande retrato do Fhrer,
cantou-se o hino alemo e todos os presentes ergueram o brao na
saudao nazista.  Idntico movimento foi posto em prtica com igual
sucesso no Turnerbunde, na Sociedade de Atiradores da Nova  Pomernia,
cujo jornal em lngua alem, Der Tag, publicava ento editoriais em que
se mencionavam as "minorias  alems no Rio Grande do Sul" e se lhes
encarecia a necessidade de manter a pureza da "etnia germnica".
  O pastor luterano de Nova Pomernia, um dos nazistas mais fervorosos do
municpio, do plpito concitava os fiis a  prestigiarem o
Nationlsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, e a contriburem todos
os anos para o Fundo de  Socorros de Inverno como era desejo de "nosso
amado Fhrer". E um dia, num arroubo de retrica hitlerista,  declarou
num sermo que a seu ver a Igreja devia abandonar por completo o Velho
Testamento, por ter essa parte  da Bblia origens puramente semticas.
(Conta-se que por causa desse excesso de zelo arianista o pastor foi
severamente repreendido pelo Snodo)
  Nas escolas teuto-brasileiras, onde se ensinava pouco ou nenhum
portugus, a campanha de nazificao da infncia  se processava
livremente. Foi criada a Juventude Hitlerista e em dias de festas
nacionais (alems) rapazes e  raparigas entre dez e dezoito anos
marchavam uniformizados pelas ruas de Nova Pomernia, conduzindo
bandeiras  e insgnias nazistas, batendo tambores, tocando clarins e
cantando canes da Verland.
  Foi precisamente naquele ano de 1937 que a campanha nazista recrudesceu
no Brasil e o integralismo chegou ao  seu znite. No dia 7 de setembro,
como de costume, tropas do Exrcito desfilaram pela frente dum palanque
armado numa das caladas da praa Ipiranga, e no qual se encontravam o
coronel-comandante da guarnio federal,  acompanhado de seu
estado-maior, o dr. Terncio Prates, ento prefeito municipal, e outras
autoridades civis.  Depois de passarem o Regimento de Infantaria e o de
Artilharia, desfilaram os colgios pblicos e particulares. A  seguir
surgiram os integralistas com suas bandeiras e charangas, garbosos em
suas camisas verdes. Fechava a  parada uma centria nazista - o grupo
local reforado
  295
  de elementos vindos de Nova Pomernia - todos impecavelmente fardados:
camisas pardas, culotes pretos, botas  de cano alto. Uma banda de msica
tambm uniformizada tocava dobrados alemes, seguida duma banda de
clarins  e tambores. Cinco passos atrs desta
  - altos, louros, musculosos: verses coloniais de Sigfried - marchavam
quatro dos principais atletas do  Turnverein, cada qual empunhando a
bandeira nazista com a cruz gamada. A frente dos milicianos, o peito
inflado,  a cabea erguida, Jos Kern parodiava como podia um comandante
da SS de Hitler em dia de parada. E ao passar  pela frente do palanque
gritou em alemo uma ordem a seus comandados, e imediatamente ele e a
tropa romperam  a marchar em passo de ganso, e duzentos e poucos tacos
de botas bateram com um ritmo viril e insolente nas  pedras da rua.
Ouviram-se aplausos ralos. O comandante da guarnio, porm, fechou a
cara, e nem ele nem os  outros oficiais saudaram as bandeiras nazistas.
O dr. Terncio, vermelho de indignao, enfiou o chapu na cabea  e
virou as costas ao desfile. Houve um mal-estar generalizado.
  No dia seguinte A Voz da Serra noticiou a parada como tendo sido a mais
brilhante e grandiosa da histria do  municpio. Amintas Camacho - que
comeava ento o seu namoro com o integralismo
  - teve palavras de louvor para com a disciplinada milcia dos
camisas-verdes e, como temia perder os anncios  que davam a seu pasquim
algumas firmas alems da cidade, absteve-se de fazer qualquer comentrio
desfavorvel   centria hitlerista.
  A populao dum modo geral considerou aquela exibio dos camisas-pardas
um acinte. "Parece que estamos na  Alemanha" - disseram alguns. E
outros: "Se no abrimos o olho, qualquer dia o Hitler toma conta desta
joa". Um  sabido revelou: "Existe na Alemanha um mapa no qual o Rio
Grande do Sul aparece como territrio alemo".  Brasileiros
germanfilos, entretanto, murmuravam: "Antes Hitler que Stlin". Chiru
Mena queria reunir gente para  "arrebentar a pleura da alemoada". O
Quica Ventura achava aquilo tudo uma palhaada indigna de sua ateno. O
juiz de comarca disse numa roda  frente da Casa Sol que Adolf Hitler,
nova encarnao de Constantino, ia livrar o  mundo catlico das garras
de Stlin, o Ante-cristo. Estava claro - explicava - que a Alemanha
  296
  nazista se armava para atacar o colosso moscovita e salvar a Civilizao
Crist Ocidental.
  Em novembro de 1935, pouco depois que se teve notcia dos levantes
comunistas, Aro Stein foi uma noite  atacado e espancado por trs
sujeitos que o deixaram atirado numa sarjeta, a deitar sangue pelo nariz
e pela boca.  "Coisas dos integralistas!" - vociferou o Chiru. E dessa
vez quis arregimentar alguns companheiros de 23 e 30  para empastelar a
sede da Ao Integralista Brasileira e liquidar de vez com os
"galinhas-verdes". Mas houve  quem dissesse: "Bem feito! Esse judeu 
espio dos russos".
  Em dezembro de 1935 Jos Kern entronizou no salo do Caf Poncho Verde
um retrato de Plnio Salgado e outro  de Adolf Hitler.
  Quando em 1936 ali chegara a notcia de que o Fhrer repudiara o acordo
de Locarno e reocupara a Rennia, Kern  mandou distribuir cerveja aos
freguses presentes, por conta da casa. E houve bebedeiras, risadas,
vivas, bravatas.  Comemorou tambm naquele mesmo ano a revolta de Franco
no Marrocos espanhol e todas as vitrias  subseqentes do Caudilho em
terras de Espanha, bem como havia festejado no ano anterior o massacre
dos  abissnios pelos soldados de Mussolini. E quando se noticiou que
tropas e avies alemes tinham intervindo na  Guerra Civil Espanhola a
favor dos franquistas, Kern exclamou: "Repblica espanhola... kaputt!"Ao
ter  conhecimento do bombardeio areo de Almera e mais tarde do de
Guernica, nem sequer pehsou nas populaes  civis assassinadas, mas
elogiou, e com feroz entusiasmo, a eficincia dos pilotos e bombardeiros
da Luftwaffe.
  Em 1933 alguns dos "magos" que freqentavam o Poncho Verde  hora do
aperitivo haviam profetizado a queda  do regime comunista na Rssia,
merc da fome provocada pelo fracasso da coletivizao das terras. Menos
de dois  anos depois, naquele mesmo salo, nazistas e integralistas
comentaram com alegria e esperana as notcias de que  o terrorismo e a
sabotagem campeavam nas fbricas e nas minas da Unio Sovitica.  que
havia sido descoberta  uma tremenda conspirao contra o regime
stalinista na qual estavam envolvidas altas personalidades do governo
sovitico. Trtski, asilado na Noruega, era acusado de estar em
entendimentos com
  297
  agentes nazis. Stlin desfechava uma campanha implacvel contra os
inimigos internos, e em 1936 Kamenev e  Zinoviev eram executados. Tinham
comeado os famosos julgamentos de Moscou durante os quais Andrei
Vichinski, como representante do Estado, havia desmascarado os
traidores. Revelou-se ento que o prprio  Exrcito Vermelho estava
minado de conspiradores. Sabia-se que os dias de homens como lgoda,
Bukhrin,  Rikov e Tukhatchvski estavam contados...
  Esses julgamentos pblicos, que por mais de dois anos tiveram cabealhos
sensacionais na imprensa mundial, eram  interpretados no Caf Poncho
Verde como sendo o ltimo ato do drama comunista. O regime stalinista
estava  prestes a cair, afirmava-se. J discutiam at o destino que se
devia dar  Rssia.
  - Sou pelo desmembramento - disse um fregus, depois de tomar um gole de
parati.
  - Sim - concordou um sujeito de ar truculento que tomava o seu caf para
"fazer boca para cigarro" - mas  primeiro temos que desmembrar o Stlin.
  E a todas essas jogavam "pauzinho", para ver quem pagava a despesa.
  10
  Entre as figuras exponenciais do integralismo em Santa F, a mais
colorida era indiscutivelmente a do Vivaldino  Vergueiro, que tinha
veleidades literrias e se considerava o filsofo do movimento. Os
desafetos chamavam-lhe  "o mulato Vergueiro". Era um homem alto, magro e
encurvado, de idade indefinida. Tinha o rosto anguloso e  quase glabro,
dum moreno rosado e liso, lbios arroxeados e olhos brilhantes de
tsico. Era dentista formado, trajava  com grande esmero, manicurava as
unhas e perfumava-se com excesso. Bemfalante, sabia ser simptico quando
queria, mas geralmente preferia ser sarcstico. Integralista da primeira
hora, proclamava aos quatro ventos que era  racista e gabava-se de ter
correspondncia pessoal com o pai da doutrina arianista de Hitler,
Alfred Rosenberg, que
  298
  lhe havia mandado um exemplar com dedicatria de seu livro Mythus ds 20
Jahrhunderts. Sonhava com "um  pogromzinho" de Santa F "para limpar o
ambiente". Fora o inspirador - segundo se murmurava - do  movimento
anti-semita que irrompera ridiculamente na cidade em princpios de 1937,
e durante o qual alguns  negociantes de ferro-velho e uns dois ou trs
tintureiros da rua do Imprio, o gueto local, foram aparentemente
responsabilizados pela pirataria financeira internacional dos
Rothschild, dos Lazar Brothers e dos "banqueiros  judeus da Wall
Street". As paredes e muros de suas pobres casas um dia amanheceram
escurecidas de frases  escritas a piche: Abaixo o judasmo
internacional! Morte aos aptridas! Morram os detentores do ouro
mundial!
  Por essa mesma poca um mascate judeu, popularssimo em Santa F, e que
andava de porta em porta a vender  gravatas e pentes foi apedrejado na
rua do Comrcio, em plena luz do dia, por trs rapazotes alourados que
tinham  o aspecto iniludvel de membros da Juventude Hitlerista. Neco
Rosa, que estava  porta da sua barbearia, pegou  uma navalha, abriu-a e
correu na direo dos atacantes, gritando: "Eu capo vocs, bandidos!" Os
rapazes  precipitaram-se rua abaixo, e o barbeiro depois de exprimir em
altos brados suas dvidas sobre a honestidade da  me dos agressores,
levou o agredido para dentro da barbearia, onde lhe fez na cara
ensangentada curativos de  urgncia.
  No dia 2 de novembro de 1937,  hora do cafezinho das duas da tarde,
Vivaldino Vergueiro provou por a + b aos  companheiros que se achavam 
sua mesa, que a vitria definitiva do integralismo no Brasil estava
iminente.
  - Ontem no Rio de Janeiro - disse com sua voz fluida como pomada -
cinqenta mil camisas-verdes desfilaram  pela frente do Chefe Nacional,
que tinha a seu lado o presidente da Repblica com ar sorridente e
satisfeito. Que   que isso significa, hein?
  Os correligionrios o escutavam com ateno, no mais absoluto silncio.
  - Significa - continuou Vergueiro - que o governo est procurando o
apoio da Ao Integralista Brasileira na  sua luta con-
  299
  tra o comunismo. O general Gaspar Dutra simpatiza com a nossa causa. O
general Gis Monteiro no lhe   adverso. De resto os generais sabem que
existe em todo o territrio nacional um milho e meio de integralistas
disciplinados e dispostos a tudo.  uma fora que ningum pode desprezar
ou ignorar.
  Acendeu um cigarro, soltou alegremente uma baforada de fumaa e
prosseguiu:
  - Ontem  noite, falando ao microfone da Rdio Mayrink, Plnio Salgado
declarou com sua franqueza habitual  que nosso partido no criaria
dificuldades aos objetivos das foras armadas e estava disposto a
colaborar com o  governo numa Nova Ordem. Disse tambm que o
integralismo no deve ser confundido com as agremiaes  polticas de
finalidade exclusivamente partidria e de mbito puramente regional...
Agora pensem bem, puxem  pelas idias e tirem concluses. Est claro que
grandes coisas definitivas esto para vir, possivelmente um regime
autoritrio em que ns integralistas teremos um papel de importncia
primordial.
  Calou-se e procurou ler no rosto dos companheiros o efeito de suas
palavras.
  - No confio muito no Getlio... - murmurou um deles com ar cptico.
  Vivaldino Vergueiro soltou a sua proverbial risada em escala
descendente.
  - No se trata de confiar ou no confiar no presidente - disse. - Ele
tanto brincou com fogo que acabou se  queimando... Os acontecimentos o
colocaram numa situao em que ou ele se apoia em ns ou cai. Vejam bem.
A  democracia liberal est falida no mundo inteiro,  um chove-no-molha
irritante e ridculo. O comunismo  uma  doutrina de brbaros. Que outro
remdio tem o Getlio Vargas seno adotar o regime fascista e dar a
Plnio  Salgado um alto posto no novo governo? A coisa est clara como
gua. H meses que o Homenzinho vem  namorando o Chefe Nacional.
Escrevam o que estou dizendo. Nossa hora soou.
  - Deus te oua! - exclamou um cptico.
  Nove dias depois Vivaldino Vergueiro entrou glorioso no Caf Poncho
Verde, que soava como um viveiro de  gralhas. Discutia-se
  300
  - uns com esperanoso entusiasmo, outros com certa apreenso - a grande
notcia. Getlio Vargas dissolvera a  Cmara dos Deputados e o Senado e
promulgara a nova Constituio.
  Vergueiro ergueu no ar o jornal que chegara havia pouco pelo avio da
Varig, e exclamou:
  - A nova Constituio  fascista, adota o corporativismo e tem como
finalidade principal dar mais autoridade ao  governo central para
combater o comunismo e promover o progresso e a unidade nacionais!
  Sentou-se, pediu um conhaque, e discursou:
  - Plnio Salgado ser o novo ministro da Educao. Dirigida e inspirada
por ele, a juventude brasileira ser  arregimentada e preparada para a
luta contra o comunismo e para a aceitao consciente de nossa doutrina!
  Jos Kern andava dum lado para outro, por entre as mesas, risonho,
vermelho, gotejante de suor, o cachao  reluzente, os cabelinhbs das
ventas a esvoaarem ao ritmo duma respirao agitada. Encheu um copo de
cerveja e  ergueu um brinde ao Estado Novo.
  Jorge Teixeira, porm, no participava do otimismo da maioria dos
companheiros. Andava apreensivo, farejando  mais uma perfdia do
presidente. Getlio Vargas, no discurso da noite de 10 de novembro, em
que expusera   nao as razes e os objetivos do seu golpe de Estado,
no fizera a menor referncia ao integralismo.
  Seguiram-se semanas de indeciso, de dvida e de boatos. Todos os
partidos polticos brasileiros haviam sido  abolidos por um decreto do
ditador. Sabia-se como certo que um general do exrcito simptico ao
integralismo  obtivera do presidente, antes de 10 de novembro, a
promessa de que o novo governo no s permitiria que a Ao
Integralista Brasileira continuasse sua atividade, sob o nome de
Associao Brasileira de Cultura, como tambm  no se oporia a que as
milcias verdes seguissem organizadas e vigentes.
  A promessa, porm, no foi cumprida. Em princpios de dezembro a polcia
poltica fechava truculentamente todos  os ncleos integralistas do Rio
de Janeiro, e pouco depois o mesmo acontecia nos Estados.
  301
  Nas rodas no-integralistas de Santa F dizia-se entre risotas: "O
Baixinho passou uma rasteira no Plnio".
  Houve, entre a clientela do Caf Poncho Verde, primeiro estarrecimento e
a seguir indignao. O Vivaldino  Vergueiro, lvido de dio, pregou e
esperou a revoluo durante vrios dias. Tempo perdido! De todos os
quadrantes polticos vinham adeses ao Estado Novo. Os polticos
profissionais, bem como a maioria dos jornais,  acomodavam-se  nova
situao com rarssimas excees. E para os inconformados, para os
rebeldes, a polcia  tinha os seus remdios.
  s onze e meia da manh daquele ltimo dia de 1937, tomava Vivaldino
Vergueiro o seu aperitivo no Caf Poncho  Verde, em companhia dum
correligionrio, quando atravs da janela avistou o Chevrolet azul dos
Cambars, que  parava  porta do Sobrado.
  - Canalha - rosnou o racista por em r dentes.
  O companheiro seguiu-lhe a direo do olhar e viu Rodrigo Cambar no
momento exato em que este descia do  carro e entrava
  em casa.
  - Volta com a mesma cara... - murmurou.
  - Cheio de dinheiro e de empregos, o traidor...
  - Bom, mas esse at que no  dos piores...
  - Qual! - exclamou Vergueiro, fazendo uma careta. - Os piores so
exatamente os que no ocupam cargos  administrativos. So os "amigos do
Homem", como esse Rodrigo Cambar, os intermedirios, os "mascateadores
de influncia", os que trabalham por baixo do poncho... Esto metidos em
todos os negcios, direta ou  indiretamente. Sei de boas desse tipo...
  Fez-se um silncio. Vivaldino Vergueiro passou pelo rosto o leno de
cambraia recendente a Maja de Myrurgia.  Depois, apertando o clice com
seus longos dedos de fidalgo, lanou um olhar torvo para o Sobrado,
resmungando:
  - O que este pas est precisando, meu caro,  duma boa Noite de So
Bartolomeu. Com sangue, com muito  sangue...
  Pediu mais um aperitivo.
  302
  11
  Estendido em sua cama, apenas em calo de banho, Floriano ouviu o
relgio grande bater meio-dia e pensou,  contrariado, em que dentro de
pouco teria de tornar a vestir-se da cabea aos ps, apesar do calor.
Tinham  convidados para o almoo e seu pai exigia que os homens da casa
se apresentassem  mesa de palet e gravata.  Era uma exigncia absurda,
principalmente por partir de algum que naqueles ltimos sete anos
vivera numa  metrpole semitropical completamente liberta de
preconceitos em matria de indumentria.
  As pernas abertas, a nuca assentada sobre as palmas das mos tranadas,
Floriano olhava para cima... De repente  no era mais o teto de seu
quarto que ele via, mas o cu do Rio. Veio-lhe ento uma vaga saudade
ttil de Mandy.  Lembrou-se das manhs de Copacabana em que, deitado na
areia ao lado da rapariga, ele fechava os olhos e, como  um cego
voluptuoso, punha-se a passar os dedos pelas pernas e pelas coxas dela,
tentando ler o clido Braille  daquele corpo que cheirava a gardnia e
leo de bronzear...
  Tinha sido num domingo de maio, naquele mesmo ano, que Floriano vira
Mandy pela primeira vez. Estava deitado  de bruos na areia da praia,
relendo uma carta de Slvia e sentindo no lombo a caricia do sol, quente
como um  contato humano. De vez em quando erguia o olhar e ficava a
contemplar a variada e numerosa fauna que pululava  naquela floresta de
pra-sis coloridos. Se entrecerrava os olhos, tinha a impresso de
estar diante dum quadro  pontilhista, rico de tons amarelos, pardos e
dourados, num contraste com o azul do cu e o verde do mar. Erguiam- se
no ar bolas, petecas, papagaios e vozes. Aquelas centenas de corpos
seminus, reluzentes de leo e suor, davam- lhe a impresso de bichos -
bois, porcos, javalis, pssaros de todos os tamanhos - besuntados de
manteiga,  postos a assar num enorme forno e destinados a um monstruoso
banquete dominical. Alguns estavam j dourados,  prontos para serem
servidos. Outros - como aquele senhor ruivo e panudo de meia-idade, ali
sentado  sombra  dum pra-sol, a pele descascada, de aspecto purulento
- haviam passado do ponto.
  303
  A praia oferecia um espetculo belo e brbaro, que ia ganhando em
ferocidade  medida em que o sol se  aproximava do meio-dia.
  Floriano sorriu para os prprios pensamentos. O sol aproximar-se do
meio-dia... como se as horas fossem pontos no  espao e no no tempo! De
quem era a idia de que  o tempo que se move? Ora - objetara algum -
as coisas  se movem em velocidades vrias relativas a outras coisas, de
sorte que necessitam dum tempo no qual se  moverem. Assim sendo, o tempo
ao mover-se no precisar para isso de outro tempo, que por sua vez
exigir outro  tempo e assim por diante, numa hierarquia infinita de
tempos?
  Tornou a baixar os olhos para a carta e releu sorrindo o seguinte
trecho:
  Dona Maria Valria me diverte com suas opinies e ditos. Um dia destes
estvamos comentando umas senhoras  santa-fezenses nossas conhecidas que
vivem na igreja, desde as cinco da manh, s voltas com padres, missas e
santos, e a Dinda saiu-se com esta: "So umas desfrutveis. Esto se
mostrando para Deus".
  Um objeto caiu repentino do alto, roou a orelha de Floriano,
arrancou-lhe a carta das mos e - pof! - ali ficou  sobre a areia, em
cima do papel: uma peteca com penas multicores. Ele alou a cabea,
irritado, mas em seguida  dominou o recndito gacho que nele dormia e
que a pequena contrariedade acordara - e preparou-se para fazer  que seu
amvel eu carioca devolvesse sorrindo a peteca ao dono. Olhou em torno.
Uma moa aproximou-se.  culos de vidros escuros escondiam-lhe os olhos.
Ele ergueu-se e entregoulhe o que ela buscava.
  - Desculpe - disse a desconhecida, apanhando a peteca. Tinha um sotaque
estrangeiro. Escandinava? Alem?  Talvez americana. Sim, devia ser
americana. Merecia uma capa em tricromia num nmero de vero do Look.
  Floriano tornou a deitar-se e ficou a contemplar a rapariga que jogava
peteca sozinha, a uns dez passos de onde ele  se encontrava. Vestia maio
preto, tinha pernas longas, e via-se que o moreno de suas carnes rijas e
elsticas (os  olhos tm s vezes, quase to
  304
  desenvolvido como os dedos, o sentido do tato) no era congnito, mas
adquirido. Cobria-lhe as pernas, as coxas e  os braos uma penugem
dourada que ia muito bem com o tostado da epiderme. No era possvel
adivinhar-se-lhe a  idade por causa dos culos, mas Floriano calculava
que ela devia ter vinte e pouqussimos anos. A cada movimento  que fazia
ao tapear a peteca, sua cabeleira, dum louro claro, puxando a palha,
agitava-se e ele se surpreendia a  pensar nas macegas dos campos do
Angico batidas pelo vento. Pef E l subia a peteca, e a rapariga corria
para o  ponto onde ela ia cair, e, como adversria de si mesma naquele
jogo, pef dava-lhe outra tapa e tornava a correr...  Seu corpo, de
ombros largos e quadris estreitos, reluzia ao sol. Era atraente -
concluiu o Cambar que estava  agora alerta, esquecido da carta, dos
bichos, do forno, de tudo -, tinha movimentos de felino, mas dum felino
esportivo, universitrio, que no parecia alimentar-se de carne humana,
como as tigras latinas, mas sim de  cachorros-quentes, hamburgers e
Coca-Cola. Floriano voltava  sua posio inicial para continuar a
releitura da  carta, quando viu que a peteca ia cair de novo em cima
dele. Ps-se de p num pincho (um menino que queria  mostrar-se para a
americana como as beatas de Santa F se mostravam para Deus) e rebateu
masculamente a  peteca. A rapariga soltou uma risada e tratou de
devolv-la com igual energia ao adversrio improvisado. Quando  Floriano
deu acordo de si, estava no jogo. E aquela coisa colorida, aquele
pequeno cocar, comeou a andar da mo  dela para a dele, enquanto ambos
trocavam frases rpidas ou interjeies, mas sem se olharem, a ateno
no jogo.  Muito bem! - gritou ele, vendo-a ajoelhar-se para rebater a
peteca quando esta ia j tocar a areia. Oops!-  exclamou ela. Ele tornou
a bater na peteca, perguntando: "Cansada?" E ela: "No". Quando,
segundos depois ele  errou o golpe, a moa gritou: "Perdeu!", e desatou
a rir. Depois ajoelhou-se, ofegante, atirou a cabeleira para trs,
alisou-a com ambas as mos, e sempre de joelhos arrastou-se para a zona
de sombra que seu pra-sol de gomos  amarelos e pardos projetava na
areia. Floriano aproximou-se para lhe entregar a peteca. - Entre no meu
osis e  sente-se.
  305
  Floriano aceitou o convite e por alguns instantes ficou a contemplar a
desconhecida, sem saber por onde comear a  conversa. Ela tirou os
culos e ps-se a limp-los com a ponta dum leno de seda. Ele viu ento
que os olhos dela  eram duas esferas dum azul de cobalto. Sim, agora
tinha a certeza, a criatura no podia ter mais de vinte e trs ou  vinte
e quatro anos.
  - Americana? - perguntou.
  - Sim. Como adivinhou? Terei minha nacionalidade estampada na face?
  - Mais ou menos.
  - E voc? Brasileiro?
  - Sim. Mas do sul. Gacho.
  Surpreendeu-se a dizer isto com orgulho e achou-se tolo. Sempre lhe
parecera absurda a empfia com que seus  coestaduanos, que a Revoluo
de 30 trouxera para os cartrios e cassinos do Rio, viviam a gabar-se de
serem  gachos, como se isso fosse um privilgio especialssimo.
  Fez-se uma pausa. Ela tornou a pr os culos.
  - Como  o seu nome?
  - Marian. Marian K. Patterson. Meus amigos me chamam de Mandy. E o seu?
  Floriano disse. Ela achou Cambar um nome engraado. Havia naquela
rapariga - refletia ele - vrias  irregularidades que a tornavam
particularmente fascinante. A boca, rasgada e de lbios carnudos,
sugeria uma  sensualidade de que aqueles olhos metlicos pareciam no
ter a menor idia. A linha da testa prolongava-se quase  reta no nariz,
numa espcie de pardia de "perfil grego". Sim, e aqueles ombros eram
demasiadamente largos em  proporo aos quadris de adolescente.
  - Falo muito mal o portugus - sorriu ela. - Voc fala ingls?
  - Um pouco.
  Floriano lia autores ingleses e americanos, era senhor dum vocabulrio
rico, e ali no Rio uma vez que outra tinha a  oportunidade de falar a
lngua.
  -Ddiga alguma coisa.
  - Por exemplo?
  306
  - Qualquer coisa.
  Estar mangando comigo? - pensou ele. Mas no teve outro remdio seno
construir uma frase e diz-la  melhor  maneira do Albion College. Ela
riu.
  - Engraado. Voc tem sotaque britnico.
  - Sotaque britnico? Sotaque tm vocs os americanos. Os ingleses so os
donos da lngua, no se esquea.
  Ele olhava fascinado para as coxas de Marian, pensando nos pssegos
penugentos do quintal do Sobrado.
  - Seu sotaque, por exemplo, me diz que voc  do sul dos Estados Unidos.
Mississipi? Alabama?
  - Heavens, no! Texas.
  Aquela tarde Floriano escreveu a Slvia. Ia contar: Conheci hoje na
praia uma americana muito interessante. Mas  conteve-se, pois sentiu que
procedia como um adolescente, procurando com aquela notcia despertar o
cime da  amiga. A correspondncia entre ambos havia tomado naquelas
ltimas semanas um rumo acentuadamente  sentimental. A palavra amor no
tinha sido ainda escrita, no houvera da parte de nenhum dos dois uma
declarao  formal, mas era evidente que caminhavam para l. A
correspondncia agora se processava numa atmosfera de  subentendidos, de
entrelinhas, de metforas, de aluses veladas - tmidos, tanto ele como
Slvia, encabulados  ante a nova situao, como se achassem difcil
transformar uma velha amizade em amor. Sempre que lia as cartas  de
Slvia, Floriano ouvia-lhe mentalmente a voz. Sentia que nas ltimas
semanas o tom dessa voz havia mudado:  era o de uma mulher apaixonada. E
ao escrever-lhe ele sentia que seu prprio tom tambm mudara,
abandonando a  atitude protetora de irmo mais velho para assumir umas
tintas equvocas de... de... nem ele mesmo sabia ao certo  de qu.
Resolveu no contar nada a Slvia do encontro com Marian. Mas ao tomar
essa deciso achou-se  desonesto, pois a omisso parecia indicar que ele
tinha planos para o futuro com relao  americana, isto , que  contava
encontr-la outras vezes, na esperana de que aquele conhecimento
fortuito pudesse eventualmente tomar  o rumo da alcova.
  307
  Na manh seguinte voltou  praia e procurou Marian. Ela o recebeu com um
Hlio! natural e esportivo de velha  conhecida. Conversaram, trocando
dessa vez documentos de identidade. Marian K. Patterson trabalhava como
secretria numa grande companhia americana que tinha um escritrio no
Rio, onde ela chegara fazia quase um ano.  Vivia sozinha num
apartamento, num daqueles edifcios das cercanias do Posto 3. Ficou
muito interessada quando  Floriano lhe disse que escrevia livros. Quis
saber de que gnero eram, e quando ele respondeu: "Fico", ela  soltou
um oh de alegre surpresa e lhe perguntou se alguma de suas obras j
tinha alcanado a lista dos best sellers.
  Ele no gostou da pergunta, e tambm no gostou de no ter gostado, pois
afinal de contas aquela conversa de  praia no tinha a menor
importncia, e ele no sabia  se ia ou no ver a americana
outra vez. O diabo era  que a criatura se lhe tornava cada vez mais
atraente.
  Marian preferia falar ingls e a sua voz arrastada e musical, sugestiva
de melao e magnlia, parecia pertencer a  uma mulata e no quela
loura. Seus lbios como que se esgaavam ao pronunciarem as longas
vogais sulinas, e  isso o excitava.
  No terceiro encontro Floriano verificou contrariado que, quando estava
com Marian Patterson, era tomado pela  mesma sensao de inferioridade
que a presena de Mary Lee provocava no menino que ele fora. Embora
exteriormente procurasse dar a entender que aceitava aqueles encontros
como coisa natural, a sua atitude ntima  era dum humilde non sum dignus
que o rebaixava a seus prprios olhos, e que ele procurava combater.
Havia entre  ambos longos silncios: ficavam olhando e ouvindo o mar,
numa preguia boa e irresponsvel.
  Por ocasio do quarto encontro, Marian lhe disse: "Voc pode me chamar
de Mandy". Parecia dar-lhe esse  privilgio como um presente real. Ele
sorriu, sacudiu a cabea e continuou em silncio.
  - Posso chamar voc de Floriano?
  - Claro. Esse foi sempre o meu nome.
  Ela tirou os culos e fitou nele o seu olhar azul, sria. Depois de
alguns segundos disse:
  308
  - Voc  engraado.
  - Voc tambm.
  - Eu? Por qu?
  - Ora, porque sim.
  Ela o mirava dum jeito como se estivesse tentando decifr-lo.
  Na semana que se seguiu, saram uma noite juntos e foram danar e ver o
show no Cassino Atlntico. Mandy  espantou-se ao descobrir que Floriano
no fumava, no bebia nem se interessava por jogo.
  - Que virtuoso!
  - Tenho vcios horrveis escondidos.
  Ela sorriu e continuou a beber. Ele estava inquieto. Descobrira j que
no tinha afinidades espirituais com Mandy;  o que o prendia a ela era
apenas uma atrao fsica. Hgida, alta e esbelta, assim naquele vestido
de noite, a  americana parecia uma rainha - o que aumentava nele a
sensao de no merec-la. Tudo isso, entretanto,  tornava mais
inexplicvel seu desinteresse pela companhia social da rapariga, pelas
coisas que ela dizia... Que era  ento que faltava a Mandy K. Patterson?
Uma pitada de tempero latino? Tolice. No existia tal coisa. O cassino
estava cheio de "latinas" insossas... Santo Deus! A gente vive repetindo
lugares-comuns, frases, smbolos que  talvez nunca tenham tido
correspondentes na vida real. (Quando perguntavam ao velho Liroca se
existia  lobisomem, ele respondia: "Se existe o nome  porque existe o
bicho". Falava-se em frieza nrdica, fleuma  britnica, salero espanhol.
Ele conhecera uma norueguesa ninfomanaca, um ingls afobadssimo, e
espanholas sem  a menor graa.
  Tinham pequenas discusses cordiais. Um dia na praia, vendo uma pgina
de jornal cheia de convites para enterros  e missas de stimo dia, entre
grossas tarjas pretas, ela murmurou:
  - Vocs latinos so mrbidos.
  - Antes de mais nada ns no somos latinos. E depois voc precisa ficar
sabendo que no costumamos pintar os  nossos cadveres. No Brasil
defunto  defunto mesmo e no manequim com rouge nas faces e batom nos
lbios.
  309 - Mas quem  que pinta cadveres?
  - Vocs americanos.
  - Ah! - e Mandy deu uma tapa no ar. - Coisas da Califrnia...
  Uma noite no Cassino da Urca conseguiu que Floriano tomasse um usque.
Disse que achava desagradvel  continuar a beber sozinha, tendo do outro
lado da mesa aquele homem que bebericava tnicas com limo e a  mirava
com olhos de proibicionista. Ele riu, chamou o garom e pediu um scotch
com soda e muito gelo. Mandy  continuou a falar. Floriano escutava-a com
a ateno vaga, olhando para os pares que danavam na pista. Como  bom
brasileiro, achava que quela altura dos acontecimentos a amiga j podia
entrar em confidencia de natureza  ntima: problemas de famlia, os seus
sonhos, os seus planos, sim, a sua vida sexual... por que no? No
entanto ela  discutia impessoalmente, com uma eficincia irritante,
marcas de automvel, o imposto de renda nos States (era  contra o New
Deal) e raas de ces.
  Naquela noite queixou-se da falta d'gua no seu apartamento.
  - Por que  que as coisas no Brasil nunca funcionam direito?
  - Algumas funcionam - respondeu Floriano, sentindo uma tontura boa, que
o deixava areo e alegre.
  - Por exemplo?
  Ele pensou: "Nossos aparelhos sexuais", mas no teve coragem de
transformar seu pensamento em palavras.  Sorriu duma maneira to
maliciosa que ela compreendeu tudo.
  - Vocs no pensam noutra coisa... - murmurou, prendendo entre os lbios
um novo cigarro. Floriano abriu a  carteira de fsforos e acendeu um. E
quando Marian se inclinou para aproximar da chama a ponta do cigarro,
ele  disse:
  - No me venha dizer que nos Estados Unidos os bebs so trazidos pelas
cegonhas...
  Ela soltou uma baforada de fumaa, atirando a cabea para trs.
  - Claro que no. Mas  que temos mil outros interesses na vida.
  Olhou em torno.
  310
  - O Rio s vezes me d a impresso dum imenso bordel de luxo 
beira-mar.
  - O que - replicou ele - sob certos aspectos no deixa de ser mil vezes
mais interessante do que a imensa  fbrica que  o teu pas...
  Ele sabia que, como Marian, estava simplificando as coisas: mas o usque
soltava-lhe a lngua, fazia-o tomar  interesse naquele dilogo que
comeara to opaco e ralo.
  Mais tarde, discutindo pessoas de suas relaes, ela concluiu:
  - Os brasileiros so morbidamente sentimentais. Vivem mexendo nas
prprias feridas e parecem tirar um grande  prazer disso. E os homens
so ainda piores que as mulheres.
  - Queres saber o que penso das mulheres americanas?
  - Quero.
  - Posso ser franco?
  - Pode.
  - Vocs se parecem com essas mquinas de selecionar fichas da
International Business Machine. A gente aperta  num boto e l salta a
ficha com a informao desejada. Dentro da cabea de vocs est tudo
catalogado direitinho:  sentimentos, preconceitos, frases feitas para as
diversas ocasies sociais, dados estatsticos e informaes, muitas
informaes... Ah! E principalmente frmulas. . . frmulas para
conseguir sucesso na vida social, na vida comercial,  na vida literria
e artstica e at na vida eterna.
  Ela o escutava sorrindo e soltando lentas, provocadoras baforadas de
fumaa propositalmente na direo do rosto  dele. Floriano prosseguiu:
  - Acho que as mulheres americanas so fabricadas em srie, como
automveis ou mquinas de lavar roupa.  Espiritualmente vocs pertencem
ao sexo masculino. Isso explica o nmero de divrcios nos States.  que
l  homens e mulheres no conseguem entender-se.
  Ela bebeu mais um gole de usque. Ele fez o mesmo. Miraram-se por alguns
instantes em silncio. Depois ela  falou.
  - Que  que voc tem contra as americanas? Alguma delas j o humilhou
alguma vez?
  311
  - That's a good question. J.
  -  segredo ou posso saber como foi?
  - At este momento foi um segredo. Mas como estou meio bbedo vou contar
tudo. Chamava-se Mary Lee, tinha  uns treze anos, era loura como voc,
morava na casa vizinha ao colgio onde eu estava internado. Tive por ela
uma  paixo distante, desesperanada, impossvel, e de carter
absolutamente anglico. Ela nunca se dignou sequer a  olhar para o meu
lado. Tratava-me como se eu fosse um selvagem. E como selvagem eu me
sentia quando estava  perto dela.
  - Continue.
  Floriano sorria, deliciado com a prpria histria, que nem ele sabia ao
certo se era autntica ou no.
  - H mais ainda... - continuou. - Tambm tive namoros com a moa cujo
retrato aparecia nas pginas do  Saturday Evening Post sorrindo com
belos dentes e fazendo propaganda da pasta dentifrcia Ipana.
  - Voc  engraadssimo.
  - No ria, que  srio. E agora vou lhe contar de outra paixo: Pearl
White.
  - Quem era?
  - Uma artista do cinema mudo, uma herona de filmes seriados.
  - Ah! Acho que j li algo a respeito...
  - Foi uma paixo cabeluda, como se diz na minha terra. - Ergueu um dedo
acusador na direo da amiga. -  Voc tem uma responsabilidade tremenda,
Mandy.
  - Eu? Por qu?
  - Porque voc  hoje para mim a encarnao da trindade ideal da minha
infncia: Mary Lee, a Ipana girl e Pearl  White.
  - Que  que tenho de fazer?
  - Voc deve saber melhor que eu. Aperte no boto competente e veja a
ficha.
  - No seja bobo. Vamos danar.
  Foram. Ele a enlaou e ficaram a andar ao ritmo do blue, peito contra
peito, face contra face, na penumbra daquele  salo
  312
  que, de to cheio, mal lhes dava espao para se moverem. Floriano
avistou o vulto do pai a uma porta; o Velho  devia estar voltando da
sala de jogo... Rodrigo tambm viu o filho e fez-lhe um sinal amistoso.
Quando o  encontrava nos cassinos, mesmo quando estava em companhia de
mulheres suspeitas, procurava tomar com relao  a Floriano um ar
esportivo, como se fossem irmos.
  - Quem ? - indagou Mandy.
  - Meu pai.
  - Pai? To jovem assim?
  Rodrigo pareceu interessado em descobrir quem era a bela fmea com quem
o filho danava. Abriu caminho por  entre o emaranhado de pares, e,
aproximando-se do rapaz, bateu-lhe no ombro...
  - Quem  a deusa?
  Sem interromper a dana, Floriano fez as apresentaes. A expresso dos
olhos do Velho, ao mirar a americana,  chegava a ser pattica, de to
famlica. Rodrigo tornou a bater no ombro do filho. "Deus te ajude." E
afastou-se.
  - Um belo tipo, o seu Old Man.
  - Ah!
  - Parecidssimo com voc.
  Enfim sei o que ela pensa de mim - refletiu ele, lisonjeado, mas ao
mesmo tempo um tanto contrariado com a  interveno do pai.
  Vinha de Mandy um bafio de usque misturado com fragrncia de gardnia e
cheiro quente de mulher moa e  limpa. Ela cantarolava o blue e seu
hlito produzia uma ccega excitante na orelha de Floriano, que a
apertou com  mais fora. Take it easy, boy - murmurou ela. Ele traduziu
mentalmente a frase: Devagar com o andor, menino.
  Por volta das duas da manh, Mandy abafou um bocejo. Vamos? Ele fez um
sinal afirmativo, chamou o garom,  pediu a conta, pagou. Com voz
arrastada Marian recomendou: "Guarde a nota. Depois acertaremos as
contas".
  - Est bem - disse ele, contrariado. Mandy tinha o exasperante hbito de
querer pagar a sua parte nas despesas.  Desde a
  313
  primeira noite estabelecera condies: s o acompanharia aos lugares
pblicos se ele consentisse em to go Dutch,  isto , fazer as coisas "
holandesa": cada qual pagar a sua despesa. Ele no gostou da idia. Quis
explicar-lhe que  na sua terra o cavalheiro... "No! - interrompeu-o
ela. - No me venha com essa histria de cavalheirismo latino.  Eu
trabalho, ganho um bom salrio, no sou sua irm nem sua me nem sua
filha." Floriano achou de bom agouro  que ela no tivesse dito tambm
"nem sua amante". O remdio tinha sido concordar. Mas mesmo assim a
situao  o humilhava
  um pouco.
  Saram. Entraram no carro dela. Floriano possua um Chevrolet 35, mas
Mandy preferia andar sempre no seu Buick  37.
  No saguo do edifcio onde ela tinha seu apartamento, na Avenida
Atlntica, ficaram a contemplar-se em silncio,  enquanto esperavam que
o elevador descesse. Mandy tinha o ar lnguido: o sono estava visvel em
suas plpebras,  como uma coisa fsica. Floriano, excitado, sentia um
desejo terrvel dela. Quando o elevador chegou, ele abriu a  porta e fez
meno de entrar tambm. Marian, porm, o deteve, sorrindo: "No. Voc
bebeu demais hoje. Est um  homem perigoso. No me arrisco".
Aproximou-se dele e pousou-lhe numa das faces um beijo breve e fresco.
  Floriano saiu do edifcio irritado. Mandy que no me venha com essa
histria de beijos fraternais. No somos  irmos. Nem primos. Ela bem
sabe o que eu quero. Pois se acha que estou pedindo demais, que me mande
embora, mas no me embrome.
  Sentou-se num dos bancos da calada da avenida e ficou olhando a noite
sobre o mar. Marian Patterson tinha de  certo modo alterado sua vida,
trazendo para ela um elemento de desordem. Ele havia interrompido
naquela ltima  semana o trabalho no novo romance... Relaxara a
correspondncia com Slvia: suas cartas  amiga agora eram mais  curtas
e raras... Sim, e talvez menos ternas. Era uma injustia!
  E ali na calada solitria comeou a murmurar coisas para si mesmo. Ah!
- tratava ele de se convencer - entre as  duas nem h que hesitar...
Slvia  uma pessoa,  gente. Comparemos os assuntos de suas cartas com
as conversas  de Mandy. Slvia no en-
  314
  tende de motores de exploso nem de estatstica nem de vitaminas, mas
entende de relaes humanas. Slvia tem  trs dimenses, ao passo que
Mandy tem s duas.  uma capa de revista em tricromia, impressa em papel
gessado.  Mandy  de papel. Isso! De papel. Mas no! Ningum pode ser
to simples assim. Se ela fosse de papel eu no  estaria aqui procurando
refrescar na brisa do mar este corpo cheio do desejo que aquela texana
me provocou mas  no satisfez. Papel coisa nenhuma!
  Fosse como fosse, comeava a ter saudade do tempo em que ainda no
conhecia Marian e em que era senhor de  suas horas, de seus desejos, de
sua vida. Livre! Disponvel. Principalmente isso. Disponvel! Mas
disponvel para  que, meu caro cretino? Para ficar de papo para o ar na
praia olhando o cu? E Para ler T. S. Elliot e Andr Gide?  Para de vez
em quando ir para a cama constrangido e sem prazer, com uma
prostitutinha qualquer?
  Dormiu pouco e mal aquela noite.
  Durante dois dias no teve notcias de Mandy. Decidira deixar que a
sugesto do prximo encontro partisse dela.  Uma noite foi ao Cassino da
Urca, sozinho, e teve a desagradvel surpresa de avistar Marian
danando, cara contra  cara, com um sujeito ruivo, alto e espadado -
evidentemente americano - e com um jeito entre ingnuo e  truculento de
fullback universitrio. Mandy falava muito, e de vez em quando o
homenzarro atirava a cabea para  trs e ria. O primeiro impulso de
Floriano foi o de procurar ali mesmo outra mulher, lev-la para uma
mesa, depois  para a pista de danas e mais tarde para a cama. O
essencial era que Mandy o visse aquela noite, feliz em  companhia duma
fmea atraente. Qual! Tudo isso era pueril. Retirou-se do cassino antes
que Mandy o visse.  Estava desgostoso consigo mesmo, pois acabava de
descobrir que sua armadura, que sempre julgara de puro e rijo  ao, era
apenas de lata. Vulnerabilssima. Imaginem, ele enciumado! Era o fim de
tudo...
  No dia seguinte no tentou comunicar-se com a amiga. Esta, porm, lhe
telefonou.
  - Que  feito de voc?
  315
  - Continuo vivo - respondeu ele. E decidiu pr  prova a honestidade de
Mandy. - Saste ontem?
  - Sa. Tive um encontro com um americano.
  - Quem  o heri?
  - Um oficial da marinha dos Estados Unidos. Est passando uns dias no
Rio, onde no conhece ningum. Um  amigo meu da embaixada me pediu para
o entreter.
  Entertain! At que ponto teria ela levado esse dever cvico de entreter
um compatriota perdido numa terra de  botocudos?
  - Divertiu-se?
  - Oh! Tivemos lots offun.
  Outra frase corriqueira da vida americana: lots of fim, pensou Floriano
com amargor. E o fato de no ter podido  surpreender Mandy numa mentira,
longe de deix-lo orgulhoso dela, aumentava-lhe a exasperao. Sim,
porque a  naturalidade com que a criatura lhe contara a histria chegava
a ser um insulto. Ento ela no compreendia que...?
  - Al! Que foi?
  - Estou perguntando - disse ela escandindo as slabas - se voc tem
compromisso para esta noite.
  - No. Por qu?
  - Vamos ento sair juntos. Est combinado?
  - Est - murmurou ele, j se desprezando por entregar-se sem condies.
  - Encontraremos o crowd no bar do Copacabana Palace.
  O crowd! Como ele odiava aquela palavra e tudo quanto ela representava!
O crowd era a turma, o grupo, o pessoal.  E o crowd de Mandy, que
Floriano tivera j de agentar tantas vezes em noitadas interminveis,
era formado de  dois secretrios da embaixada americana, com suas
pequenas, uns altos funcionrios da Standard Oil e da Texaco,  com suas
esposas, e uns dois ou trs moos ricos brasileiros que gostavam de
parecer americanos: compravam suas  roupas em Nova York, fumavam
cachimbo e falavam ingls com sotaque ianque.
  Naquela noite Floriano aborreceu-se mortalmente. Irritou-o a maneira
como alguns daqueles "projetos de  magnatas" analisavam
  316
  a situao mundial e comentavam Hitler e Mussolini, como se a poltica
internacional fosse apenas uma partida de  baseball. Um deles,
funcionrio da Esso, declarou-se simptico aos ditadores do tipo de
Trujillo e Baptista, pois lhe  parecia que pases subdesenvolvidos de
mestios, como eram os da Amrica do Sul, no estavam ainda preparados
para o sufrgio universal.
  - Claro - replicou Floriano. - Para as companhias de petrleo e para a
United Fruit Co.  mais fcil e barato  comprar um ditador que todo um
Congresso.
  O funcionrio soltou uma risada, bateu no ombro de Floriano e
perguntou-lhe esportivamente se ele era comunista.
  - No. E voc  fascista?
  O outro tornou a rir, achando a piada muito boa. E a conversa derivou
para cavalos de corrida e mais tarde para  marcas de usque.
  E das dez da noite s trs da manh o crowd andou de bar em bar, de
cassino em cassino (ia tendo baixas pelo  caminho), numa espcie de
via-sacra profana. Mandy quis ficar at o fim. Estava se divertindo
muito. E sempre  que Floriano lhe sugeria que fossem dormir, ela lhe
pegava o queixo e murmurava maternalmente: "Silly boy". E  ficava.
  Um dia Floriano analisou a srio seus sentimentos com relao a Marian
K. Patterson. Concluiu que no a amava  desse amor que nos leva a
desejar a companhia permanente do objeto amado (objeto era palavra que
descrevia  melhor Mandy que Slvia) - desse amor cheio de ternura que
torna enormes as coisas aparentemente simples:  ouvirem juntos, de mos
dadas, o quarteto Opus 132, de Beethoven; ou contemplarem em silncio um
quadro num  museu; ou sarem simplesmente a caminhar lado a lado, sem
necessidade de se dizerem nada, numa noite de luar...  ou mesmo sem lua,
que diabo! Jamais pensara ou desejara fazer qualquer dessas coisas com
Marian. Ele a cobiava  fisicamente, gostava de sua carne, mas sua
companhia no lhe era poeticamente agradvel. Havia mais ainda. Ao  lado
da americana ele era perturbado por um sentimento quase permanente de
inferioridade, que lhe vinha duma  srie de coisas... Quando calava
sapatos de salto alto, Mandy ficava uns cinco 
  317
  centmetros mais alta que ele. Era uma excelente nadadora, ao passo que ele
no sabia nadar. Uma  tarde, como estivessem ambos em trajos de banho
perto, da piscina do Copacabana Place,  debaixo dum pra-sol, Mandy
ergueu-se de sbito, atirou-se n'gua e saiu a nadar. E ele, Floriano,
ficou entre divertido e encafifado a pensar numa histria de Monteiro
Lobato - a dum galo  capo de pintos que criara maternalmente sob suas
asas um patinho...
  Quando jogavam tnis um contra o outro (haviam feito isso umas duas ou
trs vezes naquelas  ltimas semanas) no raro Mandy ganhava as
partidas. Tinha uma grande agilidade e, perna-longa,  cobria a cancha com
facilidade. Muitas vezes Floriano estava to absorto na contemplao do
bailado que aquela gara atltica lhe proporcionava, l do outro lado da
rede, que se esquecia de  rebater as bolas que ela lhe atirava com uma
violncia quase masculina.
  Mais de uma vez procurara ter para com Marian - como fizera com Slvia,
por carta - uma  atitude protetora de macho forte. A americana, porm,
recusava-se a ser protegida. Ultimamente  parecia querer transformar-se
numa espcie de musa inspiradora. Perguntava-lhe pelo romance  que ele
estava escrevendo, queria saber pormenores a seu respeito,
principalmente o plot, o  enredo. Repetia-lhe que ele tinha de escrever
um best seller que fosse no Brasil o que E o vento  levou fora nos
Estados Unidos. Floriano reconhecia que ela dizia aquelas coisas sem
malcia nem  ironia, com a melhor das intenes. Mas nem por isso
deixava de ficar irritado. Me... me basta  uma! - pensava.
  Concluiu, ao cabo de todas essas reflexes, de todo esse amargo ruminar
de situaes passadas,  que s havia um territrio no qual poderia
impor-se, afirmar-se e submet-la: a cama. Era tambm  por isso que
ansiava pela oportunidade, que nunca chegava, de t-la como... amante.
(A palavra  amante repugnava-o, fazia-o pensar na linguagem da cozinha
do Sobrado, onde Laurinda  cochichava sobre pees que tinham amsias.)
  Agora Mandy e Floriano beijavam-se na boca ao se despedirem  noite. Mas
era o tradicional  good-night kiss americano. Ele tentava torn-lo
profundo e ardente, mas ela se obstinava
  318
  em mant-lo superficial e frio, como algo de fraternal ou, pior ainda,
de impessoal.
  O Cambar que havia nele aconselhava-o a agarr-la a unha. Ele achava o
projeto fascinante mas  temia o ridculo em que ficaria se ela o
repelisse.
  Chegou-lhe uma carta de Slvia que o deixou sensibilizado e tomado dum
profundo sentimento de  culpa:
  Que  que h contigo? Sinto que j no s o mesmo. Tuas cartas esto
ficando cada vez mais curtas, mais raras e  mais frias. Longe de mim a
idia de te forar a uma correspondncia que no te d prazer, mas eu
queria que me  dissesses que  que se est passando no teu esprito, na
tua vida. Seja o que for, conta a verdade. Eu sentiria muito,  mas muito
mesmo, se deixasses de ser meu amigo, mas quero que saibas que se tal

acontecer eu no morrerei.  Ficarei triste, isso sim, mas saberei
sobreviver como tenho sobrevivido a tantas outras coisas desagradveis
que me  tm acontecido na vida. Digo-te estas coisas para que no fiques
desde j com remorsos. Sou mais forte do que  imaginas ou do que meu
fsico faz supor. Portanto, trata de compreender. O que te peo no 
caridade nem sequer  justia, mas franqueza.
  Floriano recriminou-se, fez propsitos de mudar a situao e, sem perda
dum minuto, escreveu a  Slvia uma carta carinhosa que, relida, lhe
pareceu forada. Mandou-a, porm, como estava, e  quando, uma semana
depois, lhe chegou a resposta, percebeu, encabulado, que no conseguira
enganar a amiga.
  Obrigada pelo esforo que fizeste na tua ltima carta para voltar ao tom
antigo. Apesar da tua negativa, agora eu sei  que h alguma coisa mesmo.
No faz mal. Continua me escrevendo, se isso no te for muito difcil.
Um dia ters a  coragem de contar tudo.
  Aquela noite ao sarem dum cinema, Marian declarou-lhe que no estava in
the mood para ir ao  Cassino da Urca, como haviam projetado, e
convidou-o a subir at o seu apartamento, para um
  319
  drink. Era a primeira vez que fazia um convite dessa natureza. Subiram.
Logo ao chegar, ela preparou uma gua  tnica com uma rodela de limo
para Floriano, e um high bali para si mesma.
  Sentaram-se lado a lado no sof. Ele olhou em torno. Uma papeleira em
estilo Chippendale. Quadros na parede:  pssaros pintados por Audubon.
Poltronas confortveis cobertas de chito estampado em cores alegres. No
cho um  tapete oval, rstico, em cinco cores. Tudo como em anncios que
ele vira nas pginas do Ladies Home Journal:  alegre, confortvel e
impessoal.
  Floriano apontou para um retrato que estava sobre uma mesinha,
enquadrado numa moldura de metal prateado: um  casal de meia-idade,
ambos de culos, os dentes expostos num sorriso que originalmente tinha
sido dirigido para a  cmara fotogrfica, mas que agora parecia dedicado
especialmente quele brasileiro que ali estava em companhia  de sua
filha.
  - Quem so?
  - Papai e mame.
  - Ah!
  Daddy, uma rosa branca na botoeira, o ar prspero, parecia sentir-se
like a million doars, a imagem viva do  sucesso. Mom, de to domstica,
parecia trescalar a apple-pie e ice cream de baunilha.
  Mandy ergueu-se, ps a eletrola a funcionar em surdina. Gershwin, como
Floriano havia previsto. Depois apagou a  luz do lustre e acendeu a
lmpada ao lado do sof. Tornou a sentar-se. Floriano sorriu para si
mesmo, pois lhe  parecia que a americana se portava como um homem do
mundo que prepara o ambiente para conquistar a mocinha  que conseguiu
atrair ao seu apartamento... Esperou, com a respirao um tanto
alterada. Nada, porm, aconteceu  nos minutos que se seguiram. Mandy
continuou a falar com o ar neutro de sempre, contou incidentes do
escritrio  e repetiu a ltima anedota carioca que ouvira aquela manh.
De vez em quando fazia uma pausa para perguntar a  Floriano se queria
mais gelo, ou ento para trautear trechos do An American in Paris.
  - Queres comer alguma coisa?
  - No. Obrigado.
  - Como vai a novela?
  320
  - Assim assim.
  Ela ento lhe pregou um pequeno sermo sobre a necessidade de ter fora
de vontade e mtodo. Lera no Reader's  Digest que Thomas Mann, Somerset
Maugham e Ernest Hemingway mantinham horrios rgidos de trabalho:
escreviam geralmente das nove da manha  uma da tarde. Por que Floriano
no os imitava? Ele encolheu os  ombros, mexeu distrado com a ponta do
indicador os cubos de gelo de seu copo. Houve um silncio.
  Mandy deixou o sof e aproximou-se da janela. Ele fez o mesmo. Ficaram
ambos olhando a noite e a lua sobre o  mar. L de baixo, das ruas,
vinham rudos de vozes humanas, buzinas de automveis, o chiar dos
pneumticos que  rolavam no asfalto, cujo cheiro empoeirado, de mistura
com o de gasolina queimada e maresia, subia at aquele  sexto andar.
Olhando para as favelas iluminadas num morro prximo, Mandy murmurou:
  - Nenhum pas que se considere civilizado pode permitir uma coisa
dessas.
  No era a primeira vez que ela se referia  misria do Rio. Floriano no
lhe deu resposta. Mas ela insistiu:
  - Por que  que o governo brasileiro no acaba com essa vergonha?
  - Ora, vocs nos Estados Unidos tm a pior favela do mundo...
  - Ns? Favela? Onde?
  - Eu me refiro a essa monstruosa favela moral que  a segregao em que
vivem os negros.
  As luzes dum letreiro non em trs cores refletiam-se alternadamente no
rosto de Mandy, que agora estava tocado  de vermelho. Foi a essa luz que
Floriano viu a expresso de fria que desfigurava o semblante da
americana.
  - Estava tardando que me atirasses na cara a discriminao racial! -
exclamou ela, as narinas palpitantes, a voz  alterada.
  Floriano contemplava-a, meio apreensivo. Estava claro que tinha apertado
no boto de alarma daquela bela  mquina.
  - Vocs, brasileiros, como amam os negros no podem compreender a nossa
situao...
  321
  E com aqueles reflexos no rosto - verde, violeta, encarnado - Marian K.
Patterson continuou a falar com uma  fria surda na voz. J que ele
provocara o assunto, ia desabafar... Achava o Rio a cidade mais bela do
mundo,  quanto a isso no havia dvida. Os brasileiros eram
encantadores, ningum podia negar... Ah! mas havia coisas no  Brasil que
ela simplesmente detestava. No suportava a presena constante do negro
e do mulato na vida carioca,  nem a tolerncia com que a populao
branca os tratava. No havia nada que a enojasse mais que a
promiscuidade  racial. No Rio via negros e mulatos por toda a parte,
misturados com brancos: na rua, nos cafs, nos cinemas, nos  teatros,
nos nibus, nas salas de espera, nas lojas... negros! negros! negros!
Achava-os sujos, malcheirosos,  insolentes, metidos. Nas reparties
pblicas encontrava funcionrios mulatos - empafiados, pedantes, com
ares  de senhores do mundo. Na rua mais de uma vez um preto lhe dirigira
olhares lbricos, um at chegara a dizer-lhe  uma obscenidade. E por
fim, alteando a voz, quase num apelo, perguntou:
  - Vocs no compreendem que com essa tolerncia esto impedindo o Brasil
de ser um dia uma grande nao?
  Floriano escutava-a em silncio. E quando ela fez uma pausa, perguntou:
  - J desabafou?
  -  am sory.
  - No se desculpe. Voc disse apenas o que sente. Agora vou lhe fazer
uma pergunta. Como  que voc concilia  seus ideais cristos de
presbiteriana com essa fria antinegra?
  - A religio nada tem a ver com o assunto.
  - Ento que  que tem?
  - A decncia, o respeito pelos nossos corpos, pelo nosso sangue, pelos
nossos filhos. O desejo de evitar que  nossa raa se abastarde. Vocs
no podem compreender.  preciso ter vivido no sul dos Estados Unidos
para sentir  esse problema na carne e nos nervos. Ns no maltratamos os
nossos negros. Pelo contrrio, damos a eles todas as  oportunidades para
se educarem e para fazerem uma carreira na vida. Na minha terra h
negros doutores, tcnicos,  
  322
  milionrios at. De que serve a famosa tolerncia racial dos brasileiros
se os negros aqui dificilmente conseguem sair  da favela?
  Floriano debruou-se na janela e ficou olhando para o pavimento da rua,
que tambm refletia as cores do letreiro  de non. Mandy parecia um caso
perdido como tantos outros americanos que ele conhecia e, apesar de
tudo,  estimava. Suportavam passavelmente que se criticasse Roosevelt, a
Corte Suprema e o American way of life, mas  quando se tocava o problema
negro, perdiam a compostura, exaltavam-se. E ficavam ento hediondos.
  Marian debruou-se tambm na janela e explicou com voz serena que estava
arrependida, no das coisas que  dissera, mas da paixo com que se
expressara. Ele continuou calado. Ficou olhando a luz duma bia que
pisca- piscava no mar. Depois de alguns instantes ela perguntou, quase
terna:
  - Ficou zangado comigo?
  - Claro que no. Como pode a gente zangar-se com uma pessoa por ela ser
asmtica ou tuberculosa?
  - Qu?
  - Acho que vocs americanos esto doentes. Herdaram esse dio aos negros
como poderiam ter herdado outra  doena qualquer.
  - No seja bobo.
  Novo silncio. Veio l de baixo, duma rua prxima, o som duma buzina que
reproduzia os primeiros compassos da  viva alegre.
  - No sei como no te envergonhas de seres vista na companhia dum homem
moreno como eu. J pensaste que  posso ter nas veias sangue negro? Neste
pas nunca se sabe...
  - Don't be silly.
  Outra vez o silncio. Que dizer? - pensava ele. - Que fazer? Continuava
a olhar o mar e a ruminar as palavras  da amiga. E aos poucos lhe vinha
um desejo malvado de violentar aquela bela fmea, rebaix-la, de
conspurc-la  com seu esperma de mestio...
  Fez meia-volta, encaminhou-se para a porta, as mos metidas nos bolsos.
"Bom - murmurou. - Acho que vou  andando. Apanhou o copo e bebeu, sem
vontade, um gole de tnica. Sentiu
  323
  ento que Mandy se aproximava dele e lhe pousava ambas as mos nos
ombros. O hlito dela bafejou-lhe a nuca.  "Fica."
  Floriano voltou-se brusco, tomou-a nos braos, apertou-a contra seu
prprio corpo, beijou-lhe violentamente a  boca. "Espera..."
  - murmurou ela. E descalou os sapatos para que ficassem da mesma
altura. E como a mo de Floriano j  estivesse a mexer-lhe nas roupas,
aflita ela disse: "Devagar. Temos tempo". Desvencilhou-se dele, fechou a
porta  a chave e, sem dizer palavra, dirigiu-se para o quarto. Ele
ficou, meio estonteado, onde estava, o corpo inteiro a  pulsar de
desejo. Que fazer agora? Segui-la at o quarto? Ouviu rudo do chuveiro.
Compreendeu o que se  passava. Sentouse no sof, pegou o cinzeiro e
ficou a rod-lo nervosamente nas mos. Alguns minutos depois  ouviu a
voz da amiga: "Floriano!" Encaminhou-se para o quarto de dormir e parou
 porta. A luz l dentro estava  apagada, mas o luar entrava pelas
janelas com o som do mar. Olhou para a cama e viu (ou sentiu?) que Mandy
estava toda nua sob o lenol. Pensou vagamente em tomar tambm um banho,
antes de deitar-se com ela; mas  havia tamanha urgncia em seu desejo,
que mandou a idia para o diabo. Tirou o casaco, desfez o n da gravata,
arrancou-a fora, desabotoou a camisa - tudo isso num aodamento de
ginasiano.
  - No vais tomar um chuveiro? - perguntou ela.
  - Era o que eu ia fazer...
  Achou a insinuao indelicada. E o tom natural com que ela sugerira
aquela coisa tambm to natural, de certo  modo quebrava o sortilgio do
momento.
  - Leva o meu roupo...
  Ele aceitou a idia. Tomou um banho rpido, enxugou-se s pressas,
enfiou o roupo, voltou para o quarto e foi  direito para a cama. Mandy
havia jogado fora o lenol e agora ali estava completamente nua.
Floriano deitou-se e  enlaou-a. Aquele corpo bicolor
  - cobre nas partes que ela expunha ao sol da praia e leite nas estreitas
zonas que o maio protegia - deu-lhe uma  curiosa sensao de ser ao
mesmo tempo clido e fresco. Ela se deixava beijar, mais que o beijava,
enfurnava os  dedos nos cabelos dele, dizia-lhe coisas ternas em
surdina, comeava a chamar-lhe boyzinho. Mas os 
  324
  minutos passavam e ela parecia no querer sair daquele preldio de carcias
superficiais. Permanecia de coxas tranadas,  defendendo-se como uma
virgem medrosa. Quando Floriano tentou penetr-la, ela resistiu. J
quase agastado, ele  lhe perguntou:
  - Que  que h contigo?
  - Nada. Tem pacincia...
  Contou-lhe que, como tantas outras moas americanas, fora desvirginada
nos tempos de high schoolpot um colega  sem a menor experincia sexual.
A coisa toda fora dolorosa e constrangedora, deixando-a com um misto de
medo,  frustrao e vergonha.
  - E depois disso... - quis ele saber - nunca mais?
  - Nunca mais.
  Era incrvel - pensava ele. Mandy, a mquina eficiente. Mandy, a
superior. Mandy, a imperturbvel, ali estava  agora como uma menininha
atemorizada. Floriano afrouxou o brao e ficou a contemplar a amiga como
a um objeto  raro. Teria de ir embora levando a frustrao do ato to
desejado mas no realizado? Havia algo que ele no  compreendia ainda.
Era a facilidade com que ela decidira aquela noite ir para a cama com
ele, a naturalidade com  que se despira e fizera todos os outros
preparativos, como uma cortes experimentada...
  - Comigo vai ser diferente... - segredou-lhe ao ouvido. Tornou a
abra-la, dessa vez com uma fria agressiva.  Meteu
  o joelho como uma cunha entre as pernas da texana e surpreendeu-se por
no encontrar nenhuma resistncia.  Marian K. Patterson abriu-se toda
como uma flor. E Floriano sentiu que seu furor se aplacava um pouco, se
tingia  de ternura, e ele passava a trat-la como a uma flor, temeroso
de mago-la fsica e psicologicamente, desejoso de  fazer que ela
tirasse daquela ligao o mximo de gozo. Curiosamente, passaram-lhe
pela cabea, num relmpago,  fragmentos de histrias que don Pepe Garcia
contava ao menino Floriano sobre touradas e toureiros, dando uma
importncia capital a el momento de Ia verdad- em que o toureiro mata o
touro com uma estocada certeira.
  Mandy teve aquela noite pela primeira vez na vida o seu momento da
verdade". O prazer que sentiu foi to  intenso, que a
  325
  projetou espasmodicamente em alturas vertiginosas para depois dep-la em
suave desmaio num sereno vale de  sonolenta ternura - o que a fez
desatar um choro manso e agradecido.
  Floriano veio v-la no dia seguinte, curioso de saber como a
encontraria. Ficou decepcionado e at meio  desarvorado quando, ao
abrir-lhe a porta, antes mesmo de beij-lo, ela o censurou:
  - Devias ter telefonado antes.
  Maldita ordem ianque! - pensou. Frmulas para tudo. No tero um momento
de espontaneidade? Mas quem sou  eu para falar em espontaneidade? Um
homem inibido, um...
  Marian abraou-o, entregou-lhe os lbios, um pouco passiva, fez-lhe nos
cabelos uma carcia rpida.
  - Olha, antes que me esquea... - comeou ela, preparando um high
bali... - Temos que fazer um contrato.
  - De compra e venda?
  - No. Estou falando srio. Deu-lhe um copo com gua mineral.
  -  a respeito do que aconteceu ontem...
  - Ah! Sentaram-se no sof.
  - Artigo primeiro - disse ela. - No devemos comentar o assunto. De
acordo?
  - De acordssimo.
  - Artigo segundo: no me deves nada, no te devo nada, est bem? - Ele
sacudiu afirmativamente a cabea.-  A nossa vida seguir como antes,
quero dizer, cada qual com a sua liberdade.
  - timo.
  Aquela situao lhe convinha  maravilha. Duas idias existiam que ele
repelia com igual veemncia. Uma era a  de casar-se com Marian; a outra,
a de no tornar a dormir com ela.
  Saram juntos aquela noite, reuniram-se ao crowd no Cassino Atlntico.
Depois do terceiro usque Mandy tomou- lhe da mo por baixo da mesa, a
seguir saram a danar, muito apertados um contra o outro, e ela no
protestou  quando em plena pista ele lhe beijou o lbulo da orelha. Mas
quando voltaram para o apartamento dela
  326
  e Floriano quis entrar, ela o deteve. Estava cansada, alegou. "Outra
noite, boyzinho, sim?" Ele se resignou.
  Na noite seguinte, porm, ela tornou a entregar-se. E durante o resto da
semana encontraram-se no mesmo  apartamento todos os dias. Ficavam a
ouvir msica e a conversar. E pensando no momento da verdade  ele
agora achava menos difcil suportar os "assuntos" de Mandy. Uma noite,
como ele a beijasse dum jeito que no  deixava dvidas quanto ao que
queria, ela o empurrou sem violncia mas com deciso:
  - Boyzinho, voc no pensa noutra coisa. Tenha moderao. Voc disse que
ns americanos somos mquinas,  no foi? Pois os homens brasileiros 
que so verdadeiras mquinas - de fazer amor.
  - Basta apertar um boto... - sorriu ele, esforando-se por encarar o
assunto com esprito cnico-esportivo. Mas  na realidade a coisa toda o
perturbava um pouco. Dificilmente conseguia ir para a cama com Mandy
sozinho:  levava sempre consigo quase toda a gente do Sobrado.
Lembrava-se de Slvia com remorso. Pensava na me, que  j andava
desconfiada de tudo. Pensava na Dinda, cujo fantasma muitas vezes
surgira acusador ao p do leito da  americana. E pensava principalmente
em si mesmo, no outro Floriano da "poca pr-Mariana".
  Era julho, as praias andavam desertas e o vento que vinha do mar  noite
trazia um mal-escondido arrepio de  inverno.
  Marian um dia decidiu que no deviam escravizar-se ao hbito de se
encontrarem todas as noites. Marcaram dias  para se verem. Floriano no
gostou da idia, mas submeteu-se' ao trato. Afinal de contas, que
direito tinha de exigir  dela o que quer que fosse?
  Nos dias em que no via a amiga, no sabia que fazer. No conseguia
concentrar-se no trabalho. Se pegava um  livro para ler, a ateno lhe
fugia. Acabava saindo e dirigindo-se para os lugares onde poderia
encontrar Marian.  Mais de uma vez a viu em companhia de outros homens.
Ela lhe explicava depois que sua embaixada continuava a  pedir-lhe para
"entreter" compatriotas mais ou menos ilustres que visitavam o Rio
sozinhos. Mandy parecia razer
  327
  aquilo com naturalidade e at com gosto, o que deixava Floriano
enciumado.
  A todas essas, ele andava picado de remorsos, pois havia interrompido
por completo a sua  correspondncia com Slvia. Um dia, ao receber uma
carta em cujo envelope reconheceu a letra  dela, teve medo de abri-la.
Ficou com ela no bolso durante vrias horas. Finalmente abriu-a.  Dizia:
  O teu silncio (ou devemos como bons brasileiros continuar culpando o
correio?) tem uma eloqncia maior que a  mais franca das confisses.
Ele me revelou tudo quanto se est passando contigo. Pensei que fosses
suficientemente meu amigo para confiar em mim. E por falar em confiana,
vou te fazer agora uma consulta cujo  sentido mais profundo espero e
desejo que compreendas. Presta ateno. Jango, teu irmo, continua a
dizer que  quer casar comigo. Tu sabes o que acontece quando ele quer
uma coisa... Ningum mais obstinado que ele. A  Dinda faz gosto no
casamento e sempre que apareo no Sobrado me prega grandes sermes, me
d conselhos, etc.  Padrinho Rodrigo me escreveu uma carta muito
carinhosa dizendo, entre outras coisas, que ficaria muito feliz se eu
me tornasse sua nora. Eu quero Jango como a um irmo, tu sabes, e s
vezes chego a pensar que est a meu  alcance fazer o rapaz feliz, e que
o amor (e quem repete isto  a Dinda), o amor mesmo vir depois do
casamento,  com o convvio. Tambm pergunto a mim mesma se no ser
egosmo meu continuar a dizer no  nica pessoa  que parece me querer
de verdade. Enfim, no sei explicar a minha situao sentimental. Confio
em que, com tua  intuio de romancista, possas achar uma resposta certa
 consulta que te vou fazer. Devo casar-me com Jango ou  esperar que o
homem a quem realmente amo, mas cujos sentimentos a meu respeito ignoro,
um dia me queira  tambm? Fica certo de que s tu podes dar uma resposta
decisiva a esta pergunta. E o que quer que digas estar  bem. Preciso me
libertar duma vez por todas dessa dvida.
  Floriano leu e releu a carta, numa confuso de sentimentos em que se
mesclavam, em quantidades  impossveis de dosar, surpresa, ternura,
decepo, piedade, constrangimento, gratido, 
  328
  remorso... e alarma. A necessidade de tomar uma deciso definitiva
deixava-o conturbado.
  Seria que amava Slvia dum amor suficientemente profundo para resistir,
inclume,  burocracia  conjugal?
  Naquele dia dialogou consigo mesmo, como costumava fazer quando queria
resolver problemas  de composio literria. Estava  janela de seu
quarto, que dava para o mar.
  - Se amasses Slvia de verdade, esse caso carnal com a americana no
teria tido fora para te  fazer perder o interesse nela, a ponto de
interromperes por completo a correspondncia...
  - Tu sabes que se Slvia estivesse fisicamente perto de mim a coisa
teria sido diferente.
  - No creio que sintas uma verdadeira atrao fsica por Slvia. Teceste
em torno da figura dela  uma fantasia potica como uma espcie de
antdoto para o veneno da vida que aqui levas. E  talvez ames menos
Slvia do que a idia de amar a menina de olhos amendoados que te ama.
Melhor ainda: Slvia  um espelho em que tu te miras e te amas a ti
mesmo.
  - Minha ligao com Mandy no pode conduzir a coisa nenhuma. Na posio
horizontal nos  entendemos cada vez melhor. Na vertical temos sempre
conflitos e atritos.
  - Em que ficamos ento?
  - Se eu fosse um sujeito decente e decidido embarcaria amanh mesmo para
Santa F e livraria  Slvia desse casamento desastroso. Jango no  o
homem para ela. Tu sabes.
  - Deves reconhecer tambm que o fato de Slvia ter mencionado a
possibilidade de casar-se  com Jango te deixou enciumado e irritado.
Porque a idia de ter em Santa F uma mulher bonita,  inteligente e
terna que pensa em ti com amor, te era e te  muito agradvel.
Confessa...
  - No  bem assim.
  - . Tu sabes. Roubam o teu espelho. Pior que isso: embaciam o teu
espelho.
  - E que queres que eu faa? Que me case com Slvia e depois no lhe
possa dar uma vida  material decente? Que  que tenho para lhe oferecer?
No sou nada. Ainda no fiz nada. Arrasto- me
  329
  num emprego passvel para um homem solteiro... um emprego que me
envergonha pelo seu  carter de sinecura. No mais, sou apenas um
parasita que de certo modo ainda depende do  "papai". Essa  a triste
verdade, a grande contradio no homem que tanto deseja ser livre.
  -- Corta ento esse cordo umbilical. H quanto tempo vens prometendo
isso a ti mesmo?
  - Mas como  que se comea?
  - Tu mesmo tens que descobrir.
  - E o pior  que neste exato momento j estou pensando com certo
alvoroo de colegial na hora  em que vou ter Mandy nua nos meus braos,
esta noite.
  - E o puritano que mora dentro de ti te censura por isso.
  - Eu me irrito porque essa dependncia da americana est se tornando uma
ameaa  minha  liberdade. Sinto-me diminudo por depender tanto do
prazer que ela me d.
  - A tua famosa liberdade! Sabes de que me lembra? De certas famlias
antigas de Santa F , como  a do baro de So Maninho, que passam
necessidades e at fome, mas recusam-se a lanar mo da  baixela de
prata com o monograma do senhor baro e das jias lavradas da senhora
baronesa. De  que te serviu at hoje essa "jia guardada" que  a tua
liberdade?
  - Seja como for, se eu me casar com Slvia deixarei tambm de ser livre.
  - S espero que no venhas a descobrir um dia que essa pedra preciosa
que entesouraste com  tanto zelo no passa duma imitao sem valor.
  - Mas vamos aos fatos... Que fazer?
  - Mandy, tu sabes, volta para os Estados Unidos em meados do ano que
vem. Ofereceram-lhe  um bom emprego em San Francisco...
  - Pois assim o meu problema com ela ter uma soluo natural. Mas... e
Slvia?
  Fez meia-volta, sentou-se  frente da mquina de escrever (sua
correspondncia com a amiga  distante tinha sido toda manuscrita) e
comeou a bater uma carta, tratando de convencer-se de  que
  330
  aquilo era apenas um rascunho, um balo de ensaio, talvez uma mensagem
mais para si prprio do  que para Slvia.
  Recebi, li e reli tua carta. O homem que amas - se  quem penso - tem
uma. imensa ternura por ti  e muitas vezes lhe passaram pela cabea
fantasias matrimoniais em que eras sempre a esposa  eleita. Mas no te
iludas. Ele no  um bom homem. Pelo menos no  o homem que te convm,
capaz de te fazer feliz.  um desajustado, debate-se numa contnua
dvida sobre si mesmo,  um  ausente da vida, um marginal. Tu me
compreendes. Pediste um conselho e eu te dou o melhor, o  mais sincero,
o mais coerente que me ocorre. Casa-te com o Jango. Tu o fars muito
feliz e com o  tempo tambm sers feliz. Ele te dar uma vida tranqila
e segura.  um gacho slido, com os  ps firmemente fincados na terra,
a cabea limpa. Casa-te com o Jango. J no  mais um  conselho, mas um
pedido. O Sobrado precisa de ti.
  Perdoa a quem quer continuar a merecer sempre a tua amizade, haja o que
houver.
  Veio-lhe de repente uma nsia de livrar-se do assunto. Assinou a carta
assim como estava, meteu-a  num envelope e sobrescritou-o. Andou com ele
no bolso durante dois dias, sem coragem de  remet-lo  destinatria.
Precisava reformar a carta - dizia-se a si mesmo -, faz-la mais longa,
menos brusca, mais carinhosa, de maneira que Slvia compreendesse que,
apesar de tudo, ele  ainda a amava. Toda a vez, porm, que apanhava o
envelope com a inteno de rasg-lo e tirar- lhe a carta de dentro,
sentia-se inibido, bem como nas poucas ocasies em que se imaginara na
cama com Slvia, na noite nupcial.
  Um dia entrou numa agncia postal, selou a carta e deixou-a cair na
caixa, com uma sensao de  alvio e ao mesmo tempo de vergonha.
  Em outubro corriam no Rio boatos de que a ordem seria perturbada.
Comentava-se claramente  que as eleies presidenciais no se
realizariam, como se vinha anunciando. Floriano notava que  o pai andava
excitado, na expectativa de grandes acontecimentos.
  331
  "Prepare-se para a bomba, meu filho!" - disse ele um dia,
enigmaticamente.
  Quando Mandy soube que se preparava "um golpe", quis saber de onde
viria. Dos comunistas? Dos integralistas?  De ambos? Diante da poltica
brasileira vivia em permanente estado de perplexidade.
  - Talvez do prprio Getlio - disse Floriano.
  - Mas no compreendo, boyzinho! Como pode um presidente dar um golpe no
seu prprio governo?
  - Espera e vers.
  E quando se noticiou que Getlio Vargas havia fechado o Congresso e
proclamado o Estado Novo, Marian K.  Patterson felicitou o amigo pela
"profecia".
  -  preciso ter nascido neste pas - explicou ele - para compreender o
que se passou. Aqui toda a cincia dos  socilogos e dos economistas
estrangeiros cai por terra. Toma nota do que te digo. O Brasil no  um
pas lgico,  mas um pas mgico.
  A discusso nessa noite no prosseguiu, pois estavam ambos lado a lado
na posio horizontal que, contrariando  uma definio de dona Revocata
- sorriu Floriano para si mesmo -, no seguia naquele caso a direo das
guas  tranqilas.
  Em meados de novembro, num encontro fortuito entre pai e filho, Rodrigo
disse a Floriano:
  - Sabes da grande novidade? O Jango e a Slvia vo contratar casamento.
J escrevi a eles pedindo que transfiram  o contrato oficial para a
noite de 31 de dezembro. Quero dar uma festa de arromba no Sobrado.
  Aquela tarde Floriano encontrou Mandy na praia.
  - Por que ests com essa cara to triste, boyzinho?
  - Nada.
  Deitado ao lado da americana, Floriano de olhos cerrados passava-lhe
lentamente os dedos pelas pernas e pelas  coxas.
  O relgio do Sobrado bateu uma badalada. Floriano ergueu-se da cama com
alguma relutncia, enfiou o roupo,  pegou algumas peas de roupa-branca
e uma toalha, e encaminhou-se para o quarto de banho.
  332
  No quintal pregavam-se os ltimos pregos no estrado de madeira onde
aquela noite se danaria. O rudo das  marteladas ecoava pela casa. Na
cozinha, onde havia tambm grande atividade, a Dinda dava ordens, com
seu jeito  autoritrio.
  Floriano caminhava ao longo do corredor quando a voz de Slvia chegou
at ele, produzindo-lhe um estranho  arrepio de epiderme e alterando-lhe
o ritmo do corao. Teve ento a certeza de que ainda a amava.
  Entrou no quarto de banho, perturbado. Tirou o roupo, postou-se debaixo
do chuveiro e abriu a torneira como um  suicida que abre o gs.
  12
  Depois do almoo Rodrigo levou seus dois convidados para o escritrio e
ofereceu-lhes charutos. As damas  acomodaram-se na sala de visitas.
Laurinda serviu caf a todos.
  Terncio Prates apanhou um Havana, rolou-o entre os dedos, cheirou-o,
mordeu-lhe uma das pontas e depois  prendeu-o entre os dentes. O dono da
casa aproximou-se sorrindo, com o isqueiro aceso.
  - Espero que este seja o "cachimbo" da paz.
  - Mas no estamos em guerra... - murmurou Terncio, depois de acender o
charuto.
  - Passamos o almoo inteiro brigando.
  - Uma diferena de opinio no  necessariamente uma briga. Juquinha
Macedo recusou o Havana e preparou-se  para fazer
  um crioulo. Rodrigo reconheceu a faca que o outro tirava da bainha de
prata. Era a mesma que o amigo tivera  consigo durante toda a campanha
de 23. Servia para tudo: para cortar churrasco, picar fumo, limpar as
unhas...  Duma feita, devidamente passada pelo fogo, fizera as vezes de
instrumento cirrgico, desalojando a bala que se  encravara, no muito
fundo, na perna dum companheiro. Rodrigo repoltreou-se numa poltrona e
comeou a  saborear o seu Partags. Tinha comido bem, talvez demais...
Sentia-se enfar-
  333
  tado, com um peso no estmago. O Mateus rose e o Liebfraumilch eram
responsveis por aquela tontura - nada  desagradvel - e por aquele peso
nas plpebras. Pensava numa dose de bicarbonato de sdio e numa boa
sesta. O  bicarbonato no oferecia nenhum problema; quanto  sesta, bom,
teria de esperar que os convidados fossem  embora, e isso ia levar ainda
algum tempo... Olhou discretamente para o seu relgio-pulseira. Passava
das duas.  Reprimiu um bocejo. Era o diabo que estivesse assim sonolento
na hora em que mais ia precisar duma cabea clara.  Prometera apresentar
aos dois amigos provas irrefutveis de que havia no pas uma Grande
Conspirao que  justificava plenamente o novo regime. Juquinha Macedo,
depois de alguma relutncia e duns resmungos  saudosistas de maragato,
aceitara a situao. De resto todos os partidos do Rio Grande - menos
naturalmente a ala  florista do Partido Liberal - tinham decidido
colaborar com o Estado Novo. Mas o cabeudo do Terncio, aquela  vestal
do castilhismo, ao saber do golpe de Estado depusera seu cargo de
prefeito nas mos do interventor federal  e mandara um telegrama
insolente ao Chefe da Nao... Passara bom tempo, durante o almoo, a
dar as razes  (teorias, teorias e mais teorias!) por que no podia
aceitar a nova ordem.
  Ali estava ele agora, a cabea atirada sobre o respaldo da poltrona,
fumando em silncio e soprando lentamente  para o teto a fumaa de seu
charuto, atravs dum ridculo orifcio formado pelos lbios franzidos em
bico. No  envelhecia, o filho da me. Raspara ultimamente o bigode onde
os primeiros fios brancos apareciam. As tmporas  levemente tocadas de
prata lhe davam um ar distingue. Apesar de estar j beirando os
cinqenta anos, conservava  um corpo de bailarino andaluz, sem o menor
vestgio de barriga. Aprendera esgrima em Paris e, dizia-se, todas as
manhs ali em Santa F tinha duelos de florete com o filho. En gardel
Touch! Que grande besta! E frugal, por  cima de tudo. Resistira aos
quitutes da Laurinda, o monstro! Ao almoo contentara-se com umas
verdurinhas, uns  plidos legumes, um pouco de arroz... Recusara os
vinhos, o puritano! Para que quereria ele aquele corpo, se no o  usava
com plenitude? No tinha aventuras amorosas extraconjugais... pelo menos
no se sabia de nenhuma. Vivia  para a famlia, para a estncia e para
os
  334
  livros. Fazia anos que trabalhava numa monografia que todos os seus
amigos (todos menos Rodrigo Terra Cambar)  esperavam viesse a ser a
obra definitiva sobre o Rio Grande. Defendia com unhas e dentes o que
possua - terras,  gado, prdios, aplices - e odiava tudo e todos
quantos pudessem pr em perigo a sua condio social e  econmica. Se um
dia chegasse a ser ditador, mandaria fuzilar sumariamente todos os
comunistas e todos os  socialistas, inclusive os moderados. E no domingo
seguinte iria  missa com a mesma cara. (Depois dos namoros  que na
mocidade tivera com o positivismo, convertera-se ao catolicismo.)
  Foi Terncio Prates quem quebrou o silncio.
  - No. No. No - disse, sacudindo obstinadamente a cabea. - Respeito a
tua opinio, mas no posso aceitar  essa coisa que a est...
  Rodrigo endireitou o busto, inclinou-se depois para a frente numa
atitude confidencial e, num tom grave,  murmurou:
  - Talvez mudes de idia quando eu te puser ao corrente da verdadeira
situao nacional...
  Juquinha Macedo palmeava o fumo, olhando fixamente para o dono da casa,
dum jeito meio vago e  desinteressado.
  - Vocs sabem o que  esse tal Plano Cohen? - perguntou Rodrigo. - Mas
sabem direito nos seus pormenores,  nas suas sinistras intenes? Pois
trata-se dum documento apreendido pelo estado-maior do Exrcito e
contendo o  plano dum Putsch de carter por assim dizer cientifico,
baseado na experincia revolucionria comunista no mundo  inteiro. O
objetivo desse Putsch era derrubar o nosso governo de maneira rpida e
fulminante, dando um golpe  certeiro na cabea do pas, usando para isso
dum mnimo de gente. Grupos de comunistas devidamente treinados e
"especializados" assaltariam o Catete e ao mesmo tempo ocupariam os
ministrios, tomariam as estaes de rdio,  as usinas eltricas, o
edifcio dos Correios e Telgrafos, a Companhia Telefnica... A cidade
ficaria em poucos  minutos inteiramente paralisada. Atos de sabotagem e
de terrorismo criariam o pnico na populao, dificultando ou
impossibilitando mesmo uma reao do governo.
  335
  Rodrigo ergueu-se e comeou a andar dum lado para outro, na frente dos
interlocutores.
  - E vocs j pensaram no que aconteceria se esse plano fosse posto em
prtica e triunfasse? J imaginaram o que  seria o Brasil em poder dos
comunistas? - Estacou na frente de Terncio e pousou-lhe uma das mos no
ombro,  aliciante. - Mesmo que essa vitria fosse de curta durao,
teramos por dias ou talvez semanas o reino da  anarquia e do terror,
com fuzilamentos sumrios, incndios, vinganas... o caos enfim!
  Terncio Prates olhava reflexivamente para a ponta do charuto. Juquinha
Macedo perguntou:
  - Mas tu viste esse documento?
  Rodrigo, que no esperava a pergunta, ficou espinhado mas conseguiu
dominar-se a tempo.
  - Vi! - mentiu, fazendo imediatamente uma reserva mental. Era preciso
acreditar naquele plano, era  indispensvel amparar o novo regime ou
ento tudo estaria perdido. Ele no sabia nem queria saber se o
documento era autntico ou se havia sido forjado pelos integralistas,
como se murmurava. O importante era ter em  mente a gravidade da hora
nacional.
  - Vocs sabem que os comunistas so capazes de tudo - continuou, depois
duma pausa dramtica. - Quanto a  isso, o golpe de 35 no deixou a menor
dvida.
  Novo silncio no escritrio. Da sala de visitas vinham as vozes das
mulheres, principalmente a de dona Marlia  Prates.
  - Que calor filho da me! - exclamou Rodrigo tirando o casaco e
convidando os amigos a fazerem o mesmo.  Macedo aceitou a idia.
Terncio continuou como estava.
  Agora recomeavam as batidas de martelo no quintal. Rodrigo teve a
impresso de que um carpinteiro infernal  pusera-se a pregarlhe cravos
nos miolos.
  - H outro problema talvez mais srio ainda - prosseguiu, afrouxando o
n da gravata e desabotoando o  colarinho. - E o perigo nazista. Tu no
ignoras, Terncio, que existe um velho plano pan-germanista que abrange
o Brasil. A coisa vem, se no me engano, de 1740, do tempo de Frederico
II...
  336
  Apanhou a pasta de couro que estava em cima da escrivaninha, e tirou de
dentro dela alguns livros e folhetos.
  - Aqui est - disse, segurando um volume - a obra que Wilhelm Sievers,
professor da Universidade de  Giessen, escreveu em 1903. Chama-se A
Amrica do Sul e os interesses alemes. Sua tese  a de que a Alemanha
deve colocar sob o seu protetorado os pases sul-americanos.
  Dois pares de olhos um tanto incrdulos - observou Rodrigo, meio
agastado - estavam postos nele. Pegou outro  volume.
  - Este  o Hitler me disse de Rauschning, ex-presidente do Estado de
Dantzig. Ouam o que diz o Fhrer -  abriu o livro numa pgina marcada
por uma tira de papel, e leu: - Edificaremos uma nova Alemanha no
Brasil. Ali  encontraremos tudo que for necessrio.
  Sentia o suor escorrer-lhe pelo peito e pelas costas. E agora, para
cmulo de males, comeara a azia: subia-lhe do  estmago  garganta como
que uma fita amarga de fogo. E Terncio, ali, branco, imaculado e
plcido como um  lrio...
  Rodrigo agarrou um folheto e ergueu-o:
  - Tenho aqui a tese dum tal Rudolf Batke, membro, notem bem, membro do
Crculo Teuto-Brasileiro de  Trabalho, fundado h uns dois anos por
brasileiros de origem germnica que estudaram na Alemanha. Diz este
calhorda que o conceito "alemes-brasileiros" deve ser proscrito, pois
na sua opinio todos os teuto-brasileiros  fazem parte da etnia alem...
so alemes no sangue, na espcie, na cultura e na lngua. Mais adiante
o tipo nega a  existncia de "um povo brasileiro". O que h, diz ele, 
um Estado brasileiro, dentro do qual vivem alemes,  lusitanos,
italianos, japoneses e mestios... Vocs compreendem - acrescentou,
baixando a voz e lanando um  rpido olhar na direo da sala - na
opinio desse sujeito o Brasil  uma espcie de cu-de-me-joana, com o
perdo das excelentssimas famlias... - Mudando de tom, acrescentou: -
Vocs no esto com sede? Eu estou.
  Gritou para a cozinha que trouxessem gua gelada. E quando, pouco
depois, entrou uma chinoca, cria do Angico e  nova na casa, trazendo
trs copos d'gua numa salva de prata, Rodrigo lanou
  337
  para as ancas da rapariga um olhar avaliador de macho, que no passou
despercebido a Juquinha. Rodrigo esvaziou  seu copo dum sorvo s. Macedo
fez o mesmo. Terncio bebericou a sua gua com mtodo.
  O dono da casa bateu a cinza do charuto em cima dum cinzeiro:
  - Pois bem. Essa gente toda se organizou. O sul do Brasil est minado de
ncleos nazistas que contam at com  tropas de assalto, como na Alemanha
de Hitler. Seu Terncio, oua o que lhe digo, a situao  grave, temos
um  cavalo de Tria dentro de nossos muros!
  - Sim - comeou o outro - mas... Rodrigo interrompeu-o:
  - E o pior  que os nazistas contam aqui dentro com o apoio dos
integralistas.
  Terncio entesou o busto e protestou:
  - Essa  que no! Asseguro-te que isso no  verdade.
  - Quem foi que te disse?
  - Meu filho, o Tarqunio, como sabes  membro da Ao Integralista
Brasileira. Ele me garante, sob palavra, que  tal ligao no existe e
nunca existiu.  pura inveno dos comunistas. Pode haver entre os dois
movimentos  algumas semelhanas de superfcie. No te esqueas de que o
integralismo  antes de mais nada uma doutrina  poltica basicamente
crist ao passo que o nazismo  pago.
  Rodrigo tornou a sentar-se.
  - Acredito na sinceridade do teu filho. Mas  que esses entendimentos se
processam em segredo, so do  conhecimento apenas dos dirigentes mais
altos do partido. E depois, meu caro,  preciso ser cego para no ver.
As  semelhanas saltam aos olhos. O carter totalitrio de ambos os
movimentos. A saudao fascista. O culto do Fhrer  l e o do Chefe
Nacional aqui. Dum lado as camisas pardas e do outro as camisas verdes.
A cruz gamada e o sigma.  Ora, Terncio, no s nenhum ingnuo...
  Veio l da sala, com repentina nitidez, a voz de dona Marlia Prates,
que se queixava ao dr. Camerino: "Tenho tido  umas 
  338
  migrames terrveis... Depois que voltara de Paris tinha migraines em vez
de dores de cabea, como as demais santa- fezenses.
  Juquinha pitava o seu crioulo em silncio, esperando que Rodrigo
continuasse o seu trabalho de catequese.
  - E no  s isso - continuou o senhor do Sobrado. - Todo o mundo sabia
que o Armando Salles e o Flores da  Cunha articulavam um movimento
revolucionrio contra o governo. O nosso general tinha aqui no Rio
Grande mais  de vinte mil homens em armas. Que  que vocs queriam que o
Getlio fizesse numa conjuntura dramtica como  essa? Que renunciasse?
Que entregasse o pas ao Plnio Salgado? Ou ao Lus Carlos Prestes?
  - Podia ter pedido o estado de guerra ao Congresso - replicou Terncio.
- Era o que bastava para fazer frente   situao.
  - Ora, tu sabes como so esses deputados e senadores. Embromam, falam
demais, atendem primeiro seus  interesses pessoais e partidrios para
depois pensarem no Brasil... quando pensam. O momento exigia uma medida
drstica. E o fato de no ter havido nenhuma reao violenta, nenhuma
manifestao contrria da parte do povo,  significa que a medida
correspondeu a um anseio geral.
  Tornou a erguer-se e deu alguns passos na direo da janela. Olhou com
olhos entrefechados para a grande  claridade da tarde. Subia das pedras
das ruas e das caladas um bafo de fornalha. O ar estava parado. A praa
deserta.
  Tornou a aproximar-se dos amigos:
  - O Getlio raciocinou assim: ou nos adaptamos s circunstncias do
momento ou perecemos. A Constituio de  1934 deixou o governo amarrado,
incapaz de se defender.
  - E sob o pretexto de evitar que o pas casse nas mos do extremismo
integralista ou do extremismo comunista, o  teu amigo instituiu o
extremismo getulista.
  - No nego, o que temos a  um governo de fora - replicou Rodrigo com
bonomia. - Mas vocs tm de  reconhecer que sua finalidade no 
entregar o Brasil  Rssia ou  Alemanha, mas a si mesmo, ao seu grande
destino. O Estado Novo visa preservar a ordem e a unidade nacionais,
acabando com os regionalismos perniciosos.  Que outra coisa era o Flores
da Cunha seno
  339
  um baro feudal que tinha o seu exrcito particular, suas veleidades de
influir na poltica de outros Estados em  benefcio de seus caprichos,
vaidades de mando e interesses pessoais? Caudilhos como ele tm custado
caro  demais ao pas. No! As oligarquias tinham de acabar. De certo
modo o Getlio repetiu as "salvaes" do Pinheiro  Machado, s que desta
vez a salvao foi drstica e geral. Terncio fitou nele um olhar duro.
  - Pois com todos os defeitos que possa ter, o general Flores da Cunha 
um homem leal e corajoso, de cuja  palavra nunca tive razes para
duvidar. J no sei se posso dizer o mesmo do dr. Getlio Vargas.
  Rodrigo sentiu o sangue subir-lhe  cabea, que de resto j lhe comeava
a latejar e doer. Teve mpetos de gritar:  "Cala essa boca! Tu mesmo no
passas dum senhor feudal. Pensas que no sei que mantns a tua peonada
com  salrios de fome? E que teus empregados raramente comem carne? E
que s te falta exigir que eles te beijem a  mo?"
  Mas conteve-se, sorriu e disse:
  - Ora, Terncio, tu que s um castilhista convicto, devias ser o
primeiro a aceitar a nova situao. O que a temos   castilhismo da
melhor qualidade.
  O outro ergueu-se, brusco.
  - Mas isso  uma heresia! No queiras comparar a carta modelar que era a
Constituio de 14 de Julho, com esse  feto monstruoso, fruto do conbio
adulterino do Getlio com o Chico Campos, e partejado pelo Gis
Monteiro.  Ah!... essa  que no!
  Juquinha Macedo abafou um bocejo.
  - Qual  a essncia do castilhismo? - perguntou Rodrigo. E ele prprio
respondeu:  -  o governo autoritrio  que no s administra como tambm
legisla, sem os estorvos, as demoras e os bizantinismos dos regimes
parlamentares, to onerosos aos cofres pblicos. Que liberdade poltica
teve o Rio Grande durante a ditadura  castilhista e borgista, hein?
  - Pouca - concordou Terncio -, mas tnhamos liberdades civis, que o teu
Estado Novo agora nos nega.
  340
  - Aah! - fez Rodrigo. - Ests vendo as coisas negras demais. O que tens
de pensar  isto: o Estado Novo  representa uma vitria do Rio Grande.
Getlio Vargas acaba de realizar o grande sonho da sua vida: projetou o
castilhismo no plano nacional!
  - Mas para encenar essa pardia ridcula - replicou Terncio - ele
destruiu o verdadeiro esprito castilhista,  transformando-se numa
espcie de anti-Bento Gonalves. Os Farrapos lutaram dez anos em prol
duma repblica  federativa. O dr. Jlio de Castilhos e seus adeptos
continuaram a luta pela autonomia dos Estados. Teu amigo agora  deita
tudo isso por terra com um decreto...
  Rodrigo soltou um suspiro, aproximou-se do armrio de livros, tirou dele
uma brochura amarelada, abriu-a e ficou  por alguns segundos a procurar
uma pgina:
  - Vou te refrescar a memria - disse. - Aqui est o que o dr. Jlio de
Castilhos pensava da democracia.  Escuta:...  vo e inepto o empenho
daqueles que atravs da expresso numrica das urnas pretendem conhecer
as  correntes que sulcam profundamente o esprito nacional, terer e
tal, como dizia o finado coronel Cacique... ah!  Aqui est: O voto no 
nem pode ser o verdadeiro instrumento capaz de determinar precisamente o
profundo  trabalho da formao das opinies, operado fora da preocupao
eleitoral, que se desliza nas correntes partidrias.
  Fechou a brochura e jogou-a para cima da escrivaninha.
  - Mas os tempos mudaram! - exclamou Terncio. - E tu no me vais
comparar a personalidade de Jlio de  Castilhos com a de Getlio Vargas.
  - Ah! Comparo. Por que no?
  - Numa coisa o dr. Getlio se parece com o dr. Castilhos - interveio
Juquinha Macedo... c na minha opinio de  maragato. O dr. Castilhos
venceu os gasparistas na Revoluo de 93 graas  ajuda do Exrcito
nacional, que ele  tanto cortejou. A vitria dos republicanos no Rio
Grande foi uma vitria do marechal Floriano, quer dizer, dos  militares.
Agora o dr. Getlio, para se manter no governo, recorre ao Exrcito,
dando assim um novo alce ao  militarismo. Isso  que me parece perigoso.
  341
  - Castilhos tinha pensamento filosfico e poltico - insistiu Terncio -
e um plano definido de  governo. O Getlio no tem.
  Rodrigo soltou uma risada um pouco forada.
  - Ests muito mal informado, Terncio. Essa balela de que o Getlio no
tem pensamento  filosfico nem poltico  pura invencionice de inimigos.
O Homenzinho sabe o que faz.
  - Mas que foi que fez at hoje, depois de sete anos de governo? -
perguntou Macedo.
  Rodrigo olhou longamente para o amigo, em silncio. Depois respondeu:
  - Olha, Juquinha, eu vou te dizer... Durante estes sete anos o Getlio
apenas conseguiu  sobreviver... Os politiqueiros no o deixaram
administrar. Ele tateou, aprendeu a conhecer os  homens com quem
trabalhava e o pas que lhe tocou governar. No princpio no conseguia
ver a  floresta por causa das rvores que o cercavam. (Conheo muita
aroeira que tem dado sombra ao  presidente...) Digamos que estes sete
anos foram um perodo de aprendizado, de limpeza do  terreno... Sim, de
pesca aos pirarucus que atravancavam as guas. Ele arpoava esses peixes
grandes, dava-lhes corda para que tivessem a iluso de estarem livres e
ilesos, e esperava...  esperava com calma: os pirarucus iam se esvaindo
em sangue e morriam... S agora  que o  Homem vai poder cumprir o
programa da Revoluo de 30.
  Juquinha Macedo remexeu-se na cadeira, e, sem tirar o cigarro da boca,
disse:
  - No sei por qu, mas esse Estado Novo me cheira a tenentismo.
  Rodrigo deu de ombros.
  - At certo ponto... talvez. Mas um tenentismo amadurecido, adulto. De
resto  natural: os  tenentes de 30, 31 e 32 hoje so majores e
coronis... - Mudando de tom e dirigindo-se a  Terncio, ajuntou: - O
Getlio chegou  concluso de que um pas como o nosso, onde impera o
pauperismo e o analfabetismo, no se pode dar o luxo de ter o sufrgio
universal. Seus deputados  e senadores jamais sero os representantes do
povo mas sim das oligarquias municipais e  estaduais. O que nossa gente
precisa  dum governo
  342
  paternalista que cuide dela como de uma criana, que a alimente, que lhe
d roupa, casa, trabalho  com bom salrio e principalmente a sensao de
que est segura, protegida. O dr. Getlio acha,  como eu, que sem
democracia econmica no pode haver democracia poltica.
  - Mas isso  uma tese comunista! - bradou Terncio, quase em pnico.
  - E  fascista tambm, meu caro - respondeu Rodrigo, tomando a dose de
bicarbonato com  gua que mandara buscar havia pouco. - Para mim o que
importa  que seja uma tese certa. E !
  Tornou a lanar um olhar interessado para as ndegas da rapariga que lhe
trouxera o remdio e  que agora se retirava num bamboleio um tanto
provocador de ancas.
  - Tudo vale, tudo serve quando se quer tomar ou conservar o poder -
murmurou Terncio num  tom quase funreo.
  13
  Rodrigo dormiu uma sesta longa, da qual despertou um pouco estonteado.
Um chuveiro frio,  entretanto, clareou-lhe as idias e tirou-lhe o
torpor do corpo.
   tardinha debruou-se numa das janelas do fundo da casa e ficou a
observar o que se passava no  quintal. O estrado, um quadriltero de
quinze metros de comprimento por dez de largura, ficara  finalmente
pronto. Havia pouco, uma das chinocas da cozinha andara a salpicar-lhe
as tbuas com  raspa de vela de espermacete, para tornar a pista mais
leve para as danas. E por falar em danas,  quem era aquele sujeito
espigado, de ademanes femininos, que l estava a mover-se dum lado  para
outro, rebolando as ndegas? Vestia calas dum azul celeste, camiseta
amarela de mangas  curtas, muito justa ao torso. Deslizava sobre o
tablado com uma graa de bailarino, punha-se na  ponta dos ps para
prender lanternas japonesas nos galhos das rvores e depois recuava para
olhar o efeito - tudo isso ao ritmo duma msica inaudvel para os outros
  343
  mortais. Houve um momento em que, talvez excitado pela presena de
tantos homens (rapages louros,  empregados do restaurante do Turnverein
preparavam as mesas para a noite), o danarino num gesto brusco
arrancou um pssego dum pessegueiro e mordeu-o com uma furiazinha
coquete. Depois, com a fruta entre os  dentes, tornou a cruzar o
estrado, fingindo que patinava, os braos estendidos, como um acrobata
que se equilibra  no arame...
  Rodrigo observava-o, divertindo-se. E quando Jango veio debruar-se a
seu lado, perguntou:
  - Onde foi que vocs me arranjaram esse beija-flor?
  -  o vitrinista da Casa Sol. Tem muita fama.
  - Fama de qu?
  - De decorador.
  - Ah! Como se chama?
  - Elfrido.
  - O nome, de to bom, chega a ser descritivo...
  Elfrido, que desaparecera por alguns minutos, de novo entrava em cena -
sim, porque o tablado era para ele um  palco, e a idia de estar sendo
observado pelo dono da casa deixava-o com fogo nas vestes. Dessa vez
trazia nas  mos um longo barbante do qual pendiam bandeirinhas
triangulares de papel, em muitas cores. Leve como uma  slfide, cruzou o
estrado, tornou a saltar para o cho, encaminhou-se para a escada que
estava apoiada no tronco  duma rvore, e comeou a galgar-lhe os degraus
como quem executa os passos dum bailado.
  -  moo! - gritou Rodrigo. O decorador voltou a cabea.
  - Me chamou, doutor?
  Tinha uma voz de saxofone contralto.
  - Chamei. Que negcio  esse?
  - Bandeirolas.
  - Eu sei, mas que  que vai fazer com elas?
  O artista explicou que ia estender os barbantes com as bandeirinhas de
maneira que eles passassem em duas  diagonais sobre o tablado.
  - Essa  que no! Isto no  clube de negro.
  344
  - Mas vai ficar muito chique, doutor.
  Rodrigo tinha comeado o dilogo por puro esprito de galhofa, mas tais
trejeitos de boca, braos e mos estava  fazendo o vitrinista, que ele
comeou a impacientar-se.
  - J disse que no quero saber de bandeirolas. V j guardar essas
porcarias.
  Elfrido obedeceu. Dessa vez contornou o estrado, de crista cada, e
dirigiu-se para uma das portas do poro.
  - Ora j se viu? - murmurou Rodrigo. - Vocs me arranjam cada tipo!
  Jango limitou-se a soltar uma risada gutural e breve. Depois olhou para
o cu e disse:
  - Estamos com sorte. Vamos ter bom tempo.
  L embaixo, marcial e enrgico como um sargento prussiano, o chefe dos
garons vociferava ordens em alemo  para seus pupilos, que obedeciam,
rpidos, sem discutir. Pequenas mesas achavam-se colocadas ao longo dos
quatro lados do tablado, de modo a deixar um amplo espao livre para as
danas. O incio da festa estava marcado  para as nove da noite. s dez
haveria o que dona Marlia Prates insistia em chamar de buffet froid.
  - Me contaram - disse Jango - que o pessoal da diretoria do Comercial
est furioso com a gente.
  - U? Por qu?
  - Porque nossa festa vai fazer concorrncia ao rveillon do clube. Acham
que todo o mundo vem pra c...
  Rodrigo segurou afetuosamente o brao do filho.
  - Para mim esta festa  mais que um rveillon de 31 de dezembro:  a
noite de teu contrato de casamento com a  Slvia. Tu sabes, esse foi
sempre o meu sonho...
  Jango suava, encabulado, sem encontrar o que dizer.
  - Vocs tm todas as condies para serem felizes... - murmurou Rodrigo,
pensando no lamentvel estado de  suas relaes com Flora. Lembrou-se
dos maus momentos que passara  mesa do almoo. No sabia exatamente
por qu, mas os convivas pareciam estar ali por obrigao, sem nenhum
prazer. A conversa arrastara-se, com hiatos  de silncio, sem a menor
espontaneidade, por
  345
  mais que ele se esforasse para anim-la. Flora no lhe dirigira sequer
uma palavra ou um olhar. No rosto de Slvia  - estranha noiva! - no
vira nenhuma expresso de alegria. Talvez a menina estivesse tristonha
por causa da  doena da me... O Jango - coitado! - portava-se como um
noivo da roa, tomado dessa felicidade alvar que  leva a gente a rir sem
motivo; e o mambira parecia no saber que fazer com as mos. E depois, a
Dinda... Desde  que ele, Rodrigo, chegara, a velha se fechara num
silncio exasperante, como se com isso quisesse castig-lo por  ter
educado mal a Bibi (que se recusara a comparecer  mesa, sob o pretexto
de que os convidados eram "uns  chatos"), de ter feito a infelicidade de
Flora e de haver permitido que Eduardo se tornasse comunista... E
durante  todo o almoo ele tivera diante de si aquela mulher seca e
sria, de olhos quase completamente tomados pela  catarata, mas que
parecia enxergar tudo e todos, enxergar at demais, desconfortavelmente
demais... O Dante  Camerino comera como um abade, e depois ficara
empachado, jiboiando num silncio sonolento e estpido. O  Juquinha, de
ordinrio to conversador, estava num de seus piores dias. As mulheres
trocavam impresses rpidas  sobre acontecimentos triviais - vestidos,
fitas de cinema, o calor - mas tudo numa conversa chocha, sem real
interesse da parte de ningum. Terncio limitara-se a atacar o Estado
Novo e Eduardo s abrira a boca duas ou trs  vezes para agredir
Terncio. E envolvendo aquela gente e aqueles silncios - o calor, o ar
espesso e meio  oleoso, as moscas importunas que se colavam nas caras e
nas mos dos convivas, que pousavam na comida ou  caminhavam pela beira
dos pratos. Sim, havia ainda Floriano, o grande ausente, o demissionrio
da vida -  pensativo, distrado, com seu eterno ar de ru. Um verdadeiro
desastre, aquele almoo! Queira Deus que a festa  desta noite no seja a
mesma coisa!
  - Para quando marcaram o casamento? - perguntou.
  - Para abril ou maio do ano que vem.
  - Para isso no se espera a safra, hein? Bom, quanto mais cedo, melhor.
O Dante me disse que o estado de sade  da me da Slvia piora de dia
para dia. Parece que a coitada no vai longe... Seria bom que antes de
morrer visse a  filha casada...
  346
  - Tio Torbio no apareceu at agora... - disse Jango depois duma pausa.
- Que ter acontecido?
  Rodrigo encolheu os ombros. Estava tambm preocupado com a demora do
irmo. Ao chegar a Santa F no dia  anterior encontrara um bilhete
escrito a lpis numa folha de papel quadriculado:
  Rodrigo. Uma coisa te peo. Quando nos encontrarmos no me fales nesse
teu Estado Novo, seno eu vomito.  Podes empulhar os outros, mas a mim
no empulhas.  uma sorte o velho Licurgo estar morto, porque assim ele
no v o filho feito cumpincha dos milicos e lacaio do Getlio. O melhor
 a gente no falar. J que a merda est a  mesmo, vou fechar a boca,
tapar o nariz e pedir que no faam onda. Quem gostar da porcaria que
coma. Bio.
  murmurou
  - Acho que teu tio vai nos estragar a festa... Rodrigo.
  - Ora, por qu?
  -  um intolerante. No quer aceitar a situao poltica. Tu sabes como
ele : oito ou oitenta. No tem meias  medidas.
  - Mas que  que ele pode fazer?
  - Se pudesse fazia uma revoluo. Como no pode, vai ficar por a
insultando e provocando meio mundo. Palavra  que estou apreensivo.
Conheo bem o Bio. Seria at melhor que ele ficasse no Angico...
  No estava sendo sincero. Na realidade ardia por tornar a ver o irmo,
por ouvi-lo contar suas ltimas aventuras, as  erticas e as outras. Aos
cinqenta e trs anos, Torbio revelava uma predileo cada vez mais
acentuada por  mulatinhas de menos de vinte. A coisa tinha assumido tais
propores, que vrias sociedades recreativas de gente  de cor - das
quais Bio era scio benemrito - haviam proibido sua entrada nos seus
sales em noite de baile.
  Rodrigo soltou um suspiro.
  - Que calor medonho! - Tomei um banho h menos de meia hora e j estou
todo encharcado de suor.
  Elfrido tornou  cena, fez uma pirueta em cima do tablado, deu um
piparote numa das lanternas, soltou uma  risadinha nervosa e depois
olhou em torno para ver a reao dos garons.
  347
  - Esse tipo merecia uma boa surra - resmungou Rodrigo por entre dentes.
  14
  Torbio chegou ao anoitecer. Depois de abraar as mulheres da casa, que
estavam concentradas na cozinha, s  voltas com problemas de copa, forno
e fogo - perguntou  Dinda, com uma maldade no de todo destituda de
afeto:
  - Onde est o dr. Rodrigo Vargas?
  - No conheo ningum com esse nome - replicou Maria Valria.
  - Ora! O seu sobrinho. O amiguinho do general Gis, do general Dutra, do
general Rubim. A mascote do  regimento.
  - No provoque - aconselhou a velha.     melhor no falarem em poltica.
Pelo menos hoje, que  noite de  Ano-Bom.
  - E Flora... por falar em Ano-Bom - disse Torbio, entrando na sala de
jantar - manda preparar o meu terno de  brim claro... Ou ser que a
festa vai ser de gala?
  Rodrigo, que naquele instante saa do escritrio, exclamou jovial:
  - Gala coisa nenhuma, major! Ento no me conheces? Torbio parou, mirou
o irmo, como se o tivesse visto na
  vspera e disse:
  - Pois pensei que te conhecia, mas vejo agora que no te conheo.
  Rodrigo precipitou-se para ele e abraou-o, efusivo. Torbio apenas se
deixou abraar.
  - No te encostes muito em mim - murmurou. - Suei pra burro na viagem.
Estou fedendo.
  O outro estava desapontado. Nunca, mas nunca em tempo algum o irmo o
recebera com aquela indiferena.  Sempre que se encontravam, mesmo
depois de ausncias curtas, davam um verdadeiro espetculo: abraavam-se
e  ficavam numa dana de 
  348
  tamandus, a se darem palmadas um nas costas do outro, e a se dizerem
desaforos carinhosos.
  - Que  que h contigo, hombre?
  - Comigo? Nada. Vou tomar um chuveiro.
  Enveredou pelo corredor, entrou no seu quarto, apanhou uma muda de
roupa-branca, uma toalha e um sabonete e  depois dirigiu-se para o
quarto de banho. Rodrigo seguiu-o.
  Torbio despiu-se em silncio, coou distrado a cabelama do peito,
abriu o chuveiro, postou-se debaixo dele e  comeou a ensaboar-se
freneticamente, como se no tivesse dado ainda pela presena do irmo.
  - Bio, deixa de representar! No sejas teimoso!
  Apertando repetidamente com o brao a mo ensaboada contra a axila,
Torbio agora se comprazia em produzir  sons que semelhavam o grasnar
dum pato.
  - Pelo menos escuta o que vou te dizer...
  - Se vais me falar nessa bosta que o Getlio e os militares
inventaram...
  - Espera! Deixa ao menos que eu me justifique. No sejas intolerante,
arre!
  Por alguns minutos falou sem ser interrompido: repetiu o que havia dito
aquela tarde ao Terncio e ao Juquinha:  dramatizou como pde a
situao.
  - A mim vocs no empulham... - resmungou Torbio, erguendo a cabea
para receber o jorro d'gua em pleno  rosto.
  - Abre pelo menos um crdito ao novo governo, d-lhe um prazo de
tolerncia.
  - Prazo? Sete anos no bastaram? Sete anos de desmandos, roubalheiras,
safadezas, negociatas?
  - Mas que  que tu sabes de positivo, se nunca viste a coisa de perto?
Repetes o que te contam os maldizentes  profissionais, o que ls nos
jornais da oposio.
  O rosto ensaboado, os olhos cerrados, uma pasta de cabelo colada na
testa, Torbio ergueu o dedo:
  - Bota a mo na conscincia e me diz... Mas fala com franqueza. No sou
reprter de jornal nem microfone de  rdio, sou
  349
  teu irmo, estamos na nossa casa, ningum nos escuta... Tu aceitas mesmo
essa porcaria que a est? No acredito.  Se acreditasse, era o fim de
tudo.
  Rodrigo tinha acendido um cigarro e agora fumava sentado num mocho, num
canto do quarto aonde no podiam  chegar os respingos daquele banhista
estabanado que no parava de agitar os braos e de bufar. Torbio
parecia-lhe  mais gordo, mais ventrudo do que na ltima vez em que o
vira. Assim nu, lembrava-lhe um lutador japons de  sumo.
  Houve um silncio. Torbio tornou a ensaboar-se. Rodrigo observava-o
taciturno, ansioso j por abrir-se com o  irmo e dizerlhe o que
realmente sentia.
  - As vezes um homem tem que transigir... - murmurou, sem muita
convico.
  O outro fechou o chuveiro, apanhou a toalha e comeou a enxugar-se.
  - Eu sei. Transijo cem vezes por dia, com os outros e comigo mesmo, mas
em pequenas coisas. Nunca transigi  com a patifaria, com a opresso, com
a ladroeira, com a mentira. Mas pelo que vejo teu nariz j se habituou a
toda  essa fedentina.
  O quarto de banho recendia a sabonete: uma fragrncia leve e inocente,
que nada tinha a ver com aquele homem  msculo, rude e musculoso que ali
estava a esfregar-se com fria, e em cujo corpo o suor j comeava de
novo a  escorrer.
  - Por exemplo... - tornou ele a falar, enfiando a camisa - ... essa
barbaridade que o Getlio fez com o general  Flores da Cunha... Cercou o
homem, acuou-o de tal maneira que o obrigou a emigrar para salvar a
pele. E por qu?  Porque teu amigo tinha medo do nosso caudilho, porque
sabia que ele ia se opor a um regime ditatorial e a essa  Constituio
de borra...
  Rodrigo olhava para o irmo sem dizer palavra. O suor empapava-lhe as
roupas, escorria-lhe pelas faces. Ergueu- se, jogou no cho o cigarro e
comeou a despir-se, primeiro devagar mas depois com uma urgncia to
grande, que  chegou a rasgar a camisa. Correu para o chuveiro e abriu a
torneira, como se um banho fosse a soluo para todos  os seus
problemas.
  350
  15
  Cerca das onze da noite, no dizer de Jos Lrio "a coisa pegou fogo".
Foi quando o Jazz Rosicler, aboletado num  coreto ao p do marmeleiro,
comeou a tocar sambas e marchinhas do ltirno carnaval, e o Chiru Mena
saiu a  pular, puxando um cordo iruprovisado no qual se misturavam
casados e solteiros. O tablado soava como um  tambor s batidas ritmadas
daqueles passos.
  Muitos dos convivas ainda comiam, sentados ao redor de mesinhas. Os
garons moviam-se dum lado para outro,  com bandejas carregadas de
garrafas e copos, fazendo prodgios de equilibrismo. Andava no ar um
cheiro de  galinha temperada e um bafio de cerveja e vinho - tudo isso
de mistura com o perfume que se evolava das  mulheres. A guerra de
serpentinas entre as mesas continuava: as fitas de papel desenrolavam-se
coloridas por cima  das cabeas dos que danavam. Soprava uma brisa
morna, bulindo com as lanternas e as folhas das rvores.
  Rodrigo, que havia encarregado Jango e Slvia de receberem os
convidados, aproveitara as primeiras horas da noite  para deitar-se e
repousar, e s agora comeava a cumprimentar os amigos e conhecidos.
Conhecidos? Era incrvel,  mas tinha a impresso de que, com exceo da
velha guarda, j no conhecia mais ningum em Santa F. Metido  numa
roupa de tropical azul-marinho, camisa de seda branca, gravata cor de
vinho, percorria as mesas, com um  charuto apagado entre os dedos, e
acompanhado de sua aura de Tabac Blond.
  Cumprimentara j vrias geraes de Macedos, Prates e Amarais.
Verificara, alarmado, que meninas de ontem  eram agora mes de famlia,
o que o fazia sentir-se um pouco av. (Os Amarais - reparava ele -
tinham o mau  hbito de se casarem entre primos.) Ali estavam tambm
algumas das "caboclinhas" do falecido coronel Cacique,  hoje gordas
senhoras peitudas que suavam no buo e se abanavam com leques. Uma delas
o achou "cada vez mais  moo e bonito".
  Ach du lieber Gottl Jlio Schnitzler bateu os calcanhares, fez uma
continncia e depois envolveu-o com seus  braos rijos de h
  351
  alterofilista. Quando Rodrigo chegou  mesa dos Spielvogel, s reconheceu
ali o chefe do cl. O mesmo aconteceu  com o grupo dos Schultz, com o
dos Kunz, com o dos Lunardi e com o dos Cervi. Dirigiu um galanteio
(insincero)   mulher deste ltimo; e ela lhe pagou com um "o senhor
tambm est muito conservado". "Conservado  a v!"  - exclamou ele
mentalmente.
  Foi com um certo mal-estar que apertou a mo fria e mida do Amintas
Camacho. (Por que teriam convidado  aquela pstula?) Passou a outras
mesas, abraos e exclamaes. Trepado numa cadeira, Cuca Lopes jogava
confete  na cabea dos danarinos. E  msica implacvel da charanga,
que emendava sambas com marchinhas, marchinhas  com frevos e frevos de
novo com sambas - uniam-se agora os rudos produzidos pelos apitos,
guizos, chocalhos,  cornetinhas, gaitas, pandeiros e reco-recos que os
garons acabavam de distribuir pelas mesas. Rodrigo teve a  impresso de
estar perdido numa floresta tropical quente e mida, cheia de bichos
grandes (os convivas), de insetos  (o confete), de lianas (as
serpentinas) - uma floresta amaznica que ele havia inventado e
financiado, e que agora  comeava a devor-lo.
  Um homem surgiu diante dele, de braos abertos.
  - Liroca velho de guerra!
  - Meu querido!
  Abraou o veterano, que tinha j os olhos cheios de lgrimas.
  - Ests cada vez mais jovem, major!
  - Qual, menino! Na minha idade  um perigo a gente andar vivo.
  Rodrigo franziu o cenho. No era possvel... At o Z Defunteiro estava
na festa! Sentado a uma mesa, Pitombo  lutava com a carcaa duma
galinha, a beiola lustrosa de banha, a luz duma lanterna a
refletir-se-lhe na calva  morena. Ao ver o dono da casa, ergueu-se, de
guardanapo amarrado no pescoo, limpou apressado os dedos na  ponta da
toalha da mesa e exclamou:
  - O meu caro doutor!
  Abraaram-se. E como estivesse se sentindo muito bem, Rodrigo se
concedeu o luxo duma brincadeira negra:
  352
  - Ento, Z? E o caixo que fizeste especialmente pra mim? Tu ainda o
tens? Olha que te prometi vir morrer aqui  em Santa F para te evitar o
prejuzo...
  - Esse dr. Rodrigo sempre pilhrico!
  - Como vai a vida?
  - Pois, meu caro, aqui estou sempre nos meus concilibulos
  com a morte.
  - Volta  tua galinha. Depois conversaremos.
  Bateu, de passagem, no ombro do Neco, com quem conversara aquela tarde,
quando o caboclo lhe viera fazer a  barba; e a seguir enfrentou o Chiru,
que, sem parar de danar, o abraou exclamando:
  - Que festa, menino! O Sobrado nunca negou fogo! Mariquinhas Matos
esperou-o com um bico armado  
  Geoconda. Rodrigo fez um esforo e elogiou-lhe a elegncia, o aplomb. Mas
da cara no teve coragem de dizer nada.
  Ah! Ali estava na mesa seguinte o dono do Hotel da Serra com a mulher.
Como era mesmo o nome dela? Dormira  com a criatura uma meia dzia de
vezes, l por 1929, nos seus tempos de intendente. Era uma morena
ardente, que  na hora do orgasmo soltava gritos to desesperados que ele
tinha de tapar-lhe a boca com a mo para evitar um  escndalo. Quando a
abandonou (a coisa estava dando na vista de todo o mundo) ela o ameaara
com o suicdio.  Encontrara, porm, consolo na cama dos vrios caixeiros
viajantes que freqentavam o hotel do marido. E ali  estava agora, mais
gordinha, menos loua, mas ainda com restos da antiga boniteza, e sempre
com aqueles olhos  vidos de devoradora de homens.
  - Mas que prazer!
  Ela lhe reteve a mo num aperto longo e quente. Depois, mostrando o
marido com o leque, perguntou:
  - Lembra-se do Pao?
  - Mas como no!
  O hoteleiro, um homem gordo e ndio, tinha na cabea um fez egpcio de
cartolina vermelha e, sob o nariz  carnudo, bigodes postios, de guias
longas e negras.
  - Querido, este  o dr. Rodrigo... te lembras?
  353
  - Ah!
  O pax ergueu-se e estendeu a mo pequena e mole, que Rodrigo apertou.
Nesse exato instante Jango aproximou- se do pai, tomou-lhe do brao e
levou-o at uma mesa ocupada por "pessoas gradas". Fez as apresentaes:
o juiz  de comarca... o promotor pblico... o fiscal do imposto de
consumo... Estavam todos com as esposas (opa! uma  delas, uma fausse
maigre com olhos de pantera, pareceu-lhe bem interessante...) e ento
disseram-se que tinham  muita honra., e que linda festa!... o promotor
era do Paran... estava um pouco quente, sim... bem, com licena, esta
 a vossa casa, fiquem  vontade... esto sendo bem servidos?... mas
claro!... est tudo perfeito!
  Rodrigo chamou Jango  parte.
  - No vi ainda o Eduardo. Por onde andar?
  - Me disse que ia ao baile da Unio Operria.
  - Guri besta. Anda agora com essa mania de proletrio.
  Acenou para os Carbone, que passavam danando, muito agarrados. Dona
Santuzza, mais alta que o marido,  parecia carregar a cabea deste em
cima dos seios... Rodrigo riu, pensando em Salom e no Joo Batista
decapitado.
  Torbio e Roque Bandeira bebiam, conversavam e riam, sentados a uma mesa
colocada estrategicamente perto dum  barril de chope. Por artes de Bibi,
tio Bicho tinha na cabea uma cartolinha tricolor com um barbicacho de
elstico  e Torbio, um chapu cnico chins. Rodrigo notou - preocupado
por causa do irmo - que os dois amigos no  cessavam de beber:
esvaziavam rapidamente os copzios de chope que de instante a instante
lhes entregava o  garom que, em mangas de camisa, suava ao p do
barril. Ao avistar Rodrigo, Bandeira gritou:
  - Como o senhor v, doutor, o produto vem diretamente da fbrica para o
consumidor!
  Rodrigo acendeu o charuto, deu duas ou trs tragadas, e ficou a olhar o
pandemnio. Avistou Flora, que andava de  mesa em mesa, com a compostura
duma grande dama, a falar com um e outro. Estava linda aquela noite, e
dava  gosto v-la fresca e serena no meio da "selva". Teve ento uma
sbita esperana... Talvez  meia-noite,
  354
   hora comovida dos abraos e votos de felicidade, ele a pudesse apertar
contra o peito, beij-la na boca (quanto  tempo!), pedir-lhe que tudo
perdoasse e esquecesse... suplicar-lhe que concordasse em comear com
ele uma vida  nova. Talvez  meia-noite...
  Voltando a cabea para trs, divisou os vultos dos sogros recortados
dentro do retngulo iluminado de uma das  janelas do Sobrado. Haviam
ambos recusado descer para o quintal. O velho Aderbal alegara que "no
tinha roupa",  e mesmo morreria sufocado se fosse obrigado a botar
colarinho e gravata. L estava o grande teimoso em mangas  de camisa, de
bombacha de riscado e chinelos, fumando o seu crioulo. Quanto a dona
Laurentina, "tinha quizila de  festa"; desde que chegara ao Sobrado,
aquela tarde, andara dum lado para outro a suspirar e a gemer, e quando
Flora lhe perguntara se estava doente, a velha respondera que no:  que
todo aquele exagero de comidas e  bebidas, todos aqueles gastos lhe
doam na alma.
  Numa das janelas do segundo andar, Rodrigo viu outra silhueta: Maria
Valria. Lembrou-se comovido de que,   tarde, quando ele lhe
perguntara: "Dinda, vai  festa?", a velha sacudira negativamente a
cabea, dizendo: "No.  Mas vou espiar da janela do meu quarto".
Espiar... coitadinha! Praticamente cega, mal conseguia perceber o vulto
das pessoas quando estas passavam entre seus olhos e um foco de luz.
  A orquestra rompeu num frevo. Com gritos e. empurres, Chiru Mena
conseguiu fazer que os pares que  atopetavam o tablado parassem de
danar e abrissem uma clareira para que no centro dela Bibi Cambar
fizesse  sozinha "o passo", mostrando queles mambiras como era o
legtimo frevo pernambucano. A menina descalou os  sapatos e,
empunhando um guarda-sol imaginrio, saiu a danar, movendo os braos,
inclinando o busto ora para a  frente ora para trs, tranando as
pernas, dando saltos e desferindo pontaps no ar... Ao redor dela homens
e  mulheres a incitavam com gritos, risonhos, suados e excitados,
requebrando-se tambm ao ritmo contagiante da  msica.
  E quando a rapariga se acocorou e fez um passo que lembrava o de uma
dana de cossacos - o que exigia certa  habilidade 
  355
  acrobtica - o aplauso foi geral. Por fim, exausta, Bibi atirou-se no cho,
braos e pernas abertos, o vestido sungado  at a metade das coxas nuas.
E, ainda sob gritos, risadas e assobios, ali se deixou ficar, os olhos
fechados, os seios  arfantes, a boca entreaberta, dando a impresso de
que esperava (assim pensou Rodrigo, num mal-estar, ao v-la  naquela
posio), convidava mesmo, qualquer daqueles machos a atirar-se em cima
dela. Aproximou-se da filha e  obrigou-a a erguer-se. Apertou-lhe o
brao com fora e rosnou-lhe ao ouvido: "Sua desavergonhada! Ento isso
  coisa que se faa?"
  16
  Havia j algum tempo que Floriano andava a caminhar sozinho sob as
rvores, no fundo do quintal, gozando e ao  mesmo tempo sofrendo e
achando ridcula, absurda e talvez um pouco orgulhosa a sua solido, a
sua incapacidade  de convvio social. Repetidas vezes, naqueles ltimos
anos, sentira nostalgias do homem que poderia ter sido:  espontneo,
gregrio, extrovertido, engag. Vinham-lhe de quando em quando impulsos
de misturar-se com os  outros; confundir-se no grupo, pertencer a alguma
coisa ou a algum. Eram, porm, sentimentos dbeis que  desapareciam
ante o seu horror a compromissos definidos que pudessem redundar numa
perda de liberdade.  Falava-se com freqncia na tirania das ditaduras
policiais mas nunca suficientemente na tirania da comunidade  chamada
democrtica que nos exige um padro determinado e rgido de
comportamento, palavras, gestos e at  sentimentos certos na hora
apropriada, e mais o uso de frmulas consagradas: uma espcie de
burocratizao  pragmtica da hipocrisia.
  Mas afinal de contas - perguntara a si mesmo muitas vezes - para que
desejava ser livre? Ora... para mover-se...  ou ficar imvel, de acordo
com seus interesses, desejos ou caprichos. Para fazer o que
entendesse... ou para no  fazer nada. Sim, e principalmente para ter
direito aos seus silncios. Era horrvel falar apenas porque isso  uma
obrigao quando se est em sociedade. No deixava, entretanto, de achar
estranho e at suspeito o seu quietismo,  a sua
  356
  fome de silncio e imobilidade. Seria um candidato natural ao ioga... ou
 catatonia? E era preciso no esquecer  que seus silncios estavam
cheios de dilogos, no apenas o eterno solilquio interior mas tambm
longas  conversas hipotticas que mantinha com as outras pessoas e que
s vezes lhe pareciam to reais. Passara boa parte  daquela tarde no
quarto a imaginar um dilogo com Slvia: uma conversa franca em que lhe
contaria, sem omitir o  menor detalhe, toda a sua aventura com Marian
Patterson.
  Um dia, procurando analisar a essncia do seu desejo de solido, ele se
submetera a um teste. Imaginara-se  sozinho numa ilha deserta onde
contasse com todo o conforto: boa casa, gua e comida fcil, uma
eletrola com seus  discos prediletos, uma grande biblioteca... tudo,
enfim, menos gente. Cerrara os olhos e tratara de sentir-se nesse
exlio... e a idia acabara por causar-lhe pnico. Conclura que sua
solido s tinha sabor e sentido se - ilha  tambm - fosse cercada de
seres humanos. Ficara claro que seu retraimento no tinha o menor trao
de  misantropia. Gostava de gente, interessava-se pelas pessoas, queria
saber como eram por dentro, e como viviam.  Satisfazia essa curiosidade
lendo... e escrevendo romances. Reconhecia o carter juvenil e
masturbatrio dessa  maneira de viver por procurao. Uma vez escrevera
um conto no qual, em vez de apresentar diretamente as  personagens e os
acontecimentos, ele os mostrara vagamente refletidos no vidro dum
espelho avoengo. Haveria  nele a tendncia a interessar-se menos pelas
coisas do que pelo seu reflexo? E a metfora e o smbolo seriam para
ele mais importantes que as prprias coisas que representavam? Essas
reflexes lhe tinham sido de grande  utilidade, pois tomara conscincia
do perigo que esse espelhismo constitua no s para a sua literatura
como  tambm e principalmente para a sua vida.
  Que haveria ento no fundo de seu retraimento? Um desejo de
autenticidade? Ou pura timidez? Talvez fosse o  medo de no ser
socialmente aceito, amado ou admirado na medida de suas ambies mais
recnditas.  Considerava-se sensvel  amizade, envolvia o gnero humano
numa espcie de ternura. Era, porm, uma ternura  desconfiada,
ressabiada, de algum que, tendo sido um dia profundamente agredido por
outrem, hoje se encolhe  no temor de
  357
  novas agresses e decepes. Mas por mais que vasculhasse na memria,
no conseguia descobrir quando, onde e  por quem fora to seriamente
ferido. O episdio com Mary Lee - que agora ele transformara num conto
de seu  folclore particular - no poderia ser responsvel pelo seu
comportamento de adulto.
  Havia pouco Bibi danara sozinha na frente de vrias dezenas de pessoas:
sem a menor inibio, livre, espontnea,  autntica... um pouco
despudorada. Despudorada? L estava o moralista que ele no queria ser,
mas que era,  apesar de tudo. Invejava essa capacidade, que a irm
possua em alto grau, de no depender da opinio alheia e  que no fundo
era a mais completa forma de liberdade. Quando ele tinha de falar em
pblico (as poucas  conferncias que fizera haviam sido uma tortura!) o
seu eu se dividia em dois. Um permanecia na plataforma a  discursar e o
outro sentava-se na primeira fila... no! sentava-se em todas as filas,
em todas as cadeiras e ficava a  mir-lo com um olho de Terra, morno,
fixo, crtico, pronto a ach-lo ridculo, artificial ou aborrecido,
principalmente  aborrecido, como se isso fosse o maior dos pecados
sociais.
  Encostado a uma rvore, numa zona sombria, Floriano contemplava agora o
tablado que - resplendente de luzes,  cheio de alegres seres humanos e
de msica - parecia um barco de prazer ancorado ali no quintal do
Sobrado.
  Quando chegasse a meia-noite ele ia ter a oportunidade de abraar e
beijar a cunhada. Por que no? No fazia isso  todos os anos, na noite
de Ano-Bom? S que desta vez queria dar ao abrao e ao beijo um calor
especial...  transmitir a Slvia uma mensagem que ela pudesse entender
com o esprito e com o corpo. Uma despedida... Mas  no! Era pueril. Era
cretino. E tambm criminoso. J que no tivera a coragem de vir quando
ela lhe pedira socorro,  o melhor, o mais decente que tinha a fazer
agora era deix-la em paz.
  Encaminhou-se para o porto e saiu. Parou debaixo dum combustor e olhou
o relgio. Onze e quarenta. Podia-se  sentir a pulsao do corpo da
cidade na expectativa da grande hora. Passavam pela rua autos em grande
velocidade. Nas caladas pessoas falavam e riam, numa alegria nervosa.
Em ruas distantes alguns insofridos
  358
  comeavam j a dar tiros. Quase todas as janelas das casas que davam
para a praa estavam iluminadas. Havia no ar  como que a expectativa dum
grande acontecimento...
  Floriano foi sentar-se no banco debaixo da figueira grande e de l ficou
a olhar para o Sobrado. Pensou no dia em  que da janela da "mansarda"
vira num daqueles bancos o estranho quinteto: o pai, Roberta Ladrio,
Ladislau  Zapolska, o tenente Quaresma e o Retirante... Sorriu para seus
pensamentos. Quanta coisa havia acontecido depois  de 3 de outubro de
1930! Afinal de contas ali estava ele, sete anos aps a noite mais
angustiosa de sua vida...  Quem era? Que procurava? Por que ou por quem
esperava? Era preciso tomar uma deciso antes que fosse tarde  demais.
No podia continuar naquela dependncia do pai nem a manter-se naquele
emprego que o rebaixava  moralmente, que o envergonhava...
  Seus livros por outro lado no podiam permanecer naquela zona cinzenta e
morna, naquele vago esteticismo sem  sangue nem nervos, medroso da vida,
sestroso da realidade.
  Olhando para a fachada da matriz, Floriano tentou provocar aquela
espcie de transe mstico que na sua noite de  terror e vergonha tivera
o poder de ergu-lo no ar, dando-lhe um vislumbre da eternidade e da
salvao. Intil. O  milagre (e usava esta palavra por falta de outra)
no se repetia. E o pior era que a tentativa tinha um carter  puramente
literrio... inautntico. Olhando a cruz da torre da igreja, pensou em
Zeca e achou engraado que um  filho de seu tio Torbio estivesse a
estudar num seminrio... Um Cambar irmo marista parecia-lhe a coisa
mais  improvvel deste mundo...
  17
  Faltavam poucos minutos para a meia-noite quando Floriano se encaminhou
para casa. Ao chegar ao porto, o Ano- Novo entrava... (Outra vez a
idia do tempo que se move.) O sino da matriz comeou a badalar como num
alarma  de incndio. Dos fundos do Sobrado subiam rojes que espocavam
no alto, derramando lgrimas
  359
   luminosas em vrias cores. Soavam reco-recos, apitos, pandeiros,
cometas, guizos, chocalhos, pratos. A  orquestra tocava um galope. De
muitas ruas vinham detonaes de revlveres, exploses de foguetes. No
quintal  as pessoas se abraavam freneticamente, em meio de gritos,
risadas, serpentinas e confete. Pensando em Slvia,  Floriano
aproximou-se do estrado. Apert-la nos braos, beij-la... J agora
estava dominado por esta idia - no  seria este um novo transe mstico?
-, alheio a qualquer perigo, indiferente a qualquer problema de tica.
  Foi abraado primeiro por Dante Camerino. Depois caiu nos braos da me,
que, de olhos midos, beijou-lhe  ambas as faces. Mas onde estaria
Slvia? Algum lhe puxou na aba do casaco. Voltou-se: era o Cuca Lopes,
de  braos abertos. "Guri, tu no sabes como eu te quero bem!"
Desvencilhou-se do oficial de justia mas caiu de  encontro ao peito
quente e suado do Chiru. Desconhecidos o abraavam, lhe desejavam "boas
entradas".  Igualmente! Muito obrigado! Igualmente! Mas onde estaria
Slvia? Avistou o pai a abraar Jango. Estava  comeando a ficar tonto
no meio da balbrdia. Levava encontres, era empurrado dum lado para
outro. Algum lhe  pisou no p. Uma senhora desconhecida puxou-o contra
os seios moles, num silncio pattico. Quem era? Mas que  me importa?
Slvia! Era como se estivesse numa casa em chamas, aflito, procurando
salvar uma pessoa querida... E  de sbito avistou a cunhada. Correu para
ela, estreitou-a contra o peito, beijou-lhe ternamente a face, os
cabelos,  murmurando: "Minha querida, minha querida..." Tinha esquecido
onde estava. O desejo de levar Slvia dali para  qualquer parte da noite
foi to forte, que quase chegou a verbaliz-lo. Era como se estivesse
embriagado com o  perfume que vinha dela, pelo calor do seu corpo, pelo
seu contato... Mos fortes agarraram-lhe os ombros,  obrigando-o a fazer
meia-volta. "Deus te d um ano feliz, meu filho." Era o pai.
Abraaram-se. Mas Rodrigo  largou-o para receber nos braos a mulher do
hoteleiro, que se atirava para ele com uma espcie de fria
antropofgica. Floriano olhou em torno. Slvia tinha desaparecido.
  Trepado numa cadeira o Chiru erguia os braos e gritava, pedindo
silncio. Levou uns cinco minutos para  conseguir o que
  360
  queria. A orquestra cessou de tocar. As vozes aos poucos se aquietaram.
Abriu-se no tablado, graas  interveno  do Neco Rosa, uma nova
clareira, no centro da qual Rodrigo, com uma taa de champanha na mo,
fez um sinal  para Jango e Slvia, que se aproximaram de braos dados.
  - Meus amigos... - comeou o dono da casa. Fez uma
  pausa. Floriano notou que a comoo embaciava a voz do pai.
  Meus queridos amigos e conterrneos! Este  o momento mais feliz da
minha vida.
  Floriano no pde evitar que o seu eu crtico exclamasse interiormente:
"Mascarado!" "Mas no - protestou o  Outro -, tu sabes que ele est
mesmo comovido." - "Sim, mas no era preciso exagerar, dizendo que este
 o  momento mais feliz da sua vida." - "Intolerante!"
  - Tenho o prazer e a honra de comunicar aos presentes o contrato de
casamento de meu filho Joo Antnio com a  minha afilhada Slvia... - E,
j com lgrimas nos olhos, acrescentou: - ...que tambm  cria do
Sobrado...
  Aproximou-se da futura nora, enlaou-lhe a cintura e beijoulhe a testa.
Abraou demoradamente o filho, depois  ergueu a taa e pediu que todos
bebessem um brinde  felicidade dos noivos. Romperam os aplausos. Jango
e  Slvia viram-se envolvidos por amigos que os abraavam e lhes davam
parabns. De novo Chiru pedia silncio,  explicando que Amintas Camacho
ia propor "o brinde de honra". As atenes voltaram-se para o diretor-
proprietrio d'A Voz da Serra, o qual, lambendo os beios, ergueu a
taa.
  - Ao Chefe da Nao! - exclamou, solene. - E ao Estado Novo!
  Nesse momento Torbio ergueu-se com tamanho mpeto que sua mesa quase
virou; os copos que estavam sobre ela  rolaram, caram e se partiram.
Jogando fora o chapu caricato que tinha na cabea, encaminhou-se para
Amintas  Camacho e gritou-lhe na cara:
  - Patife! Canalha! Cachorro! Capacho! Sabujo! O outro recuou, apavorado.
  - Ningum vai beber  sade do Getlio nem do Estado Novo, ests
ouvindo, cretino?
  361
  - Bio! - vociferou Rodrigo, segurando o brao do irmo. Torbio
desvencilhou-se dele, olhou em torno,  vermelho, as
  narinas palpitantes, uma paixo a incendiar-lhe o olhar.
  - Vocs todos so uns covardes! O Getlio esbofeteia o Rio Grande,
queima a nossa bandeira, rasga a nossa  Constituio, submete o pas a
uma ditadura srdida e vocs ainda vo beber um brinde a esse pulha?!
  - Cala a boca! - gritou Rodrigo. O outro voltou-se para ele.
  - Tu tambm! O que eu disse pra essa lesma serve tambm pra ti.
  - Ests bbedo!
  - E tu? Tu ests podre por dentro, o que  muito pior! Rodrigo deu um
passo  frente, ergueu o punho para bater
  no irmo, mas Chiru interveio, envolveu-o com os braos e arrastou-o
para longe dali, ao mesmo tempo que o  Neco tentava persuadir Torbio a
que se retirasse. Jango, aparvalhado, no sabia que fazer nem dizer.
Slvia tremia.  Flora, plida, olhava do marido para o cunhado,
atarantada. Algum gritou: "Msica!" E o Jazz Rosicler atacou o  Mame
eu quero.
  Torbio aproximou-se de Floriano, disse-lhe "Vamos", e puxou-o pelo
brao. Saltaram do estrado para o cho de  terra batida e dirigiram-se
para o porto.
  Que ser que ele quer comigo? - pensava Floriano. O tio caminhava de
cabea baixa, em silncio, soprando  forte. Pararam no meio-fio da
calada,  frente do casaro. Torbio soltou um assobio, chamando o
automvel de  aluguel que estava parado junto  calada da praa.
Entraram nele e sentaram-se no banco traseiro.
  - Sabes onde  o Buraco do Librio? - perguntou Torbio ao chofer.
  - Quem no sabe, seu Bio?
  - Pois toca pra l.
  O carro arrancou. Floriano ainda no se refizera do choque causado pelo
conflito que presenciara havia pouco.  Torbio tocou-o no joelho e
disse:
  362
  - No estou bbedo. Sei o que digo. E no me arrependo do que disse. 
uma tristeza, mas teu pai perdeu a  vergonha no Rio. E tu sabes disso
melhor que ningum...
  Floriano continuou calado, olhando para fora. O auto descia agora a rua
do Comrcio. As caladas estavam cheias  de gente alegre. Na maioria das
casas as janelas se achavam abertas e iluminadas. Um bbedo cantava,
agarrado a  um poste. Havia um ajuntamento, briga? na frente da
Confeitaria Schnitzler. Na praa Ipiranga retardatrios  descarregavam
seus revlveres para o ar.
  - O Rodrigo no tem mais jeito- continuou Torbio em voz baixa. - Mas
tu! Por que no abandonas aquela  misria? Vem pr Rio Grande. Vem
respirar este ar puro. Temos muita porcaria por aqui, eu sei, mas em
geral a  coisa ainda no est to podre como l em cima.
  - Eu tenho pensado... - murmurou Floriano.
  - Mas no basta pensar.  preciso decidir a coisa duma vez, antes que
seja tarde demais. Safadeza, desonestidade   doena contagiosa, dessas
de micrbio... Eu avisei o teu pai a tempo. Ele me chamou de exagerado.
Mas eu vi o  Rodrigo adoecer devagarinho... de ano a ano ia mudando,
piorando.  uma tristeza, uma pena... uma bosta!
  O auto entrou na rua do Faxinai. Floriano tinha ouvido dizer que o
Buraco do Librio, famoso por seus bailes de  Carnaval e de Ano-Bom, era
freqentado pela pior gente de Santa F e arredores. E agora ele pensava
no curioso  tipo de moralidade de Torbio Cambar. Segundo o seu cdigo
particular, permitia-se a um homem a satisfao de  todos os seus
caprichos e desejos sexuais: podia cometer adultrio,
indiscriminadamente, at com a mulher do  melhor amigo; tinha o direito
de deflorar chinocas como as do Angico e at fazer-lhes filhos... O que
importava  para um macho era no ser covarde, ladro ou vira-casaca em
matria de poltica.
  - Larga essa tua sinecura... - prosseguiu Torbio. - Sei que no gostas
da estncia, no s homem de campo.  Est bem. Mas vai para Porto
Alegre, procura lugar num jornal, escreve... Escreve contra essa
cambada. Quem me  dera o teu talento! Tu sabes que sou um casca-grossa.
Depressa com essa gaita! - gritou
  363
  para o chofer. E, tornando a baixar a voz: - O importante  a gente no
se entregar. No te preocupes com  dinheiro. Eu te ajudo, se precisares.
Mas larga aquela porcaria o quanto antes. Tenho esperana em ti.
  Pensei que ele me desprezasse por causa do que aconteceu "aquela noite"
- refletiu Floriano.
  O carro entrou na zona do Purgatrio e, depois de andar aos solavancos
por bibocas e ruelas escuras, estacou   frente dum prdio de alvenaria
com aspecto de garagem.
  -  um baile de chinas - explicou Torbio, sorrindo. - Vais ver que
gente "distinta" freqenta este frege-mosca.  - Deu uma palmada nas
costas do sobrinho. -  uma boa experincia para um romancista, hein?
Desce.
  
  Entraram na espelunca. Um cheiro clido de corpos suados e loo barata
bafejou-lhes as caras. Uma orquestra  estridente, composta quase
exclusivamente de instrumentos de metal e de percusso, infernizava o
ambiente.  Guirlandas de papel crepom em vrias cores pendiam do teto.
  Librio veio ao encontro dos recm-chegados. Era um negro alto,
desempenado, de dentes alvos, carapinha j um  pouco amarelada pela
idade. Tinha a imponncia dum potentado africano. Recebeu Torbio com
abraos e palavras  de carinho.
  - Quanta honra pr meu tugrio! Ah! Este ento  o filho do dr. Rodrigo?
Muito prazer. ! Esta casa  sua, moo,  . Mas vamos arranjar uma mesa
prs amigos... ... Ah! Antes que me esquea... esto armados? No  por
mim,  mas a polcia exige. No? . Est bem. Por aqui...
  Torbio e Floriano seguiram Librio por entre aquele emaranhado de
homens e mulheres que se agitavam numa  espcie de acesso epilptico
ritmado e alegre. Floriano achava estranho, improvvel mesmo o simples
fato de ele  estar ali. E olhava para as
  364
  caras, fascinado. Via gente de todos os tipos imaginveis: brancos,
mulatos, cafuzos, sarars, negros retintos,  caboclos, ndios...
  Lembrou-se dum livro que gostava de folhear quando menino, e no qual
havia uma pgina com gravuras mostrando  espcimes de tipos tnicos, sob
o ttulo: Raas humanas.
  O calor ali dentro era quase insuportvel. Floriano sentia o suor
escorrer-lhe por todo o corpo. Axilas passavam-lhe  perto do nariz,
perigosamente. Batiam nele braos, cotovelos, ancas, ndegas...
Vislumbrava caras patibulares:  homens de queixadas largas e quadradas,
olhos de bicho, testas curtas. De quando em quando, num contraste,
surgia-lhe no campo de viso, para desaparecer segundos depois, uma face
quase anglica como a da menina  magra de olhos inocentes que agora ali
passava, com ar de primeira comunho. As prostitutas, mascaradas de p-
de-arroz com estrias de suor e rosas malfeitas de rouge nas faces,
deixavam-no ao mesmo tempo assustado e  enternecido.
  Chegaram por fim a um dos cantos do salo onde Librio mandou colocar
uma mesa tosca de pinho, sem toalha.  Torbio e Floriano sentaram-se
junto dela, em cadeiras com assento de palha tranada.
  A gritaria agora era de tal maneira intensa, que da msica Floriano s
ouvia os roncos ritmados da tuba, marcando a  cadncia dum samba. Os
pares danavam colados, peito contra peito, ventre contra ventre, coxa
contra coxa. Havia  algo de resvaladio, de repugnantemente seboso e ao
mesmo tempo azedo naquelas caras, naqueles corpos, naquela  atmosfera.
  - Que  que vo beber? - indagou Librio, antes de deix-los.
  Torbio pediu uma pinga e duas cervejas. Inclinando-se sobre o tio e
praticamente berrando as palavras no ouvido  dele, perguntou:
  - E agora... como vai ser? Me refiro s suas relaes com o Velho...
depois do que aconteceu h pouco.
  Torbio encolheu os ombros, olhando distrado em torno, como  procura
de algum.
  365
  - Sabes por que escolhi este antro?  porque aqui s vezes aparecem umas
mulatinhas do outro mundo...
  Floriano insistiu:
  - Mas  uma pena que dois irmos to unidos desde meninos...
  Torbio pousou-lhe a mo no ombro, interrompendo-o:
  - O Rodrigo que brincou comigo... o companheiro de banhos da sanga... de
farras nessas penses... esse no  existe mais. Morreu. O outro eu j
no entendo. No fala a minha lngua.
  O empregado trouxe as bebidas. Torbio encheu ambos os copos de cerveja
e empurrou um deles na direo do  sobrinho, dizendo:
  - Bebe ao menos hoje, pra festejar a noite de Ano-Bom. Bebeu a pinga num
nico sorvo e depois comeou a  tomar
  lentamente a cerveja. Floriano olhava pensativo para dentro do copo.
  - nimo, rapaz! Bebe e esquece!
  Floriano bebeu. A cerveja estava morna e com gosto de sabo.
  - Mas o Velho pode ainda voltar ao que era antes - disse, sem muita
convico. - Acho que esse seu eu novo   apenas uma casquinha, um
verniz...
  Torbio sacudiu a cabea, numa negativa obstinada.
  - Qual! Cachorro que come ovelha uma vez... s matando.
  - Mas no ser intolerncia sua?
  - Antes fosse... E o pior  que toda a famlia est contaminada. Tua
me... tua me continua a ser uma mulher  decente, honesta, prendada,
no nego, mas tambm mudou.
  - Em que sentido?
  - No gosta mais de Santa F nem do Angico... Habituou-se  vida de
cidade grande... alta sociedade, festas... tu  sabes. J no  mais
nossa.
  Floriano ficou pensativo. Ele tambm sentia que a me tinha mudado.
Admirava-se, porm, de o tio haver  percebido isso, ele que parecia
sempre desatento a tudo que no fosse de seu interesse pessoal, material
e  imediato.
  366
  - Tua irm vai em mau caminho.  uma pena, mas vai. E a culpa no 
minha. Mas no vamos falar em coisas  tristes...
  Comeou a olhar com insistncia para um grupo que se encontrava a uma
mesa prxima.
  - Olha s aquela mulatinha...  o meu tipo.
  Floriano olhou. A rapariga era bem-feita de corpo, tinha feies
delicadas e atraentes, nariz fino, cabelo corrido.
  - No me digas que no gostas dessa fruta... Olha bem.  uma flor...
Pele cor de rapadurinha de leite. Acho que  no tem nem vinte anos.
Feita sob medida...
  A mulatinha sorria, toda cada para um rapaz franzino, do tipo sarar,
que se achava a seu lado.  mesma mesa  estava tambm um quarento
melenudo, de m catadura, abraado com uma mulher gorda, com um dente de
ouro,  muito pintada, e com tanto leo de mocot nos cabelos, que o
rano dele chegava at as narinas sensveis de  Floriano. A quinta
figura era um mulato corpulento, com a cara marcada de bexigas, nariz
chato, beiola sensual,  olhos de quelnio. Floriano notou de imediato
que havia algo de equvoco naquele quinteto. A mulatinha e o sarar
pareciam encantados um no outro. A gorda apoiava dengosa a cabea no
ombro do "cabeleira" que por sua vez no  tirava os olhos da mulatinha.
O mulato apertava com o joelho a perna do sarar, lanando-lhe olhares
suspeitos.
  Torbio fez um sinal para o dono da casa, que se aproximou, atencioso.
  -  Librio, quem so? - Fez com a cabea um sinal na direo da mesa
vizinha.
  - O bexiguento no conheo, . novato aqui. O melenudo  o famigerado
Severino Tarum, nunca ouviu falar?  Bandidao. Tem umas trs ou quatro
mortes na cacunda. Homem perigoso.
  - O que me interessa  a mulatinha, homem!
  - Ah!  uma de tantas. Uma piguancha de vinte mil-ris. . O sarar ao
lado dela  um sapateiro da Sibria... E...
  - Mas ele no merece aquela jia... O negro arreganhou os dentes.
  -  como diz o outro: "No hai justia neste mundo". E.
  367
  O soalho gemia ao peso dos danarinos, que agora pulavam e cantavam ao
compasso do Mame eu quero, Torbio  continuava a namorar a rapariga.
Floriano olhava fixamente para Severino Tarum, sentindo nele uma
espcie de  eptome viva de todos os bandidos e degoladores que haviam
assombrado sua meninice. Era decerto por isso que o  encarava com aquela
raiva crescente, imaginando - com uma violncia de que ele prprio se
admirava - o  prazer que sentiria em quebrar-lhe a cara com um soco. O
melenudo continuava a cocar a mulatinha. O mulato  tinha agora a mo na
coxa do sarar, que parecia achar isso muito natural.
  Percebendo que estava sendo observado, Severino Tarum cerrou o cenho e
encarou Floriano, que desviou o  olhar e ficou a raspar disfaradamente
com a unha o rtulo duma das garrafas. Torbio, que tudo fizera naqueles
ltimos dez minutos para atrair a ateno da rapariga, ergueu-se e
disse: "Vou danar", aproximouse dela e  segurou-lhe o brao. O sarar
levantou-se e tocou no ombro do intruso, dizendo-lhe algo que Floriano
no  conseguiu ouvir. Torbio meteu a munheca aberta na cara do rapaz e
empurrou-o com tanta fora, que ele caiu de  costas. O mulato ergueu-se
de inopino. Era um homem de quase dois metros de altura, senhor de
bceps  assustadores. As duas mulheres tambm se levantaram,
afastando-se da mesa, encolhidas e alarmadas. Severino  Tarum recuou
trs passos, levou a mo ao bolso e ficou nessa posio, como a esperar
que o companheiro  liquidasse o intrometido. Tenso, Floriano assistia 
cena, com um aperto na garganta, um frio nas entranhas, a  respirao
arquejante. O mulato saltou sobre Torbio, mas como este quebrasse o
corpo e lhe passasse uma rasteira,  o homenzarro tombou de bruos no
soalho, produzindo um rudo surdo. E estava j a erguer-se quando Bio
lhe  golpeou a cabea com uma cadeira. O gigante soltou um gemido e
tornou a cair com a cara no cho, j fora de  combate. Torbio voltou-se
para o melenudo, que agora tinha na mo uma navalha aberta. Tentou
aproximar-se  dele mas no pde, pois o sarar, de joelhos, enlaava-lhe
uma das coxas, impedindo-o de caminhar.
  Floriano no desviava o olhar do "cabeleira". Todos os pavores da
infncia agora se concentravam nele, dando-lhe  um mpeto
  368
  agressivo... Agarrou uma garrafa pelo gargalo e, com fria cega,
investiu contra Severino Tarum, que, brandindo a  navalha, gritou:
"Cuidado, menino, que eu te corto a cara!" Floriano aplicou-lhe uma
garrafada no brao, fazendo-o  largar a arma. E, antes que o outro
tivesse tempo para apanh-la, cerrou os dentes e, com toda a fora de
que era  capaz, bateu com a garrafa na cabea do bandido, que soltou um
gemido e caiu de borco no soalho, e ali ficou,  imvel. Floriano
voltou-se e viu ento algo que no primeiro momento no compreendeu... O
sarar, sempre de  joelhos, dava a impresso de que mordia o ventre de
Torbio, cujo rosto se contraa numa expresso de dor. A  charanga
continuava a tocar, uns poucos pares tinham cessado de danar e olhavam
a briga, mas ningum  intervinha. Torbio pegou o sapateiro pelo gasnete
e ergueu-o. Nesse instante Floriano viu cair das mos do rapaz  uma
pequena faca ensangentada. As calas de Torbio comeavam a tingir-se
de vermelho  altura de uma das  virilhas. Algum gritou: "Pra a
msica! Lastimaram um homem! Chamem o Librio!" Mas a banda e o coro
continuavam, frenticos:
  Mame eu quero! Mame eu quero1. Mame eu quero mama!
  Bio, que agora apertava a garganta do sarar com a mo esquerda, com a
direita agarrou-lhe os testculos. O  sapateiro soltou um urro. Floriano
assistia  cena com um horror mesclado de fascinao. Viu Torbio erguer
o  adversrio acima da prpria cabea, dar alguns passos cambaleantes e
por fim atir-lo para fora, por uma das  janelas.
  - Algum mais? - gritou o Cambar, voltando-se e olhando
  em torno.
  A msica havia parado. Librio apareceu e viu os dois homens estendidos
no soalho. Ergueu depois os olhos para  Torbio que, amparado agora na
mesa, uma das pernas das calas j completamente empapada de sangue,
sorria,  murmurando:
  - No  nada, Librio... no  nada...
  369
  - Chamem um mdico depressa! - exclamou Floriano. Mas ningum se moveu.
O crculo de curiosos ao redor  deles cada vez engrossava mais.
  - Se arredem! - pediu o dono da casa em altos brados. - Se arredem! Que
siga o baile! Msica! Se arredem!
  Segurou Torbio por baixo dos braos, enquanto Floriano lhe erguia as
pernas. Levaram assim o ferido para um  quarto dos fundos, onde o
depuseram em cima duma cama de ferro. Librio mandou um de seus
empregados  chamar um auto a toda pressa.
  Floriano desceu as calas do tio. O sangue saa aos borbotes dum talho
na virilha esquerda. "Femoral seccionada"  - pensou ele, horrorizado.
  - No  nada... - balbuciava Torbio. Sorriu para o negro, murmurando: -
Uma vez... dormi com uma china...  nesta cama... hein, Librio?
  O sangue continuava a manar do ferimento. Se o talho fosse mais embaixo,
na coxa - refletiu Floriano - ele  poderia tentar um torniquete. Mas
assim... que fazer, meu Deus, que fazer? A cabea lhe doa, uma nusea
lhe  convulsionava o estmago. Agarrou uma toalha e amarrou a parte
superior da coxa do ferido com toda a fora.  Intil. O pano ficou em
poucos segundos empapado de sangue.
  - Temos que levar este homem daqui! - gritou. - Precisamos dum mdico o
quanto antes!
  Torbio estava j duma palidez cadavrica. "Ele vai morrer" - pensou
Floriano. Correu para um canto do quarto e  ps-se a vomitar. Quando,
poucos segundos depois, tornou a aproximar-se da cama, notou que o tio
movia os  lbios, como se quisesse dizer-lhe alguma coisa. Inclinou-se
sobre ele.
  - Um piazinho de merda... - sussurrou Torbio. - Com uma faquinha de
sapateiro... x... x gua!
  A msica, as danas e os gritos haviam recomeado no salo. Floriano
tremia todo, da cabea aos ps, mole de  fraqueza, as mos e os ps
gelados.
  Librio, que havia sado por um instante, voltou.
  370
  No  nada, seu Torbio. Agente a mo que o auto j
  vem.
  O ferido cerrou os olhos. O dono da casa olhou para Floriano de tal
jeito, que este compreendeu que ele tambm  achava que estava tudo
perdido.
  Do salo vinham vozes e as pancadas ritmadas dos passos dos danarinos.
Mame eu quero! Mame eu quero! O  lenol se tingia aos poucos de
vermelho. Mame eu quero mama! Sentado na beira da cama, Floriano
passava os  dedos trmulos pela testa do tio, rorejada dum suor frio. D
a chupeta! D a chupeta! D a chupeta pr nen no  chora mais!
  Finalmente ouviu-se uma voz: "O auto! O auto chegou!"
  Levaram Torbio para dentro do carro e fizeram-no deitar-se no banco
traseiro. Floriano ajoelhou-se junto dele.  Librio sentouse ao lado do
chofer.
  - Depressa! Pr hospital.
  - Que hospital?
  - O da praa da Matriz.
  - No! - lembrou-se o preto. - O militar fica mais perto!
  - Pois toque! - gritou Floriano. - O mais depressa possvel. E acendam a
luz.
  O chofer obedeceu. Torbio estava lvido, os olhos entrecerrados, a
respirao estertorante. O sangue continuava a  manar do talho, em torno
do qual Floriano, num desespero, apertava mais e mais a toalha.
  A um dos solavancos do carro, Torbio abriu os olhos, fitou-os no
sobrinho e balbuciou:
  - O melenudo... Tu... tu liquidaste... o ban... bandido... 'to bem. Teu
pai vai... vai... vai ficar contente... Cambar  no nega fogo. . .
  Floriano segurava a mo do tio, cujo sangue ele sentia agora, morno, no
prprio corpo: no ventre, no sexo, nas  coxas....
  Houve um momento em que Torbio pareceu recobrar as foras. Abriu bem os
olhos e, com um meio sorriso, disse  audivelmente:
  - Um piazinho de merda...
  371
  E no falou mais. Seu peito cessou de arfar. Seus olhos se vidraram.
  Quando o automvel parou na frente do hospital, Torbio Cambar estava
morto.
  372
  Reunio de famlia - VI
  16 de dezembro de 1945
  - Ah! - exclama Rodrigo ao ver Floriano entrar no quarto. - Ao menos tu
me apareces. Estou aqui que nem  cachorro sem dono. Onde esto os
outros?
  -  muito cedo ainda. Oito e dez.
  Semideitado na cama, Rodrigo tem na mo um espelho oval de cabo, no qual
se mira atentamente. Sem desviar os  olhos da prpria imagem, pergunta:
  - J viste os jornais? O Dutra leva uma vantagem de mais de um milho de
votos sobre o brigadeiro. Est eleito.  Quanto ao Getlio, nem se
fala... - Faz uma careta. - Estou hoje com a cara amarrotada. Me sinto
meio  bombardeado...
  - Alguma dor?
  - Dor propriamente no. - Passa a mo espalmada pelo peito, por baixo da
camisa. - Uma opresso... um mal- estar...
  - Quer que eu chame o Dante?
  - No. De qualquer maneira ele vai aparecer  hora de costume. No 
nada srio. Talvez seja essa atmosfera  pesada. Acho que est se armando
um temporal...
  O Velho est contrariado - refletia Floriano - porque a Bibi embarcou
hoje para o Rio.
  Como se houvesse lido o pensamento do filho, Rodrigo exclama:
  - No podia ter esperado um pouco mais? Que necessidade tinha de ir com
tanta urgncia? Que o "sujeito" fosse,  est bem...
  373
  Mas ela! No sabe que estou gravemente doente, que posso morrer duma
hora para outra?
  Floriano aproxima-se da janela e olha para o cu. Por entre nuvens
escuras, a lua em quarto  crescente parece um fruto mordido. Relmpagos
de quando em quando clareiam o horizonte, para  os lados do poente.
  - Eu sei o que aquele corno foi fazer no Rio... - continua Rodrigo. -
Foi entender-se com a  gente do Dutra, tratar de garantir para ele o meu
cartrio, ests ouvindo? O meu cartrio! Como se  eu j estivesse morto,
enterrado e podre...
  Floriano pe-se a folhear distrado a antologia potica que apanha de
cima da cmoda. Rodrigo  pe o espelho sobre o mrmore da
mesinha-de-cabeceira.
  - A Slvia hoje de tarde esteve me lendo poemas desse livro. Diz que vai
me ensinar a gostar do  Drummond, do Vincius, do Bandeira, do
Quintana... Podes me chamar de conservador, de  antiquado, do que
quiseres... Mas continuo sendo fiel ao Bilac, ao Raimundo Correia e ao
Vicente  de Carvalho. Estou velho demais para mudar. Mas... a minha
filha no me quer bem... -  acrescentou num tom de queixa.
  - No diga isso, papai. Cada pessoa tem seu jeito de querer bem. Uns
demonstram, outros  escondem. Outros ainda querem bem duma maneira meio
estabanada, como a Bibi.
  - Qual nada! Tua irm  uma egocntrica, uma ftil, uma vaidosa. Nunca
levou nada a srio. Tem  a mentalidade duma menina de doze anos. S
pensa em vestidos, automveis, festas... Contei as  vezes que ela subiu
at aqui para me ver, desde que chegamos. Oito. S oito em mais dum ms!
  Floriano est certo de que o pai exagera.
  - E o Eduardo... que fim levou?
  - Foi  Unio Operria. Vo eleger hoje a nova diretoria. Parece que
trs faces organizaram  chapas: os comunistas, os anarquistas e os
outros, isto , o grupo composto de getulistas, de  membros dos novos
partidos e principalmente de apolticos. Est claro que o Eduardo foi
trabalhar pela chapa vermelha.
  374
  - Ganham os comunistas. Queres apostar? Os anarquistas so uma minoria
anrquica. Os  comunistas fatalmente fazem uma aliana com os getulistas
e acabam empolgando o poder.  Aposto o que quiseres. Vai se repetir o
que aconteceu a semana passada no Comercial. Os  libertadores, como
sempre, tiveram candidato prprio, mesmo sabendo que iam perder. A UDN e
o PSD apresentaram cada qual a sua chapa. Ora, os getulistas se aliaram
aos esquerdistas e aos  tais que o Prestes chama de progressistas e
juntos acabaram ganhando a parada.
  - E assim, pela primeira vez na histria do clube, vamos ter uma
diretoria populista sem a  participao de nenhum estancieiro. Para
muitos isso deve ser o fim do mundo.
  - E ! - exclama Rodrigo, alando a cabea. - Pelo menos  o princpio
do fim dum  determinado mundo... Em vez de termos na presidncia do
Comercial um Teixeira, um Amaral, um  Prates...
  - ...ou um Cambar... - ajunta Floriano, sorrindo.
  - Sim, ou um Cambar... em vez de um representante do patriciado rural
temos um Morandini,  filho dum napolitano que comeou a vida em Santa F
vendendo verdura de porta em porta, na  sua carrocinha puxada por uma
mula...
  O olhar de Floriano cai sobre um poema de Ceclia Meireles, no volume
aberto:
  Minha vida bela, minha vida bela, nada mais adianta se no h janela
para a voz que canta.
  - Por falar em comunismo - pergunta Rodrigo -, que fim levou o Stein? O
ingrato ainda no  me apareceu...
  - Eu j lhe disse, o Stein est muito doente. Ainda h pouco encontrei-o
na praa, sentado no  banco debaixo da figueira. Quando me viu, quis
fugir. "Espera a, homem!", gritei. Puxei-o pelo  brao e obriguei-o a
sentar-se. E ento ele desandou a falar com
  375
  uma loquacidade nervosa. Me contou como e por que tinha sido expulso do
Partido Comunista.
  - Mas ento foi mesmo expulso?
  - Da maneira mais espetacular. Intimado a comparecer em Porto Alegre a
uma espcie de assemblia geral de  camaradas, presidida por membros do
Comit Estadual, foi acusado de ter trado o Partido, de entregar-se a
atos de  "diversionismo", e de haver desobedecido  direo do PC. E o
pior de tudo, o que mais lhe doeu foi a acusao,  feita tambm em
pblico, em altos brados, de que quando ele lutava na Espanha, como
soldado da Brigada  Internacional, estava j a soldo do capitalismo,
era, portanto, um espio, um traidor.
  - No me diga!
  - O Stein defendeu-se como pde, invocou os servios prestados  Causa,
durante mais de vinte anos: prises,  espancamentos, privaes... Mas a
maioria votou pela expulso. Stein saiu do plenrio debaixo duma
tremenda  vaia. Um de seus antigos camaradas gritou-lhe na cara:
"Judas!" O Aro me contou tudo isto com lgrimas nos  olhos.
  - So uns fanticos - murmura Rodrigo -, uns fanticos... Mas qual  a
situao do Stein, agora?
  - Est se desintegrando aos poucos. Acho que entrou numa psicose.
  - E que  que a gente pode fazer por esse rapaz?
  - Intern-lo num sanatrio. Mas no acredito que ele aceite a idia.
  - Mandamos agarrar o judeu a unha.  para o bem dele.
  - Talvez seja a soluo. Mas tenros que fazer isso o quanto antes.
  - E o Eduardo... que diz de toda essa histria?
  - No toca no assunto. Cortou relaes com o Stein.
  - E incrvel! Foi o Aro quem lhe meteu o comunismo na cabea.
  Rodrigo fica olhando pensativo atravs da janela. Vm-lhe  mente dois
versos de um dos poemas que ontem  Slvia leu em voz alta ao p de sua
cama:
  376
  La muerte me est mirando desde Ias torres de Crdoba.
  Agora ele divisa a torre da igreja e recorda... Durante o cerco do
Sobrado pelos maragatos, em 1895, havia sempre  um atirador inimigo
naquela torre. Um deles matou o homem que seu pai mandara buscar gua ao
poo, no fundo  do quintal... Naquelas frias noites de junho, atocaiada
numa das torres da matriz, a morte espreitava o Sobrado.  "Decerto agora
a Megera l est a me mirar" - reflete Rodrigo, fazendo mentalmente uma
figa na direo da torre  -, "a Grande Cadela, como diz tio Bicho, a
prostituta desavergonhada e insacivel!"
  Floriano senta-se junto do leito e olha para o pai.
  - A noite passada acordei de repente, de madrugada - diz este ltimo com
voz lenta e baixa -, e fiquei ouvindo  duas coisas impressionantes: o
silncio da casa e as> batidas do meu corao. E, no sei se foi porque
estava  estonteado de Luminal, me pus a pensar e a fazer bobagens...
Tomei meu prprio pulso, escutei o sangue batendo  nas fontes, e de
repente pareceu que o corao me crescia dentro do peito... Ento
pensei: e se este bicho estoura?  Adeus, tia Chica!
  - Se tivssemos de todos os nossos rgos a conscincia que temos do
corao, a vida seria um prolongado  pnico, uma coisa insuportvel...
  - Depois do edema, o pulmo tambm me preocupa... vivo no pavor de
morrer asfixiado... Se tusso, fico  alarmado. s vezes tenho a impresso
de que vejo o pulmo inflar e desinflar como um fole. Vejo e ouo. E
assim  se passam os minutos, as horas... Meio que durmo de novo, e no
sei tambm se as coisas que penso so mesmo  pensamentos ou j sonho.",
De repente desperto como se algum tivesse gritado por mim, me ergo da
cama,  assustado... e esse cavalo do enfermeiro, que tem ouvido de
tuberculoso, acorda, salta do catre e vem saber que   que estou
sentindo. Mando-o lamber sabo e fico, encharcado de suor, olhando para
a janela, querendo mais ar,  amaldioando o vero...  por isso tudo que
  377
  hoje vou tomar uma dose dupla de Luminal. Mas no me contes isso ao
Dante, ests entendendo?
  Ouve-se um rudo de passos no corredor, e poucos segundos depois Jos
Lrio entra, arrastando  as pernas, praticamente nos braos de Roque
Bandeira e do irmo Torbio.
  - Liroca velho de guerra! - exclama Rodrigo afetuosamente.
  -  muito amor... - balbucia o veterano, ofegante. - Subir... to-todas
essas esc-escadas... pra...  pra te ver...  rnuito amor!
  Inclina-se sobre o amigo e abraa-o.
  - Sentem-se. A tua cerveja j vem, Bandeira. E tu, que  que bebes,
Zeca? Cerveja tambm?  Bueno.  enfermeiro!
  Erotildes surge  porta.
  - V buscar bebidas. O de costume. E traga muito gelo. Floriano, me liga
o ventilador. Ento,  Roque, que  que h de novo por esse mundo velho?
  - S calamidades - murmura tio Bicho, depondo sobre a cmoda a sua
palheta amarelada. - O  Dutra est eleito.
  - Isso eu j sabia - diz Rodrigo.
  - O Brasil est perdido.
  - Isso  velho - sorri Floriano.
  Sentado numa poltrona, Liroca procura recobrar o flego. Irmo Torbio e
Floriano a um canto  conversam sobre a situao de Aro Stein.
  Minutos mais tarde, precedido por uma aura de alfazema, o dr. Terncio
Prates entra no quarto.  Rodrigo aperta-lhe a mo efusivamente,
pensando: "Por que ser que quando ele chega eu me  alegro e, cinco
minutos depois, sua presena j me irrita?... E por que  que, apesar
disso, no  quero que ele v embora?"
  Terncio cumprimenta os outros e senta-se. Floriano percebe nos olhos de
Roque Bandeira um  brilho de malcia e conclui: "O tio Bicho est hoje
com o Co no corpo. Temos briga". A  provocao no tarda.
  - Vocs se lembram do Novembrino Padilha? - pergunta Bandeira. - Um
caboclo retaco e  bigodudo, antigo capataz dos Amarais, e que andou
metido em contrabando de pneumticos  durante a guerra...?
  378
  Rodrigo faz um sinal afirmativo com a cabea.
  - Pois o Novembrino hoje de manh baleou um homem num boliche da
Sibria.
  - Por qu? Questo de mulher? Jogo de osso? Rinha de galo?
  - Nada disso. O contrabandista estava tranqilamente sentado, tomando
sua cachacinha, quando  um desconhecido, que bebia de p junto do balco
com dois amigos, ps-se a olhar para ele com  muita insistncia. O
Novembrino ficou queimado e perguntou: "Por que  que est me olhando,
moo?" O homem no respondeu. Sorriu e desviou o olhar. Mas pouco depois
tornou a fincar o  olho em Novembrino. Nosso heri no teve mais dvida.
Ergueu-se, tirou o revlver da cintura e  meteu dois balaos no corpo do
outro. O primeiro entrou no baixo-ventre e o segundo nos  testculos. O
homem perdeu muito sangue e est  morte.
  Faz-se um silncio. Bandeira remexe-se na cadeira, enlaa as mos sobre
a pana.
  - Querem ouvir uma profecia? - pergunta. - Se o Novembrino for a jri
ser absolvido.
  - Por que ests to certo disso? - indaga Rodrigo. - J se acabou o
tempo em que no Rio  Grande os bandidos matavam impunemente.
  - Ouam a minha tese... - diz tio Bicho. - Mas no me atirem pedras
antes de eu terminar. E  este pedido  dirigido especialmente ao dr.
Terncio, cujos brios gauchescos conheo. Bom. C  na minha fraca
opinio, por trs dessa permanente necessidade que o gacho sente de
demonstrar  em pblico que  viril e tem coragem pessoal, est o temor
de que pensem que ele  um marics,  um pederasta.
  Irmo Zeca e Floriano entreolham-se, sorrindo e entendendo-se. Terncio
ergue a cabea  vivamente e exclama:
  - No diga tamanha barbaridade!
  - Calma, doutor - pede Bandeira. - Calminha. Ficou no inconsciente
coletivo gacho esse  temor, que vem dum tempo em que no Continente
havia uma escassez tremenda de mulheres.  Conheo histrias de mil
brigas que comearam porque um sujeito se ps a olhar com insistncia
para outro. Que significa isso para um
  379
  homem no muito certo de sua masculinidade? Ele raciocina assim: "Esse
cachorro est me namorando, logo pensa  que sou efeminado". E no h
para o gacho insulto maior que esse. Ora, se ele estivesse mesmo seguro
de seu  machismo, a coisa no teria a menor importncia. Mas no est.
L nos refolhos da alma (com o perdo aqui do  nosso irmo Zeca), no
inconsciente do "monarca das coxilhas" mora a negra suspeita. E ento
ele vira bicho e  agride o "sedutor" para provar a este e ao mundo que
no h nem deve haver a menor dvida quanto  sua  masculinidade.
  - Cala a boca! - diz Rodrigo. - Ests bbedo.
  - Ainda no estou, doutor. Ficarei. Pacincia. Ficarei. Mas... voltando
 minha histria: as testemunhas  confirmaro que a vtima estava
olhando com impertinncia para o acusado. E o jri, possivelmente
composto de  homens que devem ter os mesmos problemas e dvidas,
absolver o ru...
  - Sua tese  suja, insultuosa e falsa! - exclama Terncio. - Sem a menor
base cientfica.  o resultado de  leituras mal digeridas de Freud e de
outros charlates vienenses.
  Tio Bicho comea a rir mido e baixo, murmurando: "Freud, charlato
vienense... essa  boa, muito boa!" - e  todo ele treme: bochechas,
papada, ventre... Comea a tomar a cerveja que Erotildes acaba de
servir-lhe.
  - O Bandeira  um caso triste - suspira Rodrigo, com fingida seriedade.
- Perdi a esperana com ele h mais  de quinze anos.  o profissional do
sarcasmo e da ironia. As muitas leituras o confundem.
  - Qual! - diz o velho Liroca. - O Roque  um gacho degenerado. No
entanto o pai dele foi dos legtimos.  Pobre do finado Eleutrio! Quem
havia de dizer que o filho ia dar para essas coisas...
  - Que coisas? - pergunta Bandeira.
  - Ora, viver s voltas com livros e peixes, e essas idias de gente
louca. E no gostar da vida campeira nem saber  andar a cavalo. Isso at
nem  normal.
  Tio Bicho continua a rir baixinho. Terncio fecha a cara. Rodrigo bebe
lentamente sua cerveja. Irmo Torbio pe- se a andar dum lado para
outro, com o copo na mo.
  380
  - Se o destino do Rio Grande tivesse dependido de gachos da marca do
Roque Bandeira - diz Terncio -,  nosso Estado estaria hoje incorporado
ao Uruguai ou  Argentina. Esta terra foi conquistada e mantida por
homens  de verdade, capazes de lutar e de morrer pela ptria.
  Bandeira encolhe os ombros:
  - No tenho a menor necessidade de provar aos outros que sou valente,
viril ou patriota.
  Irmo Torbio intervm:
  - Conheo bem o Roque, dr. Terncio. A tese que ele nos exps no passa
de mais uma brincadeira, produto de  seu esprito de contradio.
  - Esprito de porco - corrige Rodrigo.
  - Esprito e corpo - sorri tio Bicho.
  - Eu no disse isso. Sabes que te admiro e quero bem. S te acho s
vezes irritante. Mas no te levo a srio.  Ningum leva. Nem tu mesmo.
  - E engano, doutor. Sou um homem muito srio. O dr. Terncio, que me
compreende, sabe disso...
  Ouve-se, vindo de longe, o troar dum trovo. Liroca lana um olhar
inquieto na direo da janela. Rodrigo volta-se  para Terncio:
  - E o livro, como vai?
  - Bastante adiantado. Mas tenho ainda uns seis meses de trabalho pela
frente...
  - Seis? Ento no estarei mais aqui quando a obra for publicada. Acho
que no duro nem trs meses...
  - No diga isso! - acode irmo Torbio. - Vai durar mais vinte anos.
Aposto.
  - No apostes porque perdes. Mas,  Terncio, conta-nos agora qual  a
tese do teu ensaio. A outra noite  comeaste a me falar nele mas fomos
interrompidos...
  Terncio pigarreia, cruza as pernas, olha de soslaio para Bandeira,
torna a pigarrear, mas continua silencioso. E  evidente que a presena
de tio Bicho o perturba.
  381
  - Querem ouvir mesmo? - pergunta, alguns segundos depois.
  - Claro, homem! - encoraja-o o dono da casa.
  - Bom. O ttulo, como sabem,  "Tradio e hierarquia". Fao
inicialmente um esboo da histria  poltica, social e econmica de
nosso Estado, para traar um paralelo entre o Rio Grande de  ontem e o
de hoje. A concluso a que chego , em suma, a de que nossos costumes
esto sendo  modificados, deturpados, abastardados no s sob a
influncia da colonizao alem e italiana  como tambm do cinema e duma
literatura nefasta que nos vem de fora, principalmente dos  Estados
Unidos. Por outro lado, nosso sentido de hierarquia e tradio vem sendo
solapado aos  poucos pelas ideias socialistas de igualdade, pelo
comunismo ateu, numa palavra, pelo  populismo, que procura nivelar a
sociedade por baixo.
  Faz uma pausa e encara Bandeira, com uma expresso de desafio, como a
esperar um protesto.  Tio Bicho, porm, est de olhos semicerrados, com
o copo de cerveja apertado entre as coxas.  Liroca dormita. Os outros
escutam com ateno.
  - Procuro mostrar - continua Terncio - que o caminho da salvao para
ns no , no pode  ser o da socializao, o da reforma agrria e o da
abolio das classes, mas sim o da volta   tradio da estncia, 
tutela do estancieiro patriarcal, ao culto das qualidades mestras da
nossa  raa: coragem pessoal, firmeza de carter, cavalheirismo,
desprendimento, franqueza...  Precisamos para isso buscar inspirao no
passado, resistir moralmente ao gringo nos dias de hoje  como nos velhos
tempos resistimos fisicamente ao castelhano invasor. Formar um dique
contra  idias, hbitos e atitudes mentais alheios  nossa ndole, 
nossa histria,  nossa natureza. Evitar  que nossa indumentria
campeira tradicional se transforme numa ridcula imitao da do cowboy
das fitas de Far West. Reviver as nossas danas, as nossas cantigas, o
nosso folclore. Enfim, ter um  corajoso orgulho do que  nosso.
Precisamos tambm restabelecer o primado do esprito, seguir a  religio
de nossos avs, o catolicismo, repelindo o protestantismo germnico e
anglo-saxnico,  bem como os cultos africanos e o espiritismo. No sei
se falei claro.
  382
  - Clarssimo - resmunga o tio Bicho. - Cristalino. Faz-se um silncio em
que Rodrigo fica  alisando o lenol e
  pensando em Snia com uma quente saudade ttil do corpo da rapariga.
Floriano tem na mente a  imagem de Slvia tal como a viu  tarde a
caminhar no quintal olhando para a prpria sombra no  cho de ocre
avermelhado.
  - Falar em primado do esprito - diz Bandeira - fica muito bonito para
quem anda de barriga  cheia, mora em boa casa e tem dinheiro no banco.
Precisamos levar em conta que essa  a  situao apenas duma minoria no
Rio Grande. A maioria vive mal, tanto na cidade como no  campo. O meu
caro dr. Terncio j pensou no gacho que no tem cavalo nem terra, e
que  raramente ou nunca come carne?
  - Voc no conhece o assunto! - exclama o estancieiro. - Est jogando
com dados e fatos  inventados e divulgados pelos comunistas. O Rio
Grande  um dos Estados de nvel de vida mais  alto em todo o Brasil!
  - O que no quer dizer - replica tio Bicho - que esse nvel no seja
ainda muito baixo. Mas  voltemos  obra... Pelo que entendi, o doutor
considera a propriedade um dom divino,  inalienvel...
  - E ! Abra um livro de histria universal. Ver que sempre existiram os
grandes proprietrios e  as aristocracias, como inevitveis expresses
do direito natural. Uma sociedade, como disse  Charles Maurras, pode
tender para a igualdade, mas em biologia a igualdade s existe no
cemitrio.
  - Charles Maurras! - exclama tio Bicho. - Credo! Nossa Senhora!
  - No meu entender - continua Terncio, sem tomar conhecimento da
interrupo -, os  doutores da Igreja deixaram esse ponto bem claro, e
aqui est o irmo Torbio que me pode  corrigir, se estou errado... Os
proprietrios de terras so depositrios de bens que lhes foram
confiados por Deus, para que eles os administrem num esprito de justia
e de caridade, tendo em  vista o bem-estar geral.
  383
  - Caridade? - torna a vociferar Bandeira. - Mas o que o senhor quer 
uma volta  Idade Mdia! O Zeca, no  permitas que o dr. Terncio use o
nome do Senhor teu Deus em vo.
  Irmo Torbio limita-se a um sorriso contrafeito. Rodrigo torna a
apanhar o espelho e mirar-se nele.
  - Eu sei - prossegue Terncio -, os estancieiros do Rio Grande em sua
grande maioria so egostas e  gananciosos, s pensam em engordar o
gado, vend-lo a bom preo e botar seu rico dinheirinho no banco. Esses
na  minha opinio traem o mandato divino.
  Floriano no se contm e pergunta:
  - Mas o senhor est mesmo falando srio?
  - Claro! E por que no? Considero minha atividade de estancieiro como
uma espcie de apostolado, que tudo  fao para honrar. Quanto aos outros
senhores de terras, precisam ser reeducados para compreenderem que como
proprietrios eles no devem ter apenas privilgios, mas tambm e
principalmente obrigaes. Que me diz a isto,  irmo Torbio?
  O marista coa a cabea, hesita por um instante e finalmente fala:
  - Bom, eu acho que... bom, So Toms de Aquino dizia que a propriedade 
um mal necessrio... Que autoridade  temos ns para afirmar que Deus pe
o seu selo de aprovao em algo que, embora necessrio,  mau? E no foi
Cristo quem disse que  mais fcil um camelo passar pelo fundo duma
agulha do que um rico entrar no Reino de  Deus?
  Os malares do estancieiro saltam, seus lbios e seus olhos apertam-se.
  - Eu no podia esperar que um marista entendesse de teologia... - diz,
com voz tambm apertada.
  Uma sbita vermelhido cobre o rosto de irmo Torbio. Floriano sente o
potro escarvar no peito de Zeca, quando  este replica, agressivo:
  - A que ordem religiosa pertence o senhor? Com quem estudou a sua
teologia? E onde est a carta de sesmaria  que Deus lhe deu?
  384
  Rodrigo solta uma risada. Liroca abre os olhos. Tio Bicho pega a garrafa
de cerveja e, sorrindo, torna a encher seu  copo.
  Terncio, com uma luz de paixo nos olhos mosqueados, continua a falar,
como se no tivesse escutado as palavras  do marista.
  - Repito que falta aos nossos estancieiros o verdadeiro esprito
cristo.  uma pena. O regime socialista para o  qual estamos
lamentavelmente descambando  o da ditadura duma minoria de ateus
armados sobre uma maioria  inerme. No regime patriarcal que preconizo,
os ricos associaro os pobres s suas empresas. Faremos pela  persuaso
o que no regime comunista se faz pela coao. Trataremos de doutrinar as
massas, mostrando-lhes que,  como disse certo pensador francs, o
socialismo exprime necessariamente um ressentimento contra Deus e contra
tudo quanto existe de divino no homem. Consciente de sua baixeza, o
"proletariado moral" trata de rebaixar os que  lhe so superiores.
  Rodrigo olha para a janela e v um relmpago clarear o horizonte. Seu
mal-estar aumenta:  um aperto no peito, a  sensao de que no pode
respirar fundo. "Por que esse tratante do Camerino no me aparece? E por
que o  Terncio est agora me apontando com um dedo acusador?"
  - Em nome duma demagogia criminosa - diz este ltimo - o Estado Novo
comeou a destruir a propriedade no  Brasil...
  - Deixem o Getlio em paz! - grita Rodrigo.
  - Tu sabes disso melhor que eu - prossegue Terncio. - J no somos mais
donos do que era nosso. Os  impostos nos debilitam, a burocracia nos
cria percalos, o estabelecimento do "preo teto" e do salrio mnimo 
uma terrvel ameaa ao nosso futuro.
  - Por favor - pede Floriano -, no vamos voltar a discutir o Estado
Novo. Eu quero  saber a razo da  animosidade do dr. Terncio contra os
brasileiros de origem alem e italiana.
  - Eu explico. Parto do princpio (e isto ningum me tira da cabea) de
que o territrio duma ptria pertence ao  povo que o conquistou e
manteve com seu suor, suas lgrimas e seu sangue, para usar da expresso
do grande  Churchill. L de repente nos chegam imigrantes da Itlia e da
Alemanha, aboletam-se nas nossas
  385
  terras e querem impor-nos a sua maneira de ser, de pensar, de viver e
at de falar.
  - Vamos ento devolver o Brasil aos bugres! - exclama Bandeira.
  - No me interrompa! - vocifera Terncio. - Aprenda a ouvir. Oua e
depois replique. Mas... como eu dizia,  vm esses estrangeiros e querem
repartir entre si o que  de domnio puramente nacional. Na Amrica
somos  demasiadamente tolerantes para com os imigrantes, dando-lhes
todas as facilidades e oportunidades, inclusive a de  poderem seus
descendentes da primeira gerao eleger-se para cargos administrativos
ou legislativos.
  - E que mal h nisso? - pergunta irmo Torbio.
  - S no v quem no quer. Um gringo desses, antes de ser completamente
assimilado, de compreender o  esprito, a alma, a histria da terra de
adoo de seus pais, j nos pode governar. E, como resultado disso, a
nossa  continuidade e a nossa identidade histricas esto correndo o
risco de serem interrompidas. O Rio Grande aos  poucos se agringalha, se
estrangeiriza. Estamos perdendo a primazia poltica. Esse tambm  o
drama do Paran e  de Santa Catarina. Se no tomarmos cuidado, em vez de
assimilarmos os colonos e seus descendentes, seremos  assimilados por
eles!
  - Ora, no vejo nenhuma desvantagem nisso... - resmungou Bandeira.
  -  Roque - intervm Rodrigo -, no sejas exagerado. Concordo que o
Terncio  um tanto reacionrio nas  suas ideias, mas devo confessar que
eu tambm tenho c as minhas reservas com relao ao elemento alemo e
italiano. Sempre tive.
  - Na minha opinio - diz Floriano -, o fenmeno sociolgico mais
importante da histria do Rio Grande, nestes  ltimos cinqenta anos, 
o declnio da aristocracia rural de origem lusa e o surgimento duma nova
elite com razes  nas zonas de produo agrcola e industrial onde
predominam elementos de ascendncia alem e italiana. Neste  meio sculo
processou-se a marcha do colono da picada para a cidade, da pequena
plantao para o comrcio e  para a indstria. Antigamente o produtor
menor e o assalariado no podiam nem sequer sonhar com uma carreira
poltica. Agora
  386
  a situao est mudando. O estancieiro perde seu poder econmico e
poltico, e os nossos deputados, senadores e  governadores j no so
mais, digamos assim, eleitos pela fora do boi. Hoje os candidatos se
chamam tambm  Spielvogel, Greenberg, Lunardi, Schmidt, Kunz, Kalil.
  De cabea baixa, fazendo passar o friso da cala entre o polegar e o
indicador, Terncio escuta com expresso  triste, como se o escritor
estivesse pronunciando uma orao fnebre.
  - Se folhearmos, por exemplo, o catlogo telefnico de Porto Alegre -
prossegue Floriano - descobriremos  uma grande, expressiva quantidade de
mdicos, advogados, engenheiros, professores, comerciantes e industriais
com nomes alemes, italianos, sriolibaneses, polacos, judeus... E as
listas dos estudantes que todos os anos entram  ou saem nas nossas
escolas superiores revelam o mesmo fenmeno. Estamos saindo da Era
Mesozica da nossa  histria, isto , da Idade de Ouro dos Grandes
Rpteis. Em breve no veremos mais dinossauros na nossa paisagem
poltica, pois o caudilho urbano, to bem tipificado por Pinheiro
Machado e continuado at nossos dias por homens  como Flores da Cunha,
pertence a uma espcie praticamente extinta. Com o desaparecimento dos
"rpteis"  maiores, automaticamente se extinguem os menores, os chefetes
locais.
  - E o senhor acha isso bom, bonito ou auspicioso? - pergunta Terncio. -
Com todos os seus possveis defeitos  e limitaes, os polticos do
Imprio, os da Primeira Repblica e os poucos que sobraram na Segunda
tinham  pedigree, qualidades intelectuais indiscutveis, charme,
nobreza...
  - Sabiam falar francs - interrompe Bandeira -, o que lhes facilitava o
comrcio com as cocottes elegantes que  importvamos da Frana.
Conheciam vinhos, comiam caviar, recitavam Victor Hugo no original, e
eram muito  pitorescos, no resta a menor dvida, pitoresqussimos. Mas
caros demais para os cofres pblicos.
  - Pertenciam - continua Terncio, sem tomar conhecimento da interrupo
- a uma sociedade em que havia  hierarquia, classes definidas. Porque,
como os pases europeus, o Brasil possua uma tradio, uma conscincia
de  rang que pouco ou nada tinha
  387
  a ver com assuntos de produo c com a situao econmica do indivduo.
No devemos esquecer que a posio  social do homem europeu no est
condicionada, como nos Estados Unidos,  sua capacidade de produzir, 
sua  situao financeira. Existem no Velho Mundo as elites profissionais
amparadas em valores de ordem moral e  tradicional.
  - O senhor fala como um monarquista! - exclama irmo Torbio.
  Floriano de novo toma a palavra:
  - A mim me parece to absurdo querer italianizar ou germanizar o Rio
Grande como pretender ignorar a grande  contribuio que o imigrante
alemo e o italiano trouxeram para a nossa vida. Acho que temos de
aceitar essa  contribuio com alegria e esperana. S poderemos lucrar
com isso. A vantagem comea pelo tipo fsico que aqui  se est formando,
como resultado dessa mistura de raas.
  - Isso no discuto - diz Rodrigo. - Estou de acordo com Floriano. Em que
outra parte do Brasil vocs  encontram mulheres mais bonitas e saudveis
que as do Rio Grande? Espero que no me neguem autoridade no  assunto.
  - A raa portuguesa - replica Terncio -  das mais belas da Europa. Se
degenerou no Brasil foi por causa da  mistura com o ndio e o negro.
  - E que me diz do prodigioso progresso de So Paulo? - pergunta irmo
Torbio. - No se dever em grande  parte ao imigrante italiano e seus
descendentes?
  Terncio volta para o marista o seu olhar de templrio.
  - O senhor esquece, irmo, a contribuio bsica do elemento
tradicional, do paulista de quatrocentos anos, sem  cujo apoio o
imigrante pouco ou nada poderia ter feito. A indstria paulista no se
teria agentado sem o amparo  duma agricultura forte. E, depois, no nos
devemos entregar a essa febre de industrializao provocada pelos
comunistas, que tudo fazem para criar no Brasil um proletariado urbano
que lhes ser fcil manejar politicamente  de acordo com os interesses
da Rssia Sovitica.
  388
  - Estranho o seu entusiasmo pela agricultura... - observa tio Bicho com
malcia. - A outra noite o senhor  defendia a pecuria e atacava a
agricultura como sendo uma expresso "gringa"...
  - Ah! Mas o caso do Rio Grande  diferente. A pecuria constitui a
espinha dorsal de nossa economia, alm de  ser uma expresso
sociolgica. Se nos entregamos  agricultura em larga escala, no
teremos mais campos de boa  qualidade onde criar nossos bois, e como
conseqncia disso produziremos menos carne, o que seria desastroso  sob
todos os pontos de vista. Desbovinizar nossas estncias  o mais nefasto
dos erros. No formo na legio dos  partidrios da plantao de trigo em
larga escala no Rio Grande.
  - Mas,  Terncio - diz Rodrigo -, agora estou pensando em tudo quanto
disseste... Tu te contradizes, homem!  Sempre atacaste o Getlio porque
na tua opinio ele liquidou a democracia no Brasil, e no entanto todas
as idias  que ests expondo com tanto fervor me parecem a negao mesma
do esprito democrtico. Tu s, permite que te  diga, um aristocrata
monarquista. Teu livro devia chamar-se Saudade de Dom Pedro II.
  Todos desatam a rir, menos Terncio, que fixa o olhar duro no dono da
casa, replicando:
  - Sou um republicano castilhista, e tu sabes bem o que isso significa.
Continuarei a repetir que o Getlio abriu no  Brasil todas as comportas
que continham as guas populistas e com elas inundou, talvez
irreparavelmente, a nossa  vida poltica, econmica e social,
deixando-nos  beira do comunismo.
  Por um momento a conversa deriva para outros rumos. Liroca indaga sobre
a sade de Rodrigo e aproveita a  oportunidade para enumerar suas dores
e achaques. Floriano leva irmo Torbio para um canto do quarto e ali
fica a  estudar com ele a maneira mais prtica de conseguir a internao
de Aro Stein num sanatrio para doenas  mentais. Terncio folheia
distrado a antologia potica. Tio Bicho, os olhos semicerrados, sorri
para seus  pensamentos. Depois de alguns instantes, diz:
  - Eu c tenho a minha teoria sobre as causas do atraso do Rio Grande com
relao a So Paulo...
  389
  Leva algum tempo para conseguir a ateno dos outros.
  - Os fatores so muitos, e eu vou enumerar alguns... - continua, depois
que sente cinco pares de olhos postos  nele, com as expresses mais
variadas: irritada impacincia nos de Terncio; fatigada indiferena nos
do dono da  casa; sono e incompreenso nos de Liroca; expectativa
divertida nos de Zeca e Floriano. - Cessadas as lutas de  fronteira e as
duas grandes guerras, a dos Farrapos e a do Paraguai, entrou o Rio
Grande num perodo de  reconstruo, agitado mais tarde pela propaganda
republicana. Proclamada a Repblica, a direo da poltica  estadual foi
empolgada por Jlio de Castilhos, e a influncia do positivismo comeou
a fazer-se sentida entre ns.  Tivemos ento um governo autoritrio,
conservador e, at certo ponto, castrador. Borges de Medeiros, herdeiro
de  Castilhos, exerceu durante um quarto de sculo a "ditadura
cientfica". Merc de sua curteza de viso e de suas  supersties
positivides, transmitiu aos seus discpulos e colaboradores um certo
horror ao progresso e ao risco,  contaminando-os com o vcio da cautela
e do conservantismo. Em princpios deste sculo, o dr. Borges de
Medeiros no quis nem sequer examinar a possibilidade de aceitar o
milho de dlares que a Fundao  Rockefeller oferecia ao seu governo
com a finalidade de criar em Porto Alegre uma faculdade de medicina.
Recusou-se a promover a eletrificao do Estado quando uma oportunidade
admirvel para isso se apresentou. E,  como no contvamos com energia
eltrica abundante e barata, no conseguamos atrair novas indstrias,
que por  motivos bvios iam instalar-se em So Paulo.
  Terncio escuta com impacincia, cruzando e descruzando as pernas,
puxando de quando em quando pigarros  hostis.
  - Por outro lado, nossos estancieiros (e esses na maioria dos casos no
eram positivistas nem mesmo borgistas,  mas gasparistas federalistas)
revelavam-se tambm conservadores, atrasados, egostas, sem o menor
esprito  pblico. Pagavam mal a peonada, que dormia no galpo em cima
dos arreios...
  - E os poetas - interrompe-o Floriano - cantavam esses pees e sua
fidelidade canina aos patres, procurando  tirar efeitos
  390
  poticos e picos do desconforto e da misria em que viviam, pois
achavam que isso era uma prova da fibra da  raa...
  - Exatamente - concorda tio Bicho, continuando: - Esses pees np tinham
escolas para os filhos nem  assistncia mdica. No lhes davam os
patres oportunidades de melhorarem de vida, de tirarem o p do lodo...
Bom. Mas o tempo passou. Vieram outros governos que se caracterizaram
quase sempre por uma grande falta de  imaginao e de coragem criadora.
Nossas casas bancrias, por sua vez, no facilitavam o crdito, e ao
menor sinal  de crise, retraam-se, fechando as carteiras de desconto e
limitando-se a cobrar, implacavelmente. Sim, e, num  outro plano, no
devemos esquecer tambm a qualidade de nosso clero. A Igreja nunca teve
influncia na nossa  poltica enquanto Borges de Medeiros se manteve no
governo: esta justia eu lhe fao. Mas depois de 1928 o  clero ergueu a
cabea, um clero formado de elementos em geral sados da zona colonial
italiana e alem: homens  pouco inteligentes, intolerantes, duros, sem o
menor senso de humor. E esse clero passou a dominar a crescente  massa
eleitoral do interior, principalmente das colnias.
  - No diga asneiras! - exclama Terncio.
  - Digo. Tambm tenho esse direito, doutor. Mas... deixemme terminar o
bestialgico. Outro mal que nos aflige   o nosso sebastianismo
farroupilha, o nosso bento-gonalvesismo, que at hoje nos tem mantido
separados  psicologicamente do resto do pas, alimentando o nosso
permanente ressentimento. Nossos compatriotas l de cima  chegam s
vezes a pensar que pertencemos  rbita platina.
  - Isso no  verdade! - protesta Rodrigo. Tio Bicho, imperturbvel,
continua:
  - Creio que a timidez e as limitaes dos ilhus dos Aores e mais os
temores e cautelas do imigrante italiano e  alemo (um pouco assustados
com a terra, os bugres, as guerras e as revolues) so os responsveis
remotos pela  mediocracia em que vivemos, por esta nossa economia de
p-de-meia, pela nossa falta de ousadia no domnio da  empresa
comercial, pela nossa incapacidade de jogar longe a lana do otimismo e
de fazer ou semear coisas  grandes. E
  391
  como  que procuramos compensar essas deficincias? Com gritos, com
ameaas truculentas, com patas de cavalo.  E por todos esses motivos,
meus caros paroquianos, o gacho entra na Era Atmica montado na carcaa
do cavalo  de Bento Gonalves e empunhando uma bandeira de charque!
  Terncio ergue-se, como se lhe fosse impossvel suportar sentado sua
indignao. Avana dois passos na direo  de Bandeira e, quase a
encostar-lhe no nariz o indicador enristado, exclama:
  - Voc acaba de dizer um amontoado de barbaridades, de inexatides e de
injustias!
  Tio Bicho d de ombros.
  - E o senhor, montado no cavalo do general Osrio, e de lana em riste,
investe agora contra mim, achando mais  fcil me assustar com gritos do
que me convencer com argumentos. Sente-se, recobre a calma e conteste o
que eu  disse. Est com a palavra...
  Liroca olha para os contendores com os mesmos olhos entre divertidos e
alarmados com que costuma assistir a  rinhas de galo.
  - Antes de mais nada - diz o estancieiro, sempre de dedo erguido -, tudo
quanto voc apresenta como sendo  "defeitos" da nossa gente so
qualidades, grandes qualidades. O que voc chama de mediocracia  uma
democracia racional, baseada numa poltica "filha da s moral e da
razo". O que voc classifica como "economia  de p-de-meia"  uma
economia slida, que anda devagar mas com passos firmes, uma economia,
enfim, de  cidados responsveis e no de gananciosos aventureiros,
arrivistas. E quem foi que lhe disse que ns queremos  progredir
industrialmente como So Paulo? Quem nos garante que progresso
industrial seja igual a felicidade  social? E a nossa austeridade, a
nossa seriedade na vida poltica e econmica deve-se ao esprito de
Jlio de  Castilhos, continuado por Borges de Medeiros. Olhe para o
panorama poltico de nossos dias. Quem se salvou  desse grande naufrgio
moral? Quem nesta Repblica de negocistas, peculatrios e demagogos
continua ainda de  p, como um exemplo de honorabilidade, discrio e
sabedoria seno Antnio Augusto Borges de Medeiros?
  Rodrigo pensa: "E que me importa tudo isso se estou condenado  morte?"
Despe a camisa num gesto brusco,  sentindo um
  392
  sbito desejo de saltar da cama, sair para a rua e enfrentar aqueles
cus e ares de tempestade, que no momento ele  considera como os seus
piores inimigos.
  - Reconheo - continua Terncio - que o clero gacho no 
intelectualizado como o da Frana. Mas  um  clero virtuoso, dedicado,
limpo e capaz de sacrifcios. E quanto ao que voc chama de
bento-gonalvesismo,   apenas respeito e amor  tradio, ao culto dos
nossos maiores. Porque nenhum povo que se preze pode jogar fora  um
passado herico e glorioso como o nosso, s para agradar a Joseph Stlin
e a seus lacaios no mundo inteiro. E  que autoridade tem para falar de
estancieiros e estncias quem como voc recebeu um pedao de terra, como
legado paterno e portanto sagrado, e em vez de cuidar dele arrenda-o a
um estranho?
  Tio Bicho sorri sem ressentimento.
  - Perdo. Nesse caso, existem em mim duas personalidades distintas. Uma
 a do que possui um campo e o  arrenda. A outra a do que critica o
arrendador e o arrendamento. Esta ltima  a que se encontra aqui agora.
E  depois, meu caro doutor, no considero um pedao de terra (que nem
sei se foi bem ou mal havido) uma herana  "sagrada". Tanto que, se
amanh vier a reforma agrria...
  - Reforma agrria? - exclama Terncio, com uma expresso de horror. -
Mas quem  que pode pensar nesse  absurdo seno os comunistas, os judeus
e os maons, que querem o desmantelamento da nossa ordem social?
  - Eu no esperava mesmo que o senhor fosse favorvel  idia... - sorri
Bandeira.
  Transfigurado pela clera, o estancieiro alteia a voz:
  - S pode ser favorvel  reforma agrria quem no entende do assunto ou
quem quer deliberadamente servir os  interesses das esquerdas. Ou ento
os inocentes teis, mocinhos do asfalto que no conhecem o problema e
acham  muito bonito, muito nobre, muito "avanado" preconizar essa
reforma.
  Floriano e o marista entreolham-se. Rodrigo olha para a janela,
desinteressado da discusso.
  393
  - A pequena propriedade entre ns - continua Terncio em voz mais baixa
mas ainda apaixonada -  o regime  da misria. Temos no Rio Grande mais
de quatrocentos e cinqenta mil pequenos proprietrios, e isso talvez
explique as nossas freqentes crises econmicas.
  - Ora - diz Floriano - abandonados pelos governos e permanentemente
arrastados na onda inflacionria, o mais  que os pequenos proprietrios
podem conseguir  uma medocre sobrevivncia. Mas isso nada prova contra
a  necessidade de uma diviso racional da terra.
  - A diviso racional  a que a est: a natural - replica Terncio. -
Se, com essa tal reforma que os demagogos  tanto apregoam, dermos aos
pequenos proprietrios nossas terras mais frteis, onde iremos criar
nosso gado? Quem  ir produzir carne?
  Ergue-se, passa pelo rosto mido de suor um leno de cambraia, d alguns
passos at a janela, olha para fora e  depois, tornando a aproximar-se
do interlocutor, torna a falar.
  -- Se um dia (que tal Deus no permita) se fizer essa diviso de terras
romntica e insensata, dentro de pouco  tempo os pequenos proprietrios,
impotentes diante dos obstculos inerentes  economia do minifndio, se
vero  na contingncia de vender suas terras, e de novo teremos as
coisas de volta ao seu estado anterior, isto , s  grandes propriedades
que vocs to injustamente atacam. E digo mais. A existncia do pequeno
proprietrio  depende de ns, os grandes, que estamos constantemente a
tir-los de aperturas, dando-lhes sementes,  emprestando-lhes vacas,
cavalos e instrumentos agrrios.
  - Pois essa funo paternalista - retruca Floriano - pode ser exercida
com mais eficincia e sem o esprito de  caridade pelo Estado.
  - L me vem o senhor com o Estado todo-poderoso!
  - J lhe disse muitas vezes que detesto o Estado totalitrio, esse que
intervm na vida privada do indivduo,  cerceando-lhe a liberdade,
ditando-lhe o que deve ler, o que deve escrever, como deve pensar, falar
e mover-se, a  que igreja deve ou no deve ir. Mas pense bem. Quantas
vezes nossos fazendeiros e homens de
  394
  negcio pediram a interveno providencial do Estado para salv-los da
falncia? No seria mais sensato pedir essa  interveno antes, na forma
dum planejamento de produo?
  - Mas isso  monstruoso!
  -- Escute. Cheguei  concluso (com relutncia, confesso) de que a
economia no pode mais ser totalmente livre  como tem sido at agora. O
sistema competitivo capitalista leva a crises peridicas e a guerras que
se vo fazendo  cada vez mais destruidoras, a ponto de nos dias de hoje
a gente j acreditar na possibilidade da extino completa  da raa
humana promovida pelo engenho dos homens de cincia combinado com a
estupidez dos homens de  Estado.
  - O senhor est sofismando.
  - Pode parecer paradoxal - continua Floriano - mas estou quase
convencido de que uma economia planejada,  no s na esfera nacional
como na internacional, poder assegurar ao homem as outras liberdades
que me parecem  to mais importantes que as de acumular dinheiro ou
mesmo as de comprar o suprfluo.
  - No estou de acordo. S pode haver planejamento sob um governo de
fora, e sob um governo de fora no  pode haver liberdades civis.
  - Quero deixar claro - diz Floriano, depois de pequena pausa - que no
preconizo uma reforma agrria  la  Robin Hood, isto , tirar dos ricos
para dar aos pobres. Se fizssemos isso, nossa produo agropastoril
cairia  verticalmente da noite para o dia. Para mim o problema no 
apenas econmico, mas tambm moral. No   preciso ter olho de socilogo
para ver o tremendo desnvel que existe entre a populao urbana e a
rural. A  legislao trabalhista do Estado Novo esqueceu o homem do
campo. Nos Estados Unidos dois teros dos  agricultores so donos de
suas terras. No Brasil menos de um dcimo de nossos trabalhadores
agrcolas tem  propriedades. Sua maioria  formada de assalariados muito
mal pagos. Qual! Alguns nem salrio tm, so prias no  mais puro
sentido da palavra. Constituem a mendicncia rural.
  - O senhor est falando como um comunista! - vocifera Terncio.
  395
  - E o senhor est usando dum raciocnio primrio quando me acusa de ser
o que no sou.
  Estampa-se no rosto de Terncio uma expresso m:  - olhos apertados
de dio, zigomas saltados - que apaga  por alguns segundos a do homem
civilizado. Mas antes que o estancieiro torne a atacar, Floriano
prossegue:
  - Sei que o problema  terrivelmente complexo.  preciso no esquecer a
praga dos intermedirios, homens que  nunca encostaram o dedo na terra
mas que acabam ficando com a parte do leo na produo agrcola. H todo
um  gang envolvido nesse processo de obteno de crditos ou mercados,
de estabelecimento de preos, de facilidades  de transporte... E que
dizer dos monoplios? Sim, a reforma agrria supe a destruio dessa
numerosa e fortssima  quadrilha, com todas as suas ramificaes nos
ministrios, nas autarquias e no Banco do Brasil. Sei que no vai ser
fcil desmontar a mquina. Mas isso ter de ser feito, mais cedo ou mais
tarde.
  - E o senhor pensa resolver o problema agrrio com um decreto
governamental? - pergunta Terncio. - Ou  com um passe de magia?
  Floriano encolhe os ombros.
  - Acho que a terra  um bem comum, e que uma lei constitucional poderia
regular sua propriedade. Est claro que  no haveria apenas um tipo de
reforma agrria, mas muitos, de acordo com cada regio do pas. Para
descongestionar as zonas urbanas e povoar as rurais, temos de tornar o
campo to confortvel e interessante quanto  a cidade, ou mais...
  - Com cinemas e teatros? - pergunta Terncio, tentando o sarcasmo, mas
em vo, pois persiste em sua voz  apenas o tom rancoroso. - Com clubes?
  - Com condies de vida decentes - replica Floriano. - Com escolas,
hospitais, facilidades de crdito,  cooperativas, assistncia tcnica e
social, mquinas agrrias usadas num espirito coletivista, estradas para
o  escoamento da produo, etc... etc... E por fim com cinemas e clubes,
por que no?
  - O senhor  um visionrio.
  396
  - Claro. Meu raciocnio est condicionado  minha profisso como o seu
est subordinado  sua condio de  latifundirio. Nunca esperei que nos
pudssemos entender nesse assunto...
  Faz-se um silncio difcil, dentro do qual s se ouve o zumbido do
ventilador.
  - A presso baromtrica deve estar muito alta - murmura irmo Torbio.
  - Eu que diga... - murmura Rodrigo. - Meu barmetro est aqui -
acrescenta, espalmando a mo sobre o  peito. - Este no nega fogo.
  Volta-se para o chefe do cl dos Prates e diz:
  - O melhor  vocs pararem com o assunto, porque no vo chegar nunca a
uma concluso. Fica tranqilo,  Terncio, ningum vai tocar nos teus
campos. E tu, Floriano, continua a sonhar. Mas seria melhor que em vez
de  ficares a fazer teorias na cidade, fosses um dia visitar as nossas
estncias, para conheceres o problema mais de  perto. Talvez mudasses de
idia. No sei. O que sei  que eu daria todos os campos do Angico em
troca de mais  dez anos de vida.  Zeca, me traz alguma coisa gelada pra
beber.
  Pouco depois, j com o copo na mo, volta-se para Terncio Prates e,
para dar outro rumo  conversao, pergunta:
  - Que tens lido ultimamente?
  Sem muito entusiasmo, Terncio conta de suas ltimas leituras a Rodrigo,
que o escuta sem nenhum interesse.  Floriano ouve o estancieiro
pronunciar a palavra filsofo... Imediatamente uma figura se lhe desenha
na memria: a  do professor Mark Kendall.
  Que foi que lhe veio primeiro  mente: a imagem ou o nome do homem?
Talvez ambos tenham chegado  simultaneamente. Floriano almoou muitas
vezes com o professor Kendall no Faculty Club da Universidade da
Califrnia. Mas neste momento pensa num certo almoo especial, no
inverno de 1943. Seus olhos focaram  interessados o professor de
filosofia, e em alguma parte da cmara fotogrfica que era o seu
crebro, as impresses  daquele lugar e daquela hora se haviam gravado
numa chapa sensvel que tinha o poder no s de fixar imagens,  cores e
movimentos, como tambm odores, sons e at sensaes de temperatura. E
agora ele tem diante
  397
  dos olhos do esprito essa "chapa", talvez j um pouco alterada pelo
tempo: o professor sentado do outro lado da  mesa, apertando a haste do
cachimbo entre os dentes: cinqento, slido, a cabeorra lembrando na
forma a de  Oswald Spengler, olhos cor de lpis-lazli no rosto rosado,
o padro sal-e-pimenta do casaco de tweed combinando  com o grisalho dos
cabelos e das sobrancelhas bastas e hspidas... A fumaa do cachimbo com
uma fragrncia doce  e morna de mel e guaco... A atmosfera
superaquecida... O gosto da galinha ao molho de caril... Uma reproduo
de  O vaso azul de Czanne na parede... E a voz de pelcia do filsofo.
Ah! Com que clareza Floriano a "escuta"  agora: "Human behavior, my dear
Cambar, is symbolic behavior". Mark Kendall, leitor e admirador de
Alfred  Korzybski, passou todo o tempo do almoo a dissertar sobre a
necessidade de estudar-se o comportamento humano   luz da semntica
geral.
  Um trovo faz estremecer as vidraas do casaro. Liroca murmura: "Santa
Brbara, So Jernimo!" E sem mudar o  tom de voz: "A chuva no
demora... Como  que o velho Jos Lrio vai pra casa?"
  Terncio volta a cabea para o veterano e tranqiliza-o:
  - No se impressione, major, o meu carro est l embaixo. Piscando o
olho para tio Bicho, Floriano encara o  estancieiro
  e faz tambm a sua provocao:
  - A mim me parece, doutor, que ns no Rio Grande temos vivido todos
estes anos s voltas com alguns...  equvocos semnticos... digamos
assim.
  - Como? - pergunta Terncio, franzindo o cenho.
  - Bom. Suponhamos que eu esteja pensando em voz alta... Longe de mim a
idia de apresentar estas minhas  observaes e concluses meio
improvisadas como absolutas. Se fizesse isso, estaria tambm cometendo
um grave  erro semntico...
  Liroca solta, com um suspiro, esta pergunta:
  - Que lngua esse menino est falando?
  - Para principiar... somos mais dependentes do que pensamos dos hbitos
de linguagem de nosso grupo social.  Nosso ajustamento ao mundo real 
feito por meio de palavras. Vejam bem...
  398
  Nosso comportamento est condicionado aos smbolos, mitos e metforas
vigentes na linguagem da sociedade em  que vivemos.
  - E da? - pergunta Rodrigo.
  - No Rio Grande - continua Floriano - h gente que ainda permanece na
iluso de que possumos o monoplio  da coragem e da audcia no Brasil.
Da expresses como "centauro dos pampas", "monarca das coxilhas",
"fazer  uma gauchada", etc.
  - No me venhas... - comea Rodrigo. Mas no termina a frase. No vale a
pena - reflete - porque esses  intelectuais so um caso perdido.
Transformam suas deficincias em virtudes e suas inclinaes em leis.
Floriano,  como o velho Aderbal, nunca foi de briga, logo, procura negar
o valor da coragem fsica.
  - Outro mito - continua o escritor -  o da indumentria. Muito gacho
procede como se bombacha, botas e  esporas fossem smbolos de
hombridade, desprendimento, nobreza de carter...
  Terncio e Rodrigo entreolham-se. Irmo Torbio, que nos ltimos minutos
esteve junto da janela, a escutar o cu,  aproxima-se de Floriano, que
continua com a palavra:
  - O Bandeira h pouco falou de nosso bento-gonalvesismo. Existem ainda
gachos que no conseguem  examinar o Rio Grande e sua gente
objetivamente, quero dizer, sem verbalizaes picas. No procuram ver o
que  somos, temos e fazemos hoje, no enxergam a nossa realidade (para
usar uma palavra perigosa), porque, por uma  exigncia de seu formidvel
superego, precisam acreditar nesse Rio Grande idealizado pela poesia,
pela epopia e  pela mitologia.
  - Estava tardando a entrar em cena o Freud... - ironiza Rodrigo.
  - No momento em que escrevemos ou pronunciamos a palavra gacho ou Rio
Grande, nas coxilhas e pampas do  nosso esprito, surge Garibaldi com
seus lanceiros de 35... Chico Pedro e suas califrnias... Pinto Bandeira
tomando  o forte de Santa Tecla... E da por diante entramos em transe,
comeamos a ter um comportamento um tanto  parecido com o do
esquizofrnico.
  - O senhor est fazendo apenas um jogo de palavras! - exclama Terncio.
  399
  - Esto vendo? A emoo, a indignao que minhas ideias provocam no dr.
Terncio de certo modo provam a  minha tese. Mas... continuando com o
perigo das metforas, dos smbolos e dos mitos... A Alemanha nazista
viveu  recentemente um dos mais trgicos enganos semnticos de todos os
tempos. Seu povo aceitou como verdades  provadas uma srie de mitos,
supersties e metforas que Hitler lhes impingiu em discursos repetidos
e histricos:  a superioridade da raa ariana, do Herrenvolk, sobre as
outras raas da terra... o Fhrerprinzip, o Protocolo dos  Sbios de
Sion... a idia de que o marxismo, a finana internacional e a maonaria
so invenes dos judeus, na sua  campanha para a dominao do mundo...
etc... etc... Essa iluso semntica, se me perdoam a simplificao,
custou  vrios milhes de vidas.
  -  estranho - observa Terncio - que logo um escritor a esteja a
desprezar, a atacar os smbolos, as metforas  e os mitos. Como seria
possvel gerarem-se e manterem-se civilizaes sem o uso de smbolos?
Como poderia o  homem transmitir a cultura aos seus descendentes,
atravs dos sculos, sem os smbolos?
  - Estou absolutamente de acordo com o senhor - replica Floriano. - Como
poderia haver arte literria sem  smbolos? Como poderia existir arte
potica sem palavras, smbolos e metforas? Mas quero que me entendam...
A  linguagem figurada pode ser perfeitamente inocente, alm de bela e
necessria. Mas o perigo comea quando o  povo toma ao p da letra, como
verdades absolutas, os smbolos e metforas polticas e sociais
engendrados de  acordo com o interesse imediato de quem os emprega.
  - E  nisso - intervm Bandeira - que reside a fora dos demagogos. Eles
procuram fazer que o povo reaja,  sem a menor crtica, s suas metforas
e mitos, de maneira automtica, imediata e apaixonada.
  - Essa  a tcnica que usamos - acrescenta Floriano - no s para
conseguir votos e levar o povo  guerra,  como tambm para vender
sabonetes, cigarros, medicamentos, etc... A publicidade moderna
alimenta-se duma  srie de hbeis prestidigitaes verbais.
  - Ela cria necessidades falsas - refora tio Bicho - e tambm
"vergonhas" e "indignidades" convencionais. A  vergonha de
  400
  no possuir o ltimo tipo de refrigerador ou de automvel... A vergonha
de no usar desodorante... A  inconvenincia de no comprar todos os
anos uma cesta de Natal... e assim por diante, at o ltimo dia do ms,
em  que se vencem as prestaes e se acentuam as angstias.
  - Por tudo isso - torna Floriano - devemos concluir que a linguagem no
 apenas o instrumento que usamos  para transmitir nossos pensamentos,
pois na verdade ela acaba determinando o carter da realidade cotidiana.
E  assim vivemos quase todos num mundo de abstraes metafsicas,
dogmas, crendices... E por causa dessas  abstraes s vezes matamos,
morremos e adquirimos lceras gstricas.
  Rodrigo faz um gesto de impacincia:
  - Mas que  que o Rio Grande tem a ver com tudo isso? Floriano sorri:
  - Repito que muitos gachos alimentam ainda uma bela iluso, acreditando
num Rio Grande que j no existe.  Confundem o tradicional com o apenas
velho. O autntico com o puramente pitoresco. Parecem no ter
compreendido que bombacha no  adjetivo qualificativo, mas substantivo
comum.
  - Nosso comportamento poltico e social - intervm tio Bicho - tem sido
muitas vezes condicionado pela nossa  mitologia e por nossos hbitos
verbais. Quando nos vemos diante dum problema que exige habilidade
tcnica,  poltica ou diplomtica, viramos centauros e metemos as patas.
  Irmo Torbio solta uma risada.
  - Mas afinal de contas - pergunta Rodrigo - que  que vocs querem?
Rasgar a nossa histria? Abolir o nosso  passado?
  Depois de beber um gole de cerveja, Bandeira exclama:
  - Queremos tocar DDT nos nossos mitos! Fazer o gacho apear desse cavalo
simblico no qual est  psicologicamente montado h mais de dois
sculos!
  Terncio rebate:
  - E substituir nossas tradies gloriosas e nossa f em Deus por
smbolos da Rssia Sovitica?
  Tio Bicho encolhe os ombros. Floriano, porm, responde:
  401
  - A Rssia Sovitica, doutor, tambm vive seus equvocos semnticos e
alimenta seus mitos, como a ditadura do  proletariado, a sociedade sem
classes, a onipotncia da histria, etc... Quanto aos mitos americanos,
so mais que  sabidos: a liberdade da iniciativa privada, o American way
oflife, a idia de que um dia poderemos resolver todos  os problemas do
corpo e do esprito por meio de engenhocas, dessas em que se apertam
botes...
  Terncio parece estonteado.
  - Mas  assustador! - exclama. - Os senhores destroem tudo, no
acreditam em nada e em ningum! Se ns os  gachos jogamos fora os
nossos mitos, que  que sobra?
  Floriano olha para o estancieiro e diz tranqilamente:
  - Sobra o Rio Grande, doutor. O Rio Grande sem mscara. O Rio Grande sem
belas mentiras. O Rio Grande  autntico. Acho que  nossa coragem fsica
de guerreiros devemos acrescentar a coragem moral de enfrentar a
realidade.
  - Mas o que  que o senhor chama de realidade?
  - O que somos, o que temos. E no vejo por que tudo isso deva ser
necessariamente menos nobre, menos belo  ou menos bom que essas
fantasias saudosistas do gauchismo com que procuramos nos iludir e
impressionar os  outros.
  - No esto falando a minha lngua - murmura o Liroca, que tem estado a
dar cochiladas intermitentes.
  - Os mitos sempre existiram - prossegue Floriano - como expresses da
irreprimvel fora do cosmos  refletidas nas culturas humanas. E mesmo
no mago das religies, das filosofias, das manifestaes artsticas e
at  mesmo da cincia existe um remoto ncleo mtico. E  curioso que
muitos dos mitos e smbolos das civilizaes  primitivas continuam a
aparecer, sob os mais variados disfarces, nos sonhos do homem moderno. O
que me parece  absurdo  essa nossa mitologia fabricada por uma
literatura duvidosa e feita sob encomenda.  desse civismo  convencional
de grupo escolar que nos devemos livrar. Nunca preguei nem desejei a
destruio ou a difamao  dos heris da nossa histria. O que sempre
achei absurdo foi a projeo desses homens no plano ideal, com
  402
  prejuzo de sua humanidade, de sua autenticidade, de sua verdade
existencial.
  Terncio sacode a cabea lentamente, os olhos no cho, e murmura:
  - No compreendo, palavra de honra, no compreendo...
  - A mim me impressiona muito menos uma carga de cavalaria dos Farrapos -
continua Floriano - do que a  coragem das mulheres desses guerreiros que
ficaram em suas casas esperando os maridos, os filhos e os irmos que
tinham ido para a guerra. As mulheres que durante horas incontveis de
agonia ficaram ouvindo o uivar do vento  no descampado e o lento
arrastar-se do tempo.
  - Mas sem esses guerreiros - intervm Rodrigo, subitamente interessado
na conversa - essas mulheres teriam  sido violadas ou assassinadas pelo
invasor. Sem esses guerreiros o Rio Grande no seria hoje territrio
brasileiro.
  - Est bem - replica Floriano -, mas sem mulheres como a velha Ana
Terra, a velha Bibiana e a velha Maria  Valria (isso para citar s
gente de casa) no existiria tambm o Rio Grande. Elas eram o cho firme
que os heris  pisavam. A casa que os abrigava quando eles voltavam da
guerra. O fogo que os aquecia. As mos que lhes davam  de comer e de
beber. Elas eram o elemento vertical e permanente da raa.
  - Ests inspirado hoje, menino! - sorri Rodrigo, voltando-se para o
filho e encarando-o dum jeito como se o  estivesse vendo pela primeira
vez.
  - A mim no me inquieta o futuro do Rio Grande - diz Floriano. - Tenho
esperana nele. No temo a  agringalhao da nossa gente, como o nosso
dr. Terncio. O que resultar desse amlgama de raas no tempo e no
espao ser ainda Rio Grande. Teremos o nosso jeito peculiar de falar,
de gesticular, bem como um jeito de ser, de  pensar, de amar e de odiar,
de cantar e danar, de trabalhar e de sonhar... E os mesmos misteriosos
laos de  solidariedade e amor (apesar de nossos ressentimentos
peridicos de irmo que se sente esquecido ou injustiado)  continuaro
a nos prender ao resto do Brasil.
  403
  Neste momento rompe um aguaceiro furioso. Rodrigo solta uma exclamao
de triunfo. Liroca abre os olhos,  espantado. Irmo Torbio corre a
fechar as janelas. E por alguns segundos ficam todos em silncio a
escutar a chuva  que bate nas vidraas.
  Dante Camerino entra, instantes depois, com a roupa toda respingada.
  - At que enfim! - exclama Rodrigo. - Se essa tempestade no desabasse,
acho que eu estourava.  Dante,  vem ver como est este corao e estes
bofes.
  O mdico aproxima-se da cama, com o estetoscpio ajustado aos ouvidos, e
pe-se a auscultar o paciente.
  Floriano, que h pouco recomendava a necessidade de encarar a realidade,
desmascarando os mitos e evitando o  pensamento mgico, entrega-se a uma
de suas fantasias favoritas. Imagina-se a caminhar abraado com Slvia
pelas  ruas, sob a chuva...
  Sorri indulgente para a prpria incoerncia.
  404
  Caderno de pauta simples
  Como e at que ponto as coisas que pensei, senti e me aconteceram nos
Estados Unidos devem ser incorporadas  ao romance que estou projetando?
Questo a discutir.
  Tenho aqui o dirio que mantive, embora irregularmente, durante minha
estada naquele pas. Vou catar agora, para  recompor mais tarde se
necessrio, os trechos que me parecem mais significativos.
  Fim de meu primeiro semestre em Berkeley.
  Voluptuosa sensao de liberdade. Longe da famlia, do Estado Novo, de
seu DIP e de sua Polcia Especial. Livre  para dizer, escrever e fazer o
que entendo.
  Ningum parece esperar muito de mim. Ningum interfere na minha vida nem
no meu trabalho. Ningum me faz  perguntas. Todos me tratam
cordialmente, mas de longe, sem nunca forarem intimidades.
  Duas aulas por semana. Matria fcil e vaga, prestando-se a digresses e
fantasias.
  Fiz j vrias conferncias pblicas. Nas primeiras procurei divertir as
amveis senhoras que me escutavam. (Digo  senhoras porque estas formam
aqui o grosso do pblico das conferncias.) A medida, porm, que fui
vencendo  certas inibies, passei a criticar a vida e os costumes
  405
  americanos num tom de condescendente ironia, como se eu fosse um cidado
da Utopia. As damas continuaram a  me escutar com sorridente interesse.
  Confesso que mais de uma vez temi que uma delas se levantasse para me
interpelar:
  Moo! Perdi dois filhos nesta guerra. Que  que voc faz a nas suas
roupas de civil? No sabe que um leo est  nas ruas?
  Passeio minha disponibilidade de corpo e esprito pelo verde parque da
universidade. Este jovem sol californiano  sempre presente e este clido
ar tocado duma nvoa que trescala a feriado, convidam a gente a um cio
irresponsvel. Deitado na relva dos canteiros, converso sobre temas
acadmicos com colegas latino-americanos.
  O perfil dos edifcios de San Francisco esfuma-se longe, do outro lado
da baa. Avies de guerra cruzam os cus,  rumo do Pacfico, do inimigo
e da morte.
  Discutimos o barroco espanhol.
  Pelas caladas e alamedas passam estudantes, rapazes e raparigas,
sobraando livros. Centenas deles vestem o  uniforme da marinha, esto
sendo preparados tecnicamente para a guerra.
  Dialogamos sobre Gngora.
  O carrilho do Campanile marca com msica a passagem do
  tempo
  misturando Mozart com Stephen Pster
  Debussy com hinos patriticos e religiosos
  Handel com nursery rhymes
  Bach com Irving Berlin.
  Passo longas horas na biblioteca, onde praticamente tenho todos os
livros que possa desejar.
  No era esta a vida, o limbo que eu tanto desejava?
  Mas  intil tentar convencer-me a mim mesmo de que sou feliz. Ou de que
pelo menos estou tranqilo. As vezes,  quando caminho pelos
  406
  corredores destes edifcios, pelos relvados e bosques deste campus,
pelas ruas desta cidadezinha universitria,  sinto-rne sem substncia,
como uma sombra.
  Tento escrever mas faltam-me motivaes. Surpreendo-me vazio, inclusive
de passado. Sou um fugitivo do tempo.  Transparente e bidimensional, no
passo duma projeo do meu eu verdadeiro, feita por uma lanterna mgica
da  infncia nesta luminosa tela sul-californiana. E isso me angustia.
  Comeo a desconfiar que me tornei prisioneiro da minha prpria
liberdade. Que no fim de contas no  uma  liberdade autntica, mas uma
ftil pardia.
  A sensao de "no ser", de "no estar" e de "no pertencer" apodera-se
de mim principalmente quando almoo  no Faculty Club.
  Meu olhar se perde numa floresta erudita de cabeas, em sua maioria
grisalhas, faces marcadas, testas altas, culos,  casacos de tweed...
Cachimbos defumam aromaticamente o ar, criando aqui dentro uma rplica
do fog que envolve  San Francisco na distncia.
  Quem  o velho que l est, de barba e cabelos completamente brancos, e
que tanto me lembra o nosso coronel  Borralho, veterano do Paraguai?  o
professor S., exilado da Itlia fascista. Sentado na sua poltrona, um
jornal  esquecido sobre os joelhos, o pince-nez na ponta do nariz, dorme
sua breve sesta, como um vov qualquer. A tarde  dar aulas de histria
da civilizao a esses rapages atlticos de olhos lmpidos que aqui
esto sendo preparados  para o matadouro.
  Quem  o senhor de face rubicunda e olhos claros? O descobridor da
vitamina K.
  E o outro, o de terno gris, com aspecto de caixeiro-viajante? O inventor
do cclotron, o esmagador de tomos.
  E eu quem sou?
  Digo a mim mesmo que em vez de fazer perguntas como estas devo gozar com
plenitude o momento presente,  colhendo o que ele me
  407
  pode oferecer aos sentidos e  fantasia. No tenho por que estar com
este ar de quem se desculpa, o chapu na  mo e a cabea baixa, como um
campons que desavisadamente trespassou a propriedade do sr. baro.
  Sbita saudade de Slvia. Penso em escrever-lhe mas hesito. Uma carta
minha poderia causar-lhe dificuldades  domsticas. Jango no
compreenderia.
  Mas escrevo assim mesmo, impelido por uma necessidade de confisso. E
como se, aps ouvir a enumerao de  meus pecados, S. tivesse autoridade
para dizer: Eu te absolvo... Mas em nome de quem? De qu? De minha
terra,  de onde me exilei voluntariamente? Duma velha amizade que
atraioei?
  Procuro ser franco nessa carta. No  fcil. As palavras tm tamanha
fora, que as regras de seu jogo (inventadas  por ns mesmos, e nisso
est a ironia da coisa toda) so capazes de engendrar verdadeiras
camisas-de-fora para as  idias e os sentimentos. Se no tomamos
cuidado, a linguagem acaba comandando nossos pensamentos e nossas
vidas, tornando quase impossvel a comunicao entre as criaturas
humanas.
  Ponho a carta no correio, antes que me arrependa de hav-la escrito.
  Frias de Natal em Los Angeles. O Menino e o Adolescente me levam a
Hollywood.
  Ruas de cenrio, com casas que s parecem ter fachadas. Pessoas que do
a mesma impresso. Turistas vidos   caa de estrelas de cinema.
Pederastas rebolando as ancas ao longo de Hollywood Boulevard e de Vine
Street.
  408
  De vez em quando um cowboy de drugstore encostado num poste, lendo o Los
Angeles Times enquanto espera o  nibus.
  Reduzido a um punhado de cinzas,  pobre Mona Lisa, teu Rodolfo
Valentino repousa num panteon de mrmore,  num destes festivos
cemitrios locais.
  O Menino, decepcionado, descobre que Pearl White jamais viveu em
Hollywood.
  A noite me embrenho numa selva de gs neon. Fao uma peregrinao, que
mais me estonteia que diverte, por  estes cabars. No sei ao certo que
busco.
  Madrugada. Estou no bulevar,, parado a uma esquina, quando uma mulher se
aproxima de mim, toma-me do brao  e sussurra-me ao ouvido: What's on
your menu for tonight, honey?
  A pergunta vulgar me aborrece, mas a rapariga me interessa. Bela cara,
belo corpo. Uns vinte anos no mximo.
  Vamos para um hotel. Como de costume, o recepcionista no faz perguntas
embaraosas. Assinamos o registro  como Mr. e Mrs. Tom Brown.
  (A vida no ser um pouco isso - um repetido mudar de identidade, numa
tentativa de despistamento dos outros e  de ns mesmos? Quantos
pseudnimos e mscaras usamos no decorrer duma existncia?)
  Apanhamos a chave dum quarto e entramos no elevador. O fantasma de minha
me e o de Slvia. entram tambm. A  velha Maria Valria, essa j est 
minha espera no quarto, sentada ao p da cama, um xale sobre os ombros,
os  braos cruzados contra o peito. Suas pupilas esbranquiadas fitam-se
em mim, acusadoramente.
  Dispo-me, contrafeito. A rapariga  do Texas. Conta que est h mais de
um ano em Hollywood, onde espera ser  descoberta por um diretor de
cinema. Procura convencer-me de que no  uma prostituta profissional, e
que se faz  estas coisas  porque precisa "manter corpo e alma juntos",
enquanto a grande oportunidade no lhe aparece.
  Porta-se com uma fria eficincia de mquina. Sua face maquilada se
mantm impassvel como a dum manequim. O  Cambar sente-se insultado.
Mas Mr. Tom Brown encara a situao esportivamente.
  409
  
  Termina o ano escolar. A universidade me oferece uma prorrogao de
contrato por mais dois anos. Aceito. Mas  por que, se a sensao de
inanidade e tempo perdido continua a me perseguir?
  Ora, vou me deixando ficar por uma espcie de dourada inrcia propiciada
por esta luz, este ar de paisagem de  Corot... Sim, e por estas
facilidades, confortos e pequenos prazeres cotidianos de drugstore.
  Bom,  preciso no esquecer que quase sempre temos na Bay rea boa
msica: solistas, quartetos, orquestras  sinfnicas... (A profecia de
tio Bicho se cumpre: entrei no meu perodo bachiano.)
  As vezes quando tento racionalizar a deciso de ficar, trato de
convencer-me a mim mesmo de que talvez no  tenha para quem ou para onde
voltar. A situao poltica do Brasil no se modificou. A domstica
-percebo nas  entrelinhas das discretssimas cartas de minha me -
permanece inalterada. Ou pior.
  No raro me sinto inclinado a dramatizar o caso. Sou o homem que
destruiu todas as pontes que ficaram para trs.  Meu drama, porm, no
me convence mais que as fices que Hollywood produz em massa.
  Sei que minhas pontes de importncia vital permanecem intatas. E que
talvez muitas delas sejam indestrutveis.
  Isso me conforta. E ao mesmo tempo me ajuda a ficar.
  S. me escreve com regularidade. Numa de suas ltimas cartas encontro
algo que me faz pensar:
  No pode existir verdadeiro amor no corao dum homem que se isolou da
famlia humana.
  A carapua traz a medida exata da minha cabea.
  Desde que cheguei a este pas, h pouco mais de um ano, tenho pensado
algumas vezes em Marian Patterson, com  um leve desejo (ou
  410
  curiosidade) de rev-la. Nada fiz, entretanto, para localiz-la. Sabia
que estava casada com um homem de negcios  e morava em Chicago. Ou
Detroit.
  Tive ontem a surpresa de receber um chamado telefnico de Mandy.
Conseguiu meu endereo no consulado geral  do Brasil, em San Francisco,
onde agora vive. Perguntei-lhe pelo marido. Contou que estavam
divorciados. Mental  cruelty. Quando ouvi esta expresso convencional,
que pode ter um contedo terrvel, mas que na maioria dos  casos no
significa nada - tive mpetos de desligar o telefone, pois numa frao
de segundo me voltou  mente,  numa smula mgica, nosso exasperante
convvio no Rio.
  Marcamos um encontro para o primeiro sbado  noite, no saguo de um
desses grandes hotis de San Francisco.  Fico surpreso por encontrar M.
no uniforme azul - que de resto lhe senta muito bem - do corpo feminino
auxiliar da marinha.  uma WAVE.
  Vamos jantar num cabar de Chinatown. Mandy me parece mais amadurecida.
Os olhos perderam a inocncia  esportiva da jogadora de peteca da praia
de Copacabana. Noto-lhe j no rosto algumas marcas de vida.
  Pede-me que conte minhas andanas e vivncias nestes ltimos cinco anos.
Resumo o assunto em cinco minutos.  Depois  a sua vez de contar as
suas.
  M. bebe um bourbon duplo. Sua voz comea a ficar pastosa e meio
arrastada. A embriaguez a princpio a torna  sentimental. Pega-me do
queixo e murmura palavras carinhosas. Mas  medida que continua a beber
vai ficando  excitada, e acaba por me convidar claramente: Let's go to
bed.
  Passo a noite em seu apartamento. No dia seguinte tomamos um breakfast
tardio e triste, diante duma janela aberta  sobre a baa.
  Tudo isso se enquadra  maravilha dentro deste esquema de inanidade e
meios-prazeres do qual me sinto  prisioneiro voluntrio e no de todo
infeliz.
  Continuamos a nos encontrar nas noites de sbado, numa espcie de
burocracia sexual. Quando no estamos na  posio horizontal, discutimos
a guerra, o comunismo, os problemas deste pas. Com freqncia me
surpreendo a  criticar, nem sempre com muita convico, o
  411
  American way of life. E percebo, alarmado, que fao isso com a inteno
de agredir M.
  Uma noite ela me atira na cara esta pergunta:
  Por que no ests tambm em uniforme?
  As aulas... Nada mais estpido e sem sentido que falar sobre o
Romantismo na literatura brasileira nesta hora em  que morrem milhes de
criaturas humanas na mais medonha guerra da histria. Rotterdam,
Coventry, Lidice... so  nomes que me perseguem, como incubas destas
minhas luminosas viglias californianas.
  Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infncia
querida Que os anos no trazem mais!
  Agora que as tropas aliadas vo penetrando vitoriosamente em territrio
alemo, o mundo comea a descobrir,  estarrecido, os horrores e
crueldades dos campos de concentrao nazistas.
  Hitler e seus cmplices levam a cabo metodicamente o plano de liquidao
dos judeus. A diablica alquimia  totalitria transforma as pessoas em
nmeros. Para os burocratas do partido encarregados da "soluo
definitiva"  deve ser mais fcil condenar  morte algarismos do que
seres humanos. Podem depois, em relativa paz de esprito,  ouvir o seu
Wagner e ler o seu Goethe.
  Os prisioneiros chegavam a Auschwitz em vages de carga, como animais.
Muitos morriam na viagem.  Repreendido por seus superiores por s ter
matado oitenta mil em seis meses, o comandante do campo tratou de
aprimorar o processo de extermnio.
  Os condenados - homens, mulheres e crianas - despiam-se atrs dum valo:
duzentos e cinqenta de cada vez.  Eram
  412
  depois encerrados num salo hermeticamente fechado, para dentro do qual
se atiravam, por um buraco  engenhosamente aberto na parede, duas latas
de Cyclon B, um composto de cido prssico.
  Calcula-se que cada condenado levava pouco mais de dez minutos para
morrer asfixiado.
  Abriam-se as portas meia hora depois. Os cadveres eram levados para
fora, amontoados dentro dum poo, e ali  cremados, mas no antes de os
guardas terem tido o cuidado de tirar deles os dentes de ouro e os
anis. Herr  Kommandant, porm, era um homem exigente: queria chegar 
perfeio de matar e cremar dois mil prisioneiros  em apenas doze horas.
  Um de meus alunos me pergunta de que morreu Gonalves Dias. Outro me
pede um espcime de sua poesia. L  vou eu para o quadronegro:
  Minha terra tem palmeiras, Onde canta o sabi; As aves, que aqui
gorjeiam, No gorjeiam como l.
  A menina de Oklahoma quer saber se Mr. Dias teve algum de seus livros
traduzido para o ingls. No, que eu  saiba.
  Um diligente Obersturmfuhrer inventou uma nova maneira de matar. Fazia a
vtima sentar-se numa cadeira,  ordenava a dois outros prisioneiros que
lhe imobilizassem os braos e a um terceiro que lhe vendasse os olhos.
Depois, enfiando no peito do condenado uma longa agulha, fazia-lhe uma
injeo de fenol. Em pouco mais de um  minuto o paciente estava morto.
  Calcula-se que uns vinte e cinco mil tenham sido liquidados dessa
maneira.
  413
  Mas havia os afortunados. Esses morriam com relativa rapidez,
enforcados, fuzilados ou com um balao na nuca.  Em Buchenwald era uma
prtica comum castrar os prisioneiros, afog-los em esterco ou
quebrar-lhes os ossos com  pedras. A esposa do comandante do campo de
concentrao de Dachau, dama de fino gosto artstico, mandava  fazer
abajures para suas lmpadas e encadernaes para seus livros com as
peles dos prisioneiros mortos. Preferia,  por motivos bvios, as que
tinham tatuagens.
  Em Buchenwald mdicos e estudantes de medicina usavam os prisioneiros
judeus como cobaias. No s os  adultos, como tambm crianas de cinco a
doze anos de idade. Para apaziguar os pequeninos, davam-lhes doces e
brinquedos. Uma cuca de mel pelos teus pulmes. Uma bola colorida pelos
teus olhinhos. Uma barra de chocolate  pelo teu corao.
  Saio para a tarde de abril. As rvores de Berkeley esto floridas e
tranqilas. Deitados na relva, de mos dadas, os  namorados olham para o
cu. O carrilho do Campanile toca a Pequena fuga de Bach.
  Caminho de cabea baixa, observando minha sombra na calada. A uma
esquina compro um nmero do San  Francisco Chronicle. Subo depois para
meu apartamento. Estas salas vazias de humanidade e esta ausncia de
retratos de amigos esto comeando a me angustiar. Sento-me e abro o
jornal.
  Os nazis no parecem interessados apenas na liquidao fsica de seus
inimigos. Comprazem-se em avilt-los,  reduzi-los a bichos, vermes,
amebas.
  Em Belsen, onde os prisioneiros morriam de fome, alguns deles,
desesperados, entregavam-se  antropofagia,  comendo pedaos dos
cadveres dos companheiros.
  414
  Centenas de outros, atacados de disenteria e no tendo foras para irem
at as latrinas, defecavam onde estavam e  acabavam morrendo de inanio
em cima do prprio excremento. Milhares deles foram dizimados pelo tifo.
  Se leio, releio e rumino quase obsessivamente essas histrias de
atrocidades  talvez pela simples mas  perturbadora razo de que elas
no me horrorizam, no me ferem to visceralmente como deviam. Parece-me
que  no basta sentir um repdio intelectual por essas brutalidades. 
preciso, por um milagre do esprito, sentir um  pouco na prpria carne
as dores, mutilaes e misrias desses milhes de injustiados. Temo
que, passada a guerra  e o tempo, o mundo esquea os crimes nazistas. O
mundo e eu com ele. Esta idia me preocupa, dando-me um  antecipado
sentimento de culpa.
  
  Recordo as palavras de Roque Bandeira em uma de suas cartas crticas:
  Na minha opinio, tua mais sria deficincia como romancista vem de tua
relutncia em tomar conhecimento do  lado bestial do homem. Ficas
danando uma valsinha medrosa  beira do abismo da alma humana, sem
coragem  para o salto que te poderia levar s profundezas...
  Almoo freqentemente com o professor K., do Departamento de Filosofia
da universidade. Ontem falei-lhe  intensamente sobre a barbrie nazista.
Ele me escutou em silncio e depois sorriu, dizendo:
  415
  E diante de tudo isso, meu caro Cambar, voc continua pacifista? Claro,
tambm participo de seu horror   violncia, mas acho que h momentos,
como este que agora estamos vivendo e sofrendo, em que  absolutamente
necessrio empregar a violncia contra a violncia, para conseguir que
sobrevivam na face da terra certos  princpios (e entre eles o da
prpria no-violncia) que so essenciais  nossa vida de homens
civilizados. Ou acha  que devamos ter cruzado os braos, deixando que
Hitler e seus exrcitos transformassem o mundo num vasto  campo de
concentrao?
  Penso na negra noite de Ano-Bom em que este pacifista se precipitou
sobre um homem e golpeou-lhe  furiosamente a cabea com uma garrafa.
  Inquieta-me a suspeita de que naquele momento de dio desejei mat-lo.
  Encontro numa pgina do meu dirio estas anotaes avulsas:
  Precisamos aprender a viver melhor com nossas prprias contradies, com
as dos outros e com as da vida.
  A neutralidade  impossvel. Na hora em que nasce, o homem entra
inescapavelmente na histria. Desde o  primeiro minuto de vida comea a
sentir presses de toda a sorte. O ato de nascer  um engagement. Um
compromisso que outros assumem tacitamente em nosso nome, e do qual
jamais poderemos fugir nem mesmo pelo  abandono voluntrio da vida, pois
o suicdio seria um compromisso terrvel com a eternidade.
  A Alemanha rendeu-se incondicionalmente. Na hora em que chega a grande
notcia, o carrilho do Campanile  rompe a tocar o God bless America.
  416
  Aqui estou em cima do estrado, na frente de meus alunos. Prometi
falar-lhes hoje em Machado de Assis, e no  entanto surpreendo-me a
fazer-lhes um discurso que no premeditei.
  A guerra na Europa terminou. Tudo indica que o Japo no tardar muito a
render-se.
  Os Estados Unidos sairo desse conflito como a nao mais poderosa da
terra. J pensastes no que isso significa?  Que tendes a oferecer ao
mundo, alm de mquinas, produtos manufaturados, fitas de cinema e ajuda
financeira e  tcnica? J revisastes vossos valores ticos e morais?
Direis que um latino-americano como eu, que ficou  margem  da guerra,
em conforto e segurana, no tem o direito de vos falar assim. Mas falo.
Uma das liberdades pelas quais  lutastes foi a de pensamento e palavra.
Alm disso, no deveis esquecer que me dirijo a vs como amigo. A
humanidade contraiu para convosco e para com os ingleses, os russos e os
outros aliados uma dvida incalculvel,  por terdes juntos livrado o
mundo da barbrie e da escravido nazista.
  Ningum imaginava que vs - alegres meninos ricos e mimados, mascadores
de goma e danadores de boogie- woogie - vos pudsseis transformar em
bravos e eficientes soldados, capazes de enfrentar a tcnica militar
prussiana e o fanatismo japons.
  Festejai a vossa vitria. Mas permiti que eu vos fale em coisas que
vossos jornais, vossos livros escolares e vossos  hinos patriticos no
vos ensinam, mas que precisais saber. Vivemos num sistema poltico,
social e econmico que  est sendo devorado por suas prprias
contradies. Boa parte das armas e munies com que os nazistas mataram
vossos irmos e vossos aliados foi financiada pelas potncias
ocidentais, que encorajaram o rearmamento da  Alemanha nazista, na
certeza de que, forte e remilitarizada, um dia ela fatalmente viesse a
atacar a Rssia  Sovitica, sua inimiga natural.
  417
  Os avies japoneses que bombardearam Pearl Harbor, usaram gasolina
americana; e suas bombas foram feitas com metais extrados do solo deste
pas.
  O Capital acende uma vela a Deus e outra ao Diabo. Se a transao lhe
for financeiramente vantajosa, o homem de negcios ser capaz de vender
ao pior inimigo a arma com que este amanh o poder matar. Vs os moos
tendes sido sempre o melhor combustvel para as caldeiras da guerra. O
big business, atravs de sua complicada rede de influncias e presses,
jogar com vossas vidas com a mesma frieza com que costuma manipular os
algarismos de sua contabilidade industrial. Encanta-me e ao mesmo tempo
assusta-me a idia de que vs, os menines que cantavam e jogavam bola
no parque, fostes chamados pelo Destino a dirigir o mundo. Que sabeis da
vida e das gentes para alm de vosso playground?
  Gosto de vossas caras, admiro vossa cordialidade o vosso otimismo
construtor vosso desejo de jogo limpo vossa perene mocidade de esprito
vossa vocao salvacionista vosso talento para inventar e fabricar
coisas... Mas deploro vossa incapacidade de entender os outros povos
vosso conceito pragmtico de sucesso vosso injustificvel orgulho
racial.
  Sob aspectos formais, sois talvez o povo mais religioso da terra, mas
muitos de vs querem meter  fora um capuz da Ku-Klux-Klan na cabea de
Jesus. Outros sonham com um Cristo Babbitt e imaginam que suas ceias com
os Apstolos eram como alegres reunies rotarianas. Tendes de aprender
que no podemos entregar s mquinas eletrnicas a soluo dos problemas
de relaes humanas; e que uma pessoa  mais que uma ficha perfurada; e
que amor nada tem a ver com estatstica.
  418
  Calo-me. Quem me encomendou este sermo? Que direito tem de falar assim
quem como eu vem dum pas to cheio de defeitos, contrastes e
contradies?
  Os alunos permanecem silenciosos. Um deles pigarreia. Ouve-se um vago
arrastar de ps. A ruiva de Oklahoma fita em mim os olhos de jade. O
marinheiro magro ergue perplexo uma sobrancelha. Uns trs ou quatro
estudantes parecem tomar notas em seus cadernos. Esto todos srios. No
sei como reagiram  minha arenga. S sei que me sinto terrivelmente
encabulado. Procuro disfarar, dizendo:
  Bom, agora vamos conversar um pouco sobre Machado de Assis.
  
  Cinco da tarde. Saio do edifcio da biblioteca e ponho-me a caminhar por
uma destas alamedas que recendem a murta. O carrilho toca uma melodia
que me evoca alguma coisa, no sei bem qu. De repente meu crebro
funciona como uma mquina eletrnica selecionadora de fichas.  como se
a msica dos sinos tivesse apertado num boto... Vejo saltar uma
fotografia colorida e animada: a Guardadora de Gansos sentada  beira da
fonte do fauno, riscando a gua com o dedo e cantando o Home on the
range.
  Continuo a andar, j agora com uma coleo de instantneos do passado a
se misturarem e superporem no campo da memria. Fixo-me principalmente
num dos quadros: o Adolescente entregando uma rosa a Mary Lee, que a
recusa com um desdenhoso encolher de ombros. Ouo sua voz de vidro e
gua a dizer-me coisas cruis.
  Ocorre-me ento (e essa idia me faz estacar) que meu discurso desta
manh bem pode ter sido uma resposta, tardia mas nem por isso menos
apaixonada, que o "negro boy" deu  loura americana que o mandou voltar
para seu lugar. E por que no? Decerto era tambm a Mary Lee que
inconscientemente eu me dirigia quando, de minha plataforma de
conferencista, criticava com manso sarcasmo as instituies americanas.
Levando o raciocnio mais longe, pode bem ter sido a Guardadora de
Gansos quem at certo ponto determinou meu comportamento para com Marian
Patterson. Toda esta hiptese pode estar
  419
  errada, mas uma coisa agora me parece evidente. Nestes ltimos trs anos
tenho estado tentando provar alguma coisa...
  
  Termina o ano escolar e o meu contrato com a universidade. Pretendo
fazer uma longa viagem atravs dos Estados Unidos, antes de voltar para
o Brasil.
  Despeo-me de M. em seu apartamento. Ao anoitecer ficamos longo tempo em
silncio junto da janela, vendo o fog cobrir aos poucos a cidade e a
baa. Quando as luzes se acendem, M. murmura:
  S this is the end of the line...
  E, para minha surpresa e embarao, pe-se a chorar de mansinho.
  Pouco depois me leva no seu carro at a estao, onde tomo o trem para
Berkeley. Seu ltimo beijo sabe a neblina.
  No ter sido esse o gosto de toda a nossa histria?
  420
  Do dirio de Slvia
  1941
  24 de setembro
  Chove sem parar faz trs dias. Devagarinho, miudinho, como para
azucrinar os que gostam de sol, como eu. Um cu baixo cor de rato
oprime a cidade. E aqui estou, tristonha, arrepiada de frio, como um
passarinho molhado empoleirado num fio de telefone. O vento hoje anda
correndo e uivando como um desesperado por cus, ruas e descampados.
Atrs de quem? Talvez do tempo. Diz a Dinda que o vento e o tempo tm
uma briga antiga, que vem do princpio do mundo.
  Maneira esquisita de comear um dirio. Decerto um jeito de dizer a mim
mesma que no estou levando a srio este negcio. Mas estou, e muito.
Preciso escrever certas coisas que venho pensando e sentindo. A quem
mais posso me confessar seno a mim mesma? Isso prova que, como todo o
mundo, tenho dupla personalidade. Agora sou a que escreve e depois serei
a que l. Qual! Tenho muitas Slvias dentro de mim. Cada vez que eu
reler estas pginas serei outra. E cada uma dessas outras ser diferente
da que escreveu. E mesmo a que escreveu no foi sempre a mesma, mas
vrias. Isso tudo me alarma um pouco.
  Comprei este dirio a semana passada na Lanterna de Digenes. Era o
nico que existia na casa. Tipo lbum, fecho de metal, uma gaivota
dourada na capa de plstico azul imitando couro. Ridculo! Senti
necessidade de explicar  empregada da livraria que
  421
  eu queria o lbum para d-lo de presente a uma mocinha. Bom, no foi uma
mentira completa. Porque na realidade dei o dirio  jeune filie que em
parte ainda sou. Agora s falta o amor-perfeito seco entre duas pginas.
No, isso no se usa mais. Mas que  que se usa hoje em dia? Angstia.
Tio Bicho fala no Angst de seus filsofos alemes. Minha angstia 
menor. Angustiazinha nacional e municipal. Tem um mrito que  ao mesmo
tempo um inconveniente.  minha. Em certos momentos chegamos a ter at
um certo orgulho de nossas tristezas e infelicidades, e usamos essas
"desgraas" para comover os outros e arrancar deles piedade ou amor.
(No quero piedade, quero amor.) Em suma, uma chantagem. Um caso
parecido com o da Palmira Pep, que h anos anda pelas ruas da cidade
manquejando, choramingando e mendigando. Quando os mdicos querem
curar-lhe o defeito da perna, a Palmira recusa, alegando que, se sarar,
no ter mais razo para pedir esmolas.
  No quero usar o truque da Palmira.  por isso que vou desabafar neste
livro.  mais decente lamber as prprias feridas na solido, a portas
fechadas. Mas o certo mesmo  cur-las.
  Ouo as goteiras.  a musiquinha do tdio, esse "inimigo cinzento", como
costuma dizer o Floriano.
  No contava escrever este nome to cedo. Ia esperar um intervalo
decente... o que prova que ainda no tenho intimidade com o dirio.
  Preciso fazer exerccios de franqueza. Para comear, pergunto a mim
mesma se Floriano no ter sido o motivo deste jornal. Sim, foi, mas no
o nico. Nem mesmo o principal, apesar da grande importncia afetiva que
ele tem na minha vida. Surgiu um novo "possvel amor" no meu horizonte
espiritual: Deus. Atravs da correspondncia que mantivemos entre 1936 e
1937, Floriano com seu agnosticismo muito fez (inconscientemente, claro)
para afastar de mim esse possvel rival. Meu amigo cessou de me
escrever, mas Deus continuou onde estava.
  Afinal de contas, onde est mesmo Deus? No sei. Sinto que ainda no o
avistei. Se Ele me conceder a graa da Sua presena, estou certa de que
minha vida mudar para melhor. Em suma, necessito que Deus exista.
  422
  28 de setembro
  Continua a chuva. Mas no comprei este livro para fins meteorolgicos.
Preciso ter uma conversa muito sincera comigo mesma. Botar as cartas na
mesa. Olhar de frente umas certas situaes que me inquietam. So
problemas que se apresentam na forma de pessoas: minha me, Floriano,
Jango, padrinho Rodrigo... Mas essas quatro pessoas se fundem numa s.
Est claro que meu problema maior sou eu mesma.
  Cada vez mais me conveno da utilidade deste jornal. Ele me pode ajudar
muito na explorao desses poos insondados que temos dentro de ns, e
que tanto nos assustam  por serem escuros e parecerem to fundos. Por
outro lado, talvez eu possa deixar nestas pginas, de vez em quando,
discretamente, um bilhetinho a Deus. O endereo?  Posta restante. Estou
convencida de que um dia, dum modo ou de outro, Ele me responder...
  29 de setembro
  Acabo de fazer uma importante descoberta. No inferno o castigo no  o
fogo eterno, mas a eterna umidade, o que  muito mais terrvel. Neste
quinto dia de chuva  ininterrupta sinto que cogumelos me brotam no
crebro. Um bolor esverdeado me forra a alma. Sou um vegetal.
  6 de outubro
  Oito da manh. Acabo de dar caf ao meu marido, como uma esposa que se
esfora por ser exemplar. A comdia continua. Represento como posso. Mas
no posso muito.  No tenho talento de atriz. No consigo decorar o meu
papel. Falo e me movimento no palco sem convico. No presto ateno s
deixas de Jango. Isto : no digo  nem fao no momento exato as coisas
que em geral
  423
  uma boa esposa diz e faz. E no  por falta de hbito, pois esta pea j
est no cartaz h mais de trs anos... De vez em quando tento
improvisar, sair fora do papel,  dizer o que sinto, o que penso mesmo de
certas situaes. Jango ento me olha admirado, como se estivesse me
vendo pela primeira vez. E no diz nada. Fala pouco.  No tem o talento
nem o gosto do dilogo. Est habituado a gritar ordens aos pees. Para
me dar a entender que seus silncios e casmurrices no significam que
deixou  de me querer, ele freqentemente me abraa, me beija e parece
ficar seguro de que isso resolve tudo. Muitas vezes tentei entabular com
ele conversas francas e srias,  dessas capazes de mudar a vida dum
casal ou pelo menos deixar uma janelinha aberta para melhores
perspectivas. Mas ele recusa obstinadamente aceitar a realidade  desse
outro mundo em que tais problemas se apresentam e tais conversas so
possveis e necessrias. Essa teimosia em negar a existncia das coisas
que esto fora  dos limites de seu mundo, de suas necessidades, gostos e
convenincias no deve ser apenas egocentrismo, mas insegurana: esse
medo que temos de visitar um pas  estrangeiro cuja lngua no falamos
nem entendemos. Jango acha que eu invento, imagino coisas que na
realidade no existem. Mais duma vez esquivou-se de perguntas  que lhe
fiz sobre nossas relaes dizendo apenas: "Foi o que ganhei por ter
casado com uma professora".
  E um homem slido e prtico, incapaz de sonhos e fantasias. Como pode
acreditar em feridas da alma quem vive to preocupado com as bicheiras
dos animais do Angico?  Se eu lhe contar meus problemas espirituais,
temo que me receite creolina. Como tudo seria mais fcil na vida (deve
refletir ele) se pudssemos juntar todos os nossos  parentes, amigos e
dependentes que tm problemas de conscincia, e atir-los como se faz
com o gado, dentro dum banheiro cheio de carrapaticida...
  Jango  um homem bom e decente. O que acabo de escrever sobre ele 
grosseiro e injusto. Resultado dum acesso de mau humor. Estou pensando
em rasgar esta pgina.  Mas no rasgo. Um dirio no  apenas um
escrnio onde a gente guarda as raras jias que a vida nos d.  tambm
uma lata de lixo onde despejamos a
  424
  cinza de nosso tdio, o cisco de nossas tristezas, a aguada bile de
nossos odiozinhos e birras de cada dia.
  15 de outubro
  Temos a tendncia de classificar as pessoas como os naturalistas
classificam as borboletas, feito o que as espetamos com um alfinete
contra um quadro... e pronto!,  passam a ser peas do nosso museu
particular. Acho que foi isso que Jango fez comigo. No quero fazer o
mesmo com ele. Duma coisa, porm, tenho certeza: no nascemos  para ser
marido e mulher. Somos psicologicamente antpodas. Um realista diria que
o mundo de Jango , ao passo que o meu seria. Considero-me irm gmea de
Floriano.  Se eu me tivesse casado com ele, teramos cometido um incesto
espiritual. Mas casando com Jango, que sempre considerei um irmo, desde
o tempo em que ramos crianas,  estou cometendo um incesto carnal, que
me repugna e que me d um permanente sentimento de culpa.
  Nestes ltimos meses tenho feito mentalmente a necropsia de nosso
casamento. Qual foi a sua causa mortis? Atribuir toda a culpa do
fracasso a mim mesma seria dar  uma explicao fcil demais ao caso.
Eximir-me de qualquer responsabilidade seria injusto, insincero.
  Pergunta essencial: "Por que casei com Jango?" Respostas que me ocorrem:
Porque ele insistiu com uma fria apaixonada. - Porque desejei despeitar
Floriano por ele  me ter recusado. - Porque sabia que minha me estava
para morrer e a idia de ficar sozinha no mundo me apavorava. - Porque
queria a qualquer preo vir morar no  Sobrado...
  Mas no teria havido tambm da minha parte uma certa inrcia, uma
espcie de covardia moral, receio ou preguia de dizer no, de lutar
contra todos e gritar que  no me podia casar com Jango pela simples
razo de que no o amava como homem, embora lhe quisesse bem como a um
irmo?
  425
  No sei. Talvez eu me deva fazer justia e reconhecer que tambm tive
pena do rapaz. Ele vivia repetindo que precisava de mim, e que eu lhe
"estragaria a vida" se  continuasse a dizer no. Lembro-me duma frase de
minha me: "Que  que te custa fazer esse moo feliz?" Naqueles meses de
1937 eu estava confusa e desolada. Tinha  chegado  concluso de que
Floriano no me amava. E isso me doa. Por essa ocasio recebi uma carta
de meu padrinho que foi decisiva. Quero-te como afilha que perdi.  Tu me
darias uma imensa alegria se casasses com o Jango, que tanto te ama.
Pensa que est ao teu alcance tornar esse bom e leal campeiro um homem
venturoso. O Angico  precisa dele, e ele precisa de ti.
  Na noite em que Jango e eu contratamos casamento, na hora em que os
convidados comearam a chegar para a festa, senti de repente uma espcie
de pnico. Fiquei de  mos trmulas e geladas. Floriano havia chegado do
Rio no dia anterior mas eu ainda no o tinha visto. No sabia que dizer
ou fazer quando o encontrasse. Temia trair  meus sentimentos ali na
frente de toda aquela gente. Houve um instante em que me encolhi num
canto da sala de visitas e fiquei olhando fixamente para o retrato de
meu padrinho. Nesse momento tio Torbio entrou, com aquele seu jeito de
boi manso e bom, me olhou bem nos olhos, me acariciou a cabea, como se
eu fosse ainda uma  criana, e perguntou: "Tens a certeza de que no
vais cometer um erro? Pensa bem. Ainda  tempo". Eu quis dizer alguma
coisa, mas no consegui pronunciar a menor  palavra. E  meia-noite,
quando no centro do estrado, no quintal, Floriano me abraou, me beijou
os cabelos e o rosto, murmurando "Minha querida... minha querida...",
tive a impresso de que subia s estrelas. Floriano me amava, no havia
a menor dvida! O que eu devia ter feito naquele instante era
agarrar-lhe o brao e gritar:  "Eu te amo tambm! Vamos embora daqui,
j, j!... antes que seja tarde demais!" Mas qual! O respeito humano, a
minha timidez, e principalmente esse sentimento de  obediente
inferioridade que sempre senti diante da "gente grande" do Sobrado, de
mistura com gratido e afeto - tudo isso fez que eu ficasse muda e
paralisada...  Perdi Floriano de vista em meio do tumulto.
  426
  E naquela madrugada terrvel, quando velavam o corpo de tio Torbio na
sala de visitas, e quando eu j tinha chorado todas as lgrimas que
existiam dentro de mim  - inclusive lgrimas antigas e reprimidas, de
outros choques e desgostos - fiquei a olhar para as mos que me tinham
acariciado a cabea havia poucas horas. "Tens  a certeza de que no vais
cometer um erro?" O erro j estava cometido. Mas aquelas mos plidas
pareciam falar: "Mas no! Ainda h tempo. O Floriano est ali no  canto,
olhando para ti, te pedindo alguma coisa". Impossvel, tio Torbio! Sou
ainda a filha da pobre modista, a menina de olhos assustados que nunca
ousou contrariar  o senhor do Sobrado.
  Exatamente no momento em que eu pensava essas coisas, Jango aproximou-se
de mim, abraou-me e ps-se a chorar, com a sua cabea encostada na
minha.
  18 de outubro
  Continuemos a necropsia.
  Neste quarto ano de casados, onde estamos? Como nos sentimos um com
relao ao outro? S posso responder por mim, e assim mesmo no com
absoluta segurana. O que  eu esperava e desejava - isto , que o
convvio no tempo me fizesse amar o Jango - no aconteceu.  um erro o
casamento entre irmos. (Frase horrvel, mas fica.)  Quando estou na
cama com meu marido e ele me abraa e acaricia com gestos que dizem
claro de sua inteno, sinto algo difcil de descrever: pnico misturado
com  repugnncia... e uma certa vergonha, como se eu fosse uma
prostituta e estivesse me submetendo quilo tudo por dinheiro. 
horrvel quando Jango cresce sobre mim  com a segurana e a naturalidade
patronal com que costuma montar nos seus cavalos. Seus ardores me ferem
tanto o corpo como o esprito. Meu marido tem um animalismo  que deve
ser normal e sadio, mas que nem por isso me desagrada menos. Fui muito
mal preparada para essas coisas. Quando aos treze anos fiquei mulher,
minha me,  depois de grandes rodeios, com voz dorida e olhos tristes,
me pediu pelo amor de
  427
  Deus que eu tivesse cuidado com os homens. Eram todos uns porcos e s
procuravam as mulheres para fazerem com elas as suas sujeiras. E quando
me casei - coitada!  - imaginando que apesar de meus vinte anos de idade
- quatro dos quais passados na Escola Normal, em Porto Alegre - eu ainda
no conhecesse "os fatos da vida", deu-me  instrues pr-conjugais.
Escutei-a, contrafeita. O ato fsico do amor - disse-me ela - era uma
coisa srdida mas infelizmente necessria. O mundo  assim. Que   que a
gente vai fazer?
  No me considero uma mulher frgida, mas no concebo sexo sem amor. Por
outro lado, sou suficientemente normal para no ficar sempre insensvel
s carcias de meu  marido. E esses desejos provocados mas no
satisfeitos me deixam com um sentimento de frustrao e angstia que s
vezes dura dias e dias.
  No creio que eu satisfaa Jango de maneira completa, pois nesses
minutos de contato carnal permaneo numa espcie de estado catalptico.
Ele, porm, nunca se queixou.  Jamais discutiu, nem mesmo indiretamente,
o assunto. O que ele parece querer mesmo  que na hora em que me deseja
eu esteja a seu lado, submissa. Um cavalo sempre  encilhado  porta da
casa, pronto para qualquer emergncia...
  Certas noites, na estncia, chego a desejar que ele volte to cansado
das lidas do dia que ao deitar-se durma imediatamente e me deixe em paz.
  H horas em que Jango est eufrico e outras - mais freqentes - em que
fica tomado dos seus "burros", como diz a Dinda. "O gnio do finado
Licurgo" - explica a  velha. As coisas do Angico o preocupam de maneira
obsessiva. Trabalha sem cessar de sol a sol. Suas mos so speras e
cheias de calos. Sua pele est ficando cada  vez mais curtida pelo sol e
pelo vento. Gosta de mandar. E, como acontece com a maioria dos patres,
acha que ningum sabe fazer nada, que os pees so "uns ndios  vadios".
 por isso que s vezes quer fazer tudo pessoalmente. No descobri ainda
por que trabalha tanto. No creio que enriquecer seja o seu objetivo
principal.  O poder poltico no o seduz. O social muito menos.
  428
  Que  que busca, ento? O Bandeira me deu sua interpretao: "Para o
Jango, o trabalho do campo  uma religio, com seus sacramentos, seus
pecados, seu ritual e  seu calendrio de santos e mrtires. Ele se
entrega ao seu culto com um fervor ortodoxo e quase fantico. O Angico 
a sua grande catedral. L esto as imagens de  Santa Bibiana, So
Licurgo, So Fandango..." Tio Bicho soltou uma risada e disse mais:
"Esse Savonarola guasca considera pagos os que no gostam da vida
campeira.  No se iludam: ele j nos queimou a todos na fogueira do seu
desprezo".
  1 de
  novembro
  
  Floriano escreveu a Jango dizendo que vir fazer-nos uma rpida visita
em fins deste ms, antes de partir para os Estados Unidos. A idia de
que ele vai encontrar-se  com a sua americana desperta em mim um leve e
tolo cime, do qual me envergonho. Afinal de contas Floriano  um homem
livre. Fao o possvel para esquecer certas coisas, mas  intil.
Relembro uma tarde do vero passado em que, num dos raros momentos em
que a Dinda afrouxou sua vigilncia sobre ns, Floriano me contou sua
aventura com essa estrangeira. Eu no lhe havia perguntado coisssima
alguma. Falvamos na guerra e na possibilidade de os Estados Unidos
entrarem no conflito... De repente Floriano desatou a lngua e, com essa
coragem meio cega que s vezes os tmidos tm, me narrou sua histria
com a americana em todos os seus pormenores, inclusive os de alcova. Eu
gostaria de ter visto minha cara num espelho naquele momento. Acho que
corei. A coisa me tomou de surpresa. No me foi fcil encarar F.
enquanto ele falava. Ao cabo de alguns minutos me refiz do choque e acho
que me portei como uma mulher adulta e "evoluda".  quase inacreditvel
que uma pessoa de tanta sensibilidade e malcia como Floriano tenha
cado na armadilha que lhe preparou a vaidade masculina. Fez questo de
me dizer - e mais tarde repetir - que havia satisfeito plenamente a
amante como homem. Talvez estivesse inconscientemente procurando me
despeitar com a narrativa de suas proezas sexuais. Era
  429
  como se dissesse: "Ests vendo agora o que perdeste por teres casado com
o Jango e no comigo?" Depois que nos separamos pensei melhor no assunto
e compreendi que no fundo daquela confisso o que havia mesmo era um
homem pouco seguro de si mesmo e de seus objetivos. E mais uma grande
solido agravada pela certeza de que aquela aventura de praia no tinha
nenhuma profundidade. Tive pena dele. Tive pena de mim. Perdoei-lhe e me
perdoei... no sei bem por qu.
  19 de novembro
  Sou agora uma espcie de confidente do Aro Stein. Est claro que no me
custa ouvi-lo. Pelo contrrio, fao isso com interesse. Esse homem tem
levado uma vida rica  de aventuras e paixo. Ponho paixo no singular
porque ele s tem uma: a causa do comunismo. O diabo  que no consigo
apenas escutar. L pelas tantas entro a sofrer  com o meu confidente, a
sentir nos nervos e na carne, bem como no esprito, suas dores e
misrias. Minha tendncia para querer bem s pessoas (estou aqui de novo
modestamente lembrando a mim mesma como sou boa, generosa e terna.  abre
muitas frestas no ao ou, melhor, na lata da armadura de egosmo com que
em geral costumo  andar protegida.
  Stein nos apareceu em fins de abril do ano passado. Era a primeira vez
que eu via um fantasma ruivo. Em 1937 chegou-nos a notcia de que ele
tinha sido morto em  combate na Guerra Civil Espanhola. A histria
depois foi desmentida, mas no ano seguinte correu como certo que ele
havia morrido de gangrena num campo de concentrao.  Bom, mas a verdade
 que o nosso Stein l estava  porta do Sobrado, apenas com a roupa do
corpo - velha, sebosa e amassada - e um livro debaixo do brao. Trazia
uma carta do padrinho Rodrigo, contando que tinha tirado aquele "judeu
incorrigvel" do fundo duma "cadeia infeta" do Rio, onde ele fora parar
depois de repatriado  da Espanha. No primeiro momento no o reconheci. O
pobre homem estava esqueltico, "pura pelanca em cima da ossamenta",
como logo o descreveu a Dinda. A cara 
  430
  marcada de vincos, plido como um defunto, encurvado como um velho, e com
uma tosse feia. Na sua carta meu padrinho pedia que dssemos um jeito de
hospedar Stein. Mas  Jango disse que no. "A troco de que santo vou
abrigar um inimigo debaixo do meu teto?" Tio Bicho salvou a situao,
acolhendo o velho companheiro em sua casa. Dentro  de poucas semanas,
com as sopas do Bandeira e os remdios do dr. Camerino, Stein pareceu
ressuscitar. A tosse parou. Suas cores melhoraram. Quanto s marcas que
o sofrimento lhe havia cavado na cara, essas ficaram.
  Arranjou um emprego de revisor numa tipografia, onde lhe pagam um
salrio de fome. Aos sbados  noite aparece com tio Bicho nos seres do
Sobrado. A Dinda continua  a trat-lo com a aspereza dos velhos tempos,
e com sua ironia seca e oportuna, mas desconfio que a velha tem pelo
"muulmano" uma secreta ternurinha. Sempre que  o v, a primeira coisa
em que pensa  aliment-lo com seus doces e queijos. Stein nunca recusa
comida. Parece ter uma fome crnica. O Jango, como eu esperava, trata-o
mal, faz-lhe todas as desfeitas que pode. Retira-se da sala quando ele
entra, no responde aos seus cumprimentos e jamais olha ou solta
qualquer palavra na direo  dele.
  Foi em algumas dessas noites de sbado do outono e do inverno passados
que Aro Stein me contou suas andanas na Espanha, como legionrio da
Brigada Internacional.  Tomou parte em vrios combates. Ferido
gravemente por um estilhao de granada, esteve  morte num hospital de
Barcelona. Depois da derrota final dos republicanos,  fugiu com um
punhado de companheiros para a Frana. Foi internado num campo de
concentrao onde passou horrores. Andava coberto de muquiranas, mais de
uma vez comeu  carne podre, quase morreu de disenteria e quando o
inverno chegou, para abrigar-se do vento gelado que soprava dos
Pireneus, metia-se como uma toupeira num buraco  que cavara no cho, e
que bem podia ter sido sua sepultura. Finalmente, repatriado, ficou no
Rio, onde se juntou aos seus camaradas e comeou a trabalhar ativamente
pelo Partido. Preso pela polcia quando pichava muros e paredes,
escrevendo frases antifascistas, foi interrogado, espancado
  431
  e finalmente atirado, com trinta outros presos polticos, num crcere
que normalmente teria lugar, quando muito, para oito pessoas. "Queriam
que eu denunciasse meus  camaradas - contou-nos Stein uma noite.
Estendeu as mos trmulas. - "Me meteram agulhas debaixo das unhas. Me
queimaram o corpo todo com ferros em brasa. Me fizeram  outras
barbaridades que no posso contar na frente de senhoras. Me atiraram
depois, completamente nu, numa cela fria e jogaram gua gelada em cima
de mim. Mas no  me arrancaram uma palavra. Mordi os beios e no
falei."
  20 de novembro
  Relendo o que escrevi ontem, penso no inverno de 1940, do qual guardo
to vivas recordaes. Vejo com a memria o Zeca, recm-chegado a Santa
F feito irmo marista,  muito compenetrado na sua batina negra... e
meio encabulado tambm, talvez temeroso de que ningum o levasse a
srio. Achei-o to parecido fisicamente com o pai,  que tive vontade de
me rir, pois a ltima coisa que a gente podia esperar na vida era ver o
major Torbio Cambar metido no hbito duma ordem religiosa. Pois l
estava o nosso Zeca a passear na frente do rdio, indignado, a
perguntar: "Mas e esse famoso exrcito francs no briga? Que faz o
Gamelin? Onde est o Weygand?"  Tio Bicho encolheu os ombros. "A Frana
est podre" - disse ele. Jango replicou: "Podre coisa nenhuma! Quando
vocs menos esperarem os nazistas esto cercados".  Mas a situao era
realmente negra. Em abril os exrcitos de Hitler tinham invadido e
conquistado a Dinamarca e a Noruega. Em maio, a Blgica, a Holanda e
Luxemburgo.  Nesse mesmo ms as divises blindadas alems rompiam as
linhas francesas em Sedan.
  As noites que me ficaram mais intensamente gravadas na memria foram as
de 28 de maio a 3 de junho: as da nossa "viglia de Dunquerque".
Escutvamos em silncio  as notcias da catstrofe e seguamos, com o
corao apertado, a narrativa da operao de retirada das tropas
inglesas, sob o fogo inimigo. Aquilo para ns era um  fim de mundo.
Jango estava alarmado, sentindo instintivamente
  432
   que os alicerces de seu mundo comeavam a desmoronar. Vivia ento
(como at agora) numa espcie de ambivalncia, porque se por um lado a
guerra oferece o perigo  remoto da vitria final do nazismo, por outro
apresenta oportunidades imediatas de bons negcios aos estancieiros, ao
comrcio e  indstria.
  O Liroca vinha muitas noites trazer-nos sua solidariedade de aliado.
Ficava no seu cantinho, olhando de um para outro, como esperando que
algum lhe desse uma injeo  de nimo. O dr. Carbone andava
desinquieto, cofiava a barba, cabisbaixo, envergonhado de saber que sua
ptria pertencia ao Eixo e podia a qualquer momento apunhalar  a Frana
pelas costas, o que de fato aconteceu dias depois. Suplicava que no
julgssemos o povo italiano por aqueles "porcos fascistas". Dona
Santuzza, essa vivia  com lgrimas nos olhos, pensando nos seus oito
irmos que estavam na Itlia, todos em idade militar.
  Eu sentia um frio na alma, um minuanozinho particular soprava dentro de
mim, gelando as minhas esperanas. S duas pessoas pareciam indiferentes
aos acontecimentos.  Uma era a Dinda, que se recusava a levar a srio o
que ela chamava de "guerra dos outros". As guerras dela tinham sido a do
Paraguai, a revoluo de 93, a de 23, a de 30 e as outras, isto , os
"barulhos" em que gente de sua famlia se tinha metido. Por que haveria
ela de preocupar-se com "briga de estrangeiro"?  O outro era o Stein,
que no cansava de repetir: " uma guerra de capitalistas. Ns os
comunistas nada temos com o peixe. Eles que se entredevorem!" Um dia
Jango  gritou-lhe que calasse a boca, Stein calou. Sentou-se ao meu
lado, como um menino que levou um pito do pai e vem queixar-se  me.
Cochichei: "Fique quieto. Guarde  essas suas idias para voc mesmo. E
no fica bonito a gente tocar flauta no funeral dos outros".
  Uma noite o dr. Terncio Prates e sua senhora vieram visitar-nos.
Chegaram de cara triste, falando baixo, como se tivessem vindo para um
velrio. As notcias continuavam  pssimas. Os nazistas estavam senhores
de quase toda a Europa ocidental. Dentro de poucos dias poderiam entrar
em Paris. O dr. Terncio sentou-se, soltou um suspiro  e disse: "Quando
os boches atacaram Ruo, no
  433
  sei por qu, tive a doida esperana de que o esprito de Joana d'Are
ressurgisse para guiar os exrcitos da Frana na expulso do invasor".
Tio Bicho soltou a sua  risadinha cnica: "As Panzer Divisionen, meu
caro doutor, foram construdas  prova de milagre".
  No dia em que Paris caiu, o dr. Terncio ficou to abatido que foi para
a cama, com uma pontinha de febre. Uma semana depois recebi uma carta do
padrinho, que dizia:   o fim de tudo. Se tivermos de viver num mundo
dirigido por esse alemo louco e sanguinrio, ento o melhor  morrer.
Mas esta parece no ser a opinio de certos  generais de nosso exrcito,
que festejam as vitrias da Wermacht na embaixada alem, com
champanhadas.
  Foi por aquela poca que, num dos nossos seres, tio Bicho leu em voz
alta o discurso que Getlio Vargas fizera recentemente a bordo do
couraado Minas Gerais. O  presidente afirmava que marchvamos para um
futuro diferente de tudo quanto conhecamos em matria de organizao
econmica, social ou poltica, e sentamos que  os velhos sistemas e
frmulas antiquadas entravam em declnio. Um dos trechos desse discurso
me assustou de tal maneira, pelo que tinha de extremista e imprevisto,
que cheguei a decor-lo: No , porm, como pretendem os pessimistas e
os conservadores empedernidos, o fim da civilizao, mas o incio
tumultuoso e fecundo de  uma era nova. Os povos vigorosos, aptos  vida,
necessitam seguir o rumo de suas aspiraes, em vez de se deterem na
contemplao do que se desmorona e tomba em  runa.  preciso, portanto,
compreender a nossa poca e remover o entulho das idias mortas e dos
ideais estreis.
  Terminada a leitura, o Bandeira disse: " um discurso nitidamente
fascista. O presidente v a balana da vitria pender para o lado dos
nazistas e j est preparando  a sua adeso ao Eixo..."
  Que pensaria padrinho Rodrigo de toda aquela histria? Dias depois
recebemos outra carta sua. Dizia: A princpio pensei em romper com o
Getlio por causa de seu  discurso visivelmente pr-Eixo, a bordo do
Minas Gerais, mas acontece que estou aprendendo a conhecer o nosso
homem. Ele  muito mais sutil do que seus atos e seu  prprio estilo
oratrio do a entender. A princpio me pareceu que, com esse
pronunciamento fascistide, ele se preparava para atrelar o Brasil ao
  434
  carro do nazismo. O discurso foi aparentemente uma resposta indireta ao
que o presidente Roosevelt havia pronunciado no dia anterior... Comecei
a perceber que o  nosso homenzinho est apenas marombando, "bombeando" a
situao mundial. No momento precisa contentar alguns de nossos
generais, que parecem fascinados pelos feitos  militares do exrcito
alemo. Mas no se iludam! O Getlio tambm confabula secretamente com
os americanos por intermdio do Aranha, que  aliadfilo. Fiquem certos
de que, na hora da deciso, nosso presidente far o que for melhor para
o Brasil.
  "Santa boa vontade!" - exclamou o tio Bicho, quando lhe mostrei a carta.
- "O presidente  um felizardo. Pode fazer ou dizer todos os absurdos
que no faltar nunca  um intrprete benvolo que o explique e
justifique."
  23 de novembro
  Ainda Stein. Essa criatura de Deus me preocupa. Deve estar sofrendo uma
crise de conscincia, algo de muito srio que ele no revela nem a esta
sua confidente. Quando  Trtski foi assassinado, ficou num desconsolo,
num abatimento que durou semanas. Tio Bicho lhe perguntou ento: "Tens
alguma dvida de que foi teu patro Stlin  quem mandou assassinar o
Trtski?" Stein no respondeu. Sentou-se no seu canto, os cotovelos
fincados nas coxas, as mos cobrindo a cara. Permaneceu nessa posio
quase uma hora, sem dizer palavra. Tio Bicho me contou que em 1939 Stein
ficou tambm chocado e desiludido com o pacto nazi-sovitico que
resultou no sacrifcio  da Polnia, mas, soldado disciplinado do
Partido, engoliu a amarga plula em silncio.
  Continua a afirmar que o Imprio Britnico est em agonia, e que sua
morte  questo de meses. Mas o fervor com que diz isso  apenas
aparente. No fundo me parece  meio desorientado, cheio de dvidas.
  No esquecerei nunca mais a noite em que Stein nos contou, exaltado, o
que sentiu quando viu e ouviu La Pasionaria, num dos primeiros anos da
Guerra Civil Espanhola.  Ela tinha vindo 
  435
  especialmente para dirigir a palavra aos legionrios da Brigada
Internacional. Falou do alto duma colina. Sentados ou reclinados a seus
ps, os soldados a escutaram.  Entardecia, e um sol fatigado de fim de
vero descia no horizonte. O que Stein nos disse foi mais ou menos o
seguinte: "A voz da Pasionaria primeiro me remexeu as  entranhas e fez
que eu me sentisse homem como nunca em toda a minha vida. Era o
privilgio dos privilgios, a honra das honras, a beleza das belezas
estar ali naquele  lugar, naquela hora e com aquela gente. Tnhamos
vindo de vrias partes do mundo para defender a Espanha Republicana e
com ela a idia universal dos direitos do  homem. E quando La
Pasionaria, com sua voz inesquecvel, declarou que ns ramos a flor da
terra, a conscincia do mundo; quando nos agradeceu por estarmos ali
como  hermanos, ajudando o povo espanhol e a causa da liberdade e da
justia social, senti que tinha atingido o momento mais belo, mais
glorioso da minha vida. A brava  guerreira estava de p no alto da
colina, e seu corpo recebia em cheio a luz do sol. Ah!, mas ns
sentamos que uma luz mais forte e mais clara nascia de seu ventre,  de
seus olhos, de sua boca, de seus seios, de seu corao. E essa luz nos
purificava! Ns ramos todos irmos e La Pasionaria era a nossa me. No
tenho vergonha  de confessar que chorei. Chorei de alegria, de orgulho,
de... de fraternidade. E ento senti que morrer uma vez s por aquele
ideal era pouco. Desejei ter cem vidas  para entreg-las todas  causa
republicana".
  Assistimos todos a esse arroubo quase mstico em respeitoso silncio.
Irmo Zeca pareceu-me comovido. Eu no vou negar que tambm estava.
Quando o Stein se calou,  tio Bicho mirou-o por alguns instantes e
depois soltou a sua farpa. "Como vocs vem, tenho razo quando afirmo
que mais cedo ou mais tarde tudo acaba virando religio.  Aro Stein,
nosso materialista dialtico, teve, naquela colina da velha Espanha, a
sua viso de Nossa Senhora."
  25 de novembro
  Quando em fins de junho deste ano os exrcitos nazistas invadiram a
Rssia, a atitude de Stein mudou por completo. O que
  436
  para ele tinha sido at ento uma luta de interesses capitalistas,
passou a ser uma guerra santa. Com a cara coberta pelas mos torturadas,
escutava taciturno as  notcias das primeiras vitrias alems em terras
da Unio Sovitica. Uma noite Liroca acercou-se dele e disse: "No se
impressione, moo. Lembre-se de 1812. Se Napoleo  Bonaparte no pde
com a Rssia, como  que o Hitler, esse cabo-de-esquadra vagabundo, vai
poder?"
  Numa outra ocasio em que o Stein falava na fatalidade da socializao
do mundo, declarando que achava legtimos todos os sacrifcios de hoje
para garantir a felicidade  da humanidade de amanh, eu lhe sussurrei:
"Posso te dizer uma coisa? Amas tanto a humanidade que no te sobra
muito amor para dares aos indivduos". Ele me lanou  um olhar perdido.
E em seguida, atribuindo a minhas palavras uma inteno que eu no lhes
quis dar, desandou a falar na me, justificando-se por t-la deixado s
e desesperada em Santa F, quando fora para a Espanha. Tratei de
tranqiliz-lo: "Mas eu sei! Eu sei! No precisas explicar nada. Eu
compreendo..." Ele, porm, continuou  a falar. Recordou sua infncia com
essa riqueza de mincia (principalmente para os fatos dolorosos) que em
geral o judeu intelectualizado possui mais que ningum.  Relembrou, numa
espcie de autoflagelao, todos os sacrifcios que a me fizera por
ele, todas as provas de amor que ela lhe dera - tudo isso para declarar
no fim  que no se arrependia de hav-la abandonado para atender a um
chamado de sua conscincia de comunista.
  Levantou-se bruscamente e, sem dizer boa-noite a ningum, deixou o
Sobrado.
  26 de novembro
  Floriano chegou. Tudo foi mais fcil do que eu esperava. Como tem
acontecido sempre que ele volta, encontramo-nos no vestbulo.
Abraamo-nos, ele me beijou de leve  a testa e os cabelos. No tivemos
tempo de trocar mais de duas frases. ("Fizeste boa viagem?" -
"Perfeita.") Porque a Dinda interveio, puxou F. pelo brao e levou-o
consigo para o fundo da casa.
  437
  E desde essa hora nos tem vigiado como um co de fila. Tudo faz para que
nunca fiquemos a ss. Noto que Jango tambm no se sente muito  vontade
com a presena  do irmo no Sobrado. Como conseqncia de tudo isso, F.
se mostra um tanto contrafeito. Disse que ficar em Santa F apenas uns
quatro ou cinco dias, e que desta  vez no ir ao Angico.
  28 de novembro
  Hora inesquecvel com Floriano, ontem, debaixo dos pessegueiros do
quintal. Uma conversa muito calma e amiga. Sentamo-nos no banco, lado a
lado. Eu tinha comigo um  prato e uma faca. Apanhei alguns pssegos
maduros e comecei a descasc-los. Nada mais natural. Notei que F. estava
inquieto. Eu no me sentia l muito tranqila,  mas acho que sabia
dissimular melhor que ele. Havia na tarde quente algo de perturbador. A
terra parecia uma pessoa que desperta lnguida duma sesta tardia. O sol
descia ao encontro da noite.
  Eu sabia que no amos ter muito tempo para o nosso dilogo. E era to
bom ter F. ali sentado ao meu lado! Sua presena tem para mim um poder
ao mesmo tempo excitante  e sedativo. Seu sensualismo deve estar
escondido a sete chaves, pois o que lhe aparece nos olhos  uma ternura
muito humana e tmida, como que envergonhada de si  mesma. Nunca
encontrei ningum que temesse mais que ele as situaes grotescas ou
ambguas. F. talvez no saiba, mas descubro nos seus silncios uma
grande eloqncia.
  Ofereci-lhe um pssego. Ele o aceitou e deu-lhe uma dentada distrada.
  Comecei a comer o meu, e durante alguns instantes de silncio pareceu
que estvamos ali s para comer pssegos.
  Foi F. quem falou primeiro. Procurou analisar as razes que o tinham
levado a aceitar o contrato que lhe oferecera a Universidade da
Califrnia. Perguntei: "Mas   preciso haver uma razo? No bastava a
curiosidade pura e simples de ver outras terras e outros povos? Ou o
mero desejo de variar?" F. replicou que sentia
  438
  que outros motivos, alm dos que eu mencionara, o impeliam para os
Estados Unidos. " talvez uma viagem  infncia e  adolescncia, uma
volta aos filmes da Triangle  e da Vitagraph... s revistas ilustradas
do reverendo Dobson... sim, e a O ltimo dos
  moicanos..."
  Ficou de novo calado, decerto mastigando lembranas junto com pedaos de
pssego. Perguntei perigosamente: "No seria tambm o desejo de
reencontrar aquela moa...  como  mesmo o nome
  dela?"
  Curioso, o mecanismo dessas nossas mentirinhas e hipocrisias cotidianas.
Ele funciona movido pelo combustvel de nossas vaidades, medinhos,
vergonhas, orgulhos e  tambm pelo hbito mecnico de dissimular. Eu bem
que me lembrava de todo o nome da americana: Marian K. Patterson, Mandy
para os ntimos. Conhecia o desenho de  seu rosto, o formato de seus
seios e de suas coxas, o sabor de seus beijos, o tom de sua voz e de
seus olhos. No me estimei por me ter portado como uma namoradinha
despeitada.
  Floriano respondeu apenas: "A ligao terminou em 1938. Mandy est hoje
casada. No existe mais nada entre ns".
  Apanhei outro pssego, como para mudar de assunto. Eu temia que algum
ou alguma coisa viesse perturbar nosso colquio, e me admirava de nada
ainda ter acontecido.  O casaro parecia
  morto.
  Floriano me falou de sua vida, de sua carreira, de suas dvidas, de sua
insatisfao com tudo quanto havia escrito at ento. Contou-me tambm
de seu novo romance,  cujos originais acabara de entregar ao editor: O
beijo no espelho.
  Eu esperava que F. me falasse tambm de seus problemas, dos resultados
de sua busca de razes sentimentais e de liberdade. Fiz sugestes nesse
sentido, mas ele desconversou  e entrou a desenvolver uma teoria, que me
pareceu interessante, a respeito das relaes dos homens de sua famlia
com a terra, isto , com Santa F e o Angico. O  que disse foi mais ou
menos o seguinte:
  "Suponhamos que esta terra, esta cidade, esta querncia seja uma
mulher... Pois bem. O Jango casou-se legitimamente com ela, ama a esposa
com um amor arraigado,  calmo e seguro de si mesmo.
  439
  No tem olhos para as outras mulheres, por mais belas que sejam. Seus
erros como marido so mais de omisso que de comisso. Se no d muito 
esposa  porque foi  criado na ignorncia de que um esposo pode e deve
tambm dar e no apenas receber. Tem um agudo senso de hierarquia.
Acredita que h bem-nascidos e malnascidos,  e sabe vagamente que Cristo
disse que sempre haver gente pobre na terra.  um marido autoritrio,
ciumento, exclusivista e conservador. No quer que a esposa converse
com outros homens nem que fume ou acompanhe a moda. Exige dela o recato
das damas de antigamente. Com isto quero dizer que repele com paixo no
s a idia da reforma  agrria como tambm a de qualquer inovao nos
hbitos de trabalho do Angico".
  Fez um parntese para esclarecer que eu, Slvia, no entrava na alegoria
como esposa do Jango. Ele se referia mesmo  terra. Sorri e no disse
palavra. O retrato  de Jango como "meu" marido estava saindo perfeito.
F. continuou:
  "J o velho Rodrigo  diferente. Casado com esta terra, sua enorme
vitalidade, sua imaginao, e seus apetites o impedem de manter-se fiel
 esposa legtima. Vive  com os olhos e os desejos voltados para as
outras mulheres. Teve desde a primeira mocidade uma amante espiritual e
longnqua: Paris. Mas sua grande traio, seu  grande adultrio se
consumou quando ele abandonou a esposa para ir viver com uma bela e
ardente morena, to inconstante e sensual quanto ele: a cidade do Rio de
Janeiro. Sem romper de todo com a esposa legtima, entregou-se a amante
e est sendo aos poucos destrudo por ela... Mas sempre que se sente
cansado dos ardores,  enganos e exigncias da concubina, volta para a
esposa legtima, que aqui est, paciente e silenciosa, a esper-lo
sempre de braos abertos. E em seu verde regao  ele retempera o corpo e
o esprito... para voltar depois para os braos trigueiros da amante".
  F. calou-se. Perguntei: "E o Eduardo?"
  "Ah! Esse  o jovem, imaturo apaixonado da terra. Sabe que seu amor 
ilegal perante as leis vigentes, mas decidiu enfrentar a situao com
coragem, e est esperando que se lhe apresente a oportunidade de
arrebatar a mulher dos braos do marido chamado legtimo, mas que para o
Edu no passa dum usurpador. Todo o
  440
  seu procedimento est condicionado a essa permanente idia de
ilegalidade. Sabe que a qualquer momento pode ser agredido pelo esposo,
que tem a seu favor a Lei e a polcia. No sabe nem sequer se a mulher o
ama, mas est disposto a fazer tudo, inclusive arriscar a prpria vida,
para conquist-la."
  Floriano ficou algum tempo pensativo, revolvendo na boca um caroo de
pssego. Depois disse:
  "O velho Babalo, esse  ao mesmo tempo marido, pai, fdho e irmo da
terra, que ele ama com um fervor quase religioso, sem jamais ter a
necessidade de proclamar ao mundo esse amor e essa fidelidade.  um
poeta  sua maneira rude. Um So Francisco de Assis leigo. Sim, e dotado
dum senso de humor, coisa que parece ter faltado  ao santo".
  Creio que foi nesse momento que a Dinda apareceu a uma das janelas do
casaro e olhou para o quintal. No nos pode ter visto, porque est
praticamente cega. Mas  tenho a impresso de que sentiu nossa presena,
ouviu nossas vozes. Continua a exercer sobre ns uma vigilncia to
implacvel, que chego s vezes a sentir-me culpada  de coisas que no
fiz. Eu ia escrever ainda no fiz. No. De coisas que nunca farei, haja
o que houver.
  Enquanto a velha permaneceu  janela, Floriano e eu ficamos calados,
quase contendo a respirao, como duas crianas que no querem ser
descobertas pelo dono do  pomar onde foram roubar frutas. Depois que a
Dinda desapareceu, murmurei: "Falta um Cambar na tua histria". F.
sorriu: "Ah! Esse  o forasteiro. O homem sem passaporte.  Sente que
amar, compreender e contar com o apoio dessa mulher  algo de essencial
para a manuteno de sua identidade e para a sua salvao como artista e
como homem.  No sabe ao certo se a ama nem se  amado por ela. S tem
uma certeza que ao mesmo tempo o anima e perturba: a necessidade desse
amor".
  Parti um pssego pelo meio e dei uma das metades a F. Pusemo-nos ambos a
comer. Era uma comunho. Um ato de puro amor.
  441
  2 de dezembro
  Floriano voltou para o Rio. O Sobrado de repente ficou vazio.
  7 de dezembro
  A notcia, ouvida atravs do rdio, tem quase a fora duma bomba. Avies
japoneses atacaram Pearl Harbor de surpresa e destruram vrios navios
de guerra americanos  que estavam ancorados no porto. Penso
imediatamente na viagem de Floriano. Agora que os Estados Unidos foram
empurrados para a guerra, o convite que lhe fizeram  para dar um curso
na Universidade da Califrnia talvez seja cancelado. No sei se essa
possibilidade me entristece ou alegra. Em todo o caso fico desgostosa
comigo  mesma por estar dando mais importncia  viagem de F. do que ao
ataque a Pearl Harbor e s conseqncias inevitveis desse ato de
traio.
  25 de dezembro
  Natal triste numa casa sem crianas. Jango no quis pass-lo conosco na
cidade. Deve estar se estonteando de trabalho no Angico.
  Alguns amigos aparecem. Comemos melancolicamente nozes, amndoas, avels
e passas de figo e uva. Bebemos um Moscatel. Penso nos tempos em que
todos os anos, nesta  noite, cintilava um pinheirinho na sala, e os
Schnitzler vinham cantar-nos suas canes.
  Stein me d uma surpresa: traz-me um presente, um belo livro com
reprodues em cores de quadros clebres. Passo-lhe um pito afetuoso,
porque ele ganha pouco e o  livro deve ter custado caro. Stein est
excitado. Vem nessa exaltao desde o comeo da batalha de Stalingrado.
Atravessou um perodo de negro pessimismo e desnimo.  Temi que ele
casse numa psicose manaco-depressiva. (A terminologia  do tio Bicho,
no minha, porque no entendo direito dessas coisas.) Hoje nosso
comunista est  conversador, ri com
  442
  espontaneidade, bebe, prope um brinde ao Exrcito Vermelho. Bebemos
todos, menos a Dinda, que no gosta de vinho e declara que nada tem a
ver com a Rssia. Stalingrado  ainda resiste, mas a batalha de Moscou
terminou com a vitria das tropas soviticas. "Stlin em pessoa comandou
a defesa" - repete Stein com orgulho. "Olhando" para  o pinheirinho
enfeitado que minha imaginao armou no centro da sala, penso seriamente
em adotar uma criana. Mas j sei que Jango no vai aceitar a idia.
Essa  adoo poderia parecer aos outros uma confisso de impotncia. E
isso  coisa que nenhum Cambar (nem mesmo o Floriano) jamais admitiria.
  1942
  4 de fevereiro (No Angico)
  Sonhei a noite passada com F. Como sempre, um sonho de frustrao.
Estvamos os dois, de noite, num grande jardim que era ao mesmo tempo um
labirinto. Um buscava  o outro, mas no nos podamos encontrar. De
repente ca numa cisterna(?) e estava me afogando quando acordei de
repente, assustada.
  So nove da manh. Jango saiu para o campo antes de clarear o dia. A
Dinda est na cozinha dando  cozinheira instrues para o almoo.
Caminhando dum lado para  outro debaixo dos cinamomos, na frente da casa
da estncia, esquadrinho a memria, buscando fragmentos do sonho. No me
lembro nunca de ter ouvido a voz de quem  quer que fosse num sonho. 
cinema mudo. Pura imagem. E  fantstico como essas imagens so fluidas,
como se fundem umas com as outras, mais indefinveis e inconstantes  que
nuvens em dia de vento. No sonho uma pessoa pode ser duas ao mesmo tempo
e juntas serem ainda uma terceira. Num certo momento Floriano era o dr.
Rodrigo - o  que me intrigava - e ento eu no queria que ele me visse,
pois o padrinho sabia que eu estava no jardim para me encontrar com F. E
eu me lembrava agora do
  443
  medo e do sentimento de culpa que sentia por estar ali quela hora (alta
madrugada) para me encontrar com um homem que no era o meu marido.
Pensava em desculpas:  "Mas no, padrinho, ele  mesmo meu irmo". E
ento de novo via Floriano, e ele me avistava, e nos aproximvamos um do
outro, mas l vinha um nevoeiro e os dois  acabvamos outra vez perdidos
e separados. Os momentos mais aflitivos do sonho eram aqueles em que eu
percebia que F. fugia de mim propositadamente. Desde os dias  da minha
infncia, F. foi sempre para mim "o que vai embora". Quando todas as
crianas do Sobrado estavam reunidas, brincando, ele cruzava sem nos
olhar e subia  para a gua-furtada. Depois veio a poca do colgio em
Porto Alegre. F. passava as frias de vero no Sobrado ou no Angico, e
depois de novo voltava para o internato.  Isso aconteceu muitas vezes...
Em 1930 ele se mudou para o Rio com o resto da famlia. No me lembro de
ter chorado tanto na minha vida como nesse dia. Finalmente,  de todos os
meus companheiros de infncia, os nicos que ficavam em Santa F era a
Alicinha e eu. Ela morta no seu mausolu. Eu triste na minha casa, que
de certo  modo era tambm um tmulo.
  (Aqui estou de novo manquejando como a Palmira, pedindo piedade e
esmolas a mim mesma.)
  Nos meus seis, sete, oito e nove anos, o que eu tinha vontade de dizer a
Floriano era: "Fica pra brincar com a gente". Quando comecei a ficar
mocinha, meu mpeto  era de lhe gritar: "Fica! Fica comigo!"Acontece que
"gozo" da reputao, talvez merecida, de ser uma pessoa silenciosa.
Tenho pago um preo alto pelos meus silncios.
  Agora me lembro dum grande dia. 1932. Eu tinha catorze anos. F. chegara
a Santa F, acompanhando a famlia, que vinha para as frias de vero.
Botei o meu melhor  vestido, pintei-me s escondidas de minha me, e me
toquei para o Sobrado. Faltou-me coragem para ir diretamente abraar
Floriano. Preferi que ele me encontrasse  "por acaso". (Nesse tempo eu
lia Delly, Ardei e Chantepleure.) Fui diretamente para o quintal,
sentei-me num banco, debaixo duma rvore, e ali fiquei numa pose de
retrato, esperando que alguma coisa maravilhosa acontecesse. E
aconteceu! F. surgiu
  444
  a uma das janelas dos fundos da casa e ficou me olhando por muito tempo.
Fingi que no o tinha visto, mas observava-o com o rabo dos olhos. Um
calor me subiu s  faces, me formigou no corpo inteiro. Senti-me meio
suspensa no ar. "Meu Deus! - dizia eu para mim mesma - meu Deus, no
deixe que este momento acabe. Um pouco mais,  s um pouco mais!" Acho
que foi nessa hora que avaliei o quanto amava Floriano. Ah!, mas eu o
considerava inatingvel. Era um homem de vinte e um anos e eu, uma
menina de catorze.
  18 de fevereiro (Ainda no Angico)
  Por que escrevo todas estas coisas que ningum, mas ningum mesmo dever
nem poder ler a no ser as outras Slvias? Aqui no Angico trago este
dirio escondido numa  cmoda antiga, da qual s eu tenho a chave. No
Sobrado este livro fica guardado no fundo de outra cmoda, dentro duma
caixa cuja chave por sua vez trago presa ao  pescoo por uma corrente,
como um escapulrio. Se Jango chegasse a ler estas confisses, eu
estaria perdida. A idia me assusta e ao mesmo tempo fascina. Ficar
completamente  perdida no ser o comeo da salvao? Tenho uma amiga
torturada por problemas conjugais que me confessou ter secretamente
guardado um vidro de Seconal. Diz ela:  "Quando a situao ficar
insuportvel, engulo vinte e cinco comprimidos da droga e est tudo
resolvido". No creio que jamais ela tente o suicdio. Mas a idia de
ter a chave da porta da liberdade deve ser-lhe esquisitamente agradvel.
Suicidar-se para ela seria tambm um meio de vingar-se do marido, que
lhe atormenta a vida.
  At que ponto escrevo este dirio num desafio ao meu marido, num obscuro
desejo de que um dia ele o descubra e leia, e a coisa toda se precipite
sem que eu tenha  a responsabilidade completa pelo desfecho? At que
ponto este dirio  o meu veneno?
  Mas eu j no escrevi que Deus  o motivo principal destas pginas?
  445
  7 de maro
  Eu gostaria de compreender melhor as outras pessoas. Seria um modo
indireto de me compreender a mim mesma. Gosto de gente. Desejo que os
outros gostem de mim. A  minha vida no teria sido, toda ela, uma busca
de amor? Quando penso nos dias da infncia, me vejo uma menininha de
pernas finas a caminhar pelas salas do Sobrado  atrs de algum,
pedinchando que me aceitassem... Se havia coisa que eu temia era no ser
querida. s vezes me envergonho um pouco dessa atitude canina: o
vira-lata  em busca dum amo.
  Por muito tempo dona Flora me deu as roupas e sapatos que iam ficando
pequenos demais para a Alicinha. Coisas de segunda mo. De certo modo a
menina pobre sentia  que o amor que lhe davam era tambm de segunda mo.
  Tudo quanto ficou escrito acima  um produto deste dia cinzento, que
parece aumentar a sensao de vcuo que esta casa, que tanto amei
noutros tempos, agora me d.
  8 de maro
  Gostamos de nos imaginar bons e generosos. Mas se nos debrussemos
sobre o poo de nossos sentimentos e desejos mais secretos, esse tnel
vertical onde se escondem  nossas maldades, mesquinhezas, egosmos e
misrias - estou certa de que no reconheceramos a nossa prpria face
refletida na gua do fundo.
  De vez em quando fao a experincia e sinto vertigens. Estou agora
debruada nas bordas do meu poo, fazendo uma sondagem no tempo.
  Quando Alicinha morreu, chorei a perda da amiga. Mas no momento mesmo em
que derramava as minhas lgrimas sinceramente sentidas, dentro de mim
uma voz diablica  me segredava: "Agora vais ser a filha predileta do
teu padrinho. E ficars com todos os brinquedos e roupas da Alicinha".
Esses pensamentos, que aparentemente aceitei  sem remorso no momento em
que me vieram
  446
   mente, me fazem mal hoje. Lembro-me de algo ainda mais terrvel. Se eu
invejava Alicinha no era apenas por ela ser filha de Rodrigo Cambar,
morar no Sobrado  e ter todos aqueles vestidos bonitos e a boneca grande
que falava. A menina Slvia invejava tambm a beleza de sua amiga, que
toda a gente elogiava. E quando a viu  no seu esquife, lvida,
esqueltica, horrenda, no pde evitar este pensamento: "Agora sou mais
bonita que ela".
  Todas estas lembranas me deixam perturbada. Se as menciono aqui no 
por masoquismo, mas com a inteno de fazer exerccios de sinceridade...
e de coragem. O poo  deve ter outras revelaes igualmente
terrificantes. Se eu ficar por muito tempo debruada nas suas bordas,
olhando para o fundo, posso acabar no desespero. Mas  sei que ser um
erro tentar entulhar o poo. Outro erro igualmente grande seria
"cultiv-lo" morbidamente. A soluo  ilumin-lo com a luz de Deus. E
ento suas  guas ficaro puras. Espero que um dia isso acontea.
  26 de maro
  Um sonho, que se repete com variantes, me tem perseguido e angustiado
nestes trs ltimos anos. Em essncia  isto: Homens que no conheo
esto empenhados em demolir  uma parede. Eu, imobilizada por
inexplicvel pavor, fico a olhar o trabalho, com o corao aos pulos. De
repente compreendo por que estou apavorada. Emparedado entre  aqueles
tijolos est o cadver duma mulher que "ajudei" a assassinar. Procuro
chamar-me  razo. No sou uma criminosa. No seria capaz de matar
ningum. No me  lembro das circunstncias do crime, mas aceito o fato
da minha cumplicidade e sinto que estou perdida. Acordo alarmada e no
consigo mais dormir. Levo algum tempo  para me convencer de que tudo no
passa dum sonho. A sensao de culpa, porm, permanece dentro de mim
durante quase todo o dia seguinte.
  A noite passada o sonho se repetiu. Voltei a uma casa que se parecia um
pouco com a penso onde vivi quatro anos em Porto Alegre, quando fazia o
curso da Escola  Normal. Uma velhinha
  447
  encurvada, com um xale sobre os ombros, aproximou-se de mim com um papel
na mo, dizendo: "Aqui est a conta que voc se esqueceu de pagar".
Olhei o papel: era uma  importncia absurdamente elevada. Respondi: "Mas
eu j liquidei essa conta! Estou certa que no lhe devo nada". A
velhinha sacudiu a cabea tristemente. Depois me  convidou a ir at o
quarto que eu ocupara no tempo em que fora sua hspede. Fui. Reconheci
os mveis. De repente meu corao comeou a bater com mais fora, porque
me lembrei(?) de que, debaixo das tbuas do soalho, jazia o corpo
mutilado duma mulher para cujo assassnio eu tinha contribudo duma
maneira para mim obscura. Como  sempre, eu no me lembrava dos
pormenores do crime, mas aceitava a minha culpabilidade. Acordei quase
em pnico. Creio que este foi o mais desagradvel de todos  os sonhos
pelo que teve de claro, e tambm pela intensidade de meu sentimento de
culpa.
  20 de
  maio
  Passei a tarde no Sutil com os velhos. Como os invejo! Levam a vida que
pediram a Deus. Sem compromissos mundanos, sem ambies, e possivelmente
sem temores. Decerto  aguardam a morte tranqilamente, como quem espera
a visita duma velha comadre. Amam o pedao de terra onde vivem, cercados
de rvores, flores e bichos... Sem telefone,  sem rdio, em suma, sem
essas mquinas que o velho tanto detesta. A guerra no chega a toc-los.
Babalo segue o noticirio dos jornais com certa curiosidade, mas  noto
que no acredita na metade das coisas que l. Um dia me disse: "
impossvel que exista no mundo tanta gente louca e malvada".
  Durante a visita pensei freqentemente em Floriano, por muitas razes,
mas especialmente por causa da luz da tarde. Meu amigo d sempre um
jeito de meter nas suas  histrias o outono, sua estao favorita.
Enquanto eu caminhava ao lado do velho Aderbal pelo Sutil,
freqentemente era a voz de F. que eu ouvia. "Que luz macia!  A paisagem
parece estar dentro dum enorme topzio amarelo. A gente v ou sente que
h tambm uns toques de violeta na tarde,
  448
  mas no sabe exatamente onde esto." Babalo me mostrou uma grande
paineira, no alto duma coxilha, tranqila no ar parado, pesada de flores
rosadas. O velho percebeu  o meu enlevo e disse: "Sabe o nome dessa
rvore? Bibiana Terra". Mostrou-me depois um jequitib alto e ereto:
"Esta  a velha Maria Valria". Levou-me a ver um ip  ainda novo: "Esta
 a Slvia". Olhou-me bem nos olhos e acrescentou: "Venha na primavera
para ver como voc fica bonita, toda cheia de flores amarelas".
  Mas a mais bela de todas as coisas era a prpria figura do velho
Aderbal, com suas grandes mos vegetais mas ao mesmo tempo to humanas,
sua pele tostada irm da  terra, e aqueles olhos que, de tanto olharem
os largos horizontes da querncia, pareciam cheios de distncias,
saudades e histrias. A gente custa a acreditar que  Aderbal Quadros
tenha sido o estancieiro mais rico da Regio Serrana. Dizem que perdeu
tudo que possua por falta de competncia administrativa misturada com
falta  de sorte e excesso de confiana no prximo. A meu ver, quem
explica melhor o fenmeno  o Floriano. "O velho nunca se sentiu bem
como homem de grandes posses. Sempre  achou o lucro indecente e a
distribuio de terras injusta. Tinha a vocao da pobreza. Foi ele
mesmo que, talvez inconscientemente, trabalhou para a prpria runa."
  Quando voltvamos para a casa, um crepsculo grave pintava de vermelho e
prpura o horizonte. A tarde parecia afogar-se em vinho. O velho Babalo
caminhava ao meu  lado mas calado, compreendendo decerto o que aquele
momento significava para mim. O ar era um cristal quase frio. Eu sentia
o silncio no s com os ouvidos, mas  tambm com os olhos, o tato e o
olfato, porque o silncio tinha um corpo, uma cor, uma temperatura, um
perfume...
  - Como vai essa tal de guerra? - perguntou o velho quando j entrvamos
em casa.
  Contei-lhe que a ofensiva russa em Krakov continuava vitoriosa. Ele
sacudiu a cabea lentamente. Dona Laurentina me presenteou com um cesto
cheio de bolinhos de  milho. Quando se despediu de mim, deu-me a ponta
dos dedos. Seu Aderbal me beijou a testa.
  449
  Bento me esperava no automvel,  frente da casa. Voltei para o Sobrado
com a alma limpa. Floriano costuma dizer que existem dias de duas, trs
e at quatro dimenses.  Nos de duas, quase morremos de tdio. Nos de
trs amamos a vida, vislumbramos o seu sentido, fazemos e criamos
coisas... Nos de quatro... bom, os de quatro so pura  magia. Passamos a
fazer parte da paisagem, quase atingimos a unidade com o cosmos.
  Tive hoje um dia quase quadridimensional. Que Deus abenoe esses dois
velhos. E no se esquea muito de mim.
   junho
  Estive relendo o que escrevi sobre minha visita ao Sutil, e me
recriminando por viver to longe da terra. Tenho feito esforos para
amar o Angico. Jango insiste  em dizer que eu detesto a estncia. No 
verdade. O campo me encanta: as coxilhas verdes, o cheiro da grama, os
claros horizontes, a sombra fresca dos capes, a  sanga com a
cascatinha, a sensao de desafogo que o descampado me d... Mas quando
comea a anoitecer fico tomada duma tristeza e dum sentimento de solido
to  grandes, que quase me ponho a chorar. Alm disso, no tenho
positivamente vocao para mulher de estancieiro.
  A idia dessa minha separao da terra no me  nada agradvel, e me d
a sensao de ser uma "filha ingrata".
  Curioso: minha me tinha uma pele um pouco cor de terra. Ela mesma era
uma terra triste e seca, que produzia frutos escassos e amargos.
  Por que escrevo estas coisas impiedosas? Elas me saem da pena
espontaneamente. No foram premeditadas nem desejadas. No me deixam
nada orgulhosa de mim mesma. Pelo  contrrio, me assustam, fazendo-me
ver as vboras que se retorcem no meu poo interior. Luto com o desejo
de arrancar fora esta pgina. Mas no. A pgina fica.   preciso
desmascarar a Slvia anglica. A imagem que pintei de mim mesma quando
adolescente no corresponde  verdade. Devemos ter a coragem de examinar
de quando  em quando
  450
   a coleo de faces que no usamos em pblico. A idia de bondade me
embriaga tanto quanto a da beleza. No me considero uma criatura m. Mas
quisera ser melhor,  muito melhor. Fico alarmada ante o aparecimento
sbito e indesejado dessa Slvia capaz de escrever uma pgina como esta.
  Aqui estou de novo a remexer no passado, a pensar num assunto que me tem
preocupado muito nestes ltimos cinco anos.
  Minha me era viva e muito pobre. Ganhava a vida como modista. Meu pai
morreu quando eu tinha apenas trs anos de idade e no deixou "nada a
no ser dvidas" como  mame no cansava de repetir. Cresci entre nossa
meia-gua e o Sobrado. O casaro dos Cambars, com todos os seus
moradores, divertimentos e confortos, me fascinava.  Para falar a
verdade, eu passava mais tempo aqui do que na minha prpria casa. Isso
irritava minha me, embora no fundo ela talvez tivesse um certo orgulho
de ver  a filha amiga dos filhos de um dos homens mais importantes de
Santa F. Um dia ela me disse: "Teu pai gostava tanto dos ricos e dos
poderosos, que no se sofreu  de convidar o dr. Rodrigo para teu
padrinho".
  Era uma mulher triste e amarga, de pele oleosa e voz lamurienta. Teria
sido prefervel que gritasse comigo, que batesse em mim, a viver
choramingando suas queixas,  falando em morrer e ameaando-me com o
abandono da orfandade completa. No me lembro de jamais t-la visto
sorrir. Costumava soltar longos suspiros que terminavam  num "Ai-ai, meu
Deus do cu!" Pedalava o dia inteiro, encurvada sobre a sua Singer, e em
geral entrava noite em fora a trabalhar. "Estou ficando cega - dizia s
vezes. - So estes panos pretos que me estragam a vista. Mas como  que
pobre vai comprar culos?" Essas coisas me doam, e tambm me
exacerbavam, fazendo que eu  detestasse cada vez mais minha prpria
casa.
  Lembro-me especialmente dos dias de chuva, em que eu andava dum lado
para outro, com bacias e panelas na mo para aparar a gua das goteiras.
Nesses dias midos  e cinzentos eu ficava encolhida num canto, como um
rato assustado, olhando para minha me, querendo pedir-lhe licena para
ir ao Sobrado brincar com Alicinha, mas  temendo a resposta negativa. O
som da chuva, o
  451
  rudo da mquina de costura, o cheiro de bolor da casa, os olhos da
minha me... Que tardes inesquecveis! s vezes eu ia para a janela,
encostava a cara na vidraa  fria e ficava olhando o rio vermelho e
encapelado que corria na sarjeta. Soltava nele meus navios de papel
imaginrios, pensando nos "meninos do Sobrado", e sentindo  aos poucos o
frio gelar-me os ossos.
  Releio o que escrevi. At aqui parece que nessa histria toda s existe
uma "vtima": a menina Slvia. S ela sofria. S ela era incompreendida.
Esforo-me para  sentir piedade pela minha me - no essa fria,
calculada piedade intelectual, resultado da conscincia dum dever - mas
uma piedade humana, quente, capaz de conduzir   compreenso e ao amor.
Procuro meter-me na sua pele, sofrer nas minhas costas as dores que a
lancinavam de tanto ficar encurvada sobre a mquina. Penso nas noites
de solido dessa mulher, viva aos vinte e cinco anos, dessa criatura
dotada dum temperamento cido, que uma vida difcil agravara. Mas no
posso evitar de pensar  que s vezes ela me impedia de ir ao Sobrado por
pura birra. No quero pensar isto, mas penso. Mais duma vez padrinho
Rodrigo ajudou minha me com dinheiro, cuidados  mdicos e remdios. Foi
ele quem custeou os meus estudos na Escola Normal. Minha me recebia mal
todos esses favores. (S percebi isso mais tarde, quando adolescente.)
Sempre que Alicinha me dava um de seus vestidos ou um par de sapatos j
usados, mame olhava para essas coisas e murmurava: " triste a gente
viver das sobras dos  ricos".
  S Deus sabe como eu desejaria ter outras lembranas da minha me. S
Ele sabe como anseio por am-la sem a menor reserva, de todo o meu
corao.
  Mas... vamos adiante. Tudo na minha casa me parecia pobre, triste e
feio. Os bicos nus de luz eltrica pendiam do teto na ponta de fios que
no vero se cobriam de  moscas. As paredes caiadas ficavam manchadas de
umidade no inverno. No havia nessas paredes um nico cromo. A cama de
ferro desengonada, coberta por uma colcha  de retalhos de cores escuras
ou neutras, mal cabia no cubculo que era o meu quarto de dormir.
Lembro-me de outras coisas: a tbua de cortar carne da cozinha, toda
lanhada de talhos
  452
  e sempre recendente a cebola. O fogareiro Primus, onde minha me
aquentava  noite as sobras do meio-dia. (Ah! Como eram patticas as
suas aordas!) As panelas de  alumnio amassado. As tbuas largas do
soalho, com grandes frestas por entre as quais a gente ouvia o rudo dos
ratos  noite.
  Para a criana que eu era, naquela casa s existia uma Coisa bonita e
luminosa: a fotografia de meu pai, que eu tinha perto da cabeceira da
cama. Papai no devia  ter mais de trinta anos quando tirou aquele
retrato, pouco antes de morrer. Eu o achava um homem maravilhosamente
belo. Tinha um sorriso cativante, uma testa alta,  uma cabeleira negra e
abundante, olhos meio enviesados e escuros, e um bigode preto. Eu o
achava to parecido com John Gilbert, que comecei a colar num caderno
todas  as fotografias desse ator de cinema que eu encontrava em
revistas. s vezes pedia a mame que me contasse histrias sobre meu
pai. Ela no respondia ou ento resmungava:  "Boa bisca", e no dizia
mais nada. Essa expresso no tinha nenhum sentido para a menina de seis
anos. Por volta dos onze encarreguei-me de suprir com a imaginao  a
biografia que mame me negava. Meu pai era marinheiro (sempre tive
fascinao pelo mar, que at hoje no conheo), viajava principalmente
no Mediterrneo, tinha  amigos em Malta, Creta e Chipre, usava um brinco
na orelha e vendia belos panos de brocado de ouro, e pedras preciosas.
Um dia, caando na ndia, caiu do seu elefante  e foi devorado por um
tigre-de-bengala. Eram histrias como essa que eu contava s minhas
colegas na escola. Mas no ousava repeti-las aos "meninos do Sobrado".
  Certa vez acordei em plena madrugada e ouvi o rudo da Singer. De
repente a mquina cessou de rodar e um outro som me chegou aos ouvidos e
me cortou o corao. Mame  chorava aos soluos. Era inverno, o vento
entrava pelas frestas das portas e janelas, e fazia muito frio dentro de
casa. Cobri a cabea com a colcha e comecei a  chorar de pena de minha
me.
  Entre os "moradores" de nossa casa havia um que me intrigava. Era o
manequim em que mame ajustava os vestidos que fazia. Aquela "mulher"
sem braos, sem pernas  nem cabea me
  453
  assustava um pouco. Acho que esse medo me vinha da histria que eu
ouvira contar recentemente dum homem que matara e esquartejara a prpria
esposa, metendo seus  pedaos dentro duma mala. O manequim na minha
imaginao passou a ser a mulher esquartejada.
  Jesus! Mas como foi que no pensei nisto antes? Aqui est talvez a
explicao de meu sonho da outra noite. Clarssimo como um dia de sol! A
penso para onde voltei  era a minha prpria casa. A velha que me
cobrava a dvida, era a minha prpria me, pois ficou em mim a idia de
que ela sempre me considerou uma filha ingrata,  achando que no lhe
paguei por tudo quanto fez por mim. Naturalmente eu tambm acho que a
dvida no foi inteiramente paga, pois do contrrio o sonho no me teria
deixado um tamanho sentimento de culpa. Tenho vivido todos estes anos
preocupada pela idia de no ter retribudo com amor  minha me pelos
seus "sacrifcios" (a  expresso era dela, e eu a ouvi mil vezes).
"Quando nasceste, tive eclampsia, quase fiquei aleijada." - " pra te
sustentar que me mato em cima desta mquina."
  Agora que entrei nestas funduras, o melhor mesmo  ir at o fim.  bem
possvel que, nos ltimos anos de sua vida, quando ela estava em cima
duma cama, paraltica  da cintura para baixo, choramingando,
queixando-se, exigindo constantemente a minha presena -  bem possvel
que nessas medonhas canhadas do esprito, nesses infernos  que esto
dentro de ns, eu estivesse alguma vez desejando que minha me morresse,
e que toda aquela horrvel situao terminasse. A mulher morta dos meus
sonhos,  para cujo "assassnio" eu de algum modo havia contribudo, era
a minha prpria me. Quando adolescente devo t-la enterrado
simbolicamente nas paredes sepulcrais  de nossa casa. (Li aos treze anos
o Gato preto de Pe.) Ou debaixo das tbuas do soalho. (Ainda Pe: O
corao revelador). E agora me ocorre que a mulher mutilada  era o
manequim, que tantas vezes identifiquei com minha prpria me.
  Estou confusa e comovida. Para um dia s, basta! Faz horas e horas que
estou escrevendo, e a mo me di. S a mo?
  454
  4 de junho
  Quando mame morreu, meus olhos permaneceram secos. Eu, que me comovo
com facilidade com as histrias tristes imaginrias que leio em romances
ou vejo no cinema,  no tive lgrimas para chorar a morte da criatura
que me deu o ser. O que senti foi uma espcie de alvio, mas um alvio
doloroso, desses que dilaceram o peito.  Tudo isso, como  natural,
aumentou meu velho sentimento de culpa, que se agravou mais tarde quando
verifiquei que no sentia falta dela. Foram dias terrveis, aqueles!
Jango fez o que pde para me ajudar, mas meu marido  desses homens que
s tm solues para problemas prticos e concretos. Nesse tempo eu
estava grvida de trs  meses. Rezava para que a criana nascesse
perfeita e fosse uma menina. Ia pr-lhe o nome de mame: Elisa. Trataria
de dar  criaturinha, em dose dobrada, o que eu  devia ter dado mas no
dera  minha me. Mas perdi a criana. Vi nisso um pronunciamento
divino. Foi no nevoeiro desse perodo crtico da minha vida que Deus
tornou  a desaparecer.
  6 de junho
  A noite passada tive uma conversa privada com irmo Torbio. Contei-lhe
de meus sonhos e da interpretao que lhes dei. Ele fez uma careta,
encolheu os ombros e  disse apenas: "Pode ser..." E em seguida tratou de
me consolar. "Mas Slvia, eu sei, todo o mundo sabe que foste incansvel
com tua me. No saas do lado dela.  Passava noites em claro  sua
cabeceira. Que mais pode uma criatura humana fazer por outra?"
  Consegui resumir meu problema numa frase: "Eu queria ter feito por amor
o que s fiz por um sentimento de dever.  isso que me di".
  O Zeca me olhou intensamente e depois perguntou: "H quanto tempo no te
confessas?" Respondi: "Eu tinha dezesseis anos a ltima vez". - "Por que
no te confessas  agora?" - "Com o padre Josu? Acho que o coitadinho
no ouve direito o que a gente
  455
  diz. E se ouve no entende." Irmo Torbio apalpou o seu crucifixo:
"Algum mais estar tambm te escutando. E esse Algum ouve e
entende..."
  Ficou algum tempo em silncio, com os olhos cobertos pelas mos. Depois,
em voz muito baixa e lenta, disse: "Eu tambm tenho c os meus
problemas. A ti posso contar...  Sinto remorsos do modo como sempre
tratei a minha me. Eu me envergonhava de ser filho duma lavadeira... E
quando descobri que era filho natural, revoltei-me contra  ela e no
contra meu pai. E agora que compreendo melhor a situao, a velha no
est mais aqui para eu lhe pedir perdo, para lhe dar o carinho que ela
merecia e  que eu lhe neguei. O que me levou para a Sociedade de Maria
deve ter sido o desejo de ser filho da mais pura das mes".
  Olhei para o Stein e pensei comigo mesma: "Trs matricidas".
  1 de julho
  A histria de minha me volta a me perseguir. Irmo Torbio vem almoar
conosco. As laranjas e bergamotas do Sobrado esto maduras. Convido o
velho amigo a descer  ao quintal para apanhar umas frutas. A princpio
ele franze a testa, decerto achando estranho o convite. Depois,
compreendendo a minha inteno, sorri e me segue.  Levamos um pequeno
balaio e comeamos logo a trabalhar, dando a impresso de que discutimos
apenas bergamotas e laranjas. Conto a Zeca algo que ainda no contei  a
ningum.
  Eu idolatrava meu pai, que para mim era uma fotografia e uma fantasia
dourada. Um dia minha me me fez algo de cruel. Foi em fins de 1931,
creio... Como eu lhe tivesse  dito que meus sapatos estavam com as solas
furadas e que naturalmente precisvamos comprar um par novo, ela fez um
sinal com a cabea na direo do retrato e, com  fel na voz, disse: "Vai
pedir ao teu maravilhoso pai que te d dinheiro. Vai... Ele  o bom, o
bonito, o inteligente, o tudo. Ests com treze anos, acho que j 
tempo de saberes quem foi mesmo esse homem". Ps as mos na cintura e me
encarou. Recuei para um canto, encolhida, com medo de ouvir
  456
  o que ela ia dizer. "Pois era um vadio sem serventia pra nada. Escolheu
a profisso de caixeiro viajante pra poder andar na vagabundagem, de
cidade em cidade, nas  suas farras. Passava meses sem aparecer em casa.
E se tu pensas que me mandava algum dinheiro para te sustentar, te
comprar roupas, ests muito enganada- Gastava  tudo que ganhava com
essas ordinrias, nas penses. Devia ter uma amante em cada cidade."
  Eu tremia, queria pedir a mame que no dissesse mais nada, mas a emoo
me amarrava a lngua. Ela continuou a me martelar sem piedade: "Ah! Todo
o mundo achava  teu pai simptico. Tinha lbia, falava bonito, sabia
contar anedotas, recitava poesias, tocava violo, trajava como um dndi.
A antiptica era eu, que vivia me massacrando  em cima da mquina de
costura. Pois fica tu sabendo que teu pai no prestava pra nada!"
  Fez-se um silncio. Quando pensei que a histria tinha acabado, veio o
golpe maior: "Antes que venhas a saber da coisa por outra pessoa, 
melhor que eu te conte...  O teu pai deu um desfalque na firma. No foi
pra cadeia graas ao dr. Rodrigo Cambar, que reembolsou o dinheiro 
companhia. Teu belo pai era um ladro!"
  Sa correndo da sala, desfeita em pranto.
  Irmo Torbio escutou a histria em silncio. Durante toda a minha
narrativa no tnhamos parado de trabalhar. O balaio estava quase a
transbordar de laranjas e  bergamotas. Voltamos com ele para casa,
devagarinho. Paramos por um instante ao p da escada de pedra e eu
disse: "Desde aquela hora no quis mais a fotografia de  papai perto da
minha cama. Um dia o retrato desapareceu. Acho que mame se encarregou
de dar o sumio nele. No  mesmo uma coisa triste? O que eu no daria
hoje  para encontrar essa fotografia!
  Zeca sacudiu a cabea: "Santo Deus, as coisas que a gente no sabe nem
imagina! Pensei que tivesses tido uma infncia feliz".
  Tornei a falar: "O curioso  que no sofri demais por causa daquela
revelao. Tu sabes, estava ficando mocinha, pensando em mudar o
penteado, pintar o rosto, calar  sapatos de salto alto... E
  457
  no te esqueas de que j ento eu me considerava filha do dr. Rodrigo
Cambar. Quem poderia desejar um pai melhor?"
  "Mas achas que essa coisa no te deixou nenhuma marca?" - perguntou
Zeca.
  Respondi: "Um talho pode no doer muito na hora em que  produzido, mas
deixa uma cicatriz que, bem ou mal, a gente carrega vida em fora... Uma
cicatriz que em certos  dias comicha e nos leva a pensar na pessoa que
nos feriu".
  "Ainda com rancor?"
  "No, Zeca, mas com uma enorme tristeza. Porque no podemos deixar de
perguntar a ns mesmos se a ferida era necessria. "
  23 de julho
  A conversa que tive com irmo Torbio esta manh me deixou pensativa. A
coisa se passou assim: Como eu tivesse criado coragem suficiente para
lhe dar a entender  que padrinho Rodrigo de certo modo me havia
decepcionado, depois de sua mudana para o Rio, Zeca me disse: "H dias
me contaste como tua me destruiu a imagem ideal  de teu pai que tinhas
no corao. Agora me contas de tua desiluso com o teu pai adotivo...
Est claro que desde menina tens andado em busca dum pai. Viste no dr.
Rodrigo o pai quase perfeito, tanto fsica como moralmente. Ser preciso
que te abra os olhos para o fato de que durante toda a tua vida o que
tens buscado mesmo  Deus? Est claro que precisamos de pais no tempo e
no espao deste mundo. Porm, mais cedo ou mais tarde, por uma razo ou
por outra (ou sem nenhuma razo) eles nos decepcionam... E no os
podemos censurar por isso, porque no fim de contas so humanos como
ns..." Irmo Torbio ergueu-se, me olhou firme com aqueles olhos que
numa hora so doces e meio tristes e noutra quase selvagens, e exclamou:
"No compreendeste ainda que o nico pai que jamais te abandonar e
jamais te decepcionar  Deus? Pensa nisso! Pensa nisso!"
  458
  25 de julho
  Recebi ontem um exemplar do livro de Floriano, que acaba de ser
publicado. A dedicatria  simples, mas para mim diz muito: Para a
Slvia, velha amiga, afetuosamente.  Velha amiga.  isto que quero ser.
Agora e sempre. Amiga no sentido mais profundo da palavra.
  J comecei a ler a novela com o encanto com que leio tudo quanto F.
escreve. No posso ser uma crtica imparcial duma pessoa que estimo
tanto. Enquanto leio a histria,  tenho a impresso de estar ouvindo a
voz do autor. E fico assim meio apreensiva, como uma me que v o filho
recitar em pblico. Medo de que ele esquea o verso.  Medo de que "faa
feio". Medo de que os outros no gostem...
  27 de julho
  Terminei de ler O beijo no espelho.  a histria dos amores apaixonados
dum homem por quatro mulheres (uma de cada vez) em diversas idades: aos
catorze anos, aos  dezoito, aos vinte e quatro e aos trinta e dois. O
autor procura mostrar que todos esses amores foram sinceros. Parece
querer provar que todo o amor  basicamente  narcisista. O homem est
sempre em frente do espelho. E quando beija a sua amada  a si mesmo que
ele beija. A histria foi inspirada por um poema de Mrio Quintana  que
lhe serve de epgrafe.
  Perguntas que me fao: Ser que Floriano acredita mesmo na sua prpria
tese? At que ponto o romance  autobiogrfico?
  28 de julho
  Ontem  noite discuti o livro de F. com tio Bicho, que tambm j o leu.
Pergunto-lhe que achou da histria e da tese. Resposta: "Gosto mais do
poema do Quintana".
  Nunca sei quando o Bandeira est falando srio ou apenas fazendo blague.
Digo-lhe que gostei do romance. Tio Bicho encolhe
  459
  os ombros e declara que achou as personagens falsas: tteres sem sangue,
sem vida prpria, bonecos que apenas movem a boca. A voz que se ouve 
sempre a do autor.  E depois - acrescentou - essas personagens aparecem
num vcuo, fora do tempo e do espao.
  Repliquei que no concordava com sua crtica. Ele sorriu, dizendo: "Est
claro. Toda a crtica, quando favorvel,  tambm um beijo no espelho".
  Estas palavras me deixaram perturbada. Quis pedir uma explicao, mas
no tive nimo, temendo o que pudesse vir. E mesmo porque, a essa altura
de nosso dilogo,  o Jango tinha comeado a prestar ateno no que
dizamos.
  Mais tarde, Bandeira voltou ao assunto: "Queres saber qual  o problema
do Floriano como escritor?  proprietrio duma rica mina, mas no a
explora em profundidade.  Trabalha a cu aberto, contentando-se com o
medocre minrio da superfcie. Se ele cavasse nas entranhas da terra,
estou certo de que encontraria os mais ricos metais.  Talvez nem ele
mesmo possa avaliar a riqueza de sua mina. Seu medo das cavernas, dos
labirintos escuros das almas, o mantm na superfcie da vida e dos
seres. O  nosso querido amigo  o homem do sol".
  Fui dormir pensando nestas palavras.
  30 de julho
  Irmo Zeca me trouxe recortes de jornais e revistas catlicos com
crticas sobre O beijo no espelho. Os crticos so unnimes em condenar
o que chamam de "preocupao  ertica do autor". Um deles chega a
classificar a histria como pornogrfica. Zeca, que leu o romance, est
indignado. "Quando  que esses imbecis vo compreender  que o pecado da
carne no  o mais grave aos olhos de Deus? E que um escritor no pode
fechar os olhos a esses problemas do sexo, que so uma das fontes mais
infernalmente  ricas de dramas, conflitos e neuroses? Infelizmente essa
tambm  a atitude de grande nmero de sacerdotes catlicos. Parecem
achar que basta a uma pessoa no cometer  adultrio e no pecar contra a
carne para ter
  460
  sua entrada garantida no Reino dos Cus. (Nas suas horas de indignao
Zeca, mais que nunca, fica parecidssimo com o pai.) Conheo verdadeiros
monstros que so  castos. Famigerados bandidos que nunca traram as
esposas. E depois, olhem o estado do mundo. O grande pecado do sculo 
a maldade, a violncia, a crueldade do  homem para com o homem, o
genocdio... As massas vivem na misria e ns aceitamos pacificamente
essa situao. Hitler mata milhes de criaturas inocentes e ns nos
indignamos menos com tudo isso do que com a atividade sexual das
personagens duma novela! Os campos de concentrao na Europa esto
cheios... O extermnio frio e  calculado dos judeus continua... Por que
nossos sacerdotes e nossos lderes catlicos leigos no se preocupam
mais com essas monstruosidades do que com o erotismo  na literatura?"
Tio Bicho interrompeu-o: "Porque a Igreja, meu caro, quer estar sempre
do lado dos vencedores, numa neutralidade que lhe torna possvel a
sobrevivncia  dentro de qualquer regime poltico". Zeca saltou: "A
Igreja no! Alguns de seus prncipes, sim. Conheo cardeais, arcebispos
e bispos que no considero verdadeiros  religiosos, mas sim polticos,
na pior acepo do termo. Tm a volpia dos uniformes, das paradas, das
condecoraes, dos banquetes, do prestgio social, das honrarias
mundanas... Babam-se de gozo na presena de presidentes, senadores,
milionrios, generais, comendadores... Tm verdadeiro horror ao povo, 
plebe. E a todas essas  se afastam cada vez mais de Cristo.
  2 de agosto
  Que  que a Dinda pensa de mim? Que  que sente por mim?
  Nunca vi essa criatura seca de corpo, de palavras e gestos acarinhar
qualquer dos sobrinhos. Quando eu era menina, ela me tratava como s
outras crianas da casa,  nem melhor nem pior. Estava sempre mais pronta
a me criticar do que a me elogiar. Sunga esses carpins, menina!" - "V
lavar essa cara!" - "No coma to ligeiro!"
  461
  Num destes ltimos seres de sbado, vendo dona Maria Valria atravessar
a sala, tesa e de cabea erguida, Roque Bandeira cochichou ao meu
ouvido: "L vai a Pucela  de Santa F..." E eu terminei a frase: "...na
sua armadura negra".
  Discutimos depois a Dinda em voz baixa. Tio Bicho, que parece ter uma
grande ternura pela Velha, definiu-a numa frase que para mim foi uma
revelao. "Para dona  Maria Valria, amar  sinnimo de servir."
  Depois falamos sobre as relaes da Dinda com o Tempo. Acho que em sua
cabea o tempo do relgio e o do calendrio se misturam com o
atmosfrico e juntos formam  uma entidade fantstica e poderosa, que
dirige a nossa vida, os nossos atos cotidianos e at o nosso destino. 
a Dinda quem acerta o relgio grande de pndulo e  lhe d corda. Agora
que no enxerga mais, faz isso pelo tato. Uma vez me disse que o relgio
 o corao da casa, e se ele parar o Sobrado morre. Claro que
pronunciou  estas palavras quase a sorrir, mas desconfio que no fundo 
isso mesmo que ela pensa ou, melhor, sente. Fala do relgio grande como
duma pessoa, a mais antiga da  casa - um patriarca, um tutor, um juiz. 
ele que diz quando  hora de comer, hora de trabalhar, hora de
descansar, hora de dormir, hora de levantar da cama.
  A Dinda est sempre atenta s passagens das estaes. H o tempo de ir
para o Angico. O tempo de voltar do Angico. Tempo de fazer pessegada.
Tempo de comer pessegada.  Tempo de plantar. Tempo de colher.
  Um dia, fitando em mim aqueles olhos cujos cristalinos a catarata velou
por completo (e que parecem duas ostras mortas nas suas conchas
abertas), ela me disse: "Acho  que o relgio e o calendrio se
esqueceram do meu tempo de morrer".
  Conto a Bandeira uma fascinante teoria da Dinda. Na verdade a idia  da
velha Bibiana. Mais ou menos assim: O tempo  como um barco a vela. Nos
dias em que o vento  sopra pela popa, o tempo anda depressa. Mas quando
o barco navega contra o vento, ento as horas parecem semanas e os
meses, anos.
  Tio Bicho gostou da teoria, sorriu e prometeu escrever um ensaio a
respeito. Citando a velha Maria Valria, naturalmente...
  462
  10 de agosto
  Nosso grande Liroca aparece todos os sbados  noite no Sobrado e, como
um namorado lrico, me presenteia sempre com uma flor.
  Irmo Torbio, que tambm no falta aos seres semanais, no vem nunca
de mos vazias. A flor que ele me traz  invisvel para os outros. Como
um moo de recados  de Deus, ele deposita no meu regao a rosa mstica
da f.
  23 de agosto
  O Brasil declarou guerra s potncias do Eixo. A cidade est agitada.
Estouram foguetes. Grupos andam pelas ruas com bandeiras, cantando
hinos, gritando vivas e  morras. A coisa toda comeou com um carnaval,
mas  medida em que as horas passavam, se foi transformando em algo de
srio. Duma das janelas do Sobrado vejo, horrorizada,  um grupo de
populares atacar o Caf Poncho Verde com cacetes, pedras e barras de
ferro. Os guardas municipais assistem  cena de braos cruzados. Os
manifestantes  comeam partindo as vidraas das janelas, depois entram
no caf e pem-se a quebrar espelhos, cadeiras, mesas - tudo isso em
meio duma gritaria selvagem. A praa  est cheia de gente. Os moradores
das casas vizinhas vieram para suas janelas. O quebra-quebra dura mais
de meia hora. Alguns assaltantes saem de dentro do caf  com braadas de
garrafas de cerveja e vinho, latas de compota, presuntos, salames...
Ficam a comer e a beber no redondel da praa.
  Contaram-me depois que a multido desceu pela rua do Comrcio e foi
quebrando pelo caminho as janelas de todas as casas pertencentes a
famlias de origem alem.  Nem os Spielvogel nem os Kunz - que so
reconhecidamente antinazistas - foram poupados. Algum sugeriu que
empastelassem a Confeitaria Schnitzler. Ouviu-se uma voz:  "No! O
Schnitzler  dos nossos!" - "Qual nada!" - berrou outro. - " alemo t
basta." A multido comeou a entoar o Hino Nacional e a dar morras ao
nazismo. O caie
  463
  foi invadido. Schnitzler mal teve tempo de fugir pelos fundos da casa
com a famlia. Seus mveis foram tirados para fora e amontoados no meio
da rua. Algum jogou  em cima deles o contedo duma lata de querosene e
depois prendeu-lhes fogo. Dentro da confeitaria no ficou um vidro
intato. Ao anoitecer os manifestantes ainda  andavam pelas ruas, em
pequenos grupos. Dizia-se que procuravam o Kern, o chefe nazista local,
para dar-lhe uma sumanta.
  Jango aprovou todos esses atos de violncia. Justificou-se: "Eles
puseram a pique os nossos navios, mataram patrcios nossos". No me
contive e repliquei:   quem? Os Kunz? Os Schnitzler? Os
Spielvogel?" Jango, excitado pelo "cheiro de plvora" que andava no ar,
perdeu a pacincia: "Tu no entendes dessas coisas. Cala  a boca". Ficou
ainda mais irritado quando desatei a rir (um riso forado de atriz
amadora) e lhe disse: "Tu me mandas calar a boca ditatorialmente e no
entanto detestas  o Hitler porque ele  um ditador".
  Pouco depois apareceu-nos o Stein. Lamentou todas aquelas violncias sem
propsito prtico, toda aquela energia agressiva do povo to mal
dirigida. Contou que constava  na cidade que Jos Kern havia fugido para
a Argentina.
  S  noite  que patrulhas montadas da polcia saram  rua para
restabelecer a ordem na cidade. A batalha de Santa F estava terminada.
  26 de agosto
  Trecho de conversa dum sero de inverno. Garoa l fora. Vidraas
embaciadas. Estamos na sala de jantar. Dinda sentada na sua cadeira.
Jango lendo um jornal junto  da mesa. Uma panela cheia de pinhes
cozidos em cima dum braseiro. Uma estufa de querosene, com uma chaleira
com gua fervendo em cima, para tirar a secura do ar.  Enquanto os
outros tomam licor de buti e discutem a guerra, irmo Torbio e eu, a
um canto da sala, conversamos sobre os problemas da f. Falo-lhe de meus
momentos
  464
  de dvida e desesperana. Ele me escuta em silncio, a testa franzida,
mastigando um pinho e olhando para as suas botinas pretas de bicos
esfolados. Quando me calo,  ele diz: "O fato de acreditarmos em Deus no
elimina necessariamente todas as nossas dvidas a respeito da vida e
mesmo do prprio Criador. Eu c tenho as minhas  'diferenas' com Deus.
Qual  o filho que no briga de vez em quando com o pai? Isso significa
que ele deixa de amar o Velho? Ou que cessa de acreditar na sua
existncia?  Ou na sua bondade? Est claro que no. E vou te dizer outra
coisa importante".
  Levantou-se, aproximou-se da panela, apanhou outro pinho, descascou-o e
ficou a com-lo com ar distrado, como se tivesse esquecido do que ia
dizer. Depois tornou  a sentar-se a meu lado e disse baixinho: "Olha. Os
grandes arranha-cus tm a capacidade de oscilar com o vento... Sabias?
Pois . Se no oscilassem, viriam abaixo.  Assim  a f. Uma f dura e
inflexvel pode transformar-se em fanatismo ou ento quebrar-se. A f
que se verga como um junco quando passam as ventanias, essa resiste
intata. Portanto, no te preocupes. Continua a duvidar. Deus est
acostumado a essas nossas fraquezas".
  14 de setembro
  O vento da primavera soprou para Santa F outro fantasma do passado: don
Pepe Garcia, o pintor espanhol, autor do retrato do padrinho. Est uma
runa. Bateu  nossa  porta e, com ar dramtico, pediu uma cdea de po
e um pcaro d'gua. A Dinda deu-lhe um puchero suculento e uma garrafa
de vinho. O castelhano contou-nos sua odissia  atravs do Brasil, desde
que deixara Santa F, em fins de 1920. Atravessou o Mato Grosso e Gois,
pintando a fauna e a flora dessas regies. Esteve prisioneiro dos
xavantes, que quase o mataram. "O que me valeu foi eu ter comigo meus
pincis e minhas tintas. Conquistei o chefe da tribo pintando seu
retrato. (Jango acha que  tudo isso  pura inveno.) Ao cabo de todas
essas aventuras, velho e cansado, no tendo recursos para voltar  Espanha,
  465
   o artista decidira vir morrer em Santa F. "Mas no aqui em casa!"
- disse a Dinda, mais que depressa. O pintor a encarou com olhos graves
e respondeu: "No,  madama, fique tranqila. Morrerei em qualquer
sarjeta, como um co .
  Pediu-nos que o deixssemos sozinho por alguns instantes na sala de
visitas, na frente do Retrato. Fizemos-lhe a vontade. Dentro de poucos
minutos chegaram at ns  os sons de seus soluos. Mais tarde seus
passos soaram leves na escada. Ouvimos a batida da porta da rua ao
fechar-se. E por vrios dias no tivemos mais notcias  do homem.
  Tio Bicho nos contou depois que don Pepe est trabalhando, mas sob
protesto, para o Calgembrino do Cinema Recreio, para o qual pinta
cartazes e - humilhao das  humilhaes! - tem de carreg-los s costas
para coloc-los nas esquinas.
  3 de novembro
  O primeiro a chegar para o sero  o velho Liroca. Vem alvorotado, nem
nos diz boa-noite. Atira logo a notcia: "A ofensiva do Montgomery no
Egito est vitoriosa.  Os ingleses esto expulsando a alemoada a
pelego!"
  Senta-se, queixa-se de que passou um dia mau, com o "diabo da asma".
Entram pouco depois tio Bicho e Stein, ambos muito animados. Mando
servir cafezinhos. Eles me  acham abatida. Que  que tenho? Respondo que
no tenho nada. Mas na realidade tenho tudo. A semana passada fui ao
consultrio do dr. Carbone, e ele me assegurou  que eu estava grvida.
Dei logo a boa nova a Jango, que exultou. No entanto hoje minhas
esperanas morreram, afogadas numa onda de sangue mau.
  Jango est no Angico. No sei como dar-lhe a triste notcia.
  O vento da dvida sopra de novo. Minha f se curva como um junco sobre a
gua, para no se quebrar. O tempo amanh pode melhorar.
  466
  1943
  5 de fevereiro
  Depois dum cerco que durou um ano e quatro meses, Stalingrado est
livre. Os alemes, vencidos, se retiraram. Foi uma das mais ferozes e
longas batalhas desta guerra.  Stein afirma que a combatividade, a
eficincia e o herosmo dos soldados soviticos so a prova mais
eloqente das verdades e excelncias do regime comunista. Tio  Bicho
encolhe os ombros e replica: "Nessa mesma linha de raciocnio podemos
tambm afirmar que o nazismo  o melhor regime poltico que existe no
mundo pois os exrcitos  do Fiihrer em poucos meses conquistaram quase
toda a Europa". Stein no reage. Noto que anda preocupado, inquieto.
Contou-me que foi repreendido pelo Comit Central  do Partido por causa
dum artigo polmico que publicou em torno de problemas especficos do
comunismo no Brasil. O que mais lhe doeu foi um dos jornais do PCB
ter-se  referido a ele como a "um membro disfarado da canalha
trotskista". Stein passa o resto do sero num canto, silencioso e
abatido. Parece um bicho acuado e cansado,  que desistiu de lutar. Julgo
ver em seus olhos uma expresso de medo.
  28 de fevereiro
  Faz uma semana, Stein voltou de Porto Alegre, aonde fora a chamado do
Comit Estadual do PC. Ainda no nos apareceu. Que teria havido com ele?
Tio Bicho me conta  uma histria que me deixa embasbacada. Stein foi
expulso do Partido como traidor. Pergunto sobre seu estado de esprito.
Bandeira responde: "Est um trapo humano.  Um saco vazio". Explica-me
que essa expulso implica na destruio completa de sua folha de
servios  causa do comunismo. " toda uma vida de lutas e de
sacrifcios  que se vai guas abaixo. Pior que isso: que  eliminada,
como se nunca tivesse existido." Mando pelo tio Bicho um recado ao
Stein. Peo-lhe que
  467
  venha ao Sobrado. Na realidade no tenho vontade de v-lo mas quero
ajud-lo de alguma maneira. Mas como? Desgraadamente no tenho nenhum
blsamo para as suas feridas.
  30 de maro
  Com a escassez de gasolina, quase todos os automveis de Santa F
desapareceram da circulao. Apenas umas quatro ou cinco pessoas
instalaram gasognio em seus carros.
  Hoje de manh vi no nosso quintal uma cena cmica: o Bento de ventarola
em punho avivando as brasas do aparelho de gasognio de nosso Chevrolet.
  Quando me viu, disse: "Pois , sia dona, tenho feito de tudo na vida.
Fui pio de estncia, peo, tropeiro, carreteiro, boleeiro de carro e de
jardineira... Quando  o doutor inventou de comprar automvel, tive de
virar chofer. Primeiro foi um carro alemo. Depois veio um Ford de
bigode, e depois um Ford sem bigode. Mais tarde,  um Chevrolet...
Agora... estou aqui que nem cozinheira, querendo acender este
fogareiro".
  Bento esqueceu modestamente de mencionar as outras coisas que tem sido,
na paz e na guerra, e que so incontveis.    o homem dos sete
instrumentos. Sabe fazer tudo,  e faz bem. Pessoas existem que cometem
um nico e grande ato de herosmo e passam para a histria da sua
comunidade, de seu pas ou da humanidade. O Bento  um tipo  de heri
cuja presena e valor ningum nota, porque ele atomizou, fragmentou seu
herosmo em dezenas de milhares de pequenos gestos e atos cotidianos
atravs de  toda a sua vida, de tal maneira que eles no deram e no do
na vista.
  Apesar de conhec-lo desde menina, no sei qual  o seu sobrenome. Para
mim ele sempre foi simplesmente o Bento, parte dos mveis e utenslios
do Sobrado e do Angico.  E isso me bastava. Mas  triste. Prova o quanto
somos descuidados e ignorantes em matria de relaes humanas.
  468
  1 de abril
  Releio o que escrevi anteontem sobre o Bento. Aceitamos as pessoas e as
situaes porque elas esto a. Por puro hbito. E acabamos no as vendo
nem sentindo mais.  Um exemplo  a maneira como nos resignamos com a
pobreza (dos outros), a misria e as injustias da sociedade em que
vivemos, ao mesmo tempo em que continuamos a  nos considerar bons
cristos, e a viver nossas vidas como se a ordem social vigente fosse um
ato irrevogvel de Deus. Absurdo! Cristo foi um revolucionrio. Derrubou
um imprio e instituiu uma nova ordem social.
  O Purgatrio, o Barro Preto e a Sibria nada mudaram desde meu tempo de
menina. Muitos ou, mais precisamente, quase todos os habitantes dessas
zonas da cidade vivem  em regime de fome crnica.  a misria do p no
cho. A misria do molambo. A mortalidade infantil entre essa pobre
gente  aterradora. Praticamente no h inverno  em que algum no morra
de frio nesses sinistros arrabaldes de Santa F.
  s vezes me ponho a pensar nessa situao e chego  concluso de que sou
uma pessoa intil e covarde. Tenho tentado fazer alguma coisa, no meu
mbito familiar. Mantenho  no Angico uma escolinha para filhas e filhos
de pees, agregados, posteiros no s de nossos campos como tambm das
estncias vizinhas. Dou-lhes todo o material  escolar de que necessitam.
Fao isso durante dois meses no vero, dois no outono e um na primavera.
 um prazer ensinar essas criaturinhas a ler e a fazer as quatro
operaes. Doulhes tambm algumas noes de geografia, astronomia e
histria do Brasil. Sim, e de higiene. Tenho uns trs ou quatro alunos
excepcionais. Um deles  - um pio de tipo inditico - tem um talento
especial para a aritmtica. Faz contas de cabea como uma pequena
mquina, rpido e certo. Chamo-lhe "o Einstein do Angico".  Uma neta da
Antoninha Car faz desenhos com lpis de cor que causariam inveja a
muito pintor primitivo. A neta do Bento, uma guria de olhos vivos e
inteligentes,  mas quieta e arisca, modela em silncio seus bonecos de
barro com uma habilidade e com um bom gosto que me deixam comovida. A
maioria dessas crianas no tem a
  469
  menor idia do que existe para alm dos horizontes daquelas campinas.
  Nas horas de aula sinto-me feliz, tenho a sensao de estar fazendo
alguma coisa decente, humana no melhor sentido. Mas isso  to pouco!
Penso em iniciar na cidade  algum movimento com o fim de melhorar a vida
de nossos marginais, mas as esposas dos nossos comerciantes e
estancieiros acabam transformando tudo em "festas de caridade",
oportunidades para exibirem seus vestidos e terem seus nomes nos
jornais. Tudo isso me desencoraja e faz recuar.
  Estou de acordo com Stein num ponto. No  com caridade que se vai
conseguir melhorar a vida dessa pobre gente, mas com uma reforma social
de base. Na minha opinio,  porm, a soluo no est nos mtodos
stalinistas. Algum escreveu que o mal de nossas revolues  que elas
comeam com a violncia, para imporem um ideal, mas  depois o ideal fica
esquecido e permanece apenas a violncia.
  E como  fcil recorrer  brutalidade! Como  natural! Como isso est de
acordo com a nossa condio animal. Parece fora de dvida que a
violncia goza de mais popularidade  que a persuaso. Floriano me disse
um dia que nos seus tempos de menino o pblico que ia ao cinema torcia
unanimemente pelo mocinho e detestava o bandido, o "cnico"  (em geral
um sujeito de bigode). Mas duns tempos para c a situao mudou. Para
principiar, o bigode j no indica mais nada do carter da personagem.
Depois que  comearam a aparecer os filmes sobre os gangsters de
Chicago,  comum a gente se surpreender a torcer pelo criminoso, a
desejar que ele leve at o fim o seu plano  de assassnio, ou o roubo do
banco to engenhosamente planejado. No  mesmo horrvel? Conheo
pessoas aqui em Santa F que admiram Hitler e seus mtodos, dizendo:
"Ah! Com ele  po-po, queijo-queijo".  muito comum ouvir-se dizer: "O
que o Brasil precisa  dum banho de sangue". No h nada que perturbe
mais Floriano do que  frases como esta. " pura magia negra! - disse-me
ele certa vez. - E sujeitos aparentemente sensatos e pacatos repetem
essa monstruosidade. Eu poderia citar mil  casos na histria em que
esses famosos banhos de sangue no 
  470
  curaram nenhum mal social. Pelo contrrio, em geral agravaram os j
existentes, criando mais dio. Os partidrios do 'banho de sangue'
deviam procurar imediatamente  um psiquiatra."
  23 de abril
  Uma surpresa! Uma carta de Floriano. Sinto-me como que iluminada por
dentro.  bom tornar a ouvir a voz dum amigo ausente. E principalmente
palavras como estas:  "Escrevo-te porque preciso desabafar com algum
que eu sei que me compreende". Quatro pginas datilografadas em que ele
me conta de suas "ensolaradas angstias californianas".
  30 de abril
  Irmo Torbio me visitou ontem  noite. Chovia, e ele veio enrolado no
seu capote preto, que lhe dava o ar duma personagem de romance de capa e
espada. Nenhum dos  outros amigos apareceu.
  O vento soprava a chuva contra as vidraas. A Dinda permaneceu no seu
quarto. Laurinda nos trouxe caf com bolinhos de polvilho.
  Zeca me falou em Deus, em voz baixa, como quem conta um segredo.
  De todas as coisas que me disse, as que me ficaram mais vivas na memria
so as que seguem.
  A solido e o tdio so as duas mais graves doenas de nossa poca.
Podem levar o homem ao desespero e ao suicdio. (Quem foi mesmo que
escreveu que  o tdio que  leva as naes  guerra?) So enfermidades
do esprito a que esto sujeitas principalmente as pessoas sem f.
Porque no pode sentir-se s quem conta com Deus, a  mais poderosa e
confortadora presena do Universo. No pode
  471
  sucumbir ao tdio quem sabe apreciar em toda a sua riqueza, beleza e
mistrio o mundo e a vida que o Criador lhe deu.
  Um homem pode matar-se das mais variadas maneiras. Uma delas  negar
Deus. Quem nega a existncia do Criador logicamente est negando a vida
da criatura.
  A solido e o tdio podem arrastar uma pessoa no s ao suicdio
violento como tambm ao lento, por meio da bebida e dos entorpecentes.
Outra forma de suicdio -  essa no plano moral -  a promiscuidade
sexual, que, em ltima anlise,  o desejo diablico de degradar o
prprio corpo e o corpo dos outros.
  No tenho pacincia com esses fariseus que tm medo at de pronunciar a
palavra sexo. O ato sexual realizado com verdadeiro amor s pode ser
agradvel aos olhos  de Deus. No devemos ter vergonha de nossos corpos.
Mas no podemos esquecer que h um tipo de unio sexual que significa
vida e outro que significa morte.
  Por fim irmo Torbio me falou numa carta que recebeu de Floriano,
datada de Berkeley, Califrnia. Comentando-a, disse: "O nosso querido
amigo parece estar comeando  a preocupar-se com dois problemas. Um  o
da sua ansiedade diante do Nada, do no-ser, da morte. O outro, o da
extenso e natureza de sua responsabilidade para com  as outras
criaturas humanas. Respondi-lhe que me alegrava sab-lo s voltas com
essas cogitaes, mas na minha opinio esses dois problemas, apesar de
terem uma  
  472
  importncia enorme, no passam de subsidirios do supremo problema, isto , o
da situao do homem perante Deus".
  Ao despedir-se, Zeca sorriu e disse: "Deus tem de existir nem que Ele
no queira. Porque est comprometido conosco, no, Slvia?"
  2 de maro (No Angico)
  Acordei antes do raiar do sol. Jango tinha j sado para o campo.
Levantei-me e fui olhar o nascer do dia. Que espetculo! Os galos
encarregaram-se do acompanhamento  musical. Quando o sol apontou no
horizonte, sua primeira luz se refletiu nas folhas do coqueiro torto, no
alto da coxilha onde esto as sepulturas do velho Licurgo  e do velho
Fandango.
  Como  que vou descrever o cheiro das manhs do campo? S me ocorre
compar-lo com o dum beb. Algo de fresco e mido, recendente a leite e
a vida que comea. No  posso deixar de sentir que o cheiro da grama 
verde. A nvoa parece ter um aroma prprio, bem como a terra molhada de
orvalho.
  Quem me pegou este vcio de sentir o mundo pelo olfato foi Floriano. No
conheo ningum mais sensvel que ele a cheiros. Quando um resfriado lhe
tira o sentido  olfativo costuma dizer que a vida perdeu para ele uma
dimenso importante.
  No cu plido algumas estrelinhas opiniticas insistiam em fingir que
ainda no tinham percebido que j era dia. O sol a princpio tinha o ar
dum convalescente,  mas depois ganhou fora, se fez homem e as campinas
entregaram-se a ele em amoroso abandono.
  Pensei no dia da Criao. Cerrei os olhos e imaginei que o hlito de
Deus me bafejava o rosto. Tudo isso e mais a sensao de fraqueza que me
vinha de ter o estmago  vazio, me puseram tremuras no corpo.
  Ao p da mangueira bebi um copo de leite que trazia ainda o calor dos
beres da vaca. Em casa a Dinda me esperava com um caf e uns bolinhos
de coalhada. Encontrei  junto da minha xcara
  473
  um pacote envolto em papel de seda. Li o carto que o acompanhava. Dizia
apenas: Feliz aniversrio, minha querida. Beijos do Jango. Ele no
esqueceu, pensei com  satisfao. Abri o pacote. Era um belo relgio com
brilhantes. Comecei a chorar como uma colegial. Dinda naturalmente no
viu minhas lgrimas. Apertou-me a mo rapidamente  e disse: "Parabns".
As ostras mortas dos olhos fitaram-se em mim. Levantei-me e beijei o
rosto da velha, que resmungou: "U! Que bicho l mordeu?
  Boa pergunta. Que bicho me teria mordido? Pode-se comparar a f a um
bicho? Talvez. Um pssaro... Mas no tenho medo de ser bicada por ele.
Pelo contrrio, quero  peg-lo, prend-lo numa gaiola. Mas trata-se dum
animal arisco.  por isso que nestes ltimos tempos ando caminhando na
ponta dos ps e falando baixo, para no espant-lo.
  L fora est um dia de ouro e esmeralda. A imagem pode ser vulgar, mas 
a melhor que encontro. Ouro, esmeralda e porcelana azul.
  Resolvi que Deus no pode deixar de existir. Porque eu preciso dele.
Porque o mundo precisa dele. Duas boas razes, no 
  Mesmo? 
  J sei o que vou fazer daqui a pouco: procurar um lugar onde haja paz e
sombra para meditar. O capo da Jacutinga, por exemplo. Bom para um
encontro com Deus. Espero  que Ele no falte.
  Olho para a folhinha, na parede. No  mesmo engraado? Estou
completando hoje um quarto de sculo de existncia.
  15 de junho
  Carta de madrinha Flora. Como sempre serena, amiga e contida. Eis uma
pessoa que no se abre com ningum. No pode deixar de sofrer com o
comportamento do marido,  que parece piorar de ano para ano. No entanto
ela nada diz a esse respeito. Mais de uma vez esperei dela uma
confidncia, uma palavrinha que fosse, assim como uma  espcie de senha
para entrarmos no "assunto". Nada. Nunca. No vou esconder de mim mesma
que sempre gostei
  mais de meu padrinho que dela, embora a ame tambm e goste de sua
presena fresca e sedativa. Durante todo o tempo em que vivi no Sobrado,
como menina e como adolescente,  dona Flora sempre me tratou com um
carinho discreto, nunca me fazendo sentir como uma estranha  famlia.
Padrinho uma que outra vez perdeu as estribeiras e gritou  comigo, o que
me deixou primeiro assustada e trmula e depois chorosa e sentida.
  Por falar a verdade, a minha verdadeira "sogra" tem sido a Dinda. Mas
no temos conflitos. Desde meu primeiro dia de casada, entreguei  Velha
- com alegria, confesso  - a direo da casa.  ela quem determina o que
se deve comprar no armazm, o que se deve fazer para o almoo ou para o
jantar. E ela quem d ordens s criadas.  A esta altura da vida, quem
querer ou poder tirar esse cetro das mos da Velha?
  Desde que a famlia se mudou para o Rio, minha madrinha tem sido uma
espcie de turista no Sobrado. Volta todos os veres, mas passa a maior
parte de janeiro e fevereiro  no Angico.
  Ao primeiro exame, dona Flora parece uma criatura simples, duma
transparncia de cristal. No teve mais que uma educao elementar, mas
seu bom senso, sua inteligncia  natural, e essa admirvel escola do
velho Babalo contriburam para fazer dela uma grande dama. Est claro
que o convvio com o marido melhorou suas letras.
  No. Madrinha Flora no  um cristal. O que ela tem  essa transparncia
ilusria da porcelana. No fundo seu silncio deve ser uma liga de pudor
e amor-prprio,  que produz um metal duma resistncia extraordinria.
Est habituada  vida do Rio e j no poderia mais viver feliz em Santa
F. A princpio no compreendi bem por  qu. Um dia ela me contou que
seus primeiros trs anos na capital federal, como mulher dum poltico de
certa importncia - com todas essas obrigaes de tomar parte  em
recepes, coquetis, jantares, campanhas de caridade -, foram para ela
difceis e cansativos. Um dia decidiu pr fim a tudo isso e viver a sua
vida, de acordo  com seu temperamento. Foi ento que descobriu que 
mais fcil ter uma vida privada no Rio de Janeiro do que em Santa F...
  474
  Que ela e padrinho Rodrigo no vivem como marido e mulher, no  mais
segredo, embora o assunto seja tabu na famlia. Tio Torbio no ltimo
ano de sua vida andava  preocupado com as "mudanas" da cunhada. Dizia:
"Como  que uma gacha de boa cepa como a Flora, cria do velho Babalo
com a velha Laurentina, pode gostar tanto do  Rio a ponto de esquecer
nossa terra?" Confesso que nunca me preocupei com essa situao. Como 
o caso de tantas outras damas do Rio Grande que para l se mudaram  com
os maridos depois de 30 (e a esposa do presidente parece ser um exemplo)
acho-a incorruptvel.
  H um problema que me preocupa h muito, mas sobre o qual no tenho
querido pensar e muito menos escrever: padrinho Rodrigo.
  Mas hoje no! Fica para amanh. Ou para depois d'amanh. Ou para o dia
de So Nunca.
  20 de julho
  Quem me contou a primeira histria desagradvel a respeito de meu
padrinho foi minha prpria me. Por muito tempo reprimi essa lembrana,
que agora me volta com  uma intensidade inquietante. Eu devia ter quase
catorze anos. Os Cambars estavam em Santa F, tinham vindo para passar
o vero de 1932-1933.
  Uma tardinha voltei para casa alvorotada, contando o que vira e ouvira
no Sobrado. Estava encantada com os presentes que meus \ padrinhos me
haviam trazido: um  vestido de organdi cor-de-rosa e um par de sapatos
de salto alto. Mame olhou para todas essas coisas sem muito entusiasmo.
Soltou um de seus suspiros profundos  e e continuou a pedalar a
Singer.
  Olhei para um nmero da  Voz da Serra que estava em cima duma mesa. Na
primeira pgina vi a notcia da morte duma mocinha do Purgatrio, que
tomara veneno por ter  sido desonrada por um homem casado, cujo nome o
jornal ameaava revelar, caso o "sedutor" no confessasse seu crime
espontaneamente. Li apenas os cabealhos. Nunca  simpatizei com aquele
jornal mal impresso
  em papel spero, com seus clichs borrados e as enormes tarjas negras
dos convites para enterro, que deixavam as mos da gente sujas dum
pretume macabro. Mas minha  me, percebendo que eu tinha lido o ttulo
da notcia, murmurou: "Aposto como o bandido  um desses grados de
colarinho duro". Eu nada disse. Estava cheia da luz  e do calor humano
do Sobrado, e principalmente de meu amor por Floriano. Mame, porm, no
me deu trgua: " bom a gente no se iludir com os homens. So todos
iguais.  Todos!" A conversa podia ter parado a, porque eu no disse
palavra. No consigo compreender - por Deus que no consigo! - por que
minha me levou o assunto to  longe. Que secretas reservas de dio ou
ressentimento teria ela para com o dr. Rodrigo, para dizer o que disse
depois? Eis suas palavras cruis: "Teu padrinho mesmo,  que parece to
direito, no  diferente dos outros... Um dia fez mal para uma moa e a
coitada se matou". Gritei: " mentira!" Minha me me olhou, espantada:
"Morde  essa lngua, desaforada!" Sa da sala e me meti no quarto.
Mame, porm, me seguiu: "Se achas que estou mentindo, pergunta s
pessoas que sabem. Foi em 1915. Tu nem eras nascida, mas eu me lembro. A
moa era alemoa ou coisa que o valha. Uma famlia de msicos. Tomou
veneno. Toda a cidade ficou sabendo". Eu no queria  escutar. Estendida
na cama, com a cabea debaixo do travesseiro, tapava os ouvidos com as
mos. Minha me, percebendo decerto que tinha se excedido, calou-se.
Depois,  passando a mo de leve pelo meu ombro, murmurou, j com voz
lamurienta, como se ela fosse a nica vtima em tudo aquilo: "Se te
contei isso, foi para o teu bem,  para estares preparada. Teu padrinho 
uma boa criatura, mas no  nenhum santo.  um homem como os outros.
Agora que ests ficando mocinha, tens de aprender essas  coisas tristes
e feias da vida".
   noite, na cama, pensei, ainda perturbada, na histria de Toni Weber.
Conhecia sua sepultura muitssimo bem. Todos os anos, no Dia de Finados,
eu costumava levar  flores ao jazigo dos Cambars, ao tmulo do tenente
Quaresma e ao da suicida.
  No dia seguinte, a histria me saiu quase por completo da cabea. E por
uma razo muito forte. Eu estava concentrada numa idia: fazer-me bonita
para me apresentar  de novo a Floriano.
  476
  477
  22 de julho
  Curioso. Depois da perturbadora histria que minha me me contou, passei
a encarar o nome Toni Weber de outra maneira.  fantstico como s agora
me lembro disso.  Comecei a pensar na suicida com uma pontinha de cime.
Recusava culpar meu padrinho pelo que tinha acontecido. Preferia
responsabilizar a moa por t-lo "seduzido".  E, pensando naquela
tragdia amorosa, eu me compadecia no s de madrinha Flora como de mim
mesma. Ambas tnhamos sido vtimas duma intrusa que um dia tentara nos
roubar a afeio do homem que amvamos.
  No quero exagerar, mas penso que j no Dia de Finados do ano seguinte
no visitei a sepultura de Toni Weber. Quando levaram os restos do
tenente Quaresma para a  sua terra natal, meus "interesses sentimentais"
naquele cemitrio concentraram-se exclusivamente no mausolu dos
Cambars.
  Agora mesmo neste momento em que, mulher feita, tento reexaminar o
assunto e "reabilitar" (se tal  o caso) a memria de Toni Weber,
sinto-me ainda um pouco inibida.  Move-me a curiosidade e ao mesmo tempo
o temor de saber toda a verdade sobre essa triste histria.
  Mas voltemos aos vivos. Meu padrinho foi sempre o meu heri. O mais belo
homem do mundo. O mais valente. O mais justo. O mais inteligente. O mais
generoso. Se era  possvel a um ser humano atingir a perfeio, padrinho
a tinha atingido. Era assim que eu pensava e sentia quando menina e
adolescente. Era cega, queria ser cega  a tudo quanto tendesse a manchar
ou desmanchar essa imagem ideal. Refugiava-me no castelo fortificado de
minha devoo, fechava as portas, erguia as pontes levadias  e resistia
a todas as tentativas que o mundo fazia para me destruir o belo sonho.
Mas como foi que o inimigo penetrou nas minhas muralhas? Era fcil
resistir aos  ataques frontais, fogo contra fogo e ferro contra ferro.
Mas era quase impossvel evitar a entrada de agentes secretos. Hoje toda
uma quinta-coluna est irremediavelmente  instalada dentro do castelo.
J no sou mais senhora de minha cidadela. Recolho-me a uma torre,
ltimo reduto que estou decidida a defender
  478
  a qualquer preo.  a torre do amor. Do amor que no julga, que no pede
explicaes nem definies. Do amor que se basta a si
  mesmo.
  25 de julho
  Creio que s l pelos meus dezoito anos  que comecei a me interessar um
pouco pela poltica nacional, isto , a prestar ateno s
personalidades e s notcias,  relacionando umas com as outras a ponto
de ter pelo menos uma idia vaga da situao geral. Eu sabia que meu
padrinho era o que se chamava um "figuro da poltica",  um dos "homens
do Catete". Isso me dava um grande orgulho e uma satisfao especial,
porque, como a maioria das meninas da minha gerao, que atingiram a
adolescncia  no princpio da Era Getuliana, eu tinha uma pronunciada
simpatia pelo presidente Vargas. Gostava at mesmo de seu fsico, que
era a negao da estampa clssica do  heri. Sentia-me atrada pelo seu
sorriso aberto, e por um certo ar de serenidade e limpeza que envolve
sua pessoa.  um homem que impe respeito sem precisar fechar  a cara
nem levar a mo ao cabo do revlver. Consegue ser um humorista sem
jamais correr o risco de se transformar em palhao, o que no deixa de
ser uma proeza.  No tem a menor pressa em fazer seu auto-retrato,
definir-se, explicar aos outros como  ou como no . Creio que no
vive, como aquela personagem de Raul Pompia,  na obsesso da prpria
esttua. Sempre apreciei as histrias que correm de boca em boca sobre
suas picardias polticas. (O dr. Terncio, que no o suporta, me disse
um dia que um presidente da Repblica  eleito e pago pelo povo para
governar e no para ser personagem de anedotas ou para exibir sua
maestria como capoeirista  na arena poltica.) Seja como for, eu gostava
e gosto do Geg. E agradava-me a idia de saber que o dr. Rodrigo era
seu amigo.
  Lembro-me de meu padrinho em vrias etapas de sua transformao". Eu
estava na estao de Santa F, com lgrimas nos olhos, naquele dia de
outubro de 30 em que ele  entrou no trem de Getlio Vargas e seguiu para
a frente de operaes. A multido
  479
  que o cercava no permitiu que eu lhe desse um beijo de despedida, e
isso agravou minha tristeza e minha sensao de abandono.
  S tornei a v-lo em dezembro de 1931, quando ele voltou com a famlia
para passar um ms no Angico. O fato de ele haver aceito um cartrio
tinha causado escndalo  na cidade. Eu ouvia murmrios, embora no
entendesse bem por que aquela coisa era to sria. Muitas vezes vi
padrinho Rodrigo' conversar no escritrio com tio Torbio  sobre o novo
governo. (Minha memria auditiva  muito melhor que a visual.) Estava
exaltado. Lembro-me duma frase sua: "Te juro como desta vez endireitamos
este  pas, ou ento eu no me chamo mais Rodrigo Cambar". Doutra feita
ouvi tio Torbio perguntar: "Mas quanto tempo o Getlio pretende
governar sem Congresso?" Meu  padrinho, irritado, respondeu: "Ests
doido? Fazer eleies agora seria o mesmo que abrir a porta para a volta
de toda essa canalha que tiramos do poder h pouco  mais de um ano!"
  Meses para mim inesquecveis foram os do vero de 1932- 1933. Havia
terminado a Revoluo de So Paulo com a vitria do governo central. Tio
Torbio, que tinha lutado ao lado dos paulistas, voltou para casa. Todos
ns  temamos o momento em que ele se encontrasse com o irmo.
Esperava-se um atrito. No houve nada disso. Caiu um nos braos do outro
e puseram-se ambos a chorar e  a rir como crianas. Depois foram beber
no escritrio e l dentro cada qual falava mais alto. Recordo-me de ter
ouvido meu padrinho perguntar: "Mas por qu? Por  qu? Logo tu, meu
irmo, meu amigo, companheiro de 23 e de 30! Querias que o Getlio
arrumasse em menos de dois anos o que os carcomidos da velha Repblica
desarrumaram  em quarenta?" No ouvi a resposta de tio Torbio. Mas me
lembro, isso sim, de que por aqueles dias entreouvi uma conversa dele
com tio Bicho. Disse este: "Duas coisas  deixaram magoado e perplexo o
nosso amigo Rodrigo. A primeira foi a notcia de que estavas lutando ao
lado de So Paulo. A outra foi a de ver que os paulistas brigavam  como
homens. Teu irmo no acreditava que aquela 'revoluo de meninos
ricos', como ele a chamava, tomasse tais propores. Nem que aquelas
flores do patriciado  rural e intelectual paulista fossem capazes de
atos de
  480
  coragem fsica. O dr. Rodrigo se sentia um pouco agravado ante tudo
isso, porque para ele a coragem era e  uma espcie de monoplio da
gente do Rio Grande". Tio  Torbio disse depois: "O Flores da Cunha nos
roeu a corda. Foi a maior decepo da minha vida. Se o Caudilho tivesse
apoiado a revoluo, como espervamos, a esta  hora o Getlio estava no
cho e o pas tomava outro rumo". Est claro que repito aqui com
palavras minhas uma conversa ouvida h mais de dez anos. (Estive h
poucos  dias "conferindo lembranas" com tio Bicho.)
  Em janeiro de 1936 meu padrinho voltou para Santa F indignado com os
comunistas por causa do levante de novembro do ano anterior. "Um
verdadeiro banditismo! Os  oficiais revoltosos assassinaram friamente a
tiros os seus companheiros de caserna! Se a coisa dependesse de mim, eu
mandava fuzilar sumariamente esses brbaros."  Quando padrinho saiu da
sala, pronunciadas essas palavras, Bandeira puxou um pigarro, olhou para
tio Torbio e resmungou: " engraado... Em 1930 mataram aqui o
Quaresma. Se mais dez oficiais tivessem resistido da mesma maneira, os
dez teriam sido mortos. A diferena dos casos  apenas tcnica... A
Revoluo de 30 foi vitoriosa e o golpe de novembro de 35 falhou". No
cheguei a ouvir a resposta de tio Torbio porque sa da sala indignada.
No queria, nem mesmo pelo silncio,  participar daquela "traio" ao
meu padrinho. Quando tio Bicho mencionou o assassnio do tenente
Bernardo Quaresma, foi como se ele me tivesse machucado, por pura
malvadez, a cicatriz duma ferida antiga e esquecida. Porque, por um
passe de prestidigitao psicolgica, eu conseguira fazer desaparecer do
meu passado aquele incidente  dramtico. Sim, eu sabia que meu padrinho-
tinha participado do "fuzilamento" do tenente Quaresma. Portava-me como
uma testemunha que recusa dizer a verdade porque  deseja salvar o ru.
No ser isso um sinal de que est convencida de sua culpabilidade?
  26 de julho
  Releio as pginas anteriores. J que comecei esse assunto para mim to
desagradvel, acho que devo continuar. Passei os anos
  481
  letivos de 1933 a 1936 em Porto Alegre, fazendo o curso da Escola
Normal. Nos corredores dessa escola e na sala de refeies da penso
onde me hospedava, ouvi muitas  vezes mencionarem o nome do dr. Rodrigo
Cambar, nem sempre ou, melhor, quase nunca acompanhado de referncias
lisonjeiras. Era ele em geral apresentado como um  dos muitos "heris"
do Rio Grande que em outubro de 1930 se haviam lanado numa "carga de
cavalaria contra os cartrios e as sinecuras do governo federal".
  Certa vez o dono da penso, sem saber de minhas relaes com a famlia
Cambar, disse  hora do almoo, glosando uma notcia lida nos jornais
da manh: "Contam que  esse tal de Rodrigo Cambar est ganhando
horrores com a advocacia administrativa. A coisa comeou o ano passado,
quando o Aranha inventou essa histria de reajustamento  econmico".
Baixei a cabea, com as orelhas ardendo, um formigueiro no corpo, uma
vontade de gritar que tudo aquilo era mentira, pura invencionice de
invejosos.
  Foi ainda em 1936 que ouvi falar na "amante peruana" do dr. Rodrigo.
Contava-se que era uma mulher duma beleza extica, descendente (as
tolices que se inventam!)  dum prncipe inca. Andava muito bem vestida,
toda reluzente de jias carssimas, e tinha um Cadillac com chofer
uniformizado. "E tudo  o coronel que paga."
  Durante as frias de vero eu examinava a fisionomia de meu padrinho,
atenta s suas palavras e gestos. Por mais que quisesse concluir que ele
era o mesmo, a evidncia  me derrotava. Havia nos seus olhos qualquer
coisa indefinvel que me assustava sem deixar de me fascinar. As idias
que agora expunha eram a negao do Rodrigo romntico,  liberal e
desprendido de antes de 1930.
  Nas frias de 1936-1937 eu o ouvi queixar-se pela primeira vez de seu
amigo, o presidente da Repblica. "O Getlio  um ingrato - disse ele um
dia ao irmo. - H  mais de dois anos prometeu me mandar para a Europa
numa comisso, talvez como embaixador em Lisboa... Mas qual!
Esqueceu-se. Ou ento algum dos bobos de sua corte  lhe encheu os
ouvidos com mentiras a meu respeito."
  Foi tambm naquele vero que, ouvindo algum elogiar o trabalho de
Oswaldo Aranha como embaixador do Brasil em Washington, meu padrinho fez
a respeito desse homem,  de quem eu o julgava amigo incondicional,
alguns comentrios que me pareceram pouco simpticos. Numa de suas
cartas daquela poca, Floriano me fez sobre o pai uma  observao que de
certo modo me esclareceu essa atitude: Sempre que v pela frente um
homem bonito e forte, a tendncia natural do Velho  de consider-lo
sumariamente  um competidor. E a sua reao diante dele pode ir da
simples implicncia  hostilidade aberta, dependendo tudo das
circunstncias. E quando o "antagonista", alm  das qualidades fsicas
positivas,  tambm inteligente e brilhante, o nosso dr. Rodrigo parece
sentir-se roubado, diminudo, insultado. Isso explica a sua m vontade
para com homens como Oswaldo Aranha e Flores da Cunha. Estou certo,
porm, de que no fundo dessa animosidade encontraremos um certo elemento
de relutante admirao  e - quem sabe? - at de amor.  extraordinrio
como certos tipos indiscutivelmente msculos possam revelar
caractersticas to femininas. Getlio Vargas tem a seu  redor vrios
"namorados" que lhe disputam o afeto. Cada qual quer ser o favorito do
Sulto. Entredevoram-se, cordiais e brincalhes, numa atmosfera de
intimidade  escatolgica.
  Em 1938 o que se murmurava era que o dr. Rodrigo andava metido em
grandes empreendimentos imobilirios. Durante as frias, no fim daquele
ano, ouvi meu padrinho  falar com entusiasmo em construir prdios de
apartamentos, promover o loteamento de terrenos, conseguir com o governo
desapropriaes... Tinha adquirido o hbito  de fumar grandes charutos,
desses que a caricatura e o cinema apresentam como smbolo da
prosperidade econmica e da negao dos valores espirituais. Eu quase
no  o reconhecia.
  Uma noite procurei discutir o assunto com Jango, mas o meu marido me
arrasou com poucas palavras: "Vamos cuidar da nossa vida, o que j no 
pouco". E a nossa vida  no ia l muito bem. Piorou consideravelmente em
1940, quando perdi a criana no terceiro ms de gravidez. Acho que Jango
nunca ficou completamente convencido de  que eu no tive nenhuma culpa
desse insucesso.
  482
  483
  Notei um tom de mgoa e tambm de censura (ou estarei exagerando?) na
voz de meu padrinho quando ele disse: "Ento, Slvia, no  desta vez
que me ds um neto..."  Contou-me que Bibi evitava filhos e que seu
casamento fora um fracasso. Fiquei com a impresso de que eu era culpada
tambm de Bibi no querer filhos e de no viver  feliz com o marido.
  Nas frias de 1942-1943 achei meu padrinho tristonho. Uma noite ficamos
sozinhos um na frente do outro, na sala. Ele olhou para o seu prprio
retrato de corpo inteiro,  namorou-se por alguns instantes e por fim
murmurou: "Estou envelhecendo, Slvia". Eu sabia que o que ele queria
mesmo era um elogio. "Qual! O senhor parece um quarento,  quando muito.
Nenhuma ruga. Pouqussimos cabelos brancos!" No me enganei. Ele sorriu,
satisfeito, me bateu na mo e depois acendeu um charuto. E o homem do
charuto  no era o mesmo que tinha olhado triste para o retrato.
  Como  que uma pessoa muda? Por qu? Ou ser que tudo se passa dentro
das nossas cabeas? A culpa no ser nossa, por esperarmos dos outros o
que eles no nos prometeram  ou no nos podem dar? Tomemos o caso de
Floriano. Padrinho quis fazer dele primeiro um advogado e depois um
diplomata. Zeca deseja convert-lo ao catolicismo. Eduardo  acusa-o de
conformismo e acha que o dever do irmo  entrar para o Partido
Comunista. Tio Bicho quer t-lo sempre ao seu lado, na legio dos
cpticos. E eu... que   que espero dele?
  O melhor  no esperar nada de ningum. Nunca. Assim di menos viver...
  28 de julho
  Nova carta de Floriano, da Califrnia.  pueril, absurdo, mas  aguardo
essas cartas num alvoroo de namorada. E tambm numa espcie de susto.
Acho que Jango no  aprova essa correspondncia, apesar de ele ainda no
me ter dito nada claramente. Noto que fica contrariado toda vez que v
chegar um envelope debruado de
  azul e vermelho endereado a mim. Fao questo de mostrar-lhe as cartas,
para que ele veja que elas no contm nada de "mal". Ele as l por alto,
com impacincia,  e habitualmente diz: "Vocs literatos!"
  Floriano continua um agnstico, mas repete que sente "a nostalgia duma
religio que nunca teve". Curioso, no conheo ningum mais preparado
que ele para aceitar  Deus. Acho que tem na sua alma um belo nicho
vazio,  espera duma imagem. Talvez pense que entregar-se a Deus seja um
compromisso demasiado srio para quem como  ele tanto deseja ser livre.
Mal sabe o meu querido amigo que a aceitao de Deus  a suprema
liberdade.
  26 de setembro
  Depois das derrotas dos nazistas na Rssia e na frica, e do desembarque
de tropas americanas na Siclia e em Salerno, no h mais dvida: os
aliados venceram a  guerra. O fascismo se esboroou. Badoglio prendeu
Mussolini. O resto agora  uma questo de tempo. E a gente fica triste
por saber que esse tempo vai ser ainda marcado  pela morte e pela
destruio.
  Passei dois meses sem abrir este dirio. Algo de muito importante se
passou comigo durante estes ltimos tempos. A "campanha interior"
terminou com a minha capitulao.  Fui conquistada pelos exrcitos de
Deus.  possvel que na minha hinterlndia os soldados do Diabo ainda
continuem na sua atividade de guerrilhas. Mas o importante   que sou
uma terra ocupada por Deus. Todas as praias. Todos os portos. Todas as
cidades. Todas as plancies, montanhas, florestas, vales... Isso
transformou por  completo a minha vida. Acho que posso agora enfrentar
com mais coragem as minhas dificuldades e resolver melhor os meus
problemas. J no tenho mais receio das minhas  noites nem acho longos
nem vazios os meus dias.
  Por que no contei nada disto a Floriano nas minhas cartas? No sei, um
estranho pudor ainda me tolhe. Qualquer dia...
  484
  485
  4 de dezembro
  Entardecer no Angico. Estou parada, sozinha, na frente da casa da
estncia, olhando para o poente. O sol parece uma grande laranja
tmpora, cujo sumo escorre pelas  faces da tarde. O ar cheira a guaco
queimado. Um silncio de paina crepuscular envolve todas as coisas. A
terra parece anestesiada. Raras estrelas comeam a apontar  no
firmamento, mais adivinhadas que propriamente visveis. Sinto um langor
de corpo e esprito. Decerto  a tardinha que me contagia com sua doce
febre. Tenho a  impresso de estar suspensa no ar... E de que alguma
coisa vai acontecer. Cerro os olhos e fico esperando o recado de Deus.
  486
  Encruzilhada
  Na madrugada de 18 de dezembro de 1945, Aro Stein enforcou-se num dos
galhos da figueira da praa da Matriz. Quem encontrou o corpo, j sem
vida, foi um empregado  da Estrelad'Alva, que andava distribuindo po na
sua carrocinha. Contou a histria assim: "O dia estava amanhecendo
quando dei com aquela coisa dependurada na figueira.  Pulei da carroa e
vim olhar. Conheci logo o judeu. Estava completamente pelado, a cara
roxa, a lngua meio de fora, o pescoo quebrado. Vai ento fui chamar o
delegado,  que j estava chimarreando na frente da casa. O homem tirou
da cama o mdico da polcia, vieram examinar o enforcado e viram que ele
tinha esticado mesmo. Cortaram  a corda com uma faca e o corpo caiu -
pf! - como uma jaca das grandes que se esborracha no cho".
  Pouco antes das sete da manh a polcia deu por terminadas as
formalidades que o caso exigia, e esperou que algum membro da famlia do
morto viesse reclamar o corpo.  Ningum veio. Aro Stein no tinha
parentes vivos em Santa F.
  Dante Camerino, que passara a noite em claro na sua casa de sade, 
cabeceira dum doente, foi dos primeiros a saberem do suicdio. Correu a
acordar tio Bicho, o  que s conseguiu com muita dificuldade. Por volta
das oito da manh, ainda estremunhado de sono, mas j com um crioulo
aceso entre os dentes, Roque Bandeira compareceu   delegacia. "Vim
buscar o defunto - disse. - Acho que o Stein me pertence por usucapio."
  487
  O corpo do suicida foi levado para a casa do amigo. Bandeira comprou um
caixo barato na armadora do Pitombo. O defunteiro queria fazer "um
velrio em regra", mas  tio Bicho repeliu a idia. "Nada de crucifixos,
castiais e velas. O homem era ateu." Pitombo tentou puxar uma discusso
sobre a imortalidade da alma, mas o outro  virou-lhe as costas, dizendo
simplesmente: "Me mande a conta".
  Pouco antes das nove da manh a sala principal da casa de Roque Bandeira
estava transformada em cmara morturia. O primeiro amigo que apareceu
foi o dr. Camerino.
  - Pensei que tinhas ido dormir - disse-lhe tio Bicho, que ento tomava
seu caf.
  O mdico abriu a boca num bocejo, atirou-se numa cadeira e resmungou: -
Estive no Sobrado tomando providncias para evitar que o dr. Rodrigo
venha a saber desta  histria. Agora vim ver se precisas de mim para
alguma coisa...
  - No. Obrigado. Queres um cafezinho?
  - Boa idia.
  O dono da casa entregou-lhe uma xcara fumegante.
  - Acar?
  - No. Estou fazendo dieta para diminuir estas banhas. Tomou um gole de
caf e depois indagou:
  - Onde foi que encontraram as roupas e os sapatos dele?
  - Em cima do banco, debaixo da figueira.
  - Pobre do Aro! Eu vi que essa coisa toda ia terminar mal...
  - Mal? Acho que at terminou bem. H muito que o Stein no era mais o
mesmo homem.  mil vezes prefervel a gente ter uma morte violenta mas
rpida a ficar se acabando  aos poucos no fundo dum hospcio. E, seja
como for, o nosso hebreu arranjou um "finale" em grande estilo, digno de
sua condio de personagem de Dostoivski.
  Camerino tornou a bocejar.
  - Teu caf estava timo. Vou andando...
  Dirigiu-se de novo para o Sobrado e entrou sem bater no quarto de
Floriano. Este acordou num sobressalto, soergueu-se na
  cama e perguntou, - O Velho?
  alarmado:
  - No. O Stein. Enforcou-se esta madrugada na figueira da praa.
  Floriano quedou-se por alguns instantes a olhar para o mdico.
Surpreendia-se por no se sentir chocado pela brutal notcia. Era como
se tivesse tido a intuio  de que aquilo mais cedo ou mais tarde tinha
de acontecer. Ou ento como se j tivesse vislumbrado no seu
inconsciente a cena do enforcamento do Stein, como parte  inevitvel do
romance que ainda ia escrever.
  - Onde est o corpo?
  - Na casa do Bandeira.
  - O Velho j sabe?
  - No sabe nem vai saber. J tomei todas as medidas. Conto tambm com a
tua discrio.
  - Natural.
  Floriano sentou-se na beira da cama, ficou por algum tempo a passar a
mo pelos cabelos e a olhar fixamente para o soalho.
  - Vou me barbear, tomar um banho rpido e depois toco pra casa do Roque.
  - No tem pressa. O Aro agora pode esperar.
   mesa com as mulheres, Floriano no tocou no po. Bebeu apenas caf
preto, em silncio. Slvia tinha os olhos um pouco avermelhados. Uma
resignada tristeza anuviava  a face de Flora. Nenhum dos quatro fez a
menor referncia ao acontecimento da madrugada. S Maria Valria, mas
assim mesmo de maneira indireta e breve. Num certo  momento suspirou:
"Pobre do Joo Felpudo!"
  Ao sair de casa, Floriano teve a impresso de que recebia no rosto o
bafo duma fornalha acesa. Se quela hora da manh fazia um calor assim,
que se poderia esperar  do resto do dia? Tirou o casaco e a gravata,
desabotoou o colarinho e atravessou a praa, procurando a sombra das
rvores. Encontrou um conhecido, que lhe perguntou:  "Ento, j sabe?"
Ele fez que sim com a cabea e continuou a andar. O outro o acompanhou
durante alguns passos.
  489
  "Deixou alguma carta?" Floriano encolheu os ombros. "No sei de nada,
desculpe, no sei."
  Achou mais prudente descer pela Voluntrios da Ptria, para evitar as
rodinhas que fatalmente quela hora estariam comentando "o prato do
dia",  frente da Casa  Sol, da Farmcia Humanidade, do Clube Comercial
e da Confeitaria Schnitzler.
  Floriano estava um tanto ofuscado ante o esplendor de cores da manh.
Por cima dum muro caiado, as flores dum p de hibisco respingavam de
vermelho o azul do cu.  As rvores, dum verde profundo, ganhavam
lustroso relevo contra a brancura das paredes das casas, que
reverberavam a luz do sol. Aquilo parecia um quadro sado da  palheta
dum pintor convencional - refletiu Floriano. As tintas estavam ainda
frescas, e ele prprio fazia parte da tela. O suor que comeava a
escorrer-lhe pelo  corpo contribua para aumentar-lhe a sensao de ser
uma figura recm-pintada.
  Os alto-falantes da Rdio Anunciadora inundavam o bojo luminoso da manh
com a msica metlica e petulante dum dobrado. Floriano caminhava
pensativo, sem poder conciliar  a alegria ostensiva da paisagem e da
hora com o suicdio de Stein.
  Ao aproximar-se da casa de Bandeira, viu que curiosos - homens mulheres
e crianas - amontoavam-se na calada. Descalo, suando em bicas, a
camisa empapada, tio  Bicho gritava da porta: "Vo embora! Isto no 
circo de cavalinhos nem feira pblica! O homem se matou porque quis. A
vida era dele. No  da conta de ningum.  Vo embora!" Alguns
afastaram-se, contrafeitos. Outros, porm, insistiam em espiar para
dentro, atravs das janelas escancaradas. O Cuca Lopes destacou-se do
grupo,  avanou lampeiro, com ares de ntimo do Bandeira, mas este lhe
barrou a entrada:
  - Alto l, Cuca! Se queres assunto prs teus mexericos, vai procurar
noutra parte. Na minha casa, no!
  O oficial de justia recuou dois passos, cheirou a ponta dos dedos,
surpreso e aflito:
  - Que  isso comigo, Roque? Tu sabes que eu era amigo do Arozinho... 
  - Amigo coisa nenhuma. Raspa daqui!
  490
  Ao avistar Floriano, tio Bicho exclamou:
  -  homem! Estava  tua espera...
  Floriano entrou. A primeira coisa que viu foram os ps do defunto,
metidos em velhas botinas de solas esburacadas.
  - No achas que devamos comprar uns sapatos mais decentes para o nosso
amigo? - perguntou.
  - Qual nada! Raciocinas com o formalismo do pequeno burgus. No vs,
ento, que para um campeo do proletariado esses buracos so
condecoraes?
  Floriano colocou o casaco sobre o respaldo duma cadeira e depois ficou a
enxugar com um leno o suor do rosto e do pescoo. Um pano branco cobria
a cabea do morto.
  - Queres ver a cara desse idiota? - perguntou tio Bicho.
  - No.
  - Eu j esperava essa resposta. Fazes bem. O Stein nunca foi nenhuma
beleza, e a forca no lhe melhorou o focinho...
  -  verdade que ele estava completamente nu quando se matou?
  - . E isso prova que sua cabea funcionou direito na hora do suicdio.
Um homem deve morrer nu como nasceu. Assim fica completo o grande ciclo:
do ventre materno  ao ventre da terra. Uma trajetria entre duas mes.
  Floriano sentiu que tio Bicho estava em grande forma, e que aquela manh
prometia muito. Viu o amigo meter-se na cozinha e voltar de l
empunhando uma garrafa de  cerveja gelada, o cigarro aceso preso entre
os dentes.
  - Pobre Rasklnikov! - exclamou Bandeira, aproximando-se do esquife. -
Acabou assassinando a dona da casa de penhores! Racionalmente ele
justificava o crime, mas  emocionalmente repudiava-o. Seu sentimento de
culpa levou-o  autopunio.
  - Mas achas que sua expulso do Partido Comunista no teve nenhuma
influncia nisso tudo?
  491
  - Teve,  claro, e como! Stein cometeu matricdio para ajudar seus
irmos em Marx. Por fim esses irmos ingratamente o declararam renegado
e o expulsaram da famlia,  acusando-o de traidor. O golpe no podia ter
sido mais cruel. Nosso Rasklnikov gritava que estava com a razo nas
suas divergncias com a direo do Partido, mas  na noite em que o
expulsaram, um dos camaradas o chamou de traidor, de Judas, e esse
cretino tomou a coisa to ao p da letra, que acabou parodiando o
Iscariotes.  Claro que tinha de ser numa figueira! Tens ainda alguma
dvida quanto  fora diablica dos smbolos e dos mitos?
  Floriano sacudiu a cabea.
  - Eu mesmo estou me sentindo um pouco culpado desse suicdio, porque se
ontem...
  - Eu sei! - interrompeu-o tio Bicho. - Eu sei! No podias perder a
oportunidade de entrar no drama... Ah no! Sempre achamos um jeitinho de
dobrar finados por ns  mesmos quando nossos amigos morrem de morte
natural ou se matam. Achamos bonito sentir na prpria carne as feridas e
as dores alheias.  nobre.  purificador.   um alimento para nossa
necessidade de autocomiserao. Somos uns porcarias, seu Floriano. No
queremos curar nossas chagas e viver com sade. Preferimos ser
crucificados  pela humanidade. Somos uns "cristinhos" muito vagabundos,
na pior, na mais barata das imitaes.
  Tio Bicho fez uma pausa, levou o gargalo da garrafa  boca, bebeu um
largo gole de cerveja e disse:
  - Por falar em Cristo, l vem o filhote de urubu.
  Irmo Torbio entrou, srio, sem dizer palavra, acercou-se do esquife,
ajoelhou-se e ali ficou a rezar.
  - No adianta - murmurou Roque Bandeira. - Segundo a teologia de vocs,
o Stein a esta hora est no inferno. O melhor, Zeca,  rezares pelos
vivos. Por exemplo,  pelo Floriano, que sofre no seu inferninho
particular em que ele  ao mesmo tempo Diabo e alma condenada. 
  - A que horas  o enterro? - perguntou o irmo, pondo-se de p.
  492
  - Pedi ao Pitombo que me mandasse o carro s dez e meia. Precisamos
observar primeiro um intervalo decente, para esse filho de Israel no
pensar que estou louco  para me livrar dele. E depois, que diabo!,
devemos gozar um pouco mais da sua agradvel companhia. Hoje, como no
pode falar, o Stein est mais brilhante que nunca.  Para no quebrar um
velho hbito, continuo a discordar at das coisas que ele no diz. 
Zeca, se ests com sede, vai buscar uma cerveja no refrigerador...
  O marista aceitou a sugesto e dirigiu-se para a cozinha. Floriano
ps-se a andar dum lado para outro, na sala. Esforava-se por no sentir
muita pena de Stein,  por consolar-se com a idia de que agora pelo
menos o amigo cessara de sofrer.
  Aquele era o compartimento maior da casa, um misto de gabinete de
trabalho, e sala de jantar e de visitas. Ali estava contra a parede uma
pesada escrivaninha de  tampo corredio, sobre a qual se viam um
tinteiro e vrias canetas de tipo antigo, meia dzia de lpis de cor,
uns dois ou trs livros abertos e uma folha de papel  almao pautado,
sobre a qual negrejava um pedao de fumo em rama. Junto da escrivaninha
uma cadeira giratria, pesada e escura, dava ao conjunto um ar de
escritrio  comercial. Em cima duma pequena mesa auxiliar amontoavam-se
nmeros do National Geographic Magazine e algumas obras sobre
oceanografia. As paredes estavam cobertas  de estantes cheias de livros
em vrias lnguas, em sua maioria brochuras. E no soalho encerado e sem
tapetes, viam-se livros espalhados, de mistura com peas de
roupa-branca sujas, latas de conserva vazias, paus de fsforo e tocos de
cigarro. Num aqurio cbico, peixes ornamentais nadavam serenamente.
  - No sei se o Stein aprovaria este cenrio para o ltimo ato de seu
drama - disse tio Bicho ao marista, quando este voltou com uma garrafa
de cerveja numa das mos  e um copo na outra. - Quero dizer, a presena
de todos estes produtos da literatura capitalista...
  Irmo Zeca agora contemplava o defunto, sacudindo a cabea e murmurando:
  - Mas por qu? Por qu? Por qu?
  493
  - Eis uma boa pergunta - disse Bandeira. - Pourquoi? Warum? Perche? Why?
  O marista olhou para Floriano:
  - Se tivssemos agarrado o Stein ontem  tarde, ele no teria cometido
esse ato de loucura. Uns meses num sanatrio em Porto Alegre poderiam
ter feito dele um homem  novo. Enfim... ningum sabe dos desgnios
divinos.
  - Se vocs que se correspondem com Deus no sabem, que dir um ateu como
eu?
  O calor aumentava. Caras apontavam na janela, passantes paravam por um
momento diante da porta aberta e lanavam olhares vidos para dentro.
Tio Bicho afugentava  os curiosos com a irritao de quem espanta
moscas.
  - Que calor medonho! - exclamou, tirando a camisa e jogando-a no cho. O
suor escorria-lhe por entre a cabelama do peito e dos braos. Seu torso
reluzia, ndio como  o duma foca.
  Pouco antes das nove e meia trs velhas senhoras judias bateram  porta,
identificaram-se como amigas da me do morto, entraram e durante longos
minutos ficaram  ao redor do esquife, a rezar e choramingar. Suas vozes
a princpio soavam vagamente como um triste arrulhar de pombas, mas 
medida que o tempo passava foram perdendo  o tom ntimo de orao para
se transformarem finalmente em lamentaes ricas em erres guturais, e
que pareciam ora invocaes a Jeov, ora interpelaes ao defunto.
  Antes de se retirarem, ficaram por uns trs minutos a confabular em voz
baixa com tio Bicho, a um canto da sala. Falavam as trs ao mesmo tempo.
O dono da casa limitava-se  a sacudir a cabea afirmativamente. Depois
que elas se foram, enxugando os olhos e fungando, Floriano perguntou: 
  - Que era que queriam? Bandeira encolheu os ombros:
  - No entendi patavina.
  494
  De novo foi at a cozinha, abriu o refrigerador, apanhou mais uma
garrafa de cerveja, pegou um cubo de gelo e ps-se a pass-lo pelo
rosto, pela papada, pelos braos  e pelo peito. Quando tornou a entrar
na sala, Floriano terminava uma frase:
  - ... ento a vida no passa de um jogo.
  - Mas no um jogo pueril e inconseqente - replicou o marista. -  um
jogo srio em que empenhamos a alma.
  - E quem estabeleceu as regras desse jogo?
  - Deus, naturalmente.
  - Se assim , estamos sempre em situao desvantajosa. Ele conhece todas
as cartas, ao passo que ns...
  - Mas no! Tu te enganas. No estamos jogando contra Deus, mas contra o
Diabo.
  - Tu acreditas mesmo na existncia do Diabo?
  - No vamos entrar nisso agora. Podes dar ao Diabo o nome que
quiseres... O Mal... A Besta... A Treva...
  - Estamos perdidos de qualquer maneira - insistiu Floriano, sorrindo -
pois Deus deu ao Sujo as melhores cartas...
  - Outro engano teu. O Diabo, o grande trapaceiro, joga com cartas
marcadas, mas em compensao Deus deu ao homem o que negou ao resto dos
animais: uma inteligncia  e uma sensibilidade capazes de distinguir o
Bem do Mal.
  - Eu s no compreendo  o porqu do jogo. Deus precisa dele para
existir?
  Tio Bicho interveio:
  - Acho que em ltima anlise o Universo no passa dum hobby do
Todo-poderoso.
  Floriano olhou para o morto. Pobre Stein! Ali estava ele com seu corpo
marcado de equimoses, queimaduras e cicatrizes. Sobrevivera a todas as
brutalidades da polcia,  mas sucumbira a uma palavra pronunciada por um
camarada.
  Naquele momento irmo Torbio dizia alguma coisa, mas Floriano no lhe
prestava muita ateno. S ouviu claro o final duma sentena: "...do teu
atesmo". Voltou-se  para o marista e disse:
  - J te repeti mil vezes que no sou ateu, Zeca, mas agnstico.
Confesso-te que me sinto emocionalmente inclinado a desejar
  495
  a existncia dum Papai Grande sob cuja proteo, caso eu me comporte
direitinho na Terra, minha alma poder gozar as delcias interminveis e
indescritveis da Eternidade.  Mas minha razo repele essas fbulas, tu
sabes... o Gnesis segundo as Escrituras, a Santssima Trindade, essa
histria de Cu, Purgatrio, Inferno, etc... etc...  No posso conceber
um Deus vingativo e cruel que cria o homem do nada para depois coloc-lo
(a meu ver sem a menor necessidade) num mundo em que, em virtude de sua
prpria condio animal, essa criatura tem noventa e nove probabilidades
de transgredir os Dez Mandamentos contra uma apenas de obedecer
rigorosamente a eles. E  se o desgraado peca no plano do Tempo, Deus o
condena  danao eterna. Ser possvel que no percebeste ainda que
atribuindo ao Criador esse tipo de "justia"  vocs o esto insultando?
Na minha opinio, se Deus existe, deve ser muito mais magnnimo do que
vocs o pintam...
  Tio Bicho meteu-se na conversa:
  - E esse ser todo-poderoso, o movedor inamovvel, o causador sem causa,
o princpio e o fim de todas as coisas... esse Deus criador das
galxias, do sistema solar  e de outras enormidades no pode, c no meu
fraco entender, estar interessado em saber o que fao com os meus rgos
genitais, se como ou no carne s sextasfeiras  ou se vou  missa todos
os domingos.
  Bebeu um gole de cerveja, soltou um arroto e ficou sorrindo, a olhar ora
para Floriano ora para o marista, que estavam frente a frente, tendo a
separ-los o cadver  do suicida.
  - Uma coisa que nunca pude compreender - murmurou Floriano - foi a morte
da Alicinha... Por que razo a criana sofreu daquela maneira? Que crime
ou pecado estaria  expiando?
  O marista apalpou o crucifixo que trazia pendurado ao pescoo, e por
alguns instantes pareceu no saber que responder. Depois, olhando para o
amigo com uma ternura  fraternal, disse mansamente:
  - A gente tem de aceitar ou rejeitar totalmente o catolicismo, meu caro.
No h meios-termos possveis... Segundo a revelao crist so os
inocentes, os justos  e os santos que pagam pelos outros. Este  um dos
mistrios do cristianismo. No devemos esquecer o
  496l
  sermo das bem-aventuranas. E depois, Floriano, pensa bem em que a vida
na terra  uma breve passagem, ao passo que a Eternidade...
  - Pode bem ser apenas uma metfora na mente de Deus - completou o outro,
sorrindo, sem entender muito claro o que estava dizendo.
  Tio Bicho fez nova excurso ao refrigerador, e quando tornou  sala, com
outra garrafa de cerveja, Floriano estava com a palavra.
  - Dizes que religio  revelao, algo independente da razo... em suma,
um estado de graa. Ora, se o Esprito Santo desce sobre algumas pessoas
e no sobre outras,  ento  porque existe uma discriminao, isto ,
outra injustia...
  Bandeira soltou uma risada. O marista animou-se:
  - Isso  sofisma! - exclamou. - A graa desce sobre os eleitos de Deus,
mas pode descer tambm sobre todos aqueles que estiverem preparados para
receb-la, que a  desejam de todo o corao. Temos de estar com as
janelas da alma abertas para o Cu e com nossas antenas espirituais
dirigidas para Deus. Ele pode nos mandar uma  mensagem a qualquer
momento.
  - No sou radioamador - resmoneou tio Bicho.
  - No  pelos orgulhosos caminhos da razo - prosseguiu irmo Torbio -
que chegamos a Deus, mas pelas veredas do corao, do sentimento, da
nossa capacidade de  amar. O resultado do pensamento e da cincia sem
Deus  esse nosso mundo frio e desumano de mquinas. A cincia no sculo
XIX proclamou que Deus estava morto. No  sculo XX, ajudada pela
tcnica, ela est ameaando de morte o homem.
  O dono da casa foi dar de comer aos seus peixinhos. Houve um colorido e
harmonioso tumulto de bailado dentro do aqurio.
  - Acho que estes salafrrios sabem mais do que parece - disse Bandeira,
contemplando seus peixes com um olhar afetuoso. - Ser que concebem a
existncia dum Ser  Superior, para alm das guas? A propsito... estou
traduzindo um poema de Rupert Brook cujo tema  exatamente esse.
  O marista olhava obsessivamente para Floriano.
  497
  - Vocs escritores e artistas tm uma obrigao to grande quanto a dos
sacerdotes - disse ele. - A de salvar o humano que est sendo esmagado
sob o peso das mquinas.
  - Achas que Deus  o nico caminho?
  - Na minha opinio . Os outros nos levam todos  adorao do homem, 
glorificao do mundo e do sucesso material. S a aceitao de Deus 
que pode dar  criatura  humana um absoluto de ordem moral e um
sentimento de verdadeira responsabilidade para com sua prpria vida e
para com a do prximo. Sem Deus, nossos valores passam  a ser apenas
projees de nossos apetites e ambies. O bem ser tudo quanto
desejamos, e o mal tudo quanto no nos agrada ou no nos convm. Assim,
o mundo nada  mais ser do que a arena em que nossos egosmos se
entrechocam. O resultado de tudo isso  a violncia, a crueldade, o
caos.
  Naquele momento tio Bicho precipitou-se para a janela, gritando:
  - Raspa, cambada! Raspa!
  Vieram da calada sons de passos apressados e risadas de crianas.
Floriano olhou para o dono da casa e compreendeu que ele estava gostando
daquele jogo.
  5
  Cerca das dez horas don Pepe Garcia entrou com a boina na mo. Naquele
corpo descarnado e envelhecido, o nico vestgio de mocidade estava nos
passos lpidos de  toureiro. O pintor acercou-se do corpo de Stein,
descobriu-lhe o rosto e murmurou:
  - Bem feito, imbecil! Eu te disse que no te metesses com esses
cachorros dos stalinistas...
  Tornou a cobrir a cara do morto e depois foi cumprimentar os amigos.
  - Que temos para beber, Roquesito?
  - gua.
  - No. Falo em srio. Tens a uma caninha? Tio Bicho apontou para uma
das estantes:
  498
  - Escondi uma garrafa ali atrs do Aulete.  tua, em memria do Stein.
Pega um copo na cozinha.
  O pintor saiu esfregando as mos. Minutos depois estava instalado a um
canto da sala, em esplndido isolamento, tendo a seus ps um litro de
cachaa de Morretes.  Um pouco mais tarde chegou Chiru Mena, com uma
barba de trs dias, metido numa roupa preta de casimira, amassada e
lustrosa.
  - Peguei um resfriado medonho - disse. - Bom dia para todos! - Olhou
para o cadvei. - Que barbaridade! Por que  que esse menino foi fazer
uma coisa dessas? Tens  uma Cafiaspirina por a, Bandeira?
  O dono da casa apontou para um pequeno envelope de papel encerado que
estava em cima dum aparador.
  - Queres um pouco d'gua para tomar o comprimido? - perguntou,
zombeteiro.
  Chiru fungou, assoou o nariz num leno encardido, produzindo um rudo de
trombeta. Foi s ento que deu pela presena do castelhano. Fez-lhe um
aceno cordial.
  -  Pepe!
  - Salud! Est na mesa - disse o outro, mostrando a garrafa com um sinal
de cabea.
   uma branquinha especial. Chiru aproximou-se.
  - Ah! - exclamou, vou tomar uma talagada.
  - Quanto a isso, Chiru, - disse tio Bicho no tenho a menor dvida.
  O marista conduziu Floriano para junto da janela que dava para o ptio.
  - Segundo Bernanos - murmurou ele -, o maior pecado de todos  o pecado
contra a esperana. No devemos matar essa flor to rara na aridez moral
da nossa poca.  Mas o que me assusta, Floriano,  que nunca como nos
nossos dias houve menos mensagens de esperana ou alegria na literatura
e na arte. Os pintores fogem da figura  humana, perdem-se em abstraes
que, quando no refletem o inferno e o caos, parecem-se com mquinas ou
amebas. Vocs romancistas
  499
  procuram mostrar de preferncia o lado animal do homem. Espero que nos
teus prximos livros no esqueas tua obrigao de contribuir para que a
esperana no morra.
  Roque Bandeira aproximou-se dos dois amigos.
  - O que o Zeca deseja, Floriano,  que te dediques a contos de fadas. -
Limpou com as mos espalmadas o suor que lhe rolava pelo peito. - Repito
que temos de nos  habituar a tomar nossas decises sem contar com a
ajuda divina e sem pensar no castigo ou no prmio, numa outra vida.
Nossa vida  aqui e agora. Esse tal radiograma  Western que vocs vivem
esperando do Altssimo nunca chega.
  Voltou as costas e foi at o outro canto da sala apaziguar don Pepe e
Chiru Mena, que quela altura de suas libaes j tinham comeado a se
desentender e descompor.
  Floriano olhou para Zeca e perguntou:
  - Como posso dar aos meus leitores o que no tenho? Refiro-me  f em
Deus.
  - Mas  impossvel que no tenhas mais coisas dentro de ti alm do que
tens dado em teus livros at agora...
  O marista calou-se e suas orelhas ficaram de sbito afogueadas. Floriano
percebeu que, sem querer, o amigo pronunciara um julgamento moral de sua
obra.
  - Quero dizer... - balbuciou Zeca, procurando emendar. Floriano deteve-o
com um gesto.
  - Espera. H um ditado muito bom no norte do Brasil: "Boca no erra".
No precisas te desculpar... Reconheo que tenho dado muito pouco de mim
nos livros que escrevi  at hoje.
  - Mas no foi isso que eu quis dizer.
  - Est bem, mas me deixa falar. No estou satisfeito com minha prpria
literatura. Realmente no tenho usado nela nem um tero de minhas
reservas. A razo? Timidez,  inibio, pudor de me desnudar em
pblico... Sei l! Estou certo de que meus livros no
  500
  deram nem sequer uma plida idia de meu amor pela vida, da minha
ternura (um pouco ressabiada e arisca, reconheo) pelas pessoas, de meu
desejo de me aproximar  delas, tentando compreend-las e... se possvel,
quer-las mais. No expressei ainda em nenhum livro a convico que
tenho de que o homem, por seus prprios meios,  sem contar com o apoio
de foras sobrenaturais, pode melhorar a sua vida e a de seus
semelhantes na terra. O marista sacudiu a cabea numa lenta negativa.
  - No podes negar - prosseguiu o outro - que a obra da inteligncia e do
engenho humano  formidvel. - Sorriu. - Mas precisamos fazer essa
escriturao com honestidade,  Zeca. Debitamos na conta do homem todos
os seus fracassos, estupidezes, crueldades, violncias e incoerncias,
mas esquecemos de levar a seu crdito todas as suas  realizaes
positivas, seus inventos, descobertas, criaes artsticas...
  - De acordo, mas...
  - No negars tambm que o homem tem povoado a terra de muitas
expresses de beleza e verdade. Dizer que tudo quanto  bom e belo vem
de Deus e tudo quanto  mau  e feio  obra do homem, tem pacincia,  m
f... sem trocadilho.
  - Pelo que vejo ests enquadrado no neo-humanismo, posio dos que no
tm a humildade suficiente para aceitar a existncia dum Ser Superior...
dos que consideram  religio coisa para mulheres e crianas.
  - Neo-humanismo? Detesto os rtulos, Zeca. Porque eles so estticos, ao
passo que as criaturas humanas esto em constante devir.
  - Os rtulos tm uma utilidade enorme. Sem eles, correramos o risco
permanente de tomar veneno por engano.
  - Est bem. Podes dar qualquer nome  minha maneira de ver e sentir o
mundo e a vida. Neo-humanismo, humanismo potico, esttico... o que
quiseres.
  - Acreditas ento na perfectibilidade do homem?
  - No. Acredito, isso sim, na sua capacidade de melhorar. Quem pode, em
s conscincia, traar um limite para o progresso da medicina, da
fsica, da bioqumica,  que tanto tm contribudo
  501
  para melhorar nossas condies de vida? Por outro lado, quem poder
dizer at onde nos conseguir levar o progresso da educao?
  Foram interrompidos pelos gritos de don Pepe que, em cima duma cadeira,
com a garrafa de cachaa na mo, fazia um discurso sobre a necessidade
de salvar o mundo,  fazendo explodir quatro bombas: a primeira debaixo
da cama do papa, a outra na cara de Stlin, a terceira debaixo da
cadeira de Truman e a ltima - a maior de todas  - "no rabo de Franco".
  Foi nesse momento que Neco Rosa entrou, bufando de calor e passando o
leno pelo rosto suarento. Abraou Zeca, Floriano e o dono da casa, fez
um aceno para o orador  e para Chiru, que naquele exato instante,
possesso, ameaava agredir fisicamente o espanhol. Depois olhou para o
morto e disse:
  - Mas esse fregus no tinha mais nada que fazer? Por que foi, Bandeira?
Amor mal correspondido?
  - Isso! - exclamou o dono da casa, radiante. - Amor mal correspondido.
No  essa, em ltima anlise, a causa de todos os suicdios, mesmo que
os prprios suicidas  no saibam?  Neco, ganhaste o teu dia. Vai buscar
uma cervejinha pra ti.
  O barbeiro despiu o casaco, atirou-o em cima duma cadeira e dirigiu-se
para a cozinha, de onde voltou minutos depois, mamando numa garrafa de
cerveja. Estralou os  beios, limpou-os com a manga da camisa e, olhando
para Floriano, disse:
  - Teu pai amanheceu muito bem disposto hoje. Indagorinha fiz a barba
dele.
  - Espero que no tenhas contado ao Velho do suicdio do Stein.
  - Ests doido? Antes mesmo da tua me me prevenir, eu j tinha resolvido
no contar nada.
  Irmo Torbio puxou Floriano pelo brao e levou-o para o ptio. Fora, o
calor parecia ter um corpo, um peso especfico, bem como uma certa
qualidade oleosa. Cigarras  rechinavam, escondidas na folhagem das
rvores. Galinhas ciscavam o cho, e uma delas, que havia subido para a
tampa do poo, estava empoleirada nas bordas dum balde  cheio d'gua.
Moscardos dum verde metlico
  502
  zumbiam rtilos ao redor de pssegos e peras que apodreciam no solo de
terra batida, dum rseo arroxeado de gemada com vinho. Por alguns
instantes Zeca ficou a passar  o leno entre o pescoo e o colarinho.
Floriano perguntou:
  - No acreditas que a arte pode contribuir para melhorar os seres
humanos, sendo como  o contrrio da violncia?
  Tio Bicho, que da porta da casa ouvira estas ltimas palavras, exclamou:
  - Hitler amava a msica; Goering gostava tanto de pintura que enriqueceu
sua galeria particular saqueando os melhores museus da Europa. Ningum
nos tempos modernos  cometeu maiores crimes e violncias que esses
"amantes da arte".
  - Se pensas que vou aceitar tua provocao e entrar numa polmica sobre
a "sensibilidade artstica" desses dois patifes, ests muito enganado.
Quero terminar esta  conversa com o Zeca. - Voltou-se para o marista. -
Acredito sinceramente que a arte pode contribuir para a eliminao da
violncia do corao do homem. Creio que  foi Plato quem disse que a
arte pode ter um efeito moral no apenas como persuaso, mas tambm como
ao.
  - Sim, mas uma arte sem Deus no passar nunca dum mero jogo de imagens,
palavras e sons. Estou convencido de que a religio  a mais pura e alta
expresso artstica  de que o homem  capaz.
  Floriano ficou por alguns segundos a observar tio Bicho, que continuava
parado  porta da casa. Que figura! O sol batia-lhe em cheio na cara
congestionada. Lentas  bagas de suor escorriam-lhe pelo peito de mamicas
intumescidas e pelas pregas das gordas carnes que lhe cobriam o estmago
e o ventre. Suas calas estavam de tal  modo puxadas para baixo da linha
(imaginria) da cintura, que lhe punham o umbigo  mostra. Seus ps,
pequenos como os de um menino de catorze anos, tinham uma brancura
encardida de cogumelo.
  Irmo Torbio apanhou uma folha de laranjeira e ficou a mordisc-la por
alguns instantes. Depois perguntou:
  - Acreditas ento que as massas tm noo do que seja arte?
  - Acho que de certo modo tm... Observa com ateno o homem do povo...
Conheo analfabetos capazes de atos de bondade
  503
  que so, a meu ver, verdadeiras obras de arte. Porque arte no  apenas
beleza, mas tambm bondade... e um tipo de verdade. A vida do velho
Aderbal, por exemplo...  A arte, como o amor, pode ser uma forma de
conhecimento to legtima quanto a cincia e a filosofia. Mas aqui me
ocorre uma pergunta. Que direito temos ns os membros da chamada "elite
intelectual" de esperar atos de bondade ou beleza dessa pobre gente que
vive na misria, mais no plano animal do que no humano? So perguntas
como esta que tm levado muitos romancistas, principalmente em nossos
dias, a fazerem incurses, bem-intencionadas do ponto de vista humano,
mas raramente bem-sucedidas artisticamente, pelo campo da poltica e da
sociologia. Um sentimento de responsabilidade os impele a denunciar em
seus livros o farisasmo, a explorao do homem pelo homem, as
ditaduras, o genocdio.
  - Mas se essas incurses so em geral malsucedidas, como tu mesmo
reconheces, no ser porque as rvores da histria impedem o escritor de
ver a floresta da Eternidade?
  - Sei l, Zeca! Trata-se talvez duma espcie de kamikaze literrio...
Estou comeando a me convencer de que o romance  uma forma espria de
arte, incapaz dessa pureza de voz, dessa sntese cristalina que s a
grande poesia nos pode dar... isso para no falarmos na msica, que est
to mais alto e  to mais livre do que qualquer outra expresso
artstica. Mas vamos para dentro, que o calor aqui est ficando
brbaro...
  Encaminharam-se para a casa. Floriano segurou o brao do amigo e disse:
  - No sou muito amigo de frmulas... mas estou tentado a te dizer que a
soluo ideal para nosso tempo seria "Cincia e tcnica aplicadas com
amor".
  - E estaria resolvido o problema da humanidade! - exclamou tio Bicho
quando os dois amigos passaram por ele. - To fcil! To bonito! O
Floriano, por quanto me vendes  essa frmula?
  Ouviu-se o baque dum corpo seguido dum grito. Correram os trs para a
sala. Pepe Garcia estava estendido no cho, a vociferar, e Chiru,
montado nele, tentava estrangul-lo.  Neco ergueu Chiru nos braos,
arrastou-o para o ptio, at o poo, e meteu-lhe a cabea
  504
  dentro do balde cheio d'gua. Enquanto isso, o pintor se erguia, lanava
em torno um olhar cheio de indignao, e saa cambaleando na direo da
porta da rua.
  Tio Bicho, imperturbvel, olhou para o relgio:
  - Est chegando a hora do enterro, minha gente! Vou me preparar.
  Meteu-se no quarto de dormir e voltou pouco depois para a sala,
exatamente no momento em que Jos Lrio entrava, arrastando os ps e
apoiado no bengalo. Estava  vestido de brim pardo e trazia enrolado no
pescoo o leno maragato. Aproximou-se do defunto e deps-lhe sobre o
peito um ramilhete de rosas vermelhas.
  - So do meu jardim... - murmurou, como se estivesse falando com Stein.
  Voltou-se para o dono da casa e desculpou-se por ter chegado to tarde.
Bandeira, que vestira uma camisa branca e metera os ps sem meias numas
sandlias de couro,  aproximou-se do cadver:
  - Est na hora, Aro velho, tem pacincia. - Olhou em torno. - Algum
sabe cantar a Internacional? Bom, no faz mal. O Stein morreu
excomungado pelo Partido.  Zeca,  tua Igreja no encomenda suicidas,
no ? Pois ento o remdio  encaixotar o defunto e mand-lo para a
Eternidade, sem endereo, frete a pagar. Vamos embora!   Neco, me ajuda
a fechar esta joa.
  Atarraxaram a tampa do esquife. Floriano e Zeca seguraram as alas da
cabeceira; Roque e Neco, as dos ps.
  - Devagarinho! - exclamou tio Bicho. E rompeu a cantarolar, imitando o
som dum trombone. Voltou a cabea para Floriano: - Sempre achei este
allegreto da Stima de  Beethoven a mais bela das marchas fnebres. E 
um allegreto! Opa! Cuidado, no me arranhem a porta. Como  mesmo que um
defunto deve sair de casa? Primeiro os ps...  ou a cabea? No importa.
Vai rachando!
  7
  Naquele mesmo dia, cerca das trs da tarde, armou-se um desses rpidos
mas violentos temporais de vero. O cu cobriu-se
  505
  de nuvens cor de ardsia, a atmosfera se tornou opressiva e, sob o calor
que a umidade agravara, no s as pessoas como tambm a cidade inteira
pareciam ter adquirido  uma flacidez de papelo molhado.
  Rodrigo, que dormia a sesta, sentiu o temporal e a trovoada num
pesadelo. Estava - no sabia ao certo onde e quando - sob um bombardeio,
cado debaixo dos escombros  duma casa. Uma pesada trave apertava-lhe o
peito. Gritava por socorro mas o ribombo dos canhes lhe abafava a voz.
Acordou quase em pnico, sentou-se na cama, a  respirao ofegante, o
corpo lavado em suor, e ficou a olhar em torno, atarantado. Foi nesse
momento que o temporal se desfez numa pancada d'gua duma violncia
diluviana, que durou quase meia hora, inundando as sarjetas, despejando
as nuvens e aliviando no s a atmosfera como tambm o peito do senhor
do Sobrado.
  Quando, pouco depois das cinco, Slvia entrou no quarto de seu padrinho,
sobraando os discos que ele lhe pedira pela manh (tinha mandado trazer
l de baixo a eletrola  grande), ela o encontrou sorridente, de
semblante tranqilo, respirando com regularidade. Erotildes tinha
acabado de dar-lhe um banho e de mudar-lhe a roupa, bem  como os lenis
da cama. O ar recendia a gua-de-colnia.
  - Ah! - exclamou Rodrigo. - Primeiro um beijo para o seu padrinho.
  Slvia ofereceu-lhe o rosto. Depois colocou a pequena pilha de discos
sobre a mesinha-de-cabeceira. Rodrigo ps-se a ler os rtulos. Eram
gravaes da Victor, algumas  delas feitas antes da Primeira Guerra
Mundial.
  - As alegres comadres de Windsor... A abertura do Egmont... A barcarola
dos Contos de Hoffmann... A Siciliana pelo Caruso. - Olhou com uma
ternura particular para  um dos discos menores, aproximou-o do nariz,
cheirou-o demoradamente. - O Loin du bal! Toca este primeiro.
  Slvia colocou o disco cheio de arranhes no prato da eletrola, pondo
esta a funcionar. Por trs duma cortina de rudos rascantes,
  506
  ouviram-se os sons foscos e sem relevo duma longnqua orquestra de salo
a tocar uma musiquinha buliosa e feliz.
  - Que tal?
  Slvia encolheu os ombros.
  - Bom... o senhor est escutando a msica no espao e no tempo. Eu,
apenas no espao. O gosto tem de ser diferente.
  - Tens razo. Essa msica me traz muitas recordaes. Os meus vinte e
quatro anos...
  Quando o diafragma da eletrola chegou  ltima estria, a orquestra
desapareceu e ficaram apenas as crepitaes que a agulha produzia sobre
o rtulo do disco. Mas  a melodia continuou na mente de Rodrigo na
forma de imagens do passado.
  - E agora? - perguntou Slvia.
  - Esse pot-pourri de La vie parisienne.
  A msica rompeu num canc frentico. Rodrigo reclinou a cabea no
travesseiro e sorriu para algum ou alguma coisa que no estava
fisicamente ali no quarto.
  - E eu que nunca fui a Paris?! Parece mentira.
  Fez o anular e o indicador da mo direita correrem sobre o lenol ao som
do galope, imitando os movimentos das pernas das coristas que danavam
em seus pensamentos.
  - Por qu? - perguntou em voz alta, talvez mais para si mesmo do que
para a nora. - Por qu? H razes que, analisadas agora, parecem fracas,
absurdas, pueris at;  mas que na poca tiveram a sua fora...
  Slvia o mirava em silncio, prestando ateno ao que ele dizia, mas
ouvindo suas palavras contra um fundo de imagens trgicas: o corpo nu de
Stein a balouar-se  como um pndulo, pendurado num galho da figueira.
  - Mas no  mesmo uma coisa ridcula? - tornou Rodrigo. - Quando eu era
moo, sempre que falava em ir a Paris meu pai fechava a cara,
queixava-se da crise da pecuria,  da falta de dinheiro... que sei eu! O
velho Licurgo era contra as viagens ao estrangeiro, como se elas fossem
uma indecncia, alm dum desperdcio de dinheiro.
  Slvia sorriu:
  507
  - Jango herdou essa mentalidade...
  - Depois de 23 pensei outra vez em ir a Paris. Estava com tudo pronto
quando a Alicinha adoeceu... tu te lembras. Depois vieram todas aquelas
revolues em que andei  envolvido... e que s terminaram em 28. Nesse
ano o Getlio me escreveu, pedindome que aceitasse a minha candidatura 
intendncia de Santa F. Ca na asneira de  dizer que sim e acabei me
sentando na cadeira do Lao Madruga... o que no  a mesma coisa que
sentar a uma mesa no Moulin Rouge... Em 29 veio a campanha da Aliana
Liberal. Depois, a Revoluo de 30, e fomos todos bater com os costados
no Rio. E como  que eu ia viajar para o estrangeiro naqueles primeiros
anos de reconstruo  do pas? Em 32 comecei a pensar de novo em Paris,
mas bumba!, estoura a revoluo em So Paulo...
  La vie parisienne terminou num outro canc ainda mais vibrante que o
primeiro.
  - 34 foi o ano da Constituio. 35, o do Centenrio da Revoluo
Farroupilha. Eu podia ter ido a Paris em 36 ou em princpios de 37, e se
me perguntares agora por  que no fui, eu no te saberia responder...
  Slvia sorriu, pensando: "Eu sei. A peruana..."
  - No segundo semestre de 37 - prosseguiu Rodrigo - comearam a se
amontoar as nuvens de tempestade que rebentaram no golpe de 10 de
novembro. O Getlio precisava  de mim e eu no podia nem pensar em sair
para fora do pas... A situao estava ainda incerta. Em 38, o Guanabara
foi atacado e o presidente por pouco escapou de  ser massacrado com a
famlia. Depois, veio a guerra... e adeus, Europa! E agora, que eu
poderia comear de novo a pensar nessa sonhada viagem, aqui estou nesta
situao  que vs...
  - Talvez o ano que vem... - arriscou Slvia, sem muita convico.
  - Qual! Estou liquidado, minha filha. No me iludo.
  Ela esboou um gesto de protesto, mas ele retomou a palavra:
  - A Frana de hoje  uma nao dividida contra si mesma. Seu povo est
amargurado e cheio de dios. Paris deve guardar
  508
  lembranas negras dos tempos da ocupao nazista. Estou certo de que eu
no reconheceria a cidade de meus sonhos...
  Slvia ergueu-se e foi virar o disco. Voltou depois para junto do sogro.
  - Pois . O senhor no foi a Paris e eu ainda no vi o mar...
  - Por culpa tua. Durante todos estes anos te convidei mil vezes para
ires ao Rio passar uma temporada conosco.
  Ela fez um gesto de resignado desalento.
  - Ora, o senhor se lembra de como era a minha me. Sempre que eu falava
em dar um passeio ao Rio, ela comeava a sentir suas dores de cabea e a
dizer que ia morrer.  Melhorava quando eu desistia da viagem.
  - Tua me era uma mulher infeliz. Coitada! Desconfio que nunca
simpatizou muito comigo...
  Slvia no teve a coragem de contradiz-lo. Continuou:
  - Depois, quando ficou paraltica, queria que eu estivesse sempre a seu
lado.
  - Faz mais de quatro anos que dona Elisa morreu. Durante esse tempo
poderias ter ido nos visitar muitas vezes...
  - O senhor sabe muito bem que o Jango se recusa a ir ao Rio. Sempre se
recusou, como se essa viagem significasse uma traio ao Rio Grande.
Poderamos ao menos ter  ido passar alguns dias de vero nestas nossas
praias do Atlntico, mas o meu marido, como a maioria dos gachos do
interior, tem uma certa implicncia
  com o mar.
  A msica cessou.
  - Agora vamos fazer uma pausa - disse Rodrigo. - Senta-te aqui na cama.
  Ela fez o que o sogro pedia. Este lhe tomou da mo.
  - Slvia, tu s uma mulher inteligente. Acho que contigo posso abrir meu
corao.
  Ela ficou um pouco alarmada, imaginando o que estava para vir.
  - Vou te perguntar uma coisa. Quero que fales com toda a franqueza.  o
maior favor que podes fazer a este teu padrinho que te quer tanto. -
Calou-se por alguns  segundos e olhou-a bem nos olhos. - Tu sabes do meu
caso com... com essa moa do Rio?
  509
  - Sei.
  - Naturalmente isso te escandaliza...
  - No.
  - No me reprovas, no me censuras?
  - Censurar por qu? Essas coisas simplesmente acontecem. So um sinal de
que o senhor est vivo.
  Rodrigo olhava para a nora, agradavelmente surpreendido.
  - E que  que se diz por a desse meu caso?
  - Por a?
  - Nesta casa.
  - Nada. O assunto  tabu.
  - Mas que  que teu marido pensa?
  - Nunca me disse. Nem dir.
  Por um instante ele voltou a cabea para a janela e ficou a olhar para o
cu lmpido.
  - Sei que sempre fui um mau marido, quanto a esse assunto de fidelidade
conjugai. No mais minha conscincia no me acusa de nada. Nunca deixei
de respeitar minha  mulher. E minha ternura por ela continua intata,
como no dia de nosso casamento.
  Slvia no sabia que dizer.
  - Mas a atitude da Flora est me ferindo profundamente. Ela se porta
como se eu no existisse. Sei que no tenho o direito de exigir nada. A
presena dessa menina  em Santa F... compreendo que  uma humilhao
para a Flora. E ela sabe que eu fui visitar a Snia no hotel. - Rodrigo
falava agora com a voz embaciada pela emoo.  - Acho que no ignoras
que eu e a Flora h muito no vivemos como marido e mulher. Que diabo!
No sou propriamente um velho... nem um monge. Enfim...  uma situao
muito delicada, eu sei. Mas se ao menos a Flora se sentasse aqui a meu
lado... e conversasse comigo, me deixasse contar, explicar certas
coisas... ou pelo menos  me desse uma oportunidade para lhe pedir perdo
por todo... todo o sofrimento e a humilhao que lhe tenho causado. . .
Mas no. Ela no toma conhecimento da minha  existncia.  cruel. Ser
que no sabe que vou morrer? No, Slvia, posso suportar tudo, menos a
idia de que minha prpria mulher me despreza ou me odeia...
  510
  Lgrimas brotaram-lhe nos olhos e escorreram-lhe pelas faces.
  - Sempre achei um espetculo ridculo um homem chorar na frente de
outras pessoas. No contes nada a ningum.
  - Fique tranqilo. No sou do tipo que conta.
  Enxugou os olhos do padrinho com um leno. Depois acariciou-lhe a mo e,
usando quase o tom de quem fala com uma criana, disse:
  - Antes de mais nada: o senhor no vai morrer. E depois... quem sabe?...
amanh as coisas podem melhorar. Deus  grande.
  Rodrigo sorriu tristemente.
  - S falei de mim. Me conta alguma coisa de ti.
  - No tenho nada a contar. Quero dizer, nada de especial.
  - Vou te perguntar mais uma vez. s feliz?
  - Sou, eu j lhe disse.
  - Ests sendo sincera?
  Ela hesitou por uma frao de segundo.
  - Estou.
  - No acredito.
  - Por qu?
  - Vejo na tua cara, nos teus olhos, na tua voz... em tudo. E eu me sinto
um pouco culpado dessa situao. Tu casaste com o Jango porque eu
insisti...
  - No pense nisso. Tudo est bem agora.
  - Por que agora?
  - Porque nestes ltimos tempos aconteceram coisas muito importantes.
Quero dizer, dentro de mim.
  - Vejo que cometi um grande erro. No compreendi que o Jango, apesar de
ser um homem de bem, no era o marido que te convinha. Como foi que no
enxerguei isso em  tempo? Decerto porque tive pena do rapaz. E tambm
porque temia que casasses fora da famlia Cambar.
  Slvia mal podia disfarar seu embarao. Seu olhar desviou-se para a
eletrola.
  - Quer que eu toque mais alguma coisa?
  - No. Quero que fales a verdade. Ela forou um sorriso.
  511
  - Vai me obrigar a dizer que no sou feliz?
  - O marido ideal para ti teria sido o Floriano...
  Ao pronunciar estas palavras, Rodrigo olhou intensamente para o rosto da
nora, cujos lbios palpitaram. Ela esboou um movimento de fuga, mas
Rodrigo segurou-lhe  a mo, detendo-a.
  - Existe alguma coisa entre vocs dois?
  Ela fez que no com um movimento de cabea.
  - Somos apenas amigos. No h nem haver nada mais entre ns, alm duma
amizade fraternal.
  - Confio em ti, minha filha. O Floriano vai voltar logo para o Rio, e
tudo ficar mais fcil... para os dois. O Jango precisa de ti. As
mulheres tm uma capacidade  de renncia maior que a dos homens.  por
isso que elas so mais fortes que ns.
  Slvia ergueu-se e saiu do quarto sem dizer palavra.
  Floriano estava na gua-furtada, deitado no div, ouvindo a pea de Bach
que sua eletrola porttil reproduzia. De olhos fechados, tentava
conseguir o que o dr. Kendall  tantas vezes lhe recomendara: "a
disciplina do silncio", isto , ouvir msica sem verbaliz-la,
procurando deslig-la por completo das coisas do mundo, receb-la  na
sua pureza essencial. Para isso era indispensvel esquecer a pessoa do
compositor, o fato de que a msica estava sendo produzida por seres
humanos, e principalmente  ficar surdo ao que a melodia pudesse
significar como voz que conta uma histria ou descreve uma paisagem ou
uma situao terrenas. Floriano escutava um preldio  de O cravo
bem-temperado. As notas do instrumento - que soava ora como uma caixinha
de msica ora como um alade - pareciam traar no ar coloridos desenhos
abstratos.  Por alguns instantes ele saboreou o prazer intelectual que a
pea lhe proporcionava. Que admirvel unidade dentro da diversidade e da
liberdade de composio! Que  riqueza de inveno! O preldio flua
perfeito, sem repeties de frases ou temas.
  512
  E se fosse possvel viver a vida sem verbaliz-la? Sim, tocar seu clido
e enorme corao que pulsa, aflito e quase abafado, por baixo duma
crosta de convenes,  supersties e prejuzos... Libertar a vida, o
mundo, o homem de sua priso de palavras!
  Tornou a concentrar-se no preldio duma maneira no-verbal. Continuava
de olhos fechados, procurando exorcismar uma srie de imagens que lhe
vinham  mente - a figura  adunca de Wanda Landowska encurvada sobre o
clavicrdio... a Fte galante de Watteau na Galeria Nacional de
Washington... um poema de Verlaine que sempre lhe soava  na memria
quando ele contemplava o quadro... e a cabea dum velho peo do Angico,
que ele achava parecida com a do poeta... Por fim seu esprito entrou
numa zona  crepuscular que no era mais viglia, mas que ainda no
pertencia ao territrio do sono. Teve a impresso de que seu corpo
flutuava no ar, como se o sortilgio do  preldio houvesse abolido a
fora da gravidade. Essa sensao, porm, durou apenas alguns segundos.
O poder subterrneo do mundo se fez sentir, e na mente de Floriano  a
voz do clavicrdio passou a ser apenas um pano de fundo sobre o qual
apareciam, se superpunham e fundiam lembranas daquele dia - o horrendo
carro fnebre do Pitombo,  com seus anjos barrocos de olhos revirados
para o cu, como num orgasmo mstico... o corpo de Stein com seus
sapatos de solas furadas... o ventre lustroso de tio  Bicho... Chiru
barbudo, recendendo a cachaa... a poeira da estrada, no caminho para o
cemitrio, sob a soalheira... E de repente a figura luminosa de Slvia
lhe  surgiu, ofuscando as outras. Ela danava nua num cabar de
Chinatown, com um balo amarelo sobre o sexo. Floriano revirou-se no
div, conturbado. Era estranho, mas  apesar das emoes do dia"- ou
talvez por causa delas - sentia seu desejo carnal exacerbado.
  De novo procurou concentrar a ateno na msica, apaziguarse nas frescas
guas daquela melodia lmpida e assexuada.
  A msica cessou. Ele se ergueu e apagou a eletrola. Depois ficou um
instante junto da janela, olhando as rvores da praa, imveis na morna
placidez da tarde.
  O que eu preciso mesmo  dum banho - resolveu. Desceu, tomou uma ducha
fria, vestiu-se e ficou no quarto de dormir, a
  513
  andar desinquieto dum lado para outro, sem saber aonde ir. Tornou a
pensar no romance. Sentia que suas personagens clamavam por nascer. No
poderia cont-las por  muito mais tempo. Ultimamente surpreendia-se a
pensar em termos de fico nas pessoas em cujo meio vivia. Podia estar
fisicamente com elas, dando-lhes pelo menos  em parte sua ateno, mas
dentro de sua cabea o novelista estava a escrever aquela cena, a
reproduzir aquele dilogo (j transfigurado, j "outra coisa") e no
mais no presente do indicativo, mas no passado perfeito. Durante o
grotesco velrio de Stein, mais de uma vez ficara a descrever
mentalmente o ambiente e as figuras  humanas, como elementos dum
captulo de seu futuro livro...
  Parou junto da pia e olhou-se no espelho. Sempre que isso acontecia
vinham-lhe dois impulsos: o de escovar os dentes e o de lavar a cara.
No raro fazia essas coisas  distrado, vrias vezes por dia.
  Passou a mo pelo rosto e decidiu barbear-se de novo. Ps-se a ensaboar
lentamente as faces, perdido em pensamentos. Ocorreulhe uma idia, um
tanto  maneira de  scherzo: "Serei o senhor do destino das personagens
de meu romance. Posso salvar a vida do Velho... evitar o fim trgico de
Stein... e casar-me com Slvia!"
  A voz de tio Bicho soou-lhe implacvel na mente: "Vejo que aos trinta e
quatro anos ainda no abandonaste o vcio solitrio. Te contentas com
fices e faz-de-contas  e no percebes que a vida, como uma fmea, est
te provocando, de saias erguidas".
  Barbeou-se com uma pressa nervosa, pensando em Slvia e desejando-a com
uma intensidade impaciente. Esfregou gua-de-colnia na pele irritada das
faces, que lhe arderam  como se estivessem queimadas. Um monge na sua
cela entregue  mrbida delcia do cilcio... Delcia do cilcio. Ficou
a repetir mentalmente estas palavras.
  Vou visitar o Velho - decidiu. Deu o n na gravata, enfiou o casaco e
aproximou-se da porta. Abriu-a no momento exato em que Slvia saa do
quarto contguo. Ao v-lo  ela teve um movimento de hesitao, como que
surpreendida e alarmada ante uma presena inimiga. O corao de Floriano
rompeu a pulsar com uma fora desesperada.  O mundo como que se apagou
ao seu redor e ele s
  514
  teve conscincia da imagem daquela mulher que tanto amava e desejava, e
que ali estava na sombra do corredor deserto, na casa silenciosa...
Sentia o calor e o perfume  que se exalavam daquele corpo moreno, via
seus seios arfarem... Um desejo violento incendiou-lhe as entranhas,
aboliu-lhe a capacidade de raciocinar... Precipitou-se  para Slvia,
tomou-a nos braos, estreitou-a contra o peito e ps-se a beijar-lhe
furiosamente a face, os cabelos... No primeiro momento ela se entregou,
desfalecida,  soltando um gemido. Os lbios dele buscavam os dela,
famintos e aflitos. Mas Slvia, de cabea voltada para um lado,
negava-lhe a boca: "No, no... pelo amor de  Deus!" De sbito retesou o
corpo, empurrou Floriano com fora, desvencilhou-se do abrao, entrou no
seu quarto e fechou a porta a chave.
  Ele ficou onde estava, ofegante, uma nvoa nos olhos, o desejo
insatisfeito a doer-lhe na carne. Sentiu, mais que viu, outra presena
no corredor. Maria Valria  aproximava-se sem rudo, como uma sombra.
  - Quem ? - perguntou, parando a pequena distncia dele.
  Floriano permaneceu em silncio, procurando conter a respirao. Suas
tmporas latejavam. O suor escorria-lhe pelo peito e pelo lombo.
  -  o Floriano? - insistiu a velha.
  No havia outro remdio seno responder. Era impossvel que ela no
estivesse ouvindo o seu resfolgar de animal acuado.
  - Sim, Dinda, sou eu.
  - Quem mais estava aqui?
  - Ningum.
  Os olhos mortos da velha, fitos nele, pareciam ver toda a sua
frustrao, toda a sua vergonha, toda a sua misria.
  - Quando  que voc vai voltar para o Rio?
  Aquela pergunta era um indcio de que ela sabia de tudo. Floriano no
disse mais nada. Saiu a caminhar pelo corredor, atravessou o vestbulo,
desceu a pequena escada  e ganhou a rua. Tinha a impresso de estar sujo
duma sujeira viscosa e repulsiva, visvel a toda a gente. Estava
envergonhado e arrependido do que fizera. Havia  ferido gravemente
Slvia no corpo e no esprito. Se ao menos
  515
  seu gesto tivesse sido de pura ternura... Mas no! Portara-se como um
animal. Rebaixara-se aos olhos dela. Atraioara uma velha amizade.
Atraioara o irmo. Atraioara  a famlia inteira. Atraioara-se a si
mesmo. Mais que nunca, compreendia agora que possuir Slvia fisicamente
no era to importante como conservar sua amizade,  sua confiana e seu
respeito. Chegava a estas concluses com o crebro, mas sua carne ainda
gritava pela da cunhada...
  Entrou na rua do Comrcio e tomou a direo do norte, rumo dos trilhos.
Amolentava-lhe o corpo uma canseira dolorida, como se ele tivesse sido
esbordoado. Doam-lhe  principalmente a nuca e os rins. Sentia a boca
seca e uma ardncia na garganta.
  Que fazer? Que fazer? O remdio era mesmo voltar para o Rio... A Dinda
tinha razo. Mas como explicar aos outros membros da famlia o porqu
daquela deciso de ir-se  assim de repente?
  Parou a uma esquina e ficou a contemplar o casario da Sibria, na
encosta da coxilha,  luz daquele fim de dia. E sentiu ento, com uma
pungncia quase insuportvel,  a enormidade de sua solido.
  S voltou para o Sobrado muito tarde, quando todos estavam j
recolhidos. Meteu-se logo no quarto, onde passou uma noite inquieta e
insone. Tentou ler, mas no conseguiu  interessar-se em nenhum dos
quatro livros que tinha  cabeceira da cama. Seu pensamento voltava
constantemente para Slvia. A cena do corredor vinha-lhe  mente  com
freqncia, e ele a ruminava numa mistura de remorso e gozo. Tentava
ressentir agora, em relativa calma, as sensaes daquele abrao, daquele
convulsivo contato  de corpos, e ao mesmo tempo se recriminava por
entregar-se a essas lembranas.
  Levantou-se vrias vezes para lavar o rosto e principalmente para deixar
a gua fresca da torneira da pia cair-lhe sobre os pulsos - operao
essa que lhe recordava  as viglias da adolescncia. Finalmente, j alta
madrugada, conseguiu dormir.
  Acordou com o sol na cara e a sensao de que passara a noite inteira em
claro. Tomou a sua ducha, barbeou-se, olhou para a prpria imagem no
espelho e refletiu:  "Eis o grande moralista, o severo juiz do dr.
Rodrigo Cambar."
  516
  Passarinhos cantavam nas rvores do quintal. Laurinda conversava com o
verdureiro na calada. As flores amarelas das alamandas pareciam
entretidas num dilogo com  os jasmineiros da padaria vizinha, que se
debruavam por cima do muro. Stein apodrecia na sua sepultura. Como era
possvel entender aquele mundo?
  Quando uma das chinocas da cozinha veio bater  sua porta, anunciando
que o caf estava servido, Floriano gritou:
  - Diga que no vou. Estou sem fome.
  Saiu de casa sem ser visto. O dia estava morno, o cu limpo, o ar
parado. Ps-se a andar lentamente, descendo a Voluntrios da Ptria.
Suas pernas, com alguma cumplicidade  da cabea, o levaram para a casa
do Bandeira. Encontrou-o sentado  escrivaninha, inclinado sobre um
livro, com um lpis na mo.
  - Ol, Floriano! Entra. Estou traduzindo o tal poema de Rupert Brook
sobre os peixes.  muito curioso. Tomas alguma
  coisa:
  - Aceito um caf.
  Tio Bicho foi at a cozinha e voltou de l com a cafeteira na
  mo.
  - No te assustes:  caf recm-passado... Mas onde te meteste ontem de
noite que no apareceste no quarto de teu pai? Ele notou a tua
ausncia...
  - Andei caminhando por a...
  - Em boa companhia?
  - Pssima. Comigo mesmo.
  - Deixa de fita. Tu te amas. Eu me amo. Todos ns nos amamos e nos
achamos muito interessantes...
  Floriano teve de sorrir.
  - Algum problema?
  - Sempre h problemas...
  - Algo que um batrquio possa saber?
  - No.
  - Ento deve ser coisa muito sria. Aposto como  assunto de mulher.
  Floriano ficou quase em pnico, temendo que o outro acabasse acertando
no alvo, mesmo no escuro.
  517
  - Volto para o Rio dentro de poucos dias.
  - Opa! Quando tomaste essa deciso?
  - Ontem.
  Roque Bandeira encarou o amigo com um ar inquiridor, mas Floriano
apressou-se a dizer:
  - Por favor, vamos falar noutra coisa.
  Muito depois, quando terminavam de tomar caf, Bandeira disse:
  - O Camerino me contou ontem que nestes ltimos dois dias teu Velho tem
tido uma melhora to grande que ele est inclinado a mand-lo para o
Rio.
  - De quem partiu a idia?
  - Do teu prprio pai. E eu a acho sensata. No Rio h mais recursos
mdicos.
  - E essa situao da Snia se resolve, quero dizer... no fica essa
menina metida no hotel, servindo de assunto aos mexericos locais. O
passeio dela, todas as tardes  s seis pela frente do Sobrado, j se
tornou um dos "programas" da cidade. Quase todas as comadres das
vizinhanas vm para a janela aquela hora, para verem o espetculo.
  - A manh est linda. Podemos dar uma caminhada por a... Se eu tivesse
nascido na Grcia antiga, estou certo de que teria sido um filsofo
peripattico.
  - Apesar dos joanetes?
  - Apesar de tudo. Vamos. O poema pode esperar.
  Almoaram juntos no Schnitzler. Cerca das duas da tarde Bandeira
declarou solene:
  - Esta, meu velho,  a hora sagrada da sesta. Uma sesta completa, com
sonhos, pesadelos e roncos. Obrigado pelo almoo. Nos veremos logo 
noite.
  Separaram-se. Floriano rondou o Sobrado por alguns minutos e por fim
entrou, conseguindo chegar ao quarto sem encontrar ningum no caminho.
Deitou-se e dormiu quase  imediatamente. Acordou muitas horas depois,
suado e azedo, e com uma sensao de peso na cabea. Pensou logo no
chuveiro... Era curioso como
  518
  um banho s vezes tinha o poder de melhorar no s a sua situao fsica
como tambm a psicolgica. Tio Bicho lhe dissera um dia: "Isso prova,
meu velho, que teus  problemas so apenas epidrmicos".
  A hidroterapia aquela tarde no falhou. Floriano deixou o quarto de
banho aliviado. Trocou de roupa e preparou-se para sair. No tinha dado
mais de meia dzia de  passos no corredor quando ouviu a voz de Slvia
pronunciar seu nome. Fez alto e voltou-se. Ela estava junto da porta do
prprio quarto.
  - Preciso falar contigo... - disse em voz baixa.
  - Onde?
  - No quintal. Desce e me espera. Daqui a pouquinho estarei contigo.
  Floriano obedeceu. A calma e a naturalidade - sim, e tambm a ternura -
com que Slvia lhe falara, o deixavam perplexo.
  Sentou-se no banco debaixo dum dos pessegueiros. O sol se havia
escondido por trs da torre da matriz, e uma sombra morna e trigueira
cobria o quintal. Temperava  o ar a fragrncia veludosa dos pssegos
maduros, mesclada com a das madressilvas e dos jasmineiros. Floriano
olhou para o relgio. No teriam muito tempo para conversar  em paz,
pois dentro de menos de meia hora a velha Maria Valria como de costume
desceria de mangueira em punho para regar suas plantas. Era admirvel
como podia  fazer isso mesmo na sua cegueira. Sabia exatamente o lugar
de cada arbusto, de cada rvore, de cada flor.
  Floriano estava a olhar fixamente para uma lesma que se arrastava sobre
a beirada de tijolos dum canteiro, deixando para trs 'uma esteira
viscosa - quando Slvia  apareceu  porta da cozinha. Vestia uma blusa
de seda creme e uma saia de linho azul. Trazia debaixo do brao dois
livros e na mo um prato e uma faca. Caminhava  com a cabea um pouco
projetada para a frente e apertando os olhos, como se fosse mope.
Floriano ergueu-se. A 
  519
  expectativa punha-lhe no peito uma espcie de mancha de apreenso. Sentia um
leve aperto na garganta. Fez um esforo para dominar a emoo.
  Sentaram-se lado a lado em silncio. Ela apanhou o pssego que pendia
dum galho, pouco acima de sua cabea, e comeou a descasc-lo.
  - No vejo razo - disse sorrindo - para a gente no conversar com toda
a franqueza sobre o que aconteceu ontem. Afinal de contas no somos mais
crianas...
  Ele sacudiu a cabea afirmativamente, no ousando encar-la.
  - Slvia, no vou procurar me justificar. S quero que me perdoes... e
esqueas, se possvel...
  - Mas no! - exclamou ela, alando o olhar. - Foi bom que tivesse
acontecido.
  - Bom?
  - Sim. Teu gesto esclareceu muitas coisas. Tive a certeza de que me
queres, e de que eu tambm te quero. Por outro lado acho que chegamos os
dois  concluso de  que o nosso caso no tem remdio. Fiquei mais que
nunca convencida de que jamais serei capaz de atraioar o Jango.
Respeito o meu marido mais do que imaginava. Compreendi  tambm que, se
eu o enganasse, estaria me enganando a mim mesma. E a ti tambm,
Floriano. E ento teramos perdido o que possumos de melhor. No te
esqueas de  que somos suficientemente sensveis para nos sentirmos
feridos quando ferimos os outros.
  Ele sacudiu a cabea, concordando.
  - Mas mesmo assim no me perdo pelo que fiz. Destru a imagem ideal que
eu tinha de mim mesmo e (vou ser sincero) que queria que tivesses de
mim...
  - No te preocupes. Se eu disser que de certo modo secreto e muito
difcil de explicar eu desejei que aquilo acontecesse... isso te
tranqilizaria?
  A franqueza dela o contagiava.
  - Sim, talvez. Mas essa idia tambm me excita um pouco como homem. E de
novo me envergonho por causa desse sentimento carnal.  um crculo
vicioso infernal...
  520
  - A est o teu engano. Ningum deve envergonhar-se do que sente. No
somos responsveis pelo que nosso corpo deseja mas sim pelo que fazemos
com ele.
  Deu-lhe o pssego que acabava de descascar. Era um molar pequeno de
polpa branca, macia e sumarenta. Floriano meteu-o inteiro na boca e teve
a impresso de que ele  se derretia, doce e saboroso.
  Slvia tornou a falar:
  - A renncia para mim no teria sentido se eu no tivesse encontrado
Deus. Mas encontrei, Floriano. No sei por que no te havia contado isso
antes...
  - Eu desconfiava que alguma coisa importante tinha acontecido na tua
vida.
  Tirou da boca o caroo de pssego e, num impulso juvenil, chutou-o para
longe. Depois disse:
  - O fato de teres encontrado Deus torna o meu gesto ainda mais
grosseiro.
  - Ora, no leves a coisa to a srio. No sou nenhuma Teresinha de
Jesus. Sou uma mulher como as outras. Cheia de defeitos, vulnervel,
capaz de pecar e me arrepender,  e de pecar de novo...
  - Dizes isso por pura caridade, para me apaziguar a conscincia.
  - Ests enganado.  o que eu penso mesmo. Ningum pode viver
impunemente. Existir  estar aberto a todas as paixes do mundo e s
suas conseqncias...
  Agora era ela que comia o seu pssego. De quando em quando Floriano
lanava rpidos olhares na direo da casa.
  - A idia de que no s feliz - disse ele - me deixa perturbado e tambm
infeliz.
  - Eu era infeliz. J no sou mais, quero dizer, permanentemente infeliz
como antes. Tenho os meus momentos de dvida, sofro ainda ataques do
"inimigo cinzento"...  mas so meros acidentes sem maior importncia. O
conhecimento e o amor de Deus me deram olhos para descobrir um desenho
coerente, um sentido na vida.
  521
  - Mas no  justo que tu sejas sempre quem tem de renunciar. Tens
obrigaes para contigo mesma e no apenas para com os outros.
  - Ora, um dia vais compreender que essa separao entre ns e os outros
no  to ntida como parece. No descobriste ainda que para os outros
ns somos os outros?
  Ele se surpreendia e maravilhava de v-la e ouvi-la falar assim, com
aquela serena segurana de si mesma e ao mesmo tempo com um jeito to
despretensioso e autntico.
  - Outro pssego? Ele aceitou.
  - Desde que cheguei, Slvia, tenho pensado muito em ti. Considero-me
responsvel pela tua situao matrimonial. Em 1937 me portei como um
idiota. Devia ter corrido  para te suplicar que casasses comigo. Agora
estou pagando caro o meu erro.
  Ela sorriu.
  - Para um homem que no acredita em Deus, tens um sentimento um tanto
exagerado de responsabilidade moral.
  Ele encolheu os ombros. Tornou a olhar para a lesma, que se arrastava
lerda e paciente sobre os tijolos, e lembrou-se das crueldades do menino
Zeca, que gostava  de deitar sal de cozinha sobre aqueles bichos, para
v-los se retorcerem em agonia.
  - Repito que no deves levar toda essa histria to a srio - tornou
Slvia. - Ningum, a no ser tu e eu, sabe do que se passou ontem. Vamos
fazer um trato: no  aconteceu nada. Atrasamos os nossos relgios e
recomeamos tudo desde o momento em que sa do meu quarto e te encontrei
no corredor. Eu te sorri, tu me sorriste,  trocamos duas palavras e eu
continuei o meu caminho. Est feito?
  - Como me sinto pequeno perto de ti!
  - Por favor, no me idealizes. Prefiro que me vejas como sou, se tal
coisa  possvel.
  Pegou os dois livros de capa azul que estavam a seu lado, sobre o banco.
  - Sabes o que  isto?  o meu dirio ntimo... intimssimo, comeado em
1941... Confesso que passei boa parte da noite 
  522
  pensando se devia ou no te deixar ler essas coisas to pessoais... essas
confisses que a gente s vezes tem pudor de fazer at a si mesma.
Acabei concluindo que devia.  O assunto est resolvido e no quero
pensar mais nele.
  Floriano a escutava, comovido.
  - E sabes por qu? - prosseguiu ela. - Porque quero que me conheas
melhor... que tenhas a medida das minhas imperfeies, e no te
recrimines pelo que possas sentir  com relao a esta tua amiga. Ah!
Tenho duas condies importantes a impor. A primeira  que no deves de
maneira alguma deixar estes volumes carem nas mos de  outra pessoa.
Isso  fundamental. Eles contm explosivos suficientes para ferir muita
gente, principalmente o Jango... e a mim mesma. Acho que tu tambm vais
sair  dessa leitura com algumas escoriaes, mas nada de grave... Bom,
agora vem a segunda condio.
  - Qual ?
  - Seja qual for a tua impresso da leitura do meu dirio, quero que me
devolvas estes dois livros em silncio, sem o menor comentrio. Estamos
entendidos?
  Floriano moveu a cabea afirmativamente. Ela lhe entregou os dois
volumes, sorrindo:
  - O contedo  um pouco melhor que as capas, isso eu posso te garantir.
Mas pe essas coisas no bolso, antes que algum veja...
  Ele obedeceu, murmurando:
  - Obrigado.
  - Quero que aceites este meu gesto como uma prova (a maior que te posso
dar) de confiana e de afeto... Por que no dizer sem medo a palavra
exata? De amor... Sim,  amor, por que no?
  Por alguns segundos ficaram a contemplar-se num silncio grave e
enternecido.
  - Ah! - fez ela. - Chamo a tua ateno para a ltima pgina do dirio.
Foi escrita ontem. Explica muita coisa. Inclusive talvez o meu futuro.
  Deu-lhe outro pssego; que ele mordeu, olhando para os lbios dela.
  - Sempre viveste procurando a liberdade... - disse Slvia. - Descobri
que a verdadeira, a grande liberdade  a aceitao dum dever, duma
responsabilidade. No h  no mundo ningum menos livre do que o
egosta... Ou o homem detach.  um perigo a gente pensar que liberdade
 sinnimo de solido.
  - Cheguei  mesma concluso por outros caminhos. Ele sorriu:
  - Sempre me senti responsvel por ti e, como te disse, isso me
perturbava. Agora que encontraste Deus, estou tentado a entregar-te a
Ele, que tem as costas mais  largas...
  - Suficientemente largas para agentar todos os problemas do mundo,
inclusive os teus. Vou rezar por ti. Outro pssego?
  - Sim, o ltimo.
  - Por qu? Espero que haja outros no futuro. Os pssegos da amizade. A
nossa pscoa.
  Novo silncio.
  - Que pensas fazer agora? - perguntou ela.
  - Escrever outro romance.
  - Sim, mas fora da literatura?
  - Estamos numa encruzilhada. O mundo. Este pas. Esta famlia. Eu.
  - Mas a gente no est sempre a cada passo encontrando encruzilhadas? S
um cavalo com tapa-olho no as enxerga...
  Naquele momento Maria Valria assomou a uma das janelas do fundo do
casaro. Slvia e Floriano levantaram-se e ficaram frente a frente.
  - Aqui nos despedimos - murmurou ela. - Acho que no teremos outra
oportunidade para uma conversa como esta. Cuida do dirio. Cuida de ti.
Vai com Deus.
  - Posso te dizer o que estou pensando?
  - Claro. Seja o que for.
  - Neste momento estou te abraando - sussurrou ele -, te beijando os
cabelos, os olhos, a face, a testa, os lbios, com a maior ternura.
  Ela cerrou os olhos e disse:
  - Sou a tua imagem no espelho.
  524
  A voz da velha soou spera na calma pastoraj
  - Floriano!
  - Que , Dinda?
  - Teu pai est te chamando.
  tarde.
  10
  Antes de subir ao quarto do pai, Floriano entrou no seu prprio e
guardou o dirio numa das gavetas da velha cmoda, debaixo de suas
camisas e, ao sair, fechou a  porta a chave.
  Rodrigo recebeu-o com uma cordialidade triste e preocupada. Ai-ai-ai...
- pensou Floriano - que ter acontecido?
  - Enfermeiro! - chamou o senhor do Sobrado. Erotildes imediatamente
apareceu  porta. - Daqui por diante no recebo mais ningum
, seja quem
for.
  - Nem o doutor?
  - Nem o bispo. Floriano, fecha essa porta com o trinco... Isso! Agora te
senta aqui perto de mim.
  Floriano arrastou uma cadeira para junto da cama, sentou-se e esperou o
pior. O pai mirou-o por alguns segundos em silncio, e depois disse:
  - Temos um negcio muito srio a discutir.
  - Que coincidncia! H dias que venho pensando em ter uma longa conversa
com o senhor...
  - Sobre qu?
  - O meu assunto  muito comprido. Vamos primeiro ao seu.
  - A pergunta que vou te fazer no  fcil nem agradvel. Trata-se duma
situao muito delicada, que me tem trazido preocupado... Tens de me
falar com toda a sinceridade,  mas toda, ests compreendendo? Nada de
subterfgios: quero respostas diretas. Posso contar com tua franqueza?
  - Pode.
  - Est bem. No farei rodeios.  a respeito de Slvia... Que  que h
entre vocs dois?
  Floriano sentiu a pergunta no peito com o impacto dum murro.
  525
  - Nada - respondeu automaticamente.
  - Palavra de honra?
  Floriano ergueu-se, postou-se aos ps da cama, agarrou-lhe a guarda com
fora, com ambas as mos.
  - No nego que sempre gostei da Slvia, e que fui um idiota por no ter
casado com ela.
  - Mas ela gosta de ti? Vamos, responde!
  Floriano hesitou. Teria o direito de revelar os sentimentos da cunhada?
No acreditava que o pai pudesse compreender a verdadeira situao...
Refletiu: "Qual seria  a melhor maneira de eu me exercitar para a
desejada conversa com o Velho seno comeando desde j a usar a mais
brutal das franquezas?
  - Ontem de tardezinha encontrei a Slvia no corredor... Estvamos os
dois sozinhos. Eu me portei como um canalha: abracei-a e tentei
beij-la...
  Rodrigo abriu a boca num espanto.
  - Tu? No respeitaste a mulher do teu irmo?
  Floriano encarou o pai e, sem rancor mas com firmeza, perguntou:
  - Quantas vezes o senhor desrespeitou esta casa... e as mulheres dos
outros?
  Arrependeu-se imediatamente destas palavras, porque Rodrigo soergueu-se
brusco, vermelho de clera, os olhos chispantes, como se quisesse
levantar-se para agredi-lo  fisicamente. Tornou, porm, a deixar cair a
cabea sobre o travesseiro. As pregas da testa se desfizeram, a boca
perdeu a rigidez, e os olhos recuperaram a sua quente  simpatia humana.
Ficou a olhar fixamente para o filho, num silncio magoado.
  - Quer me bater na cara? - perguntou Floriano, tornando a sentar-se. -
Bata se isso lhe faz bem. Mas vamos continuar a ser francos um com o
outro. Se me chamou para  me repreender como se eu fosse ainda um
menino, no chegaremos a parte nenhuma. Mas se quer ter comigo um
dilogo franco de homem para homem, poderemos ir longe.  E eu quero ir
muito longe. Refiro-me a outros assuntos... "
  526
  Em voz agora baixa, num tom que era quase de queixa, Rodrigo perguntou:
  - Por que fizeste isso, meu filho?
  - Ora, foi um desses impulsos de que o raciocnio no participa. O
senhor no negar que teve centenas deles na sua vida...
  - Mas logo com a mulher do teu irmo!
  - Naquele momento a Slvia era para mim apenas uma mulher. Sem rtulo. .
. As coisas so mais complicadas do que parecem  primeira vista.
  - Como foi que ela reagiu?
  - Est claro que me repeliu. E eu sa de casa envergonhado do que tinha
feito, furioso comigo mesmo, desejando me sumir...
  - Mas no me vais negar que ela gosta de ti...
  - Que importncia pode ter agora esse pormenor?
  Por alguns segundos Rodrigo ficou a mover a cabea lentamente, dum lado
para outro.
  - Acho que devias voltar para o Rio o quanto antes.
  - Estou de acordo.
  - Logo tu! Tu, o tmido, o retrado... Sempre te censurei por no usares
esse corpo. Vivia te dizendo que era bom soltar de vez em quando o
Cambar que tens dentro  de ti, preso pelos Terras e pelos Quadros. Mas
no com a tua cunhada, evidentemente. H milhes de outras mulheres
bonitas no mundo. A troco de que tinhas de escolher  a Slvia?
  Floriano nunca ficou sabendo por que chegou a dar voz a um pensamento
perverso que lhe veio  cabea, nem como teve coragem para tanto:
  - Se fosse a Snia Fraga, o senhor teria ficado menos chocado?
  Rodrigo tornou a soerguer-se bruscamente.
  - Por que te lembraste dela?
  -  mulher,  atraente e est na cidade.
  - Estiveste com ela?
  - No. Nunca. Nem pretendo estar.
  - Eu sabia que mais cedo ou mais tarde ias puxar esse assunto. Pois fica
sabendo que eu fao o que entendo e no tenho
  527
  de dar satisfao a nenhum calhorda. Fui ao hotel e dormi com ela. No
nego. Se no estivesse aqui esculhambado nesta cama, eu voltaria l hoje
mesmo, ests ouvindo?  E ia fazer isso s claras, na cara de todos esses
maldizentes e hipcritas de Santa F.
  - Est no seu direito. A sua vida  sua. Esse corpo  seu. Floriano
agora sorria. Falar franco era mais fcil do que ele
  imaginara. A franqueza era um vinho capitoso. Tinha chegado finalmente a
desejada hora de seu acerto de contas com o Velho. Aquela tarde no
quintal ele aprendera  com Slvia uma grande lio de sinceridade.
  Rodrigo lanou-lhe um olhar enviesado em que o tom de hostilidade no
passava duma pardia.
  - Confessa... Subiste aqui resolvido a falar na Snia. Queres que eu
mande a menina de volta para o Rio. Sempre foste do lado da tua me...
  - Est enganado. Meu assunto  outro. Muito mais complexo.
  - Desembucha ento. Floriano hesitava.
  - Como  que vou falar franco se o senhor se exalta quando digo coisas
que no lhe so agradveis?
  - Deixa de bobagem. No sou nenhuma sensitiva.
  - Discordo. O senhor  uma das maiores sensitivas que conheo.
  - Dizes isso porque no escondo o que sinto, no recalco nada. Se um
palavro me vem  ponta da lngua eu no engulo, solto.
  - Est bem. Diga todos os nomes feios que quiser. Mas me escute e trate
de me compreender. No espero nem quero que concorde com tudo quanto lhe
vou dizer.
  - Vamos, ento.
  - O assunto  comprido. Est mesmo disposto a ouvir?
  - Naturalmente, homem.
  - Est bem. - Floriano tornou a erguer-se, deu uma volta pelo quarto e
depois parou ao p da cama. - Talvez no seja de seu conhecimento, mas o
senhor tem sido um  dos maiores problemas da minha vida.
  528
  - Eu? Por qu?
  - Quando menino inventei um pai ideal, exemplar, e esperei que o senhor
correspondesse a essa fantasia, o que no aconteceu.
  - No estou te entendendo... Troca isso em midos.
  - A medida que eu crescia, fui aos poucos descobrindo suas fraquezas,
seus pontos vulnerveis, em suma, seus defeitos, para usar da
terminologia dos moralistas,  que no aceito com a razo mas  qual me
habituei emocionalmente.
  - Que  que esperavas que eu fosse? Santo Anto Eremita? Santo
Agostinho?
  - Talvez. E mais, So Jorge no seu cavalo branco. E Ricardo Corao de
Leo. E Mirabeau. E Tom Mix. E Rui Barbosa... Tudo isso num homem s:
meu pai.
  - Que tenhas imaginado todas essas besteiras quando menino, compreendo.
S no entendo como  que at hoje essas coisas possam ainda te
preocupar.
  - Temos de comear pelo princpio da histria. E afinal de contas o
menino continua a morar no homem...
  Rodrigo estava intrigado. Tirou um cigarro do bolso do casaco do pijama
e prendeu-o entre os lbios. Floriano apressou-se a acend-lo com o
isqueiro que estava em  cima da mesinha.
  Escurecia aos poucos. Da rua vinham vozes humanas de mistura com a
algazarra dos pardais que quela hora voltavam para as rvores da praa.
  - Uma vez no capo da Jacutinga (eu teria os meus quinze anos) vi o
senhor em grande atividade em cima duma das caboclas do Angico.
  Floriano no saberia como descrever a expresso do rosto do pai naquele
instante: um misto de surpresa, malcia, orgulho, saudade...
  - Eu desconfiava disso. Te vi saindo do capo aquela tarde. Foi pouco
antes da tua entrada para o Albion College... E se te interessa saber o
nome da chinoca, era  a An toninha Car. Satisfeito?
  - Depois... havia aquelas incontveis caboclinhas que vinham aqui para
casa. O senhor vivia metido com elas pelos cantos, erguendo-lhes as
saias, apalpando-as, dizendo-lhes  segredinhos...
  529
  Rodrigo soltou uma risada:
  - Que memria!
  - No vim pedir que o senhor se declare arrependido de todas essas
coisas ou que me pea desculpas. Quero s que pense na minha situao.
Eu via o mundo atravs  dos rgidos princpios de moral das damas do
Sobrado, mas sentia-o com o meu corpo de Cambar. Meu pai era um pouco o
meu rival. Por outro lado, eu temia que minha  me (de quem eu sentia
uma pena enorme) o apanhasse numa dessas escapadas erticas e viesse a
sofrer com isso.
  - Mas por que  que essas coisas todas ainda te preocupam vinte anos
depois?
  - Espere. Lembra-se da Amelinha Bernardi? Rodrigo franziu a testa.
  - Vagamente.
  - Vou lhe refrescar a memria. Filha dum relojoeiro italiano das
vizinhanas. Uma menina corada, crescida para os seus catorze anos, j
com os seios apontando, uns  olhos vivos e escuros, uma voz meio
rouca...
  - Ah... acho que agora me lembro.
  - Foi durante as frias de vero, depois de meu primeiro ano de
internato. A Amelinha era minha namorada... um desses amoricos duma
adolescncia livresca: mescla  de lirismo e sensualidade... talvez mais
lirismo que outra coisa. Muito bem. Na vspera de Natal mame convidou a
Amelinha para vir  noite ao Sobrado. Ficamos os  dois conversando ou,
melhor, olhando um para o outro a um canto da sala. Havia muita gente na
festa. Na hora em que todos foram para a mesa, notei que minha namorada
havia desaparecido. Sa a procur-la pela casa, com um mau
pressentimento, e o meu instinto me levou para o escritrio. Abri a
porta e vi uma cena que me deixou  siderado... A Amelinha estava sentada
no seu colo, o senhor lhe mostrava as gravuras dum livro, uma de suas
mos estava inteira em cima do seio esquerdo da menina  e a outra lhe
apertava a coxa, por baixo do vestido... Lembra-se?
  Floriano julgou perceber uma tonalidade amarela no sorriso do pai.
  530
  - E por que eu no podia estar mesmo mostrando figuras  menina? Ento
tu imaginas...
  Floriano interrompeu-o com um gesto.
  -  intil disfarar... A coisa estava clara. Eu no o censuro por ter
feito aquilo. Nem discuto o seu direito de fazer... Mas quero que pense
um pouco em mim. A  Amelinha era a minha namorada, e o senhor sabe o que
 uma paixao dos dezesseis anos. Quando me viu entrar no escritrio ela
ficou com o rosto ainda mais vermelho  que de costume. Saltou para o
cho. O livro caiu. Eu voltei as costas e fugi correndo... me meti na
gua-furtada e no sa mais de l seno depois que o ltimo convidado
foi embora.  desnecessrio dizer que nunca mais olhei para a filha do
relojoeiro. Nem para o senhor, pelo menos por algumas semanas...
  Rodrigo sacudia a cabea, como que relutando em acreditar no que acabara
de ouvir.
  - Tens a certeza de que no ests fantasiando?
  - Absoluta.
  - Se no me engano essa Amlia Bernardi est hoje casada e me de
filhos. J vs que as minhas apalpaes no lhe fizeram nenhum mal...
  - Mas fizeram a mim. Me deixaram uma marca. Prepare-se porque no vai
gostar do que vem agora...
  Rodrigo estendeu o brao e acendeu a lmpada de cabeceira.
  - Vamos usar a tcnica dos romances antigos - prosseguiu Floriano - e
dizer que se passaram nove longos anos. Estamos no Rio, no Cassino da
Urca, numa noite de fins  de 1935. O senhor no compareceu para fazer a
sua "fezinha" na roleta porque estava no Palcio Guanabara, numa viglia
cvica ao lado do presidente. (Isso foi dois  dias depois do levante
comunista da praia Vermelha.) Nessa noite eu me encontrava no
grill-room, entre orgulhoso e chateado da minha solido, quando avistei
a mulher  que todo o mundo apontava como sendo a amante do dr. Rodrigo
Cambar. A peruana, lembra-se?
  - Como  que no vou me lembrar, homem? A Amparo Garcez. Grande fmea.
  531
  - Achei a criatura atraente e resolvi convid-la para danar. Havia
dezenas de outras mulheres no salo, mas eu s via uma: a peruana que
era a amante de meu pai.  Contra meu hbito, tomei duas doses de usque,
para criar coragem, e fui...
  -  incrvel! Tu?
  - Eu.
  - E ela aceitou o convite?
  - Por que no? Samos a danar. Eu estava meio no ar...
  - Ela sabia quem tu eras?
  - Descobriu logo. Yo s quien eres. Te pareces mucho con tu pap.
  Rodrigo estava de novo sentado na cama, tenso, o cigarro colado ao lbio
inferior.
  - E depois?
  - Sugeri com a maior delicadeza de palavras que fssemos para a cama.
  - Ela foi?
  - Est com cime?
  - Foi ou no foi? - gritou Rodrigo.
  - No foi. Perguntou se eu no tinha vergonha na cara.
  - E tu insististe?
  - Insisti.
  - Mas por qu? Por qu?
  - Eu podia dizer que o namorado enganado se vingava, mas isso seria
simplificar demais o problema. Havia outros motivos... muitos outros.
Por exemplo, um sentimento  de identificao... Naquela noite eu era o
dr. Rodrigo Cambar.  possvel tambm que o menino Floriano estivesse
tentando roubar do pai a rival da me. Sei l!
  Fez-se um silncio ao cabo do qual Rodrigo perguntou:
  - A Amparito no dormiu mesmo contigo? ,
  - No.
  - Palavra de honra?
  - Palavra de honra.
  -  engraado... Ela nunca me contou esse fato. Nem disse que te
conhecia pessoalmente...
  532
  Floriano encolheu os ombros. Rodrigo tornou a falar:
  - No sei ainda aonde queres chegar com todas essas histrias.
  
  - Tenha pacincia. Entre outras coisas, quero lhe mostrar como era
imoral este moralista.
  -  fantstico!
  - E fascinante. H tempos que ando com estas coisas atravessadas na
garganta, com um desejo danado de bot-las para fora na sua frente.
Nunca imaginei que fosse  to fcil falar com esta franqueza. Nem to
gostoso.
  11
  Era j quase noite fechada. Rodrigo acendeu outro cigarro.
  - Terminaste? - perguntou.
  - No. Agora vem talvez a parte mais sria para mim. Trata-se dum
acontecimento que me marcou para o resto da vida.
  Rodrigo fez uma careta que exprimia ao mesmo tempo perplexidade, dvida
e uma vaga impacincia.
  - Noite de 3 de outubro de 1930 - murmurou Floriano, olhando para o pai
bem nos olhos.
  Rodrigo ergueu vivamente a cabea.
  - Se vais me falar no Quaresma, desde j te previno que atirei nele em
legtima defesa. Tu mesmo foste testemunha. O rapaz fez fogo primeiro e
me feriu o brao.  Depois, ningum pode afirmar que foi o meu tiro que o
matou. Os sargentos o crivaram de balas. Foi um fuzilamento.
  Enquanto o pai falava, Floriano movia a cabea numa lenta, paciente
negativa.
  - No me refiro a isso, mas ao que aconteceu depois.
  - Depois?
  - O filho do dr. Rodrigo Cambar no teve coragem de erguer a sua arma e
atirar no oficial. O pai, furioso, deu-lhe um pontap no traseiro e
gritou: "Covarde! No  s meu filho! Vai pra baixo da saia da tua me,
maricas!"
  533
  Havia uma expresso de espanto na cara de Rodrigo. Era como se estivesse
ouvindo uma histria fictcia.
  - Ora, Floriano, tu sabes... Eu estava com os sentidos perturbados.
Tinha sido obrigado a atirar num amigo, estava ferido, perdendo sangue.
Tens de levar em conta  todos esses fatores...
  - Est bem. Mas no negue que estava envergonhado por ter visto seu
filho fazer papel feio na frente dos sargentos. Meu ato de covardia de
certo modo o atingia,  papai, o diminua. Foi por isso que o senhor se
apressou a me renegar ali no ptio do quartel. Preste bem ateno nas
suas palavras: "No s meu filho!"
  - Me deixa explicar... Floriano ergueu o brao:
  - Por favor, no se justifique. Escute. Passei o resto da vida com a
marca daquele pontap nas ndegas. Sabia que tinha perdido a sua estima
e isso me doa. Fiz  uma auto-anlise to rigorosa quanto me foi
possvel na poca, e conclu que tenho um horror visceral  violncia.
Matar o Quaresma ou qualquer outro homem, teria  sido para mim uma
espcie de suicdio. A bala que o atingisse me teria tambm atingido,
irremediavelmente. Que fazer ento? Decidi que devia resignar-me  idia
da minha falta de coragem fsica.  preciso um certo tipo de coragem
para admitirmos que temos medo. Mas a coisa toda no  to simples
assim. Quando pensei que  havia aceito definitivamente essa condio, me
surpreendi vrias vezes a querer provar a mim mesmo que eu no era
nenhum poltro. No vou descrever todas as tentativas  que fiz nesse
sentido. Vou contar apenas uma, talvez a mais estpida de todas. Treze
anos depois daquela noite de outubro, eu estava na cidade do Panam em
frias,  sentado a uma mesa, num caf do bas fona e me divertindo a
olhar os tipos internacionais que bebiam e conversavam ao redor daquelas
mesas: panamenhos, hindus, chinesds,  malaios, americanos, turcos,
alemes, antilhanos... Tomava mentalmente as minhas notas, com a idia
de mais tarde escrever sobre aquela cidade, aquele caf e aquele
momento. Pois bem. L pelas tantas armou-se entre dois marinheiros uma
briga que acabou se generalizando. Foi o que em ingls se chama um free
for ali e. que, traduzido  livremente para a lngua gacha,  um "pega
pra capar".
  534
  Uma coisa infernal... gritos, mesas caindo, garrafas Copos e cadeiras
voando dum lado para outro... indivduos com
navalha ou faca em punho...  Mais da metade da Freguesia do caf,
especialmente o elemento feminino, fugiu espavorida. Meu primeiro
impulso foi o de sair tambm correndo para a rua. mas me  veio de
repente uma necessidade de ficar, de provar a mim mesmo que no estava
com medo. Fiquei onde estava, segurando o meu copo e tratando de no ser
atingido  pelos objetos que passavam zunindo no ar. Vi um homem rolando
no cho, com as mos segurando o ventre de onde o sangue esguichava. Eu
estava rgido, com o corao  batendo descompassado, um frio nas tripas,
a boca seca... Houve um momento em que senti novo mpeto de disparar,
mas ouvi mentalmente a sua voz, dr. Rodrigo, sim,  a sua voz: "Fica
sentado, covarde!" Fiquei. Um gesto temerrio e perfeitamente insensato.
Eu estava me mostrando para mim mesmo. Sim, e um pouco para o senhor...
isto , para a sua imagem que estava na minha mente me dando pontaps
nas ndegas. No  cmico?
  - E eu que nem sequer suspeitava disso! - exclamou Rodrigo. - E dizer-se
que com uma frase eu poderia ter te evitado todas essas complicaes!
  - No. Nada de generosidades. Num caso como esse elas s servem para
retardar ou impedir a soluo do problema. No se trata de perdoar nem
de esquecer, mas sim  de meter fundo o bisturi e tratar de arrancar o
tumor inteiro, com raiz e tudo. E  mais fcil fazer isso agora, que o
tempo anestesiou o paciente.
  - Mas quem  o paciente... eu ou tu?
  - Eu. Pelo menos fui eu quem sentiu a necessidade desta interveno
cirrgica.
  - Nesse caso s o operador e ao mesmo tempo o operado.
  - Nisso  que est o estranho da coisa toda. Ningum  bom cirurgio
quando opera no seu prprio corpo. Ou no corta o suficiente ou corta
demais. Mas talvez isto  no passe duma frase...
  Fez-se um novo silncio. Rodrigo olhou para o filho:
  - Tu te fazes uma grave injustia, esquecendo outra noite de tua vida.
Refiro-me a 31 de dezembro de 1937. Um covarde
  535
  no faria o que fizeste, investir contra um bandido armado de navalha...
  - Bom, naquela noite o que fiz foi o que todo o homem mais cedo ou mais
tarde tem de fazer, se quiser ficar completamente adulto: matar os
espectros da infncia.  Aquele melenudo era a encarnao dos ogros,
lobisomens e fantasmas que assombraram a minha meninice. Tentei
liquid-los todos com uma garrafada. Est claro que a  motivao
imediata foi evitar que o bandido matasse o tio Torbio com uma
navalhada. Mas a fora, a fria com que me atirei pra cima dele e lhe
quebrei a cabea  vieram dos meus terrores infantis.
  - No sei se aceito tua interpretao. Por que complicar as coisas?
  - E por que simplific-las? No sou nenhum heri. Disso tenho a certeza.
Esse ato de violncia me provocou nusea. A idia de que eu podia ter
matado aquele homem  me deixou gelado, me perturbou por muito tempo.
Repito que tenho horror  brutalidade. Um horror profundo tanto do corpo
como do esprito. Tio Torbio morreu praticamente  nos meus braos. Seu
sangue escorreu pelo meu ventre, pelos meus rgos genitais, pelas
minhas pernas. Eu quisera que essa espcie de batismo tivesse tido a
virtude  de transmitir-me a coragem extraordinria daquele homem. Nada
disso aconteceu. Continuo a ser o que sempre fui. E  assim que o senhor
tem de me aceitar ou repudiar.
  - Te dou a minha palavra de honra - mentiu Rodrigo, caridosamente - que
h muito tempo me saiu da lembrana essa noite de 3 de outubro de 1930.
  - No esteja to certo disso. Mas quero lhe dizer algo mais. Prometi
dizer tudo, mesmo que lhe doesse. Est preparado?
  - Claro, homem, toca pra frente!
  - O Bandeira uma noite destas ofereceu outra interpretao para o meu
comportamento aquela noite. O meu gesto no foi de pura covardia. Minha
mo ficou imobilizada  porque eu no estava interessado em salvar a sua
vida.
  - Ora vai-te  merda! - exclamou Rodrigo entesando bruscamente o busto.
- No atiraste no tenente porque eras amigo
  536
  dele, porque tinhas dezenove anos... porque no  fcil matar um homem.
Mas no me venhas com Freud. Ah, essa no! A troco de que santo havias
de desejar a morte  do teu pai?
  - Eu sabia que sua reao ia ser essa.  duro para um pai ouvir o que
acabei de dizer... Tambm  duro para um filho dizer... Mas no se
esquea que o Bandeira se  refere a um desejo inconsciente. E eu no lhe
disse que aceito a hiptese...
  - Se no aceitas, por que a mencionaste?
  - Esta  a hora da verdade. Quero desabafar... e no tocar mais, nunca
mais, nesses assuntos.
  - Vocs literatos!
  Rodrigo apanhou o copo d'gua que estava em cima da
mesinha-de-cabeceira, tomou um gole, olhou para o filho e, resserenado,
perguntou:
  - J terminaste?
  - No. Temos ainda o captulo do Rio de Janeiro.
  - Teu romance est ficando comprido demais.
  - Meu romance? No. Nosso romance. Rodrigo sorriu.
  - Seja. Mas  bom esclarecer a situao. Tu escreves e eu
  vivo.
  - De acordo. Queira ou no queira, o senhor tem sido a minha personagem
principal. O meu "pai prdigo". Seu comportamento no Rio me intrigou, me
inquietou, me decepcionou,  me fascinou... tudo isso alternadamente ou
ao mesmo tempo, no sei...
  - Mas por qu? Que esperavas de mim?
  - Talvez o cumprimento das promessas de seus discursos revolucionrios:
a regenerao de costumes, a salvao da Repblica... enfim, todas
aquelas frases hericas  pronunciadas antes e durante a famosa
"arrancada de 30".
  - Achas tambm que "tra" a Revoluo?
  - No. Achei (note que uso o verbo no passado), achei que o senhor havia
trado a mim, o seu filho, por no se portar de acordo com o seu retrato
romntico que o  menino e o adolescente haviam pintado na minha mente
com as tintas da fantasia.
  - Tu no podes me acusar...
  537
  Floriano interrompeu-o:
  - Por favor, no use essa palavra. Eu no o estou acusando de nada,
estou apenas...
  Rodrigo no o escutava mais. Sentado na cama, com o dedo quase a tocar o
nariz do filho, dizia:
  - No sou santo, graas a Deus. Sou dos que comem quando tm fome e
bebem quando tm sede sem se preocuparem com o que possa dizer a Bblia,
o vigrio ou a opinio  pblica. Se alguma vez me contradisse foi porque
estava-vivo. Nem Cristo se livrou das contradies. Um dia recomendava
que oferecssemos a face direita a quem nos  tivesse batido na esquerda,
e no outro expulsava os vendilhes do templo a chicotadas. E ele era
santo. Eu sou um homem. E tu, que s romancista, deves saber to  bem ou
melhor que eu o que era ser um homem no Rio de Janeiro, entre 1930 e
  1945...
  Floriano escutava, sorrindo. Quando o pai fez uma pausa, ele
  tornou a falar.
  - Os livros de histria e as antologias que lemos na escola foram todos
escritos ou preparados do ponto de vista do menino e do adolescente,
quero dizer, so uma  glorificao, uma idealizao da figura do Heri e
do Pai. Se as vidas de nossos homens pblicos tivessem sido contadas sem
censura, em toda a sua extenso e profundidade  humana, veramos que
essas criaturas tinham defeitos, falhas de carter: cometiam erros e se
contradiziam. O que ficou de suas vidas e de suas personalidades, nesses
livros escolares que nos prepararam to mal para a vida, foi uma sntese
dourada, por assim dizer pasteurizada, para efeitos cvicos. Nem mesmo
os santos foram perfeitos.  A santidade no  uma soma absoluta de
parcelas de perfeio, mas uma espcie de luta entre o Dbito e o
Csdito, o Mal e o Bem, e da qual ficou um saldo considervel  a favor
do Bem. O adulto hoje sabe disso, mas o menino e o adolescente, que so
meus inquilinos crnicos, insistiam em cultivar, manter imaculado na
parede de suas  casas o retrato ideal do pai. A culpa, portanto, dr.
Rodrigo Cambar e culpa no  a palavra exata) no foi sua. Era isto
que eu tinha a lhe dizer.
  538
  Rodrigo contemplava agora o filho, entre sensibilizado e perplexo.
  - E eu que pensei que no representava nada para ti!
  - H pessoas que continuam vida em fora presas s mes por um cordo
umbilical psicolgico. Comigo se passou o contrrio. Esse cordo me
prendia a meu pai.
  Rodrigo riu alto.
  - O que estou tentando fazer com esta conversa - explicou Floriano - 
cortar definitivamente esse cordo. Para meu bem,
  est entendendo?
  - Acho essa coisa toda muito literria e rebuscada... mas
  compreendo.
  - Fiz minha primeira tentativa nesse sentido em 1938. Lembra-se? Pedi
demisso de meu emprego pblico e quis sair de casa. Eu precisava
liquidar certas contradies  de minha vida. No podia continuar
criticando uma engrenagem da qual eu era parte, nem atacar o parasitismo
quando eu prprio era um parasita.
  Rodrigo cruzou os braos, ficou alguns instantes a olhar o pedao de
noite que a janela emoldurava, e depois disse:
  - Nunca tive preferncia por nenhum de meus filhos... Bom, talvez pela
Alicinha, quando vocs eram pequenos. Mas depois no. Reparti entre
vocs todos o meu afeto,  em partes iguais. Mas eu mentiria se negasse
que sempre tive por ti um certo beguin, no sei, decerto por causa da
nossa parecena... Parecena s fsica, porque  em matria de
temperamento tu s Terra e Quadros at a raiz dos cabelos.  verdade que
naquela noite de outubro, no quartel de Artilharia, fiquei furioso
contigo.  Tudo quanto te disse naquele momento foi sentido, sincero. Mas
depois, quando esfriei, confesso que me arrependi. Havia uma coisa maior
que tudo: a minha afeio  pelo meu filho. Eu quis te falar, mas tu te
fechaste no teu refgio, no quiseste me ver, no foste  estao para
te despedires de mim. Isso me magoou. E se mais  tarde no toquei no
assunto foi para no reabrir a tua ferida, ests compreendendo?
Depois... bom, depois te foste afastando de mim aos poucos, sempre mais
chegado   tua me, o que  natural... Sempre foste um homem
  539
  reservado, retrado, difcil. Estou admirado de como te abriste hoje...
  Fez uma pausa, atirou o toco de cigarro no cinzeiro e prosseguiu:
  - Reconheo que tenho sido um pai autoritrio, exclusivista, absorvente,
talvez um pouco egocntrico, no sei... Mas que diabo! Ningum pode
viver de acordo com  livros ou almanaques, e sim com seus nervos, suas
glndulas, suas vsceras, seu temperamento, seu corpo... Foi bom termos
tido esta conversa. Muita coisa fica esclarecida.
  Pousou a mo no joelho do filho, encarando-o.
  - Nunca te esqueas do que vou te dizer agora. Vocs literatos escrevem
romances, poesias e ensaios. Os filsofos interpretam a vida e o mundo.
Os cientistas e os  tcnicos inventam ou descobrem coisas e procuram
domar a natureza, pondo-a a servio do homem. Mas para fazer uma
civilizao no bastam os literatos, os filsofos,  os santos, os
profetas, os cientistas e os tcnicos.  preciso tambm homens de ao e
paixo como o teu trisav, o capito Rodrigo, e como o teu tio Torbio,
homens  que no tm medo de sujar as mos de barro, nem mesmo de sangue,
quando necessrio. Sem esse tipo de gente a roda da histria no anda...
  Floriano sentou-se na beira da cama, apertou a mo do pai e murmurou:
  - Quanto quele outro assunto, fique tranqilo. A Slvia  da fibra das
Anas Terras, das Bibianas, das Marias Valrias e das Floras. E a minha
promessa est de p.  Irei embora para o Rio o mais depressa possvel.
  - Estou tranqilo. Tua palavra me basta.  Floriano olhou para seu
relgio de pulso.
  - Bom. Acho que no  demais tentar de novo esclarecer o que procurei
com toda esta conversa. Foi um cordial, honesto acerto de contas.
Aceite-me como sou e eu o  aceitarei como . Sem idealizaes, sem
iluses, com todas as nossas qualidades e defeitos. E sem outros
compromissos um com o outro alm desse enorme compromisso  de nos
entendermos e querermos como seres humanos.
  540
  - Que conversa, seu Floriano!
  - Estamos ento completamente quitados, de recibos passados
  - Sim, e devidamente selados, firmas reconhecidas em cartrio - sorriu
Rodrigo.
  - Pois acho que hoje vou festejar o meu nascimento
  - Tens cada idia! Para mim toda essa coisa era muito rnenos complicada
do que a fizeste. Sou desses que no reprimen nada. Deixo escapar o
vapor, alivio o peito  e esqueo. E se amanh eu te prender de novo um
pontap no rabo, quero que saibas desde j que isso no significa que
no te quero bem. Pelo contrrio,  uma prova  de afeto. E um sinal de
que no estamos mortos nem invlidos.
  Floriano sacudiu afirmativamente a cabea.
  - O senhor no imagina como este desabafo me fez bem. Tirei um peso do
peito. Espero que no lhe tenha feito mal.
  - Mal? Pelo contrrio. Eu andava louco por conversar contigo. Tu  que
me fugias.
  Depois de breve hesitao, Floriano disse:
  - Pois vou fazer uma coisa que h muito ando querendo fazer mas no
fazia por pudor. Pois o pudor que v para o diabo. E se o senhor
reprovar o meu gesto tambm  pode ir para o diabo.  isto.
  Segurou o pai pelos ombros, inclinou-se sobre ele e deu-lhe um beijo no
rosto. Depois ergueu-se como que um pouco envergonhado de tudo.
  Rodrigo, os olhos brilhantes de lgrimas, olhou para o filho, e com uma
profunda e mscula ternura na voz, murmurou:
  - Esse filho da puta...
  Floriano fez meia-volta e aproximou-se da porta, j meio em ritmo de
fuga, para que o pai no visse a comoo que o dominava. Quando ele
estava j com a mo na maaneta,  Rodrigo gritou:
  - Mas no te esqueas, rapaz, de vez em quando solta o Cambar!
  541
  12
  Grande dia! Enorme dia! - pensou Floriano ao sentar-se  mesa para
jantar em companhia do resto da famlia. Os dilogos que mantivera com
Slvia e com o pai o haviam  deixado de tal modo embriagado, que agora
ele sentia uma espcie de ressaca daquelas orgias confessionais. Uma
sensao de canseira lhe quebrantava o corpo, ao mesmo  tempo que uma
excitao cerebral lhe dava uma lucidez nervosa, uma loquacidade quase
frentica. Era como se ele tivesse tomado uma dose macia de benzedrina.
  A princpio foi s ele quem falou: o suicdio do Stein, a msica de
Bach, a tirania da linguagem, o resultado das eleies, a bomba
atmica... Sentada do outro lado  da mesa, Slvia o escutava,
surpreendida ante aquela verbosidade.
  Num dado momento entraram ambos a dialogar sobre a poesia de Garcia
Lorca. A cabeceira da mesa, Maria Valria ficou atenta e tensa a
escut-los, naturalmente sem  entender o que se diziam, e talvez j a
imaginar que trocassem frases de amor numa linguagem secreta, s deles
conhecida.
  Flora parecia mais apreensiva que de costume. E Eduardo, que se manteve
quase todo o tempo em silncio, s abriu a boca para dizer que, com o
novo governo, o Brasil  teria pela frente cinco anos de reao e
represso.
  Pouco depois das nove horas, Floriano apanhou os dirios de Slvia,
subiu para a gua-furtada, fechou a porta, deps os dois volumes em cima
da mesa e ficou a olhar  para eles de longe, numa ambivalncia em que a
curiosidade de ler aquelas pginas secretas entrava em conflito com seu
pudor de violar a intimidade da amiga. Por  alguns segundos portou-se
como um noivo na noite.de npcias, hesitante  porta do quarto, ardendo
de desejo pelo corpo da esposa mas ao mesmo tempo temeroso de feri-lo
no ato dilacerante do desvirginamento.
  Sentou-se por fim  mesa, pegou os livros, cheirou-os (recendiam a
sndalo) e apalpou-os amorosamente, como se eles fossem partes do corpo
de Slvia. Fez correr  as folhas de um e outro volume entre o polegar e
o indicador: l estava em tinta roxa a letra ntida
  542
  e bem desenhada, que ele to bem conhecia. Pensou em ler a ltima pgina
do segundo livro, mas resistiu a essa tentao e comeou pelo princpio.
  Doa-lhe a cabea e no lhe era fcil concentrar a ateno na leitura. O
aodamento com que procurava devorar o que naquelas folhas estava
escrito, prejudicava-lhe  o entendimento, e mais de uma vez, depois de
ter lido uma pgina inteira, teve de voltar  primeira linha.
  De instante a instante fazia pausas, como para pr ordem no caos que lhe
ia dentro do crnio. Erguia os olhos doloridos, fitava-os em parte
nenhuma e ficava pensando  nas coisas que havia lido - sementes mgicas
que no solo de sua fantasia rapidamente germinavam, cresciam, fazendo-se
rvores, flores e frutos duma variedade e riqueza  estonteantes.
  O tom humorstico e menineiro das primeiras pginas do jornal fizeram-no
sorrir. Como ele compreendia aquele truque! Temendo levar-se
demasiadamente a srio, Slvia  voltava contra si mesma o estilete da
ironia. Mas quando ela comeou a dissecar o cadver de seu casamento,
Floriano foi de novo tomado dum sentimento de culpa e  remorso, pois
considerava-se cmplice daquele assassnio. Imaginou Jango cavalgando
Slvia e ferindo-a com as esporas de sua lubricidade. Houve um momento
em que,  com sua empatia de romancista, ele se meteu no corpo e no
esprito de Slvia e sentiu com ela o constrangimento, a repugnncia e o
susto daquela hora carnal sem  amor e estranhamente perturbada pelo
horror do incesto. Mas em seguida se viu no lugar do irmo e ficou a
imaginar, com um desejo meio cansado, mais da mente que  do corpo, o que
poderiam ter sido suas noites com Slvia.
  Ergueu-se, acercou-se da janela, como numa busca da companhia da noite,
e ali se quedou por alguns minutos a olhar o luar sobre os telhados da
cidade. Voltou a sentar-se   mesa, e ao ler o trecho em que Slvia
recordava as confidncias que ele, Floriano, lhe fizera de suas
intimidades com Mandy, um prurido de vergonha arrepiou-lhe  a epiderme e
ps-lhe as faces e as orelhas em fogo. Como  que ele - logo ele! - no
havia sentido o ridculo da situao? Portara-se como um ginasiano tolo
e pretensioso.  E o
  543
  curioso, o absurdo - e novamente o ridculo! - era o ressentimento que
agora lhe vinha para com Slvia, mau grado seu, por ela ter percebido a
sua inteno inconsciente  de gabar-se como macho e despeit-la, sim, e
tambm por ter registado e comentado o fato no dirio. Tratou de rasgar
simbolicamente aquela folha, apagando-a da memria.
  Em muitas passagens Floriano se via a si mesmo como num espelho. Mais
que nunca sentia uma profunda afinidade espiritual com a mulher que
amava, e isso lhe aumentava  a pena de hav-la perdido. Havia momentos
em que sorria: era quando Slvia "pagava para ver" seus prprios blefes.
Divertiu-o particularmente a confisso que ela  fizera de ter fingido
esquecer o nome de Marian Patterson.
  Ficou impressionado ao descobrir que a cunhada tinha com ele aqueles
sonhos de frustrao em que ambos se procuravam sem poderem
encontrar-se. Mais de uma vez em  sonhos aflitivos ele andara pelos
sales e corredores dum imenso casaro sombrio, deserto e silencioso, em
busca de Slvia, sentindo misteriosamente a sua presena,  mas no
conseguindo nunca encontr-la...
  Sentia-se lisonjeado e ao mesmo tempo enternecido por ver a freqncia
com que seu nome aparecia naquele dirio. Mas no podia deixar de ficar
contrariado e enciumado  (e reagia contra esses sentimentos) toda a vez
que Slvia falava no padrinho e em seu amor e sua admirao por ele.
Surpreendeu-se tambm a sentir uma espcie de  cime ou inveja de irmo
Torbio, por ter este penetrado em recantos do esprito e do corao de
Slvia a que ele, Floriano, no seu agnosticismo nunca tivera e talvez
jamais teria acesso. Leu e releu, com uma reverncia e uma simpatia no
de todo isentas de um frio esprito crtico, as pginas em que Slvia
tratava de suas relaes  com Deus. Ficou-lhe de tudo isso a impresso
de que, de certo modo, Slvia obrigara Deus a existir.
  As horas passavam. De vez em quando o relgio l embaixo batia. Floriano
continuava a ler e a reler e a pensar. Erguia-se a intervalos, caminhava
pelo quarto, procurando  refazer-se do espanto, da alegria ou da
apreenso que algum trecho do dirio lhe
  544
  causava, e depois tornava a sentar-se  mesa. A confisso de Slvia com
relao  morte de Alicinha provocou-lhe um calafrio. Era fantstico:
ento Slvia tambm  tinha cime da menina por ela ser a preferida do
pai?
  A histria de Toni Weber chocou-o um pouco, e ele se sentiu vagamente
como um comerciante que descobre haver-se esquecido de fazer um
lanamento de importncia vultosa  no dbito dum fregus a cuja dvida
acabara de dar quitao completa. Lembrava-se das muitas vezes em que,
ao p da sepultura da suicida, ele pensara em escrever  sua histria.
Jamais, porm, lhe passara pela cabea a idia de que seu pai pudesse
ter sido personagem daquele drama. Ali estava outra folha do dirio que
ele mentalmente  devia rasgar...
  A ltima pgina trazia a data do dia anterior. Continha simplesmente
estas palavras:
  Fui hoje ao mdico. Desta vez parece no haver a menor dvida: estou
grvida. Este filho vai dar um novo sentido  minha vida.  o melhor
presente que o Cu me poder  mandar. Olho agora para o futuro com
alegria e esperana. Deus  grande. Deus  bom.
  Floriano fechou o volume. Suas mos tremiam.. Seus olhos estavam midos,
e ele procurava explicar a si mesmo que no se tratava de lgrimas de
emoo, mas de efeitos  daquela leitura prolongada a uma luz to
precria.
  Compreendia agora em toda a sua profundidade o sentido do gesto de
Slvia ao confiar-lhe aquele jornal. Equivalia a uma entrega completa,
no s de esprito como  tambm de corpo.
  Sentou-se no peitoril da janela e ali ficou a olhar para fora. Havia um
morno mistrio na noite. Da padaria vizinha lhe chegava, como um recado
da infncia, um cheiro  de po recm-sado do forno.
  Como era que a menininha de pernas finas e olhos ariscos podia ter-se
transformado na esplndida mulher que escrevera aquelas pginas belas,
to honestas e to corajosas?  Pensou na criatura que crescia no ventre
de Slvia. Filho do Jango? No. Porque no
  545
  momento do ato fsico em que essa criana foi concebida, Slvia de olhos
fechados pensava em mim. Esse filho espiritualmente  meu.
  Cerrou os olhos, cansado. Precisava dormir mas sabia que era intil
tentar. Estava demasiadamente excitado.
  Estendeu-se no div, cruzou os braos e ficou a recordar passagens do
jornal. E assim se escoaram as horas e, sempre insone, ele viu atravs
da janela um novo dia  nascer.
  Naquela mesma manh, devolveu a Slvia, sem dizer palavra, os dois
volumes do dirio. Ela os recebeu tambm em silncio. Trocaram um longo
olhar e se separaram.
  13
  Eram nove da manh. Terminada a auscultao do paciente, Dante Camerino
repunha na maleta o esfigmmetro e o estetoscpio.
  - Dr. Rodrigo, o senhor tem uma constituio privilegiada. Seu corao
est se portando com grande bravura. A auscultao dos pulmes no acusa
nada que nos possa  inquietar. A presso est boa e a freqncia do
pulso tambm. Estou certo de que pode fazer a viagem tranqilo.
  - timo! Que dia do ms  hoje?
  - Vinte.
  - Podemos fretar um avio para o dia 26.
  - Por que esperar mais seis dias?
  - Ora, Dante, pra te falar a verdade eu at preferia embarcar amanh.
Mas a noite passada tive um sonho que me deixou impressionado...
  Calou-se.
  - Posso saber que foi?
  - Sonhei que a Alicinha entrou aqui no quarto, sentou-se naquela
cadeira, me olhou com ar triste e perguntou: "Papai, por que no ficas
para passar o Natal comigo?"  Engraado... ela no
  546
  era mais uma menina, mas uma mocinha... Te confesso que a coisa me
deixou pensativo.
  No quis contar o resto do sonho: a filha desatou num choro convulsivo,
exclamando: "Eu sei, tu vais passar o Natal no Rio, com a outra!"
  Camerino coou a cabea, embaraado.
  - Doutor, compreendo e respeito seus sentimentos, mas como seu mdico
insisto que o senhor aproveite essa melhora excepcional e embarque o
mais cedo possvel.
  Rodrigo ficou por alguns instantes num silncio reflexivo. Depois disse:
  - Est bem. Quando ento?
  - Depois d'amanh.
  - E o avio?
  - Como o senhor me havia autorizado, telefonei  direo da Varig. Vo
mandar um aparelho pequeno dia 22. Em Porto Alegre o senhor ser
transferido para um Douglas  DC-3, que seguir imediatamente para o Rio,
em vo direto.
  Rodrigo sorriu.
  - Ests louco para te livrares de mim, no? Confessa...
  - Para lhe ser sincero, estou mesmo. Antes de mais nada, sou seu amigo.
No Rio o senhor vai ter melhor assistncia mdica e todas as vantagens
dum hospital de primeira  ordem.
  - Est bom, Dante. Agora descansa o peito. No ters de assinar o meu
atestado de bito.
  - Telegrafei ao Hospital do Nazareno, pedindo que lhe reservem um
apartamento. E que mandem uma ambulncia ao aeroporto.
  - Ah! Telegrafa tambm para o dr. Alberto Romero, ao cuidado do
hospital. Diz que fao questo que ele tome conta de mini. Alm de meu
amigo, o Romero  o homem  que mais entende de corao neste pas.
  - Fique tranqilo. Farei tudo hoje mesmo. E no preciso lhe dizer que
vou acompanh-lo pessoalmente at o Rio...
  - Obrigado, Dante. Eu j contava com isso. Camerino apanhou a maleta e
aproximou-se da cama.
  547
  - E agora, doutor, pelo amor de Deus, no faa nenhum excesso. No abuse
de comida. Durma cedo. E trate de no ficar muito excitado com essa
viagem.
  - Vou te pedir um favor - disse Rodrigo, sorrindo. - Depois que eu for
embora, manda fuzilar esse enfermeiro. Mas primeiro vou dar uma boa
gratificao a esse cretino.
  O mdico lanou para o paciente um olhar afetuoso.
  - Quer mais alguma coisa?
  - No, obrigado.
  - At mais tarde, ento.
  - Dante Camerino - murmurou Rodrigo, como se se dirigisse a uma terceira
pessoa invisvel - bello bambino, bravo piccolino, futuro dottorino.
  O outro voltou-lhe as costas e saiu do quarto com os olhos cheios de
lgrimas. Encontrou Floriano no andar inferior, deu-lhe boas notcias
do doente, mas acautelou-o:
  - No tenham muitas iluses. Essa melhora no exclui os perigos de que
te falei na noite do edema...
  Floriano moveu a cabea, em silncio.
  Neco Rosa apareceu pouco antes das dez e comeou o seu ritual de todas
as manhs: colocou seus petrechos em cima da mesinha-de-cabeceira,
amarrou uma toalha ao redor  do pescoo do amigo, fez espuma no pequeno
pote de alumnio, passou a navalha no assentador...
  - Embarco depois d'amanh para o Rio, Neco.
  - No diga!
  - Vou deixar esta priso que estava me matando lentamente. No sou homem
de ficar em cima duma cama, fechado dentro dum quarto, principalmente
numa hora em que tanta  coisa est acontecendo e por acontecer no pas.
Leste os jornais? O Dutra j est falando num gabinete de coalizo. O
Ges Monteiro recomeou suas entrevistas asnticas.  Esses meninos
queremistas ouvem cantar o galo mas no sabem direito onde. Um partido
no se organiza apenas com entusiasmo cvico e com amor e dedicao a
  548
  um chefe.  preciso um programa definido capaz de atrair as massas.
Cuidado, homem! Tua navalha est braba hoje. Que foi que houve? Andaste
degolando algum? Passa  de novo esse faco no assentador...
  O barbeiro obedeceu, mostrando os dentes amarelados, num ricto.
  - Precisamos preparar o caminho para a volta do Getlio  presidncia da
Repblica, dessa vez eleito pelo povo. Aposto como vai ser uma barbada.
E depois, Neco,  tenho uns negcios meio encrencados l no Rio. E tambm
essa histria da Snia...
  - Pois vou sentir falta de ti. Podes encontrar barbeiros melhores que eu
na capital federal. Mas nenhum vai ter o carinho que tenho por essa
cara. Apesar de todos  os teus desaforos.
  - Ningum me escreve - queixou-se Rodrigo, depois duma pausa. - Fiquei
todo este tempo completamente sem ligaes polticas. O Getlio, esse
ingrato, no respondeu   minha carta.
  - Ora, o homem tem andado ocupado. Os jornais dizem que a Estncia dos
Santos Reis nestes ltimos tempos tem sido uma verdadeira Moca.
  - Meca, homem! Moca  um tipo de caf rabe. Mas Meca ou Moca, o homem
podia ter me escrito pelo menos um carto. Seja como for, estou disposto
a aplicar nele um  tipo novo de golpe: o da fidelidade.
  Rodrigo fez uma pausa, olhou para a torre da igreja e murmurou:
  - Acho que ainda no  desta vez que a Torta me leva.
  - No te disse que ias passar a perna na "bicha"?
  - Aposto o que quiseres como no Rio o dr. Romero me bota de p em duas
semanas. E sabes que mais? Eu estava com medo de desmentir aquele
ditado, "Cambar macho no  morre na cama".
  Neco aproximou-se da janela para atirar fora o cigarro. Passava naquele
instante pela frente da casa um colono de Nova Pomernia, conduzindo uma
carroa cheia de  pinheirinhos de Natal. Estava sem chapu e o sol
parecia incendiar sua cabeleira ruiva.
  549
  O barbeiro olhou para o cu limpo e disse:
  - Vais pegar um dia lindo pra viagem...
  - Neco, meu velho, preciso de ti para uma outra "operao secreta".
Escuta. Vou te dar dinheiro para comprares uma passagem para a Snia,
daqui at o Rio.
  - Pra quando?
  - Pra amanh.
  Quando Neco terminou de barbe-lo, Rodrigo apanhou uma folha de papel de
carta e a caneta-tinteiro, e escreveu:
  Minha querida: como te contei na carta de ontem, a situao mudou para
melhor. Estou me sentindo to bem, que os mdicos acham que posso voltar
para o Rio. Sigo  dia 22. Imagina as oportunidades que teremos l de nos
encontrarmos! Vou me internar no Hospital do Nazareno, onde poders me
visitar quando quiseres. No  mesmo  uma beleza? Agora presta ateno
ao que vou te dizer. Quero que voltes imediatamente para o Rio, para o
nosso ninho. Sei o que tens passado aqui nesta cidade esquecida  de
Deus, nesse hotel infame, sujeita  curiosidade e  indiscrio dos
intrigantes municipais. No sei como te agradecer por todos os teus
sacrifcios. O Neco vai  providenciar a tua passagem no avio de amanh.
Peo-te que hoje,  hora de costume, no deixes de passar pela frente da
minha casa, para eu te ver mais uma vez.   uma despedida, minha flor.
Mas desta vez a separao vai ser curta.
  Abraa-te e beija-te com muito carinho o teu
  R.
  Dobrou o papel, meteu-o num envelope e, sorrindo, entregou-o ao
barbeiro:
  - Capito Neco, aqui est a mensagem. Veja se consegue passar as linhas
inimigas... Se for preso, engula a carta. Viva o Brasil!
  Neco Rosa perfilou-se, bateu os calcanhares e fez uma continncia.
  550

  Na manh da vspera do embarque de Rodrigo, Slvia subiu ao quarto de
seu padrinho para fazer-lhe as malas. Sentado na cama, excitado como uma
criana, o senhor  do Sobrado fumava e falava
  sem cessar.
  - Mas onde est esse meu neto que ainda no d sinais Je
  vida?
  - Tenha pacincia - sorriu ela. -  cedo ainda. Tudo tem de seguir seu
curso normal. A natureza no abre excees nem mesmo para um neto do dr.
Rodrigo Cambar.
  - Quem diria, hem? Eu... av!
  Pegou o espelho oval de cabo, mirou-se nele, passou a mo pelas tmporas
e murmurou:
  - Um av relativamente moo, no achas?
  - E com muito boa pinta...
  - Quando teu marido souber da novidade, vai dar pulos.
  - O Jango no  homem de pulos...
  - Isso  verdade. Mas por dentro vai ficar louco de contente, te
garanto. - Tornou a mirar-se no espelho. - Que  que preferes? Homem ou
mulher?
  - O que vier vem bem.
  - Pois eu prefiro homem.
  - No era preciso dizer. Eu j imaginava. No Rio Grande mulher 
criatura de segunda classe. No. De terceira. Em primeiro lugar est o
homem. Em segundo, o cavalo.
  - No digas isso, Slvia, minha querida. Ns falamos grosso e nos damos
ares de patres para esconder o fato puro e simples de que so vocs as
mulheres quem realmente  manda...
  Slvia escancarou a porta do guarda-roupa.
  - Que fatiota vai usar na viagem?
  - A de tropical cor de cinza.
  - E estas duas mil gravatas... vo todas?
  - No. S a azul, a cor de vinho, a prateada, a verde com quadrinhos
brancos... deixa ver, sim, aquela listada tambm... Essa! As outras d
para o Jango.
  551
  - O senhor sabe que a coisa que ele menos usa  gravata. E este
sobretudo?
  - Cruzes! Com o calor do Rio? Deixa esse monstro na naftalina.
  - E a roupa-branca?
  - Mete nas malas o que couber.
  - Que sapataria! Aqui est um preto, um cor de chocolate, um bicolor...
xii! Oito pares!
  - Enfia todos no saco de viagem.
  - At os de verniz?
  - Livra! Isso  sapato de defunto. Joga fora.
  Por alguns instantes ela trabalhou em silncio, enquanto Rodrigo falava
sem cessar. Depois de ter enchido por completo duas malas, Slvia abriu
a primeira gaveta  da cmoda.
  - No sabia que o senhor usava Fleurs de rocaille...
  - Qual nada! Isso  extrato de mulher. Gostas?
  - No.
  Slvia compreendeu o que significava aquele frasco ali na gaveta. Vira
mais duma vez Snia Fraga passar pela frente do Sobrado e a rapariga lhe
parecera o tipo exato  de mulher para usar aquele perfume furta-cor.
  - Deixa o vidro onde est. Ests vendo aquela roupa ali no canto? Est
novinha. S usei umas duas ou trs vezes. No gosto muito dela. D pr
Jango.
  - No serve. Ele  mais alto que o senhor.
  - D ento pr Bandeira.
  - Tambm no serve.  mais baixo e mais corpulento. Acho que quem tem as
suas medidas  o Eduardo.
  - Mas tu pensas que um lder do proletariado vai aceitar um presente
deste msero representante da plutocracia? Deixa a roupa a mesmo...
  Rodrigo apagou o toco de cigarro contra o fundo do cinzeiro e acendeu
outro.
  - O senhor est abusando do fumo - repreendeu-o Slvia.
  - Qual! Este  um grande dia.
  552
  - E est tambm muito excitado. Olha que a viagem vai depender de seu
estado de sade...
  Ele se ps a assobiar jovialmente o Loin du bal. Depois disse:
  - Toca um disco, Snia.
  No percebeu que tinha trocado o nome da nora. Slvia fingiu no ter
dado pelo lapso.
  - No. Nada de disco. Cada vez que ouve essas msicas o senhor fica todo
comovido. Ainda pouco toquei o Reverte de Schumann e s lhe faltou
chorar.,.
  - Tu nem imaginas o que essa melodia me evoca... Um dia ainda vou te
contar... Mas me traz umas cartas que esto na segunda gaveta da cmoda.
E uma bacia l do quarto  de banho. E um vidro
  de lcool.
  A nora obedeceu. Rodrigo rasgou as cartas, deitou seus pedaos na bacia,
respingou-os de lcool e prendeu-lhes fogo.
  - No preciso te dizer de quem so essas cartas e bilhetes... Engraado!
Foi esta a bacia que o Camerino usou quando me fez
  a sangria...
  Slvia lanou-lhe um rpido olhar enviesado.
  - Essa "fogueira" tem algum sentido simblico?
  Rodrigo esteve a ponto de dizer uma mentira. Hesitou um instante e por
fim sacudiu a cabea:
  - No. Nenhum. Eu gostaria de poder afirmar que est tudo acabado entre
mim e essa menina. Mas no est. Mandei a Snia hoje para o Rio. Na
minha idade no  fcil  romper essas ligaes... tu compreendes.
  Slvia desconversou:
  - E estes trezentos e oitenta e quatro pares de meias?
  - Atocha tudo nas malas. Mas descansa um pouco, menina. No paraste um
instante desde que entraste neste quarto. Senta. Vamos conversar. Olha
que manh linda...  Nenhuma nuvem no cu. E essa brisa fresca no 
mesmo uma beleza?
  Ela se sentou. O suor rorejava-lhe a pele, entre o lbio superior e a
ponta do nariz. Seus seios arfavam docemente. Rodrigo contemplou-a com
ternura.
  553
  - Sabes duma coisa? s vezes penso que tudo isto que est acontecendo
no  verdade. Parece que todos esto me enganando. Quantas vezes fiquei
aqui sozinho pensando  na morte, atento s batidas do corao, com medo
at de respirar? Quantas noites acordei pensando que tinha chegado o
fim? E de repente tudo muda... h uma esperana...
  - Deus sabe o que faz.
  Rodrigo deixou cair o cigarro no cinzeiro, e quando quis acender outro
Slvia deteve-o, segurando-lhe o pulso.
  - Agora chega. No  um pedido.  uma ordem.
  No quarto contguo Flora tambm fazia as malas. Estava triste e
apreensiva. Recebera aquela manh um telefonema annimo: "Ento, que foi
que houve? A china do dr.  Rodrigo embarca hoje... Quebraram os pratos
ou a rapariga vai esperar o coronel no Rio?" Era uma voz spera e
perversa de mulher. Flora desligou o aparelho, tomada  dum sbito nojo,
dum desejo de sumir-se, de no existir... No dia anterior acontecera-lhe
chegar por acaso a uma das janelas da casa,  tardinha, bem no momento
em que uma mulher jovem vestida de verde, os olhos protegidos por culos
escuros, passava na calada fronteira, com a cabea ostensivamente
voltada para o Sobrado...  Compreendeu imediatamente de quem se tratava.
Seu primeiro impulso foi o de fugir, mas recuou apenas um passo e
escondeu-se atrs duma das venezianas, de onde podia  ver a rua sem ser
vista, e ali ficou a olhar para a rapariga, que caminhava firme, os
seios empinados, consciente de sua mocidade e de seu magnetismo de
fmea. Os  homens voltavam a cabea para v-la passar, e depois ficavam
a olhar longamente para suas pernas e para suas ndegas, que bamboleavam
ao ritmo da marcha. Flora sabia  que quela hora muitas das comadres da
vizinhana estavam debruadas nas suas janelas, naturalmente a olharem
ora para Snia Fraga ora para Rodrigo Cambar, cuja  cama devia estar
agora junto de uma das janelas de seu quarto. Flora sentia o ridculo da
sua prpria posio, ali a espiar a amante do marido - mas assim mesmo
continuou onde estava, incapaz de um movimento, como
  554
  que enfeitiada. Viu a outra voltar a cabea para trs, ao passar pela
frente da igreja, e ento os cabelos dela, lustrosos e pesados,
moveram-se num balano gracioso  de onda. Seus culos relampejaram,
subitamente apanhados numa rstia de sol - e foi como se os prprios
olhos da rapariga irradiassem fogo, como os dum belo monstro
mitolgico.
  Sentada diante da mala aberta, Flora recordava essas coisas. Do quarto
do marido vinha um rumor de vozes que as grossas paredes abafavam.
  E agora? - perguntou ela a si mesma, sentindo-se mais s do que nunca em
toda a sua vida. Pensou no velho crucifixo que estava pendurado numa das
paredes da casa  da estncia: o Cristo sem nariz, ao p do qual ela se
ajoelhara tantas vezes, em tempo de paz e em tempo de guerra, para pedir
pela sade e felicidade de sua gente  e pela sua prpria. Aquela imagem
de madeira carcomida de caruncho, na nudez da parede caiada, dava-lhe
uma tamanha sensao de abandono e tristeza (os olhos do  Cristo
pareciam fitar perdidos o descampado, atravs da janela) que ela lhe
chamava intimamente de Nosso Senhor da Solido.
  Flora via agora o seu futuro como uma imensa plancie cinzenta, vazia de
calor humano. Rodrigo e ela continuariam a viver como dois estranhos.
Jango pertencia ao  Angico e  Slvia. Bibi no a amava. Eduardo era um
rebelde, dedicava-se por inteiro a suas idias polticas. Ela poderia
contar com Floriano, tinha a certeza disso,  mas era-lhe insuportvel a
idia de vir a ser uma carga excessivamente pesada na vida do filho mais
velho.
  Ficou por alguns instantes a olhar para a mala, sem muito nimo para
continuar os preparativos para a viagem. De sbito lhe veio  mente um
pensamento que a reconfortou.  Avistava uma luz remota na desolao da
savana. Em setembro voltaria a Santa F para assistir ao nascimento do
filho de Jango e Slvia. Um neto! A idia de ser av  a comovia. Pensou:
"Agora tenho o direito e a obrigao de comear a envelhecer". E ficou a
sorrir para a imagem daquela criatura que ainda no existia.
  555
  15
  Jango chegou pouco antes do meio-dia, mas Floriano, que tinha ido
almoar fora com tio Bicho, s o encontrou  tardinha. Abraaram-se.
  - J sabes da novidade? Vou ser pai.
  - Parabns, hombre.
  Como aquilo era de Jango! No era Slvia que ia ser me: era ele que ia
ser pai.
  - Tomara que seja um machinho!
  - Bom, a gente nunca sabe. Mas se nascer uma menina e tu no quiseres
ficar com ela, manda-a pelo correio para o tio Floriano.
  Jango deu uma palmada cordial nas costas do irmo e comeou a subir a
escada grande.
  - Vou ver o av do guri!
  O velho Aderbal e dona Laurentina apareceram tambm aquela tarde. Como
sempre, ela trouxe um cesto com ovos frescos, broas de milho e queijos
caseiros. Babalo chamou  Floriano  parte e perguntou-lhe, com seu
jeito pachorrento:
  - Mas tu achas mesmo que teu pai pode viajar de avio?
  - Os mdicos dizem que sim. Mas sei que o senhor no confia em avies...
  - Nem em mdicos.
  Babalo subiu ao quarto de Rodrigo e l ficou durante muito tempo a um
canto, pitando o seu crioulo em silncio, e olhando para o genro com
olhos ternos e tristonhos,  como se o estivesse vendo pela ltima vez na
vida.
   noite os amigos apareceram para a prosa habitual. O dr. Terncio,
vestido de linho branco imaculado, contou que terminara aquele dia o
captulo de sua obra em  que refutava a idia, que o resto do pas
parecia alimentar, de que o Rio Grande pertence culturalmente  rbita
platina. Olhou num desafio para Bandeira, esperando  uma frechada que
no veio. Tio Bicho estava macambzio. Floriano atribuiu isso  emoo
da despedida. Irmo Torbio
  556
  no quis sentar-se. Enquanto os outros falavam, ele caminhava inquieto
dum lado para outro, brincando com seu crucifixo.
  Liroca tambm apareceu, arrastando os ps. Acercou-se da cama, tocou o
ombro do amigo e, com olhos lacrimejantes, disse:
  - Quando voltares no outro vero no vais me encontrar mais aqui. Chegou
a minha hora. Acho que o Generalssimo l em cima vai me convocar...
  - Mas que  isso, Liroca velho de guerra? Hoje a Laurinda me entrou aqui
choramingando, dizendo tambm que no vou encontr-la quando voltar...
Por que  que todo  o mundo s pensa na morte? Temos que pensar na vida!
Para a Magra o que eu dou  isto. - Dobrou o brao com violncia,
fazendo uma figa. -  tio Bicho, vamos comemorar  a minha viagem com uma
cervejinha.
  Camerino, que voltava nesse instante do quarto de banho, interveio:
  - Nada disso. Entramos hoje em regime de lei seca. E o senhor, doutor,
apague esse cigarro. E fique quieto. Os outros que falem.
  Rodrigo soltou um suspiro de impacincia.
  - Que  que h de novo por a, Bandeira? - perguntou.
  - Tudo velho.
  - Como vai o nosso Stein?
  Tio Bicho teve uma pequena hesitao.
  - No mesmo.
  - Por que no aproveitamos o meu avio para levar o rapaz para Porto
Alegre, para um bom sanatrio?
  Fez-se um silncio de embarao.
  - Desaprovo a idia - declarou Camerino. - O Stein anda muito agitado,
pode nos causar complicaes a bordo.  melhor que v depois.
  - Mas quero que vocs me prometam cuidar dele - exigiu Rodrigo. - Temos
que curar esse rapaz.  teimoso como uma mula, mas gosto dele. Errado ou
certo,  um homem  de coragem e de convices. E depois, considero esse
judeu cabeudo um dos muitos filhos que tenho espalhados por este mundo.
Meu filho, toca um disco.
  557
  Floriano, que estava perto da pilha de discos, leu o rtulo do primeiro
deles.
  - Offenbach serve? - perguntou.
  - timo. Allez oup!
  A msica alegre do Galope infernal inundou o ar. Rodrigo acompanhava a
melodia, assobiando. Floriano, que achava o velho demasiadamente
excitado, trocou um olhar  com Camerino.
  - Mas por que  que vocs todos esto com essa cara de velrio? -
perguntou Rodrigo, sentando-se na cama. Olhou em torno e, parodiando um
diretor de circo, exclamou:  - Respeitvel pblico! Tenho a honra de
comunicar que o Jango e a Slvia vo me dar um neto! - Voltou ao tom
natural para acrescentar: - Est claro que vai ser homem.  Algum
precisa levar para diante o nome de Rodrigo Cambar. O nome e uma certa
outra coisa que vocs sabem...
  Os amigos murmuraram parabns. Tio Bicho disse com ar reflexivo:
  - J imaginou o mundo em que seu neto vai viver? Maravilhas eletrnicas,
crebros mecnicos, energia atmica...
  Por um instante Rodrigo ficou com um ar sonhador, pensando no neto e
murmurando, num enternecimento que lhe adoava o olhar e a voz:
  - Esse filho da me... esse grandessssimo filho da me... L embaixo o
relgio bateu uma badalada. A msica havia
  cessado. Floriano apagou a eletrola. 
  - Nove e meia - disse Dante Camerino. - No quero ser um
desmancha-prazer, mas o nosso homem precisa dormir cedo. Portanto acho
bom irmos todos embora... Mas nada  de despedidas. Faz de conta que  um
"at-amanh".
  O dr. Terncio foi o primeiro a despedir-se. Apertou a mo do doente,
dizendo:
  - Meu velho, desejo que tudo te corra bem. Espero te visitar no Rio em
princpios de abril. Desculpa, mas no vou poder ir amanh ao aeroporto,
porque...
  Antes que ele terminasse a frase, Camerino interrompeu-o:
  558
  - Eu ia pedir mesmo que ningum fosse ao aeroporto.  melhor assim.
  Roque Bandeira disse apenas: "At logo, doutor", voltou as costas e se
foi. O velho Liroca hesitou um instante, lanou um olhar amoroso para o
amigo e tambm saiu,  amparado no brao de irmo Torbio. Estavam todos
no corredor quando o dono da casa lhes gritou:
  - Nos veremos de novo quando dom Rodrigo Cambar II
  nascer!
  Camerino tirou seus aparelhos da bolsa e tornou a examinar
cuidadosamente o paciente. Floriano, calado, observava-os dum canto do
quarto.
  - Est tudo bem - disse o mdico, terminado o exame. - J tomou o seu
Luminal?
  - No.
  - Pois ento faa o favor de tomar. E veja se dorme pelo menos umas sete
horas. Vamos, Floriano?
  - Me espera l embaixo. Vou te acompanhar at a tua casa. Quando pai e
filho ficaram a ss, este ltimo perguntou:
  - No precisa de mais nada?
  - No, meu filho. Mas espera um pouco... Sabes que tenho pensado muito
na nossa prosa do outro dia? Pois fica tu sabendo que ela me fez um bem
danado. E quanto mais  penso nas coisas que dissemos um para o outro,
mais compreendo a tua inteno. Foi uma pena que eu nunca tivesse tido
uma conversa assim com o meu pai.
  - Acha que teria sido possvel? Rodrigo fez uma careta de dvida.
  - Teu av era um homem difcil, da escola antiga. Mas... mudando de
assunto, j aprontaste a tua mala?
  - Quase...
  - E que me dizes da "novidade"?
  - A idia de ser tio me encanta.
  - Engraado... de repente tudo muda para melhor.  como diz a Slvia,
Deus sabe o que faz. Bom, mas tu no acreditas em Deus.
  559
  T
  Floriano sorriu:
  - Estou principiando a pensar que  Deus que no acredita em mim...
  - Por que no procuras ter com Ele uma conversa franca como a que
tiveste comigo?
  - Porque Deus, como o velho Licurgo, se fecha nos seus silncios. O
remdio  eu continuar falando sozinho, como de costume. O irmo Zeca me
disse o outro dia que  as pessoas que falam sozinhas na verdade esto
conversando com Deus, mesmo sem saberem... Mas o senhor precisa dormir.
Tome o seu Luminal.
  Alcanou-lhe um comprimido e um copo d'gua.
  - Agora trate de dormir e ter bons sonhos. - Pousou a mo no ombro do
pai. - Boa noite, amigo velho.
  - Boa noite, meu filho.
  16
  Floriano deitou-se pouco depois da meia-noite e ficou por algum tempo de
olhos abertos, a rememorar os acontecimentos daqueles ltimos dias. De
quando em quando  tomava conscincia do fato de que Jango e Slvia
dormiam no quarto vizinho, na mesma cama, e isso o deixava inquieto, com
a confusa sensao de que Slvia, sua esposa  e me de seu filho, o
estava traindo com outro homem.
  "Vamos deixar o mundo da fico - pensou - e voltar ao da realidade."
Imediatamente lhe vieram  mente as figuras ainda meio nebulosas de seu
romance.
   a hora antes do sol nascer, num dia do ano de 1745. Na Misso de So
Miguel um jesuta espanhol desperta na sua cela, perturbado pelos sonhos
da noite. Tem um  rosto longo e descarnado, a barba pe-lhe uma sombra
azulada na face dramtica, seus olhos ardem como carves... (Estou
inventando ou recordando essa cara? Claro!   a dum monge pintado por
Zurbarn que vi no Metropolitan Museum, em Nova York.)
  Estamos agora na sala do Sobrado, em meados do sculo XIX. Luzia Cambar
dedilha a sua ctara, seus olhos (verdes ou azuis?) tm uma luz fria, e
o desenho de sua  boca sugere crueldade. O dr. Winter fuma o seu cigarro
(por que no cachimbo?) e contempla-a com curiosidade (por que no
amor?). Sentada a um canto, Bibiana lana  para a nora um olhar
corrosivo. E Bolvar? Que cara, que alma teria essa trgica personagem?
  Floriano revolveu-se na cama, pensando em como teriam sido Rodrigo e
Torbio quando meninos, ao tempo do cerco do Sobrado pelos maragatos.
  Era junho, devia fazer frio, os alimentos na casa escasseavam, Alice
Cambar estava para ter um filho e ardia em febre... Licurgo repelia com
orgulhosa obstinao  a idia de pedir uma trgua ao inimigo, para
permitir que o dr. Winter entrasse no Sobrado... ... Ali estavam muitas
possibilidades dramticas. Cerrou os olhos e  procurou ser o menino
Rodrigo, deitado na sua cama, encolhido sob as cobertas, transido de
frio e medo, atento aos rudos da noite, esperando que dum momento para
outro rompa de novo o tiroteio...  madrugada, e no casaro silencioso o
nico rudo que se ouve  o tanta ritmado da cadeira da velha Bibiana,
num balano de bero...  balano de bero... balano de bero. . .
  Embalado por esses pensamentos Floriano adormeceu, e dentro de seus
sonhos as figuras de sua imaginao, sombras de sombras, misturaram-se
com vagas projees de  imagens da realidade. E ele continuou a ser o
menino Rodrigo, sono adentro... E sentiu que um inimigo saltava pela
janela para dentro do quarto, aproximava-se da  cama, o vulto dissolvido
na escurido... Floriano-Rodrigo quis gritar mas no teve voz, tentou
fugir mas estava paralisado... O desconhecido sentou-se em cima de  seu
peito, apertou-lhe o corao e a garganta, impedindo-o de respirar, e
ele ento ficou a debater-se na agonia da morte por sufocao...
  Acordou alarmado, levantou-se, acendeu a luz, aproximou-se
automaticamente da pia, abriu a torneira e molhou a cabea e o rosto, e
depois ficou a olhar-se no espelho,  com um espanto nos olhos, como se
no reconhecesse a prpria face.
  560
  561
  "Um pesadelo - refletiu, procurando tranqilizar-se. - Eu estava
dormindo de costas." Mas a sensao de desastre, de perigo iminente
continuava - uma espcie de  sino longnquo a tocar alarma dentro dele.
Levou a mo  garganta, como se lhe faltasse o ar. Debruou-se na janela
e respirou fundo. Teve de sbito a impresso  de que algum tinha mesmo
entrado no Sobrado... um inimigo, como o do sonho. "Quem sabe se fui
acordado por um rudo de passos?" Ficou  escuta... O silncio
continuava.  Olhou o relgio, em cima da mesinha-de-cabeceira: quase
quatro da madrugada. Os olhos pesavam-lhe de sono, doloridos, mas o
corao parecia recusar ao corpo licena  para dormir, como se estivesse
tentando preveni-lo de algum perigo iminente. Que seria?
  Sem saber ao certo aonde ia, deixou o quarto, descalo como estava, e
saiu a caminhar ao longo do corredor, na ponta dos ps, como um ladro.
O silncio persistia.  O luar entrava pelas bandeirolas das janelas.
Floriano ficou um instante no vestbulo, andando  roda de si mesmo,
ainda meio estonteado, e depois comeou a subir  a escada... Quando
chegou ao primeiro patamar, divisou no segundo o vulto de Maria Valria,
que tinha na mo o castial com uma vela acesa.
  - Quem ? - sussurrou ela.
  A luz da vela projetava-lhe nas faces sombras que a escavavam ainda
mais.
  - Sou eu, o Floriano.
  - Voc tambm ouviu?
  - Ouviu qu?
  - Uma pessoa entrar...
  Floriano no respondeu. Subiu os degraus que o separavam da velha e
segurou-lhe o brao.
  - Vamos ver o papai...
  Caminharam lado a lado em silncio, rumo do quarto do doente. Estendido
no catre, o enfermeiro dormia e ressonava. A porta estava aberta.
Entraram.
  Rodrigo achava-se deitado em decbito dorsal, com o busto levemente
erguido, como de costume. No era possvel ver-se-lhe claramente a face,
naquela penumbra.
  562
  - Est dormindo - ciciou Floriano.
  Maria Valria deu alguns passos na direo da cama e ergueu a vela. Foi
ento que Floriano viu, horrorizado, que os olhos do enfermo estavam
abertos e vidrados.  Uma nusea contraiu-lhe o estmago, fazendo-o
vergar-se. Segurou o pai pelos ombros e sacudiu-o, gritando como um
menino: "Papai! Papai!" Rodrigo continuava imvel.  O filho inclinou-se
sobre ele e auscultou-lhe o corao. No batia mais.
  - Enfermeiro!
  -  tarde - disse a velha. - Seu pai est morto.
  Rompia a alvorada e os galos cantavam, quando Jos Pitombo atravessou a
rua sobraando um grande crucifixo de prata. Dois homens o seguiam,
conduzindo nos ombros  o negro e pesado esquife de jacarand lavrado,
que havia muito o defunteiro tinha reservado para o senhor do Sobrado.
  17
  Rodrigo Cambar foi sepultado s seis e meia da tarde daquele mesmo dia.
Terminada a cerimnia, seus filhos voltaram para casa no carro da
famlia, que Bento dirigia  com os olhos enevoados. Ningum pronunciou a
menor palavra no trajeto do cemitrio ao Sobrado. Floriano sentia a
cabea latejar de dor, e uma canseira nervosa derreava-lhe  o corpo.
Sentado a seu lado, o rosto coberto pelas mos, Eduardo soluava como
uma criana. Jango, no banco da frente, tinha os olhos injetados; uma
barba cerrada  escurecia-lhe as faces. Notava-se nas fisionomias
daqueles homens uma expresso que no era apenas de pesar, mas tambm de
constrangimento, quase de vergonha. Pareciam  trs assassinos
principiantes e arrependidos, que voltavam de matar seu primeiro homem.
  Durante todo o percurso Floriano pensou em fazer um gesto amigo para com
Eduardo - abra-lo ou pelo menos pousar A mo sobre seu joelho. Um
pudor incoercvel, porm,  o tolhia. No havia derramado uma lgrima
sequer durante todo o dia. Essa 
  563
  incapacidade de desabafar no choro agoniava-o. Era como se toda a dor que
a morte do pai lhe causava se houvesse acumulado dentro da caverna do
peito, onde estivesse  a crescer de minuto para minuto, como um enorme
cogumelo maligno, apertando-lhe o corao, comprimindo-lhe a garganta,
dificultando-lhe a respirao.
  Ouvindo agora os soluos do irmo mais moo, ele pensava nos ferozes
pronunciamentos pblicos do rapaz contra o pai. Tudo aquilo no fundo era
amor, conclua ele  - um amor desiludido, despeitado, rebelde - mas amor
em todo o caso. Porque o amor est mais perto do dio do que a gente
geralmente supe. So o verso e o reverso  da mesma moeda de paixo. O
oposto do amor no  o dio, mas a indiferena...
  O auto parou diante do Sobrado. Jango, o primeiro a saltar para a
calada, ajudou Eduardo a descer e conduziu-o para dentro da casa.
Floriano deixou-se ficar onde  estava, sem coragem para enfrentar o
Sobrado e seus habitantes.
  Bento voltou a cabea para trs, soltou um suspiro e disse:
  - Nunca esperei ver o doutor morto... Este mundo velho est todo errado.
- Enxugou com as pontas dos dedos as novas lgrimas que lhe brotavam nos
olhos. - Ds que  me conheo por gente nunca vi um enterro mais
concorrido - acrescentou, com triste orgulho. - Miles e miles de
pessoas. Todo o mundo queria bem o doutor.
  Floriano entrou finalmente em casa. Viu uma bonina cada no soalho do
vestbulo. Lanou um olhar relutante para a sala de visitas, que servira
de cmara-ardente.  Pitombo havia j retirado os panos pretos, o
crucifixo, a ea e os castiais, mas andava ainda no ar aquele cheiro
adocicado de flor misturado com o de cera derretida,  e que desde menino
Floriano associava ominosamente a velrios.
  Dirigiu-se para o escritrio, onde encontrou Dante Camerino, que no
tinha ido ao cemitrio para poder ficar olhando pelas mulheres. A
primeira coisa que Floriano  lhe perguntou foi:
  - Como est a Slvia?
  - Agentando muito bem.  uma menina de fibra. Entrei no quarto dela
para a consolar e foi ela finalmente quem me consolou...
  564
  - E essa... essa emoo pode prejudicar a marcha da gravidez?
  - No. Fica tranqilo. A Slvia est bem. Irmo Torbio tem estado com
ela todo o tempo. - Camerino sorriu tristemente. - Eu pensava que tinha
f, seu Floriano...  Mas f, f mesmo tm esses dois... Dizem eles que a
morte no  o fim, mas o princpio. Levei um calmante para a Slvia, mas
ela recusou. Quem acabou tomando fui  eu.
  - E a mame?
  Flora havia desmaiado no momento em que fechavam o esquife.
  - Est dormindo. Dei-lhe uma injeo sedativa. Podes ficar tranqilo,
que estarei aqui quando ela acordar.
  - E a Dinda?
  - Ah! Essa  um rochedo. Auscultei-a h pouco. Que corao! No te
preocupes com ela. - Fez uma pausa, acendeu um cigarro e depois
acrescentou: - Desde que o corpo  do dr. Rodrigo saiu de casa, a velha
tem andado a caminhar dum lado para outro, como quem procura alguma
coisa. Sabes o que ela me disse? Que no se surpreendeu  com a morte do
sobrinho porque sentiu quando a Magra entrou no Sobrado. Perguntei:
"Como, dona Maria Valria?" E ela: "Tenho vivido tanto, que j conheo a
morte  at pelo cheiro".
  Floriano contou ao amigo seu pesadelo e seu pressentimento de desastre,
concluindo:
  - Foi como se o Velho e eu tivssemos morrido ao mesmo tempo. Senti no
meu corpo um pouco da angstia que ele deve ter sofrido na hora de
expirar...
  Camerino sacudiu a cabea:
  - No creio que teu pai tenha tido o menor sofrimento. Resvalou do sono
para a morte sem sentir...
  Floriano lembrou-se de que ele mesmo havia cerrado os olhos do morto.
Mas nada disse.
  18
  Foi para o quarto e deitou-se, vestido como estava, sem ao menos tirar
os sapatos. Tio Bicho entrou poucos minutos depois, sentou-se na beira
da cama e olhou para  o amigo:
  565
  - Se preferes que eu te deixe em paz... fala franco.
  - No. Fica. Preciso conversar com algum.
  - E a cabea?
  - Ainda est doendo.
  - Queres uma Aspirina?
  - No. J tomei cinco.
  Como quem rememora um sonho mau, Floriano pensava nos momentos em que
ficara a ajudar o Neco Rosa a vestir o morto, aquela manh. O barbeiro
fungava, os olhos cheios  de lgrimas, mas ele, Floriano, no conseguia
chorar, e isso lhe dava uma impacincia, uma exasperao que cresceu a
ponto de se transformar em desespero no instante  em que tentou, mas em
vo, dar o n na gravata do defunto. Seus dedos estavam como que
anestesiados, e ele no se lembrava mais de como se fazia o lao... Foi
o  Neco quem resolveu o problema. Floriano narrou a cena ao tio Bicho e
comentou:
  - Compreendes o que quero dizer? Num momento grave como aquele, eu
estava preocupado com um detalhe ftil... o n da gravata, como se
aquilo fosse duma importncia  transcendente... Era, em suma, a ltima
concesso que meu pai, por meu intermdio, fazia ao mundo e s suas
estpidas convenes.
  Cerrou os olhos e continuou:
  - Houve um instante em que tive a impresso (podes achar a coisa falsa,
rebuscada, literria), tive a sensao de que estava vestindo o meu
prprio cadver.
  Roque Bandeira sorriu:
  - Ests fantasiando, desculpa que te diga. Por um sentimento de remorso,
que vem de estares vivo quando teu pai j morreu, queres participar de
algum modo da morte  dele. E  claro que a participao verbal,
simblica,  a mais conveniente, a mais barata... Se pensas que vou
alimentar esse teu sentimento de autopiedade, ests  muito enganado.
  - Mas o terrvel, Bandeira (e isto mostra o lado hediondo do
intelectualismo, o meu condicionamento  literatura e s suas frmulas e
convenes),  que a despeito  do meu pesar, da minha dor, eu no
conseguia ficar indiferente aos aspectos grotescos da-
  566
  quela cerimnia. J vestiste defunto alguma vez na tua vida?  uma
operao tragicmica. Vestir-lhe as roupas de baixo, por exemplo... e as
calas. Outra coisa que  no posso esquecer  o Neco barbeando o morto,
ensaboando-lhe a cara e dizendo-me, com lgrimas nos olhos: "Esta  a
primeira vez que teu pai fica quieto, no me  diz nomes nem reclama da
minha navalha". E eu ali, estupidificado, procurando no olhar a cena
com olho crtico, querendo ter conscincia apenas daquela enormidade,
que era a perda de meu pai... e chorar, aliviar o peito, chorar sem
constrangimento, livremente, como um ser humano autntico...
  Floriano abriu os olhos e fitou-os no amigo:
  - Depois que o corpo estava completamente vestido, como para uma festa,
veio um momento (passageiro mas terrvel) em que me pareceu que aquele
homem nada tinha a  ver comigo. Sua imobilidade e seu silncio faziam
dele um estranho.
  - Espera mais um dia ou dois, e vers como vais te sentir mais perto de
teu pai que nunca. Morto, ele passar a ser o que tua amorosa imaginao
e a tua saudade  fizerem dele. Nossa memria  dotada dum filtro mgico
cuja tendncia  deixar passar para a conscincia apenas as boas
lembranas dos dias vividos e das pessoas  mortas. E  justamente essa
inocncia da memria que nos torna possvel continuar vivendo sem
desespero.   ainda por causa disso que custamos tanto a aprender  a
viver... quando aprendemos.
  Floriano ergueu-se, tirou o casaco, arrancou fora a gravata e foi lavar
o rosto e as mos na gua da torneira. Tio Bicho sorriu:
  - Pelo que vejo, continuas com teu complexo de Lady Macbeth...
  O outro enxugava-se em silncio, como se no tivesse ouvido as palavras
do amigo.
  - Haver coisa mais brbara e sinistra que um velrio? - perguntou. - 
um verdadeiro show de sadomasoquismo. Ficam todos ansiosos  espera da
cena culminante do  drama: a hora de fechar o caixo, quando os membros
da famlia do morto vm despedir-se dele.  o famoso "ltimo adeus".
Muitos ficam nas pontas dos ps para no  perderem nada do momento
sensacional...
  567
  - Sacudiu a cabea. - Talvez isso no seja mais monstruoso que o fato de
eu, nessa hora, ter-me sentido como uma personagem e notado a presena
dum pblico, que  esperava de mim um certo tipo de expresso facial, de
gesto e at de discurso. Seja como for, a histria toda chega a ser
indecente. Morrer  a coisa mais ntima  e mais pessoal que pode
acontecer a uma criatura.  mais pessoal at que nascer. E no entanto um
cadver fica exposto  curiosidade geral. Qualquer vagabundo que  passa
pela rua pode entrar na casa morturia, bisbilhotar, ficar olhando
despudoradamente para a cara do defunto, que ali est de mos e ps
amarrados, completamente  indefeso...  como se uma pessoa depois de
morta casse em domnio pblico.
  Tio Bicho sorriu:
  - Viver em sociedade  estar tambm em domnio pblico. No h por onde
escapar, meu velho.
  Floriano agora caminhava dum lado para outro, como um animal enjaulado.
Tinha a impresso de ver seu crebro funcionar e doer. A opresso no
peito continuava.
  - E que cenrio pomposo o Pitombo armou na sala! Foi o grande dia da sua
vida, a hora que ele estava esperando fazia anos... Espetculo de gala,
completo. E as flores,  Bandeira, as flores? Chegavam s toneladas,
iam-se acumulando ao redor do esquife, pelos cantos, por toda a parte...
Pareceu-me que eu ia ficar sepultado debaixo  daquelas coroas, buques,
ramos... Pensei vrias vezes em fugir, esconder-me... Mas qual! Tinha de
ficar no palco, representando o meu papel de herdeiro do trono,  ouvindo
frases convencionais, recebendo psames, palmadas nas costas e todos os
hlitos municipais... O calor aumentava e o cheiro das flores se
misturava com o  de suor humano. E l estava o espelho grande a duplicar
o velrio. E a sala a encher-se cada vez mais... Num certo momento sa
desesperado para o quintal, mas o  quintal tambm estava cheio de gente,
e a luz do sol agravou meu mal-estar e a dor que me partia o crnio. E
as pessoas que l estavam (em sua maioria gente que  eu no conhecia mas
que parecia saber quem eu era) me olhavam com uma curiosidade mrbida,
como se quisessem verifi-
  568
  car se eu estava de fato sofrendo, talvez estranhassem por no me verem
chorar...
  - Ests exagerando, rapaz. Mas se o desabafo te faz bem, continua!
  - Bem? Sei l! Sinto que estou me portando como um idiota. Talvez esta
seja a minha maneira de chorar... Conservo um resto de juzo crtico
suficiente para ver que  as coisas que estou dizendo agora so
generalizaes, exageros, quase caricaturas da realidade... mas no
posso deixar de diz-las. Sei que amanh vou me rir deste...  deste meu
ataque histrico.
  Parou junto da janela, de costas para o amigo, e continuou:
  - O dr. Terncio me perguntou hoje de manh se eu tinha alguma objeo a
que ele fizesse um discurso no cemitrio. Respondi que tinha, que
preferia que ningum falasse.  No sei se fiz bem ou mal. S sei que
fiz, e no me arrependo.
  - Tenho a certeza de que teu pai no gostaria de ser saudado e
"despedido" por aquela flor do reacionarismo indgena, com quem ele no
simpatizava muito e que no  fundo tambm no simpatizava com ele.
  - No entanto, quando parecia que o sepultamento ia se processar com
decncia e discrio, surge a besta do Amintas, plido, trmulo, com um
calhamao na mo, e nos  gagueja aquele discurso enorme, cheio de
lugares-comuns, exageros e insinceridades.
  Floriano sentou-se na cama, plantou os cotovelos nos joelhos, apoiou o
queixo nas mos em concha e ali ficou a olhar para o soalho, em
silncio, como que de sbito  esquecido da presena do outro.
  - Desde menino - disse tio Bicho - tens um horror doentio a velrios e
enterros. Curioso! Raro  o romance teu em que no aparea um enterro ou
um velrio... ou  ambos.  uma espcie de marca registrada do autor. No
notaste isso?
  - Claro que notei. E me critico por no evitar essas repeties
obsessivas.  que as cenas se impem com uma tamanha fora de verdade e
necessidade, que no as consigo  eliminar.
  569
  - Tua preocupao com os aspectos, digamos assim, exteriores e formais
da morte talvez seja um meio inconsciente que usas para desviar o
esprito do sentido mais  profundo e terrvel do no-ser.
  - Achas?
  - Desconfio...  a idia mgica de que, se no houvesse todo esse
cerimonial macabro, o terror da morte perderia o seu ferro... Mais duma
vez, tu te lembras, conclumos  que o fim ideal para o homem seria
desintegrar-se, pulverizar-se de repente no ar... O vento se
encarregaria do resto.  evidente que falvamos do ponto de vista  dos
vivos. Porque para o defunto pouco importa que o vistam de Santo Antnio
ou de palhao, que lhe dem exquias solenes  nossa moda convencional
ou que transformem  seu enterro num carnaval,  maneira dos pretos de
Nova Orleans. Estou convencido de que os mortos no tm nada" a ver com
a morte. A morte  assunto exclusivo dos  vivos.
  Floriano ouvia no apenas a voz do amigo, mas tambm o surdo pulsar de
seu prprio sangue nas fontes. Tio Bicho chupou forte o cigarro, numa
tragada profunda que  lhe provocou um convulsivo acesso de tosse.
Ergueu-se e ficou a andar dum lado para outro, encurvado, aflito,
apopltico. Quando o acesso passou, tornou a sentar-se  na cama,
ofegante, com lgrimas a escorrer-lhe dos olhos.
  - Tenho a impresso - disse Floriano - de que este foi o dia mais longo
de toda a minha vida... No entanto, de vez em quando me parece que tudo
se passou depressa  demais. Um homem chamado Rodrigo Cambar, uma
conscincia, uma presena, um feixe de nervos, de desejos, paixes,
lembranas... de repente cessa de existir... Seu  quarto fica vazio.
Restam suas roupas, os objetos que lhe pertenceram, as cartas que
escreveu... e a lembrana de sua imagem, sua voz, seu jeito de ser, de
amar,  de odiar, de falar, de tratar as outras pessoas... de am-las, de
mago-las, de faz-las felizes... Sim, e os retratos. E mais a idia que
os parentes e amigos guardam  dele na memria. Mas se compararmos os
depoimentos de dez pessoas sobre Rodrigo Cambar, veremos que haver
entre eles grandes e pequenas discrepncias, pois cada  qual ter
sentido
  570
  e interpretado esse homem  sua maneira. E ns ficaremos sem saber ao
certo qual foi o verdadeiro Rodrigo...
  - Diz o Zeca que esse s Deus conhece. Mas me parece que o que te
importa a ti  a tua lembrana de teu pai. E no te esqueas de que
tiveste tempo de fazer as pazes  com ele. Poucos homens podem gabar-se
de proeza igual.
  Tio Bicho pousou a mo no ombro do amigo e ajuntou:
  - Acho que agora j comeaste a te sentir como se fosses o teu prprio
pai...
  - Sim, e portanto o meu prprio filho. S queria saber se sou melhor pai
do que filho.
  - Isso no tem a menor importncia.
  Vinha da cozinha um cheiro de bife encebolado. Como podia algum ter
vontade de comer! - refletiu Floriano. Mas tio Bicho evidentemente
pensava o contrrio, porque  disse:
  - Espero que no me consideres grosseiro ou irreverente se eu te
confessar que estou com uma fome braba... - Ergueu-se. - Vou te deixar.
Sabes do que  que ests  precisando?  de aliviar esse peito. Chora,
rapaz. Mas chora de verdade, chora grande, bota pra fora essas lgrimas
antigas que esto estagnadas dentro de ti, produzindo  mosquitos e
febres. E chora tambm lgrimas novas. Se conseguires chorar sem te
envergonhares disso, ters dado mais um passo (e muito largo) no caminho
da tua completa  humanizao. Tu te criaste ouvindo dizer que homem no
chora. Besteira. S chora quem  homem de verdade. Solta esse pranto.
At amanh.
  Era j noite fechada quando Floriano saiu a andar pela casa deserta. A
mesa do jantar estava posta, mas os outros membros da famlia
continuavam recolhidos a seus  quartos, como que temerosos de se
encontrarem uns com os outros.
  Floriano ouviu um ruido vindo da cozinha e encaminhou-se para l,
imaginando j o que fosse. Parou  porta e olhou em torno da pea
mal-iluminada. Divisou a um canto,  junto do fogo ainda aceso, o vulto
de Laurinda. A velha estava sentada num mocho, muito encolhida, chorando
de mansinho. Ouvindo os passos de
  571
  Floriano ergueu os olhos, e um sbito espanto contraiu-lhe o rosto
enrugado, fazendo-a piscar, como que ofuscada.
  - Credo! - murmurou. - At pensei que fosse o finado
  Rodrigo...
  Floriano aproximou-se dela, ajoelhou-se, abraou-a ternamente e de
sbito rompeu a chorar um choro solto e convulsivo enquanto a velha
criada acariciava-lhe a cabea,  resmungando palavras de consolo com sua
voz spera e noturna.
  Minutos depois Floriano voltou para o quarto. Sentia-se aliviado, leve,
renascido. Despiu-se, estendeu-se na cama e dormiu imediatamente um sono
profundo e sem sonhos.
  Dois dias depois Bibi Cambar e o marido chegaram a Santa F. Ela desceu
do avio vestida de branco, os olhos protegidos por culos escuros, o
rosto pesadamente  maquilado.
  A presena de Marcos Sandoval criou a princpio uma certa atmosfera de
mal-estar no Sobrado. Mas por ocasio da missa de stimo dia o
"simptico cafajeste de Copacabana"  - como lhe chamava cordialmente o
Neco Rosa - portou-se como se fora o primognito de Rodrigo Cambar.
Metido numa roupa de alpaca azul-marinho muito bem cortada,  uma prola
na gravata preta de malha, recebeu, correto e compenetrado, os psames
de centenas de pessoas. Para cada uma tinha palavras de simpatia e
gratido, que  pronunciava com seu jeito afetuoso, dando aos que o
cumprimentavam pela primeira vez a impresso de ser um velho amigo.
Durante toda a cerimnia ficou ao lado de  Flora Cambar, solcito, e
saiu da igreja de brao dado com ela, causando a melhor das impresses,
principalmente numas senhoras de meia-idade, que murmuravam: "Que
simpatia de moo! To bem-educado. Logo se v que  de cidade grande".
  Durante aqueles dias Marcos Sandoval foi por assim dizer a alma da casa.
Andava dum lado para outro, atencioso para com todos. Trazia no bolso e
mostrava a toda  a gente, orgulhoso, o expressivo telegrama de
condolncias que Getlio Vargas passara  viva e aos filhos de Rodrigo
Cambar. Foi ele quem primeiro se lembrou de  mandar imprimir cartes de
agradecimento em nome
  da famlia s pessoas que haviam comparecido ao funeral. Foi
pessoalmente  redao da Voz da Serra no s para agradecer de viva
voz ao Amintas Camacho pelo belo  necrolgio que seu jornal publicara na
primeira pgina, com clich, como tambm para encomendar a impresso dos
cartes, cujo texto ele mesmo redigiu.
   hora das refeies era Sandoval quem procurava animar a conversa.
Jango mirava-o de soslaio, com olho ainda desconfiado, mas evidentemente
j menos hostil.
  No dia 31 de dezembro Slvia e o marido foram para o Angico. Floriano
tratou de passar o dia fora de casa, para no ter de se
  despedir da cunhada.
  Flora e Maria Valria ficaram enfrentando, impvidas, as visitas de
psames, interminavelmente longas. Bibi recusava-se a aparecer na sala
nessas ocasies, mas l  estava Marcos Sandoval para salvar a situao,
facilitar os dilogos, pr todo o mundo  vontade.
  19
  Cerca das dez horas daquela noite de Ano-Bom, Floriano, Bandeira e irmo
Torbio estavam sentados no banco debaixo da
  figueira da praa.
  - No posso mais olhar para esta rvore sem me lembrar do
  pobre do Stein - disse o primeiro.
  - De acordo com um velho almanaque local - informou Zeca -, desde a
fundao da cidade at 1912, pelo menos sete pessoas se enforcaram nesta
figueira.
  Tio Bicho ergueu os olhos:
  - Pois s vezes fico pensando se a soluo para meus problemas fsicos e
metafsicos no estar numa corda de poo e num
  desses galhos...
  - Nem diga isso! - protestou o marista.
  O outro soltou uma risada:
  - Estou brincando. Lutarei at o fim. Contra a bronquite, contra a
insuficincia cardaca e contra o Angst. Trs contra um.  uma luta
desigual mas eu a aceito com  gosto.
  573
  572
  - Vamos caminhar um pouco - props Floriano.
  Os outros aprovaram a idia. Atravessaram a praa lentamente. Floriano
contou o incidente desagradvel ocorrido no Sobrado aquela manh. Depois
de muitos rodeios,  em que usara toda sua lbia, Sandoval tocara no
assunto melindroso de inventrio. Achava que se devia tratar dele sem
tardana, pois Bibi estava ansiosa por voltar  para o Rio. Jango fechou
a cara, mas Eduardo declarou: "Acho bom mesmo resolver logo esse
negcio, porque eu tenho c os meus planos".
  - Trs das quatro mulheres presentes a esse conselho de famlia - disse
Floriano - mantiveram um silncio digno. Bibi naturalmente apoiou o
marido em toda a linha.  Eu me desinteressei do assunto, confesso que
encabulado... Fiquei pensando em outras coisas e, quando dei acordo de
mim, estava travada uma discusso violenta entre  o Eduardo e o Jango...
  - Imagino o que possa ter sido - murmurou Bandeira.
  - O pomo da discrdia naturalmente foi o Angico. O Jango props arrendar
a parte do campo que vai caber a cada herdeiro, para que as coisas na
estncia possam continuar  como esto. Mas o Eduardo no concordou: "A
minha eu no arrendo. Vou transform-la numa granja coletiva-piloto". O
Jango saltou como um tigre. "Ests louco? Dividir  a nossa terra? 
ridculo! Que  que tu entendes de granjas e estncias?" A coisa se
esquentou de tal maneira, que l pelas tantas eu me levantei e gritei:
"Calem  a boca! Respeitem ao menos as mulheres. Discutam isso com bom
senso e no como dois idiotas!" Eu mesmo me admirei depois de meu
rompante autoritrio. Naquele momento  senti que eu era o velho Rodrigo
Cambar, o chefe do cl. Para encurtar a histria, o Eduardo e o Jango
baixaram a crista.
  Bandeira soltou uma risada.
  - E depois? -- perguntou.
  - A discusso terminou a. Quando os outros se retiraram do escritrio,
a Dinda me disse: "Que vergonha! No esperaram nem que o cadver do pai
esfriasse..."
  Tio Bicho segurou o brao de Floriano:
  574
  - Olha, na minha opinio o dinheiro provoca nas pessoas as reaes mais
variadas entre as quais vejo duas, antagnicas, que me parecem
igualmente absurdas. A primeira   a do avarento, que adora o dinheiro
pelo dinheiro, como um fim em si mesmo. A outra  a do homem que tem
vergonha de falar em dinheiro e de reconhecer que precisa  dele. So
ambas reaes patolgicas. Tu pertences ao segundo tipo, Floriano. Vives
acautelando os outros contra o perigo de os smbolos passarem a ter uma
importncia  maior que as coisas que representam, e no entanto no
conseguiste te libertar ainda do sortilgio desse supersmbolo. Ds ao
dinheiro um valor moral que ele no  tem. Um inventrio, meu velho, 
uma imposio da lei. Tratar dele hoje no  mais nem menos decente que
tratar dele amanh ou depois. O dinheiro  um instrumento  de troca, e
uma necessidade inescapvel dentro do sistema econmico em que vivemos.
Am-lo ou odi-lo, vener-lo ou envergonhar-se dele so a meu ver
reaes neurticas...
  Havia alguns minutos que os trs amigos desciam pela rua do Comrcio,
cujas caladas estavam cheias de homens e mulheres aos quais a
expectativa do Ano-Novo parecia  dar uma animao um tanto nervosa. Na
maioria das casas as janelas estavam abertas e iluminadas, e de dentro
de muitas delas vinha a msica de rdios ou eletrolas.  Carros passavam
levando pessoas que iam para o baile do Comercial, de cujo edifcio os
trs amigos cada vez se aproximavam mais. As danas no haviam ainda
comeado,  mas uma orquestra de nome, vinda de Porto Alegre
especialmente para o rveillon, estava j tocando no grande salo.
Floriano fez meno de atravessar a rua, para  no passar sob as janelas
do clube, mas tio Bicho deteve-o:
  - Espera. Acho que posso te proporcionar uma lio viva de sociologia.
  Postaram-se os trs num desvo da parede do edifcio, a poucos passos da
entrada que uma possante lmpada eltrica iluminava. Famlias chegavam,
desembarcando de  automveis. Os homens trajavam smokings. as mulheres,
compridos vestidos de gala. Um Cadillac de modelo antigo (ainda movido a
gasognio) parou junto do meio-fio  da calada, e de dentro dele
desceram primeiro um
  575
  homem alto e magro, seguido duma senhora corpulenta apertada num vistoso
vestido de lam dourado, Com uma orqudea artificial sobre os peitos
matriarcais. Emanava-se  do casal um perfume de Mitsouko.
  -  o Morandini, o novo presidente do Comercial que toma posse hoje -
murmurou o Bandeira ao ouvido de Floriano. - O pai era um verdadeiro
napolitano analfabeto.  O filho no tem muitas luzes, mas  um bom
sujeito, e muito ativo. Ah! Olha s quem est ali na porta...
  Floriano olhou. Era o Quica Ventura.
  - Ests vendo? Nesta noite em que todo o mundo que vem ao clube enverga
suas roupas de gala, o Quica est de culotes, botas e chapu na cabea.
 decerto o seu jeito  de afirmar-se e de protestar nem ele mesmo sabe
contra quem ou contra qu... Protesto pelo amor do protesto. - Apertou o
brao do amigo. - Presta agora ateno naquele  grupo...
  Homens e mulheres desciam dum Chevrolet.
  - Ests vendo a moreninha peituda? A de azul...  filha dum srio, dono
duma loja de sedas, com a filha do Arrigo Cervi, o da sapataria. O rapaz
louro que est segurando  o brao dela  um dos quinze ou vinte netos do
velho Spielvogel. Recm-casadinhos. V s que mistura: srio, italiano e
alemo.  o Rio Grande novo, "o Rio Grande  agringalhado" que tanto
assusta e contrista o nosso inefvel dr. Terncio.
  Floriano sentia-se pouco  vontade ali naquela espcie de tocaia,
temendo ser reconhecido.
  - Vamos andando... - convidou.
  Irmo Torbio, que at ento se mantivera entrincheirado atrs dos dois
amigos, tambm insistiu para que continuassem a marcha. A orquestra
naquele momento tocava  o samba que na opinio dos entendidos ia ser o
maior sucesso do prximo carnaval.
  - Um momento! - disse tio Bicho. - Olhem a tropilha que est descendo
daquele outro carro...  o Nathan Grinberg e sua tribo. Acompanhei a
marcha desse judeu dum  ferro-velho da rua do Imprio para a melhor casa
de roupas feitas da rua do Comrcio... duma meia-gua miservel do nosso
gueto para um
  576
  palacete na praa Ipiranga. H vinte e. poucos anos o Nathan vendia
gravatas e quinquilharias de porta em porta... Hoje  scio do
Comercial. - Soltou uma risadinha.  - Quem foi que contou a vocs que eu
s me interesso por peixes? Mas vamos andando, se preferem...
  Um Fiat de modelo antigo passou de tolda arriada, muito perto da
calada.
  - Que figuro! - exclamou tio Bicho.
  Floriano vislumbrou no banco traseiro do carro italiano um homem que
aparentava menos de quarenta anos, a cara morena e carnuda, o queixo
voluntarioso, cabelos lisos  e negros, lustrosos de brilhantina.
  - Quem ?
  -  o homem do momento - respondeu Bandeira. - O Tecrito Pinto Pereira,
mais conhecido como o Pereiro. - O pai comeou a vida como pio de
estncia, fez fortuna  e acabou proprietrio de quinze lguas de campo
bem povoadas. O Pereiro fez um curso de capatazia rural. Dizem que est
introduzindo mtodos modernos na estncia,  e que vai fazer experincias
com inseminao artificial.  um plo-duro legtimo, simptico e
vivaracho. Falei com ele umas duas ou trs vezes. Esse caboclo sabe  o
que quer. Tem ambies polticas,  trabalhista e ainda acaba deputado,
aposto o que quiserem...
  A msica da orquestra ainda chegava aos ouvidos dos trs amigos, que
agora se acercavam da praa Ipiranga.
  - Se fosse noutra poca - refletiu irmo Torbio em voz alta -, esse
baile teria sido transferido por causa da morte do dr. Rodrigo...
  - Ora, a gente compreende... - disse tio Bicho. - Os tempos mudaram. As
geraes novas nem sabem direito quem foi Rodrigo Cambar. E se eu
disser agora sic transit  gloria mundi, vocs tm todo o direito de me
bater na cara.
  Pararam a uma esquina. Bandeira continuou:
  - No entanto no h recanto desta cidade, Floriano, que no me lembre de
teu pai. O calamento destas ruas foi ele quem mandou fazer... E a rede
de esgotos... E  dezenas, centenas de outros
  577
  melhoramentos... Numa destas esquinas o dr. Rodrigo se atracou com um
guarda municipal que estava espancando um pobre homem. Foi uma quixotada
bonita. E parece que  a coisa aconteceu numa noite de Ano-Bom... Mais
tarde, na frente da Confeitaria Schnitzler, teu velho deixou sem
sentidos um bandido que o Madruga tinha mandado  buscar para "dar um
susto no mocinho do Sobrado". Esto vendo aquela casa? Sim, a amarela...
Pois uma noite eu vi, no me contaram, vi com estes olhos, o dr. Rodrigo
pular uma das janelas para ir dormir com a mulher do promotor. - Soltou
uma risada. - E no foi essa a nica janela que o nosso heri pulou, nem
a nica mulher que  ele fez feliz... Houve muitas outras, centenas, sei
l quantas! Muitas vezes eu o vi descer esta rua ostentando suas belas
fatiotas e gravatas, todo perfumado, provocando  o olhar enamorado das
fmeas e admirao (em muitos casos invejosa) dos machos. E, digam o que
disserem, o dr. Rodrigo teve gestos...
  Apontou para a casa de negcio cujo nome se lia no letreiro de nenio
que, num apaga-e-acende bicolor, corria ao longo da parede, logo abaixo
da platibanda.
  - Foi ele quem salvou o Kunz da falncia. Foi ele quem deu a mo ao
Lunardi. Botou fora uma fortuna ajudando os outros. Sim, e foi ele
tambm quem derrubou o imprio  do Madruga.
  Floriano admirava-se e ao mesmo tempo comovia-se ante aquele inesperado
assomo de entusiasmo do amigo. Retomaram a marcha. Bandeira tornou a
falar:
  - Aposto como hoje no clube no haver um nico homem que valha o dedo
mindinho de Rodrigo Cambar. Eu me lembro dos velhos tempos, quando nos
rvefllon; de 31 de  dezembro teu pai marcava a polonaise envergando um
belo smoking, com um cravo vermelho na lapela, e recendendo a
Chantecler. Pois, amigos, o canto desse galo fez  muitas vezes o sol
nascer sobre este burgo miservel!
  Floriano caminhava de cabea baixa, pensando no pai. Tio Bicho
segurou-lhe o brao.
  - Com o dr. Rodrigo no morre apenas um homem. Acaba-se uma estirpe.
Finda uma poca. O que vem por a no sei se
  578
  ser melhor ou pior... s sei que no ser o mesmo. Mas que teu pai era
um homem inteiro, Floriano, isso era. Que diabo! - Agarrou tambm o
brao do marista. - Quem  foi que inventou que somos anjos? Por que
havemos de nos envergonhar de nossa condio humana? Por que reprimimos
nossas paixes, abafamos os nossos desejos? Eu  no tolero santos,
desculpa que eu te diga, Zeca. Os santos cheiravam mal. E eram uns
chatos. Mas vamos tomar alguma coisa ali no Schnitzler, que por sinal
chorava  como um bezerro desmamado no enterro do dr. Rodrigo...
  Desistiram, porm, da idia porque a confeitaria estava atopetada de
gente e o barulho l dentro era insuportvel. Retomaram caminho.
  - Zeca! - exclamou Bandeira. - Perdeste a lngua? O irmo sorriu.
  - No. Estou pensando...
  Tio Bicho voltou-se para Floriano:
  - Sabes duma coisa? Eu te invejo, palavra...
  - Ora, por qu?
  - Primeiro porque tens vinte anos menos que eu. Depois porque escreves
romances. Sou muito ruim nessas coisas que dependem de sensibilidade e
imaginao. Mas tu,  rapaz, tu agora podes trazer teu pai de volta 
vida no teu livro, e sei que vais fazer isso. No s teu pai, mas muita
gente que viveu ao redor dele e antes dele...  E se agentas mais um
conselho deste teu amigo filosofante, impertinente e meio pedante: nunca
uses a arte como um cavalo de asas para, montado nele, fugires da  vida.
Usa-a antes como uma capa vermelha para atrair o touro. O essencial,
como te tenho dito tantas vezes,  agarrar o bicho a unha. Podes evocar
toda uma poca...  mostrar o que fomos, o que somos, o que fizemos,
sofremos, sonhamos... Mas perde esse teu medo s pessoas e s
palavras... E faz o que teu pai te aconselhou no fim  da grande conversa
que vocs dois tiveram. De vez em quando solta o Cambar!
  Pararam de novo, dessa vez  esquina da praa.
  - Acho que hoje vou chafurdar um pouco - tornou tio Bicho. - Com o
perdo aqui do Zeca, convidei uma distinta prostituta desta praa para
ir  minha casa. Festejaremos  a entrada
  579
  do Ano-Novo na cama. Beberemos juntos uma garrafa de champanha francs.
Faremos o amor no escuro, para que a moa no veja esta cara de
batrquio. Depois lhe pagarei  o dobro do preo de tabela por ter
dormido com o homem mais feio de Santa F e arredores. Bom. Aqui nos
despedimos. Est chegando a hora do meu encontro. E mesmo  eu no
poderia acompanhar vocs de volta  praa da Matriz, porque estou com os
cascos em petio de misria. Boa noite, meninos. E feliz Ano-Novo!
  Floriano e Zeca voltaram sobre seus prprios passos, lado a lado.
  - Achas que o Bandeira acredita mesmo nas coisas que diz? - perguntou
irmo Torbio, depois dum silncio que durou quase uma quadra inteira. -
Ou ser que s quer  nos escandalizar?
  Floriano encolheu os ombros:
  - Esse gordo no sabe como vou sentir falta dele...
  - E no tem a menor idia do bem que lhe quero.  engraado, s vezes
ele me lembra um pouco o meu pai.
  Quando atravessavam a praa da Matriz, na direo do Sobrado, um
vaga-lume lucilava na ponta do nariz do busto de dona Revocata Assuno,
que parecia olhar duramente  para a herma do cabo Lauro Car. Duma das
casas vizinhas, cujas janelas estavam abertas e iluminadas, vinha a
msica dum piano, de mistura com alegres vozes juvenis.
  Os dois amigos pararam no centro do redondel e ficaram por algum tempo a
olhar para as estrelas.
  - E tua me? - perguntou o marista. O outro compreendeu a extenso da
pergunta.
  - Tivemos hoje uma longa conversa. Muito discretamente, como  de seu
feitio, e at com uma pontinha de encabulamento, ela me perguntou se no
seria muito sacrifcio  para mim viver em sua companhia. Prometeu no
ser uma carga pesada, no se meter na minha vida, dar-me, enfim, toda a
liberdade... Disse que seria um absurdo eu  ir viver noutra parte,
quando temos no Rio um apartamento to grande e confortvel...
  - Que foi que respondeste?
  580
  - A princpio confesso que fiquei vagamente alarmado. Parecia que ela
estava, mesmo sem saber, tentando me prender de novo pelo cordo
umbilical. Mas depois me ocorreu  uma idia que ao primeiro exame pode
parecer absurda, mas que sinceramente acho engenhosa.
  Calou-se. O outro esperava, apalpando o crucifixo.
  - Respondi que estava claro que ela podia contar comigo, mas que
tnhamos primeiro de fazer um contrato. Ela me olhou, intrigada.
Contrato? Declarei que ficava estabelecido  que daquela data em diante
ela no seria mais minha me, mas minha filha...
  - No te entendo...
  - Ela tambm no entendeu. Tentei explicar... mas no foi fcil.  uma
situao muito sutil.  primeira vista parece apenas um truque
semntico... mas se eu conseguir  criar um ambiente em que na realidade
eu me possa sentir com responsabilidades de pai para com dona Flora e
ela apenas com responsabilidades de filha para comigo,  estou certo de
que nossas relaes sero quase perfeitas...
  Ficaram ambos olhando para o Sobrado, em silncio.
  - Quando  que vocs voltam para o Rio?
  - No tenho idia. Talvez dentro duma semana, no mximo.
  - No quero perder contato contigo. Posso te escrever de vez em quando?
  - Mas claro, homem!
  - Est bom. Eu me recrimino por no ter conversado contigo mais
freqentemente sobre questes de f. Tu sabes, sou um homem tmido,
tenho horror de me meter na vida  dos outros. Mas agora estou resolvido
a seguir teus passos como um co, lamber tuas mos, te perseguir com
meus latidos. Podes me atirar pedras e dar pontaps, mas  eu voltarei.
Sim, como um cachorro fiel - acrescentou, srio e quase triste -, o
vira-lata de Deus.
  Floriano sorriu.
  - Sempre tive uma ternura particular pelos vira-latas. Novo silncio.
  - Voltas nas frias do vero que vem? - indagou o marisca.
  - No creio.
  581
  - Que  que vais fazer agora?
  - Primeiro trabalhar nesse livro de que te falei o outro dia. Espero que
o simples ato de escrev-lo seja uma catarse... Depois, continuar a
dana com mscaras at  encontrar minha face verdadeira. No me
angustiar demais com minhas imperfeies e contradies e procurar, na
medida de minhas possibilidades, mas sempre cum grano  salis, construir
pontes de comunicao entre as ilhas do arquiplago... Bom, e esperar
que um dia me seja dada a graa de poder amar, mas amar de verdade, com
esse  amor que nos permite tocar o corao mesmo da vida...
  - Pois eu vou continuar rezando por ti. Ests mais perto de Deus do que
imaginas. No sei se por orgulho, preguia ou medo de crer, ergueste
entre tua alma e o Criador  uma parede feita de livros e preconceitos.
Mas  uma parede to frgil que qualquer dia os ventos da vida vo
derrub-la...
  - Por que Deus no sopra esse vento hoje, agora?
  O marista ficou por alguns segundos calado e pensativo.
  - No sei. H momentos em que no entendo o Pai. Seus silncios me
desconcertam e assustam. A grande proeza do homem de f  manter sua
crena atravs de todos esses  silncios que para muitos podem s vezes
significar a morte de Deus.
  - Zeca, ento vocs tambm duvidam?
  - A dvida, como tenho repetido tantas vezes  Slvia,  um dos
ingredientes da f. Quando eu era menino e via a Dinda fazer seus bolos,
ficava intrigado por ver  que eles levavam tambm uma pitada de
bicarbonato... - Sorriu. - Pois, mal comparando, a dvida  o
bicarbonato no bolo da f.
  Continuaram a andar rumo do Sobrado. Pararam finalmente na calada
fronteira.
  - Zeca, vou te fazer um pedido. Olha pela Slvia.
  A luz dum combustor caa em cheio no rosto do marista, e Floriano
percebeu que seu pedido deixava o outro perturbado.
  - Acho que ela necessita da amizade duma pessoa como tu... -
acrescentou.
  - Fica descansado. Agora a Slvia no precisa mais de mim. Sua solido
terminou. Ela encontrou Deus. E vai ter um filho...
  582
  ada.
  "Tu talvez precises dela..." - pensou Floriano. Mas no disse
  L.
  Separaram-se com um aperto de mo.
  20
  s nove horas daquela noite de Ano-Bom, algumas moas reuniram-se no
palacete dos Teixeiras para eleger a nova diretoria do Clube das Fs de
Frank Sinatra, que devia  tomar posse solene "ao raiar esperanoso de
1946", numa das salas do Comercial. O dirio local durante a semana dera
amplo e entusistico noticirio a respeito.
  No Purgatrio e no Barro Preto (zonas que a reportagem de A Voz da Serra
no cobria) naquela mesma noite muitas crianas choraram de fome e trs
morreram de infeco  intestinal. Um maloqueiro assassinou a mulher com
quem vivia. Uma viva solitria fugiu com um guarda-freios da Viao
Frrea, casado e pai de cinco filhos. E na  Penso Veneza uma prostituta
que estava na vida, mas sem vocao, havia apenas uma semana,
suicidou-se tomando veneno de rato.
  Na casa dum operrio da firma Spielvogel & Filhos, na rua das Misses,
Eduardo Cambar confabulava com um grupo de camaradas, entre os quais se
encontrava um neto  do coronel Cacique Fagundes recm-inscrito no
Partido Comunista. Era um rapaz de tipo inditico, de pouco mais de
vinte anos. Aquela reunio, que tinha todo o ar  duma conspirao,
deixava-o excitado.
  Fazia calor. A mulher do operrio serviu guarans. Eduardo tirou o
casaco, deixando  mostra o punhal que, como de hbito, trazia preso 
cinta. O jovem Fagundes  pediu para ver a arma. Revolveu-a nas mos,
olhou o lavor do cabo de prata, passou os dedos pela lmina e por fim
perguntou se aquele era o famoso punhal que, segundo  rezava a tradio,
estava com a famlia Terra-Cambar havia quase duzentos anos. Eduardo
deu-lhe uma 
  583
  resposta breve e distrada. Estava examinando com interesse uma lista de
nomes de pessoas da cidade e do municpio que simpatizavam com a causa
do comunismo e que,  dum modo ou de outro, poderiam ajud-la. Por fim,
reclinando-se contra o respaldo da cadeira, disse:
  - Bom, precisamos estar preparados para o que vem por a. Estou
convencido de que o novo governo vai pr o Partido fora da lei.
  O neto de Cacique Fagundes, que tinha ainda na mo o punhal, escutava-o
fascinado, com uma expresso febril nos olhos oblquos.
  Foi tambm naquela noite que Lao Madruga, que estava gravemente
enfermo, havia semanas, teve um padre  sua cabeceira, confessou-se,
arrependeu-se de seus pecados,  comungou e morreu antes do amanhecer, em
paz com Deus e a Igreja.
  O velho relgio de parede que pertencera ao senhor baro batia dez horas
quando Mariquinhas Matos terminou de vestir o vestido de rendo preto
que mandara fazer  especialmente para o rveillon de 1928, nos bons
tempos em que ainda freqentava o Comercial. Ficou depois mais de meia
hora diante do espelho a pintar-se, ensaiando  de quando em quando o seu
sorriso de Mona Lisa. Terminada a operao sentou-se a urna mesa e
ps-se a folhear nostalgicamente velhas revistas. Tinha a coleo
completa  do FonFon e da Revista da Semana desde 1919. Quando o relgio
tornou a bater a hora, a Gioconda ergueu-se e enCaminhou-se para o piano
com um aprumo de concertista  que entra no palco, diante dum grande
pblico. Ajustou o banco giratrio, sentou-se, estralou as juntas e
comeou a tocar um noturno de Chopin, mas com hesitaes  e muitas notas
em falso. O gato preto saltou para cima da tampa do piano e ali ficou a
mir-la. O gato fulvo enroscou-se nas suas pernas. O cinzento ficou
indiferente  a um canto sombrio da sala, onde suas pupilas verdes
fuzilavam De repente a Gioconda cessou de tocar. Os dedos no obedeciam
ao comando do crebro. A memria a  atraioava. O piano estava
desafinado, soava como
  584
  um tacho, e algumas de suas teclas haviam perdido o marfim. Houve um
momento em que, sentindo o vcuo de sua solido, Mariquinhas Matos
desatou a chorar. Longas  lgrimas negras de bistre escorreram-lhe pelas
faces mal pintadas de bruxa de pano.
  No muito longe dali, quela mesma hora, Jos Lrio sentado na cama na
quietude de seu quarto lutava com a asma, ronronando como um gato velho
e cansado. Seus olhos  passearam em torno, demoraram-se um instante no
retrato do conselheiro Gaspar Martins que pendia da parede. At mesmo
atravs da gravura amarelada pelo tempo podia-se  sentir a fora
magntica do olhar daquele tit com barbas de profeta. Depois Liroca
lanou um olhar afetuoso para a velha Comblain que pendia de outra
parede - a  companheira fiel de 93 e 23. Por fim ficou a contemplar
ternamente o retrato de Rodrigo Cambar, que conservava  cabeceira da
cama, numa moldura de madeira. A dedicatria,  datada de setembro de
1924, dizia: Ao meu Liroca velho de guerra, esta lembrana do seu, de
todo o corao, Rodrigo Cambar.
  Jos Lrio apagou a luz, deitou-se, pensando no amigo, soltou um suspiro
e murmurou, comovido: "Eta mundo velho sem porteira!"
  Sozinho no seu quarto de solteiro, no fundo da barbearia, Neco Rosa no
tinha nenhuma vontade de ir para a cama e muito menos de sair para a
rua. Pegou o violo,  fez uns ponteies, lembrou-se de Rodrigo e das
serenatas de antigamente, sentiu um n na garganta, largou o violo em
cima da cama, acendeu um cigarro, debruou-se  na janela e ali ficou a
olhar a grande noite estrelada, a pitar e a pensar no amigo morto.
  Era a imagem desse mesmo amigo que Chico Paes tinha na mente quando,
aquela noite, tirou a sua primeira fornada de po. Lgrimas
rebentaram-lhe nos olhos e,  guisa  de consolo, ele se ps a comer um
po d'gua numa espcie de comunho com Rodrigo, Torbio, Licurgo e toda
aquela boa gente do Sobrado, que havia tanto tempo ele  servia e amava.
  585
  No terrao do Clube Comercial as mesas estavam todas tomadas. Homens e
mulheres bebiam e conversavam, em alegre algazarra, esperando o
Ano-Novo, que no tardaria,  enquanto no salo as danas animavam-se
cada vez mais.
  A uma das mesas o Pereiro, centro de todas as atenes, pagava
champanha para alguns amigos. Em certo momento, dando j  voz um tom de
comcio poltico, exclamou:  "Escrevam todos o que vou dizer! O prximo
prefeito de Santa F vai ser aqui o degas das macegas. Vocs vo ver
como se d uma injeo de leo canforado numa cidade  morta. Precisamos
trazer indstrias para c, atrair capitais para a nossa comuna! Santa F
tem um grande futuro, como o resto do Rio Grande. Mas precisamos
trabalhar.  Porque tudo depende de ns. Isso de viver se queixando que
as coisas andam mal  mania de brasileiro. Pois se andam mal ento vamos
fazer alguma coisa pra melhorar!  Votem em mim. -- Alteou a voz. - Sou
um filho da terra, um homem do povo!"
  Sentado  outra mesa, o Veiguinha da Casa Sol bebia a sua cerveja e
olhava para o Pereiro com ar cptico. A seu lado o Calgembrino do
Cinema Recreio, apertado num  smoking muito mal cortado e velho, tambm
escutava a demagogia do capataz rural.
  - Olha s essas caras, Calgembrino - murmurou o Veiguinha. - S gringos,
alemes, judeus, turcos... Onde est a gente antiga, gachos de boa
cepa? Os Macedos, os  Prates, os Cambars, os Amarais, os Fagundes... E
os Azevedos? E os Silveiras? Houve um tempo que este clube era uma
fortaleza. Barramos duas vezes a entrada dos  oficiais do Batalho da
Polcia Baiana. Duma feita um juiz de comarca assinou uma proposta pra
scio e levou bola preta. No era qualquer um que entrava neste clube.
Hoje...  isso que ests vendo aqui. Qualquer lheguelh com dinheiro no
bolso pra pagar a jia entra. Sabes duma coisa? Vou pedir demisso desta
joa!
  Naquele momento o Quica Ventura, de chapu na cabea e mos nos bolsos
das calas, assomou a uma das portas, lanou sobre o terrao um olhar
sobranceiro e at meio  provocador, e depois fez meia-volta e tornou a
desaparecer.
  586
  Pouco antes da meia-noite irmo Torbio entrou no seu quarto, no Colgio
Champagnat. Era um compartimento pequeno em que havia apenas uma cama de
ferro, uma mesa  de pinho com uma cadeira, uma estante cheia de livros e
uma velha cmoda.
  O marista acendeu a luz, fechou a porta, abriu a janela que dava para o
jardim e ali se quedou a contemplar a noite por alguns minutos. Em
vrios pontos da cidade  j estouravam tiros. Um foguete subiu no ar,
para as bandas da estao.
  Irmo Torbio despiu-se devagarinho, enfiou o pijama, entrou no quarto
de banho, escovou os dentes e tornou a voltar para o quarto de dormir.
Abriu uma das gavetas  da cmoda, tirou de entre sua roupa-branca um
instantneo em que Slvia aparecia sentada no banco do quintal do
Sobrado contra um fundo de flores de alamanda. Contemplou  o pequeno
retrato por alguns instantes e depois, num repente, rasgou-o em muitos
pedaos e lanou-os na cesta de papis.
  Ajoelhou-se ao p da cama e, como fazia todas as noites, rezou uma
orao em inteno  alma do pai. Depois pediu a Deus pelo descanso
eterno de Rodrigo Cambar,  orou pela converso de Floriano e Eduardo e
por fim suplicou  Virgem, com um fervor que lhe trouxe lgrimas aos
olhos, que o ajudasse a ser-lhe fiel at o fim.
  No escritrio do Sobrado, Bibi e Sandoval bebiam usque, num silncio
entediado.
  - Quando  que achas que podemos voltar para o Rio? - perguntou ela,
erguendo o copo contra a luz.
  Ele fez um gesto de incerteza.
  - No sei ainda, meu bem. Precisamos deixar essa histria do inventrio
encaminhada. Mais um pouco de gelo?
  - No.
  Ela bocejou. Sandoval olhou para o relgio-pulseira.
  - O remdio  a gente ir dormir... - disse, bocejando tambm.
  Foi tambm naquela noite que um bisneto de Alvarino Amaral - rapaz de
dezoito anos, plido, magro e de ar triste - fez o seu
  587
  primeiro poema. Tratava-se duma invocao  lua, luminosa Diana caadora
de estrelas com seu arco de ouro e mas flechas de prata. Ficou a andar
pela praa como um  sonmbulo, a repetir mentalmente os versos e a
pensar j na publicao dum livro. Tinha at o titulo: Querncia
iluminada.
  Ao passar pela frente do Sobrado, avistou um vulto parado a uma esquina
e reconheceu nele Floriano Cambar, cujos romances ele lia e admirava.
Veio-lhe ento um  alvoroado desejo de aproximar-se do escritor, dar-se
a conhecer, contar-lhe que gostava de literatura, pedir-lhe conselhos e,
se a tanto se atrevesse, mostrar-lhe o poema... Mas no teve coragem.
Passou de largo e se foi, rua em fora, embriagado pelo seu grande sonho.
  Floriano entrou em casa depois da meia-noite, quando j haviam cessado
nas ruas os rudos das comemoraes, e a noite se preparava para ser
madrugada. No silncio do casaro s ouviu o tique-taque do relgio de
pndulo e, vindo do andar superior, o surdo bater da cadeira de balano
de Maria Valria.
  "O Sobrado est vivo" - pensou, sorrindo. Entrou na sala de visitas,
acendeu uma das lmpadas menores e ficou por algum tempo a olhar
afetuosamente para o retrato de corpo inteiro do pai. Depois subiu para
a gua-furtada, acendeu a luz, fechou a porta e olhou em torno, como que
j a despedir-se daquele ambiente. Na vspera havia feito vrias
tentativas frustradas para iniciar o romance. Para ele o mais difcil
fora sempre comear, escrever o primeiro pargrafo. O papel l estava na
mquina, mas ainda completamente em branco.
  Tirou o casaco, aproximou-se da janela, sentou-se no peitoril e ali se
deixou ficar, como a pedir o conselho da noite. Viu o cata-vento da
torre da igreja, nitidamente recortado contra o cu, e pensou nas muitas
histrias que ouvira, desde menino, sobre a Revoluo de 93. Uma havia
segundo a qual, durante o cerco do Sobrado pelos federalistas, na noite
de So Joo de 1895, o Liroca tinha ficado atocaiado na torre da igreja,
pronto a atirar no primeiro republicano que sasse do casaro para
buscar gua ao poo. Por que no comear o romance com essa cena e nessa
noite?
  588
  Sentou-se  mquina, ficou por alguns segundos a olhar para o papel,
como que hipnotizado, e depois escreveu dum jato:
  Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade
de Santa F, que de to quieta e deserta parecia um cemitrio
abandonado.
  Praia de Torres (RS, Brasil) - Janeiro de 1958 Alexandria (Virgnia,
EUA) - Maro de 1962
  589
  O AUTOR E SUA OBRA
  Erico Verssimo desprezava os valores do gacho tpico: o machismo
obsessivo, o descaso pela msica, o gosto pelo jogo de cartas, ou o
saber desfrutar to bem de uma arma quanto de uma mulher. Do cdigo
gacho, herdou a franqueza, a lealdade, o empenho da palavra dada, o
arrojo das decises destemidas. E de dentro de sua  aparente timidez
erguia-se um grito de revolta quando sentia a liberdade, a dignidade do
ser humano ameaadas em qualquer sentido. Assim foi em 1940, quando da
aproximao  do Brasil com o nazismo, e em 1970, quando da instituio
da censura prvia no pas.
  Nascido em Cruz Alta, em 17 de dezembro de 1905, sentiu de perto a
decadncia de sua famlia, que se arruinou no comeo do sculo. Ainda
jovem, exerceu diversas  profisses, ajudante de comrcio, atendente de
farmcia e bancrio. A esse tempo foi atrado pelas obras melanclicas e
irnicas de Machado de Assis, Jonathan Swift  e Bernard Shaw.
  Em 1930, em razo da separao dos pais, por incompatibilidade de
gnios, deixa a regio agrcola das serras do Rio Grande do Sul e vai
para uma cidade grande, Porto  Alegre, onde conhece Augusto Meyer, o
grande nome do modernismo gacho, que o encaminha para o jornalismo
literrio. rico ento se destaca, firmando seu nome com  alguns contos
que reuniria, em 1932, na coletnea Fantoches, editada pela Globo, cuja
revista secretariava.
  Seus primeiros romances, Clarissa (1933) e Msica ao longe (1935), foram
escritos com grande sacrifcio, aos sbados e domingos, quando devia
descansar do estafante  trabalho dirio no escritrio da livraria e das
tradues noturnas. A esses se seguiram Olhai os lrios do campo (1938),
Saga (1940), O tempo e o vento (O continente,
  591
  1949; O retrato, 1951; O arquiplago, 1954); O ataque (1959), O senhor
embaixador (1965), Incidente em Antares (1970). Sua obra inclui ainda as
memrias de viagens, um sonho prometido e cumprido pelas vrias partes
do mundo: Gato preto em campo de neve (1941), A volta do gato preto
(1946), recordaes da sua ida aos Estados Unidos, Mxico, histria de
uma viagem (1967), Israel em abril (1969).
  rico Verssimo faleceu em 1975, s vsperas da publicao do segundo
volume de Solo de clarineta, seu livro de memrias, que traduz a vida de
um homem de inquestionveis coerncia e coragem pessoal.
  592
_
